sexta-feira, 1 de outubro de 2010

.: Entrevista com Marco Ricca, ator e diretor

“A dificuldade não foi em produzir, mas em arrumar dinheiro”. - Marco Ricca


Por: Ester Jacopetti, repórter convidada
Em outubro de 2010


Do megasucesso “Ti Ti Ti” para a direção de “Cabeça a Prêmio”: Ator, Marco Ricca fala sobre as dificuldades na produção do seu primeiro longa metragem, “Cabeça a Prêmio”. 


Dirigindo seu primeiro longa “Cabeça a Prêmio”, o ator Marco Ricca, sem papas na língua, diz que a maior dificuldade de se produzir um filme nacional, é a falta de patrocinadores. “Os caras dão o dinheiro na hora que eles querem! Campanha política, e o caralho, desviando pra outros lugares, eu to falando tudo isso aqui, você pode anotar tudo!” esbravejou o diretor, que perdeu editais em São Paulo após alguns diretores paulistas reclamarem que o filme seria 90% rodado fora da cidade. 

Ricca, que já dirigiu inúmeras peças de teatro, se aventura pela primeira vez no mundo do cinema. Já tem 20 anos de carreira, atuou em 30 peças e filmes, foi co-produtor de quatro longas e roteirista de “Crime Delicado” (dirigido por Beto Brant). Seu mais recente espetáculo, “A Grande Volta”, dirigido por ele, é encenado por Rodrigo Lombardi e Fulvio Stefanini. Ricca também faz parte do elenco de “Ti Ti Ti”, novela da rede Globo. 

Com roteiro de Felipe Braga e participação de Marco Ricca, “Cabeça a Prêmio” é baseado no livro de Marçal de Aquino, mesmo autor de “O Invasor” e “Matadores”. No elenco, estão: Alice Braga, Eduardo Moscovis, Fulvio Stefanini, Cássio Gabus Mendes, Otávio Miller, César Troncoso, Via Negromonte, e o uruguaio Daniel Hendler. 

Ao escolher essa história pra contar, enfatizou: “Eu costumo dizer que o livro já está praticamente roteirizado, só que ele é um filme muito grande. E um dos métodos era fazer com que essa obra, coubesse dentro do cinema nacional, de baixo orçamento, baixo recursos, e todas as possibilidades que o livro pede” argumenta.

A história acontece numa cidadezinha do centro-oeste brasileiro, próxima à divisa com a Bolívia. Dois irmãos pecuaristas, vividos por Fulvio e Otávio comandam uma fazenda de cabeças de gados e contrabando de drogas. Alice Braga interpreta Elaine, filha do “poderoso” Miro, personagem de Fulvio, que se envolve sorrateiramente com o piloto do patrão Denis, personagem de Daniel Hendler. 

Após a descoberta do romance, Miro manda seus fieis pistoleiros, personagens de Cássio Gabus Mendes e Eduardo Moscovis, irem atrás da filha e do piloto, que fogem. Em “Cabeça a Prêmio” as histórias se cruzam e tomam finais inesperados. Confira agora um bate papo super descontraído com ator e diretor, Marco Ricca que, durante a entrevista, mostrou simplicidade, simpatia e bom humor.



RESENHANDO - Como surgiu a ideia de fazer desse livro um filme?
MARCO RICCA – Tudo nasce da obra do Marçal, que é um estilo que eu gosto muito. A gente começou a adaptar e já tinha uma primeira adaptação feita pelo Felipe, então começou uma nova brincadeira, que surgiu da vontade de contar a historia da vida desses personagens. A história eu gosto muito. Costumo dizer que o livro “Cabeça a Prêmio” já está praticamente roteirizado, só que ele é um filme muito grande, um dos grandes métodos era fazer como que essa obra coubesse dentro do cinema nacional, ou seja, com baixo orçamento, baixos recursos, e todas as possibilidades que o livro pede, inclusive a locação de lugares. 


RESENHANDO – O que mais o fascina nesta obra?
MR – O que mais me fascina nesse livro é que os personagens são grandiosos, dão margens a você verticalizá-los ainda mais, e possibilidade de ter vários atores em particular fazendo grandes trabalhos. Eu acho que é um filme de personagens para atores.


RESENHANDO - Quais foram as maiores dificuldades você sentiu?
MR – Não foi em produzir, mas, em “arrumar” dinheiro. Essa é única dificuldade do cinema nacional, o resto é lindo! E a viagem mais linda da minha vida foi fazer esse filme, tirando a parte de produção, arrumar dinheiro, etc.. Essa é a parte pior, e agora tem também a segunda, que é exibir, que também é difícil pra burro. Tirando esses dois, o resto é uma maravilha, nós nos debruçamos no roteiro, é um momento lindo, a gente cria, imagina, flerta, depois vai, faz viagens, leva a equipe de arte, fotografia, foi tudo lindo, com os meus amigos, uma delícia! A dificuldade é aguentar o fardo de estar longe de casa, mas isso não é necessariamente uma dificuldade, nos divertimos muito, por mais que estivéssemos contando uma tragédia familiar, foi um filme que corresponde pra mim o momento mais feliz da minha vida.


RESENHANDO - Você chegou pensar em participar do elenco? 
MR – Não! Tive a felicidade de escrever pensando em cada um desses atores, e a felicidade de convidá-los. Eles foram malucos de aceitar (risos). 


RESENHANDO - Como foi a escolha do elenco?
MR – Convidei meus amigos que, acima de tudo, são talentosos demais. Minha mãe, que amo demais também, não está no filme (risos). Eu chamei meus amigos talentosos e tive a felicidade de eles toparem.



RESENHANDO - Você já trabalhou com outras adaptações do Marçal, isso de alguma forma te intimidou?
MR – Eu trabalhei em “O Invasor” como ator, e no filme “Indelicado” a gente roteirizou. Querendo ou não, na minha historia no cinema, apesar de eu ter feito bastantes filmes, acho que o mais importante foi fazer “O Invasor”. A primeira vez que eu peguei um roteiro de cinema na mão, falei: “Meu Deus! Tem um roteiro aqui!”. Fiquei impressionado, era o roteiro do Marçal, vindo de uma obra ainda inacabada, que depois ficou lindo. Então começou uma parceria, e uma profunda admiração pela literatura do Marçal Aquino, depois viramos amigos, ele teve essa infelicidade (risos). E aí eu achei que, de alguma forma, seria um exercício natural, por mais que eu soubesse que poderia ser até perigoso, porque é muito próximo tudo isso. Entre nós existe muitos cineastas, poderia ser muito influenciável, existem temas nas obras do Marçal que perpassam pelas essas historias outros livros deles, que tem haver com o “Cabeça a Prêmio”. Então havia um risco, mas, também, um desejo de continuar essa parceria, que não vai acabar aqui.


RESENHANDO – Com o fato de o roteirista Felipe estar junto, no dia-a-dia, vocês trabalhavam no texto também?
MR – Totalmente trabalhando junto! O Felipe foi o meu grande parceiro no filme, essa é a verdade. Desde o começo, e revendo a tradução da legenda, quem fazia era ele. Teve uma hora que ele ia à minha casa, parecia um garoto, e agora ele virou quase o meu pai. E ele virou pai, inclusive (risos). Ele é muito dono desse filme, do roteiro, nessa viagem que a gente fez de locação fomos transformando o roteiro, apesar de já existir, e mudamos também durante a própria filmagem, o cinema é muito vivo. Lembro que tomava muita bronca da galera porque eu modificava muitas coisas, mas acho que se eu fizer o segundo vai ser pior, porque o cinema é vivo, é ali na hora, é onde a gente chega, acontece. Eu tinha uma qualidade de atores, não dava pra engessá-los e dizer: “façam isso”. É um filme que, de alguma forma, tenho de responder por ele, até pelos erros, mas, querendo ou não, é credenciado a todos nós, porque é muito coletivo.


RESENHANDO - Por que a escolha do Daniel Hendler?
MR – Porque ele é meu amigo também! (risos). E além do que, eu o admiro pra caralho. Ele é um dos grandes atores também. É impressionante o trabalho dele no meu modo de entender, um ator de inteligência rara. Ele estava louco pra estar aqui, mas também virou diretor, então ele está lançando, não conseguiu vir. Conheci o Daniel a partir de uma amiga minha, ao viajar para o filme “Via Láctea” pra Argentina, e passei uma semana com ele falando de futebol e outras coisas mais. Ficamos amigos, e voltei com a imagem dele na cabeça. Sempre tive vontade de flertar com essa coisa de latino-americano e, no livro, o personagem não é gringo, mas tive vontade de fazer com que fosse. Assim como o Sergio Troncoso, também nos conhecemos em festivais, virou meu amigo, e é um puta de um ator. Chamei pra fazer uma ponta e ganhou o filme todo, ele que não ia nem ter fala! Teve uma pessoa, uma vez numa entrevista, que me perguntou: “Marco, você é muito rico ou tem muitos amigos?”. Eu disse: “Tenho muitos amigos!” (risos). Porque olha a qualidade que eu tenho na mão, né?! Não dá pra pagar essa galera direito! (risos).


RESENHANDO - Sua carreira de ator teve alguma influência nesse seu primeiro filme?
MR – Fui cercado por uma equipe impressionante, fiz muitos longas, e todo mundo que estava lá eu já tinha trabalhado junto. Então é um filme que todo mundo comprou muito a briga e a ideia, essa foi a influência, a gente rouba um pouco de cada um, dos diretores, atores que eu trabalhei.


RESENHANDO - Você pensou muito em como os atores iam participar?
MR – O filme é de personagens! Se eu tenho orgulho de alguma coisa do filme é a unidade de interpretação, ninguém tem um momento de pensar “nossa escapou, não está direito”. Acho que talvez seja uma extensão natural, eu sou muito metido, e já tinha trabalhado com o Zé Bob em outros filmes como diretor de fotografia, que é um parceirão, e também fica fácil fazer filme com um cara desses. Eu poderia ficar em casa dirigindo, que estava tudo certo, mas, eu fui (risos)!


RESENHANDO - Por que você decidiu contar essa história, com personagens tão angustiados?
MR – É tão maluco isso, porque o livro do Marçal também tem muita coisa engraçada. A ironia perpassa a obra, mas o filme, querendo ou não, já tem um pouco isso. A adaptação carregou e conduziu pra uma coisa mais trágica. Quando eu falo trágico, no sentido que parece que a natureza conspirou contrariamente, não é apenas um drama familiar, não é só um quiproquó de falta de ideias. Obviamente a gente pegou personagens que estão em crise, que começam em uma derrocada. A primeira cena entre o Fulvio e o Otavio, eles falam que as coisas estão caindo, que tem de modificar a estrutura financeira, tem de parar... No fundo, no fundo, nós estamos falando de historias de amor que, às vezes, dão ou não certo. Existe uma má compreensão em relação ao personagem do Du. É angustiante porque a vida é angustiante mesmo! Vou ter que dizer que a vida é angustiante! To muito angustiado agora (risos).


RESENHANDO - Como foi relação de vocês todos durante as filmagens?
MR – Era muito louco, porque depois que a gente acabava as filmagens de 15, 16 horas, continuávamos conversando, bebendo. Era incrível a concentração às cinco horas da manhã no dia seguinte. Cada um tinha um desenho muito claro na cabeça, e muito difícil. Não sei se isso sou eu quem enxergo, talvez eu tenha generosidade, mas tem uma marca muito clara de cada artista. Se escorregar ali, pode virar uma marca de canastrice de quinta categoria, essa é que a verdade! É muito certeiro o trabalho de cada um, e é muito invejável é impressionante. 



RESENHANDO - Como a marca de um ator pode interferir em um trabalho?
MR – Você pega o trabalho do Otavio, que era um personagem muito perigoso, que poderia cair numa caricatura, o Du também, o Cássio que também trata tudo com humor, então na hora da merda põe uma piada. A gente estava o tempo todo concentrado, e isso é uma virtude, de chamar esse tipo de atores, e essa foi uma das minhas brigas também! O cinema nacional tem muito essa mania de lançar. Eu não quis lançar ninguém nesse filme, eu não tenho essa mania, “eu que lancei esse ator”. Esse é um filme de atores conhecidos pra caramba, só o Fulvio que está começando (risos). Grandes atores que desenvolveram o trabalho e embarcaram nos personagens.


RESENHANDO - Como foi a relação com o diretor de fotografia, Zé Bob?
MR – Tem uma coisa muito importante. O Zé é um diretor de fotografia, e essa relação, muitas vezes, no cinema, é a do cara que faz o serviço dele. Não tô falando da maioria, mas o Zé é um cara que interferiu muito no trabalho como um todo com os atores. Nós estávamos confinados com os atores que eu queria filmar, numa sala que era menor que esse tapete aqui (aponta para o objeto), então, a gente não queria um cenário, e nós demos um jeito. E o Zé teve que ensaiar, e a gente dentro daquele lugar que não cabia ninguém. Todo mundo teve de colaborar para que nós conseguíssemos fazer as filmagens, a fotografia. A equipe toda foi assim. Tivemos muito essa coisa de estender o tapete para os atores. Não o tapete vermelho, clamoroso, às vezes cheio de barro, de merda (risos).


RESENHANDO - E os patrocínios?
MR – Eu acho que os editais, assim como a iniciativa privada, que a gente tem que conhecer a pessoa, tem que jantar com o cara, edital também é feito por amigos de amigos e amigos, então eu acho que talvez a venda do segundo filme vá ser mais fácil. Eu ganhei alguns editais aqui em São Paulo, não só eu, mas outros diretores gritaram, e tiraram meu dinheiro, eu viajei com 700 mil reais a mais na minha conta pra gente fazer o filme, e duas semanas depois tiraram o dinheiro. Eu entrei nesse edital e todas as regras estavam claras, fui dar mão pro prefeito e secretário de cultura no domingo no Ipiranga, tirei fotografias com esses caras, e duas semanas depois tiraram o dinheiro que estaria entrando na conta. Tudo isso porque houve um grito de cineastas paulistas. Eles alegaram que, apesar de o filme ser feito por um paulista, com produção paulista, a maior parte do filme não seria feito em São Paulo. 


RESENHANDO – Isso o revoltou?
MR – Não foi só comigo, eu até poderia entender que estou começando agora, e meio que invadindo a praia deles. Do BNDS nós ganhamos um edital há um ano e meio atrás, e a primeira parcela foi feito agora, então o filme foi feito com dinheiro próprio, então se eu não tivesse uma grana pra arrumar, pegar emprestado, eu não estava com o filme pronto aqui. Os caras dão o dinheiro na hora que eles querem! Campanha política, e o caralho, desviando pra outros lugares, eu to falando tudo isso aqui, você pode anotar tudo! Se eles não quiserem me dar o dinheiro não tem problema não! Quer dizer, depois de um ano meio de ganhar o edital, eles vieram pagar a primeira parcela agora, depois que a gente começou a gritar! Isso é um absurdo, um desrespeito! E ai se tem gente que conhece não sei quem, pega o telefone, e libera o dinheiro, eu não conheço ninguém, não sou amigo de ninguém... Então é meio complicado! Eu tinha prometido falar sobre isso!

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

.: Conversa com Guillermo Arriaga, escritor

Guillermo Arriaga, um escritor à mercê de seus personagens

Por: Lídia Maria de Melo, convidada especial

Em setembro de 2010


Munido de arco e flechas, o premiado escritor e cineasta mexicano Guillermo Arriaga se embrenha por semanas no deserto ao Norte de seu país.


‘‘Sou enlouquecido por caçadas’’, confessa. Essa atividade, como diz, requer paciência e dedicação, mas o põe em contato com a natureza árida que tanto o atrai e ele tão bem retrata em seus filmes e livros. ‘‘Mantenho uma relação profunda com esse território. É a paisagem que melhor entendo’’.

Mas nem a caça, que ele pratica desde os 12 anos, nem o deserto conseguem afastá-lo da decisão que anunciou a seus pais, Carlos e Amélia, quando ainda era criança: ‘‘Quero me tornar escritor. E também ator, diretor e atleta profissional’’.

Os esportes continuam em sua vida, mas como atividade amadora. ‘‘Tenho feito futebol, tênis, pingue-pongue, squash, natação, voleibol, beisebol, box e pólo aquático, além da caça’’, relaciona, frisando que não vê contradição entre o pendor literário e a atividade esportiva. ‘‘Pensar que um escritor não faz esportes não passa de um lugar comum. É preciso acabar com os clichês’’.

Arriaga, que é graduado em Comunicação e História, até chegou a jogar futebol em um time de primeira divisão. ‘‘Mas careci de talento e disciplina’’, reconhece. Uma doença no coração foi outro motivo de impedimento.

As demais escolhas feitas na infância estão sendo cumpridas.Todas convergem para o principal motor que move esse homem de 52 anos, 1,86m, 92 quilos e grandes olhos verdes, que passam a impressão de nunca se fechar: ‘‘Desde menino, me seduz a ideia de contar histórias’’.

Para Arriaga, não há diferença entre escrever livros ou filmes.Tudo é produção literária. ‘‘Eu sou um escritor,um contador de histórias’’. Há muito, desde ‘‘Amores Brutos’’, ‘‘21 Gramas’’ e ‘‘Babel’’ , seu dom para a narrativa ultrapassa as fronteiras mexicanas e o coloca entre os principais nomes do cinema atual e da literatura latino-americana contemporânea.


ENTREVISTA: Entrevistei Guillermo Arriaga por e-mail, entre duas viagens dele em junho. Uma, ao Festival de Cinema em Aruba, e outra, a Vancouver, no Canadá, onde estuda o filho, Santiago, de 17 anos. E continuamos mantendo conversas, nas madrugadas, pelo site de relacionamentos Twitter, onde ele escreve em espanhol e inglês, mas até se esforça para se comunicar em português: ‘‘Boa sorte, Lídia. Boa noite’’. Quando não consegue, Arrisca um portunhol, como fez antes do primeiro jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo: ‘‘Claro que voy a ver o jogo do Brasil’’.

Sempre gentil e amistoso, sem afetações típicas de celebridades, esse ex-professor universitário, nascido na Cidade do México sob o nome completo de Guillermo Arriaga Jordán, fala de literatura, cinema, esportes, família, infância e escritores favoritos. Também dá dicas para quem deseja se aventurar no mundo das narrativas e conta sobre os novos textos que está produzindo.

No ano que vem, dentro da série ‘‘Cities of Love’’ (Cidades do Amor), participará do projeto ‘‘Rio, Eu Te Amo’’ com um curta-metragem sobre a Cidade Maravilhosa, ao lado de mais nove diretores. Entre eles, Fernando Meirelles (‘‘Cidade de Deus’’ e ‘‘Ensaio Sobre a Cegueira’’) e José Padilha (‘‘Tropa de Elite’’). Arriaga ainda não tem ideia do tema que abordará, nem de quem convidar.

Para retratar o Rio de Janeiro, não encontrará dificuldade: ‘‘Adoro o Brasil, é um país ao qual volto a cada ano. Parece-me um lugar vital, intenso, poderoso. Sua força se traduz em sua arte e sua cultura. Os brasileiros às vezes ignoram a maravilha de sociedade que são’’.

No início do ano, rodou o curta-metragem ‘‘El Pozo’’ (O Poço) para a TV Azteca, como parte da comemoração dos 200 anos da independência do México. Com pessoas comuns de pequenos povoados do Estado de Cohauila, contou um pouco da revolução mexicana. O filme será exibido neste mês de setembro no Festival de Veneza, onde Arriaga integrará o júri dos longa-metragens.

Atualmente, está às voltas com duas novas histórias. Uma tem como tema o ciúme doentio. ‘‘Como não sou ciumento, me parecem muito estranhos os ciumentos. E escrever sobre ciumento é mais estranho ainda’’, comenta.

A outra é uma encomenda do ator Brad Pitt. A primeira versão está pronta, mas Arriaga precisa reescrever, prática comum enquanto cria. É a adaptação do livro ‘‘The Tiger: A True Story of Vengeance and Survival’’, de John Vaillant, ainda inédito no Brasil e que trata de tigres da Sibéria. Junto com Darren Atonofsky, o mesmo diretor de ‘‘O Lutador’’, Brad Pitt faz a produção do trabalho, mas ainda não sabe se vai estrelar.

Arriaga desenvolve seus enredos no escritório que mantém em sua própria casa. Entre os objetos da decoração, além dos troféus, destacam-se caveiras de vários tipos. ‘‘É para lembrar que a morte nos acerca diariamente e que a arte é a única maneira de vencê-la’’.

A PRÓPRIA VIDA LHE DÁ ENREDOS E INSPIRAÇÃO: Guillermo Arriaga iniciou a vida profissional de escritor em 1991, aos 33 anos, com o romance ‘‘Esquadrão Guilhotina’’, sob as bênçãos de Laura Esquivel. Ao participar de um concurso literário, não venceu, mas a autora de ‘‘Como Água Para Chocolate’’ , que fazia parte do júri, indicou-o a seu editor, Jaime Aljure. A obra foi escrita quando ele tinha 22 anos.

Marcadas por episódios garimpados em sua própria vida, as histórias do mexicano estão ainda nos romances ‘‘O Búfalo da Noite’’ (1994) e ‘‘Um Doce Aroma de Morte’’ (1999), vertidos para vários idiomas e editados no Brasil pela Gryphus. Ele também publicou a coletânea de contos ‘‘Retorno 201’’, recém-traduzida para o romeno e com lançamento brasileiro previsto para este ano.

O título desse livro de contos faz referência ao endereço do conjunto habitacional de classe média onde Arriaga morou na infância, na própria Cidade do México: ‘‘Cresci na Unidade Modelo, Retorno 201, apartamento 87, telefone 32-3301, Zona Postal 13, Delegação Iztapalapa’’.

Digo que me faltam informações sobre essa obra, e ele me responde: ‘‘Eu escrevi ‘‘Retorno 201’’ entre os 24 e 26 anos de idade. Três contos foram escritos depois’’. Arriaga conta também que, enquanto criava ‘‘O Búfalo da Noite’’, ouvia a guitarra de Jimmi Hendrix e o rock do grupo inglês The Doors. Já ‘‘Um Doce Aroma de Morte’’ foi produzido sob os acordes de Los Tigres Del Norte, um grupo regional de música latino-americana, e o impacto das imagens fotografadas por Miguel Rio Branco, espanhol radicado no Brasil.

Desde o título, esse romance é marcado por descrições de cheiros: de queimado, do perfume da personagem morta, do corpo em decomposição, da morte. Pergunto a Arriaga como isso é possível, já que ele perdeu o olfato aos 13 anos, durante uma briga de rua.

A explicação inicial parece simples: ‘‘Quando um cego perde a visão, seu olfato fica mais refinado. Quando alguém perde o olfato, o sentido do paladar se faz mais agudo e preciso’’. Mas o complemento surpreende: ‘‘Há ocasiões em que posso cheirar com a língua. E não é uma metáfora, é real. E quando há muita umidade e certas condições, sou capaz de perceber cheiros distantes’’.

O escritor lembra que o poeta argentino Jorge Luiz Borges era cego e obcecado por espelhos. ‘‘Eu tenho obsessão por odores’’.


DEPOIS DE CORRER O MUNDO, A ESTREIA NO MÉXICO: Noite de 20 de julho. Chove torrencialmente na Cidade do México. O aguaceiro não é empecilho para que o escritor e cineasta Guillermo Arriaga chegue ao cinema onde, finalmente, ocorrerá a avant-premiére de ‘‘Fuego’’ (Fogo) em território mexicano.

O filme, que no Brasil recebeu o inadequado título de ‘‘Vidas que se Cruzam", marcou sua estreia como diretor há dois anos, no Festival de Veneza, sob longos aplausos. No elenco, duas ganhadoras de Oscar, Charlize Theron e Kim Basinger.

Originalmente denominado ‘‘The Burning Plain’’ (Planície Queimada, numa tradução livre), o longa-metragem já esteve em cartaz em outros 15 países, mas só no dia 23 de julho entrou em circuito nacional no México, por problemas com os distribuidores.

O título brasileiro remete ao estilo de narrar de Arriaga e serviria a qualquer um de seus outros trabalhos. Na Espanha, o filme foi chamado de ‘‘Lejos de La Tierra Quemada’’ (Longe da Terra Queimada), na Argentina, ‘‘Camino a La Redención’’ (Caminho para a Redenção), na Venezuela, ‘‘Corazones Ardientes’’ (Corações Ardentes).

Arriaga só opinou no título do México, que faz referência a uma cena de incêndio que ele testemunhou aos 9 anos de idade e vitimou uma família, perto de sua casa. No filme, histórias também escritas por Arriaga são entrelaçadas, do mesmo modo como ele já fez em ‘‘Amores Brutos’’, ‘‘21 Gramas’’, ‘‘Os Três Enterros de Melquíades Estrada’’ e ‘‘Babel’’.

A carga dramática leva o público a se esquecer da beleza física de Charlize Theron. Interpretando Sylvia, ela é uma mulher sofrida que parece carregar nos ombros todo o peso do mundo. Gina, de Kim Basinger, transmite a impressão de estar diante de sua última chance para ser feliz. Tessa Ia, na pele de Maria, é uma sábia menina.

Jennifer Lawrence, aos 17 anos, vive uma adolescente impetuosa, que lhe valeu o Prêmio de Melhor Atriz Revelação, no Festival de Veneza, em 2008. Sua personagem leva o nome da filha de Arriaga, Mariana. ‘‘Jennifer acaba de ser anunciada como a protagonista de ‘‘The X-Men’’, festeja o escritor.

Claro que o longa tem personagens masculinos. Os principais são vividos por Joaquim de Almeida, J. D. Pardo, John Corbett e José María Yazpik. Mas Arriaga fez um filme em que as mulheres, com seus amores, seus anseios e suas angústias, obrigam os homens a orbitar em torno delas. Na sessão de 20 de julho, realizada apenas para convidados, com a presença do elenco mexicano, Arriaga é recebido por jornalistas, fãs, amigos e a família. ‘‘Muito emocionado’’, confessou no site de relacionamentos Twitter.

‘‘Vou entrar no tapete vermelho. Vieram meus pais (Carlos e Amélia), meus irmãos (Carlos, Jorge e a também escritora Patrícia Arriaga Jordán) e sobrinhos e primos e muita gente’’. À tarde, ele agradeceu aos jornalistas que compareceram à entrevista coletiva de divulgação do filme e ainda expressou: ‘‘De coração, obrigado por suas palavras de alento. A todos que me escreveram, um abraço. Me comove o apoio que recebi da comunidade twitera’’.

Nos dias que precederam a estreia mexicana, Arriaga estava visivelmente nervoso e passava horas desperto. Quando não dava entrevistas, deixava notas no Twitter. Relacionou no site o nome de toda a equipe que trabalhou no filme, diante e atrás das câmeras. Seus seguidores no site até iniciaram uma campanha para que ele dormisse. Enviei também uma mensagem e ele me respondeu em português: ‘‘Não (tenho) conseguido dormir. Estava em entrevista com jornalistas. Tudo bem em Santos?’’.


TRÊS FILMES E UMA BRIGA PELA AUTORIA: Embora registre em seu currículo curtas como ‘‘Rogélio’’ e ‘‘El Pozo’’, Arriaga tornou-se conhecido no mundo cinematográfico pelos roteiros dos filmes ‘‘Amores Brutos’’; ‘‘21 Gramas’’ e ‘‘Babel’’.

Os longa-metragens foram dirigidos por Alejandro González Iñárritu,conterrâneo com quem Arriaga rompeu definitivamente há quatro anos.‘‘Ele traiu acordos de cavalheiros que fizemos quando decidimos trabalhar juntos.E traiu desde o início’’, diz.

Arriaga evita se alongar sobre o fim da parceria, mas é público que não aceita o fato de um diretor ser considerado o autor em um trabalho cinematográfico. Ele defende que, como em uma peça teatral,a realização é de toda uma equipe, a partir da história do escritor. Por isso, abomina a expressão ''Um filme de...'', utilizada nos créditos antes do nome do diretor. ‘‘Parece-me sempre uma falta de respeito com todos os que fazem o filme’’, explica. ‘‘E qual foi a razão para seguirmos juntos?’’, ele mesmo pergunta, para em seguida responder: ‘‘Muito fácil: as obras se saíam bem’’.

NAS MADRUGADAS, É QUE NASCEM AS HISTÓRIAS: É nas madrugadas que Guillermo Arriaga escreve diariamente. ‘‘A noite diz coisas que de dia não se pode escutar’’,explica. Diante do computador, não espera por musas ou inspiração. ‘‘A musa, para mim, aparece quando me sento para escrever’’. E ele tem um bom argumento para nunca desistir de atingir a marca de ao menos meia página até as 9 da manhã. ‘‘Um caixa de banco não se questiona se tem que ir trabalhar’’. Há um outro mais fatalista: ‘‘Não descanso nenhum dia. A morte tampouco. Se me surpreende, que ao menos fique alguma coisa depois de mim’’.

A morte é um tema mais do que recorrente em seus escritos: ‘‘Ela está tão certa de nos alcançar, que nos dá toda uma vida de vantagem’’. É uma grande preocupação?, pergunto. Ele nega, mas nunca demonstra indiferença ao assunto. Em junho, diante da notícia do falecimento do escritor português José Saramago, expressou: ‘‘Hoje, só morreu um pouco de Saramago. O outro Saramago sobrevive e, para que viva mais, é preciso lê-lo’’.

Também não deixou de comentar o assassinato do candidato ao governo do estado mexicano de Tamaulipas, antes das eleições: ‘‘Lamento profundamente a morte de Rodolfo Torre. Cada vida perdida me dói. Toda morte insensata é uma vergonha para o México’’.

A expressão mais comovida foi sobre a recente perda do ator Dennis Hopper. ‘‘Estou triste e me sinto mal de não ter podido produzir seu último filme como diretor. Não éramos próximos, mas confiou em mim. Pude vê-lo umas semanas antes. Era um tipo muito inteligente, agradável e talentoso. Sempre foi amável comigo. De verdade, lamento’’.


ENCICLOPÉDIAS E CARTAS: Quando criança, Arriaga passava horas nas ruas, depois que chegava da escola. Mas se admirava com os textos curtos das enciclopédias e escrevia cartas para as meninas. Era a maneira como melhor se organizava, já que sofria de hiperatividade e déficit de atenção.

Ainda hoje se distrai todo o tempo, por isso cria artifícios para se concentrar. Se fraqueja diante do silêncio de seus personagens, lembra das palavras de Marguerite Duras: ‘É preciso ser mais forte que a obra’’.
Ele escreve tanto que às vezes provoca lesões nos nervos das mãos. Mas se consola: ‘‘Criar nos cobra cotas. Não importa, criamos mundos narrativos, personagens’’.

De antemão, nunca sabe qual será o final de seus enredos e prefere conhecer pouco sobre os personagens. ‘‘Gosto de descobrir junto com eles’’, diz. ‘‘Se sei demasiadamente, sinto que não vão me surpreender’’.

Quase todas suas histórias estão relacionadas a algum fato que viveu, sentiu ou presenciou. Ele nunca pesquisa antes de escrever. ‘‘Falo somente do que conheço. Quero que em meu trabalho se sinta a rua, o campo. Que se sintam esses lugares, esses momentos, essa gente, que me são próximos’’.

Muitos de seus personagens recebem os nomes de seus familiares, amigos e animais. No filme Amores Brutos, por exemplo, o cachorro de estimação do protagonista se chama Cofi. Uma homenagem ao cão que teve quando criança. Ao terminar de escrever um romance ou um filme, Arriaga submete o texto a um grupo de pessoas em quem confia. Entre eles, estão a mulher, Maria Eugênia, que ele chama carinhosamente de Maru, e a filha de 15 anos, Mariana.

A partir das sugestões, ele reescreve várias vezes. ‘‘Essa é a tarefa de um escritor. Polir a linguagem de tal maneira que pareça que é fácil’’. Compara seu método, com o do ex-jogador francês Platini: ‘‘Para que pareça fácil dar um passe de 50 metros, é necessário praticar anos’’.

Além dos pais, Carlos e Amélia, que sempre o educaram para que seguisse sua vocação, uma de suas grandes incentivadoras é Maria Eugênia, a quem ele define como ‘‘mulher maravilhosa’’. Quando se casaram e ele lhe disse que queria escrever, ela o apoiou: ‘‘Adiante’’. Quando soube que isso iria significar dificuldades econômicas, não recuou: ‘‘Ela acreditou em mim e, graças a ela e a seu amor e incentivo, pude dedicar-me a ser escritor’’.

A última vez que conversei com Arriaga, antes de finalizar esta matéria, foi na madrugada de 25 de julho. ‘‘Buenas, que bom encontrá-lo de novo na madrugada’’, saudei. Prontamente, ele retornou, dominando quase totalmente o português:‘‘Boa noite, meu querida Lídia. Viajo uma semana. Depois, eu vou voltar’’. Então, até a volta. A gente se fala!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

.: "Bliss", crônica de Helder Moraes Miranda publicada na revista "Viver Integral"


Por Helder Moraes Miranda, editor do portal Resenhando.com. 

Sou o cara do ponto de ônibus com uma estranha predisposição de criar histórias para os que estão na fila. Há, nela, de tudo – acredite – com tantos rostos e roupas de frio e de calor que sempre se modificam a cada dia, eu estou lá, vendo tudo enquanto sigo para o trabalho. Do romântico inveterado (e talvez eu me enquadre nesse perfil), à vilã incorrigível e meio desajeitada, passando pela velhinha dócil que não leva a culpa de ter atrapalhado um romance, mas fez isso, e hoje tem a simpatia da maioria.

Sou um observador contraditório por ser um péssimo fisionomista, ter a memória fraca e, muitas vezes, distraído a ponto de não retribuir cumprimentos na rua porque não vi. Você pode perguntar quem sou eu, e o que me assinala para escrever sobre livros. A vida, eu responderia. Não sou um crítico, mas um apaixonado. Até porque discordo dos especializados, na maioria das vezes.

Escrever sobre literatura e seus bastidores não é tarefa penosa. É vida. Explico: comecei a escrever desde os seis anos, e leio desde então. Quando não sabia escrever, desenhava. Trabalho com isso, conheço pessoas, elaboro reportagens e, quando um livro me agrada, resenho. Diante de tanta doçura, perdi a fala quando conheci Ana Miranda – vencedora por duas vezes do prêmio Jabuti, o maior na área literária no Brasil.

Troquei alguns e-mails com Fernanda Young e, talvez por tê-la entrevistado algumas vezes, dei um depoimento sobre ela (que até hoje não sei se foi publicado) para a revista Imprensa. Levo o mérito de ter entrevistado aos 21 anos, com um colega de redação, o escritor Sidney Sheldon. Claro, também me decepcionei com alguns, que se mostraram verdadeiros babacas, mas o que importa, mesmo, são os textos que eles fazem, com uma grande possibilidade de mexer comigo.

A sensação de ter este espaço para falar de algo que é tão pouco valorizado, e sem o ar solene e pedante como é, sim, tratada a literatura – e seus escritores, e seus livros, e seus roteiristas, e seus leitores – me remete a um antigo conto, que li recentemente. Chama-se "Bliss", de Katherine Mansfield. Assim como saudade, que não tem tradução fora da língua portuguesa, "bliss", em uma tradução apressada, significa "mais que felicidade".

Fala de uma mulher que promove um jantar para o marido e amigos, e é surpreendida por um acontecimento que pode mudar tudo. Esse final desconcertante pode ser a mesma sensação diante de um livro novo. Estou na berlinda, como cada escritor quando termina um texto, sempre à mercê da aceitação, ou não, do leitor que pode optar por fechar o livro ou seguir para a próxima página.


*Texto publicado na extinta revista "Viver Integral", em setembro de 2010.

Bastidores

O texto foi enviado em anexo com o seguinte recado no corpo do e-mail, em 9 de agosto de 2010:

Queridos Celso e Cris, tudo bem?

Conforme combinado, segue anexo com texto para a minha coluna sobre livros na "Viver Integral". Espero que gostem, esse será o estilo que penso. Uma abordagem diferenciada, e mais pop, sobre o mundo dos livros. Anexo uma arte com o nome da coluna "Protagonismos", uma foto minha (pode sair bem pequenininha mesmo, e o texto. Espero que gostem. Um abraço,

Helder

O e-mail era para o querido Celso Bertolli e sua gentil esposa Cris. As artes citadas eram essas:


segunda-feira, 2 de agosto de 2010

.: Resenha crítica de "Os Mercenários", que é uma bobagem

Testosterona inconsistente: O Brasil pelos olhos de Stallone 
Por: Helder Miranda
Em agosto de 2010

Longa só se sustenta pela memória afetiva de um público que já cresceu. 


"Os Mercenários" é, assumidamente, uma bobagem. Logo na primeira cena, talvez pelo colorido, fui remetido a dois filmes antigos, de minha infância - Os Heróis Trapalhões - Uma Aventura na Selva e Os Trapalhões nas Terras dos Monstros. Não entro no mérito do boicote, é perda de tempo, mas, se você não foi um moleque dos anos 90, não veja. 

Assim como Renato Aragão, Stalonne vai escalando famosos para fazer algumas pontas ao seu bel-prazer. O roteiro segue o mesmo estilo dos longas de ação que eram transmitidos à tarde, na TV Bandeirantes, cheios de memória afetiva de minha época de criança. Com medalhões do gênero, como Dolph Lundgren (Soldado Universal), Jet Li, Jason Statham (o protagonista de Carga Explosiva), e até o pai de Todo Mundo Odeia o Chris, é tão ruim que tem seu charme. Só faltou Van Damme.

Cheio de tiradas de efeito, todas "esquecíveis", algumas cenas de ação forçadas, e um machismo que não chega a incomodar, porque o próprio filme não se sustenta. Os Mercenários é salvo pela memória afetiva de um público que já cresceu. Quem foi moleque no auge de Sylvester Stallone e brincou com os bonecos emborrachados do S.O.S Comandos - me remeteu a isso também - pode se reconhecer ali. Minha única pretensão era conferir o último trabalho da fofinha Brittany Murphy, que não apareceu e me frustrou um pouquinho, mas como ganhei os convites, em uma ação de marketing da California Filmes para evitar o "boicote" (?), estava ali para me divertir. 

A percepção do que é "envelhecer mal" me incomodou em Os Mercenários. Menos pelo botox e mais pela dificuldade em partir para outros projetos mais dignos, íntegros, do ator que está à frente disso. A participação de Bruce Willis só se justifica pela afetividade. Ali, no cinema, vi o tempo passar em frente a um Mickey Rourke irreconhecível, e também quando não acreditei nas peripécias espetaculares de um Stallone envelhecido, muito menos no olhar romântico de Gisele Itié para o seu personagem. É como a mulher madura que insiste em roupas de menina e maquiagem pesada: não dá.

Por outro lado, só um filme como esse me deixaria acordado, em um dia em que dormi às 4h, acordei às 7h, recomecei a trabalhar o dia todo e encarei a sessão das 22h. Gisele Itié, dublada por ela mesma, é uma atração à parte. Se fosse um filme "bom", pode ter certeza de que eu dormiria, como já aconteceu outras vezes, mas estava diante de algo em que não conseguia parar de ver. 

Um detalhe curioso foi quando o projetor apresentou algum problema e o longa teve de voltar alguns minutos dos já assistidos. As pessoas reclamavam quase que em unanimidade, queriam ver o filme de onde estava, não precisava voltar. Minha mulher, que começou a esboçar sinais de desespero, também fez coro. Como imaginei que, em algum momento, os personagens viram para cá, eu quis ver o Brasil pelos olhos de Stallone. Mas não aconteceu também. Vale, também, por uma cena em que o protagonista troca farpas, ridículas, com Arnold Schwarzenegger e finaliza, com a única frase que me lembro: "Ele quer ser presidente".

Filme: Os Mercenários (The Expendables, EUA)
Ano: 2010
Gênero: Ação
Duração: 103 minutos
Direção: Sylvester Stallone
Roteiro: Dave Callaham, Sylvester Stallone
Elenco: Sylvester Stallone , Jason Statham , Jet Li , Dolph Lundgren , Eric Roberts, Randy Couture, Steve Austin, David Zayas, Giselle Itié, Gary Daniels, Terry Crews, Mickey Rourke

domingo, 1 de agosto de 2010

.: Entrevista com Shirley Carvalho, cantora

“Quem faz reality mostra a cara. Um participante deve ter em mente que isso é só o primeiro passo. Não deve ficar em casa esperando um contrato milionário, mas preparar um bom repertório e correr atrás de casas bacanas para se apresentar”. - Shirley Carvalho

 Por: Helder Miranda

 Em agosto de 2010



Após muitas participações marcantes em programas musicais da televisão, a cantora Shirley Carvalho tem um CD a caminho. Conheça melhor este talento brasileiro.



Após a meteórica ascensão no programa Ídolos (SBT), que nesta temporada vem conquistando a liderança para a TV Record, Shirley Carvalho não se abateu com a segunda colocação. Caloura veterana de Raul Gil, ela emendou outro reality, Astros, e saiu vencedora. Faz aproximadamente 15 shows por mês, em todo o Brasil, uma marca surpreendente para uma cantora sem discos gravados. Também virou hit no YouTube e nos noticiários brasileiros por conta de um dueto com o jogador de futebol Richarlyson, e prepara o primeiro CD.


RESENHANDO - Como é ser chamada de “Whitney Houston brasileira”?
SHIRLEY CARVALHO - Não vejo nenhum problema, é uma honra. Sem dúvida, ela é minha inspiração, tem um timbre bacana. Embora ela tenha muita influência, não cantamos igual e eu não sou uma cantora cover dela. A Whitney é uma excelente artista, um fenômeno, pelo jeito de cantar e a atmosfera de “ diva” . Infelizmente, hoje ela não é a mesma da fase áurea, daqueles gritões, mas continua competente e deve ser respeitada por toda a trajetória artística.
  

RESENHANDO - Por que cantores lançados em realities saem da mídia?
S.C. - Pode ser falta de sorte, ou oportunidade. O problema é que as pessoas esperam que, ao sair de um programa líder de audiência, “estourem” diretamente. O maior exemplo, para esse caso, é o da cantora Jennifer Hudson, que nem entre os primeiros colocados ficou no American Idol e ganhou o Oscar e um Grammy.

  
RESENHANDO - Você, o que faz para permanecer?
S.C. - Quem faz reality mostra a cara. Um participante deve ter em mente que isso é só o primeiro passo. Não deve ficar em casa esperando um contrato milionário, mas preparar um bom repertório e correr atrás de casas bacanas para se apresentar. Está sendo um trabalho lento, eu já tinha consciência de que nada seria imediato. Devagarinho, venho conquistando o meu espaço, sem me afastar dos fãs que conquistei no programa e, até o final do ano, lançarei meu primeiro CD.


RESENHANDO - Você era apontada pelos jurados e nas enquetes como a favorita para vencer o Ídolos. Por que ficou em segundo lugar?
S.C. - Votação popular não deve ser questionada. Não acho que a Thaeme (Mariôtto, que concorreu com ela na final do programa) é uma cantora inferior, também é talentosíssima. E em um reality, você fica sujeito à votação, isso não me abateu. Pelo contrário, ter sido a segunda colocada abriu oportunidades inacreditáveis.


RESENHANDO - Você acompanha essa nova temporada?
S.C. - Sim, e comento no Twitter. Para não desagradar a torcida de um ou outro participante, me mantenho neutra. Claro que já tenho as minhas predileções: Nise Palhares, que é maravilhosa, Agnes Jamille, uma negrona tudo de bom, o Romero, que é lindo e canta muito, o Filipe Batista, o Black... 


RESENHANDO - Como você avalia a música brasileira atual?
S.C. - Quem está no mercado sabe que é um meio restrito, em que o novo se sobressai. Maria Gadú se destacou porque canta com um jeitinho todo especial e tem um timbre diferente. O que se vê, hoje, são cantoras reproduzindo o estilo Ana Carolina, o estilo Ivete Sangalo... É preciso renovar, sair da mesmice, como foi feito nas décadas de 80 e 90, que lançou gente muito boa.


RESENHANDO - Seu CD será assim?
S.C. - Claro! Quero surpreender as pessoas. Estou trabalhando de uma maneira diferente, inovadora, mas que, ao mesmo tempo, toque o coração. É claro que nesse repertório não pode faltar Razão e Coração, música escrita pelo compositor Chico Amado especialmente para mim, para disputar a final do Ídolos. Foi engraçado porque tive de decorar e imprimir a minha marca na canção em apenas uma hora! 


RESENHANDO - A que você atribui o sucesso dessa música, que não foi lançada nos meios convencionais?
S.C. - Começou porque as pessoas extraíram do programa o áudio da minha apresentação, ao vivo. Fizeram milhares de downloads, que eram escutados nos aparelhos de MP3, celulares, computadores. O Arnaldo Sacomani (jurado do Ídolos no SBT e produtor musical) teve a ideia de gravar a canção em estúdio, com uma qualidade melhor, e disponibilizou na internet. 


RESENHANDO - Canções românticas, necessariamente, são bregas?
S.C. - Ah, romântico é brega, né? (risos) Não conheço ninguém que, quando está apaixonado, fique “racionalzinho”. As pessoas choram, mandam flores, se ajoelham... é bem por aí. Quando estamos apaixonados, superdimensionamos, literalmente nos rasgamos (risos). A música traduz tudo isso. 


RESENHANDO - Regravar Creu com uma roupagem mais sofisticada foi uma maneira de aparecer?
S.C. - (risos) Não! Foi uma brincadeira que acabou fazendo sucesso na internet. Alguém gravou esse trecho, em um dos meus shows... Aqueles acordes sofisticados, um violãozinho, o som acústico. Engraçadíssimo!

  
RESENHANDO - Da internet, como a historia com o Richarlyson ganhou os noticiários?
S.C. - Ele é meu amigo, e estávamos no telefone quando me sugeriu a música Eu Nunca Estive Tão Apaixonado. Como ele canta bem, pedi para que se apresentasse comigo. Foi gravado e, no dia seguinte, em casa, meu telefone não parava de tocar. O vídeo foi transmitido no Globo Esporte, ESPM, TV Fama, Pânico na TV e muitos outros veículos de comunicação.


RESENHANDO - Isso abriu portas?
S.C. - Se eu negasse, seria hipócrita. Com certeza! Antes de dar entrevistas, resolvi falar com o Richarlyson, que me incentivou a aproveitar. Fiquei feliz de não ser apontada como a “caloura” do Raul Gil, ou a finalista do Ídolos. Toda a imprensa estava falando da cantora Shirley Carvalho. Adorei!


BIOGRAFIA DA CANTORA: Shirley Carvalho, natural de São José dos Campos, São Paulo, começou a cantar já aos 4 anos. Em julho de 2003, Shirley iniciou sua carreira musical com a participação no Programa Raul Gil, então exibido pela Rede Record, no quadro “Quem Sabe Canta Quem Não Sabe Dança”, consagrando-se como a grande REVELAÇÃO de 2004, vindo a ser a vencedora do concurso.

Em seguida, em março de 2007, após um longo processo de seleção com cerca de 15 mil inscritos por todo o Brasil, classificou - se para a segunda temporada do reality “Ídolos” e após uma marcante e bem sucedida trajetória, foi considerada por Arnaldo Saccomani, Miranda, Thomas Roth e Cys Zamorano (jurados do programa) como "a melhor cantora do Brasil em atividade" e “a maior voz feminina brasileira de todos os tempos”.

Em 2009 foi mais uma vez vencedora, desta vez do reality show “Astros” – exibido pelo SBT – consagrando-se assim definitivamente e iniciando agora sua carreira musical por outros segmentos.
Sua fonte de inspiração é Whitney Houston e suas raízes vem de encontro à uma deliciosa mistura de influências afro-americanas, mas com raízes bem brasileiras.

Atualmente a cantora pôde ser ouvida interpretando a canção “You are everything” (grande sucesso nas vozes de Marvin Gaye e Diana Ross) na novela “Vende-se um véu de noiva”, do SBT (obra de Janete Clair adaptada por Íris Abravanel). 

Shirley vem ganhando a cada dia mais espaço, haja vista que a cantora já possui um total de quase 1 milhão de visitas em seu canal oficial no YouTube e cerca de 15 mil cadastrados em suas comunidades em sites de relacionamento, revelando assim o quanto é querida e admirada por fãs do Brasil e de várias partes do mundo. 

A cantora também é admirada por grandes nomes da música, como Ivete Sangalo, Fábio Jr, Eduardo Araújo, Jon Secada, entre tantos outros, firmando-se assim como sinônimo de bom gosto musical, elegância e profissionalismo. Shirley Carvalho é apontada hoje como uma artista em clara ascensão no mercado musical brasileiro e considerada uma das vozes mais marcantes da nova geração de cantoras brasileiras. 

Fonte da biografia: http://www.shirleycarvalho.net/

quinta-feira, 29 de julho de 2010

.: Entrevista com Márcio Vassallo, escritor e jornalista

“Não escreveria nunca, se não fosse um leitor apaixonado”. - Márcio Vassallo

Por: Mary Ellen Farias dos Santos

Em julho de 2010


Histórias fascinantes escritas diretamente para os leitores mirins. Conheça melhor o escritor e jornalista Márcio Vassallo.


Um jornalista, poeta e escritor de obras infantis seduzido pelo universo da literatura infantil. O AMOR pela escrita é (definitivamente) o "pó mágico" de Márcio Vassallo. Com sabedoria, o autor utiliza tal ingrediente em suas histórias encantadoras e, assim, enobrece a todos que têm a oportunidade de fazer parte de uma história criada por nossa entrevistado do mês de julho. Com tanta sensibilidade na escrita direcionada aos leitores mirins, não há leitor que passe ileso (independentemente de idade) desta escrita fascinante. 

BIOGRAFIA: Márcio Vassallo nasceu no Rio de Janeiro, no dia 18 de dezembro de 1967. Jornalista e escritor, faz palestras e oficinas, há mais de dez anos, em todas as regiões do Brasil. O autor já publicou livros como,  A Princesa Tiana e o Sapo Gazé, O Príncipe sem Sonhos, O Menino da Chuva no Cabelo, Valentina e A Fada Afilhada e de Mario Quintana, primeira biografia do poeta gaúcho, publicada dentro da coleção Mestres da Literatura. Livros que foram selecionados para o Catálogo de Autores Brasileiros da Feira do Livro de Bolonha, na Itália, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, seção brasileira do IBBY - International Board on Books for Young People, órgão consultivo da Unesco. 

Valentina também foi escolhido como um dos trinta melhores livros do ano publicados no Brasil, pela Revista Crescer, e O Menino da Chuva no Cabelo foi selecionado para o catálogo The White Ravens 2006, organizado pela Biblioteca Internacional da Juventude de Munique, na Alemanha, entre milhares de livros enviados de todo o mundo. Junto com a escritora Maria Isabel Borja, organizou as coletâneas Valores para Viver e O Livro dos Sentimentos, reunindo textos de alguns dos mais importantes escritores da língua portuguesa, além de publicar o livro de entrevistas Mães - o que elas têm a dizer sobre educação. Organizou e selecionou a obra Para viver com poesia, antologia temática com pensamentos de Mario Quintana, lançada em 2008. Seu último lançamento é o livro Da minha praia até o Japão. 

Vassallo foi repórter do Segundo Caderno, do jornal O Globo, e do suplemento cultural Bis, da Tribuna da Imprensa, além de colaborar como free lancer em resenhas, entrevistas, matérias e outros textos para os cadernos de cultura dos jornais O Globo, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil e O Estado de S. Paulo. Vassallo também escreveu textos encomendados pelas revistas Você S.A., da editora Abril; Crescer, da editora Globo; e Leituras Compartilhadas, da Ong Leia Brasil. Além de criar e editar ao longo de três anos o jornal literário Lector, entrevistando alguns dos principais autores, editores, agentes literários, professores e especialistas em educação e leitura do Brasil. 

Atualmente, presta serviço de consultoria para autores e várias editoras do país, avaliando projetos, originais e linhas editorais. É o jornalista responsável pelo site da Agência Riff (www.agenciariff.com.br), que representa, no Brasil e no exterior, alguns dos mais consagrados autores brasileiros. A agência também representa os livros de Márcio Vassallo. (Fonte: http://www.marciovassallo.com.br)


RESENHANDO - O que a literatura representa em sua vida? 
MÁRCIO VASSALLO - Tudo o que inspira a minha vida me move para escrever, e tudo o que me move para escrever inspira a minha vida. Eu poderia ser um leitor apaixonado e nunca me tornar escritor, claro. Mas não escreveria nunca, se não fosse um leitor apaixonado.


RESENHANDO - Como surgiu a história de "Da minha praia até o Japão"? 
M. S. - Tenho visto muitos pais apressados para deixar seus filhos felizes, enchendo a vida das crianças de passeios espetaculares, presentes cobiçados, viagens incríveis, olhando mais no relógio que nos olhos delas. Acho que pressa não combina com felicidade. É claro que temos que correr para trabalhar, é claro que o dia a dia é uma correria desembestada. Mas a felicidade exige demora e calma amorosa. Era essa demora e essa calma que o meu pai tinha comigo, quando defendíamos a praia de terríveis monstros marinhos e cavávamos um buraco para cabermos dentro e chegarmos até o Japão. Meu pai é oficial de Marinha. Passou a minha infância e a minha adolescência viajando muito, e trabalhando mais do que um bocado, mas sempre teve interesse e paixão por se espalhar no chão comigo e meus dois irmãos. E a minha mãe também tem uma importância essencial nessa história. Afinal, foi ela que me ensinou a contemplar beleza onde quase ninguém vê. Dedico esse livro para ela. Meu pai sempre encheu o meu coração de fantasia. Mas se não fosse pela minha mãe, se eu não tivesse aprendido a olhar, não teria me tornado escritor. 


RESENHANDO - Ainda sobre este lançamento editorial. Para um carioca, como é escrever um livro infantil ambientado na praia?
M. S. - Antes de começar a escrever, não costumo pensar na geografia das minhas histórias. Para mim, são os personagens que puxam os enredos, as cenas, os ambientes, não o contrário. 


RESENHANDO - O que diferencia "Da minha praia até o Japão" de seus outros livros?
M. S. - Ainda não tinha escrito um livro na primeira pessoa, assim, tão íntimo. 


RESENHANDO - Fale um pouco sobre a questão da "educação para o encantamento".
M. S. - Educar para o encantamento é ensinar aos outros a fazer suas próprias escolhas e aprender a lidar com os próprios sentimentos de forma leve, profunda, autêntica e inspiradora. Viver com encantamento no dia-a-dia não é só um dom, uma vocação, um destino. Acima de tudo é uma escolha, uma questão de educação. Há mais de dez anos, tenho conversado com públicos de todas as regiões do Brasil, em palestras e oficinas, sobre essas e outras tantas questões, e constato, de Norte a Sul do país, que esse é um tema cada vez mais irresistível e cheio de desdobramentos. Aprender a parar, reparar e se surpreender, sem pressa e sem cansaço, são passos essenciais na educação para o encantamento. E, mais do que tudo, o que é essencial na educação para o encantamento? Qual a serventia da beleza no dia a dia da gente? Como apurar o olho para viver em estado de poesia? Tenho respondido perguntas dos leitores sobre esse assunto, numa coluna, toda quinta-feira, no meu site (www.marciovassallo.com.br).


RESENHANDO - Por que mergulhar no universo infantil? Por que esta escolha?
M. S. - É o universo infantil que mergulha em mim. Gosto do olhar de assombro, perplexidade e descoberta das crianças diante das coisas, dos momentos, das pessoas, das cenas aparentemente mais simples e sem importância. É esse olhar que mais seduz para escrever e para viver.


RESENHANDO - Você lia muito quando criança?
M. S. - Lia muitos gibis, nem tantos livros. Comecei a ler mais livros a partir dos onze, doze anos. Mas passei a infância toda ouvindo histórias maravilhosas das minhas avós, na hora de dormir. Meus pais também liam um bocado para mim. Minha mãe desdobrava imagens no meu pensamento. Meu pai fazia sonoplastias e fundos musicais para as cenas. O encantamento sempre fez parte do meu dia a dia. 


RESENHANDO - Como e quando começou a escrever? O que escrevia?
M. S. - Escrevi a minha primeira história aos quatorze anos. Era uma história de horror das mais horrorosas. Eu obrigava todo mundo a ler e a gostar dela. As pessoas liam porque gostavam de mim, evidentemente. Acho que o boca a boca desses meus leitores não foi tão forte. Meu primeiro livro eu publiquei aos quinze anos. Os meus pais resolveram reunir as crônicas que eu escrevia, nessa época, a maioria falando de futebol, e rodaram o livro numa gráfica, por conta própria. Esse foi um gesto de bondade amorosa deles. Não para exibir o filho, atender um capricho dele, ou investir no futuro do garoto. Foi só para dar ainda mais poesia, encantamento e beleza na minha vida. Depois, meu primeiro livro publicado no mercado foi A princesa Tiana e o Sapo Gazé, pela Brinque-Book. Essa é a história de uma princesa cansada dos príncipes e de um sapo metido a conquistador, que se gaba com os amigos de fazer as lagartixas subirem pelas paredes. 


RESENHANDO - Como é encontrar um personagem perdido na literatura infantil?
M. S. - É como encontrar um amor. A gente só encontra quando não está procurando por ele. Mas é preciso ficar de coração arreganhado para isso. E saber o que fazer com ele depois. 


RESENHANDO - Qual a sua dica para os pais que pretendem tornar seus filhos em bons leitores? Como balancear escola, videogame, internet e leitura?
M. S. - Olha, não transformar o livro em dever de casa é um passo importante. Ler não é dever. Não existe suspiro obrigatório. Antes de despertar o encantamento pela leitura em alguém, a gente precisa se encantar com os livros, de verdade, não só para encantar leitores. Por isso, não tente dizer para os seus filhos que ler é importante para o futuro deles. Não acredito nessa história de leitor do futuro. Para mim, quem lê o futuro é cartomante. A formação de leitores é essencial. Mas não devemos achar que uma criança lê hoje a Sylvia Orthof, ou a Christiane Griebel, só para um dia ler o Guimarães Rosa, ou o Machado de Assis. A literatura considerada infantil (que pode ser lida por crianças e adultos) não é um mero passo para uma verdadeira literatura, que um dia vai chegar. É isso o que eu penso. Podemos balancear escola, videogame, internet e leitura, sim, desde que a leitura seja apresentada de uma forma sedutora, e não entre no cotidiano das crianças ou dos adolescentes como uma tarefa, um dever, uma obrigação para que eles sejam alguém na vida. As crianças e os jovens não precisam ser alguém na vida. Eles já são alguém.


RESENHANDO - Na hora da leitura, qual o seu estilo preferido?
M. S. - Histórias e poemas deliciosos, apaixonantes, belos e perturbadores. Se um texto não me tira o ar, se não me clareia um sentimento, se não me amansa o coração, se não me surpreende, se não me encanta, se não me lateja o corpo, se não me desembesta a alma, se não me puxa, de alguma forma, é porque não mexeu comigo. Livros têm que mexer com a gente, fazer a gente pensar, suspirar, se emocionar de todo modo. 


RESENHANDO - Como você analisa o cenário editorial infantil brasileiro da atualidade?
M. S. - Há livros maravilhosos publicados, mas a maioria dos lançamentos ainda é bem ruim. As edições estão cada vez mais caprichadas e cuidadosas, mas sinto falta de mais textos arrebatadores, emocionantes, originais, realmente encantadores. Afinal, a literatura é o texto, a frase que nos provoca um sobressalto, a palavra certa no momento inesperado, as entrelinhas de uma cena, as brumas de uma personagem feita sob medida para se espalhar na gente para sempre.


RESENHANDO - Entre os novos escritores de literatura infantil, qual nome destaca? Por quê?
M. S. - Ah, eu destaco a Janaína Michalski, que é uma estrela da literatura infantil brasileira. Ela tem um texto forte e macio que demora dentro da gente. De fato, a Janaína é uma escritora brilhante. Seu livro de estreia é um dos mais bonitos e mais líricos que eu já li até hoje. Espero que ela já esteja escrevendo belezas novas. Bem, esse livro que eu recomendo se chama Onde o sol não alcança, e foi publicado pela Nova Fronteira. Como eu escrevo na quarta capa desse lançamento, mais do que contar a deliciosa história da amizade entre duas meninas vizinhas, e de um muro que as aproxima em vez de afastá-las, a Janaína atravessa fundo os sentimentos mais simples e sublimes que vamos deixando de lado ao longo do tempo, por causa das nossas pressas, dos nossos atropelos, das nossas perdas, dos nossos medos, da nossa falta de reparo no que é realmente essencial. 


PING-PONG
Gosto de: ouvir o riso mais desembestado do meu filho.
Detesto: gente que passa a frente de menino na fila. 
Vivo por: um prazer irresistível.
Meus escritores favoritos são: Mario Quintana, Luis Fernando Verissimo e Carlos Drummond de Andrade. 
Escrevo por: uma vontade profunda de me aproximar das pessoas e de mim mesmo, dos meus sentimentos, das minhas emoções, dos meus pensamentos.
Mensagem para o público: Fico bem feliz quando percebo que um leitor encontrou nos meus livros um silêncio de sono tirado, um suspiro preso no tempo, uma voz que ninguém ouvia, um reparo sem pressa, um sentimento que eu nem imaginava que existia na história. Não escrevo para passar mensagens. Eu escrevo para passar, e ficar, passar e ficar. 

sexta-feira, 2 de julho de 2010

.: Resenha crítica de "Toy Story 3", animação Disney e Pixar

A revolução dos brinquedos
Por: Mary Ellen Farias dos Santos
Em julho de 2010


Os brinquedos mais queridinhos de todo mundo no formato 3D. Saiba mais da animação Toy Story 3 e divirta-se!


Em "Toy Story 3", a nova produção dos estúdios Disney-Pixar, os brinquedos mais famosos do meio cinematográfico acabam indo "voluntariamente" para a creche Sunnyside. Tudo porque não interpretaram corretamente o que Andy, agora adolescente, pretendia fazer com eles (dentro de um saco de lixo preto). A verdade é que após ficarem esquecidos (e por que não abandonados?) em uma caixa de brinquedos, Andy acaba "reencontrando" os seus amigos de infância. No entanto, o tiro sai pela culatra.

É claro que Andy não vai brincar com Woody, Buzz Lightyear ou qualquer um dos outros. Após ficarem arrasados com o desinteresse de Andy, os ex-brinquedos do jovem "descobrem" que somente Woody será levado para a universidade. Sem saber o que o destino prometia... os brinquedos mantêm a esperança de uma nova vida. Afinal, Andy, seu verdadeiro dono, não quer mais brincar com eles. 

Confuso sobre o que fazer com os brinquedos Andy sabe perfeitamente que precisa esvaziar o seu quarto e decidir o que irá levar para o ambiente universitário, o que ficará para a irmãzinha, o que será doado para a creche e o que será guardado no sótão. Após colocar Woody em sua caixa para a universidade, os outros brinquedos vão parar em saco preto (cenas hilárias e até desesperadoras). 

Calma! Acha que Andy teria coragem de colocar os seus amigões no lixo? É claro que não. Entretanto, a mãe dele encontra o saco preto pelo caminho e... Oh, destino cruel! Para salvar a própria pele (o plástico e/ou pano), o grupo, menos Woody, decide entrar na caixa destinada à creche Sunnyside, local em que serão amados novamente. Pelo menos é o que esperam. Resumo da ópera: Muita confusão (na trama de colorido impecável).

Entretanto, Woody tenta explicar aos amigos todo o mal-entendido e acaba indo parar na "encantadora" creche. Inicialmente, tudo parece perfeito em Sunnyside. Ledo engano, o ursinho de pelúcia rosa com cheiro de morango, chamado Lotso Ursinho Fofo, não é tão amável quanto parecia ser. Sendo assim, o pesadelo dos brinquedos de Andy e da Barbie da irmã de Andy, ganha forma e dimensão inesperada. 

No decorrer do longa, os brinquedos de Andy ganham muitos companheiros e adversários que aumentam a adrenalina do expectador diante desta aventura surpreendente. De fato, grande parte do filme convence por trazer uma história inovadora, mesmo tratando-se de uma sequência. Contudo, Toy Story 3 têm momentos muito escuros (em 3D, é melhor tirar os óculos nestes momentos) e acabam diminuindo a dinâmica e agilidade da película. 

Outro ponto alto da nova animação é o fato de ter a Barbie e o Ken (estes que não foram autorizados pela marca para estrelarem os filmes anteriores) ao lado dos brinquedos cinematograficamente famosos. É agradável ver na telona estes modelos dos anos 80, principalmente para aqueles que brincaram com um exemplar destes. De fato, eu ainda tenho um Ken com esta roupa de lencinho e tenho que revelar, em seu formato original ele veio acompanhado de um macaquinho, seus cabelos são da cor marrom escuro -nada de ruivo- e seus sapatos são da cor cinza.

Não há como criticar negativamente um desenho que é simplesmente perfeito. Embora o 3D não seja suficientemente marcante (como em outros desenhos já lançados neste formato). Ao consideremos a história e a perfeição visual da animação, somente restam elogios. Até porque, o drama de Andy e a separação de seus brinquedos amados envolve tanto o público que não fica difícil derramar pelo menos uma lágrima que seja. Aproveite as férias para ver Toy Story 3. Você não vai se arrepender!

Filme: Toy Story 3 (Toy Story 3, EUA)
Ano: 2010
Gênero: Animação
Duração: 103 minutos
Direção: Lee Unkrich
Roteiro: Michael Arndt
Elenco no original: Ned Beatty, Joan Cusack (Jessie - voz), Wallace Shawn (Rex - voz), Whoopi Goldberg, Timothy Dalton (Voz), Michael Keaton (Ken - voz), John Ratzenberger (Porquinho), Tim Allen (Buzz Lightyear - voz), Jeff Garlin, Tom Hanks (Woody - voz)

.: Resenha crítica de "Plano B" com Jennifer Lopez

Mais uma história de amor às avessas (com Jennifer Lopez)
Por: Mary Ellen Farias dos Santos
Em julho de 2010


Uma pantera (a famosa "cougar" americana) com tudo no lugar sem conseguir alguém para amar. Saiba mais da comédia romântica Plano B!


Sabe aquele filminho que serve para distrair após uma semana corrida? Um filme para se ver a dois  e não pensar nos problemas do cotidiano? "Plano B" é justamente esse longa, ou seja, é o tipo de filme que não estabelece qualquer ligação mais profunda com seu expectador. A película simplesmente é projetada, passa diante de seus olhos e faz rir. 

A nova história de amor cinematográfica de J-Lo (às avessas? - nem tanto assim) é engraçadinho e consegue fazer o público dar boas (e altas) risadas. Neste, tudo começa quando Zoe (Jennifer Lopez), após tantos e tantos namoros sem futuro (e fruto), decide pular uma etapa (natural) da vida, ou seja, ela quer ser mamãe, sem ter alguém ao seu lado para ser papai.

Na falta de um amor verdadeiro (e de uma "barriga"), Zoe segue para uma inseminação artificial com total certeza do que está fazendo. Entretanto, neste mesmo dia ela conhece Stan (Alex O'Loughlin), homem que disputa o mesmo táxi com a nova mamãe do pedaço. A disputa não acaba muito bem. É claro que o ódio à primeira vista transforma-se, aos pouquinhos, em AMOR. Para não perder o homem ideal Zoe omite a verdade: não revela estar grávida (por inseminação artificial). 

A decisão de elevar o grau de amizade entre ambos fica mais difícil a cada minuto do longa, afinal, Zoe percebe que Stan é um bom homem, ou melhor, o homem de seus sonhos. Na tentativa de encontrar um ponto de equilíbrio entre ser mãe (por inseminação) e ter o parceiro ideal, Zoe deixa tudo acontecer naturalmente, ou seja, empurra com a barriga, até que tudo acaba vindo às claras.

Definitivamente Plano B é um filme fraquinho, mas consegue fazer o espectador relaxar, principalmente se considerarmos que rir é um grande remédio para esquecer os problemas enfrentados no cotidiano. Até porque as simples ou mais confusas "trapalhadas" da vida são sempre (mais, muito mais) engraçadas quando encenadas na telona do que na vida real. E você? Está sem planos? Um Plano B pode ser algo agradável por 106 minutos.

Filme: Plano B (The Back-up Plan, EUA)
Ano: 2010
Gênero: Comédia / Romance 
Duração: 106 minutos
Direção: Alan Poul 
Roteiro: Kate Angelo 
Elenco: Jennifer Lopez, Alex O'Loughlin, Eric Christian Olsen, Anthony Anderson, Linda Lavin, Michaela Watkins, Noureen DeWulf

quarta-feira, 2 de junho de 2010

.: Resenha crítica de "A Caixa", com Cameron Diaz e James Marsden

Uma caixa de segredos 99% monótonos
Por: Mary Ellen Farias dos Santos
Em junho de 2010


História sem pé nem cabeça e tão quadrada quanto uma caixinha. Saiba mais do longa "A Caixa", estrelado por Cameron Diaz, James Marsden e Frank Langella!


"A Caixa" (The Box) até consegue atrair a atenção do público pelo fato de ter bons atores em papeis de destaque, porém engana-se aquele que pensa estar diante de um grande filme. Embora a proposta do longa dirigido por Richard Kelly seja interessante e tenha cenários muito bem ambientados no ano de 1976, a missão mais difícil não é alcançada: o filme não convence, desde o texto à edição, tudo deixa a desejar. Resultado: Um filme sem nexo.

Neste longa de ficção científica o casal formado pelas estrelas Cameron Diaz (Norma Lewis) e James Marsden (Arthur Lewis), durante a madrugada, recebem uma misteriosa caixa de madeira e um envelope com o anúncio de uma ligação, às 17 horas. É nesta hora marcada que o senhor Steward, entra na casa dos Lewis. Desta forma, apresenta uma chave para abrir a caixa que, dentro, tem um botão. Sem muitas delongas, Norma fica ciente de cada detalhe do que poderá acontecer caso pressione o tal botão. Mas por que ela o pressionaria? Simples. Pela bagatela de 1 milhão de dólares em dinheiro, o que implicaria na morte de um estranho. Forte? Sim. Entretanto, há outro detalhe, caso os Lewis não aceitem, a oferta será feita para outra família de estranhos, de modo sucessivo.

Eis que surge a questão toda que dita o ritmo (lentíssimo) do filme. Na verdade, a professora e o engenheiro que trabalha para a NASA, ficam tentados com a proposta pelo fato de estarem em uma situação financeira bastante complicada. Diante de tamanha dúvida (cruel), eles que têm um filho, chamado Walter e viviam tranquilamente numa casa de subúrbio americano envolvem-se numa barca furada, sem direito a salva-vidas ou boias. 

Levando em consideração o orçamento de US$30 milhões, o trailer e a sinopse de A Caixa é possível esperar um filme interessante e envolvente. No entanto, o que se vê é um longa pretensioso mergulhado em um suspense desconexo, com uma série de revelações jogadas ao expectador em seus minutos finais. O longa de Richard Kelly baseado no conto de Richard Matheson que originou um episódio da série The Twilight Zone (Button, Button foi exibido em 1986), é totalmente diferente do original (o conto) e de seu antecessor (o episódio de The Twilight Zone). O longa-metragem simplesmente não consegue manter a tensão e nem mesmo envolver o espectador no drama e dilemas morais vividos pelos Lewis. Tudo aqui acontece de um modo tão lento que chega a dar muito, muito sono. 

Os efeitos ridiculamente ruins só confirmam a superficialidade desta história de ficção científica mal contada. Em contrapartida, está a ideia que mais aborrece: a de um "recomeço" desta história. É então, que fica inevitável dizer: - Não, não. Chega! Um só já é o suficiente para sequelar qualquer mente sã. 

Extras do DVD e Blu-ray: Menu interativo; Seleção de cenas; Formato de Tela: Widescreen 16:9; Áudio: Dolby Digital 2.0 (Inglês e Português); Legendas: Espanhol, Inglês e Português.

Filme: A Caixa (The Box, EUA)
Ano: 2009
Gênero: Ficção Científica
Duração: 115 minutos
Direção: Richard Kelly
Roteiro: Linda Wolverton 
Elenco: Cameron Diaz, James Marsden, Frank Langella

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