terça-feira, 20 de janeiro de 2026

.: Exposição propõe olhar de integração frente a divisões e polarizações atuais


Mostra "Joaquín Torres García – 150 anos", no Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo (CCBB SP) convoca uma reflexão sobre a importância da escuta e do reconhecimento da arte como união entre os povos; Mais de 500 trabalhos fazem parte do acervo, com itens de 72 artistas brasileiros que dialogam ou são influenciados pelas obras e pensamento do artista uruguaio; a entrada é gratuita. Na image, reprodução da obra América Invertida, 1943.  Crédito: ©Museo Torres García

Em um momento histórico marcado por tensões internacionais, disputas narrativas e recrudescimento de fronteiras entre nações, a exposição "Joaquín Torres García - 150 Anos", no Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo (CCBB SP), propõe um gesto silencioso e profundo: deslocar o ponto de vista a partir do qual se olha o mundo. Sem tratar de conflitos territoriais ou alianças de poder, a mostra convoca uma reflexão sobre culturas, escuta e pertencimento, além de afirmar a arte como espaço de integração e não de polarização.

Com entrada gratuita e cerca de 500 itens expostos - entre obras, documentos, manuscritos, publicações, brinquedos de madeira e materiais pedagógicos -, a mostra apresenta ao público brasileiro o pensamento e a obra de um dos artistas mais decisivos da modernidade latino-americana. O eixo simbólico da mostra é o icônico "Mapa Invertido" (1943), imagem que atravessa gerações como um gesto radical de afirmação cultural do Sul Global.

A exposição se constrói como um campo de pensamento e escuta, reafirmando a arte como lugar de reconstrução simbólica. O gesto de Torres García não propõe confronto nem inversão de dominação, mas um reposicionamento ético e espiritual do olhar: reconhecer, no Sul, não uma periferia, mas uma origem possível do pensamento universal.

“Quando Torres García afirma que ‘nosso Norte é o Sul’, ele nos indica que temos uma realidade tão complexa do ponto de vista de uma expressão civilizatória quanto os povos de outros continentes. A inversão da América é um lugar interior conectado pela visão do exterior, para tornar acessível a ideia de elevação coletiva de uma parte da América, que por acaso é a América do Sul, senão a elevação interior da humanidade sul-americana.”

“Não basta falar sobre decolonialidade, é preciso praticá-la”, observa Saulo di Tarso, curador em colaboração com o Museo Torres García. “Esta mostra é um ato decolonial porque restitui a voz a um artista que pensou a partir da América Latina, sem complexos de inferioridade”.

Ao deslocar o eixo do continente, a exposição lança uma pergunta fundamental: onde pulsa o coração da América? À luz do pensamento de Torres García, a resposta não se encontra em um ponto fixo do mapa, mas no coração de cada americano, na pluralidade dos povos que estavam, estão e que aqui chegaram.

“O coração da América está em cada americano e americana e nas qualidades diversas da pluralidade dos povos que estavam aqui, onde estamos, para onde migramos. A América Invertida não é um protesto, mas um símbolo de ascensão espiritual, resultado de uma trajetória marcada pelas batalhas de um homem comum que acreditava na força de união entre as pessoas e nas energias criadoras que atravessam cada cultura”.

O Universalismo Construtivo, conceito central na obra de Torres García, não propõe uma sociedade universal homogênea nem um modelo industrial de mundo. Ao contrário, reconhece que existem símbolos, formas e geometrias universais e sagradas presentes nas expressões de todos os povos, no passado e no presente. Esse universal não se impõe sobre o diferente, mas nasce do reconhecimento da singularidade do outro. “A América que se revela é a que precisa cuidar do seu território e do seu modo de vida. Que precisa vencer a herança do divisionismo que separa o Norte e o Sul”, exemplifica.


Arte e vida
Torres García
foi um dos artistas que mais profundamente buscou compreender a naturalidade da cultura africana, percebendo afinidades entre povos distintos e atribuindo a essas semelhanças um valor essencialmente humano. Por isso, sua obra aproxima arte e vida, assim como o fazem a arte africana, a arte indígena e as expressões culturais das Américas, nas quais criação, cotidiano e espiritualidade não se separam.

Esse pensamento teve impacto decisivo no Brasil. A influência de Torres García atravessou o desenvolvimento da arte concreta e neoconcreta, reverberando em artistas como Anna Bella Geiger, Alfredo Volpi, Hélio Oiticica, Cildo Meireles, Rubens Gerchman, entre outros presentes na exposição – no total, 72. O diálogo com produções contemporâneas reafirma a ideia de que a integração entre percepções distintas é mais potente do que sua oposição.

A expografia, assinada por Stella Tennenbaum, funciona tanto como um apoio curatorial quanto como uma metáfora espacial. A linha contínua que percorre os espaços do CCBB se inspira no Tratado de Tordesilhas, mas não como uma fronteira rígida — e sim como um caminho a ser atravessado e repensado. Ela mostra o distanciamento conceitual e cultural da América do Sul em relação aos marcos coloniais e europeus, destacando que a cultura se constrói pela circulação, pelo encontro e pelo deslocamento, e não pela contenção ou divisão.

Selecionada no Edital CCBB 2023–2025, a mostra inaugura sua itinerância em São Paulo e segue para Brasília (março de 2026) e Belo Horizonte (julho de 2026). Em cada cidade, o projeto assume novas inflexões, reafirmando que o Sul não é um lugar fixo, mas uma postura diante do mundo.

No Brasil, este é o recado mais profundo da "América Invertida" de Joaquín Torres García: a relação que importa não é entre territórios, mas entre culturas. Uma relação fundada na escuta, na convivência das diferenças e no reconhecimento de que o universal só pode existir quando é construído a partir da pluralidade.


Confira todos os artistas presentes e citados na exposição
Agustín Sabella; Agripina Manhattan; Alexander Calder; Alfredo Jaar; Alfredo Volpi; Aparicio Basilio; Anna Bella Geiger; Anna Bella Geiger (reaparece como eixo teórico-geracional da mostra); Assis Chateaubriand; Bispo do Rosário; Carlos Garaicoa; Carlos Zilio; Carmelo Arden Quin; Cícero Dias; Cildo Meirelles; Darcy Ribeiro; Delson Uchôa; Di Cavalcanti; Emanuel Nassar; Emanoel Araújo; Estela Sokol; Fábio Miguez; Ferreira Gullar; Fernando López Lage; Flávio de Carvalho; Greta Sarfati; Guga Szabzon; Guilherme Galle; Gyula Kosice; Heitor Villa-Lobos; Hélio Cabral; Jac Leirner; Jaime Lauriano; Jandira Waters; Jean-Michel Basquiat; John Cage; Juan Pablo Mazzetto (Mapeto); Jacqueline Lacasa; Leda Catunda; Leonilson; Lina Bo Bardi; Luiz Sacilotto; Mano Penalva; Manuela Costa Lima; Marconi Moreira; Marcos Chaves; Mario de Andrade; Márcio Ficko; Milton Santos; Milton Santos (reafirmado como centro conceitual da cartografia anímica); Montez Magno; Pablo Picasso; Pablo Uribe; Paulo Otávio; Piet Mondrian; Pietro Maria Bardi; Quincy Jones; Rafael RG; Raimundo Colares; Randolpho Lamounier; Rivane Neuenschwander; Robert Kelly; Ronaldo Azeredo; Rosana Paulino; Rubens Gershman; Santos Dumont; Sérgio Camargo; Sidney Amaral; Sofia Borges; Tuneu; Vanderlei Lopes; Wesley Duke Lee.
 

Ficha técnica
Exposição "Joaquín Torres García - 150 Anos"
Realização: Ministério da Cultura
Patrocínio: BB Asset
Curadoria: Saulo di Tarso em colaboração com o Museo Torres García
Organização e produção: Cy Museum
Apoio institucional: Museo Torres García
Coordenação geral: Cynthia Taboada
Coordenação executiva: Paula Amaral
Coordenação editorial e pesquisa: Helena Eilers, Andrea Sousa e Xênia Bergman.
Projeto expográfico: Stella Tennenbaum
Assessoria de imprensa: Agência Galo


Serviço
Exposição "Joaquín Torres García - 150 Anos"

CCBB São Paulo |  Rua Álvares Penteado, 112 – Centro / São Paulo
Até dia 9 de março de 2026, das 9h00 às 20h00, exceto às terças
Gratuito

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

.: “Ecos do Antropoceno”: livro de Luiz Villares expõe o custo real do progresso


"Ecos do Antropoceno - Legados, Interesses e Caminhos", publicado pela Editora Casa Matinas, é o resultado de quase três décadas de trabalhos, aprendizados, estudos e reflexões do ambientalista Luiz Villares. Ele reuniu sua longa experiência que começa com a militância pela defesa do Parque Estadual de Ilhabela, passa pelo Conselho Estadual do Meio Ambiente de São Paulo, e chega à FAS (Fundação Amazônia Sustentável), a maior organização sem fins lucrativos no Brasil pela conservação da Amazônia, da qual foi diretor financeiro por 16 anos.

Além de trazer um panorama atualizado (que inclui os resultados da recente COP30, realizada em Belém, em novembro de 2025) das grandes questões ambientais contemporâneas, Ecos do Antropoceno analista os fenômenos do aquecimento global, das catástrofes climáticas, do desmatamento e destruição da natureza, entre outros, pelo diapasão central da macroeconomia: sem transformações profundas nos modelos de crescimento econômico e na “financeirização” dominante na economia global, a transição imprescindível para um mundo sustentável não se realizará.

“Este é o paradoxo contemporâneo: quanto mais cresce o PIB global, mais crescem os desastres ambientais e ecológicos - e pior: em velocidade maior do que as soluções que poderiam mitigar os problemas”, afirma Villares. A obra demonstra claramente e com abundância de números que investimentos em prevenção dos desastres ecológicos são mais baratos (e mais sensatos) do que os dispendiosos custos — em um cenário de Estados-nações endividados — de reparação desses desastres; e que, se uma parcela dos ainda gigantescos investimentos em fontes de energia fóssil ou em armamentos fosse empregada na transição para energias limpas, poderíamos atingir com mais celeridade os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Segundo o autor, o mundo gasta mais de US$ 2,3 trilhões em armamentos. "A metade desse valor seria mais do que suficiente para o financiamento das necessidades de adaptação climática no mundo". Luiz Villares, em um dos pontos fundamentais do livro, sublinha que o desequilíbrio ambiental contribui decisivamente para o aumento da desigualdade social: as populações mais pobres sofrem mais as consequências devastadoras do aquecimento global e dos desastres climáticos, embora sejam as faixas de população que menos contribuem para a emissão de carbono, por exemplo. Nesse sentido, os mais pobres são, de maneira perversa, duplamente penalizados na época em que homens passaram a se dedicar à destruição da natureza. Desigualdade gera mais desigualdade.

Outro ponto de atenção do livro é para a mudança profunda sobre a questão ambiental que está ocorrendo na China. De maior poluidora do mundo ela está se transformando em liderança global em políticas ambientais. Na vanguarda da utilização da energia solar, na eletrificação dos carros, no uso das bicicletas como meio de transporte, na construção de data centers no fundo do mar (abastecidos por energia eólica), o programa do Estado chinês chamado de “Civilização Ecológica” é o mais planejado e estruturado de que se tem notícia. O país tem 1.100 usinas que processam 800 mil toneladas de lixo, gerando renda onde só havia desperdício; a poluição do ar diminuiu sensivelmente nos últimos 15 anos; o programa Grande Muralha Verde é o mais ambicioso em termos de se devolver matas e florestas em solo degradado.

 Antropoceno é uma palavra relativamente nova. A Humanidade precisou criá-la para classificar o período geológico que se iniciou com a Revolução Industrial, na Inglaterra, no século XVIII. Como diz o ambientalista Luiz Villares, ele marca a idade “em que começamos a extrair da natureza mais do que ela é capaz de nos oferecer”. Ou seja, o oposto da sustentabilidade, que é a capacidade de atender às necessidades do presente sem comprometer as condições de vida do futuro.

Ao lado de temas mais conhecidos sobre o ambientalismo, o livro nos apresenta conceitos que ajudam a compreender os fenômenos e ideias para superá-los, como o green new deal e o ecocentrismo. A diplomacia e a justiça climáticas, a água valendo mais do que o petróleo, as novas demandas por energia dos hiper data centers, o desaparecimento das abelhas, a morte dos recifes de corais, o ativismo jovem, além das oportunidades que se apresentam para o Brasil pós COP30, são outros assuntos abordados neste livro.

Luiz Villares é ambientalista, com formação em gestão internacional e extenso trabalho em organizações socioambientais; foi Conselheiro Estadual do Meio Ambiente de São Paulo e do primeiro time da Fundação Amazônia Sustentável, a maior organização sem fins lucrativos dedicada à Amazônia. Autor de estudos acadêmicos sobre sustentabilidade e blockchain, é colaborador de publicações internacionais. Também velejador e músico, baterista da banda Lost in Translation, liderada pelo escritor Marcelo Rubens Paiva, autor de Ainda estou aqui.

"Ecos do Antropoceno" é o primeiro livro lançado pela Casa Matinas, que se dedica a reedição de livros imperecíveis no sistema de impressão sob demanda (POD). A editora modificou seu projeto editorial pelas afinidades com as ideias defendidas no livro de Luiz Villares. Além de evitar desperdício de papel e de combustível fóssil na distribuição com o print-on-demand, a casa matinas usa o papel Polén Natural e a impressão em tinta a base de água. As capas minimalistas, o projeto gráfico limpo e a economia em uso de fontes tipográficas (criadas por artista tipográfico brasileiro) também foram pensadas para nos furtarmos aos esperdícios comuns na produção de livros.

.: "Zona Zen", de Rita Lee e Roberto de Carvalho, relançado em edição especial


Denso e bem paulistano, o álbum chega em LP vermelho marmorizado pela Universal Music Brasil

Por Guilherme Samora, jornalista e estudioso do legado cultural de Rita Lee.
 
No final de 1988, “Zona Zen”, de Rita Lee & Roberto de Carvalho, teve a missão de ser o sucessor do arrasa-quarteirão “Flerte Fatal”, o colorido disco que arrombou as paradas de sucesso e teve uma enorme turnê dedicada a ele. A capa - com fotos em preto e branco - já dava sinais de que os dois trabalhos não seriam parecidos.

O disco, denso, é a cara de São Paulo: da foto da capa, cheia de grafites em um muro da Rua Purpurina, na Vila Madalena, ao som mais urbano e majoritariamente pesado. O grafite é de Mauricio Villaça, que reuniu uma turma da pesada para auxiliá-lo na empreitada. Nas músicas, Rita apresenta a maneira como enxergava a si mesma e o mundo à sua volta, na maior parte das vezes com um olhar bastante afiado e sem festa. Hoje, a Universal Music Brasil relança o álbum em vinil vermelho marmorizado, com artes e encartes originais. 

“Nunca Fui Santa”, música e letra de Rita, vem numa mistura de autodeboche com autoterapia. “Sou nova demais pra velhos comícios / Sou velha demais pra novos vícios”. “Independência e Vida” - outra só de Rita - aparece a seguir, com um olhar um tanto desgostoso para o mundo, mas apontando a saída naquilo que ela sempre prezou: a liberdade. “Dia desses meu chapa/ Sumo do mapa/ Vou pra zaca do lhoraca/ Viver sei lá de quê/ Talvez de brisa”. O palavrão camuflado é um toque especial de quem havia enfrentado a censura durante anos.

O disco é um belo registro da voz de Rita, linda e cristalina. A produção de Roberto é impecável, bela e na medida certa para cada canção. No álbum, ele toca guitarra, violão, teclados e piano, além de fazer a programação da bateria eletrônica. Rita, além da voz e dos vocais, toca autoharp, castanholas e kalimba.

“Livre Outra Vez” é o grande sucesso, com clipe gravado no centrão de São Paulo: na Estação da Luz, nos trens, na escadaria e no topo do Copan… A letra e a voz de Rita tocam profundamente em uma canção que é uma das mais doloridas de toda a sua carreira. Uma curiosidade: a música, de Roberto, foi a primeira versão de “Vírus do Amor” (do disco de 1985, aquele que também tem a capa em preto e branco). Com a mudança de planos, Rita acabou colocando essa nova letra na canção.

Belíssima, a faixa-título é etérea, misteriosa e melancólica, marcada pelas castanholas de Rita e pelos teclados de Roberto. Ao se deparar com a zona do momento presente, Rita, genial, resume: “Saudade do futuro, eu juro”. Uau!

“Cruela Cruel” é uma porrada. “Sou um ninho no estranho / Mundo perigoso, insano / Nexo, yogas e roquebrou / Nunca a vida se mostrou assim tão cruela cruel”, dispara Rita em uma canção completamente desiludida. Curiosamente, as músicas mais pra cima do disco são uma regravação de Wanderléa - a impagável “Sem Endereço” (versão de Rossini Pinto para “Memphis Tennessee”, de Chuck Berry), que ficou perfeita na interpretação de Rita & Roberto — e “Cecy Bom”. A versão de Rita para “C’est si bon”, de Henri Betti e André Hornez, é uma delícia. No disco, é a preferida de Rita, que descreve a canção como “uma homenagem a Brigitte Bardot quando veio ao Brasil”. Outra curiosidade: 21 anos depois, em 2009, ela foi escolhida para a trilha sonora da novela “Caras & Bocas”, da TV Globo.

“Mana Mané” fecha o disco. Música e letra de Rita, fala sobre o verão da lata, quando toneladas de cannabis apareceram flutuando no mar brasileiro, no fim de 1987. O clima mais denso fez com que "Zona Zen" tivesse vendas inferiores às de “Flerte Fatal”. Ainda assim, o álbum foi certificado com Disco de Ouro. Com o relançamento, é uma boa hora para revisitar esse trabalho, uma joia um tanto incompreendida da dupla Rita & Roberto.

.: Grátis: "Teatro-Baile Conta Missa do Vaqueiro - Em Processo" estreia dia 22


Espetáculo em processo investiga ritual criado em Serrita (PE) em homenagem a Raimundo Jacó, vaqueiro e primo de Luiz Gonzaga, e marca a reinauguração da sede da companhia na Vila Ré. Foto: Débora Peccin


Referência na pesquisa da cultura popular brasileira, a CTI - Teatro-Baile convida o público a acompanhar a abertura de processo de seu novo trabalho: "Teatro-Baile Conta Missa do Vaqueiro - Em Processo". A montagem propõe um mergulho artístico na tradicional Missa do Vaqueiro, celebração criada em 1970 no sertão nordestino, e ocupa novamente a sede histórica da companhia, na Vila Ré, zona leste de São Paulo. As apresentações são gratuitas e acontecem de 22 de janeiro a 1º de fevereiro, de quinta a sábado, às 20h00, e aos domingos, às 18h00. Em caso de chuva, a sessão é cancelada.

A Missa do Vaqueiro surgiu como homenagem a Raimundo Jacó, vaqueiro assassinado na década de 1950 em Serrita (PE). Primo de Luiz Gonzaga, Jacó tornou-se símbolo de justiça e resistência sertaneja. Vinte anos após sua morte, o Padre João Câncio idealizou a celebração, convidando Gonzagão e outros artistas e poetas, como Pedro Bandeira e Janduhy Finizola, o que ampliou o alcance cultural do ritual. Com o passar dos anos, a Missa do Vaqueiro consolidou-se como uma cerimônia que articula religiosidade, cultura popular e vida no campo, com liturgia própria e realização em diversas cidades do Nordeste, sempre no terceiro domingo de julho.

Mais do que narrar fatos históricos, a CTI propõe uma criação cênica a partir da experiência vivida em Serrita. Contemplado pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro, o grupo realizou uma viagem de pesquisa à região, reunindo material humano, simbólico e sensorial que agora se transforma em jogo cênico. “Não queremos contar a história do Raimundo Jacó, mas olhar para as pessoas que mantêm viva essa celebração: comerciantes, vaqueiros, trabalhadores locais, figuras que constroem o cotidiano do sertão”, explica Beto Bellinati, integrante da companhia.

Ainda em construção, o espetáculo compartilha com o público o processo criativo do grupo, mantendo uma de suas marcas: a diluição das fronteiras entre palco e plateia. O público é convidado a dançar, circular e partilhar comidas e bebidas típicas, como paçoca, kariri com mel e pinga com mel e limão. A dramaturgia é coletiva, com todos os integrantes em cena. A música ao vivo reúne canções de Luiz Gonzaga e composições autorais inspiradas em ritmos nordestinos, executadas com sanfona, zabumba, triângulo, pandeiro, baixo e percussões diversas. A visualidade da encenação incorpora o uso de máscaras confeccionadas em papelão, que remetem a cabeças de boi, figura simbólica do imaginário sertanejo.

“Esse trabalho também marca a retomada das atividades da nossa sede como espaço de encontro, criação e partilha com o público”, afirma Bellinati. "Teatro-Baile Conta Missa do Vaqueiro - Em Processo" - em processo integra o projeto “O Teatro é uma Luta Popular – CTI 21 anos (r)existindo pela identidade”, contemplado pela 44ª edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo.


Ficha técnica
"Teatro-Baile Conta Missa do Vaqueiro - Em Processo"
Criação Coletiva da Cia. Teatro da Investigação - CTI - Teatro-Baile
Equipe criativa CTI - Teatro-Baile: Adriel Vinícius, Azre Maria Tarântula, Beto Bellinati, Bia Nascimento, Débora Peccin, Edu Brisa, Evandro Cavalcante, Fefê Camilo, Juliana Crifes, Kinda Marques, Mariane Lima, Michel Xavier, Roma Oliveira, Samara Neves, Ton Moura e Val Ribeiro
Dramaturgia e direção: Edu Brisa
Direção musical: Fernando Alabê
Elenco: Equipe Criativa
Artistas orientadores formadores: Jéssica Nascimento, Cida Almeida, Alexandre Mate, Carlos Simioni, Ednaldo Freire e Fernando Alabê

Serviço
"Teatro-Baile Conta Missa do Vaqueiro - Em Processo"
Data: 22 de janeiro a 1º de fevereiro
Temporada: Quinta, sexta e sábado, às 20h | Domingo, às 18h
Local: Sede CTI Teatro-Baile – Rua Pangauá, 381 – Vila Ré (São Paulo, SP)
Ingressos: Gratuitos – retirada 1h antes do início da apresentação
Capacidade: 35 lugares
Duração: 60 minutos
Classificação: Livre
Importante: Em caso de chuva, não haverá espetáculo

.: As seis apresentações de "O Céu da Língua" no Espaço Unimed, em SP


Com algumas sessões já esgotadas, a elogiada turnê, que já levou 167 mil espectadores ao teatro desde fevereiro de 2025, será apresentada nos dias 27, 28, 29 e 31 de janeiro e 1° de fevereiro, no Espaço Unimed. Espetáculo de Gregorio Duvivier é uma comédia sobre a presença quase invisível da poesia no cotidiano. Foto: 
divulgação/ Priscila Prade

Quem tem medo de poesia? Gregorio Duvivier não faz parte deste grupo e, como um apaixonado, faz de tudo para persuadir os outros das qualidades do seu objeto de encanto - até mesmo criar um espetáculo sobre o assunto. No monólogo cômico “O Céu da Língua”, o artista usa o seu discurso sedutor para convencer o público de que tropeçamos diariamente na poesia e o assunto é prazeroso e divertido. Nos dias 27, 28, 29 e 31 de janeiro e 1° de fevereiro de 2026, ele leva o elogiado espetáculo para o Espaço Unimed, na Barra Funda, em São Paulo. As duas sessões do dia 31, sábado, e do dia 1° de fevereiro, domingo, no Espaço Unimed já estão esgotadas. Há os últimos ingressos disponíveis para as sessões extras no dia 27, terça-feira, 28, quarta-feira e 29 de janeiro, quinta-feira. 

“O Céu da Língua” já foi visto por mais de 167 mil espectadores desde fevereiro de 2025, em turnê que já passou por 33 cidades, 12 estados e dois países, em diversos teatros do país e também em Portugal. “A poesia é uma fonte de humor involuntário, motivo de chacota”, reconhece o ator, que cursou a faculdade de Letras na PUC do Rio de Janeiro e publicou três livros sobre o gênero literário. “Escrevi uma peça que pode ajudar alguém a enxergar melhor o que os poetas querem dizer e, para isso, a gente precisa trocar os óculos de leitura”.  

A direção é da atriz Luciana Paes, parceira de Gregorio nos improvisos do espetáculo Portátil. No palco, com cenografia de Dina Salem Levy, o instrumentista Pedro Aune cria ambientação musical com o seu contrabaixo, e a designer Theodora Duvivier, irmã do comediante, manipula as projeções exibidas ao fundo da cena. O resto é só o comediante e sua lábia desafiadora:

“Acredito que o Gregorio tem ideias para jogar no mundo e, com essa crença, a coisa me move independentemente de qualquer rótulo”, diz Luciana, uma das fundadoras da celebrada Cia. Hiato, que estreia na função de diretora teatral.  “O Céu da Língua” não é um recital e tampouco o artista declamará Castro Alves, Fernando Pessoa ou Carlos Drummond de Andrade. Por outro lado, garante Luciana, a dramaturgia não deixa de ser poética neste “stand-up comedy pegadinha”, como ela bem define. 

“O Gregorio simpático e engraçado está no palco ao lado do Gregorio intelectual com seu fluxo de pensamento ininterrupto e imagino que, por isso, a plateia deve embarcar na proposta”, aposta a diretora. “Ele, graças aos seus recursos de ator, pega o público distraído e ninguém resiste quando é surpreendido por alguém apaixonado”.

Toda linguagem é um acordo e, se você entende, tudo bem. Gregorio, desde a infância, carrega uma obsessão pela palavra, pela comunicação verbal, pela língua portuguesa. Assim o protagonista, por exemplo, brinca com códigos, como aqueles que, em sua maioria, só são decifrados por pais e filhos ou casais enamorados. 

As reformas ortográficas que tiram letras de circulação e derrubam acentos capazes de alterar o sentido das palavras inspiram o artista em tiradas bem-humoradas. O mesmo acontece quando ele comenta a ressurreição de palavras esquecidas, como “irado”, “sinistro” e “brutal”, que voltaram ressignificadas ao vocabulário dos jovens. E aquelas que só de ouvi-las geram sensações estranhas, a exemplo de afta, íngua, seborreia, ou outras, inventadas, repetidas à exaustão, como “atravessamento”, “namorido” ou “almojanta”? Até destas Gregorio extrai humor.

Para o artista, a língua é algo que nos une, nos move, mas raramente damos atenção a ela. É só pensar nas metáforas usadas no cotidiano  “batata da perna”, “céu da boca”, “pisando em ovos”. Nesta hora, usamos a poesia e nem percebemos. 

Nesta cumplicidade com a plateia, Gregorio mostra gradativamente que a poesia não tem nada de hermética e, claro, homenageia Portugal, o país que emprestou ao Brasil a sua língua para que todos se comunicassem. Além de Fernando Pessoa, o ator evoca o poeta Eugênio de Andrade e lembra de que a origem de “O Céu da Língua” está relacionada ao espetáculo “Um Português e Um Brasileiro Entram no Bar”. O divertido intercâmbio linguístico colocou no mesmo palco Gregório e o humorista luso Ricardo Araújo Pereira em improvisações sobre o idioma que os une. Compre os livros de Gregorio Duvivier neste link.


Ficha técnica 
Espetáculo "O Céu da Língua"
Texto: Gregorio Duvivier e Luciana Paes
Interpretação: Gregorio Duvivier
Direção: Luciana Paes
Direção musical e execução da trilha: Pedro Aune
Assistente de direção e projeções: Theodora Duvivier
Iluminação: Ana Luzia de Simoni
Cenografia: Dina Salem Levy
Assistente de cenografia: Alice Cruz
Figurinos: Elisa Faulhaber e Brunella Provvidente
Visagismo: Vanessa Andrea
Designer gráfico publicação: Estúdio M-CAU – Maria Cau Levy e Ana David
Identidade visual divulgação: Laercio Lopo
Comunicação: Raquel Murano
Marketing digital: Renato Passos
Assessoria de imprensa RJ: Pedro Neves
Assessoria de imprensa SP: Pombo Correio
Fotos: Demian Jacob, Priscila Prade, Joana Calejo Pires e Raquel Pelicano
Diretor técnico: Lelê Siqueira
Diretor de palco: Reynaldo Thomaz
Técnico de som: Dugg Mont
Assistente de palco: Daniela Mattos
Gerente de Projetos: Andréia Porto
Assistente de produção: João Byington de Faria
Produção executiva: Lucas Lentini
Direção de produção: Clarissa Rockenbach e Fernando Padilha
Produção: Pad Rok

Serviço:
Espaço "O Céu da Língua"
Local: Espaço Unimed (Rua Tagipuru, 795, Barra Funda / São Paulo 
Datas: 27, 28, 29 e 31 de janeiro de 2026 e 1° de fevereiro de 2026 
Horários:
27 de janeiro (terça-feira) - Abertura da casa: 20h | Início do show: 21h30
28 de janeiro  (quarta-feira) - Abertura da casa: 20h | Início do show: 21h30
29 de janeiro  (quinta-feira) - Abertura da casa: 20h | Início do show: 21h30
31 de janeiro  (sábado) - 1a. sessão: Abertura da casa: 16h | Início do show: 17h30
31 de janeiro (sábado) - 2a. sessão: Abertura da casa: 20h | Início do show: 21h30
1° de fevereiro (domingo) - Abertura da casa: 16h | Início do show: 17h30

Ingressos: Camarote A: 180,00 | Camarote B: 160,00 | Setor Platinum: R$ 220,00 | Setor Azul Premium: R$ 180,00 | Setor Azul: R$ 160,00 | Setores A, B, C e D: R$ 140,00 | Setores E, F, G e H: R$ 120,00 | Setores I, J e K: R$ 100,00

Compra de ingressos: on-line pelo link https://www.espacounimed.com.br/show/gregorio-duvivier-6/  e no site da Ticket 360 ou nas bilheterias do Espaço Unimed (Rua Tagipuru, 795 - 01156-000, Barra Funda - São Paulo/SP). Funcionamento de segunda a sábado, das 10h às 17h - exceto feriados. Bilheteria virtual: A compra pela bilheteria virtual não tem acréscimo de taxa de serviço e tem como forma de pagamento cartão de crédito ou pix. Para ativar a compra através do aplicativo, esteja no local no raio máximo de 500 metros (isento da taxa). 
Classificação etária: 14  anos
Acesso para deficientes: sim
Objetos proibidos: Câmera fotográfica profissional ou semi profissional (câmeras grandes com zoom externo ou que trocam de lente), filmadoras de vídeo, gravadores de áudio, canetas laser, qualquer tipo de tripé, pau de selfie, camisas de time, correntes e cinturões, garrafas plásticas, bebidas alcóolicas, substâncias tóxicas, fogos de artifício, inflamáveis em geral, objetos que possam causar ferimentos, armas de fogo, armas brancas, copos de vidro e vidros em geral, frutas inteiras, latas de alumínio, guarda-chuva, jornais, revistas, bandeiras e faixas, capacetes de motos e similares.

.: Trilogia "O Senhor dos Anéis" volta aos cinemas 25 anos depois


Janeiro devolve aos cinemas um ritual que muita gente conhece de cor, mas prefere reviver no escuro da sala: a travessia pela Terra-média. Entre os dias 22, 23 e 24, a trilogia "O Senhor dos Anéis" volta à Rede Cineflix e a outras salas de cinema do país em sessões especiais, com versões estendidas e aquela sensação persistente de que o tempo, ali dentro, opera em outro compasso.

A maratona começa com "A Sociedade do Anel", nesta quinta-feira, dia 22 de janeiro. A programação segue com "As Duas Torres", na sexta, dia 23, e se encerra no sábado, dia 24, com "O Retorno do Rei". O relançamento marca os 25 anos do primeiro filme, dirigido por Peter Jackson, e ocupa salas de diferentes formatos, com preços promocionais.

No Brasil, a relação com a trilogia sempre teve algo de singular. "A Sociedade do Anel" estreou por aqui apenas em 1º de janeiro de 2002, depois de um adiamento peculiar: a estreia foi empurrada para não dividir espaço com "Xuxa e os Duendes", numa época em que os filmes da apresentadora dominavam as férias escolares e as telas do país.

A aposta se mostrou equivocada. O universo criado por J. R. R. Tolkien atravessou o réveillon quebrando recordes de público e deixando claro que havia mais gente interessada naquela jornada do que o mercado previa. Duas décadas depois, a história retorna em outro registro: versões estendidas que somam mais de 12 horas, uma bilheteria acumulada próxima de US$ 3 bilhões, 17 Oscars no currículo - incluindo Melhor Filme para "O Retorno do Rei". A Warner Bros. já sinalizou novos capítulos desse universo, como The Hunt for Gollum, previsto para 2027. Por ora, porém, o convite é outro: sentar, apagar as luzes e caminhar de novo, sem pressa, por uma história que insiste em permanecer.

Assista no Cineflix Cinemas mais perto de você
As principais estreias da semana podem ser assistidas na rede Cineflix CinemasPara acompanhar as novidades da Cineflix mais perto de você, acesse a programação completa da sua cidade no app ou site a partir deste link. No litoral de São Paulo, as estreias dos filmes acontecem no Cineflix Santos, que fica no Miramar Shopping, à rua Euclides da Cunha, 21, no Gonzaga. Consulta de programação e compra de ingressos neste link: https://vendaonline.cineflix.com.br/cinema/SANO Resenhando.com é parceiro da rede Cineflix Cinemas desde 2021.

Cineflix Miramar | Santos
Dia 22 de janeiro | "O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel" | Sala 3 | 18h00
Dia 23 de janeiro | "O Senhor dos Anéis - As Duas Torres" | Sala 3 | 18h00
Dia 24 de janeiro | "O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei" | Sala 3 | 18h00
No Miramar Shopping | Rua Euclides da Cunha, 21 - Gonzaga - Santos / São Paulo. Ingressos neste link.

.: #LeituraMiau: "13 Dias no Inferno: Ele Existe", de Emerson Sobral


Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas

Em "13 Dias no Inferno: Ele Existe", livro publicado pela Costelas Felinas Editora, o autor Emerson Sobral mergulha nas profundezas de sua experiência pessoal de sobrevivência à covid-19, apresentando uma narrativa emocionante e profundamente realista. A obra vai além de um simples relato: é um testemunho visceral de luta, superação e transformação.

Por meio de uma escrita direta e sensível, o autor recria os momentos mais sombrios de sua batalha contra a doença - da febre intensa às dificuldades respiratórias - conduzindo o leitor por uma jornada física e emocional. O realismo com que descreve esses dias difíceis impressiona e comove, mas nunca abandona um fio de esperança que atravessa toda a narrativa. Emerson Sobral equilibra com maestria a dureza da experiência com uma sensação de redenção que se revela ao final.

O que torna "13 Dias no Inferno" ainda mais impactante é a profunda mudança que essa vivência provocou em sua vida. Suas reflexões sobre a fragilidade humana, o autocuidado e a relação com o sistema de saúde são instigantes e provocativas. Para o autor, a cura não foi apenas física, mas também emocional e espiritual. E essa transformação transparece em cada página. Sua nova maneira de enxergar o mundo é transmitida com sinceridade, despertando no leitor momentos de empatia e introspecção.

Como primeira obra publicada, Emerson Sobral demonstra notável habilidade ao transformar uma experiência tão íntima e dolorosa em literatura acessível e envolvente. A decisão de expor sua história exigiu coragem, e essa honestidade se reflete em cada linha, fazendo com que o leitor se sinta parte de sua trajetória. "13 Dias no Inferno: Ele Existe" é uma leitura intensa e necessária, recomendada a quem deseja compreender os impactos humanos da pandemia e, ao mesmo tempo, encontrar inspiração em uma história verdadeira de resiliência e esperança.

domingo, 18 de janeiro de 2026

.: Patrick Selvatti entre envelhecimento e desejo em novo romance


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

Escritor, jornalista e finalista do Concurso de Dramaturgia da TV Record, Patrick Selvatti voltou à ficção. Em “Ainda Sou Mar”, romance digital lançado pela Amazon, o autor deixa para trás a adolescência prolongada que marcou parte de sua obra e avança para um terreno mais áspero: o de um homem que já foi desejado, já foi referência e agora precisa lidar com o fim do próprio protagonismo.

Marlon Petit tenta entender onde ainda cabe. Ex-modelo internacional, ele circula pelo Rio de Janeiro entre praias, sessões de terapia improvisadas e encontros sexuais que já não prometem permanência. Selvatti constrói esse mosaico sem suavizar o universo gay masculino nem transformar seus personagens em exemplos edificantes. O sexo aparece com crueza, mas nunca como ornamento ou provocação vazia. Nesta entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, o autor fala sobre envelhecimento, desejo, racismo, apagamento profissional e o desconforto de seguir em movimento enquanto o mundo insiste em não esperar ninguém.



Resenhando.com - Você escreveu recentemente dois romances que dialogam com fases diferentes da vida: juventude e maturidade. Em que momento percebeu que precisava escrever sobre o envelhecimento do desejo com "Ainda Sou Mar"?
Patrick Selvatti - Tenho uma marca autoral registrada muito forte relacionada à juventude. Do meu romance de estreia, "Os Filhos da Revolução", até agora, com "A Orquídea e o Beija-flor", abordo muito a juventude. Coincidentemente, ambas histórias nasceram quando eu era adolescente. Percebi que precisava evoluir para a faixa madura quando eu próprio cruzei esse limiar. A partir dos 40 anos, eu comecei a notar o silêncio em torno desse tema. O desejo envelhece, mas a narrativa sobre ele some! Existe uma espécie de pacto social, especialmente dentro do meio gay, que associa erotismo à juventude eterna. Quando o corpo começa a mudar, o desejo vira algo quase vergonhoso, deslocado... Escrever sobre isso é uma tentativa de romper esse silêncio e de me recusar a aceitar que o afeto e o tesão tenham prazo de validade.


Resenhando.com - Marlon Petit foi um corpo desejado, consumido e descartado. Em algum ponto da escrita você sentiu que estava narrando menos a história de um personagem e mais a anatomia cruel de um sistema que transforma pessoas em fetiche?
Patrick Selvatti - Totalmente. Marlon Petit é menos um indivíduo isolado e mais um corpo atravessado por um sistema que valoriza, usa e descarta. A escrita foi revelando isso aos poucos: não se trata apenas de quem ele é, mas do lugar que o mercado do desejo reserva para certos corpos em determinados momentos da vida. O romance acabou se tornando uma espécie de autópsia emocional desse mecanismo cruel que, como o próprio personagem diz, "te mastiga e te cospe". E ele não se refere apenas ao desejo sexual, mas também ao comercial, onde um corpo, mesmo considerado mito para a mídia, é rapidamente substituído.


Resenhando.com - O que você pensa que mais incomoda hoje em “Ainda Sou Mar”: a explicitude do sexo ou o fato de um homem gay de 42 anos ainda desejar, sofrer e sentir medo de desaparecer?
Patrick Selvatti - Espero que incomode mais o segundo ponto, viu? Afinal, ainda há um falso moralismo em relação a tudo que envolve o sexo, né? Mas a literatura erótica não é uma ferramenta exclusiva do homem gay, que, por tantas vezes, é acusado de promiscuidade. Tanto que os maiores best sellers do gênero dialogam com mulheres, donas de casa que, hoje, consomem narrativas como as da trilogia "365 Dias" assim como minha mãe lia as coleções "Bianca", "Júlia" e "Sabrina" no passado. Aqui, o sexo explícito é quase um álibi moral para alcançar o debate real. A pornografia atrai e fascina, mas não aprofunda. E o meu intuito é que o que realmente desconcerte não seja o realismo cru da narrativa, mas a ideia de que um homem gay maduro ainda sente, deseja, erra e sofre... Existe uma expectativa silenciosa de que, passado um certo tempo, o desejo deveria se aposentar junto com o corpo, e isso é profundamente violento!


Resenhando.com - Ao criar um influenciador de 19 anos como reflexo do protagonista, você quis denunciar uma herança simbólica tóxica ou admitir que todos, em alguma medida, aprendem a desejar de forma equivocada?
Patrick Selvatti - Existe uma herança simbólica sendo passada adiante, sim, mas ela não surge do nada. Todos nós aprendemos a desejar dentro de estruturas que associam valor à aparência, poder à juventude e afeto à performance. O jovem não é vilão, ele é produto e espelho. O romance tenta mostrar esse ciclo sem simplificações morais. Mas a ligação do personagem Mateus com Marlon vem em camadas que vão se apresentando de forma muito poética. E dialoga muito também com questões parentais que, segundo Freud, pautam o fetiche. Para mim, a passagem mais bonita do livro é quando os personagens que representam as três gerações se unem e, literal e poeticamente, se despem uns para os outros em uma praia de nudismo. Ali, eles falam do desejo sexual, mas também do ponto que mais os fere: suas relações parentais. É bonito e eu me emocionei escrevendo!


Resenhando.com - O vizinho negro sexagenário carrega o peso do estereótipo do “preto bem-dotado”. Ao escrever esse personagem, o que mais incomodou você: expor o racismo estrutural do desejo ou perceber o quanto ele é reproduzido dentro da própria comunidade gay?
Patrick Selvatti - Na realidade, Alex surge na narrativa como o espelho que Marlon não quer ver. Ele "despreza" o vizinho que se instala ao seu lado em plena pandemia por representar aquilo que ele enxerga que será seu futuro: um homem gay maduro e solitário que apela ao sexo pago para se sentir desejado. Isso é muito forte! Independentemente da cor da pele, Alex simboliza a velhice gay que a comunidade isola. Mas sempre me incomodou perceber o quanto esse racismo ligado à objetificação é naturalizado e reproduzido internamente. Não se trata apenas de um olhar branco sobre o corpo negro, mas de um sistema de desejo que se perpetua mesmo entre quem também é marginalizado. O próprio Alex busca corpos pretos, jovens e instrumentalmente avantajados para se satisfazer. Ele carrega essa contradição no corpo e na afetividade, e isso torna sua dor ainda mais complexa. Foi uma escolha necessária que o personagem fosse preto, sexagenário, bem-dotado e passivo. E sua profissão, bombeiro que apaga incêndios e salva-vidas no mar, não é à-toa: o personagem luta para conter suas próprias chamas e, ao mesmo tempo, não se afogar no mar revolto.


Resenhando.com - No livro, o marido dermatologista que vive da estética íntima masculina é uma provocação direta à indústria da perfeição. Você acredita que o culto ao corpo se tornou uma nova forma socialmente aceita de autoviolência?
Patrick Selvatti - Acredito plenamente. Quando o cuidado vira obsessão e a autoestima depende de procedimentos, métricas e validação externa, há violência, ainda que bem embalada. O culto ao corpo, hoje, opera como uma exigência social disfarçada de escolha individual. É uma forma elegante de coerção. No meio gay, ela também vem muito associada à distorção da virilidade e da potência: tamanho vira documento. E há o agravante de o personagem Benício sofrer de uma compulsão sexual diagnosticada. A doença está ali, sendo tratada, ainda que maquiada pelo discurso bonito da harmonização. Essa relação conjugal também espelha uma realidade atual que merece uma lente de aumento: até que ponto o amor livre é saudável e uma escolha de mão dupla? É polêmico isso...


Resenhando.com - Seu romance escancara o universo gay masculino sem suavizações. Existe uma cobrança, seja ela explícita ou silenciosa, para que narrativas LGBTQIAPN+ sejam sempre edificantes, pedagógicas ou “exemplares”?
Patrick Selvatti - Talvez se espere que personagens LGBTQIAPN+ representem uma espécie de manual de conduta ou um discurso politicamente correto permanente. Mas isso seria injusto e limitador. Personagens têm o direito de ser contraditórios, falhos, incômodos... A ficção não precisa pedir desculpas por mostrar zonas sombrias. O ser humano, por essência, é complexo. Em diversas situações, Marlon pode deixar de ser vítima para ser algoz. Uma leitora me escreveu que não sabe se sente pena ou raiva dele em diversos momentos. E é exatamente sobre isso.


Você bebe na fonte da teledramaturgia e assume o folhetim como linguagem. Em tempos de literatura que tenta parecer séria demais, o exagero emocional ainda é um ato de resistência narrativa?
Patrick Selvatti - O exagero emocional da dramaturgia sempre foi uma forma de dizer verdades que o realismo contido não alcança. O folhetim entende que sentimento também é estrutura narrativa. Em um momento em que tudo precisa parecer asséptico e intelectualizado, assumir emoção, melodrama e intensidade é, sim, um gesto de resistência. Estamos em um momento peculiar do nosso audiovisual, onde as tradicionais novelas precisam se render ao ritmo alucinante das séries e do consumo rápido do digital. Mas também é o momento em que o Brasil está se curvando ao seu cinema, sabendo valorizar narrativas mais profundas e com mais pausas. "Ainda Sou Mar", inclusive, nasceu de um argumento para um filme. E ele está pronto para se tornar um. 


As ilustrações criadas com auxílio de Inteligência Artificial tensionam o debate sobre autoria e imagem. Para você, elas ampliam a experiência literária ou revelam o quanto a literatura também está refém da lógica visual das redes?
Patrick Selvatti - As ilustrações foram uma escolha consciente e que conduziram toda a narrativa. As imagens foram nascendo junto com a história - muitas delas, aliás, fizeram com que passagens da narrativa nascessem - tal qual ocorre com o storyboard de um filme. "Ainda Sou Mar" não seria o mesmo romance sem o apelo visual, a retratação em imagens. É uma história sobre estética, e as ilustrações contam essa história. Para o leitor, elas ampliam a experiência, mas também podem escancarar essa dependência da imagem, sim. Não vejo isso como contradição, mas como sintoma do nosso tempo. A literatura sempre dialogou com outras linguagens. Ignorar o peso do visual hoje seria artificial. O importante é que a imagem não substitua a palavra, mas dialogue com ela.


Antes de perder o lugar como corpo desejável, Marlon Petit já havia perdido o lugar como referência profissional. O que dói mais: deixar de ser desejado ou deixar de ser necessário?
Patrick Selvatti - Acho que deixar de ser necessário dói mais, porque o desejo ainda pode ser negociado, reinventado, deslocado... A necessidade não. Quando você deixa de ser referência profissional, perde não só espaço, mas função simbólica. É como se o mundo dissesse: “Seguimos sem você”. Isso atinge a identidade de forma muito mais profunda do que o espelho.


O romance sugere que o mercado não envelhece ninguém, ele simplesmente substitui. Em que medida o apagamento profissional é a primeira forma de violência simbólica sofrida pelo protagonista?
Patrick Selvatti - O apagamento profissional vem antes do apagamento do corpo porque ele é silencioso. Ninguém anuncia que você ficou obsoleto, você apenas vai deixando de ser chamado. Para Marlon Petit, essa ausência de demanda antecede o declínio do desejo. O mercado opera por substituição, não por transição. Não há rito de passagem, só descarte. É uma ferida muito mais profunda, e é o que desencadeia nele a impotência sexual como um sintoma dos danos à sua saúde mental... Marlon traz muitas camadas, para além do homem narcisista que vê sua imagem o sugar para o fundo do mar.


Resenhando.com - Marlon Petit foi um “mito” e virou "passado". Você acredita que nossa cultura sabe lidar com trajetórias ou apenas com novidades? Há espaço para a experiência ou só para o próximo hype?
Patrick Selvatti - Nossa cultura é profundamente obcecada pela novidade. Ela consome histórias apenas enquanto elas rendem visibilidade, e não é à toa que vivemos a ditadura do reels. Trajetórias exigem memória, e memória dá trabalho, "Ainda Estou Aqui " e "O Agente Secreto" nos esfrega isso na cara. O hype é fácil porque é descartável. A experiência, ao contrário, exige escuta, paciência e reconhecimento. Essas coisas são cada vez mais raras, né?


Resenhando.com - Existe uma solidão específica de quem já foi alguém profissionalmente e hoje precisa se reinventar fora dos holofotes. Essa dor é menos falada do que a crise do corpo. Por quê?
Patrick Selvatti - Porque a crise do corpo é visível, e sua reparação está ao alcance dos procedimentos estéticos. Já a perda de relevância profissional é invisível e profundamente envergonhante. Admitir que você já teve importância e, hoje, não tem mais é confrontar o medo coletivo de inutilidade. É uma solidão que não rende likes, nem empatia imediata. É fato: o derrotado não engaja.


Escrever "Ainda Sou Mar" foi também uma forma de elaborar o medo de que a relevância profissional tenha prazo de validade, especialmente para quem construiu a própria identidade em torno do reconhecimento público?
Patrick Selvatti - Sem dúvida. Para além do dilema gay, o livro nasceu desse medo que me foi apresentado em diversas entrevistas que fiz e sigo fazendo com artistas, na maioria heterossexuais. Um em especial, que se tornou meu amigo pessoal, desabafava muito comigo sobre o fato de estar com 35 anos e "não ter acontecido". Essa angústia me atravessou muito - afinal, um homem nessa faixa etária está no auge, mas não para a indústria do like. Quando sua identidade está atrelada ao olhar do outro, a perda de reconhecimento vira um abismo. Escrever foi uma tentativa de nomear essa angústia, de encará-la sem a romantização de que envelhecer é bonito. Não para resolver essa angústia, mas para entendê-la e, talvez, sobreviver a ela com mais consciência. E trazer esse tom cinzento que não aparece no colorido do arco-íris foi a cereja do bolo.


Depois de “Ainda Sou Mar”, fica a sensação de que envelhecer é um ato político. Escrever esse livro foi mais um gesto de sobrevivência pessoal ou uma forma de dizer que o desejo também tem direito à maturidade?
Patrick Selvatti - Mas é um ato político, e não sou eu quem afirmo isso, quem sou eu? (risos). Eu só constato que envelhecer, especialmente sendo gay, é resistir a uma lógica que tenta nos apagar. Escrever esse livro, para mim, foi reafirmar que o desejo não pertence apenas à juventude e que a maturidade também tem direito ao corpo, ao afeto, ao erro e ao prazer. É uma declaração de existência.

.: Sandra Sá canta sucessos no Teatro do Sesc 24 de Maio


No palco, de "Olhos Coloridos" a "Retratos e Canções", a cantora interpreta músicas dos seus 45 anos de carreira. Foto: divulgação

O Teatro do Sesc 24 de Maio recebe, nos dias 23 e 24 de janeiro, a cantora Sandra Sá. O show conta com um mix de diferentes estilos musicais, como MPB, soul, samba e funk, além de canções que foram importantes ao longo da carreira. Sandra Sá, é uma cantora, compositora, musicista e atriz brasileira. Conhecida por seu timbre grave da voz, a carioca nasceu em 1955. 

Chegou a iniciar, em 1977, faculdade de Psicologia, mas desistiu antes da conclusão quando umas de suas canções, intitulada “Morenando”, foi gravada por Leci Brandão. Logo depois, viria a ser descoberta como intérprete, com “Demônio Colorido”, seu álbum de estreia, em 1980. Em 45 anos de trabalho, Sandra conta com algumas parcerias musicais. Em 1983, se juntou com Tim Maia em “Vale Tudo”, canção que ganhou clipe musical e deu nome ao disco da artista. S

As músicas de Sandra Sá levantam temáticas contemporâneas, como em “Olhos Coloridos”, que relata o racismo enfrentado em um país que é majoritariamente composto por miscigenação. As músicas da artista já foram temas de algumas novelas, “Bye Bye Tristeza” em “Que Rei Sou Eu?” (1989) foi uma delas. Recentemente regravou nova versão de “Dona de Mim”, ao lado de IZA, autora da canção, e a artista Azzy, para a novela que leva o mesmo nome, e tem a previsão de fim para 2026.


Serviço 
Show de Sandra Sá no Sesc 24 de maio 
Dias 23 e 24 de janeiro, sexta e sábado, às 20h00
Sesc 24 de Maio, Rua 24 de Maio, 109, São Paulo – 350 metros da estação República do metrô
Classificação: 12 anos
Ingressos: sescsp.org.br/24demaio ou através do aplicativo Credencial Sesc SP- R$ 60,00 (inteira), R$ 30,00 (meia-entrada) e R$ 18,00 (Credencial Sesc).
Duração do show: 90 minutos
Serviço de Van: Transporte gratuito até as estações de metrô República e Anhangabaú. Saídas da portaria a cada 30 minutos, de terça a sábado, das 20h00 às 23h00, e aos domingos e feriados, das 18h00 às 21h00.

.: "O Último Ato" estreia com Eduardo Martini e direção de Elias Andreato


Do encontro entre dois artistas movidos pela mesma chama — o amor absoluto pelo teatro — nasce um espetáculo que abre a discussão sobre a morte assistida. Foto: Morgade

"O Último Ato" nasce de um encontro casual: foi numa manhã de outono, entre um café e um pão de queijo, que Eduardo Martini convidou Franz Keppler para escrever um novo texto teatral. Um mês depois, a obra estava pronta. Dessa parceria surgiu um espetáculo potente e sensível, que aborda uma história de amor entre dois homens e mergulha em um tema delicado e urgente: o suicídio assistido. A direção é assinada por Elias Andreato.

Na trama, um pintor de reconhecimento internacional e seu companheiro mais jovem, juntos há 43 anos, preparam-se para viajar ao Porto, em Portugal, cidade onde se conheceram. A princípio, seria apenas mais uma das muitas viagens que o casal realizou ao redor do mundo, não fosse esse o último destino antes da decisão definitiva do pintor: recorrer ao suicídio assistido após o agravamento dos sintomas do Alzheimer. 

Na noite que antecede a partida, o companheiro mais jovem faz e recebe ligações de amigos próximos. Essas conversas constroem diferentes pontos de vista sobre a escolha extrema, ampliando o debate e revelando, sobretudo, a força dos vínculos afetivos. Em meio à despedida, o espetáculo destaca a importância do amor, da amizade e do respeito à decisão do outro, mesmo quando ela exige a maior das renúncias. Com delicadeza e coragem, "O Último Ato" propõe uma reflexão profunda sobre autonomia, dignidade e o amor que permanece até o fim.


Serviço
"O Último Ato"
Autor:  Franz Keppler
Direção: Elias Andreato
Elenco: Eduardo Martini
Duração: 60 minutos
Classificação: 12 anos
Gênero: drama
Temporada: de 22 janeiro a 26 fevereiro, quintas-feiras, às 20h.
Ingressos: R$ 80,00 | R$ 40,00 (meia)
Bilheteria: abre 1h30 antes do espetáculo
Ingressos on-line: https://bileto.sympla.com.br
Teatro União Cultural - 269 lugares
Rua Mario Amaral, 209 - Paraiso
Estação Metrô Brigadeiro
Tel: (11) 3885-2242

.: Escrevivência de Conceição Evaristo vira ópera no Theatro São Pedro


Programação terá as óperas "Orfeu no Inferno", "Don Pasquale" e "Conceição Evaristo - Uma Ópera Escrevivência", com texto da própria autora que completa 80 anos em 2026. Foto: divulgação

A temporada 2026 do Theatro São Pedro ganha um ponto de inflexão simbólico e artístico com “Conceição Evaristo - Uma Ópera Escrevivência”, criação que coloca no centro do palco uma das vozes mais decisivas da literatura brasileira contemporânea. Em um gesto que ultrapassa a programação cultural e toca a história, o teatro dedica uma ópera inteira à autora mineira justamente no ano em que ela completa 80 anos - e o faz com texto assinado pela própria escritora.

A estreia está marcada para 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, data que não poderia ser mais precisa para a proposta do espetáculo. As récitas seguintes acontecem nos dias 22, 25, 27 e 29 de novembro, esta última coincidindo com o aniversário de Conceição Evaristo. Não se trata apenas de uma homenagem, mas de uma afirmação estética e política: a ópera, gênero historicamente associado a narrativas europeias e cânones brancos, abre espaço para a escrevivência - conceito criado pela autora para nomear uma escrita atravessada por memória, corpo, experiência e ancestralidade.

Com composição musical de Juliana Ripke, a obra articula palavra e música a partir da própria matéria literária de Evaristo, marcada por vozes femininas negras, silêncios históricos e afetos forjados na resistência cotidiana. No elenco estão Edna D’Oliveira, Juliana Taino e Vinicius Costa, que dão corpo e voz a uma narrativa que não busca acomodação, mas escuta. Na mesma temporada, o teatro ainda apresenta títulos como “Orfeu no Inferno”, “Don Pasquale”, produções da Academia de Ópera, criações inéditas do Atelier de Composição Lírica, além de uma programação que envolve cinema, dança, música de câmara e concertos especiais.

.: “Spectrophilia”, de Shajara Bensusan, obra híbrida sobre memória e existência


“Spectrophilia” é um livro que trabalha com a ideia de memória e espectro, circulando entre filosofia e ficção sem se fixar em um gênero específico. Mais do que um autor no sentido tradicional, Shajara Néehilan Bensusan aparece como uma autoria atravessada por vozes, mitos e experiências que ampliam os limites do pensamento filosófico. Lançado pela Editora Cultura e Barbárie, o livro propõe um experimento literário que mistura reflexão teórica, imaginação e desejo, em um território que o próprio texto insiste em manter instável.

A obra se organiza como um percurso em três movimentos, atravessado por questões de gênero, vida, morte, política e pertencimento. Em “Spectrophilia”, a morte não surge como oposição à vida, mas como parte constitutiva dela - incômoda, erótica, afetiva. Ao situar esse debate em espaços simbólicos como Chungara (ex-América Latina), o livro articula reflexão filosófica e conflito político, sugerindo que tanto a vida quanto a morte são atravessadas por disputas de poder e modos de existir.


Sobre o autor
Shajara Néehilan Bensusan
é professor associado do Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília. Doutor pela University of Sussex, atuou como pesquisador e professor visitante em diversas universidades no Brasil e no exterior. Autor de extensa produção acadêmica e ensaística, publicou, entre outros títulos, Spectrophilia (Cultura e Barbárie, 2025), Memory Assemblages (Bloomsbury, 2024) e História Sul-Americana da Imortalidade (Cultura e Barbárie, 2024).
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