terça-feira, 21 de julho de 2026

.: Rafael Caneca transforma episódio da história brasileira em romance


Em entrevista, autor de "Não Volte Sem Ele" fala sobre construção narrativa, influências literárias e as escolhas que moldam sua estreia no romance; Foto: arquivo pessoal


Em “Não Volte Sem Ele”, o escritor cearense Rafael Caneca estreia no romance ao transformar um episódio pouco conhecido da história brasileira em matéria literária. Ambientada no Ceará da década de 1930, a obra parte da existência dos chamados campos de concentração criados durante a seca de 1932 para construir uma narrativa que investiga não apenas a violência histórica, mas também os modos como a literatura pode representar o trauma, o silêncio e a experiência humana em situações extremas.

A obra acompanha Tomás, jovem sertanejo enviado pelo pai em busca do irmão desaparecido, em uma travessia marcada por fome, deslocamento forçado e confinamento. Ao longo do percurso, o romance revela como essas estruturas funcionavam como mecanismo de contenção e segregação, transformando a experiência individual do personagem em expressão de uma lógica mais ampla de exclusão social.

Os temas centrais do livro atravessam tanto o plano histórico quanto o simbólico: memória e apagamento, violência de Estado, política de exclusão, seca e deslocamento, além da relação entre fé, esperança e sobrevivência em contextos extremos. Ao tensionar esses elementos, o romance questiona a ideia de que a esperança sustenta a travessia.

Nascido e residente em Fortaleza, Rafael Caneca é escritor, assessor jurídico e integrante do Coletivo Delirantes. Influenciado por autores como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e José Saramago, desenvolve uma escrita interessada em aproximar conflitos sociais de experiências íntimas, investigando como as estruturas históricas e políticas atravessam a vida cotidiana de seus personagens. “Não Volte Sem Ele” marca sua estreia na narrativa longa e sinaliza um projeto literário voltado à ficção histórica e às formas contemporâneas de exclusão e violência.

Nesta entrevista, Rafael Caneca comenta o processo de transformação da pesquisa histórica em romance, discute suas escolhas narrativas e analisa como literatura, memória e imaginação podem dialogar para lançar novos olhares sobre histórias que permanecem à margem da memória oficial. Compre o livro "Não Volte Sem Ele", de Rafael Caneca, neste link.


Em “Não Volte Sem Ele”, você parte de um episódio histórico para construir uma narrativa ficcional. Em que momento essa investigação deixou de ser apenas pesquisa e se transformou em literatura?
Rafael Caneca A história já nasceu como ficção. Ela surgiu a partir de um projeto de livro de contos do Coletivo Delirantes, um coletivo de escritores de Fortaleza de que faço parte desde a sua criação. Durante um tempo, tive que me afastar do grupo; ao retornar, eles estavam produzindo uma coletânea de contos - ficcionais - sobre eventos históricos e ferrovias que ligavam o estado do Ceará de norte a sul. Como o livro estava em andamento, muitos dos temas que eles mesmos pensaram já haviam sido escolhidos, e um dos que ainda estava livre relacionava a ferrovia de Senador Pompeu, a seca de 1932 e os campos de concentração - de que eu tinha bem pouco conhecimento na época. Como eu sempre gostei de ler ficções históricas, de preferência sobre lugares não tão conhecidos, nem li as outras opções: essa chamou a minha atenção logo de cara. O conto foi escrito, mas eu achei que a história pedia mais: foi então que decidi transformá-lo em uma narrativa mais longa – foi aí que o romance nasceu.


O romance acompanha a travessia de Tomás em busca do irmão desaparecido. Como você construiu esse eixo narrativo sem recorrer à estrutura clássica da jornada de superação?
Rafael Caneca Eu comecei a escrever a história com algumas ideias já em mente. Claro que não tinha tudo escrito na cabeça – a história vai se desenvolvendo à medida que você senta e escreve, e muita coisa acaba mudando –, mas um dos aspectos que eu tinha decidido, antes mesmo de começar, era que eu não iria escrever uma jornada do herói. Nada contra quem goste, mas não é meu estilo – de escrita nem de leitura. Além disso, essa resolução tem tudo a ver com o espírito da obra que eu queria escrever, com a ideia que eu queria transpor para o papel.


Sua escrita aposta em um estilo direto, com poucas digressões, mesmo ao lidar com temas densos. Como essa escolha formal dialoga com a experiência de violência e escassez vivida pelo protagonista?
Rafael Caneca Procurei usar uma linguagem que refletisse o cenário: aridez e escassez no ambiente, aridez e escassez na escrita. A luta fundamental era pela sobrevivência na busca pelo irmão desaparecido, e no sertão, muitas vezes, a resistência era sinônimo de calar. Falar pouco para economizar até mesmo as palavras.


A narrativa é majoritariamente linear, mas atravessada por memórias e momentos de delírio. Como você trabalhou esses deslocamentos para aprofundar a interioridade do personagem?
Rafael Caneca Meu desejo, como escritor, sempre foi contar uma história. Sem maiores complicações, sem grandes rebuscamentos, apenas contar uma história. Isso resultou na minha escolha pela linearidade. Acontece que ninguém é 100% linear ao contar uma história, e por conta disso eu achei por bem inserir algumas digressões ao longo da narrativa – em momentos que considerei chave durante a escrita (e, consequentemente, durante a leitura). Os momentos de delírio estão demarcados no livro, e também trazem pontos importantes na narrativa.


A relação entre fé, esperança e sobrevivência aparece tensionada ao longo do livro. Como você traduziu narrativamente essa insuficiência da esperança diante da tragédia?
Rafael Caneca Eu busquei mostrar a esperança mais como mecanismo de sobrevivência do que como solução real. As personagens (principalmente o protagonista) rezam, fazem promessas e se agarram à ideia de que as coisas vão melhorar, mas a violência, a fome, o abandono e o descaso continuam avançando. A narrativa busca a todo momento ressaltar um choque constante entre a fé e a realidade material. Também me interessava trabalhar a ambiguidade da religião nesses contextos: ela consola e dá força, mas às vezes também produz resignação. Ou seja: em certos momentos, a esperança impede o desespero; em outros, impede a reação. Eu quis então mostrar justamente essa insuficiência da esperança diante de uma tragédia concreta e estrutural.


O romance lida com o silêncio e o apagamento histórico, mas também com silêncios íntimos dos personagens. Como você equilibrou essas duas dimensões na construção narrativa?
Rafael Caneca Quis aproximar o silêncio histórico do silêncio íntimo das personagens. O apagamento dos campos pelo Estado acaba se refletindo na dificuldade que os personagens têm de falar sobre o trauma, a violência e a culpa. Narrativamente, optei por fazer isso aparecer em memórias fragmentadas, diálogos interrompidos e palavras que permanecem não ditas. O silêncio funciona tanto como marca do trauma individual quanto como consequência de um apagamento coletivo.


Sua obra dialoga com tradições do romance social brasileiro, especialmente com autores como Graciliano Ramos. Em que medida essa influência se manifesta na sua escrita?
Rafael Caneca Ela aparece principalmente na tentativa de construir uma escrita mais seca, direta e humana, sem romantizar a miséria ou transformar o sofrimento em espetáculo. Graciliano Ramos me interessa muito pela forma como ele expõe a violência social a partir da vida cotidiana e dos conflitos internos dos personagens. Também existe uma preocupação em mostrar como estruturas de poder moldam subjetividades e relações humanas (no caso do meu romance, essas estruturas envolvem fome, Estado e desigualdade). “Vidas secas” foi uma grande referência não só para a escrita desse livro, mas na minha vida.


Ao mesmo tempo, há uma dimensão mais alegórica e reflexiva que remete a José Saramago. Como essas referências distintas convivem no seu processo criativo?
Rafael Caneca Acho que quando a gente tem referências dessa qualidade (Graciliano e Saramago, mas também Machado e Rachel), não custa nada usá-las, né? Aliás, é até feio fugir delas! Claro que não se trata de mera cópia, mas de inspiração. Utilizá-las é mais do que um tributo, mas se trata de aproveitar aquilo que convém à história que você quer contar.


O livro evita oferecer consolo ou resolução clara para o leitor. Essa recusa de fechamento foi uma escolha consciente desde o início?
Rafael Caneca Sim! Essa foi uma das ideias que já estava na minha mente quando comecei a escrever a história. Claro que outras opções de finais apareceram ao longo da escrita, mas, na essência, a ideia sempre foi essa.


O personagem Tomás atravessa um espaço físico hostil, mas também um território simbólico marcado pela perda e pela ausência. Como você construiu essa relação entre espaço e subjetividade?
Rafael Caneca Meu objetivo foi fazer com que o espaço não funcionasse apenas como cenário, mas como extensão emocional do próprio Tomás. A seca, os deslocamentos, os campos e as paisagens degradadas refletem o estado interno dele: a sensação constante de perda, desenraizamento e vazio.


Como romance de estreia, o que “Não volte sem ele” revela sobre o seu projeto literário daqui para frente?
Rafael Caneca Acho que o romance revela o que comentei na primeira resposta: meu interesse por ficções históricas. Mas, para mim, essas ficções devem guardar uma característica fundamental, que é a de dialogar com problemas ainda presentes. Me interessa olhar para episódios do passado não como algo encerrado, mas como estruturas que continuam se repetindo de outras formas. Além disso, acredito que meu projeto literário passa por explorar a relação, muitas vezes violenta e injusta, entre o Estado e as populações mais vulneráveis, as desigualdades sociais, a violência, os apagamentos históricos e a forma como tudo isso se relaciona com a vida íntima das pessoas. A mim, não me interessa uma literatura meramente de tese, mas uma em que os conflitos sociais tenham peso real sobre os personagens.
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