quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

.: Inspirado em "O Cortiço", musical "Bertoleza" dá voz às mulheres negras


Com elenco majoritariamente negro, a Gargarejo Cia Teatral estreia o musical
Bertoleza,  inspirado no livro "O Cortiço", de Aluísio Azevedo, no dia 7 de fevereiro no Sesc Belenzinho. O espetáculo fica em cartaz até 1º de março, com sessões às  sextas e aos sábados, às 21h30, e aos domingos (e no dia 22 de fevereiro), às 18h30. 

A montagem, com adaptação, direção e músicas de Anderson Claudir, conta a história do clássico naturalista de Aluísio de Azevedo, agora sob ponto de vista da Bertoleza, uma mulher negra que é tão importante para a construção do romance quanto o próprio João Romão, o protagonista original. 

Na trama, o oportunista Romão propõe uma sociedade à escrava Bertoleza, prometendo comprar a alforria dela. Eles começam uma nova vida juntos e constroem um pequeno patrimônio formado por um enorme cortiço, um armazém e uma pedreira. 

Depois de acumular capital considerável, o ambicioso João Romão já não sabe mais como se tornar mais rico e poderoso. Envenenado pelo invejoso Botelho, ele decide se casar com Zulmira, a filha de Miranda um negociante português recentemente agraciado com o título de barão. Mas, para isso, precisa se livrar da amante Bertoleza, que trabalha de sol a sol para lutar pelo patrimônio que eles construíram juntos.

Para a companhia, o grande desafio foi fazer com que uma narrativa do século 19 questionasse e problematizasse as relações criadas nos dias de hoje. Por isso, o projeto iniciado em 2015 foi ganhando novos contornos. “Quisemos investigar uma identidade brasileira que vem da diáspora africana e pensar em como isso nos afeta artisticamente. Assim, podemos criar novos signos para essa geração e dar uma voz para essa terra periférica”, conta Claudir. 

No processo, o coletivo procurou a força da figura de Bertoleza em outras mulheres negras brasileiras negligenciadas pela História. Durante a encenação, o elenco relembra as histórias dessas mulheres, como a vereadora Marielle Franco, militante da luta negra assassinada em março de 2018; a escritora Carolina Maria de Jesus, famosa pelo livro "Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada"; a jornalista e professora Antonieta de Barros, defensora da emancipação feminina que foi apagada dos livros de História; a escritora Maria Firmina dos Reis, considerada a primeira romancista brasileira; e a guerreira Dandara, que viveu e lutou no período colonial.

A protagonista dessa história é interpretada pela atriz Lu Campos,
o elenco também tem como destaque Eduardo Silva (Botelho), que ficou conhecido ao dar vida ao personagem Bongô no "Castelo Rá Tim Bum" e coleciona importantes prêmios teatrais como Mambembe, APCA, APETESP, Moliére e SHELL. 

O time de intérpretes fica completo comTaciana Bastos (Zulmira), Bruno  Silvério (João Romão) e pelos integrantes do coro Ananza  Macedo, Cainã Naira, David Santoza,Gabriel Gameiro, Matheus França, Palomaris e Welton Santos. A direção musical é assinada por Eric Jorge; o dramaturgismo e a poesia, por Le Tícia Conde; e a coreografia, por Emílio Rogê. 


Relação profunda entre vida e obra
“Bertoleza é uma personagem inspirada em tantas histórias de um povo que resiste às injustiças de uma lógica racista. Sua história resiste ao tempo. Ela representa a força dessas inúmeras mulheres que sustentam a base do nosso país”, comenta Eduardo Silva. Para ele, o inescrupuloso Botelho também é bastante atual. “É a velha manipulação política, que não se preocupa com o povo e justifica suas incoerências sem a menor base social ou científica”,
completa. 

Para Lu Campos, interpretar Bertoleza tem um significado ainda mais profundo. No processo desde 2015, ela conta que vivenciou um chamado ancestral em 2017: suas antepassadas maternas deram-lhe a missão de quebrar o ciclo de opressão vivenciado por sua família desde os tempos de escravidão. “Espero
 que as mulheres pretas se sintam bem representadas na peça e a partir disso, busquem seus lugares de protagonismo nos variados âmbitos da vida”conta. 

Para a atriz, estar nesse processo contribui para a sua expansão de consciência. Em busca de mais respostas sobre sua ancestralidade, ela também cursou a pós-graduação em Matriz Africana pela FACIBRA/Casa de Cultura Fazenda Roseira. “As pessoas precisam perceber quão rica e diversificada é a matriz africana, por isso ela deve ser resgatada e valorizada. Afinal, a África é o ventre do mundo”emociona-se.

Sobre a Gargarejo Cia Teatral
Formada por uma equipe majoritariamente periférica, a Gargarejo Cia Teatral conta com artistas de diversas áreas, como artes plásticas, dramaturgia, artes cênicas, direção, cenografia, musicalidade e produção. A companhia teve início em 2014, em Campinas, reunindo diferentes especialidades artísticas em parceria com renomadas instituições da região, como a Universidade de Campinas (UNICAMP), o Conservatório Carlos Gomes, a Estação Cultura de Campinas, as Prefeituras de Campinas, Sumaré e Vinhedo e o Lar dos Velhinhos de Campinas.

O grupo foca em uma perspectiva étnico-racial que reflete sobre colonização versus identidade. A intenção é articular a vivência periférica na cena como protagonista na sociedade, resgatando a autoestima e recriando autoimagem. Em 2015, iniciou uma pesquisa sobre "O Cortiço", que resultou na microcena "Bertoleza - Uma Pequena Tragédia": ponto de partida para o processo de investigação que, em 2019, completa quatro anos. Em 2017, o grupo se estabelece na cidade de São Paulo e, durante esse período, realiza diversas experimentações cênicas e musicais, propõe leituras, debates, rodas de conversa e apresentações das canções.


Sinopse
Adaptação musical de "O Cortiço", de Aluísio Azevedo, obra clássica da literatura naturalista brasileira, em que o protagonismo é invertido. A voz agora é de Bertoleza: mulher, negra e escravizada que se relaciona com João Romão, um português ambicioso e oportunista. Bertoleza é o dedo na ferida, é o nó expulso da garganta, a voz que pergunta: E a Bertoleza?

Ficha técnica

Direção e adaptação: Anderson Claudir. Direção musical: Eric Jorge.
Dramaturgismo e poesia: Le Tícia Conde. Texto final: Anderson Claudir e Le Tícia Conde. Elenco: Lu Campos, Eduardo Silva, Ananza Macedo, Cainã Naira, Palomaris, Taciana Bastos, Bruno Silvério, David Souza , Edson Teles, Gabriel Gameiro, Matheus França e Welton Santos. Coreógrafo: Emílio Rogê. Preparação vocal e assistência de direção musical: Juliana Manczyk.
Coordenadora de produção: Cláudia Miranda. Produção executiva: Andréia Manczyk. Assistente de produção: Marina Pinho. Cenografia e figurino: Daniela Oliveira. Assistente de cenário e figurino: Gabriela Moreira. Iluminação: Andressa Pacheco. Assistente de iluminação: Stella Pollitti. Vídeo: Aline Almeida. Assessoria de imprensa: Bruno Motta Mello e Verônica Domingues – Agência Fática. Técnico de palco: Maria Clara Venna e Leonardo Barbosa.

Serviço
"Bertoleza", da Gargarejo Cia. Teatral 
De 7 de fevereiro a 1º de março de 2020. Sexta e sábado, 21h30. Domingo, 18h30. Dia 22 de fevereiro, sábado, às 18h30.
Local: Sala de Espetáculos I (100 lugares).
Valores: R$ 30 (inteira). R$ 15 (aposentado, pessoa com mais de 60 anos, pessoa com deficiência, estudante e servidor da escola pública com comprovante). R$ 9 (credencial plena do Sesc: trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo credenciado no Sesc e dependentes). Ingressos disponíveis pelo portal Sesc SP (www.sescsp.org.br) e nas bilheterias das unidades do Sesc. Limite de quatro ingressos por pessoa.
Duração: 90 minutos.
Recomendação etária: 12 anos.

Sesc Belenzinho
Rua Padre Adelino, 1000 - Belenzinho - São Paulo.
Telefone: (11) 2076-9700.
www.sescsp.org.br/belenzinho

Estacionamento
De terça a sábado, das 9h às 22h. Domingos e feriados, das 9h às 20h.
Valores: credenciados plenos do Sesc: R$ 5,50 a primeira hora e R$ 2 por hora adicional. Não credenciados no Sesc: R$ 12 a primeira hora e R$ 3 por hora adicional.

Para espetáculos pagos, após as 17h: R$ 7,50 (Credencial Plena do Sesc - trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo). R$ 15 (não credenciados). Transporte Público - Metro Belém (550m) | Estação Tatuapé (1400 metros).

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