Retrospectiva "Itália em Cena" recupera o drama que colocou Bergman diante de uma ilha vulcânica, de um casamento difícil e de uma comunidade hostil
O 21º Festival de Cinema Italiano no Brasil recupera, na retrospectiva "Itália em Cena", um daqueles filmes que ganharam uma vida própria muito além das circunstâncias de sua produção. "Stromboli", dirigido por
Roberto Rossellini e protagonizado por
Ingrid Bergman, chega à plataforma de
streaming Belas Artes À La Carte dentro da programação gratuita do festival, que acontece de 5 de novembro a 1º de dezembro de 2026. O longa-metragem pode ser assistido gratuitamente no
streaming e sessões em cinemas espalhados pelo Brasil.
Lançado em 1950, o filme acompanha Karin (Ingrid Bergman), uma refugiada lituana que vive em um campo para deslocados na Itália depois da Segunda Guerra Mundial. Para deixar o local, ela aceita se casar com Antonio (Mario Vitale), um pescador italiano que conhece no campo. O casamento, porém, leva Karin para uma situação que ela não imaginava: a pequena ilha de Stromboli, marcada pela pobreza, pelas tradições rígidas da comunidade e pela presença constante do vulcão.
A promessa de uma vida melhor rapidamente perde o encanto. Karin se vê presa a uma casa simples, a um marido com quem tem dificuldades de comunicação e a uma comunidade que observa com desconfiança seus modos, suas roupas e suas tentativas de reorganizar a própria vida. O choque entre a mulher que ela era e o ambiente em que passa a viver conduz boa parte do drama.
Rossellini filma a ilha com a atenção característica do neorrealismo italiano, deixando que a paisagem tenha peso dentro da narrativa. O mar, as pedras vulcânicas, as ruas da pequena comunidade e a cratera do Stromboli não aparecem como simples decoração. O território interfere diretamente na experiência de Karin, que parece procurar uma saída enquanto descobre, pouco a pouco, que escapar de um lugar pode não resolver aquilo que a incomoda.
A sequência da pesca do atum é um dos momentos mais conhecidos da produção. Filmada com pescadores e incorporada ao cotidiano da ilha, ela reforça a dimensão documental que Rossellini imprime ao filme. A erupção do vulcão também ganha uma presença impressionante, aproximando o drama pessoal de Karin da força imprevisível da natureza.
A escolha de Ingrid Bergman acrescenta uma camada particularmente curiosa ao filme. Já uma grande estrela de Hollywood, a atriz havia escrito a Rossellini manifestando admiração por seu trabalho e interesse em atuar com ele. "Stromboli" marcou a primeira colaboração entre os dois e acabou dando início a uma relação amorosa que provocou enorme escândalo na época. A própria Criterion Collection observa que a repercussão da vida pessoal do casal chegou a obscurecer, durante anos, a importância dos filmes realizados em conjunto.
Hoje, porém, "Stromboli" pode ser revisto sem depender da fofoca que acompanhou sua produção. O BFI destaca a maneira como Rossellini utiliza o neorrealismo para retratar a vida da comunidade e, ao mesmo tempo, aborda questões como solidão, condição feminina e emancipação. A produção também teve uma trajetória complicada em suas diferentes versões. A obra recebeu cortes e alterações para a distribuição norte-americana, o que gerou conflitos entre Rossellini e a RKO. A AFI registra, inclusive, a existência de versões distintas e a disputa pelos direitos internacionais do filme.
A recepção inicial esteve longe de ser consensual. A revista Time, em 1950, considerou a produção irregular, embora tenha reconhecido a força de Bergman e destacado as cenas da erupção vulcânica e da pesca do atum. Décadas depois, o filme ganhou uma avaliação muito mais generosa e passou a ser reconhecido como uma peça importante da trajetória de Rossellini e do cinema moderno.
A presença de "Stromboli" no Festival de Cinema Italiano no Brasil ajuda a recolocar em circulação uma obra que continua provocando discussões justamente porque Karin está longe de ser uma protagonista fácil de acompanhar. Ela é vaidosa, impaciente, inconformada e, muitas vezes, desagradável. Ao mesmo tempo, está tentando sobreviver em um lugar que não escolheu e em uma relação que rapidamente se torna sufocante.
É nessa contradição que Ingrid Bergman encontra uma de suas personagens mais difíceis. Karin quer sair da ilha, mas também precisa descobrir o que fazer consigo mesma quando todas as alternativas parecem igualmente ruins. Rossellini acompanha essa crise sem transformar a personagem em uma heroína convencional. O resultado é um drama áspero, marcado pela paisagem vulcânica e por uma mulher tentando encontrar algum espaço para respirar.
Serviço
"Stromboli" integra a retrospectiva "Itália em Cena" do 21º Festival de Cinema Italiano no Brasil e pode ser assistido gratuitamente no Belas Artes À La Carte durante o período do evento. Na página do filme, basta clicar em "Assistir Filme". O acesso permanece disponível de 5 de novembro a 1º de dezembro de 2026, inclusive para não assinantes. Para assistir pela televisão, é possível utilizar o aplicativo Belas Artes À La Carte disponível nas lojas de aplicativos das Smart TVs.
Ficha técnica
"Stromboli" | "Stromboli, Terra di Dio" (título original)
Gênero: Drama. Duração: 106 minutos . Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1950. Data de lançamento: 15 de fevereiro de 1950, nos Estados Unidos; a circulação italiana ocorreu posteriormente. Idioma: Inglês e italiano, conforme a versão; há versões com diferentes configurações de idioma e montagem. Direção: Roberto Rossellini. Roteiro: Roberto Rossellini, Sergio Amidei, Gian Paolo Callegari e Felix Morlion. Elenco: Ingrid Bergman, Mario Vitale, Renzo Cesana e Mario Sponzo. Distribuição no Brasil: Festival de Cinema Italiano no Brasil / Belas Artes À La Carte, na programação de 2026. Cenas pós-créditos: não.
Ficha técnica
“Duna” | “Dune” (título original)
Gênero: Ficção científica, aventura. Duração: 137 minutos. Direção e roteiro: David Lynch. Baseado no romance “Duna”, de Frank Herbert. Produção: Raffaella De Laurentiis. Produção executiva: Dino De Laurentiis. Elenco: Kyle MacLachlan, Francesca Annis, Jürgen Prochnow, Kenneth McMillan, Sean Young, Virginia Madsen, Sting, Max von Sydow, Patrick Stewart, Brad Dourif, José Ferrer, Linda Hunt, Silvana Mangano, Freddie Jones, Richard Jordan, Everett McGill, Siân Phillips, Paul L. Smith, Alicia Witt, Dean Stockwell, Jack Nance, entre outros. Música: Brian Eno e Toto. Cinematografia: Freddie Francis. Direção de arte: Pier Luigi Basile. Figurino: Bob Ringwood. Edição: Antony Gibbs. Companhia produtora: De Laurentiis. Distribuição nos Estados Unidos: Universal Pictures. Lançamento nos Estados Unidos: 14 de dezembro de 1984. Idiomas: Inglês e italiano. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
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