Romance de estreia no terror do jornalista Lucas Limão aborda herança militar, violência política e a dificuldade de se livrar do que nos foi imposto
Com um título que já provoca estranhamento e curiosidade, "Helena Catarina, Não Faz Cocô e Tem Dor de Barriga" chega à 24ª Flip - Festa Literária Internacional de Paraty como uma das apostas mais ousadas da Editora Orlando para 2026. O romance de Lucas Limão - que o autor define como "escatológico, comovente e profundamente humano" - acompanha a jornada de Helena Catarina, filha de um militar de alta patente, que ao se mudar para uma casa próxima ao hospital onde o pai agoniza, descobre que o imóvel é assombrado por espíritos perversos. O castigo deles, no entanto, não é matá-la, mas algo muito mais cruel: impedi-la de fazer cocô. Lucas Limão fará uma sessão de autógrafos no dia 25 de julho, sábado, às 11h, no espaço da editora orlando na Casa Ópera, no Centro Histórico de Paraty.
O que começa como uma tortura intestinal se transforma em uma investigação sobre o passado do pai e os porões mais sombrios da ditadura militar. À medida que os dias passam e a constipação se torna uma tortura insuportável, Helena busca ajuda em uma pombagira. O que começa como uma luta contra os fantasmas da casa logo se transforma em uma investigação sobre o passado do pai. As responsabilidades que ele tentou transmitir à filha e aqueles seres que a atormentam têm uma origem comum. E ela está enterrada nos porões mais sombrios da ditadura militar.
Escrito ao longo de dois anos, o livro nasceu do primeiro processo de luto vivido por Limão na vida adulta - a morte do avô. O autor explica a metáfora que estrutura toda a narrativa: "A dor de estar perdendo um ente querido em uma cama de hospital, vê-lo definhar, é tão solitário quanto um infindável prisão de ventre, as pessoas até entendem o que você está passando, e podem até estar ao seu lado, mas isso não faz você se sentir menos só." A escatologia, para ele, não é gratuita: é a tradução visceral da desumanização vivida por quem acompanha um familiar em estado terminal.
A obra transita entre o terror sobrenatural e o horror real da história brasileira. Ao investigar a casa assombrada, Helena descobre que, durante a ditadura de 64, ali ocorreu um massacre em um terreiro de candomblé - e que seu próprio pai, o Major Tenente Coronel Afonso Catarina, foi o líder da operação. A trama expõe as engrenagens de uma organização golpista dentro das Forças Armadas, os Amarelistas, e coloca a protagonista diante de um dilema cruel: como amar alguém que cometeu atrocidades? "Odiar não te proíbe de amar. E amar não te proíbe de odiar", diz a pombagira que orienta Helena. "Você deve aceitar isso. E deve aceitar que não importa o certo e nem o errado quando se trata de amor e ódio".
O livro também é uma reflexão sobre herança e culpa. Criada dentro dos rigores da caserna, Helena carrega no sangue um passado que não escolheu e que a transformou em algo que ela mesma tem dificuldade de reconhecer. Em uma das cenas mais impactantes, ela confessa aos amigos ter cometido um crime, sob a orientação do pai. "Fico pensando o que teria acontecido se ele tivesse me pedido para não fazer aquilo, o que teria acontecido com a minha vida".
A religiosidade de matriz africana e indígena ocupa um lugar central na narrativa. Helena encontra acolhimento e respostas em uma casa de timbanda, onde uma pombagira a ajuda a expelir não apenas o que seu intestino retém, mas também o peso de uma herança feita de violência. O autor, que se identifica como umbandista, afirma que a obra "traz elementos das religiões de matriz africana e indígena brasileira, e coloca Helena para confrontar os paradigmas militares com os destas religiões". A música também é personagem: canções de Gal Costa, Rita Lee, Belchior, Ave Sangria e Tião Carvalho pontuam a trama e ajudam a construir o estado emocional da protagonista.
"Por trás desse título que é, no mínimo, 'peculiar', há uma história que é, sim, em partes engraçada, mas também comovente, sobre esses sentimentos conflituosos nas relações humanas", escreve Ramon Guilherme Gomes no prefácio. "Lucas tem esse dom de observar e encontrar beleza tanto no banal do cotidiano quanto no fantástico. Além disso, ele possui uma das habilidades que mais anseio: a de ressignificar sentimentos em momentos difíceis para criar algo belo".
Com uma protagonista complexa, o romance se dirige a leitores entre 25 e 35 anos, mas sua potência ultrapassa qualquer recorte etário. É uma história sobre o que herdamos, o que escolhemos carregar e o que, finalmente, conseguimos expelir.
Sobre o autor
Lucas Limão nasceu em São Paulo, capital, e aos 27 anos acumula uma trajetória tão diversa quanto sua escrita. Já foi motorista de uma oficina de tratores, repórter televisivo de um programa sobre a vida no campo, jornalista de economia e assistente de reportagem em um blog de economia. Aos 19 anos publicou seu primeiro livro, infantil, e atualmente trabalha como assessor de imprensa e repórter. Formado em comunicação visual pela Etec Tiquatira, ele se define como alguém que "gosta de dar corda para os doidinhos que vêm puxar papo na rua", hábito que alimenta sua observação do mundo e sua escrita. Não é cristão, mas seu personagem bíblico preferido é Jonas, "pois ele morou dentro de uma baleia".
Sobre a Orlando
A Editora Orlando, fundada pelos jornalistas Karol Lopes, Marcela Güther e Vincent Sesering (também sócios da agência de comunicação literária com.tato), nasceu para dar voz a escritores independentes com qualidade e profissionalismo. Com o lema “Histórias que desafiam o tempo”, oferece serviços completos de edição, revisão, design e divulgação, além de catálogos organizados em selos específicos: ziguezague (infantil), dobradura (poesia), espiral (ficção) e brecha (não ficção). Mais que publicar livros, aposta em estratégias de visibilidade para conectar autores e leitores. Saiba mais em editoraorlando.com.br e no Instagram @editoraorlando.
Lançamento na Flip: Helena Catarina, não faz cocô e tem dor de barriga, de Lucas Limão
Editora Orlando
Gênero: Terror / Romance
Páginas: 96
Onde: 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip)
Compre o livro no site da editora orlando: https://editoraorlando.com.br/produto/helena-catarina/













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