terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

.: Acessibilidade, canções originais e mitologia dividem a cena em "Hereditária", espetáculo em cartaz no Sesc Pompeia


Com indicações ao Prêmio Shell de Direção e Cenário, espetáculo inova na abordagem à acessibilidade, com audiodescrição e Libras integradas à dramaturgia. Foto: Thelma Vidales

 
Após temporadas no Rio de Janeiro, "Hereditária" estreou em São Paulo no Espaço Cênico do Sesc Pompeia e permanece em cartaz até o final do mês, de quarta a sexta-feira. Idealizado pela multiartista Moira Braga, o espetáculo parte da descoberta, aos sete anos de idade, de uma condição genética rara que causaria a perda de sua visão, para investigar os múltiplos sentidos da hereditariedade - do genético ao social. Há duas décadas, Moira vem construindo uma trajetória relevante na cena artística brasileira, especialmente no campo da cultura DEF. Atua como autora, bailarina, atriz e preparadora de elenco no teatro e no audiovisual.

A dramaturgia, escrita pela atriz em parceria com o diretor do espetáculo, Pedro Sá Moraes, entrelaça acontecimentos da vida pessoal e da ancestralidade de Moira a referências históricas, científico-sociais e mitológicas - como o mito grego das Moiras, três irmãs funestas que tecem o destino de todos os seres. Entre o biográfico, o poético e o político, a peça reflete sobre o quanto de nossas vidas é predeterminado e o quanto temos poder de escolha. 

"'Hereditária' aborda temas sensíveis, doença, morte, perdas. Mas não é sobre isso. Penso que esse espetáculo é sobretudo uma história de amor à Vida. O público é convidado a refletir sobre o que são nossas heranças e nossa hereditariedade: aquilo que nos chega pela ancestralidade, o que se perde pelo caminho e as heranças que escolhemos carregar. Heranças congênitas, sociais, culturais e simbólicas que atravessam corpos e histórias", explica Moira.

No Palco, a idealizadora contracena com duas outras atrizes: Luize Mendes Dias, que também é intérprete de Libras, e a multi-instrumentista Isadora Medella. A Língua Brasileira de Sinais e a audiodescrição estão integradas de forma orgânica desde a dramaturgia até as movimentações cênicas, expandindo as fronteiras do que tradicionalmente se compreende como acessibilidade.  

A narrativa é costurada por canções originais compostas por Pedro Sá Moraes, que também assina a direção musical ao lado de Isadora Medella. O trabalho foi inspirado no conceito de Teatrocanção, no qual a musicalidade orienta o ritmo da atuação e a pulsação das cenas. "A canção é uma forma de expressão muito poderosa, porque chega no corpo e no afeto, antes da racionalidade. As formas musicais brasileiras, em especial, são parte da nossa herança compartilhada e por isso possibilitam uma experiência mais íntima das metáforas e das reflexões do espetáculo. De certo modo, essa musicalidade ajuda a criar a ponte que sai da história da Moira, e vira história de cada um", comenta o diretor.

O cenário, concebido como uma instalação visual e sonora pelo músico e artista plástico Ricardo Siri, é formado por objetos que produzem sons ao serem pisados, tocados, percutidos ou deslocados em cena. Pessoas cegas e com baixa visão são convidadas a fazer uma visita guiada antes da abertura das portas, para explorar os elementos cenográficos de forma tátil, ampliando a experiência sensorial do espetáculo.

A direção de movimento, assinada por Edu O., performer e professor da UFBA, primeiro professor de dança cadeirante de uma universidade pública brasileira, Edu é referência nacional no debate sobre Arte DEF, incorporando à criação reflexões sobre capacitismo e o que define como bipedia compulsória.

A trajetória de Moira Braga ganhou projeção nacional a partir de 2022, com sua participação na novela Todas as Flores, da TV Globo, onde atuou como preparadora de elenco e intérprete da personagem Fafá. Em 2024, retornou à emissora como preparadora de elenco da novela Renascer e 2025 do longa-metragem Antártida.  Para a artista, esse reconhecimento reforça a importância de que profissionais com deficiência sejam convocados não apenas para falar sobre deficiência, mas para exercer plenamente suas funções criativas. 

Ficha técnica
Espetáculo "Hereditária"
Idealização: Moira Braga
Dramaturgia: Moira Braga e Pedro Sá Moraes.
Direção: Pedro Sá Moraes.
Elenco: Isadora Medella, Luize Mendes Dias e Moira Braga.
Canções originais: Pedro Sá Moraes.
Direção musical: Pedro Sá Moraes e Isadora Medella.
Direção de movimento: Edu O.
Cenografia: Ricardo Siri.
Figurino: Vania Ms. Vee.
Iluminação: Ana Luzia De Simoni.
Iluminador assistente (montagem e adequação de rider): Guiga Ensá.
Operação de luz: Eloah Mendes.
Técnico de som: Hernán Romero.
Identidade visual: Vinícius Santilli | Grambolart.
Designer (edição das peças gráficas): Fernando Alax.
Fotos: Junior Zagotto, Felipe Rodrigues, Pedro Sá Moraes, Thelma Vidales.
Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli.
Consultoria em Libras: Jadson Abraão.
Consultoria em audiodescrição: Felipe Monteiro.
Contabilidade: Davi Andrade.
Produção executiva: Júlia Pires.
Direção de produção: Jordana Korich.
Co-realização: Movimento Falado Ltda., Sá Moraes Produções e Educação e Grande Mãe Produções. 


Serviço
Espetáculo "Hereditária" 
Até dia 27 de fevereiro de 2026.
Dias e horários: quarta a sexta-feira, às 19h30; quinta-feira também com sessão vespertina, às 16h00.
Duração: 60 minutos.
Classificação indicativa: 12 anos.
O espetáculo conta com tradução em Língua Brasileira de Sinais e audiodescrição em cena aberta, além de visita guiada ao cenário para pessoas cegas e com baixa visão.
Ingressos: R$ 50,00 (inteira), R$ 25,00 (meia-entrada) e R$ 15,00 (credencial plena).
Sesc Pompeia – Rua Clélia, 93.
Sem estacionamento. Para informações sobre outras programações, acesse o portal: sescsp.org.br/pompeia
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