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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

.: Manual Crônico, a volta de Thiago Sobral: Luz balão da noite


Porque o nosso passado se liga diretamente às chamas de uma fogueira.

Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no Substack. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.


Há gravetos e retalhos de madeira jogados ao chão. Há galhos e troncos cortados, fragmentos de uma vida que se esvaiu. E há olhos vivos que contemplam as chamas bruxuleando: fogueira doce, luz balão. Junho e julho já passaram e agora já podemos dizer "que saudade!". Não que o tempo tenha sido assim tão longo, mas ninguém aguenta ficar tanto sem festa. Um vinhozinho quente não faz mal a ninguém, muito menos um bolinho de fubá. E a fogueira?

Ela estava lá, no meio da rua. Troncos grossos, gravetos, madeira, tudo sendo consumido. Poucos olhos a alcançavam, ainda que o calor nos aquecesse a todos. Mas havia olhos que não desgrudavam das chamas. De tempos em tempos, mais lenha era colocada. Sem notar os olhos que a acompanhavam, titia sujava as mãos de cinzas e sentava diante das labaredas, como se buscasse o passado.

Porque o nosso passado se liga diretamente às chamas de uma fogueira. Meu avô nasceu em vinte e três de junho. Chamava-se João por gratidão ao santo homônimo que nasceu um dia depois. Ao longo da vida, ele uniu devoção à comemoração, e construiu fogueiras. A cada ano completado, uns centímetros a mais de labareda. A cada festa celebrada, mais a tradição se firmava. Por isso, titia contemplava a fogueira com olhos d’água.

Por isso, também, comemoramos o São João todos os anos. Dessa vez, foram duas festas. A primeira, de mamãe. Povo reunido, altar, flores, Ave-Marias e boca pra que te quero. O cantochão sanfonado, triangulado e zabumbado se arrastou por toda a noite. Em certo momento, o padre, no meio do salão, convocou os noivos. O casamento mais importante da História se deu, e a frase “se alguém é contra esse casamento, que fale agora ou se cale para sempre” foi dita novamente. E “caminho da roça”. Uma quadrilha improvisada arrebanhou os convidados que, persistentes, se arrastaram no “cestinho de flor / cadeirinha do amor” mais saboroso de todos.

Semanas depois, foi a festa de titia. Rua fechada, mesas e cadeiras no lugar dos carros, e olhos atentos ao vagar do tempo. Mesa repleta, caixa de som ecoando, quadrilha de improviso. As bocas não pararam, ora levando para dentro gostos e texturas, ora exalando vocábulos de um tempo que parece não mais existir. Mamãe e titia juntas se instalaram na infância distante. E, dessa vez, havia o fogo.

Um fogo primordial, que empresta à festa todo o seu colorido e o seu calor. Numa noite fria, as chamas nos lembraram que ainda é possível aquecer e aconchegar. Um fogo de origem, que forja no espírito o gosto pela festa e pela memória. A memória de vovô, que era evocada por titia sentada em sua cadeira, imersa no silêncio contemplativo das chamas que acabara de incitar.

Herança nossa, coletiva, espalhada entre os adultos e as crianças ali presentes. Lembrança de São João, e de vovô João, que nos ensinou o amor pela luz balão, agora, não a do sol, mas a da noite, que foi tecida sob nossos olhos, palavra por palavra, centelha da nossa doce fogueira.
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