quinta-feira, 9 de abril de 2026

.: CCBB SP recebe "Desassossego" em parceria histórica entre grupos teatrais


CCBB SP recebe "Desassossego", que une Fernando Pessoa e parceria histórica entre grupos teatrais. 
Montagem marca a colaboração de 20 anos entre a Pequena Companhia de Teatro (São Luís - MA) e a Cia. A Máscara de Teatro (Mossoró - RN). Foto: Mar Pereira
 
 
Na "Ocupação Maranhense: 20 Anos da Pequena Companhia de Teatro", o CCBB SP recebe o espetáculo inspirado no "Livro do Desassossego", de Fernando Pessoa, que encerra a mostra comemorativa das duas décadas de trajetória do grupo. Entre os dias 9 e 20 de abril de 2026, a maranhense Pequena Companhia de Teatro apresenta o espetáculo "Desassossego", com dramaturgia de Marcelo Flecha e que encerra a temporada de comemoração de 20 anos de trajetória do grupo no Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo, com entrada gratuita.

"Desassossego" marca uma parceria entre a Pequena Companhia de Teatro e a Cia. A Máscara de Teatro. Os dois grupos mantêm colaboração artística há duas décadas. Em 2005, Marcelo Flecha dirigiu o primeiro espetáculo d’A Máscara e, ao longo dos anos, os grupos realizaram montagens em conjunto, como Medea e Deus Danado. Nesta nova criação, a parceria assume caráter integrado: a partir de discussões sobre o tema e do interesse comum pela obra de Pessoa, as companhias desenvolveram coletivamente o projeto. O elenco reúne os dois atores d’A Máscara - Luciana Duarte e Jeyzon Leonardo - com direção de Flecha e produção de Katia Lopes, configurando uma coprodução estruturada desde a concepção até a realização.
 
Inspirado no "Livro do Desassossego", de Fernando Pessoa, a peça é um convite para o espectador mergulhar em uma experiência cênica sensorial, emotiva, divertida e provocadora. Luciana Duarte e Jeyzon Leonardo são personagens de si mesmos em uma comédia constrangedora para sorrisos amarelos, encenada por Marcelo Flecha. Na busca pela cena perfeita, tentando construir um novo espetáculo, eles convidam o público a invadir um processo de montagem e ver de maneira escancarada todos os desassossegos, descompassos e descaminhos do mundo teatral, se deparando com a metáfora perfeita do que é a vida humana cotidiana, no seu aspecto mais puro. Afinal, nem o teatro imita a vida, nem a vida imita o teatro, tudo faz parte do mesmo caos.

A montagem integra o conjunto de quatro obras apresentadas na "Ocupação", todas com dramaturgia de Marcelo Flecha e livremente inspiradas em textos de autores da literatura mundial, como Franz Kafka, Gabriel García Márquez e Jorge Luis Borges e Fernando Pessoa. Criada em 2005, a Pequena Companhia de Teatro é formada pelos atores Cláudio Marconcine e Jorge Choairy, pelo encenador e dramaturgo Marcelo Flecha e pela produtora Katia Lopes. O grupo se consolidou como uma das principais referências do teatro maranhense contemporâneo, com circulação por 72 cidades de 25 estados brasileiros e participação em 70 festivais e mostras nacionais. 

Ao longo de sua trajetória, recebeu quatro Prêmios Funarte de Teatro Myriam Muniz e integrou importantes projetos de circulação, como Palco Giratório, Sesc Amazônia das Artes e SESI Viagem Teatral. Até o final da programação, o público pode visitar a Pequena Mostra de Teatro, exposição instalada no foyer do CCBB São Paulo que reúne registros de duas décadas de pesquisa do grupo, com figurinos, cenografias, diários de processo e materiais de criação.


Serviço
"Ocupação Maranhense: 20 Anos da Pequena Companhia de Teatro"
De 26 de fevereiro a 20 de abril de 2026
Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo 
R. Álvares Penteado, 112, Centro Histórico de São Paulo / SP
Grátis na bilheteria do CCBB SP e pelo bb.com.br/cultura 
Os ingressos são liberados na sexta-feira da semana anterior, às 12h00.
 
Teatro
"Desassossego", livremente inspirado no "Livro do Desassossego", de Fernando Pessoa
De 9 a 20 de abril de 2026
Quinta, sexta e segunda-feira, às 19h00 | sábado e domingo, às 18h00
Classificação etária: 14 anos | Duração: 60 minutos | Gênero: comédia constrangedora para sorrisos amarelos
Bate-papo após sessão: 18 de abril | sábado 
Sessão Inclusiva (intérprete de libras): 12/04 | domingo
 
Ficha técnica
Espetáculo "Desassossego"
Elenco: Luciana Duarte e Jeyzon Leonardo
Dramaturgia: Marcelo Flecha e Cia. A Máscara de Teatro
Encenação: Marcelo Flecha
Cenografia, iluminação, figurinos e trilha sonora: Marcelo Flecha e Cia. A Máscara de Teatro
Operador de luz e som: Luciana Duarte e Jeyzon Leonardo
Produção: Luciana Duarte e Katia Lopes
Realização: Cia. A Máscara de Teatro e Pequena Companhia de Teatro
 
No Foyer do Teatro
Exposição Pequena Mostra de Teatro
Até dia 20 de abril 
Dias: Todos os dias, exceto às terças-feiras 
Horário: 9h00 às 20h00
Classificação etária: livre 
Entrada: gratuita 
 
Informações CCBB SP
Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo
Endereço: Rua Álvares Penteado, 112 - Centro Histórico / São Paulo
Funcionamento: Aberto todos os dias, das 9h00 às 20h00, exceto às terças-feiras
Telefone: (11) 4297-0600 
Estacionamento: o CCBB possui estacionamento conveniado na Rua da Consolação, 228 (R$ 14 pelo período de 6 horas - necessário validar o ticket na bilheteria do CCBB). O traslado é gratuito para o trajeto de ida e volta ao estacionamento e funciona das 12h00 às 21h00. 
Van: ida e volta gratuita, saindo da Rua da Consolação, 228. No trajeto de volta, há também uma parada no metrô República. Das 12h00 às 21h00. 
Transporte público: o CCBB fica a 5 minutos da estação São Bento do Metrô. Pesquise linhas de ônibus com embarque e desembarque nas Ruas Líbero Badaró e Boa Vista. 
Táxi ou Aplicativo: desembarque na Praça do Patriarca e siga a pé pela Rua da Quitanda até o CCBB (200 m). 
Entrada acessível: pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida e outras pessoas que necessitem da rampa de acesso podem utilizar a porta lateral localizada à esquerda da entrada principal. 

.: "O Drama" mostra Zendaya no papel melhor e mais desafiador da carreira


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

A estreia de “O Drama” chega à Rede Cineflix e aos cinemas brasileiros apostando na inquietação silenciosa das relações amorosas. Dirigido e roteirizado pelo norueguês Kristoffer Borgli, o longa-metragem confirma o interesse do cineasta por personagens desconfortáveis e situações emocionalmente ambíguas. Com Zendaya no papel melhor e mais desafiador da carreira, o desconforto ganha contornos mais íntimos ao acompanhar a derrocada de um relacionamento às vésperas do casamento.

Na trama, Emma e Charlie, vividos por Zendaya e Robert Pattinson, formam um casal aparentemente estável cuja rotina é atravessada pela revelação de um segredo do passado. O que poderia soar como um ponto de partida convencional transforma-se em motor de uma história que vai para o lado do estranhamento. Borgli constrói um jogo psicológico em que o espectador é convocado a lidar com a mesma confusão dos personagens, recusando explicações e deslocando o interesse para as reações, não para o fato em si.

A recepção crítica internacional tem destacado justamente essa escolha. O filme foi descrito como uma obra que parece deliberadamente construída para provocar debate. É uma história que tem um apelo universal, centrada na tensão entre aquilo que se imagina sobre o outro e aquilo que ele de fato é ou sempre foi. Parte da força do filme reside na química pouco convencional entre os protagonistas. Longe do romantismo idealizado, Zendaya e Pattinson investem em uma dinâmica marcada por desencontros, olhares atravessados e pausas incômodas. O resultado é uma relação que soa mais próxima do real do que da fantasia, reforçando a proposta do diretor de desmontar expectativas narrativas e afetivas.

Nos bastidores, algumas curiosidades ajudam a dimensionar o projeto. Antes das filmagens, Borgli recomendou ao elenco títulos como "Bob & Carol & Ted & Alice" (1969) e "Melancolia" (2011), além de "A Paixão de Ana" (1969), cuja influência aparece inclusive na cenografia do filme. Outro detalhe curioso é o livro fictício "The Damage", que surge na abertura como dispositivo narrativo e já foi anunciado pelo diretor como um possível projeto futuro. E, em um tom quase anedótico, a atriz Alana Haim revelou ter ficado levemente embriagada durante as gravações ao consumir grandes quantidades de suco de uva usado como substituto para o vinho em cena.

“O Drama” também marca uma ruptura na trajetória de Borgli por ser o primeiro longa-metragem dele a não estrear em festivais, tendo sido lançado diretamente em uma exibição em Los Angeles. A escolha sinaliza uma aposta maior no circuito comercial e no potencial de discussão que o filme pode gerar fora do ambiente tradicional de premiações. O filme se sustenta como um estudo incômodo sobre amor, expectativa e identidade.

Ficha técnica
O Drama” | “The Drama” (título original)

Gênero: drama.
Duração: 1h45.
Classificação indicativa: 16 anos.
Ano de produção: 2026.
Idioma: Inglês.
Direção: Kristoffer Borgli.
Roteiro: Kristoffer Borgli.
Elenco: Robert Pattinson, Zendaya, Alana Haim, Mamoudou Athie.
Distribuição no Brasil: Diamond Films.
Cenas pós-créditos: não.

Assista no Cineflix Cinemas mais perto de você
As principais estreias da semana podem ser assistidas na rede Cineflix CinemasPara acompanhar as novidades da Cineflix mais perto de você, acesse a programação completa da sua cidade no app ou site a partir deste link. No litoral de São Paulo, as estreias dos filmes acontecem no Cineflix Santos, que fica no Miramar Shopping, à rua Euclides da Cunha, 21, no Gonzaga. Consulta de programação e compra de ingressos neste link: https://vendaonline.cineflix.com.br/cinema/SANO Resenhando.com é parceiro da rede Cineflix Cinemas desde 2021.

“O Drama” no Cineflix Miramar | Santos
De 9 a 15 de abril | Sessões no idioma original | Sala 2 | 20h10.
No Miramar Shopping | Rua Euclides da Cunha, 21 - Gonzaga - Santos / São Paulo.
Ingressos neste link

.: ºAndar recebe "A Última Valsa de Zelda Fitzgerald", com Larissa da Matta


Espetáculo devolve protagonismo a essa grande artista apagada pela história por conta dos erros cometidos pelo marido. Foto: divulgação


O solo "A Última Valsa de Zelda Fitzgerald", com atuação e concepção de Larissa da Matta revisita a trajetória dessa grande escritora, poetisa, pintora e dançarina estadunidense para além do mito de musa, construído a seu respeito nos anos 1920. O espetáculo tem sua temporada de estreia no espaço º Andar, de 9 a 24 de abril, com sessões às quintas e sextas-feiras, às 20h00. O trabalho, com dramaturgia da própria intérprete em parceria com Pedro Amaral, também lança luz sobre o silenciamento dessa mulher pela fama e pelo plágio artístico cometido pelo marido F. Scott Fitzgerald

Por muito tempo, Zelda foi lembrada mais como símbolo de uma época do que como autora da própria história. Associada ao brilho da Era do Jazz, à imagem da mulher excessiva e à fama de seu marido, escritor de "O Grande Gatsby" e outros marcos da Literatura mundial, sua trajetória foi frequentemente reduzida a estereótipos que a colocavam no lugar da musa, da esposa difícil e da figura instável. O solo teatral resgata a complexidade de uma mulher artista, escritora e pensadora, cuja voz foi tantas vezes abafada pela narrativa construída ao seu redor. 

O espetáculo propõe ao público uma imersão na vida e obra de Zelda para além do imaginário romântico e trágico que a transformou em personagem secundária de uma história masculina. Em cena, sua história emerge como a de uma mulher em conflito com o tempo em que viveu, com o casamento que a atravessou, com a disputa pela autoria da própria vida e com as tentativas insistentes de afirmar sua criação em um mundo que parecia disposto a lhe negar lugar. 

A peça acompanha Zelda desde seu início no sul dos Estados Unidos à consagração social nos anos 1920, passando pelos embates de seu casamento com Scott Fitzgerald, pelas tensões entre vida íntima e produção artística, pela vontade de existir para além da figura de esposa célebre e pelo agravamento de sua saúde mental. Entre festas, delírios, memórias e internações, o espetáculo constrói o retrato de uma mulher intensa, contraditória e profundamente humana. 


Sobre a montagem
Mais do que revisitar uma personagem histórica, "A Última Valsa de Zelda Fitzgerald" se conecta de maneira direta com o presente. Em um contexto em que as mulheres ainda precisam lutar por espaço, autoria e reconhecimento, o espetáculo transforma a experiência de Zelda em um gesto de reescrita simbólica. Ao colocá-la em foco, a montagem propõe uma reflexão sobre quantas artistas foram reduzidas a notas de rodapé, quantas tiveram sua criação absorvida pela fama de homens ao redor, e quantas ainda precisam lutar para existir com voz própria. 

Com linguagem intimista e força narrativa, o solo se apresenta como uma experiência capaz de dialogar tanto com o público interessado em literatura, história da arte e artes da cena quanto com espectadores atraídos por histórias de mulheres intensas e profundamente contemporâneas em suas contradições. Ao trazer Zelda Fitzgerald de volta ao palco, o espetáculo não apenas revisita o passado: ele questiona os mecanismos que seguem produzindo apagamentos no presente. 

A montagem marca ainda a primeira produção assinada pelo Foyer, plataforma de comunicação, cultura e criação de projetos autorais, ampliando sua atuação para o campo da produção teatral e reforçando seu compromisso com obras que articulam arte, pensamento e relevância contemporânea.

Sobre os criadores
Pedro Amaral é roteirista, apresentador, produtor cultural e empreendedor criativo. Pós-graduado em Dramaturgia pelo Célia Helena, atua na interseção entre comunicação, audiovisual, teatro e mercado artístico. É fundador do Foyer, plataforma de comunicação e produção de conteúdo dedicada à cultura, às artes e à criação de projetos autorais. 


Sobre a atriz
Larissa da Matta é atriz, dançarina, performer, dramaturga, arte-educadora e pesquisadora. Pós-graduada em Direção e Atuação pela Escola Superior de Artes Célia Helena, desenvolveu pesquisa baseada no eixo de Dramaturgias do Corpo, em que investigou corporalmente a vida e a obra de mais de 40 mulheres artistas do século XVI ao século XXI, pertencentes a diversos períodos da história das artes plásticas e visuais, resultando em uma dramaturgia e monólogo teatral autorais sobre a vida e obra de Zelda Fitzgerald. Bacharela e licenciada em Teatro pela Escola Superior de Artes Célia Helena, também possui formação em História da Arte com o Prof. Dr. Rodrigo Naves, pela Difusão Cultural SP, abrangendo do Pré-Renascimento à Arte Contemporânea. Além disso, é formada em Danças Urbanas pelo Centro de Artes Lílian Gumieiro. Atuou em produções internacionais como a peça chilena Granada, apresentada no MIRADA – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, e participou de festivais e formações na Rússia, incluindo o Teatro de Arte de Moscou e o Festival Internacional de Escolas de Teatro dos países do BRICS, integrando o elenco de Édipo Rei, dirigido por Valentin Teplyakov. 


Serviço
Espetáculo "A Última Valsa de Zelda Fitzgerald", com Larissa da Matta
Temporada: 9 a 24 de abril de 2026
Às quintas e sextas-feiras, às 20h00
⁰Andar  - Rua Dr. Gabriel dos Santos, 88 – Santa Cecília / São Paulo (a 6 minutos da estação Marechal Deodoro do metrô)
Ingressos: R$ 30,00 a R$ 60,00 via Sympla ou na bilheteria do espaço ( aceita cartão, pix e dinheiro)
Estacionamento conveniado: Rua Dr. Gabriel dos Santos, 131
Orientação: retirar carimbo na Bilheteria
Pagamento: Pix e débito (R$ 20,00 preço único)
Classificação: 14 anos
Duração: 70 minutos

.: “Pai Mãe Irmã Irmão” expõe as fissuras das "sagradas" famílias contemporâneas


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

Vencedor do Leão de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Veneza, “Pai Mãe Irmã Irmão” estreia na Rede Cineflix e nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, dia 9 de abril. Escrito e dirigido por Jim Jarmusch, o longa-metragem reafirma o estilo do diretor - observacional, econômico e com pitadas de humor seco - ao transformar encontros familiares em territórios de tensão, constrangimento e, por vezes, afeto tardio.

Dividido em três capítulos ambientados nos Estados Unidos, na Irlanda e na França, o filme constrói um tríptico que investiga relações entre pais e filhos adultos marcadas por distanciamentos emocionais. Em cena, um elenco que chama atenção tanto pelo prestígio quanto pela diversidade de registros: Adam Driver e Mayim Bialik vivem irmãos que visitam um pai errático interpretado por Tom Waits; Cate Blanchett e Vicky Krieps encarnam filhas que orbitam uma mãe enigmática vivida por Charlotte Rampling; enquanto Indya Moore e Luka Sabbat protagonizam o segmento mais melancólico, centrado em irmãos que revisitam memórias após a morte dos pais.

A crítica internacional, em veículos como a The New Yorker e o The Guardian, destacou o caráter quase experimental da obra, que repete elementos narrativos entre os episódios para criar paralelos entre diferentes configurações familiares. A estrutura, embora simples na superfície, opera como um estudo de variações: os mesmos gestos, pausas e objetos reaparecem, revelando o que muda e o que fica nas relações afetivas. Em vez de grandes conflitos, Jarmusch aposta naquilo que escapa às palavras, transformando o banal em matéria dramática.

Há também uma dimensão curiosa no projeto: após a recepção dividida de “Os Mortos Não Morrem” (2019), o diretor retorna a um cinema mais íntimo e menos satírico, quase como um gesto de retração criativa. Ainda assim, o filme preserva uma das marcas mais reconhecíveis dele, que é a capacidade de reunir grandes nomes em performances contidas, em que o gesto mínimo substitui o excesso. A crítica agregada em plataformas como Rotten Tomatoes indica aprovação majoritária, com elogios ao elenco e à delicadeza do olhar, ainda que parte do público aponte o ritmo contemplativo como um obstáculo.

Distribuído no Brasil pela MUBI em parceria com a Imovision, “Pai Mãe Irmã Irmão” chega em circuito selecionado, mirando um público disposto a desacelerar. Ao final, pais seguem sendo enigmas, filhos acumulam ruídos, e a família permanece como um território onde o amor raramente se organiza de forma simples.


Ficha técnica
“Pai Mãe Irmã Irmão” | “Father Mother Sister Brother” (título original)| 
Gênero: comédia dramática
Duração: 110 minutos
Classificação indicativa: 14 anos
Ano de produção: 2025
Idiomas: inglês e francês
Direção: Jim Jarmusch
Roteiro: Jim Jarmusch
Elenco: Tom Waits, Adam Driver, Mayim Bialik, Cate Blanchett, Charlotte Rampling, Vicky Krieps, Indya Moore, Luka Sabbat, Sarah Greene, Françoise Lebrun
Distribuição no Brasil: MUBI / Imovision
Cenas pós-créditos: não.

Assista no Cineflix Cinemas mais perto de você
As principais estreias da semana podem ser assistidas na rede Cineflix CinemasPara acompanhar as novidades da Cineflix mais perto de você, acesse a programação completa da sua cidade no app ou site a partir deste link. No litoral de São Paulo, as estreias dos filmes acontecem no Cineflix Santos, que fica no Miramar Shopping, à rua Euclides da Cunha, 21, no Gonzaga. Consulta de programação e compra de ingressos neste link: https://vendaonline.cineflix.com.br/cinema/SANO Resenhando.com é parceiro da rede Cineflix Cinemas desde 2021.

Pai Mãe Irmã Irmão" no Cineflix Miramar | Santos
De 9 a 15 de abril | Sessões legendadas | Sala 1 | 21h00.
De 9 a 15 de abril | Sessões legendadas | Sala 3 | 18h00.
No Miramar Shopping | Rua Euclides da Cunha, 21 - Gonzaga - Santos / São Paulo.
Ingressos neste link

.: Renan Marcondes estreia espetáculo "A Primeira Dança" no Sesc Ipiranga


Performance-palestra convida o público a pensar naquilo que chamamos de dança e como ela pode existir para além de uma demonstração técnica. Foto: Tetembua Dandara 


O que é a dança para você? Em uma tentativa de pensar mais profundamente nessa arte, o performer, coreógrafo e autor Renan Marcondes criou a palestra performance "A Primeira Dança", que tem três apresentações de estreia no auditório do Sesc Ipiranga, entre os dias 10 e 12 de abril, na sexta-feira, às 21h30, e no sábado e domingo, às 18h30.

O trabalho aborda as primeiras danças da humanidade, assim como suas versões sociais e pessoais. A fala, acompanhada por imagens e dança, convida o público a pensar sobre aquilo que chamamos de dança e sobre como ela pode existir para além de uma demonstração técnica, podendo também falar dos limites e aprendizados do corpo.

Esse novo trabalho, criado especialmente para o projeto Caixa de Dança, dá continuidade ao interesse do artista pelos fins do corpo e seus rastros. Para isso, o artista usa da mediação como recurso dramatúrgico para a dança contemporânea, como já investigado em projetos recentes como "Cartas Para Danças" (2023) e "Fantasias Brasileiras" (2024).

“A Primeira Dança” é uma palestra performance sobre as primeiras danças da humanidade, assim como suas versões sociais e pessoais. A fala, acompanhada por imagens e dança, convida o público a pensar sobre aquilo que chamamos de dança e sobre como ela pode existir para além de uma demonstração técnica, podendo também falar dos limites e aprendizados do corpo.


Sobre o projeto Caixa de Dança
A segunda edição do “Caixa de Dança - Coreografias no Entretempo" aprofunda a investigação sobre corpo, espaço e tempo na dança contemporânea, deslocando o foco para múltiplas temporalidades - cronológicas, simbólicas, ancestrais e espirais. Entre espetáculos, oficinas e conversas, o projeto propõe o tempo como matéria coreográfica, afirmando a dança como prática crítica, sensível e capaz de reinventar modos de perceber o corpo, a memória e o mundo.


Ficha técnica
Espetáculo “Caixa de Dança - Coreografias no Entretempo"

Concepção, direção, texto e performance: Renan Marcondes
Assistência de direção e coreografia: Carolina Callegaro
Trilha sonora, desenho de luz e operação técnica: Cauê Gouveia
Aulas e colaboração coreográfica: Ale Kalaf e Bibi Vieira
Cenotecnia: Matias Ivan Arce
Produção e fotos: Tetembua Dandara
Assessoria de imprensa: Pombo Correio
Registro em vídeo: Bruta Flor Filmes
Agradecimentos: Ana Teixeira, Artur Kon e Chico Lima
Produzido dentro do polo de criação Pérfida Iguana, nos anos de 2025 e 2026.


Serviço
"A Primeira Dança", de Renan Marcondes
Apresentações: 10 a 12 de abril de 2026
Na sexta-feira, às 21h30, e no sábado e domingo, às 18h30
Sesc Ipiranga - Auditório - Rua Bom Pastor, 822, Ipiranga, São Paulo
Ingressos: R$50,00 / R$25,00 / R$15,00 Vendas on-line no site sescsp.org.br e presencial em qualquer unidade do Sesc São Paulo.
Classificação: 12 anos.
Duração: 50 minutos.
Acessibilidade: espaço acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida.

.: “O Mago do Kremlin” transforma Putin em personagem de suspense


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

“O Mago do Kremlin” chega à Rede Cineflix e aos cinemas brasileiros cercado por expectativa e curiosidade, não apenas pelo tema - os bastidores do poder russo - mas também pelo encontro de nomes de peso diante e atrás das câmeras. Dirigido pelo cineasta francês Olivier Assayas, conhecido por obras que transitam entre o político e o íntimo, o longa-metragem adapta o romance homônimo de Giuliano da Empoli e transforma em narrativa cinematográfica a engrenagem invisível que sustenta líderes e regimes.

O filme acompanha a trajetória de Vadim Baranov, interpretado por Paul Dano, um produtor de televisão que ascende ao núcleo do poder ao se tornar conselheiro de Vladimir Putin, vivido por Jude Law. A trama se constrói como um jogo de manipulação simbólica, no qual política e espetáculo se confundem, sugerindo que governar também é dirigir narrativas e controlar versões da realidade.

Assayas divide o roteiro com Emmanuel Carrère, reforçando a densidade literária da adaptação. O texto preserva o tom analítico do livro, ao mesmo tempo em que aposta em um suspense de atmosfera, mais interessado em tensões psicológicas do que em ação explícita. Nesse sentido, o filme dialoga com tradições do cinema político europeu, privilegiando silêncios, olhares e jogos de poder nos bastidores.

O elenco reúne ainda Alicia Vikander, vencedora do Oscar, compondo um trio central que carrega o peso dramático da narrativa. Vikander e Law voltam a contracenar após trabalharem juntos em “O Jogo da Rainha” (2023), o que adiciona uma camada de familiaridade à dinâmica entre os personagens. A produção também chama atenção pela rapidez: as filmagens principais ocorreram em Riga, na Letônia, em março de 2025, apenas cinco meses antes da estreia no Festival de Cinema de Veneza, um intervalo incomum para produções desse porte.

Outro ponto curioso envolve a recepção em festivais. Durante uma exibição no Festival Internacional de Cinema de Toronto, o ator Paul Dano respondeu com humor a perguntas do público, revelando bastidores descontraídos que contrastam com o clima denso do filme. Já a escolha de ambientar parte da narrativa nos anos finais da União Soviética amplia o escopo histórico da obra, sugerindo que o presente político é resultado de narrativas cuidadosamente construídas ao longo do tempo.

“O Mago do Kremlin” se insere, assim, em uma tradição recente de filmes que investigam o poder como encenação, ecoando discussões contemporâneas sobre fake news, propaganda e manipulação midiática. Ao transformar a política em espetáculo e o espetáculo em ferramenta de governo, o longa propõe uma reflexão inquietante: quem escreve o roteiro da realidade?


Ficha técnica
“O Mago do Kremlin” | "Le Mage du Kremlin" (título original)
Gênero: suspense político, drama.
Duração: 2h26m.
Classificação indicativa: 16 anos.
Ano de produção: 2026.
Idioma: francês.
Direção: Olivier Assayas.
Roteiro: Olivier Assayas e Emmanuel Carrère.
Elenco: Paul Dano, Jude Law, Alicia Vikander.
Distribuição no Brasil: Imagem Filmes.
Cenas pós-créditos: não.

Assista no Cineflix Cinemas mais perto de você
As principais estreias da semana podem ser assistidas na rede Cineflix CinemasPara acompanhar as novidades da Cineflix mais perto de você, acesse a programação completa da sua cidade no app ou site a partir deste link. No litoral de São Paulo, as estreias dos filmes acontecem no Cineflix Santos, que fica no Miramar Shopping, à rua Euclides da Cunha, 21, no Gonzaga. Consulta de programação e compra de ingressos neste link: https://vendaonline.cineflix.com.br/cinema/SANO Resenhando.com é parceiro da rede Cineflix Cinemas desde 2021.

“O Mago do Kremlin” no Cineflix Miramar | Santos
De 9 a 15 de abril | Sessões no idioma original | Sala 2 | 20h10.
No Miramar Shopping | Rua Euclides da Cunha, 21 - Gonzaga - Santos / São Paulo.
Ingressos neste link

.: Manual Crônico: a carteira de mamãe, não qualquer carteira


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.
 

Mamãe não carrega mais a carteira, mas carregava. Não qualquer carteira, mas uma toda sua, cheia de graça e charme. Comprida, com um fecho frontal dourado e espaçosa o suficiente para que pudesse sustentar o mundo. Papai também tinha a sua, que nunca deixou de carregar consigo. Ia sempre no bolso traseiro da bermuda ou da calça. Nunca saía sem ela. Às vezes, dormia com a nádega direita protuberante. O apego aumentou depois que começou a emprestar dinheiro a juros aos amigos da rua. Coisa pouca, porque papai nunca quis ser agiota. Em seus últimos dias, a carteira estava rechonchuda.

Já mamãe era pouco apegada à sua. Seus bolsos não davam conta do tamanho da carteira, de modo que restava o sovaco como alcova. Dia de feira?, carteira no sovaco; hora do mercado?, carteira debaixo do braço; domingo de Missa?, carteira na axila. Assim, a carteira ia e vinha, sempre que se fazia necessário. Depois, nada de bolsinha de moedas, nada de depósito de cédulas, nada de algibeira de sovaco. Era como se não existisse.

Existia, sim, nessa época, um cheiro todo particular de mamãe. Não há motivo, mas sempre que esse cheiro me vem à memória, vem junto a carteira. Era uma época difícil: alta inflação, produtos caros, preços mudando o tempo todo, recursos escassos. Até o trabalho às vezes faltava. Mas nunca, nunca, a carteira de mamãe deixou faltar. Ainda que não soubéssemos dela no dia a dia, na hora do vamos ver, carteira sob o sovaco e prato cheio na mesa.

O sustento da casa era provido quase todo por papai. Mas a bolseira era mamãe. Sabia a dose de tudo. Pingava dia a dia o custo do aluguel, o peso do frango, o pirulito do recreio. Também com suas mãos produzia o recheio da carteira. Mamãe era doceira. Com bolos e quitutes adoçava os lábios da clientela e abrandava os apertos do fim do mês. Talvez por isso o cheiro que associo à mamãe, quando me lembro da carteira, seja doce.

Hoje, a carteira de papai virou relíquia. Mamãe não carrega mais a sua sob o sovaco, porque mamãe ficou moderna: usa cartão de débito e crédito e está em processo lento de conversão ao Pix. Mas o cheiro doce ainda insiste na memória, a hora da missa ainda desperta minha lembrança, e os apertos do fim do mês não a afligem mais. Em certos aspectos, eles me alcançam, de modo que sonho em ter uma carteira para carregar debaixo da axila.

Assim, peço aos senhores e senhoras que me leem: façamos um esforço, unamo-nos em uníssono e peçamos ao Ministro que crie o Pix de carteira sob o braço, que se possa carregar nas horas de apuros. Certamente, as crianças se sentirão mais seguras e saberão que para tudo se dá um jeito. Uma carteira debaixo do braço pode garantir o sossego mundial.

.: Leitura Miau: “As Crias de Babalon”, de Guilherme de Assis Pinto


Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas

“As Crias de Babalon: Contos das Abominações” do autor Guilherme de Assis Pinto, editado pela Costelas Felinas Editora, é uma obra singular e inquietante, que se destaca por sua imersão profunda em lendas obscuras raramente exploradas na literatura contemporânea. Guilherme de Assis Pinto constrói uma narrativa envolvente e perturbadora, conduzindo o leitor por um universo onde o desconhecido deixa de ser apenas sugestão e passa a assumir formas concretas, sombrias e, muitas vezes, aterradoras. Trata-se de uma coletânea que não apenas resgata mitos marginalizados, mas também os ressignifica com densidade e ousadia.

Cada conto funciona como um portal para um submundo habitado por criaturas animalescas, inusitadas e perigosas, cuja existência desafia os limites da razão. Essas entidades, que parecem coexistir silenciosamente com a humanidade, são apresentadas como presenças ancestrais - ocultas, porém constantes. Mesmo diante da possível extinção humana, tais seres persistiriam, reforçando a ideia de que o horror não depende da nossa existência para se perpetuar.

A obra se configura como uma reflexão densa sobre o mal em sua essência mais primitiva. Outro aspecto relevante da obra é sua construção estética e simbólica. A linguagem, marcada por um tom atmosférico e introspectivo, contribui para a criação de uma experiência imersiva, na qual cada palavra parece cuidadosamente escolhida para intensificar a tensão narrativa. Além disso, o livro se destaca por sua capacidade de dialogar com tradições clássicas do terror, ao mesmo tempo em que apresenta uma identidade própria. Elementos que remetem ao folclore, à mitologia e ao imaginário coletivo são reinterpretados sob uma perspectiva contemporânea e essa combinação torna a experiência ainda mais instigante.

terça-feira, 7 de abril de 2026

.: Cineflix Santos estreia "Pai mãe irmã irmão", "O Drama" e "O Mago do Kremlin"

"O Dramaé uma das estreias Cineflix Cinemas de Santos


A unidade Cineflix Cinemas de Santos, localizada no Shopping Miramar, apresenta a estreia de três filmes, a partir de 9 de abril, o romance "O Drama" com Zendaya e Robert Pattinson, o thriller político, ficção "O Mago do Kremlin", com  Paul Dano e Jude Law, além do drama comédia com Adam Driver e Cate Blanchett, "Pai mãe irmã irmão"

A Cineflix Santos segue em cartaz com a animação "Super Mario Galaxy: O Filme", a comédia de ação policial nacional com Fernanda Montenegro e Ary Fontoura, "Velhos Bandidos" e a ficção científica "Devoradores de Estrelas". Compre antecipadamente os ingressos aquihttps://vendaonline.cineflix.com.br/cinema/SAN.

Estão disponíveis para venda baldes colecionáveis da animação "Super Mario Galaxy: O Filme" e "Cara de Um, Focinho de Outro"A unidade de Cinemas Cineflix Santos, fica no Miramar Shopping, à rua Euclides da Cunha, 21, no Gonzaga.


"O Drama" (The Drama). Gênero: Comédia, Drama, RomanceDireção e Roteiro: Kristoffer BorgliDuração: 1h 50 minutos. Distribuição: Diamond Films. Elenco: Zendaya, Robert Pattinson, Alana Haim, Mamoudou Athie, Zoë Winters. Sinopse: A trama acompanha um casal (Zendaya e Robert Pattinson) nos preparativos finais para o seu casamento. A relação é abalada quando revelações inesperadas e segredos inimagináveis vêm à tona, forçando-os a questionar o quanto realmente conhecem um ao outro e o futuro da união

"O Mago do Kremlin" (The Wizard of the Kremlin (Le Mage du Kremlin)). Gênero: Suspense Político, Drama. Direção: Olivier Assayas. Roteiro: Olivier Assayas e Emmanuel Carrère. Baseado em: Romance homônimo de Giuliano da Empoli. Duração: 2h 26 minutos. Distribuição: Imagem Filmes. Elenco: Paul Dano (Vadim Baranov), Jude Law (Vladimir Putin), Alicia Vikander. Sinopse: Suspense político francês dirigido por Olivier Assayas, baseado no livro de Giuliano da Empoli. O filme narra a ascensão de Vadim Baranov (Paul Dano), produtor de TV que se torna a "eminência parda" de Vladimir Putin (Jude Law), explorando os bastidores do poder russo.

"Pai mãe irmã irmão" (Father Mother Sister Brother). Gênero: Comédia Dramática, TrípticoDireção e Roteiro: Jim JarmuschDuração: 1h 50 minutos. Distribuição: Mubi / Imovision Elenco: Tom Waits, Adam Driver, Mayim Bialik, Charlotte Rampling, Cate Blanchett, Vicky Krieps, Sarah Greene, Indya Moore, Luka Sabbat, Françoise Lebrun. Sinopse: O filme narra três histórias focadas em relações entre filhos adultos e pais distantes, ambientadas em locais diferentes: o nordeste dos EUA (Pai), Dublin (Mãe) e Paris (Irmã/Irmão)

"Super Mario Galaxy: O Filme" (The Super Mario Galaxy Movie). Gênero: Animação, Aventura, Comédia. Direção: Aaron Horvath e Michael Jelenic. Roteiro: Matthew Fogel. Duração: 1h 39 minutos.  Distribuição: Universal Pictures. Sinopse: Desta vez, a trama expande o universo cinematográfico para uma missão intergaláctica onde Mario e seus amigos devem deter uma nova ameaça cósmica. O filme marca a introdução da Princesa Rosalina e conta com a participação de Bowser Jr.

"Velhos Bandidos"(nacional). Gênero: Comédia, ação, policialDireção: Cláudio Torres. Roteiro: Cláudio Torres, Fábio Mendes e Renan Flumian. Duração: 1h 33min. Distribuição: Paris Filmes. Elenco: Fernanda Montenegro (Elvira, uma assaltante experiente), Ary Fontoura (Dionísio, parceiro de crimes de Elvira), Bruna Marquezine (Nancy, jovem que se junta aos veteranos para um grande roubo), Vladimir Brichta (Sid), Lázaro Ramos (investigador de polícia responsável pelo caso). Sinopse: O longa acompanha o casal de aposentados Elvira e Dionísio, que planeja um assalto audacioso a um banco para garantir uma aposentadoria tranquila. Para executar o plano, eles recrutam dois jovens comparsas, mas acabam sendo perseguidos por um obstinado investigador. 

"Devoradores de Estrelas"(Project Hail Mary). Gênero: Ficção Científica, Aventura, Ação. Direção: Phil Lord e Christopher Miller. Roteiro: Drew Goddard (baseado no livro de Andy Weir). Duração: 2h 36min. Distribuição: Sony Pictures. Elenco: Ryan Gosling, Sandra Hüller, Milana Vayntrub, Lionel Boyce, Ken Leung. Sinopse: Um astronauta acorda sozinho em uma espaçonave com amnésia e precisa reconstruir suas memórias para salvar a humanidade de uma crise solar.


O Resenhando.com é parceiro da rede Cineflix Cinemas desde 2021. Para acompanhar as novidades da Cineflix mais perto de você, acesse a programação completa da sua cidade no app ou site a partir deste link. No litoral de São Paulo, as estreias dos filmes acontecem no Cineflix Santos, que fica no Miramar Shopping, à rua Euclides da Cunha, 21, no GonzagaConsulta de programação e compra de ingressos neste link: https://vendaonline.cineflix.com.br/cinema/SAN.


Leia+

.: Crítica: "Barba Ensopada de Sangue" é excelente suspense introspectivo

.: Crítica: "Nuremberg" estuda mente de nazista orgulhoso de carnificina

.: Crítica: imperdível "Velhos Bandidos" faz rir e entrega desfecho inesperável

.: "Devorador de Estrelas": Ryan Gosling enfrenta o fim do sol e redefine herói.: Crítica: "Cara de Um, Focinho De Outro" une avó e neta pela natureza

.: Crítica: "Frankenstein" de Guillermo del Toro é deleite visual em trama gótica

.: Crítica: "O Agente Secreto" é filmaço imperdível com a cara do Brasil

.: Crítica: "Guerreiras do K-Pop" entrega modernidade na essência "Sailor Moon"

.: Monólogo “Não Me Entrego, Não!” leva Othon Bastos ao Sesc Santos


“Não Me Entrego, Não!” é o primeiro monólogo do ator, que revisita mais de sete décadas de carreira. Foto: Beti Niemeyer

Com mais de 40 mil espectadores e uma trajetória reconhecida por prêmios e indicações, o  espetáculo  “Não Me Entrego, Não!” chega ao Teatro do Sesc Santos nesta sexta e sábado, dias 10 e 11 de abril, às 20h00, reafirmando a força de comunicação de Othon Bastos com o público. Trata-se do primeiro monólogo do ator, que revisita mais de sete décadas de carreira com lucidez e presença cênica marcante. A origem do trabalho revela muito da trajetória do artista: a partir de aproximadamente 600 páginas de anotações pessoais entregues a Flávio Marinho. 

A dramaturgia da peça organiza lembranças e pensamentos em blocos temáticos. Teatro, cinema, política, amor e ofício se entrelaçam em uma biografia que amplia o alcance das experiências individuais. No palco, Othon não apenas recorda, mas recria sua trajetória. Passagens marcantes de sua carreira - como a atuação em "Deus e o Diabo na Terra do Sol" e no espetáculo "Um Grito Parado no Ar" - surgem atravessadas por novas leituras, compondo um discurso que dialoga com o presente. 

A encenação incorpora ainda a presença da atriz Juliana Medella como uma espécie de “memória em cena”, criando um jogo teatral que tensiona e complementa as lembranças do protagonista. O recurso amplia a dimensão reflexiva do espetáculo e reforça a ideia de que lembrar é também reinterpretar. O espetáculo é indicado a importantes reconhecimentos, como o Prêmio Shell e o Prêmio APTR. 

Serviço
Espetáculo “Não Me Entrego, Não!”
Sexta-feira, dia 10, e sábado, dia 11 de abril, às 20h00

Venda de ingressos
As vendas de ingressos para os shows e espetáculos da semana seguinte (segunda a domingo) começa na semana anterior às atividades, em dois lotes: on-line pelo aplicativo Credencial Sesc SP e portal do Sesc São Paulo: às terças-feiras, a partir das 17h00. Presencialmente, nas bilheterias das unidades: às quartas-feiras, a partir das 17h00.

Bilheteria Sesc Santos - Funcionamento
Terça a sexta-feira, das 9h00 às 21h30 | Sábados e domingos, 10h00 às 18h30   

Sesc Santos
Rua Conselheiro Ribas, 136 - Aparecida / Santos
Telefone: (13) 3278-9800        
Site do Sesc Santos
Instagram e Facebook: @sescsantos

.: Sábado: mostra "Alice Yura: um ato fotográfico" na Pinacoteca de São Paulo

Mostra reúne fotografia, arquivos familiares e instalação participativa para investigar memória, encenação e construção da imagem

Foto Yura (2022)


A Pinacoteca de São Paulo, museu da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, inaugura Alice Yura: um ato fotográfico, na Galeria Praça do edifício Pina Contemporânea. Com curadoria de Thierry Freitas, a mostra reúne ensaios visuais recentes em diálogo com um robusto conjunto documental e material herdado da família da artista.

Alice Yura (1990) nasceu em uma família de imigrantes japoneses que se estabeleceu no Brasil na década de 1950, e foi criada em um ambiente marcado pela produção de imagens. Seu avô, seu pai e seus tios atuaram como fotógrafos em sua cidade natal, no interior do Mato Grosso do Sul, experiência que atravessa e fundamenta sua prática artística. A artista aproxima a imagem dos campos da performance e da teatralidade, desdobrando sua pesquisa em torno da memória e da autobiografia.

Sobre a exposição: Estruturada em três núcleos, a exposição articula diferentes tempos e regimes da imagem. No primeiro, são apresentados materiais provenientes do Foto Yura, estúdio fotográfico da família que, ao longo da segunda metade do século XX, constituiu-se como espaço central de sociabilidade em Aparecida do Taboado, no Rio Grande do Sul. Fotografias, objetos e documentos evidenciam tanto a trajetória da família quanto as transformações da fotografia, do analógico ao digital.

O segundo núcleo reúne o ensaio Foto Yura (2022), no qual a artista investiga suas heranças familiares ao mesmo tempo em que tensiona papéis sociais. Ao se colocar como modelo de seu pai, com o retrato do avô ao fundo, Yura reencena uma linhagem marcada por um ofício historicamente masculino, deslocando as posições de autoria e representação. A exposição recria o cenário dessas imagens, convidando o público a ocupar esse espaço.

No terceiro núcleo, a artista se apropria de arquétipos da história da arte e de figuras da Antiguidade para reencená-los a partir de seu próprio corpo. Ao mobilizar essas imagens, Yura propõe novas possibilidades de identificação e permanência, afirmando a produção de imagens por corpos transexuais como forma de construir lastro simbólico para além das convenções de gênero. A série Restos de Carnaval integra esse conjunto, assim como uma obra inédita na qual a artista se apresenta como Cupido, tensionando iconografias clássicas a partir de uma corporalidade dissidente.

Ao tomar a biografia como eixo, a exposição propõe um deslocamento entre documento, memória e ficção, reafirmando a imagem como espaço de presença, encenação e fabulação.


SOBRE A ARTISTA

Alice Yura é uma artista visual nipo-caipira que trabalha principalmente com fotografia e performance. Em seus trabalhos, investiga a relação entre arte e vida, abordando temas como memória, afeto, corpo e identidade. Sua produção parte de experiências pessoais para refletir sobre aspectos mais amplos da existência, utilizando sua imagem e o próprio corpo como formas de expressão, em propostas que aproximam o fazer artístico do cotidiano.


SOBRE A PINACOTECA DE SÃO PAULO

A Pinacoteca de São Paulo é um museu de artes visuais com ênfase na produção brasileira do século XIX até́ a contemporaneidade e em diálogo com as culturas do mundo. Museu de arte mais antigo da cidade, fundado em 1905 pelo Governo do Estado de São Paulo, vem realizando mostras de sua renomada coleção de arte brasileira e exposições temporárias de artistas nacionais e internacionais em seus três edifícios, a Pina Luz, a Pina Estação e a Pina Contemporânea. A Pinacoteca também elabora e apresenta projetos públicos multidisciplinares, além de abrigar um programa educativo abrangente e inclusivo. B3, a bolsa do Brasil, é Mantenedora da Pinacoteca de São Paulo.


SERVIÇO:  

Pinacoteca de São Paulo  

Edifício Pina Contemporânea | Galeria Praça

De quarta a segunda, das 10h às 18h (entrada até 17h)   

Gratuitos aos sábados - R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia-entrada), ingresso único com acesso aos três edifícios - válido somente para o dia marcado no ingresso 

2º Domingo do mês – gratuidade Mantenedora B3 

domingo, 5 de abril de 2026

.: Bruna Martiolli rejeita a leitura superficial e reafirma força da literatura


Bruna Martiolli revisita a própria formação como leitora, atravessa perdas e questiona o papel da literatura em um tempo que acelera tudo — inclusive a leitura. Imagem a partir de uma foto do acervo pessoal da autora, modificada por IA

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

É tempo de morangos e a conversa com Bruna Martiolli começa antes da primeira pergunta. Passa por estantes, algoritmos e histórias que não cabem em qualquer postagem. Entre uma lembrança de infância e outra, aparecem "A Hora da Estrela", Clarice Lispector, Elena Ferrante, José Saramago, Lygia Fagundes Telles, Eça de Queiroz e Lima Barreto como presença contínua na vida de quem aprendeu cedo a ler o mundo pelos livros e, mais tarde, a desconfiar deles também.

Escritora, podcaster, professora e doutoranda, acompanhada por centenas de milhares de leitores nas redes sociais, ela estreia com o livro "É Tempo de Morangos - Reflexões Sobre Livros", publicado pela Editora Intrínseca, sem organizar a própria trajetória em linha reta. As memórias aparecem acompanhadas de leituras, mudanças de rota e perdas que ainda não se acomodaram. Bruna prefere ficar numa literatura que desestabiliza, erra junto, volta atrás e continua insistindo. Em entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, ela retoma esse percurso em primeira pessoa, entre livros, escolhas e aquilo que ficou pelo caminho. Compre o livro "É Tempo de Morangos", de Bruna Martiolli, neste link.

Resenhando.com - Você foi uma criança que brincava de dar aulas para suas bonecas. Em sua trajetória, os livros se tornaram não só companheiros, mas guias. Como você enxerga esse movimento de infância para a maturidade literária?
Bruna Martiolli - Sinto que esse movimento foi menos uma ruptura e mais um desdobramento natural, já existia ali um desejo muito genuíno de entender o mundo, as relações, as pessoas sobretudo. Os livros entraram nesse cenário quase como aliados silenciosos. Na vida adulta a leitura deixou de ser apenas uma atividade prazerosa e passou a ser uma ferramenta de investigação. 


O que aconteceu entre esses dois momentos para que a leitura se transformasse em uma ferramenta tão poderosa para você?
Bruna Martiolli - Eu comecei a ler para compreender as pessoas, os conflitos, os silêncios e as contradições, inclusive as minhas. No fundo, acho que não sou muito diferente daquela criança que ensinava as suas bonecas, a diferença é que hoje entendo que, antes de ensinar, estou sempre aprendendo a ler o mundo.


Resenhando.com - O título do seu livro, "É Tempo de Morangos", evoca um tempo mais doce e nostálgico. Mas, ao mesmo tempo, a literatura que você aborda traz à tona reflexões profundas e dolorosas. Qual é a relação entre esses dois tempos na sua obra? 
Bruna Martiolli - O título vem da última frase da “A Hora da Estrela” da Clarice, não posso explicar abertamente pois seria o maior spoiler sobre a Macabéa (protagonista do livro), mas, eu vejo esses dois tempos não como opostos, mas como camadas que coexistem. Existe ali uma nostalgia, sim, mas é mais um convite a lembrar que a vida é feita de instantes, fases, ciclos, mas que ela acaba e  por isso é preciso viver os morangos, viver cada fase. Porque viver e, principalmente, olhar com atenção para a vida inevitavelmente nos coloca diante das complexidades, das dores, das ausências, das perguntas que não têm resposta fácil. 

O que significa para você “morar” entre os morangos e as complexidades da vida?
Bruna Martiolli - “Morar” entre os morangos e as complexidades é, para mim, um exercício de equilíbrio e de honestidade. É entender que a doçura não anula a dor, e que a dor também não invalida a beleza. Eu não acredito em uma literatura que romantiza a vida a ponto de apagá-la, mas também não me interessa uma escrita que se fixa apenas no peso das coisas. O que me move é justamente esse "entrelugar" da Clarice, há sensibilidade suficiente para perceber o que é leve, mas também coragem para sustentar o que é difícil. Acho que os morangos me devolveram à vida, me ensinaram a aceitar que posso estar vivendo um momento bonito enquanto ainda carrego algo que dói. Eu amei o lançamento do livro no Rio e em São Paulo, principalmente por ter conseguido estar o máximo possível com as pessoas que amo. Mas ainda assim existe uma sensação de incompletude: a ausência da minha avó ali também doeu e é essa a vida que vou ter pra sempre.


Resenhando.com - Você fala da importância da literatura em momentos de desamparo, como foi no seu caso. Em tempos de crise, como o que todos estão vivendo, a literatura pode ser a cura ou só um paliativo? 
Bruna Martiolli - Eu não sei se a literatura pode ser chamada de cura, e talvez a Martha Nussbaum me ajude a sustentar isso. Quando ela fala da importância das emoções na vida ética, ela não está dizendo que a arte resolve a dor, mas que ela nos educa sensivelmente para lidar com ela. A literatura, não elimina o sofrimento, mas amplia a nossa capacidade de compreendê-lo, de nomeá-lo, de reconhecê-lo no outro.


Qual é o papel da ficção no enfrentamento das nossas angústias contemporâneas?
Bruna Martiolli - A ficção, muitas vezes, abre espaço para vozes que foram historicamente silenciadas e, ao fazer isso, desloca o nosso olhar. Em tempos de crise, isso é fundamental, porque nos tira de uma experiência isolada da dor e nos coloca em relação. Então talvez a literatura não seja cura no sentido de apagar a angústia, nem apenas um paliativo que anestesia. Ela é uma forma de resistência num mundo que frequentemente simplifica, acelera e silencia o ser humano. A ficção nos obriga a demorar, a escutar, a sustentar ambiguidades,  e isso muda a forma como habitamos e sentimos a vida. No meu caso, foi exatamente isso: a literatura não me salvou da dor, mas me deu condições de não me perder completamente dentro dela.


Resenhando.com - Clarice Lispector e Elena Ferrante foram influências marcantes na sua vida. Mas, se você pudesse resgatar um autor que considera fundamental para a sua formação literária e que talvez não tenha sido mencionado em suas reflexões, quem seria?
Bruna Martiolli - Tem um nome muito fundamental e que nem sempre aparece quando falo das minhas influências, eu diria Lima Barreto. A escrita dele tem uma urgência crítica, quase incômoda, que desmonta ilusões sobre o nosso país, sobre as nossas instituições e sobre a própria ideia de progresso. No "Triste Fim de Policarpo Quaresma" ele expõe o abismo entre o ideal e a realidade brasileira com uma ironia que ainda hoje é perturbadora. Lima me ensinou a encarar a estrutura  histórica, racial e política que molda as nossas experiências.


Resenhando.com - Você traz uma relação íntima com a literatura de língua portuguesa, mas também abre espaço para reflexões sobre como ela pode estar sendo negligenciada, principalmente pelos jovens que consomem literatura através de plataformas como o BookTok. Qual é o risco que se corre ao não valorizar mais a literatura nacional em favor de tendências globais e rápidas?
Bruna Martiolli - Eu me baseio nisso pelo olhar sensível que Alfredo Bosi tinha para a literatura como forma de consciência histórica e digo que o risco é profundamente cultural. Quando a literatura de língua portuguesa passa a ser deixada de lado em favor de tendências globais rápidas, como as que circulam no BookTok, a gente não está só trocando um tipo de leitura por outro. A gente está, aos poucos, enfraquecendo a nossa própria capacidade de nos reconhecer enquanto sujeitos históricos, sociais e afetivos num país que fala a língua portuguesa. Bosi sempre defendeu que a literatura é uma forma de memória viva. Ela não é só entretenimento: ela carrega conflitos, linguagem, identidade, modos de ver o mundo. Quando o jovem leitor deixa de acessar autores nacionais, ele perde contato com experiências que dialogam diretamente com a realidade dele, seja ela urbana, periférica, rural, atravessada por desigualdades ou por afetos muito específicos do nosso contexto. O problema das tendências globais e rápidas não está necessariamente na sua existência, mas na lógica de consumo que as sustenta. Inclusive, eu também as leio e, gostando ou não, formo minhas próprias opiniões. São leituras frequentemente mediadas por algoritmos, por modas passageiras e por uma estética da velocidade que não favorece a profundidade. Isso acaba formando um leitor que consome mais do que elabora, que atravessa os textos sem, de fato, ser transformado por eles. E é aí que reside o maior risco: a formação de uma relação superficial com a leitura. Sem o contato com obras mais densas da literatura nacional, o leitor pode perder a oportunidade de desenvolver um olhar crítico mais refinado sobre as próprias vivências, além de uma sensibilidade mais complexa para a linguagem e para a realidade. Valorizar a literatura de língua portuguesa, dos nove países que falam a língua portuguesa, não é um gesto de resistência vazia ou de nacionalismo simplista porque “tô a fim”. É, na verdade, um modo de preservar a nossa capacidade de pensar a partir de nós mesmos. Porque, no fim, quando a gente abandona essas vozes, a gente também corre o risco de se tornar estrangeiro dentro da própria cultura.


Resenhando.com - Na sua obra, há uma relação direta entre livros e transformações de vida, como no caso da sua mudança para Portugal. Quais livros você recomenda para quem está passando por uma transição significativa, seja pessoal ou profissional?
Bruna Martiolli - Um livro que eu destacaria, sem dúvida, é "Sodade", da Ana da Cunha. É uma obra muito recente, mas que já nasce com essa força de tocar em algo muito íntimo: a sensação de ausência, de deslocamento, de viver entre lugares. O que me atravessa ali é a maneira como a saudade deixa de ser só um sentimento e vira quase uma estrutura de vida. Para quem está em transição, esse livro não oferece respostas fáceis, e isso é essencial, mas legitima o desconforto, a ambivalência, a incompletude. E, talvez trazendo mais para perto da nossa tradição, eu lembraria de "Dois Irmãos", do Milton Hatoum, que toca em questões de origem, memória e pertencimento dentro de um contexto marcado por heranças migratórias. É um livro que fala muito sobre como carregamos nossos lugares dentro da gente, mesmo quando tudo muda ao redor.


Resenhando.com - Você menciona como a "Tetralogia Napolitana" de Elena Ferrante se tornou dolorosa após o esmorecimento de uma grande amizade. A literatura tem o poder de refletir as vivências, mas até que ponto a ficção é uma extensão da realidade ou um escape dela? 
Bruna Martiolli - Eu acho que a literatura nunca é só uma coisa ou outra, ela não é puramente espelho, nem puramente fuga. Quando li a "Tetralogia Napolitana", não foi nada confortável, abandonei a cadeira na faculdade e fugi mesmo, não era momento. A ficção, pra mim, funciona como uma espécie de lente que me faz ver melhor e vendo melhor reorganiza o que já existe dentro da gente. Às vezes ela amplia, às vezes distorce, às vezes ilumina coisas que estavam ali, quietas, esperando uma linguagem. 


Resenhando.com - Você já se deparou com momentos em que a literatura também a traiu, revelando mais do que você gostaria?
Bruna Martiolli - Sim, já senti que a literatura me traiu. Mas não no sentido de enganar, no sentido de expor. De colocar em palavras algo que eu ainda não tinha coragem de formular. É como se o texto dissesse: “olha, é isso aqui que você tá sentindo”, antes de estar pronta pra admitir. E aí não tem mais como fingir que não viu. Respondendo melhor: a vida trai mais do que a literatura, prefiro ela.


Resenhando.com - A literatura sempre teve papel central na sua vida, mas você também compartilha esse amor com uma grande audiência através das redes sociais e seu podcast "É Tempo de Morangos". Como você equilibra a pressão da visibilidade pública com a intimidade da sua escrita, que é, em essência, tão pessoal?
Bruna Martiolli - Eu sou filha única e vivo uma solidão que, apesar de boa, às vezes até assusta. A internet, pra mim, nunca foi sobre números, sempre foi sobre pessoas que, infelizmente, eu nunca esbarrei na vida. Tive poucas amigas que gostavam de ler, e acho que virei professora muito por essa necessidade de continuar falando sobre livros, de não deixar essa conversa morrer. Eu devo muito a eles: a vida que levo hoje, bem vivida, gostosa, calma, passa diretamente pela literatura. E eu nunca pensei “vou postar sobre livros nas redes sociais”. Eu falo de literatura onde eu estiver, na internet ou fora dela. Não existe uma separação tão rígida pra mim. Quando paro pra pensar no número de ouvintes, fico triste. Não quero saber quantas pessoas estão ali, isso é uma grande ilusão da nossa geração, o que me importa é ouvir essas pessoas. É por isso que gosto tanto dos comentários: é ali que descubro o que gostam, onde moram, vejo suas fotos, seus cabelos, suas famílias. As pessoas. Eu gosto de livros, mas gosto muito de gente. E a internet é só o que me aproxima delas. No fundo, não acho que o que eu digo seja pessoal. Pessoal, pra mim, é quem ouve, quem escolhe me dar um pedaço do próprio tempo de vida.


Resenhando.com - Se a literatura fosse uma pessoa, como você a descreveria em termos de identidade? Ela seria amiga, amante ou uma figura de autoridade?
Bruna Martiolli - A literatura é a formiga e ao mesmo tempo a cigarra. É o gato de Cheshire e a Alice, a literatura é a dúvida. É amiga e, ao mesmo tempo, é uma figura de autoridade. É uma pessoa, mas é aquela ideia do Fernando Pessoa de que em um cabem mil. 


Resenhando.com - Você defende a ideia de que a boa literatura não precisa agradar à primeira vista. No entanto, as redes sociais e plataformas como o BookTok são movidas por emoções rápidas e “recompensas instantâneas”. Como é possível reconstruir um espaço literário que valorize o tempo de amadurecimento, sem se perder nas urgências da era digital?
Bruna Martiolli - Eu não acho que seja uma questão de disputar com a lógica das redes, porque a literatura nunca funcionou no tempo da pressa, e talvez nem deva tentar funcionar. O que dá pra fazer é criar pequenos desvios dentro desse fluxo. As redes sociais, operam muito pela reação imediata, pelo entusiasmo rápido, pela necessidade de sentir algo agora e isso não é necessariamente um problema, é só uma linguagem diferente. O risco está quando a gente começa a confundir intensidade com profundidade, como se o impacto imediato fosse o único critério de valor. Mas, reconstruir um espaço literário mais paciente, pra mim, passa por insistir em outras formas de presença. Falar de um livro que não “funcionou” de primeira, revisitar uma leitura depois de um tempo, admitir silêncios, dúvidas, mudanças de opinião. Mostrar que a experiência literária também é feita de demora, de estranhamento, de algo que vai se abrindo aos poucos. E, principalmente, confiar que existe gente disposta a isso. Porque existe. Nem todo mundo está buscando recompensa instantânea o tempo todo, muitas pessoas só não encontram com frequência espaços que legitimem esse outro ritmo. Acho que não se trata de desacelerar a internet inteira, o que seria impossível, mas de sustentar, dentro dela, um outro tempo. Um tempo em que o livro não precisa agradar de imediato para permanecer porque ele pode incomodar, escapar, e ainda assim continuar trabalhando em quem lê.

← Postagens mais recentes Postagens mais antigas → Página inicial
Tecnologia do Blogger.