sábado, 2 de abril de 2005

.: Entrevista com Marcelino Rodriguez, escritor

"A leitura é vital para o indivíduo e para os povos. Um povo sem leitura é um povo subjugado." - Marcelino Rodriguez

Por: Mary Ellen Farias dos Santos

Em abril de 2005




Marcelino Rodriguez, é um escritor hispano-brasileiro, de 38 anos. Poeta e escritor desde a adolescência, publicou o primeiro poema em 1986, na Shogun Arte editora, do casal Paulo Coelho e Cristina Oiticica. 

Em 1996, lançou o livro de crônicas o “Observador de Pardais” e estréia como cronista. Na seqüência foram os títulos: "O Espião de Jesus Cristo" 1999, "Juvenília" 2000, "Café Brasil" 2001, "A Ilha" 2001, "Boneco de Deus" 2002, "Mar, Romântico Mar" 2002, prêmio Pérgula Literária Internacional e Ação Cultural.

Em 2000 tornou-se editor da Luz do Milênio Editora. Em janeiro de 2004 viajou e residiu na Argentina por dois meses. Portador de dupla nacionalidade, esse é Marcelino, um hispano-brasileiro. 



RESENHANDO - Qual o sentimento de ter um livro publicado?
MARCELINO - Bem, eu sempre editei de forma independente, por editoras cooperativadas, em que o  autor paga a edição. Meu primeiro livro solo foi em 1996, O Observador de Pardais. Em 2000, fundei a Luz do Milênio Editora e passei a usar sua chancela. Mas as grandes editoras ainda não tive muita paciência de ficar esperando. Preciso produzir para sobreviver física e psicologicamente. Não é preciso dizer, acho, que escritor sofre um bocado até poder andar sobre as palmeiras... 


RESENHANDO - Há quanto tempo está produzindo esta obra? 
MARCELINO – Boa pergunta. Em Janeiro de 2004, não tendo condições nem financeiras nem morais de permanecer no Brasil naquele momento, oficializei minha cidadania espanhola e fui para a Argentina, Córdoba. Alguns textos, escrevi ainda no Brasil e se pode perceber o exílio e a solidão do período no ano de 2003. Com os textos escritos na Argentina e mais os que escrevi ao retornar, em março de 2004 até fevereiro desse ano, posso dizer que foram dois anos de tempo convencional. Bom Dia, Espanha! é meu livro mais importante, mais lúcido, onde assumo de forma obstinada minha hispanidade, mais ainda do que a condição européia, porque a língua e os costumes de Espanha estão em toda a outra parte da América-Latina. Inicialmente , em 2001, programei uma viagem a Cuba que acabou não saindo. Em 2004, enfim, cumpri o destino que estava no sangue e tive que me acertar com o espanhol que há em mim. A Argentina foi uma revelação. Hoje, compreendo que a verdadeira cidadania é sanguínea, pois não importa a terra em que vamos nascer. Importa antes essa que temos geneticamente e vai nos dar o corpo, elementos psicológicos, insights ancestrais, etc. Demorei muito tempo para perceber o óbvio. Ou seja, que eu sou um híbrido. Em qualquer país de língua espanhola sinto-me em casa. Uma colega ítalo-boliviana, descreveu sua condição de híbrida da seguinte maneira: "Não me sinto nem completamente italiana nem completamente boliviana. Me sinto um ser híbrido, cidadã do mundo, estrangeira em toda parte". Na verdade, nós híbridos somos muito sensíveis. Essa obra então, finalizando, posso dizer que foi uma obra de revelação de vida. Assim que nasci com ela e por ela.


RESENHANDO - Fale sobre o livro que escreveu. 
MARCELINO – É um livro autoral que acaba sendo universal pelos acontecimentos em Madri e pelo arquétipo de um artista perdido em busca de um porto e de um filho de imigrante buscando uma pátria.


RESENHANDO - Qual o estilo da sua obra? Por quê? 
MARCELINO – Minha obra é autoral, na maioria das vezes. Muitas vezes foi autobiográfica. Até ingenuamente de minha parte. Um livro de poesia em que há grandes momentos... É uma obra que tem lampejos, muita sensibilidade, humor, muita vida... Para o que a vida me deu como infra-estrutura e a maneira precária da troca cultural no Brasil, posso dizer que fui muitas vezes heróico. Espero daqui por diante com mais recursos e reconhecimento, com mais apoio, ter mais zelo com minha literatura. 


RESENHANDO - Como e quando começou a escrever? O que escrevia? Por que? 
MARCELINO - Comecei na adolescência, por volta dos 17, 18 anos escrevia poesia basicamente. Aliás, virei escritor além de poeta porque percebi que não sobreviveria com lirismo apenas. Quem me abriu as portas da revelação foi meu colega Jose Enokibara, um poeta independente muito bom. Pouco divulgado, infelizmente. A partir de lê-lo, descobri que era poeta. Foi meu primeiro ídolo.


RESENHANDO - Quais as dificuldades encontradas para publicar a primeira obra?
MARCELINO - Se o autor tiver algum dinheiro, ele pode pagar a edição como fazem quase todos os escritores. Sem essa condição, ele terá que tentar o mercado convencional que é pedreira. Mas a regra quase geral é o início alternativo e independente. 


RESENHANDO - Para ler, qual o seu estilo preferido? 
MARCELINO - Eu escrevi uma crônica sobre o Nilton Bonder em que falo que meu conceito de literatura seria a arte de interpretar O absoluto via palavras. Sendo assim, gosto dos leitores metafísicos, místicos, autores, que além do lado estético me tragam mais conhecimento. Na verdade, a condição espiritual da vida é que sempre busquei entender. Acho que todo livro deve acrescentar algo na alma do leitor. Meu estilo preferido são relatos das descobertas que os autores fazem com a alma. "Gosto de livros escritos com sangue", dizia Niesztche. É por ai.


RESENHANDO - Há alguma obra em especial que tenha marcado um momento importante da sua vida? Qual? Por que? 
MARCELINO - Sim. Claro. Shopenhauer, com As Dores do Mundo, Niesztche com Assim Falou Zaratustra, na adolescência, mais tarde um pouco, Fernando Pessoa, Paulo Coelho com o Diário de um Mago e Nilton Bonder com Portais Secretos, livro que li seis vezes. Foram obras que me mudaram.


RESENHANDO - Na sua opinião, há interferência entre o que o escritor vive com o que escreve? Porque? 
MARCELINO -  Entendo que sim. Todo livro é, em algum nível, autobiográfico. 


RESENHANDO - Na sua opinião é real o incentivo à leitura que tanto se comenta? O que acha da ação concreta do governo federal sobre a lei que desonerou o livro do PIS/Confins?
MARCELINO - Não. É demagógico “os incentivos”. Tanto assim que não há programas televisivos que abordem a questão da informação e cidadania. A leitura é vital para o indivíduo e para os povos. Um povo sem leitura é um povo subjugado. Deve-se trabalhar no ensino fundamental e no médio. Principalmente. A leitura forma cidadãos e valores. O jovem chega no Brasil as universidades sem nenhum senso de cidadania e patriotismo, então vemos juizes, médicos, advogados e outros seres de ”nivel superior”, sem um mínimo caráter. Quanto a lei , é boa. A questão é ver se vai funcionar. 


RESENHANDO - Que nomes da literatura lhe influenciaram na escrita? 
MARCELINO - Muita gente. Jorge Amado. Jorge Luis Borges. Fernando Pessoa. Drummond. Cecília Meirelles. Mário Quintana. Paulo Coelho. Nilton Bonder. Os cronistas. Etc. 


RESENHANDO - Você acha que o avanço tecnológico, como por exemplo, o  computador e a internet, estão afastando as pessoas dos livros? 
MARCELINO - Não. Pelo contrário. Está fazendo as pessoas escreverem, se comunicarem através de blogs. A internet pra mim, é a maior invenção humana. 


RESENHANDO - Qual a importância do incentivo à leitura para o público infantil? 
MARCELINO - Vital. Não dar livros as crianças é um crime ideológico contra a natureza humana. 


RESENHANDO - O que a literatura representa em sua vida? 
MARCELINO - Parte substancial da minha vida, já que vivo de acordo com minhas idéias. 


RESENHANDO - Quais as suas perspectivas no universo editorial? 
MARCELINO - Ter garantida a minha sobrevivência como autor e contribuir com livros que tornem a vida mais leve. “Bom Dia, Espanha” já foi uma escolha estética. 




PING-PONG: 

Cidade que nasceu: Rio de Janeiro. Espanhol por ascendência paterna. Meu pai era da Galicia. 
Ano de nascimento: 1966. Dia 27 de agosto – sob o signo de virgem. 
Gosto de: Gente responsável. 
Detesto: O oposto. 
Vivo por: Modo espiritual. Penso sempre na questão da possível eternidade de tudo. 
Meus escritores favoritos são: Nilton Bonder, Paulo Coelho, Gabriel Garcia Marques. Graciliano Ramos. 
Escrevo por: Necessidade. Vocação. 
Mensagem para o público que irá conferir a sua obra: Foi escrita com uma paixão nobre em que procurei sempre dar o melhor. Bom Dia, Espanha é a metáfora da minha condição humana. 
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