O mestre das HQs italianas ganha vida na obra-prima psicodélica de Mario Bava, com trilha inesquecível de Ennio Morricone e o charme imortal do crime em Technicolor. Foto: divulgação
Se o cinema dos anos 1960 teve uma cara e uma atitude, ela passa inevitavelmente pelas lentes psicodélicas de Mario Bava em "Perigo: Diabolik". O longa, que acaba de desembarcar no catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, é o tipo de produção que não apenas envelheceu como um bom vinho, mas ganhou um contorno quase mítico com o passar das décadas. Trata-se da adaptação definitiva dos fumetti neri, os quadrinhos adultos que abalaram as estruturas da Itália conservadora na década de 1960, idealizados pelas irmãs Angela e Luciana Giussani.
Na trama, Diabolik (John Phillip Law) é um mestre dos disfarces e assaltante sem vestígios de escrúpulos morais que, ao lado da sua estonteante companheira Eva Kant (Marisa Mell), transforma o crime em um verdadeiro espetáculo estético. O roteiro, assinado por uma equipe de peso que inclui o próprio Bava, Dino Maiuri, Brian Degas e Tudor Gates, gira em torno das tentativas cada vez mais desesperadas do inspetor Ginko (Michel Piccoli) em encurralar a dupla. Mas o anti-herói está sempre três passos à frente, seja zombando de ministros com gás do riso ou arquitetando o roubo de uma barra de ouro de vinte toneladas.
A história dos bastidores é um show à parte. O lendário produtor Dino De Laurentiis entregou o projeto a Bava após demitir a equipe anterior. Consta que De Laurentiis colocou à disposição um orçamento pomposo para os padrões italianos, mas Bava, mestre absoluto do improviso e dos efeitos práticos, usou apenas uma fração do dinheiro. O cineasta fez milagres com truques de lente, pedaços de vidro pintados e cenários fotográficos, criando uma caverna futurista e aparatos tecnológicos que parecem custar milhões. John Phillip Law assumiu o papel principal meio por acaso, aproveitando as brechas na agenda de "Barbarella" - outra grande produção de De Laurentiis -, enquanto Marisa Mell entrou no set para substituir ninguém menos que Catherine Deneuve, dispensada após se recusar a rodar cenas de nudez e não se alinhar com a visão do diretor.
A cereja do bolo é a trilha sonora do mestre Ennio Morricone. O compositor entregou uma das suas criações mais inspiradas, uma mistura alucinante de jazz, rock psicodélico, órgãos orgiásticos e guitarras com efeito wah-wah que ditam a energia cinética do filme. Curiosamente, o longa-metragem dividiu a crítica em sua estreia em 1968 e teve uma bilheteria modesta na Itália, o que fez Bava recusar veementemente a ideia de uma sequência. O tempo, contudo, fez justiça. O visual arrebatador influenciou de Roman Coppola a videoclipes dos Beastie Boys, tornando a fita uma referência obrigatória do cinema pop. "Perigo: Diabolik" é puro entretenimento visceral, um banquete visual debochado que captura como poucos o espírito rebelde de uma época.
Ficha técnica
"Perigo: Diabolik" | "Diabolik" (título original)
Gênero: ação / crime / policial. Duração: 105 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1968. Data de lançamento: 24 de janeiro de 1968. Idioma: italiano / francês. Direção: Mario Bava. Roteiro: Dino Maiuri, Brian Degas, Tudor Gates e Mario Bava (baseado em história de Angela Giussani, Luciana Giussani, Dino Maiuri e Adriano Baracco). Elenco: John Phillip Law, Marisa Mell, Michel Piccoli, Adolfo Celi, Claudio Gora, Mario Donen, Renzo Palmer, Caterina Boratto, Lucia Modugno, Annie Gorassini, Carlo Croccolo, Lidia Biondi, Andrea Bosic, Federico Boido, Tiberio Mitri, Terry-Thomas. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
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