domingo, 20 de janeiro de 2019

.: "Um Cara Qualquer": a violência sexual cometida por mulheres

"Um Cara Qualquer" é um desafio. O romance de estreia da premiada atriz e escritora Amber Tamblyn é uma obra provocativa e brutal. 

Combina gêneros de poesia, prosa e elementos de suspense para dar forma às narrativas chocantes das vítimas de violência sexual, mapeando as formas destrutivas pelas quais a sociedade contemporânea perpetua a cultura do estupro. "Um Cara Qualquer" é inovador e busca interagir com o que, ultimamente, está mais próximo de nós: o celular. 

A obra leva para uma experiência inusitada, interagindo com a história de uma forma diferente. Em cada exemplar, há um QR Code que funciona como um passaporte para um Clube de Leitura exclusivo. A cada capítulo há um número que, quando acionado via celular, nos transporta para uma interação singular.

Violência sexual cometida por mulheres
Romance de estreia da premiada atriz e escritora norte-americana Amber Tamblyn, "Um Cara Qualquer" ("Any Man", título original) é um livro provocativo e brutal. Combina gêneros de poesia, prosa e elementos de suspense para dar forma às narrativas chocantes das vítimas de violência sexual, mapeando as formas destrutivas pelas quais a sociedade contemporânea perpetua a cultura do estupro. 

O extraordinário é como, com o passar dos anos, essas pessoas aprendem a se curar, unindo-se e encontrando um espaço para levantar as vozes. Com pontos de vistas alternados – e uma assinatura para cada voz e experiência da vítima – as páginas crepitam de emoção que vão do horror à empatia; e tiram o fôlego do leitor. Ousada, a obra pinta um retrato marcante da sobrevivência e é um tributo àqueles que viveram o pesadelo da agressão sexual.

"Um Cara Qualquer", de Amber Tamblyn é um romance que trata de agressão sexual de forma singular; uma narrativa que tem causando incômodo a muitos leitores norte-americanos. No romance, o vilão é uma mulher que atinge homens com agressões sexuais tão violentas e perturbadoras que poderiam ter sido arrancadas de um filme de terror. As vítimas do sexo masculino são narradores e mergulham na dor profunda de lidar com as consequências do crime que sofreram. Em entrevista para Stephanie Merry, editora de Booke World do jornal The Washington Post, Amber afirma: “A arte precisa trazer conversas difíceis; eu não tenho dúvidas de que esse livro vai incomodar muita gente, mas estou bem com isso”.

Por traz da escolha de Amber Tamblyn há o desejo de chamar a atenção para um problema que atinge a sociedade como um todo. Há assédio sexual tanto de mulheres quanto de homens; há vítimas e algozes nos dois lados. “E temos que falar sobre o prejuízo humano que envolve essa violência. Pela força da narrativa e relevância do tema, escolhemos esse romance para estrear uma tecnologia de leitura que trará o leitor para dentro da história”, afirma Lu Magalhães, presidente da Primavera Editorial.

Traduzido por Cynthia Costa – doutora em Estudos da Tradução pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), professora do curso de tradução da UFU e com mais de 60 obras traduzidas – "Um Cara Qualquer" foi um desafio pela troca constante de gênero textual proposta pela autora e pelo tom dos relatos das personagens, em primeira pessoa. “No primeiro caso, ao mesmo tempo em que era complicado passar da prosa à poesia, da poesia à notícia e até aos tweets, também fiquei contente, como tradutora, por poder experimentar tantas formas literárias em um único livro. Sobre o tom visceral dos relatos, a minha maior preocupação foi transmitir em português a dor e a emoção dessas personagens”, revela.

Sobre a estrutura textual – que combina poesia e prosa – na percepção de Larissa Caldin, publisherda Primavera Editorial, a autora usa os versos para imputar um sentimento mais exacerbado sem cair em clichês que nos levam a crer ser a poesia como invariavelmente sentimental e a prova racional. “A prosa da autora é incutida com uma linguagem viva e nada plácida que permanece em todo o texto. Talvez, Amber tenha propositalmente inserido a poesia e a prosa em oposição, de forma a mostrar, em um ponto de vista técnico e muito mais subjetivo, que a prosa era aquilo que as personagens diziam sentir para si e para o mundo; mas, a poesia era o quê, de fato, as personagens sentiam dentro de si, o Blue Bird de cada um”, analisa.

O projeto gráfico – conduzido pela Project Nine Editorial – foi desenvolvido para contar, graficamente, a história de singularidade, estranhamento e inversão de papéis, gerando a reflexão pretendida. Idealizada em 2011 pelo designer Francisco Martins, a Project Nine Editorial é uma empresa jovem focada no mercado editorial, sempre atentos às novas tecnologias e inovações a fim de desenvolver projetos adequados para cada segmento editorial.



Inovação tecnológica para gerar uma nova experiência de leitura
Em um cenário de crise sem precedentes, o mercado editorial vive o desafio de engajar leitores das novas gerações; encontrar novos canais de venda como alternativa às livrarias; desenvolver um modelo de negócio sustentável; e concorrer em igualdade de condição com entretenimentos como jogos digitais e canais de streaming. 

Fundada há uma década por Lu Magalhães, a Primavera Editorial buscou inspiração na inovação tecnológica para vencer esse desafio. A editora brasileira firmou uma parceria com a LifeLike – empresa que desenvolveu a tecnologia TransmediaStorytelling. A ferramenta foi a base para desenvolver uma experiência de leitura única no mercado editorial nacional e estrangeiro.

Segundo Lu Magalhães, o produto livro tem enfrentado grandes intempéries decorridas não apenas do esgotamento do modelo de negócio, mas do distanciamento de diferentes gerações de leitores que, muitas vezes, deixaram de dedicar tempo à leitura para investir tempo e dinheiro para acompanhar séries em canais de streaming. “É uma confluência de fatores que trouxe o mercado até esse ponto agudo da crise. Defendo que antigas soluções não serão a fonte para resolver os desafios contemporâneos. Com isso em mente, fui buscar ideias que tornem ler uma experiência tão interativa quanto esses concorrentes digitais. E, encontrei no próprio Brasil uma tecnologia que, na minha convicção, puxará uma revolução na forma de consumir livros”, afirma a presidente da Primavera Editorial.

As experiências simulam uma conversa com pessoas reais, que interagem com o usuário conforme a resposta dada à cada etapa da leitura; a interação se dá naturalmente, como em uma conversa de WhatsApp por meio de áudios, vídeo selfies, textos, chamadas de celular, entre outros. Essa interação desperta uma emoção que funciona como fator de engajamento para as narrativas propostas. A tecnologia usa uma técnica de TransmediaStorytelling, desenvolvida em parceria com a Inglaterra, e foi refinada em termos de utilização e modelos de negócio no Brasil pela LifeLike. A empresa cria mundos e experiências imersivas com esta tecnologia para engajar grandes audiências e resolver problemas reais nas áreas de marketing, educação e assessment.

Para o mercado de livros, a parceria com a Primavera Editorial é inédita. “Produzimos uma experiência imersiva inédita no mercado editorial global. Com o uso de uma tecnologia desenvolvida em parceria com especialistas ingleses, sobretudo o papa dessa temática de TransmediaStorytelling, Sir Robert Prattern, vamos proporcionar uma vivência de leitura única, levando o leitor para dentro da história como nunca foi feito antes”, afirma Homaro Lima, cofundador da LifeLike Experience, acrescentando que praticar uma nova cultura de interação é fundamental para empresas de qualquer segmento; é uma forma de fazer o negócio sobreviver às mudanças comportamentais ditadas pela tecnologia.

Lima explica que atualmente a empresa vive a segunda fase de desenvolvimento, ancorada na criação de uma grande “editora” de experiências digitais que leve títulos de obras de diferentes segmentos para grandes públicos, dentro de uma solução inédita no segmento. “Em função desse direcionamento estratégico, firmamos uma parceria com a Primavera Editorial para lançarmos a primeira obra imersiva literária do Brasil, unificando o que há de mais moderno no mundo em termos de utilização de chatbotse obras de ficção. A proposta, ‘criar uma experiência única no leitor’, deixou toda a equipe muito empolgada, pois temos a certeza de estarmos dando um primeiro passo para o que se tornará uma revolução no segmento. É um prazer fazer parte desse projeto e interagir com pessoas tão visionárias quanto as da Primavera Editorial; são tão malucas quanto nós”, afirma Lima, acrescentando que é necessário inovação para chacoalhar o mercado editorial.

Trechos do livro|

“(...) Camila me empurra pelo corredor, em uma cadeira de rodas fedendo a Listerine de hospital, rumo ao elevador. Fica mais fácil assim, dizem-nos eles. Sentirei dor ao caminhar por algumas semanas. Não consigo erguer os olhos e cruzar o olhar com as enfermeiras, dos pacientes ou dos médicos pelo caminho. Posso senti-los. Sou uma relíquia danificada indo embora para o museu.”
(Página 34)

“(...) Eu quis me matar de novo. Eu queria acabar com o sofrimento dela e terminar o que começara, aí correr para o lado dela e deixá-la me esmagar com a queda.”
(Página 147)

“(...) Depois que ela fez o que ela fez, ela me mandou contar bem devagar até o número da idade que eu tivesse e não me mexer até terminar de contar, e ela saiu. Eu contei duas vezes porque tive muito medo de que não fosse tempo suficiente. Teria sido uma contagem até dez, apenas. Eu tinha só dez anos.”
(Página 271)

Sobre a autora
Amber Tamblyn, autora de poemas "Dark Sparkler", já foi indicada ao Emmy, Globo de Ouro e ao Independent Spirit. Atriz ("Joan of Arcadia", "The Sisterhood of the Traveling Pants") e escritora, já publicou dois livros de poesia – "Free Stalluin" (2005), ganhador do Borders Book Choice Award, na categoria Escrita Revelação, e "Bang Ditto" (2009), best-seller da Indie-Next. 

Colaboradora da Poetry Foundation, Amber já escreveu para veículos como Interview, Cosmopolitan, San Francisco Chronicle, Poets& Writers, PANK, entre outros. Reside no Brooklin com o marido, o comediante David Cross, e a filha de um ano.

Ficha Técnica
Ficção | Literatura
ISBN: 978-85-5578-075-2
Páginas: 328
Tradutora: Cynthia Costa
Preço sugerido: R$ 39,90

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