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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

.: "Perigo Diabolik" esquece a moralidade clássica e abraça a psicodelia


O mestre das HQs italianas ganha vida na obra-prima psicodélica de Mario Bava, com trilha inesquecível de Ennio Morricone e o charme imortal do crime em Technicolor. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Se o cinema dos anos 1960 teve uma cara e uma atitude, ela passa inevitavelmente pelas lentes psicodélicas de Mario Bava em "Perigo: Diabolik". O longa, que acaba de desembarcar no catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, é o tipo de produção que não apenas envelheceu como um bom vinho, mas ganhou um contorno quase mítico com o passar das décadas. Trata-se da adaptação definitiva dos fumetti neri, os quadrinhos adultos que abalaram as estruturas da Itália conservadora na década de 1960, idealizados pelas irmãs Angela e Luciana Giussani.

Na trama, Diabolik (John Phillip Law) é um mestre dos disfarces e assaltante sem vestígios de escrúpulos morais que, ao lado da sua estonteante companheira Eva Kant (Marisa Mell), transforma o crime em um verdadeiro espetáculo estético. O roteiro, assinado por uma equipe de peso que inclui o próprio Bava, Dino Maiuri, Brian Degas e Tudor Gates, gira em torno das tentativas cada vez mais desesperadas do inspetor Ginko (Michel Piccoli) em encurralar a dupla. Mas o anti-herói está sempre três passos à frente, seja zombando de ministros com gás do riso ou arquitetando o roubo de uma barra de ouro de vinte toneladas.

A história dos bastidores é um show à parte. O lendário produtor Dino De Laurentiis entregou o projeto a Bava após demitir a equipe anterior. Consta que De Laurentiis colocou à disposição um orçamento pomposo para os padrões italianos, mas Bava, mestre absoluto do improviso e dos efeitos práticos, usou apenas uma fração do dinheiro. O cineasta fez milagres com truques de lente, pedaços de vidro pintados e cenários fotográficos, criando uma caverna futurista e aparatos tecnológicos que parecem custar milhões. John Phillip Law assumiu o papel principal meio por acaso, aproveitando as brechas na agenda de "Barbarella" - outra grande produção de De Laurentiis -, enquanto Marisa Mell entrou no set para substituir ninguém menos que Catherine Deneuve, dispensada após se recusar a rodar cenas de nudez e não se alinhar com a visão do diretor.

A cereja do bolo é a trilha sonora do mestre Ennio Morricone. O compositor entregou uma das suas criações mais inspiradas, uma mistura alucinante de jazz, rock psicodélico, órgãos orgiásticos e guitarras com efeito wah-wah que ditam a energia cinética do filme. Curiosamente, o longa-metragem dividiu a crítica em sua estreia em 1968 e teve uma bilheteria modesta na Itália, o que fez Bava recusar veementemente a ideia de uma sequência. O tempo, contudo, fez justiça. O visual arrebatador influenciou de Roman Coppola a videoclipes dos Beastie Boys, tornando a fita uma referência obrigatória do cinema pop. "Perigo: Diabolik" é puro entretenimento visceral, um banquete visual debochado que captura como poucos o espírito rebelde de uma época.


Ficha técnica
"Perigo: Diabolik" | "Diabolik" (título original)
Gênero: ação / crime / policial. Duração: 105 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1968. Data de lançamento: 24 de janeiro de 1968. Idioma: italiano / francês. Direção: Mario Bava. Roteiro: Dino Maiuri, Brian Degas, Tudor Gates e Mario Bava (baseado em história de Angela Giussani, Luciana Giussani, Dino Maiuri e Adriano Baracco). Elenco: John Phillip Law, Marisa Mell, Michel Piccoli, Adolfo Celi, Claudio Gora, Mario Donen, Renzo Palmer, Caterina Boratto, Lucia Modugno, Annie Gorassini, Carlo Croccolo, Lidia Biondi, Andrea Bosic, Federico Boido, Tiberio Mitri, Terry-Thomas. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

domingo, 16 de agosto de 2026

.: “Detetive” coloca Godard diante do crime, do dinheiro e do próprio cinema


Filme de Jean-Luc Godard transforma investigação policial em um jogo de pistas, referências e personagens presos a dívidas. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O crime está em um hotel parisiense, mas Jean-Luc Godard parece muito mais interessado em investigar o próprio cinema. “Detetive de Godard” (“Détective”), produção francesa de 1985, chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte recuperando uma das obras mais particulares da fase dos anos 1980 do cineasta franco-suíço. No centro da trama estão um assassinato ocorrido dois anos antes, uma dívida milionária, uma luta de boxe, um casamento em crise e uma pequena multidão de personagens que circula pelo mesmo hotel como se todos escondessem alguma coisa.

Laurent Terzieff interpreta William Prospero, antigo detetive do hotel que retorna ao local determinado a esclarecer o assassinato de um hóspede conhecido como Príncipe. Jean-Pierre Léaud vive seu sobrinho, o inspetor Neveu, enquanto Aurelle Doazan interpreta Arielle. Do outro lado dessa intricada rede estão Françoise Chenal, personagem de Nathalie Baye, e seu marido Émile, vivido por Claude Brasseur. O casal enfrenta dificuldades financeiras e pressiona Jim Fox Warner, empresário de boxe interpretado pelo cantor e ator Johnny Hallyday. Para complicar ainda mais a situação, Jim também deve dinheiro à máfia. Alain Cuny aparece como o velho mafioso, enquanto Emmanuelle Seigner e Julie Delpy completam o elenco principal.

A investigação, portanto, rapidamente deixa de ser uma questão policial convencional. Godard espalha as pistas pelo cenário, pelas falas, pelos objetos e pela montagem. O hotel torna-se um tabuleiro em que detetives, boxeadores, amantes, mafiosos e devedores circulam em diferentes combinações. O espectador precisa montar as peças enquanto o diretor embaralha deliberadamente as expectativas de quem espera uma narrativa policial tradicional.

O roteiro é assinado por Alain Sarde e Philippe Setbon, com participação de Jean-Luc Godard nos diálogos e na adaptação ao lado de Anne-Marie Miéville, segundo a Cinemateca Portuguesa. A própria ficha do Festival de Cannes credita Sarde e Setbon pelo roteiro. A escolha do gênero policial tinha uma razão bastante concreta. “Detetive” nasceu de uma encomenda do produtor Alain Sarde, interessado em aproximar Godard de um projeto com potencial comercial. A estratégia reunia atores conhecidos do público francês, como Baye, Brasseur, Hallyday, Terzieff e Cuny, e colocava o diretor diante dos códigos do filme noir. O resultado, porém, conserva o gosto de Godard por desmontar convenções e fazer do próprio mecanismo cinematográfico parte da história.

A imprensa especializada percebeu justamente esse jogo. O crítico Vincent Canby, do “The New York Times”, definiu a produção como uma homenagem fragmentada e divertida ao film noir, enquanto o “Los Angeles Times” observou que Godard reduziu a narrativa ao essencial e carregou cada sequência de referências e associações, exigindo do público uma postura investigativa para compreender personagens e acontecimentos. O filme também marcou a estreia de Julie Delpy no cinema. Aos 14 anos, a atriz aparece em uma participação pequena, anos antes de conquistar reconhecimento internacional por trabalhos como “Antes do Amanhecer”, dirigido por Richard Linklater.

Outro detalhe curioso está na própria formação do elenco. Johnny Hallyday, uma das maiores estrelas da música francesa, assume o papel de um empresário de boxe envolvido com dívidas e negócios escusos. Já Jean-Pierre Léaud, figura fundamental da nouvelle vague e presença recorrente no cinema de Godard, interpreta um detetive de energia quase descontrolada. O contraste entre essas personalidades ajuda a criar a atmosfera peculiar da produção.

“Detetive” ainda foi exibido em competição no Festival de Cannes de 1985, ao lado de filmes como “Paris, Texas”, “Mishima” e “O Beijo da Mulher-Aranha”, entre outros títulos daquele ano. A presença de Godard na competição reforçava sua relação histórica com o festival, que acompanhou diversas fases de sua carreira. O filme é dedicado a três cineastas que Godard admirava: John Cassavetes, Edgar G. Ulmer e Clint Eastwood. A homenagem ajuda a iluminar o caminho escolhido pelo diretor: partir do crime, do gangster, do detetive e das convenções do cinema popular para criar uma obra que brinca com esses elementos enquanto questiona a maneira como uma história policial é construída. Com 95 minutos de duração, “Detetive” permanece uma experiência especialmente interessante para quem gosta de cinema que exige atenção aos detalhes. A trama oferece assassinato, dinheiro, sexo, boxe e máfia, mas Godard acrescenta citações literárias, música clássica, referências cinematográficas e uma montagem que transforma cada cena em uma nova pista. É uma oportunidade de reencontrar um Godard menos celebrado, porém cheio de provocações, inclusive contra as próprias regras do gênero que decidiu explorar.

Ficha técnica
“Detetive de Godard” | “Détective” (título original)

Gênero: comédia, crime e drama. Duração: 95 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1985. Data de lançamento: 10 de maio de 1985. Idioma: francês, com registros de inglês e italiano. Direção: Jean-Luc Godard. Roteiro: Alain Sarde, Philippe Setbon e Jean-Luc Godard, com adaptação de Alain Sarde, Philippe Setbon, Anne-Marie Miéville e Jean-Luc Godard. Elenco: Laurent Terzieff, Jean-Pierre Léaud, Nathalie Baye, Claude Brasseur, Johnny Hallyday, Alain Cuny, Aurelle Doazan, Stéphane Ferrara, Emmanuelle Seigner e Julie Delpy. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.



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A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

.: "Caça e Caçador" faz de Son Ye-jin uma perigosa femme fatale


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O cinema sul-coreano tem uma habilidade particular para transformar crimes aparentemente pequenos em motores de tensão. Em "Caça e Caçador", dirigido e roteirizado por Lee Sang-gi, o alvo da vez são os batedores de carteira. O longa-metragem de 2008 chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte com uma trama policial que coloca frente a frente um investigador obstinado e uma criminosa que sabe exatamente como desaparecer no meio da multidão.

Protagonizado por Kim Myung-min e Son Ye-jin, o filme acompanha Jo Dae-yeong, policial especializado em investigar roubos e furtos relacionados à Yakuza. Sua rotina muda quando ele cruza o caminho de Baek Jang-mi, líder de uma organização internacional de batedores de carteira. Depois de atuar em Osaka, no Japão, ela retorna à Coreia do Sul determinada a ampliar os negócios e recrutar uma das profissionais mais respeitadas do meio, Kang Man-ok, interpretada por Kim Hae-sook. A perseguição ganha contornos pessoais quando Dae-yeong descobre quem realmente é a mulher que havia ajudado.

A escolha de Son Ye-jin para viver Baek Jang-mi chama atenção pela mudança de registro da atriz, então muito associada a romances e personagens de forte carga dramática. Em "Caça e Caçador", ela assume uma figura calculista, sedutora e perigosa, capaz de comandar uma quadrilha e disputar espaço com homens acostumados a controlar esse tipo de atividade. O jornal sul-coreano The Korea Times destacou, na época do lançamento, a transformação da atriz e a tensão sexual presente no longa-metragem, embora tenha considerado irregular o desenvolvimento de alguns elementos dramáticos. O filme também se beneficia de um assunto pouco explorado pelo cinema policial: a organização profissional do furto. A produção acompanha métodos, hierarquias e estratégias utilizadas pelos criminosos para agir em meio a grandes concentrações de pessoas.

A relação entre a gangue e a Yakuza amplia o alcance da investigação. A história começa em Osaka, onde a quadrilha liderada por Baek Jang-mi chama a atenção das autoridades japonesas após uma série de furtos. De volta a Seul, a personagem abre uma loja de tatuagem como fachada enquanto reorganiza suas atividades criminosas. A investigação policial passa a acompanhar seus movimentos, criando uma perseguição que alterna ação, investigação e disputas internas pelo controle do território. 

O título original, "Mubangbi-dosi", pode ser traduzido literalmente como "cidade desprotegida" ou "cidade indefesa", enquanto "Open City" tornou-se o título internacional pelo qual o filme circulou em diversos mercados. No Brasil, a produção recebeu o título "Caça e Caçador". Para Lee Sang-gi, o filme marcou a estreia na direção de um filme de longa-metragem. A proposta chamou atenção justamente por combinar um elenco de grande apelo com um universo criminal pouco habitual. A imprensa sul-coreana reconheceu essa tentativa de explorar o cotidiano de uma rede de batedores de carteira, ainda que a recepção crítica tenha apontado problemas na segunda metade da narrativa.

No elenco, além de Son Ye-jin e Kim Myung-min, estão Kim Hae-sook, Son Byung-ho e Shim Ji-ho. Kim Hae-sook interpreta Kang Man-ok, uma veterana do furto que se torna peça cobiçada na disputa entre organizações criminosas. A produção ainda reúne Kim Byeong-ok, Ji Dae-han, Lee Won-jong e outros nomes do cinema sul-coreano. Uma oportunidade de revisitar uma fase particularmente fértil do cinema policial sul-coreano, quando investigações, violência urbana e personagens moralmente ambíguos começaram a ganhar espaço em produções que buscavam fugir do policial convencional. 


Ficha técnica
"Caça e Caçador" | "Mubangbi-dosi" (Título original | "Open City" (Título internacional)
Gênero: policial, ação e crime. Duração: 112 minutos. Classificação indicativa: 16 anos no Brasil; 15 anos na Coreia do Sul. Ano de produção: 2008. Data de lançamento: 10 de janeiro de 2008, na Coreia do Sul. Idioma: coreano. Direção: Lee Sang-gi. Roteiro: Lee Sang-gi. Elenco: Son Ye-jin, Kim Myung-min, Kim Hae-sook, Son Byung-ho, Shim Ji-ho, Kim Byeong-ok, Ji Dae-han, Lee Won-jong, Kim Jung-tae e outros. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sábado, 8 de agosto de 2026

.: Marilyn Monroe decide mudar o jogo em "Nunca Fui Santa" e transforma


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A estreia de "Nunca Fui Santa" na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte resgata um momento decisivo na trajetória de Marilyn Monroe. Lançado em 1956, com direção de Joshua Logan e roteiro de George Axelrod, baseado na peça homônima de William Inge, o longa-metragem coloca a estrela em um terreno menos confortável, onde charme não basta. Na trama, o caubói Beauregard “Bo” Decker (Don Murray), jovem, teimoso e completamente despreparado para relações afetivas, cruza o caminho de Cherie (Monroe), cantora de saloon que sonha com uma vida melhor. Um encontro breve vira obsessão. Convencido de que encontrou a futura esposa, ele decide levá-la para seu rancho em Montana - com ou sem consentimento. A viagem de ônibus, interrompida por uma nevasca, força os dois a encarar o que há de mais incômodo: expectativas desencontradas, desejo de liberdade e a dificuldade de reconhecer o outro como sujeito.

Joshua Logan, vindo da Broadway, conduz o filme com atenção ao comportamento dos personagens, sem pressa de resolver conflitos. O texto de Axelrod amplia a peça original e cria situações que expõem o ridículo e a fragilidade de Bo, ao mesmo tempo em que permite a Cherie escapar do estereótipo da “loira ingênua”. Monroe aproveita cada fresta. Após estudar no Actors Studio com Lee e Paula Strasberg, ela constrói uma personagem com sotaque sulista carregado, gestos contidos e um desleixo calculado no visual. A decisão de usar pouca maquiagem e abandonar o glamour habitual foi uma estratégia e tanto.

A crítica da época percebeu. Bosley Crowther, do The New York Times, escreveu que Monroe finalmente se afirmava como atriz de verdade. A indicação ao Globo de Ouro veio no mesmo embalo. Don Murray, em sua estreia no cinema, recebeu indicação ao Oscar de ator coadjuvante, sustentando com energia um personagem difícil de defender. No elenco, Arthur O’Connell e Betty Field completam o quadro com segurança, enquanto Hope Lange também inicia nesse filme a trajetória nas telas.

Nos bastidores, a produção teve tensão. Logan desconfiava da disciplina de Monroe, famosa por atrasos e inseguranças. Mudou de opinião ao longo das filmagens, chegando a compará-la a Charlie Chaplin pela capacidade de equilibrar humor e emoção. O filme também marca o retorno da atriz após um período de afastamento de Hollywood, quando rompeu com a 20th Century Fox, mudou-se para Nova York e criou a Marilyn Monroe Productions, exigindo maior controle sobre sua carreira.

"Nunca Fui Santa" não resolve todas as contradições - o romance central incomoda, a condução narrativa por vezes acelera soluções - mas permanece como registro de uma virada. O público encontra ali uma Monroe que não quer mais ser apenas imagem. Quer ser levada a sério. E, por boa parte do filme, consegue.


Ficha técnica
“Nunca Fui Santa” | "Bus Stop" (título original) | "Paragem de Autocarro" (título em Portugal).
Gênero: comédia dramática, romance. Duração: 96 minutos. Classificação indicativa: livre. Ano de produção: 1956. Data de lançamento: 1956. Idioma: inglês. Direção: Joshua Logan. Roteiro: George Axelrod, baseado na peça de William Inge. Elenco: Marilyn Monroe, Don Murray, Arthur O'Connell, Betty Field, Eileen Heckart, Hope Lange. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

.: Peretjatko desafia bom senso e libera vampiros em “Vade Retro, Vampiro!”


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Vade Retro, Vampiro!” chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, com gosto de provocação e deboche, apostando no exagero. Dirigido por Antonin Peretjatko, o longa-metragem francês gira em torno do mito do vampiro conduzido por um elenco que abraça o absurdo com Estéban à frente, ao lado de Pascal Tagnati, Yolène Gontrand, Alma Jodorowsky e Arielle Dombasle.

A trama acompanha Norbert, um vampiro aristocrata pressionado por regras familiares rígidas e anacrônicas: ele precisa encontrar uma mulher de “sangue puro” para garantir a continuidade da linhagem. A viagem ao Japão, planejada como solução, termina em naufrágio em Boulet Rouge, uma ilha isolada. O que se instala ali não é exatamente um conflito, mas um desfile de situações descontroladas, em que o nonsense se impõe e a narrativa se recusa a se comportar.

Peretjatko, que assina o roteiro ao lado de Masa Sawada e Laure Desmazières, reorganizou o projeto após a pandemia inviabilizar parte do financiamento internacional. O Japão saiu de cena, e a história foi reconfigurada a partir de referências visuais e geográficas da Ilha de La Réunion, território francês no Oceano Índico. A limitação orçamentária - cerca de 1 milhão de euros - faz com que o filme assuma uma estética assumidamente precária, que flerta com o cinema de gênero europeu das décadas de 1970 e 1980.

O humor oscila entre o escracho e a sátira, cutucando temas como pureza racial e dogmas religiosos a partir de uma lente torta e quase carnavalesca. A escolha de Estéban, conhecido pelo trabalho cômico na televisão francesa, reforça esse tom: o Norbert interpretado por ele é, ao mesmo tempo, patético e magnético. Já Alma Jodorowsky carrega no sobrenome um histórico que dialoga com o espírito do filme - neta de Alejandro Jodorowsky, ela parece perfeitamente à vontade nesse universo que beira o delírio. Arielle Dombasle, por sua vez, amplia o lado camp da narrativa. Há quem enxergue no filme uma comédia anárquica cheia de fôlego e invenção; outros se incomodam com o excesso e a falta de eixo. “Vade Retro, Vampiro!” assume o risco de ser indigesto para alguns e irresistível para outros. 


Ficha técnica
“Vade Retro, Vampiro!” | “Vade Retro” (título original)

Gênero: comédia, terror. Duração: 95 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 31 de dezembro de 2025 (França). Idioma: francês. Direção: Antonin Peretjatko. Roteiro: Antonin Peretjatko, Masa Sawada, Laure Desmazières. Elenco: Estéban, Pascal Tagnati, Yolène Gontrand, Alma Jodorowsky, Arielle Dombasle, Pascal Légitimus. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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domingo, 2 de agosto de 2026

.: “Diabo no Corpo” expõe desejo, política e escândalo no cinema de Bellocchio


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Marco Bellocchio dirige “Diabo no Corpo” , filme que chega à plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, carregando a fama que atravessou décadas: a de obra que dividiu plateias, irritou setores conservadores e alimentou debates sobre erotismo, poder e representação no cinema europeu dos anos 1980. Lançado em 1986, o longa-metragem adapta o romance de Raymond Radiguet, publicado em 1923, e desloca a trama original para o clima tenso da Itália dos chamados anos de chumbo, período marcado por radicalização política, terrorismo e instabilidade social.

A história acompanha Andrea (Federico Pitzalis), um estudante que se envolve com Giulia (Maruschka Detmers), mulher mais velha e noiva de um militante preso por terrorismo. O encontro entre os dois evolui rapidamente para uma relação marcada por obsessão, impulsos destrutivos e uma dinâmica que desafia convenções morais. Bellocchio constrói esse vínculo com um olhar direto, sem recuos, o que ajuda a explicar tanto a repercussão quanto a rejeição que o filme provocou desde sua estreia no Festival de Cannes, em 1986.

Maruschka Detmers se tornou o centro das atenções à época. A atuação intensa da atriz, aliada à exposição física e às cenas explícitas, fez dela um símbolo sexual cult no cinema europeu. O figurino assinado por Giorgio Armani reforça a construção dessa personagem ambígua, ao mesmo tempo sofisticada e instável. A atriz, anos depois, admitiria certo arrependimento pela cena mais comentada do filme, a de sexo oral verdadeiro, que acabou ofuscando outras realizações da carreira dela.

O roteiro, assinado por Marco Bellocchio, Ennio De Concini e Enrico Palandri, amplia o alcance do material original ao inserir o romance em um contexto político mais explícito. O noivo de Giulia, ligado a grupos radicais de esquerda, funciona como pano de fundo para uma narrativa em que o desejo se mistura com a sensação de colapso social. A relação entre os protagonistas não se desenvolve isolada; ela responde a um ambiente em ebulição, em que instituições, famílias e certezas parecem frágeis.

A recepção crítica nunca encontrou consenso. Parte da imprensa enxergou ousadia e vigor na forma como Bellocchio articula erotismo e política; outra parte acusou o filme de recorrer ao choque como estratégia. O tempo, no entanto, consolidou “Diabo no Corpo” como um dos títulos mais lembrados da filmografia do diretor, seja pela coragem formal, seja pelo impacto cultural que provocou.

Ficha técnica
“Diabo no Corpo” | “Diavolo in Corpo” (título original)
Gênero: drama, romance. Duração: 1h54. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1986. Idioma: italiano. Direção: Marco Bellocchio. Roteiro: Marco Bellocchio, Ennio De Concini, Enrico Palandri. Elenco: Maruschka Detmers, Federico Pitzalis, Anita Laurenzi, Alberto Di Stasio, Riccardo De Torrebruna. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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sábado, 25 de julho de 2026

.: Clássico “O Ferroviário” reencontra o público no Belas Artes à La Carte


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“O Ferroviário” chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte e recoloca em circulação um dos títulos mais marcantes da filmografia de Pietro Germi. Lançado em 1956, em plena ressaca do pós-guerra italiano, o filme acompanha a derrocada íntima de Andrea Marcocci, maquinista respeitado que vê sua estabilidade ruir após um episódio traumático nos trilhos. A narrativa, conduzida pelo olhar do filho caçula, Sandro, observa de perto o desgaste de um homem que perde o chão no trabalho e em casa.

Germi dirige e interpreta o protagonista, gesto ainda incomum no cinema italiano da época. Ao lado de Luisa Della Noce e Sylva Koscina, ele constrói um retrato familiar áspero, atravessado por tensões econômicas, orgulho ferido e vínculos que se desgastam sob pressão. A escolha de um narrador infantil intensifica o impacto dramático: o que se vê não é apenas a queda de um pai, mas a formação de um olhar que tenta compreender o mundo adulto.

Embora dialogue com o neorrealismo, sobretudo na atenção à classe trabalhadora e aos ambientes reais, “O Ferroviário” assume um tom melodramático que o afasta do rigor seco de nomes como De Sica e Rossellini. As cenas filmadas em ferrovias italianas, com apoio de companhias do setor, reforçam a materialidade do cotidiano ferroviário, algo bastante elogiado à época. O filme concorreu à Palma de Ouro em Cannes e teve forte recepção popular, consolidando Germi como um dos diretores centrais do período, antes de migrar para as comédias mordazes que marcariam sua carreira nos anos 1960, como “Divórcio à Italiana”.

A história avança entre conflitos domésticos - o filho desempregado, a filha que engravida cedo, a relação delicada com a esposa - e a lenta corrosão de Andrea, que, afastado do trabalho, mergulha na bebida e na irritação constante. Ainda assim, o filme não se limita à ruína: há espaço para gestos de reconciliação, sobretudo na relação com Sandro, que observa, sofre e, por fim, reage.


Ficha técnica
“O Ferroviário” | “Il Ferroviere” (título original) 

Gênero: drama. Duração: 116 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 1956. Idioma: Italiano. Direção: Pietro Germi. Roteiro: Pietro Germi, Alfredo Giannetti. Elenco: Pietro Germi, Luisa Della Noce, Sylva Koscina, Saro Urzì, Carlo Giuffrè, Renato Speziali, Edoardo Nevola.
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sexta-feira, 24 de julho de 2026

.: "Crimes do Coração" reúne estrelas e transforma reencontro familiar


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Três irmãs, um tiro e um passado que não se comporta de jeito nenhum: “Crimes do Coração” chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte com a energia imprevisível de um encontro familiar que começa mal e termina pior - ou melhor, dependendo do humor de quem assiste. Dirigido por Bruce Beresford e baseado na peça vencedora do Pulitzer de Beth Henley, que assina o roteiro, o filme equilibra ironia e dor com precisão, sem perder o gosto por personagens que falam demais quando deveriam se calar e riem quando o mundo desaba.

A história parte de um gesto extremo: Babe (Sissy Spacek) atira no próprio marido e volta para a casa das irmãs, no Mississippi. Lá, reencontra Lenny (Diane Keaton), que vive à sombra de frustrações silenciosas, e Meg (Jessica Lange), uma aspirante a cantora que retorna de Hollywood carregando derrotas mal resolvidas. Entre confissões atravessadas, memórias incômodas e episódios que beiram o absurdo, o trio expõe as feridas de uma família marcada por tragédias antigas - incluindo o suicídio da mãe, um evento que ainda reverbera nas três. 

Keaton, Lange e Spacek evitam qualquer disputa de protagonismo e constroem uma dinâmica de cumplicidade que sustenta o filme até nos momentos mais irregulares. Spacek venceu o Globo de Ouro e recebeu indicação ao Oscar, repetindo o feito de Tess Harper, indicada como coadjuvante. O roteiro também entrou na disputa da Academia, reforçando a força do texto original de Henley. Nos bastidores, a produção reuniu três atrizes em fases distintas da carreira, o que contribuiu para a tensão criativa em cena. Jessica Lange já era um nome consolidado, Diane Keaton buscava novos rumos após colaborações marcantes nos anos 1970, e Spacek vinha de uma sequência de papéis intensos. O resultado aparece na tela: um jogo de forças que nunca se acomoda. 

Durante as filmagens, Lange estava grávida, o que exigiu ajustes discretos na encenação. Lançado em 1986, o filme teve recepção crítica favorável, ainda que dividida quanto ao tom, que oscila entre a comédia ácida e o melodrama familiar. Há ecos do gótico sulista e de autores como Tennessee Williams, mas com um enquadramento feminino que desloca o eixo das histórias tradicionais. 


Ficha técnica
“Crimes do Coração” | “Crimes of the Heart” (título original)
Gênero: comédia dramática. Duração: 1h45. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1986. Idioma: inglês. Direção: Bruce Beresford. Roteiro: Beth Henley. Elenco: Diane Keaton, Jessica Lange, Sissy Spacek, Sam Shepard, Tess Harper. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

.: “Caçador de Assassinos”, o filme que antecipa Hannibal Lecter, retorna


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O suspense “Caçador de Assassinos” chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte  com o peso de um clássico que demorou a ser reconhecido. Dirigido e roteirizado por Michael Mann, o longa-metragem de 1986 - originalmente “Manhunter” e exibido em Portugal como “Caçada ao Amanhecer” - antecipa em anos a febre em torno de Hannibal Lecter ao adaptar “Dragão Vermelho”, romance de Thomas Harris.

Na trama, Will Graham (William Petersen) é um ex-agente do FBI que volta à ativa para caçar um serial killer conhecido como “Fada do Dente”. O retorno cobra caro: para entender o criminoso, Graham se aproxima perigosamente de sua lógica, enquanto revisita o trauma de ter capturado - e quase sido destruído por - o psiquiatra canibal Hannibal Lecktor, aqui vivido por Brian Cox em registro contido, distante do espetáculo que viria depois com Anthony Hopkins. Ao lado de Petersen, o elenco reúne Kim Greist, Joan Allen e Dennis Farina, com Tom Noonan compondo um assassino perturbador sem recorrer a caricaturas.

Filmado com rigor estético e obsessão por luzes frias, arquitetura limpa e trilha eletrônica, o filme cristaliza a assinatura visual de Mann nos anos 1980. A fotografia investe em azuis e neons para espelhar o estado mental dos personagens, enquanto o ritmo aposta na construção de tensão. A recepção inicial foi morna e o desempenho comercial, aquém do esperado - arrecadou cerca de US$ 8,6 milhões nos Estados Unidos -, mas o tempo reposicionou o filme: hoje, ocupa o posto de cult e é frequentemente citado como um dos thrillers mais influentes do período.

Há detalhes de bastidores que ampliam a experiência. Tom Noonan evitava contato com o restante do elenco para preservar o desconforto em cena, decisão apoiada por Mann. Joan Allen passou por treinamento com pessoas cegas para construir Reba com precisão. E a mudança de “Lecter” para “Lecktor” no filme buscou evitar associação com um título anterior pouco conhecido. Curiosamente, a produção também trocou o nome do livro na tela, “Dragão Vermelho”, após o fracasso de “O Ano do Dragão”, temendo rejeição do público ao termo. Décadas depois, “Caçador de Assassinos” permanece como um estudo seco sobre obsessão e método, mais interessado na mente do investigador do que no espetáculo do monstro. 


Ficha técnica
“Caçador de Assassinos” | “Manhunter” (título original) | “Caçada ao Amanhecer” (título em Portugal)
Gênero: policial, suspense. Duração: 1h58. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1986. Data de lançamento: 15 de agosto de 1986 (EUA). Idioma: Inglês. Direção: Michael Mann. Roteiro: Michael Mann (baseado em “Dragão Vermelho”, de Thomas Harris). Elenco: William Petersen, Kim Greist, Joan Allen, Brian Cox, Dennis Farina, Tom Noonan, Stephen Lang. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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segunda-feira, 20 de julho de 2026

.: Filme “Judas” encara a religião e reabre feridas históricas em Jerusalém


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Judas” estreia plataforma de streaming Belas Artes À La Carte  e mergulha em debates que passam pela fé, política e desejo sem perder o pulso dramático. Dirigido por Dan Wolman, veterano do cinema israelense, o longa-metragem adapta o romance homônimo de Amos Oz, lançado em mais de 30 países e frequentemente lembrado em apostas para o Prêmio Nobel de Literatura. A narrativa se passa em Jerusalém, no inverno de 1959, quando a cidade ainda carregava as marcas recentes da divisão pós-1948.

No centro da história está Shmuel Ash (Yuval Livni), um estudante que abandona a universidade após o colapso financeiro do pai e aceita trabalhar como acompanhante de Gershom Wald (Doron Tavori), um intelectual idoso, debilitado e ávido por conversa. A rotina da casa gira em torno de longas discussões sobre religião e história, especialmente a figura de Jesus e o papel de Judas Iscariotes - tema da tese inacabada de Shmuel. É nesse ambiente carregado de ideias que surge Atalia (Einav Markel), nora viúva de Wald, presença enigmática que desloca o jovem protagonista para um território afetivo tão instável quanto as convicções dele.

A adaptação de um livro conhecido pela densidade filosófica exigiu escolhas radicais de roteiro. Shoshi Wolman opta por preservar o embate verbal como motor dramático, sustentando a tensão em diálogos que questionam versões consolidadas da história. A hipótese de Shmuel - a de que Judas teria sido o mais fiel dos apóstolos - amplia o olhar ao tocar nas origens do conflito judaico-árabe e nas raízes do antissemitismo, sem transformar o debate em discurso didático.

Dan Wolman realizou “Judas” já octogenário, reafirmando uma carreira de décadas e festivais como Cannes, Veneza e Berlim. O filme foi selecionado para eventos como o Festival Internacional de Cinema de Haifa e o Festival de Cinema Judaico de Paris, consolidando sua circulação internacional. Há também um gesto de retorno: décadas antes, o diretor já havia levado ao cinema outra obra de Amos Oz, “Meu Michael”, reforçando um diálogo persistente com o escritor. O resultado é um drama que prefere o confronto de ideias à ação física, sem abrir mão de intensidade.


Ficha técnica
“Judas” | “Judas” (título original)
Gênero: drama. Duração: 84 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2022. Idioma: hebraico. Direção: Dan Wolman. Roteiro: Shoshi Wolman, baseado no romance de Amos Oz. Elenco: Yuval Livni, Doron Tavori, Einav Markel. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sexta-feira, 17 de julho de 2026

.: Von Trotta transforma Rosa Luxemburgo em retrato inquieto da política europeia


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A cinebiografia "Rosa Luxemburgo" chega à plataforma de streaming Reserva Imovision para resgatar a força inquieta de uma das figuras mais controversas e fascinantes da história política europeia. Dirigido por Margarethe Von Trotta, o longa-metragem alemão de 1986 aposta menos na rigidez da cinebiografia clássica e mais na pulsação humana de sua protagonista, vivida por Barbara Sukowa em uma interpretação que marcou época - premiada no Festival de Cannes daquele ano.

A narrativa acompanha Rosa Luxemburgo desde a atuação dela como intelectual e militante revolucionária até os anos de repressão, prisões e embates ideológicos que antecederam a Primeira Guerra Mundial. Polonesa de nascimento e figura central da esquerda alemã, Luxemburgo foi filósofa, economista e uma voz ativa dentro da social-democracia europeia, participando da fundação de movimentos que mais tarde desembocariam no Partido Comunista da Alemanha. A trajetória, encerrada de forma brutal em 1919, ecoa no filme como tensão constante entre pensamento e ação.

Von Trotta constrói essa figura histórica sem a engessar em discursos expositivos. Há política, claro, mas há também contradição, afeto, ironia e cansaço. A diretora, que consolidou uma filmografia dedicada a mulheres em conflito com seu tempo, encontra em Rosa um retrato que mistura firmeza intelectual e vulnerabilidade emocional. Essa abordagem se reflete na escolha de incorporar trechos reais das cartas da própria revolucionária, muitas delas escritas durante o cárcere, o que confere densidade e autenticidade ao texto.

Barbara Sukowa, que colaborou diversas vezes com a cineasta, mergulhou nos escritos originais de Luxemburgo para compor a personagem. O resultado é uma atuação que evita caricaturas e destaca a complexidade de uma mulher que recusava simplificações. Ao seu lado, Daniel Olbrychski contribui para dar corpo aos embates políticos e pessoais que atravessam a narrativa.

Realizado em plena Guerra Fria, o filme provocou debates intensos na Alemanha Ocidental, sobretudo por revisitar uma figura marxista em um período ainda marcado por divisões ideológicas profundas. Ainda assim, a diretora optou por não transformar a obra em panfleto, preferindo explorar as ambiguidades de sua personagem. "Rosa Luxemburgo" integra uma espécie de trilogia informal de von Trotta sobre mulheres historicamente engajadas, ao lado de outros retratos femininos igualmente densos. Décadas depois, o filme mantém sua força ao revisitar uma trajetória que segue provocando leituras diversas. 


Ficha técnica
“Rosa Luxemburgo” | (“Rosa Luxemburg” (Título original) 
Gênero: drama, biografia Duração: 123 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1986. Idioma: alemão. Direção: Margarethe von Trotta. Roteiro: Margarethe von Trotta. Elenco: Barbara Sukowa, Daniel Olbrychski. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: Drama coreano “A Guarda Costeira” revisita fronteira e desmonta ilusões


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A estreia de “A Guarda Costeira” na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte   recoloca em circulação um dos títulos mais incômodos da filmografia de Kim Ki-duk, cineasta sul-coreano que construiu carreira provocando plateias e festivais com narrativas de alta voltagem emocional. Lançado originalmente em 2002, o longa - cujo título original é “Haeanseon” e que em Portugal recebeu o nome de “A Linha da Costa” - acompanha o soldado Kang, integrante de uma unidade da guarda costeira que vigia uma área cercada por arame farpado, na fronteira simbólica entre Coreia do Sul e Coreia do Norte.

Interpretado por Jang Dong-gun, astro popular do cinema coreano nos anos 2000, o personagem é movido por uma obsessão: eliminar um suposto espião e, com isso, conquistar reconhecimento dentro da hierarquia militar. O que se desenha a partir dessa expectativa é um retrato duro sobre paranoia, disciplina e desumanização. Ao lado de Kim Jeong-hak e Park Ji-ah, o elenco sustenta um clima de tensão crescente, em que o erro — inevitável — desencadeia consequências devastadoras.

Kim Ki-duk assina direção e roteiro, imprimindo sua marca autoral em cada decisão estética. O filme nasce, em parte, de sua própria experiência como ex-integrante da Marinha sul-coreana, o que ajuda a explicar o rigor quase documental em algumas sequências e a violência crua que atravessa a narrativa. Durante as filmagens, realizadas em Jeonju e Seul ao longo de pouco mais de um mês, o diretor adotou métodos intensos, com poucos ensaios e estímulo a reações espontâneas do elenco.

Exibido no Festival de Veneza em 2002 e premiado no Festival de Karlovy Vary com o troféu da crítica internacional (FIPRESCI), “A Guarda Costeira” marcou um momento de virada na trajetória de Kim Ki-duk, que deixou de circular apenas em nichos para ocupar espaço mais amplo no circuito europeu. A história, centrada no equívoco fatal de um soldado que confunde um civil com inimigo, dialoga diretamente com o estado permanente de tensão na península coreana, transformando um episódio individual em comentário político de alcance mais amplo. Sem suavizar a brutalidade de seus personagens, o longa confronta o espectador com a lógica interna de um sistema que premia a violência e pune a dúvida.

Ficha técnica
“A Guarda Costeira” | (“Haeanseon” (Título original) | “A Linha da Costa” (Título em Portugal)
Gênero: drama, guerra. Duração: 1h31m. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 2002. Data de lançamento: 22 de novembro de 2002. Idioma: coreano. Direção e roteiro: Kim Ki-duk. Elenco: Jang Dong-gun, Kim Jeong-hak, Park Ji-ah, Yoo Hae-jin, Kim Tae-woo. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.



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quinta-feira, 16 de julho de 2026

.: “Diamantes” reúne musas de Ferzan Özpetek e recria Roma dos anos 70


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Diamantes” chega à plataforma de streaming Belas Artes À La Carte  com a assinatura de Ferzan Özpetek, cineasta turco-italiano que volta a Roma dos anos 1970 para encenar um drama coral embalado por amor, disputas e memórias. No filme, um diretor reúne suas atrizes favoritas para um projeto que, pouco a pouco, ganha forma dentro de um ateliê de figurinos cinematográficos comandado pelas irmãs Alberta e Gabriella Canova, vividas por Luisa Ranieri e Jasmine Trinca.

A história do filme desliza entre realidade e ficção enquanto acompanha o cotidiano de mulheres que sustentam, com talento e urgência, a engrenagem invisível do cinema. Entre máquinas de costura, prazos apertados e pressões de uma grande produção, surgem histórias íntimas marcadas por perdas, amores interrompidos, violência doméstica e dificuldades financeiras. O roteiro, assinado por Özpetek, Elisa Casseri e Carlotta Corradi, aposta no entrelaçamento dessas trajetórias para construir um painel coletivo em que cada personagem encontra espaço para brilhar.

Com Stefano Accorsi, Aurora Giovinazzo, Anna Ferzetti e Vinicio Marchioni no elenco, “Diamantes” chama atenção pela reunião de 18 atrizes italianas de destaque - um feito raro no cinema contemporâneo do país. A imprensa local tratou o longa como um encontro das musas de Özpetek, diretor conhecido por valorizar personagens femininas e dinâmicas familiares intensas. O resultado ecoa o melodrama vibrante que muitos associam ao cinema de Pedro Almodóvar, com cores marcantes, emoções à flor da pele e cenas coletivas carregadas de energia.

A origem do projeto está nas lembranças do próprio diretor, que frequentava oficinas de figurino no início da carreira, nos anos 1980, em Roma. Esse material autobiográfico se traduz na atenção aos detalhes - tecidos, cortes e texturas ganham protagonismo e ajudam a contar histórias que vão além do que se vê em cena. A trilha sonora, assinada por Giuliano Taviani e Carmelo Travia, acompanha esse movimento com sensibilidade.

Sucesso de público na Itália, “Diamantes” ultrapassou 16 milhões de euros em bilheteria e levou mais de 2 milhões de espectadores aos cinemas, tornando-se o maior êxito comercial da carreira de Özpetek, superando títulos consagrados como “A Janela da Frente” e “O Banho Turco”. O filme também marca mais uma colaboração do diretor com a cantora Giorgia, responsável pela canção-tema.

Ficha técnica
“Diamantes” | (“Diamanti” (Título original) 
Gênero: drama, comédia. Duração: 135 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 19 de dezembro de 2024 (Itália). Idioma: italiano. Direção: Ferzan Özpetek. Roteiro: Ferzan Özpetek, Elisa Casseri, Carlotta Corradi. Elenco: Luisa Ranieri, Jasmine Trinca, Stefano Accorsi, Aurora Giovinazzo, Anna Ferzetti, Vinicio Marchioni, Elena Sofia Ricci, Kasia Smutniak, Vanessa Scalera, entre outros. Distribuição no Brasil: Pandora Filmes. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.



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segunda-feira, 13 de julho de 2026

.: Filme “Camille Claudel” escancara o preço da genialidade feminina


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Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

 “Camille Claudel” estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte e recoloca em circulação um dos retratos mais intensos já feitos sobre a criação artística e seus abismos. Dirigido por Bruno Nuytten, que até então era reconhecido sobretudo como diretor de fotografia, o longa-metragem de 1988 transforma a trajetória da escultora francesa em um estudo visual e emocional de grande fôlego.

No centro da narrativa está Isabelle Adjani, em uma atuação que atravessa fases distintas da vida da personagem com vigor e precisão. A Camille Claudel interpretada por ela surge jovem, obstinada e inquieta, ganha força ao se afirmar como artista e, aos poucos, começa a se desorganizar diante de perdas, frustrações e isolamento. O desempenho rendeu a ela o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim e uma indicação ao Oscar, consolidando o trabalho como um dos pontos altos de sua carreira.

Ao lado dela, Gérard Depardieu interpreta Auguste Rodin com uma presença que oscila entre o mentor generoso e o homem incapaz de romper com suas próprias contradições. A relação entre os dois sustenta o eixo dramático do filme, misturando admiração artística, desejo, disputa e ressentimento. O elenco ainda reúne nomes como Laurent Grévill, Alain Cuny e Madeleine Robinson, compondo um ambiente familiar e social que pressiona e delimita os caminhos da protagonista.

O roteiro, assinado por Nuytten e Marilyn Goldin, parte da biografia escrita por Reine-Marie Paris, sobrinha-neta de Camille, e se mantém atento aos detalhes históricos. A reconstrução da Paris do final do século XIX aparece com rigor, tanto nos cenários quanto nos figurinos e na ambientação dos ateliês, onde o gesto artístico ganha dimensão quase física. A fotografia de Pierre Lhomme acompanha essa proposta com enquadramentos que lembram esculturas, valorizando textura, luz e volume.

Há ainda curiosidades que ampliam o alcance da obra. Isabelle Adjani já havia interpretado outra figura marcada por sofrimento psíquico em “A História de Adèle H.”, o que estabelece um curioso paralelo em sua filmografia. O filme também inclui uma cena que menciona a morte de Victor Hugo, conectando a narrativa a um momento histórico específico. Outro detalhe envolve Alain Cuny, que interpreta o pai da protagonista e, fora das telas, teve contato real com Paul Claudel, irmão da escultora.

“Camille Claudel” também acumulou reconhecimento em premiações importantes. Além das indicações ao Oscar, conquistou diversos prêmios César, incluindo Melhor Filme, Melhor Atriz, fotografia, trilha sonora e direção de arte. A trilha assinada por Gabriel Yared reforça a atmosfera dramática, enquanto a duração extensa - cerca de 175 minutos - permite acompanhar a transformação da personagem com tempo e densidade. A chegada do longa ao catálogo do Belas Artes à La Carte amplia o acesso a uma obra que segue atual ao discutir autoria, reconhecimento e o lugar da mulher em um meio historicamente dominado por homens.


Ficha técnica
"Os Anarquistas" | "The Anarchists" (título original)
Gênero: drama, ação. Duração: 100 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2000. Data de lançamento: 29 de abril de 2000. Idioma: coreano. Direção: Yu Young-sik. Roteiro: Park Chan-wook, Lee Moo-young, Bangnidamae. Elenco: Jang Dong-gun, Kim Sang-jung, Jeong Jun-ho, Lee Beom-soo, Kim In-kwon, Ye Ji-won. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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domingo, 12 de julho de 2026

.: “O Rei e Eu” desembarca no streaming e reacende o fascínio dos musicais


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Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“O Rei e Eu” chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte resgatando um dos musicais mais celebrados de Hollywood. Lançado em 1956, o filme dirigido por Walter Lang adapta para o cinema o sucesso da Broadway assinado por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II, com roteiro de Ernest Lehman. No elenco, Yul Brynner, Deborah Kerr e Rita Moreno conduzem uma narrativa que combina romance, embate cultural e espetáculo visual.

Ambientada no antigo Sião, a trama acompanha a professora britânica Anna Leonowens (Deborah Kerr), contratada para educar os filhos do rei Mongkut (Yul Brynner). O encontro entre os dois personagens se transforma em um jogo de forças marcado por diferenças de visão de mundo, protocolos rígidos e uma curiosidade crescente. Entre lições, rituais e tensões políticas, o vínculo que se estabelece evita simplificações e ganha densidade ao longo da narrativa.

O longa-metragem conquistou cinco Oscars, incluindo Melhor Ator para Yul Brynner, que superou nomes como James Dean e Kirk Douglas. A atuação consolidou o ator como a face definitiva do rei Mongkut, papel que ele interpretou milhares de vezes também nos palcos ao longo da vida. Deborah Kerr, por sua vez, teve suas canções dubladas por Marni Nixon, voz recorrente em grandes musicais da época, como “West Side Story” e “My Fair Lady”.

A produção também guarda episódios curiosos. Cogitou-se Marlon Brando para o papel do rei, enquanto Maureen O’Hara chegou a ser considerada para viver Anna. A escolha de Deborah Kerr partiu do próprio Brynner. Durante as filmagens, os figurinos pesados - alguns com mais de 15 quilos - exigiram esforço físico considerável da atriz. Já a famosa sequência ao som de “Shall We Dance?” demandou ensaios rigorosos para equilibrar elegância e tensão dramática.

Apesar do reconhecimento internacional e do sucesso de público, “O Rei e Eu” enfrentou resistência na Tailândia, onde foi proibido por ser considerado desrespeitoso à figura histórica do rei Mongkut. Ainda assim, o filme se mantém como referência estética e narrativa dentro do gênero musical, ocupando posição de destaque em listas do American Film Institute. A chegada ao streaming oferece uma nova oportunidade para revisitar um clássico que reúne cenários grandiosos, figurinos marcantes e uma história construída sobre choque cultural, poder e transformação.


Ficha técnica
“O Rei e Eu” | (“The King and I” (Título original)
Gênero: musical, romance. Duração: 133 minutos. Classificação indicativa: livre. Ano de produção: 1956. Data de lançamento: 28 de junho de 1956. Idioma: inglês. Direção: Walter Lang. Roteiro: Ernest Lehman. Elenco: Yul Brynner, Deborah Kerr, Rita Moreno, Martin Benson, Rex Thompson. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sábado, 11 de julho de 2026

.: “Acerto de Contas” confronta ética e paixão nas ruas de Nova Orleans


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Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Acerto de Contas” chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte como um dos títulos mais sedutores do cinema policial dos anos 1980. Dirigido por Jim McBride e escrito por Daniel Petrie Jr., o longa-metragem - cujo título original é “The Big Easy” e que, em Portugal, recebeu o nome de “Nas Teias da Máfia” - aposta na mistura de investigação criminal com tensão romântica, ambientada em uma Nova Orleans pulsante.

Na trama, Dennis Quaid vive o detetive Remy McSwain, um policial carismático que navega com naturalidade por práticas pouco ortodoxas dentro da corporação. A rotina dele muda quando passa a investigar uma série de assassinatos ligados à própria polícia. É nesse cenário que surge Anne Osborne, promotora interpretada por Ellen Barkin, enviada para enfrentar a corrupção. O envolvimento entre os dois cresce na mesma proporção em que o caso se complica, colocando ética, desejo e poder em rota de colisão.

O elenco ainda reúne nomes como John Goodman e Ned Beatty, que ajudam a dar corpo a esse retrato de uma instituição corroída por interesses paralelos. A química entre Quaid e Barkin se tornou um dos pontos mais comentados à época do lançamento, com ambos os atores apontando o filme como um dos favoritos de suas carreiras.

Filmado integralmente em Nova Orleans, o longa incorpora com força a identidade local, da música zydeco às paisagens urbanas e ao sotaque cajun que marca a performance de Quaid. A cidade não serve apenas de cenário, mas dita o ritmo e o humor da narrativa, contribuindo para que o filme seja lembrado como uma das representações mais autênticas da região no cinema mainstream daquela década.

Outro dado curioso envolve o desenvolvimento do roteiro, que inicialmente se passaria em Chicago e tinha outro título. A mudança para Nova Orleans redefiniu o projeto e ajudou a consolidar o tom híbrido entre policial e romance. O próprio diretor voltaria a trabalhar com Dennis Quaid em “A Fera do Rock” (1989), explorando um registro completamente diferente.

Lançado em meio à renovação do cinema noir, “Acerto de Contas” acabou associado ao movimento neo-noir dos anos 1980, ainda que opte por uma abordagem mais leve, sem abrir mão das zonas cinzentas de seus personagens. Entre investigações, jogos de poder e relações atravessadas por interesse, o filme constrói um retrato envolvente de uma cidade em que charme e corrupção caminham lado a lado.


Ficha técnica
“Acerto de Contas” | “The Big Easy” (título original) | “Nas Teias da Máfia” (título em Portugal)
Gênero: policial, romance, drama. Duração: 1h42m. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1986. Data de lançamento: 21 de agosto de 1987 (EUA). Idioma: inglês. Direção: Jim McBride. Roteiro: Daniel Petrie Jr. Elenco: Dennis Quaid, Ellen Barkin, John Goodman, Ned Beatty, Grace Zabriskie. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

.: "Coração Satânico" conduz o público a um labirinto sem saída


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

"Coração Satânico" chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte  reafirmando seu lugar como um dos títulos mais perturbadores do cinema dos anos 1980, dirigido e roteirizado por Alan Parker. Lançado originalmente como "Angel Heart" e exibido em Portugal sob o título "Angel Heart – Nas Portas do Inferno", o longa-metragem mergulha no território onde o noir encontra o horror psicológico com uma segurança rara.

Na trama, o detetive particular Harry Angel, interpretado por Mickey Rourke em um de seus trabalhos mais marcantes, aceita investigar o paradeiro de um cantor desaparecido. O que começa como um caso aparentemente convencional ganha contornos cada vez mais inquietantes à medida que surgem mortes brutais, pistas desconexas e uma sensação constante de ameaça. Robert De Niro surge em cena como Louis Cyphre, figura enigmática e elegante, cuja presença carrega um peso que dispensa explicações imediatas. No elenco, ainda estão Charlotte Rampling e Lisa Bonet, esta última em um papel que causou forte repercussão à época do lançamento.

Baseado no romance "Falling Angel", de William Hjortsberg, o filme preserva a espinha dorsal da obra literária, mas altera pontos decisivos, sobretudo no desfecho, ampliando o impacto da revelação final. Parker opta por abandonar a narração típica do gênero policial e aposta na construção visual e sensorial, explorando o calor sufocante do sul dos Estados Unidos e a atmosfera carregada de Nova Orleans, cenário que substitui a Nova York do livro.

A produção também ficou marcada por episódios fora da tela. Marlon Brando chegou a ser cogitado para o papel de Louis Cyphre, enquanto Al Pacino e Jack Nicholson foram considerados para viver Harry Angel antes da escolha por Rourke. Já Robert De Niro, em uma composição precisa e controlada, teve liberdade incomum no set, conduzindo suas próprias cenas. O nome do personagem que interpreta não esconde a natureza da história, funcionando quase como um enigma à vista de todos.

Outro ponto que alimentou discussões foi a participação de Lisa Bonet, então conhecida por seu trabalho na televisão. As cenas de nudez e sexualidade provocaram controvérsia e levaram a cortes em algumas versões, além de debates sobre classificação indicativa em diferentes países. Décadas depois, o impacto permanece.

Visualmente, "Coração Satânico" sustenta um diálogo com o cinema noir clássico, ainda que em cores, com fotografia assinada por Michael Seresin e trilha de Trevor Jones, que ajudam a construir um ambiente inquietante e denso. O resultado é um filme que escapa de definições simples e se mantém como referência quando o assunto é a fusão entre investigação policial e horror metafísico.


Ficha técnica
“Coração Satânico” | "Angel Heart" (título original) | "Angel Heart – Nas Portas do Inferno" (título em Portugal)
Gênero: Suspense, terror. Duração: 113 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1987. Data de lançamento: 1987. Idioma: Inglês. Direção: Alan Parker. Roteiro: Alan Parker, baseado na obra de William Hjortsberg. Elenco: Mickey Rourke, Robert De Niro, Charlotte Rampling, Lisa Bonet, Brownie McGhee, Stocker Fontelieu. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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terça-feira, 7 de julho de 2026

.: "O Solitário" revisita o auge físico e dramático de Belmondo


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

"O Solitário" chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte  resgatando um tipo de cinema policial que fez escola na França dos anos 1980, com ação direta, ruas de Paris como cenário e um protagonista que carrega o peso da própria obstinação. Dirigido por Jacques Deray, o longa-metragem marca mais um encontro do cineasta com Jean-Paul Belmondo, parceria que ajudou a consolidar uma vertente popular e musculosa do thriller europeu.

Na trama, Belmondo interpreta Stan Jalard, policial que vê a vida virar do avesso após a execução de um colega durante uma operação. A partir daí, o que se desenha é uma caçada persistente ao responsável pelo crime, o bandido Charly Schneider (Jean-Pierre Malo), que reaparece anos depois, reacendendo uma busca atravessada por violência, corrupção e desgaste emocional. Michel Beaune completa o elenco principal como o comissário Pezzoli, figura que tensiona ainda mais o ambiente policial.

Com roteiro assinado por Jacques Deray, Simon Michaël e Alphonse Boudard, o filme aposta em uma narrativa linear, sustentada pelo carisma físico de Belmondo e por sequências de ação que dispensam dublês sempre que possível. À época das filmagens, o ator já se aproximava dos 55 anos e mantinha a tradição de realizar suas próprias cenas de risco, o que reforçava sua imagem de herói durão e indomável, uma assinatura que o público reconhecia de imediato.

"O Solitário" também evidencia uma mudança de tom na carreira do ator. Longe da leveza irreverente que marcou sua fase na nouvelle vague, Belmondo surge mais rígido, marcado pelo cansaço e por uma solidão que contamina cada decisão do personagem. Essa transição ajuda a entender por que o filme, mesmo com ambição comercial, carrega um subtexto mais amargo, refletindo um policial que já não acredita tanto nas regras que deveria defender.

Curiosamente, a produção chegou a ser comercializada em alguns países como uma espécie de continuação de "O Profissional" (1981), estratégia de mercado que não encontra respaldo na história. Na França, o desempenho nas bilheteiras ficou abaixo do esperado, indicando um certo desgaste desse tipo de narrativa policial naquele momento. Ainda assim, o longa permanece como registro de uma fase em que Belmondo dominava o cinema de ação europeu com presença e energia raras. Com duração enxuta e ritmo constante, "O Solitário" encontra força no embate entre um homem e aquilo que o mantém em movimento: a necessidade de fazer justiça, mesmo quando tudo ao redor parece já ter perdido o sentido.

Ficha técnica
“O Solitário” | "Le Solitaire" (título original)
Gênero: policial, ação. Duração: 100 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1987. Data de lançamento: 18 de março de 1987 (França). Idioma: francês. Direção: Jacques Deray. Roteiro: Jacques Deray, Simon Michaël, Alphonse Boudard. Elenco: Jean-Paul Belmondo, Jean-Pierre Malo, Michel Beaune. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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