Por Maria Paula Teperino, escritora
Outro dia fui conhecer um restaurante recém-inaugurado em uma ruazinha de Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Amigos já haviam ido e comentado que a comida era ótima, assim como o ambiente. Entrei na página do restaurante no Instagram e enviei uma mensagem perguntando se o local tinha acesso para pessoas que, como eu, se deslocam com cadeira de rodas.
Aqui faço um parêntese antes de retomar o objetivo desta escrita. É extremamente constrangedor ter que enviar mensagens ou telefonar para um determinado lugar de uso público — ou seja, que recebeu um alvará do poder municipal — para perguntar se o seu corpo pode ou não frequentar aquele espaço. Estamos entrando no segundo quarto do século XXI e, pelo menos na minha cidade, o Rio de Janeiro, muitos espaços públicos continuam sem acessibilidade para pessoas com deficiência.
Feito esse parêntese, recebi rapidamente uma resposta pela rede social informando que havia acesso. Ao chegar lá — talvez por ainda ser cedo para o almoço — alguns funcionários estavam na porta. Quando estacionei o carro, e suponho que tenham visto o cartão de estacionamento para pessoas com deficiência, uma funcionária avisou que haviam ido buscar a rampa, pois, embora a porta tivesse apenas dois degraus, quem fez a reforma, em vez de optar por rampear a entrada, deve ter pensado que degraus são mais estilosos do que acessibilidade. Assim, não restou alternativa senão mandar confeccionar uma rampa de metal.
A rampa não demorou a chegar. Pasmem: ela não fica guardada dentro do restaurante, mas sim na rua ao lado. Foi preciso uma moça e um rapaz para trazê-la. Pela dificuldade com que a carregavam, dava para perceber o quanto era pesada — eles chegaram a colocá-la no chão duas vezes, tomar fôlego e continuar o trajeto, até que finalmente pudesse ser posicionada no lugar onde deveria estar fixa.
Confesso que esse foi mais um constrangimento. Os funcionários que foram buscar a rampa — um garçom e a gerente — não foram contratados para isso. Eu, como cliente, deveria ter o direito de entrar no restaurante como qualquer outra pessoa, mas não foi o que aconteceu.
Por outro lado, quando um local se torna acessível, ele não se transforma em um espaço exclusivo para pessoas com deficiência física ou mobilidade reduzida. Pelo contrário: um lugar onde uma pessoa em cadeira de rodas entra com autonomia é justamente um espaço ao qual qualquer pessoa pode acessar. E foi exatamente isso que aconteceu: a referida rampa passou a ser utilizada por todos que chegaram ao restaurante durante as aproximadamente três horas em que permaneci ali.
Agora, gostaria que você refletisse comigo: por que um equipamento de acessibilidade, como essa rampa, é sempre visto como algo de uso exclusivo de pessoas com deficiência? E, mais importante, por que, quando existe, esse equipamento costuma ficar guardado — muitas vezes trancado? Acredito que o medo do contato com um corpo fora da normatividade contribua, senão como principal razão, ao menos como um fator importante para a ideia de que não existimos, de que não frequentamos lugares para além de clínicas de reabilitação, hospitais e afins.
Depois de me deparar inúmeras vezes com situações como essa — por dever de ofício, já que sou psicanalista — pude perceber que não se trata apenas de desconhecimento ou ignorância. Existe algo para além disso. A invisibilização imposta às pessoas com deficiência e às suas demandas não acontece somente por questões sociais ou pela forma como são tratados os grupos historicamente minorizados. Isso tem nome: capacitismo.
Resolvi, então, dedicar-me a tentar responder a essa questão a partir do ponto de vista da psicanálise. Fiz um mestrado e minha dissertação abordou esse tema. Ela está sendo publicada e, em breve, convido você a ler meu livro, "Não Desvie o Olhar - A Invisibilização das Pessoas com Deficiência sob o Ponto de Vista da Psicanálise", publicado pela Editora Appris, no qual discuto essa e outras questões relacionadas ao tema.
Sobre a autora
Maria Paula Teperino construiu uma trajetória marcada pela pluralidade e pela profundidade intelectual. Graduada em Psicologia e em Direito, aprofundou sua formação no campo da psicanálise: é pós-graduada em Psicologia Clínica pela PUC-Rio e em Teoria Psicanalítica pela Universidade Veiga de Almeida (UVA/RJ), instituição onde também concluiu o Mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade. Atualmente, integra o Fórum do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro. Mulher com deficiência física, Maria Paula traz à sua prática e às suas reflexões uma perspectiva singular sobre corpo, sujeito e sociedade.













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