quarta-feira, 16 de setembro de 2026

.: Tragédia, narcotráfico e feminismo em contos de Dahlia de la Cerda


Autora de "Cadelas de Aluguel" retorna ao Brasil com histórias de mulheres e jovens marcadas pela violência, pelo desejo e pela luta para decidir os próprios caminhos

Medeia conhece bem a história do amor que termina em tragédia. A personagem de Eurípides matou os próprios filhos para se vingar de Jasão e entrou para a mitologia como uma das figuras mais perturbadoras da literatura ocidental. Nas mãos da escritora mexicana Dahlia de la Cerda, porém, ela ganha novas companhias, uma sacola de açougue e uma receita que mistura ervas, medicamentos e invocações a deusas. O resultado atende pelo curioso título de "Medeia Me Cantou Um Corrido". Segundo livro da autora publicado no Brasil pela DBA Literatura, depois de "Cadelas de Aluguel", a obra reúne contos independentes que se conectam e formam uma espécie de mosaico sobre violência, maternidade, crime organizado, desejo e sobrevivência. A tradução é de Marina Waquil.

No livro, Paulina está grávida e não quer colocar no mundo uma criança sem pai. Perla decidiu não ter filhos porque teme "estragar" o próprio corpo. Jordán foi cooptado pelo crime organizado e desapareceu há meses. Antonia quer fugir da violenta Aztlán para construir uma vida como mãe solo. Reina procura o filho, sem saber se ainda poderá encontrá-lo vivo. No meio dessas histórias aparece Medeia, movida pela combinação explosiva de amor e ódio que acompanha sua trajetória desde a tragédia grega. Aqui, entretanto, ela se torna uma espécie de aliada para mulheres que precisam lidar com relacionamentos abusivos, uma gravidez indesejada ou a procura desesperada por um filho.

O título resume a mistura proposta por Dahlia de la Cerda. Medeia vem da mitologia grega; o corrido é um gênero musical profundamente ligado à cultura popular mexicana. Entre os dois, a escritora constrói uma literatura que cruza referências aparentemente distantes e coloca lado a lado Hello Kitty e Jean-Paul Sartre, uma bolsa da Gucci e um fuzil, mitologia grega e tradição católica. Essa combinação também está no modo como as personagens são construídas. Inseridas em um ambiente marcado pelo narcotráfico mexicano, elas carregam desejos, medos, vaidades e necessidades bastante concretos. A violência está presente, mas as mulheres não são reduzidas ao papel de vítimas ou peças de uma engrenagem criminosa. Elas querem, amam, erram, planejam, se desesperam e, quando possível, tentam encontrar uma saída.

A oralidade é outro elemento fundamental. O universo dos corridos mexicanos contamina a narrativa, dando às histórias um ritmo próprio e aproximando a literatura da tradição popular. A linguagem também serve para aproximar mundos que costumam aparecer separados: o erudito conversa com o popular, a cultura pop se encontra com a filosofia e a religião divide espaço com armas, grifes e referências do cotidiano.

Em "Cadelas de Aluguel", as mulheres partiam para a vingança com as próprias mãos. Em "Medeia Me Cantou Um Corrido", a personagem mitológica ganha uma função quase de madrinha das desesperadas. Ela aparece como possibilidade de amparo para quem quer romper com um relacionamento abusivo, interromper uma gravidez ou encontrar um filho desaparecido. A própria autora ocupa um lugar de presença forte dentro desse universo. Seu feminismo é frontal, sua escrita não economiza no desconforto e suas personagens vivem em uma sociedade na qual as escolhas femininas frequentemente vêm acompanhadas de consequências violentas.  Compre o romance "Medeia Me Cantou Um Corrido", escrito por Dahlia de la Cerda, neste link.


Sobre a autora
Dahlia de la Cerda (1985) é escritora e ativista mexicana. É cofundadora e codiretora do Morras Help Morras, coletivo feminista voltado à segurança reprodutiva de mulheres periféricas. É autora de "Cadelas de aluguel" (DBA Literatura, 2025), "Medeia me cantou um corrido" (DBA Literatura, 2026) e "Desde los zulos" (2023). Compre os livros de Dahlia de la Cerda neste link.

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