Mostrando postagens com marcador BelasArtesALaCarte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador BelasArtesALaCarte. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 22 de setembro de 2026

.: “Os Deuses Malditos” expõe a família que se vendeu ao poder nazista


Clássico de Luchino Visconti mergulha na decadência de uma dinastia industrial alemã enquanto o nazismo transforma disputas familiares em um jogo de sobrevivência

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A chegada de “Os Deuses Malditos” ao streaming Belas Artes À La Carte recoloca em circulação um dos filmes mais provocadores de Luchino Visconti. Lançado em 1969, o drama acompanha a derrocada dos von Essenbeck, uma poderosa família alemã ligada à indústria siderúrgica, enquanto o nazismo avança e reorganiza as relações de poder no país. Inspirado livremente na trajetória de grandes famílias industriais alemãs, especialmente os Krupp, o filme transforma a mansão aristocrática em palco para ambição, traição, assassinato e oportunismo.

A história começa em 1933, quando Joachim von Essenbeck, patriarca do clã, reúne os familiares e anuncia mudanças no comando de seu império. A decisão provoca uma disputa interna que ganha contornos cada vez mais brutais. Enquanto alguns personagens tentam preservar seus privilégios, outros percebem na ascensão de Adolf Hitler uma oportunidade para ampliar poder e fortuna. O resultado é uma sucessão de alianças frágeis, conspirações e mortes que acompanha a consolidação do regime nazista até a Noite das Facas Longas.

Visconti não se limita a reconstituir acontecimentos históricos. O interesse dele está também na maneira como uma elite econômica reage diante de uma nova configuração política. A família von Essenbeck, embora fictícia, remete aos grandes grupos industriais alemães que mantiveram relações com o regime. O filme usa essa família como uma espécie de laboratório moral, no qual dinheiro, parentesco e poder entram em combustão à medida que os personagens percebem que colaborar com o novo regime pode ser bastante conveniente.

A referência aos Krupp é recorrente na fortuna crítica sobre o filme, mas “Os Deuses Malditos” não deve ser tomado como uma reconstituição literal da história dessa família. A própria construção dos personagens mistura referências históricas e elementos de tragédia familiar. A comparação com “Macbeth”, de William Shakespeare, também aparece na leitura crítica da obra, sobretudo pela sucessão de assassinatos, manipulações e disputas pelo poder.

O elenco reúne Dirk Bogarde, Ingrid Thulin, Helmut Berger, Helmut Griem, Umberto Orsini, Charlotte Rampling e Florinda Bolkan. Helmut Berger interpreta Martin von Essenbeck, personagem que se tornou um dos grandes cartões de visita de sua carreira. A produção também marcou uma das primeiras aparições importantes de Florinda Bolkan no cinema, no papel de Olga. IMDb confirma ainda a participação de nomes como Renaud Verley, René Koldehoff e Albrecht Schönhals.

Berger ganhou especial projeção com Martin, personagem que concentra boa parte do caráter teatral e perturbador do filme. Uma das cenas mais conhecidas mostra o personagem interpretando uma canção associada a Marlene Dietrich, momento que já foi destacado pela crítica como exemplo da maneira extravagante com que Visconti trabalha aparência, sexualidade, poder e representação. A sequência aparece também em análises contemporâneas do filme publicadas pelo British Film Institute.

A trilha sonora de Maurice Jarre acompanha esse universo de excessos com uma música igualmente grandiosa. Na fotografia, Pasqualino De Santis e Armando Nannuzzi ajudam a construir a atmosfera visual da produção, enquanto Ruggero Mastroianni assina a montagem. O roteiro foi escrito por Nicola Badalucco, Enrico Medioli e o próprio Visconti. “Os Deuses Malditos” também abriu o que ficou conhecido como a “trilogia alemã” de Visconti, seguida por “Morte em Veneza” (1971) e “Ludwig” (1973). O British Film Institute observa que os filmes tardios do cineasta frequentemente trabalham com a ideia de ordens sociais em processo de decadência, e situa “Os Deuses Malditos” dentro dessa investigação histórica sobre o desaparecimento de um determinado mundo europeu.

A recepção internacional do filme foi marcada por reconhecimento e controvérsia. Visconti, Badalucco e Medioli receberam indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original em 1970. Helmut Berger também foi indicado ao Globo de Ouro como revelação masculina. No cinema italiano, Visconti recebeu o Nastro d'Argento de melhor diretor. O conteúdo sexual e a violência provocaram problemas com órgãos de classificação em diferentes países. Nos Estados Unidos, a produção chegou a receber classificação X e posteriormente teve essa classificação alterada para R depois de cortes. A repercussão ajuda a explicar por que o filme continua sendo lembrado tanto por sua construção dramática quanto pelo modo frontal com que Visconti aborda os excessos de seus personagens.

Também chama atenção o fato de “Os Deuses Malditos” ter sido construído em inglês e alemão, apesar de ser uma produção dirigida por um italiano. A ficha técnica registra Itália e Alemanha Ocidental entre os países de produção, enquanto diferentes fontes apontam pequenas variações na duração, entre 154 e 158 minutos, de acordo com a versão consultada. Rever “Os Deuses Malditos” hoje significa reencontrar um Visconti interessado em famílias ricas, ambientes luxuosos e personagens dispostos a ultrapassar praticamente qualquer limite para preservar seus lugares à mesa. Só que, desta vez, a mesa está posta diante de uma Alemanha em transformação, e os convidados descobrem rapidamente que, quando o poder muda de mãos, ninguém permanece completamente protegido.


Ficha técnica
“Os Deuses Malditos” | “La caduta degli dei” (título original) | “Os Malditos” (título em Portugal) | “The Damned” (título internacional)
Gênero: drama, guerra. Duração: 154 minutos. Classificação indicativa: 16 anos, conforme registros consultados; a classificação pode variar segundo a versão e o serviço. Ano de produção: 1969. Data de lançamento: 14 de outubro de 1969, em Roma; 16 de outubro de 1969, na Itália. Idiomas: inglês e alemão. Direção: Luchino Visconti. Roteiro: Nicola Badalucco, Enrico Medioli e Luchino Visconti. Elenco: Dirk Bogarde, Ingrid Thulin, Helmut Berger, Helmut Griem, Renaud Verley, Umberto Orsini, René Koldehoff, Albrecht Schönhals, Florinda Bolkan, Charlotte Rampling, Nora Ricci e Irina Wanka. Distribuição no Brasil: Warner Bros. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

.: "O Futuro Espera" leva a Paris ocupada para o confinamento de uma família


Drama de Nils Tavernier, inspirado na história real de Tauba Zylbersztejn, acompanha dois anos de uma família escondida em uma pequena dependência sob os telhados de Paris durante a ocupação nazista

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A Paris de 1942 aparece em "O Futuro Espera" por uma perspectiva bastante particular: a de quem praticamente não pode sair do lugar. Dirigido por Nils Tavernier, o filme franco-belga que acaba de chegar ao catálogo do streaming Belas Artes À La Carte acompanha Tauba Zylbersztejn e seus pais, judeus poloneses que escapam da perseguição aos judeus em Paris e encontram abrigo em uma pequena dependência sob os telhados da cidade. O que deveria ser uma solução provisória acaba se prolongando por cerca de dois anos, enquanto a família convive com o medo de ser descoberta.

Inspirado em uma história real, o filme tem como protagonista a adolescente Tauba, interpretada por Violette Guillon. Guillaume Gallienne e Adeline d’Hermy vivem seus pais, Moshe e Rywka, enquanto Sandrine Bonnaire interpreta Rose Dinanceau, uma das pessoas que ajudam a família a permanecer escondida. O roteiro é assinado por Tavernier ao lado de Guy Birenbaum e Laurent Bertoni.

O caso que deu origem à produção é especialmente impressionante pela duração do confinamento. Segundo o "Le Parisien", Tauba, seus pais e o casal francês que os ajudou passaram 765 dias ligados àquele pequeno espaço. A família havia escapado da batida policial associada à Rafle du Vél’ d’Hiv, em julho de 1942, e conseguiu se esconder no número 209 da Rue Saint-Maur, no 10º arrondissement de Paris.

A história chegou ao cinema a partir do testemunho da própria Tauba. Em 1997, ela relatou sua experiência em uma entrevista que integra o trabalho de preservação de depoimentos de sobreviventes da Shoah associado ao projeto de Steven Spielberg. O material serviu de base para a construção do filme e também para o livro homônimo escrito por Guy Birenbaum, filho de Tauba e um dos roteiristas da produção.

A ligação de Birenbaum com a história dá ao projeto uma dimensão familiar bastante particular. Tauba era sua mãe, e o roteiro parte justamente das lembranças e do testemunho dela. Em entrevista ao CRIF, o escritor contou que a equipe chegou a reproduzir cuidadosamente o espaço onde sua família permaneceu durante os 765 dias. A reconstituição do pequeno cômodo foi um dos elementos centrais da produção.

Tavernier utiliza o espaço reduzido para construir uma narrativa marcada pela tensão da espera. A família precisa administrar o medo, a falta de liberdade e as mudanças na relação entre seus integrantes, enquanto os acontecimentos da guerra chegam por sons, notícias e breves vislumbres do mundo exterior. Para Tauba, entretanto, pequenas possibilidades de liberdade ganham outro peso: um piano desenhado no chão e a vista de Paris pelas janelas tornam-se formas de manter a imaginação em movimento.

A produção também investiu na reconstrução histórica de Paris. O cenário da Rue Saint-Maur e o pequeno espaço ocupado pela família foram recriados com atenção aos detalhes, enquanto imagens de arquivo ajudam a aproximar a experiência particular dos personagens dos acontecimentos que tomavam conta da cidade. O projeto recebeu apoio da Fondation pour la Mémoire de la Shoah, instituição dedicada à preservação e transmissão da memória do Holocausto.

É uma produção que parte de uma história familiar para recuperar um dos períodos mais sombrios da história europeia. O filme já havia estreado nos cinemas franceses em fevereiro de 2025 e apresenta Nils Tavernier, filho do também cineasta Bertrand Tavernier, diante de uma narrativa baseada em uma experiência vivida e registrada pela própria sobrevivente.

Ficha técnica
"O Futuro Espera" | "La Vie Devant Moi" (título original) |"The Future Awaits" (título internacional)
Gênero: drama, biografia. Duração: 93 minutos. Classificação indicativa: a definir no Brasil. Ano de produção: 2024. Idioma: francês. Direção: Nils Tavernier. Roteiro: Nils Tavernier, Guy Birenbaum e Laurent Bertoni. Elenco: Violette Guillon, Guillaume Gallienne, Adeline d’Hermy, Sandrine Bonnaire, Laurent Bateau, Claude Mathieu, Rod Paradot e Bernard Le Coq. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

domingo, 20 de setembro de 2026

.: "Plenty" revisita guerra, desencanto e uma mulher incapaz de voltar ao normal


Com Meryl Streep no centro de um drama escrito por David Hare, "Plenty - O Mundo de Uma Mulher" acompanha duas décadas da vida de Susan Traherne, ex-integrante da Resistência Francesa que descobre, depois da Segunda Guerra Mundial, que a paz pode ser muito menos excitante do que imaginava

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Meryl Streep encara uma das personagens mais desconfortáveis da carreira em "Plenty - O Mundo de uma Mulher", drama dirigido por Fred Schepisi que chega ao catálogo do streaming Belas Artes À La Carte. O filme acompanha Susan Traherne desde mensageira da Resistência Francesa, durante a Segunda Guerra Mundial, até os anos seguintes ao conflito, quando a vida que deveria representar liberdade, estabilidade e prosperidade começa a parecer pequena demais para alguém que se acostumou ao risco.

O roteiro de David Hare, adaptado da própria peça teatral escrita por ele em 1978, percorre quase duas décadas da vida da protagonista. Susan retorna à Inglaterra depois da guerra esperando encontrar um país renovado e uma existência à altura dos ideais pelos quais lutou. O problema é que o cotidiano tem pouco interesse em corresponder às expectativas de quem acabou de sobreviver a uma guerra.

Na França ocupada, Susan viveu uma experiência marcada pelo perigo, pela urgência e por um romance breve com Lazar (Sam Neill), agente britânico que chega de paraquedas para auxiliar a Resistência. O encontro dura pouco, mas permanece na memória dela durante anos. De volta à Inglaterra, Susan passa por empregos, relacionamentos e situações que parecem incapazes de preencher o espaço deixado por aquela juventude vivida em condições extraordinárias.

É nesse período que entram Raymond Brock (Charles Dance), diplomata com quem ela se casa, Alice Park (Tracey Ullman), amiga e companheira de moradia, e Mick (Sting), homem que Susan procura numa tentativa pouco convencional de realizar o desejo de ser mãe. John Gielgud e Ian McKellen completam o elenco principal como figuras ligadas ao universo diplomático que cerca Raymond.

A atuação de Meryl Streep foi bastante observada pela crítica na época do lançamento. Roger Ebert, em crítica publicada no Chicago Sun-Times em setembro de 1985, chamou atenção para a sutileza com que a atriz constrói Susan, uma mulher autodestrutiva, difícil de compreender e ainda mais difícil de acompanhar emocionalmente. Para o crítico, a personagem poderia ter sido reduzida a um conjunto de sintomas, mas Streep consegue lhe dar personalidade e contradições.

O filme também dividiu opiniões. A crítica da revista "The New Yorker", assinada por Pauline Kael, destacou o mal-estar político e emocional presente no texto de David Hare e descreveu Susan como uma personagem marcada pela perda do idealismo juvenil. Já a "Los Angeles Times" enxergou na produção uma investigação sobre o preço cobrado pelo idealismo romântico, elogiando particularmente a interpretação de Streep.

A relação de "Plenty" com o teatro merece atenção. A montagem original da Broadway estreou em 6 de janeiro de 1983, no Plymouth Theatre, e permaneceu em cartaz por 92 apresentações. A peça recebeu indicações ao Tony, incluindo Melhor Peça, Melhor Atriz para Kate Nelligan e Melhor Ator para Edward Herrmann.

Nelligan, aliás, foi a primeira intérprete de Susan Traherne nos palcos de Londres e Nova York. Para o cinema, a personagem passou para Meryl Streep, que já havia construído uma carreira de enorme prestígio e vinha de "A Escolha de Sofia". A troca provocou discussões sobre o que se ganhava e o que se perdia quando uma personagem originalmente associada ao teatro britânico passava a ser interpretada por uma estrela de Hollywood.

A própria estrutura do filme ajuda a explicar algumas das reações tão diferentes. "Plenty" não conta a trajetória de Susan de maneira convencional: a narrativa avança e recua no tempo, acompanhando diferentes momentos de sua vida e colocando suas experiências pessoais ao lado de acontecimentos da história britânica do pós-guerra, incluindo a coroação de Elizabeth II e a Crise de Suez. A crítica da "Time Out" observou que a adaptação cinematográfica desloca o ponto de vista entre personagens, ampliando a dimensão social da peça original.

O título ganha um sentido particularmente irônico quando se considera a passagem da austeridade do pós-guerra para um período de maior prosperidade material. Susan, porém, parece cada vez menos capaz de aproveitar aquilo que deveria representar uma vida confortável. Quanto mais a sociedade avança em direção à estabilidade, maior fica a distância entre o que ela esperava do futuro e aquilo que efetivamente encontra.

O resultado é um filme centrado numa mulher difícil, contraditória e muitas vezes desagradável, mas justamente por isso interessante. Susan não se encaixa facilmente no papel de heroína, vítima ou vilã, e Meryl Streep aceita o desconforto de interpretar alguém cuja inquietação contamina o casamento, as amizades e a própria percepção que ela tem de si mesma.


Ficha técnica
"Plenty - O Mundo de Uma Mulher" | "Plenty" (título original) | "Plenty, Uma História de Mulher" (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 124 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1985. Data de lançamento: 20 de setembro de 1985. Idioma: inglês. Direção: Fred Schepisi. Roteiro: David Hare. Elenco: Meryl Streep, Charles Dance, Tracey Ullman, John Gielgud, Sting, Ian McKellen, Sam Neill, Burt Kwouk e Pik-Sen Lim. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

.: “Um Sonho de Domingo” traz família e arte sob o sol de Bertrand Tavernier


Filme de Bertrand Tavernier acompanha um domingo de verão de 1912 e transforma uma reunião familiar aparentemente tranquila em um delicado acerto de contas com o tempo, as escolhas e aquilo que ficou pelo caminho


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Um domingo de verão pode parecer o cenário perfeito para uma reunião familiar: comida, conversa, crianças correndo pelo jardim e aquela coleção de pequenas implicâncias que só parentes sabem produzir com tanta eficiência. Em “Um Sonho de Domingo”, que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, o diretor Bertrand Tavernier pega esse material aparentemente banal e encontra nele uma história sobre envelhecimento, arte, frustrações e escolhas que continuam incomodando mesmo quando já não há muito tempo para corrigi-las.

O filme francês de 1984 acompanha Monsieur Ladmiral (Louis Ducreux), um pintor aposentado que vive no campo desde a morte da esposa. Como acontece praticamente todos os domingos, ele recebe o filho Gonzague (Michel Aumont), a nora Marie-Thérèse (Geneviève Mnich) e os três netos. A rotina, cuidadosamente conhecida por todos, ganha outra temperatura quando chega Irène (Sabine Azéma), filha do pintor e mulher independente, inquieta e pouco afeita às convenções familiares.

A presença de Irène mexe com o pai porque ela representa uma possibilidade de vida que ele próprio deixou escapar. Ladmiral alcançou reconhecimento como artista, mas começa a olhar para a própria trajetória com certa desconfiança. Enquanto conversa com a filha sobre pintura, percebe que talvez tenha sido conservador demais justamente no campo em que poderia ter arriscado mais. Tavernier constrói o filme a partir desses pequenos deslocamentos. Não há necessidade de grandes acontecimentos para que as relações familiares revelem suas rachaduras. Um comentário, uma lembrança, uma caminhada ou uma conversa aparentemente despretensiosa carregam aquilo que os personagens nem sempre conseguem dizer diretamente.

A história se passa em 1912, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, mas o filme não se entrega ao peso histórico do período. A atenção está concentrada naquela casa, no jardim, nos personagens e na passagem das horas. A câmera de Bruno de Keyzer explora a luminosidade do interior francês e cria imagens que remetem à pintura impressionista, reforçando a ligação entre a forma do filme e o universo artístico de Ladmiral. A trilha sonora segue o mesmo caminho de delicadeza. A produção utiliza peças de música de câmara de Gabriel Fauré, ao lado de trabalhos associados a Louis Ducreux e Marc Perrone, criando uma atmosfera íntima para aquela reunião familiar.

“Um Sonho de Domingo” adapta o romance “Monsieur Ladmiral va Bientôt Mourir”, publicado por Pierre Bost em 1945. O roteiro foi escrito por Bertrand Tavernier e a filha dele, Colo Tavernier. A adaptação preserva a estrutura concentrada da obra literária e acompanha os personagens durante poucas horas, deixando que passado e presente se encontrem nas conversas e nas lembranças. Louis Ducreux, conhecido também pela atuação no teatro e pelo trabalho como compositor e dramaturgo, encontra em Monsieur Ladmiral um personagem de poucas explosões e muitas contradições. Sabine Azéma, por sua vez, injeta energia na produção como Irène, personagem que chega carregando uma liberdade que incomoda o irmão e fascina o pai.

A recepção crítica ajudou a transformar “Um Sonho de Domingo” em uma das obras mais lembradas da filmografia de Tavernier. O filme competiu pela Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1984 e o diretor recebeu o prêmio de Melhor Direção. No César, a produção levou os prêmios de Melhor Atriz, para Sabine Azéma, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Fotografia, de Bruno de Keyzer.

A própria estrutura do filme pode dividir opiniões. Para alguns espectadores, o ritmo contemplativo e a ausência de grandes reviravoltas fazem parte de seu encanto; para outros, a mesma característica pode exigir uma dose extra de paciência.  Esse contraste combina com a proposta de Tavernier. “Um Sonho de Domingo” observa uma família durante um único dia e deixa que as pequenas tensões façam o trabalho pesado. O pai olha para os filhos e, ao mesmo tempo, parece enxergar versões diferentes de si próprio. Gonzague representa a vida organizada, previsível e socialmente aprovada. Irène chega com independência, desejo e uma certa desordem atributos que o pai admira e talvez inveje um pouco.

O filme sabe encontrar drama onde a vida costuma escondê-lo: nas visitas que se repetem, nas escolhas que parecem definitivas, nas conversas que chegam tarde e naquela incômoda sensação de que algumas possibilidades ficaram para trás. Tavernier filma tudo isso com elegância, humor discreto e uma melancolia que nunca precisa levantar a voz.


Ficha técnica
“Um Sonho de Domingo” | “Un Dimanche à la Campagne” (título original) | “Um Domingo no Campo” (título em Portugal) | “A Sunday in the Country” (título internacional).
Gênero: drama. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1984. Data de lançamento: 11 de abril de 1984, na França. Idioma: francês. Direção: Bertrand Tavernier. Roteiro: Bertrand Tavernier e Colo Tavernier, baseado no romance “Monsieur Ladmiral va bientôt mourir”, de Pierre Bost. Elenco: Louis Ducreux, Michel Aumont, Sabine Azéma, Geneviève Mnich, Monique Chaumette, Thomas Duval, Quentin Ogier e Katia Wostrikoff. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

domingo, 13 de setembro de 2026

.: "O Declínio do Império Americano" expõe desejos e a crise de uma geração


Comédia dramática de Denys Arcand chega ao Belas Artes à La Carte e reúne professores universitários para uma noite em que sexo, política, casamento e hipocrisia entram no cardápio. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Antes de existir aplicativo de relacionamento, antes de o sexo virar assunto de algoritmo e antes de qualquer reunião de amigos terminar com alguém dizendo que o outro precisa “fazer terapia”, Denys Arcand já colocava intelectuais em volta de uma mesa para falar sobre desejo, casamento, traição, política e as pequenas mentiras que ajudam a manter uma vida aparentemente organizada. Em "O Declínio do Império Americano", produção canadense de 1986 que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, a conversa é longa, afiada e, vez ou outra, inconveniente.

O ponto de partida parece simples. Quatro professores universitários se reúnem em uma casa de campo para preparar um jantar. Enquanto cozinham, conversam sobre mulheres, sexo, relacionamentos e aventuras extraconjugais. Em outro lugar, quatro mulheres ligadas a eles passam a tarde em um clube de exercícios e fazem praticamente a mesma coisa: falam dos homens, dos próprios desejos e das relações que insistem em complicar aquilo que deveria ser simples. Quando os dois grupos finalmente se encontram, o jantar vira uma espécie de tribunal informal das relações humanas.

Arcand, que também assina o roteiro, constrói o filme praticamente em cima da palavra. São personagens que pensam, argumentam, provocam, exageram e, principalmente, falam demais. E justamente aí está uma das graças da produção. O cineasta não tem pressa para chegar ao conflito. Prefere deixar que os personagens revelem quem são pelo que dizem e, principalmente, pelo que falam quando acreditam estar entre pessoas que pensam como eles.

O resultado é uma comédia dramática bastante particular, com humor ácido e uma dose generosa de cinismo. Sexo aparece por todos os lados, mas não como simples provocação. As conversas sobre amantes, casamento, fidelidade, homossexualidade, fantasias e relações paralelas servem para expor a distância entre aquilo que os personagens defendem intelectualmente e a maneira como conduzem a própria vida.

A ironia fica ainda melhor porque todos parecem saber muito sobre o comportamento humano. São professores, intelectuais, leitores, homens e mulheres acostumados a teorizar sobre a sociedade. Quando o assunto chega à própria intimidade, porém, a erudição começa a escorregar. Saber explicar o mundo, afinal, nunca garantiu competência para viver dentro dele. No centro dessa engrenagem está Rémy, interpretado por Rémy Girard, personagem que reapareceria em "As Invasões Bárbaras", de 2003. Casado com Louise, vivida por Dorothée Berryman, ele representa uma geração formada sob o discurso da liberdade sexual e das rupturas com os valores tradicionais. O problema é que liberdade, na prática, costuma cobrar uma conta que a teoria não prevê.

Dominique Michel, Dorothée Berryman, Louise Portal e Pierre Curzi lideram um elenco que também conta com Rémy Girard, Yves Jacques, Geneviève Rioux, Daniel Brière e Gabriel Arcand. A atuação depende muito da naturalidade dos diálogos, já que Arcand coloca os personagens em situações nas quais conversar é praticamente uma modalidade de combate. A estrutura também ajuda a criar uma espécie de duelo entre homens e mulheres. Os dois grupos parecem estar separados geograficamente, mas discutem praticamente os mesmos assuntos. Homens falam das mulheres, que falam dos homens e todos falam de sexo enquanto ninguém parece especialmente interessado em admitir que seja parte do problema.

O título "O Declínio do Império Americano" carrega uma provocação que vai muito além dos Estados Unidos. A expressão serve como metáfora para a deterioração de determinados valores associados à sociedade ocidental: casamento, família, fidelidade, religião, moral e uma ideia mais tradicional de organização social. Arcand olha para esse processo com uma mistura de ironia e desencanto, sem transformar os personagens em simples porta-vozes de uma tese.

Produzido em meados dos anos 1980, o filme também registra uma época bastante específica. O surgimento da Aids, as mudanças nos costumes, o avanço das discussões sobre liberdade sexual e a ressaca das utopias políticas das décadas anteriores fazem parte do ambiente em que esses personagens circulam. O próprio filme parece interessado em observar o que acontece quando uma geração que passou a juventude questionando regras precisa descobrir como viver depois que algumas dessas regras já não parecem tão sólidas.

A produção teve uma trajetória internacional expressiva. Foi exibida na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes em 1986 e recebeu o Prêmio FIPRESCI. No ano seguinte, tornou-se o primeiro filme canadense indicado ao Oscar na categoria de Filme em Língua Estrangeira. O filme também ajudou a colocar Denys Arcand no circuito internacional e preparou o terreno para "As Invasões Bárbaras", que retomaria personagens e conflitos 17 anos depois. A continuação ganhou o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 2004.

O filme costuma ser associado a uma trilogia informal de Arcand, completada por "A Era da Inocência", de 2007. Não existe um nome oficial para esse conjunto, mas os três filmes compartilham o interesse do cineasta pelas transformações sociais, pelo desencanto e pelas contradições da vida contemporânea. Outro detalhe curioso está na própria construção do filme. Arcand reuniu o elenco antes das filmagens para longas conversas sobre política, sexo e costumes, experiência que contribuiu para a naturalidade buscada nos diálogos. A estratégia combina perfeitamente com uma produção em que a palavra ocupa tanto espaço quanto os personagens.

Quase quatro décadas depois, muita coisa mudou, mas a dificuldade de conciliar desejo e compromisso permanece intacta. As ferramentas mudaram, as palavras mudaram e os costumes ganharam novas embalagens. A velha confusão entre aquilo que se deseja, aquilo que se promete e aquilo que efetivamente se faz continua firme.


Ficha técnica
"O Declínio do Império Americano" | "Le Déclin de l'empire américain" (título original) | "The Decline of the American Empire" (título internacional)
Gênero: comédia dramática. Duração: 101 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1986. Data de lançamento: 19 de junho de 1986, no Canadá. Idioma: francês. Direção: Denys Arcand. Roteiro: Denys Arcand. Elenco: Dominique Michel, Dorothée Berryman, Louise Portal, Pierre Curzi, Rémy Girard, Yves Jacques, Geneviève Rioux, Daniel Brière e Gabriel Arcand. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte, em estreia na plataforma de streaming. Cenas pós-créditos: não. A duração oficial de 101 minutos e os créditos principais são confirmados pelo Library and Archives Canada e pela Cinemateca de Québec. O título usado em Portugal também aparece na programação oficial da Cinemateca Portuguesa. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

sábado, 12 de setembro de 2026

.: "Barbarella", ficção científica com Jane Fonda, é um delírio psicodélico e sensual


Produção de Roger Vadim leva Jane Fonda ao espaço em uma aventura que mistura erotismo, humor, exagero e uma boa dose de maluquice

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

No ano 40.000, as guerras ficaram para trás e a humanidade vive em uma sociedade pacificada. O problema é que alguém resolveu mexer nessa tranquilidade. Quando o cientista Durand Durand desenvolve uma arma capaz de provocar uma destruição em escala interplanetária, Barbarella (Jane Fonda) recebe do Presidente da Terra (Claude Dauphin) a missão de encontrá-lo e impedir que o invento caia nas mãos erradas. Dirigido por Roger Vadim e lançado em 1968, "Barbarella" , que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, parece ter sido concebido depois de uma reunião em que alguém sugeriu colocar ficção científica, quadrinhos, erotismo, humor camp - aquele que celebra o exagero, a teatralidade e a artificialidade de forma irônica e consciente -, cenários psicodélicos e Jane Fonda dentro de um mesmo foguete. O resultado é tão peculiar que tentar enquadrá-lo nos padrões tradicionais do gênero pode ser uma atividade perigosa.

Quase seis décadas depois, o filme continua sendo uma cápsula espacial dos anos 1960: leva para o futuro as fantasias, os exageros e as contradições de seu próprio tempo. E Jane Fonda, no centro de tudo, permanece como a comandante perfeita para essa viagem tão extravagante quanto impossível de levar completamente a sério. Baseado na personagem criada pelo francês Jean-Claude Forest, o filme acompanha uma heroína espacial de aparência exuberante e comportamento quase ingênuo.

Barbarella percorre planetas, enfrenta vilões, encontra criaturas estranhas e passa por situações que transformam o erotismo em uma espécie de linguagem oficial daquele futuro. A sexualidade está espalhada por praticamente todos os cantos da produção. A famosa abertura, com Jane Fonda despindo-se enquanto os créditos aparecem, ajudou a transformar a atriz em símbolo sexual e continua sendo uma das imagens mais lembradas do filme. A personagem, contudo, também apresenta uma curiosa combinação de sensualidade e inocência: para Barbarella, o prazer não carrega o peso moral que costuma acompanhar personagens femininas em aventuras desse tipo.

Essa liberdade sexual, vista hoje, permite uma leitura dupla. De um lado, existe uma personagem feminina que circula por um universo no qual o desejo não precisa ser tratado como pecado. De outro, a câmera masculina de Vadim encontra inúmeras oportunidades para explorar o corpo de Fonda. A fantasia futurista pode ser libertária, mas também revela bastante sobre os desejos de quem estava atrás das câmeras. E o filme não economiza na imaginação visual. Cenários coloridos, figurinos extravagantes, objetos futuristas e criaturas que parecem ter escapado de uma história em quadrinhos compõem um universo deliberadamente artificial. A direção de arte e a fotografia de Claude Renoir ajudam a sustentar essa estética, que prefere o desenho, a textura e o exagero aos efeitos especiais sofisticados.

A produção foi realizada em uma época em que "2001: Uma Odisseia no Espaço" também chegava aos cinemas, o que torna inevitável a comparação. Só que as ambições são bem diferentes. "Barbarella" não pretende construir uma experiência científica ou filosófica. Roger Vadim abraça o absurdo e trata a ficção científica como uma extensão dos quadrinhos, com humor, erotismo e uma estética deliberadamente exagerada. Essa escolha explica parte da permanência do filme. "Barbarella" envelheceu mal em alguns aspectos técnicos e narrativos, mas sobreviveu de maneira curiosamente interessante em outros. A precariedade de determinados efeitos, que pode provocar risadas involuntárias, também contribui para o charme de uma produção que nunca parece interessada em ser discreta.

A quantidade de roteiristas ajuda a explicar a sensação de irregularidade. Terry Southern escreveu uma primeira versão, enquanto Roger Vadim, Jean-Claude Forest e outros nomes aparecem nos créditos finais. A história passou por sucessivas intervenções durante a produção. Jane Fonda, por sua vez, encontrou em Barbarella uma personagem que se tornaria inseparável de sua imagem naquele período. Antes dela, outras atrizes foram consideradas para o papel, entre elas Brigitte Bardot, Virna Lisi e Sophia Loren. Fonda inicialmente demonstrou dúvidas, mas acabou convencida por Vadim, então seu marido.

O curioso é que a atriz não fica reduzida à função de enfeite espacial. A Barbarella dela possui uma ingenuidade quase infantil diante das situações que encontra, enquanto o mundo ao redor parece empenhado em sexualizar tudo o que se move. Esse contraste ajuda a sustentar o humor da produção e impede que a personagem seja apenas uma sucessão de poses sensuais. Também existe uma boa coleção de bizarrices no caminho: o anjo cego Pygar (John Phillip Law), a Rainha Negra (Anita Pallenberg), o Professor Ping (Marcel Marceau), o revolucionário Dildano (David Hemmings) e o cientista Durand Durand (Milo O'Shea) formam uma galeria de figuras tão excêntricas quanto os cenários que habitam. A cidade de Sogo, inclusive, brinca com a referência bíblica a Sodoma e Gomorra.

A recepção crítica sempre oscilou entre o encanto e a irritação. Algumas avaliações enxergam em "Barbarella" uma fantasia adulta refrescante, visualmente inventiva e assumidamente camp. Outras encontram uma narrativa frouxa, humor irregular e uma exploração excessiva da sensualidade de Fonda. Essa combinação explosiva transformou o filme em objeto de culto. "Barbarella" pode ser lento, exagerado, sexualmente datado e narrativamente irregular. Também pode ser colorido, inventivo, divertido e estranhamente fascinante. Depende bastante do quanto o espectador aceita entrar na brincadeira.


Ficha técnica
"Barbarella" (título original) 
Gênero: Ficção científica, aventura, comédia e fantasia. Duração: 98 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1968. Data de lançamento: 25 de dezembro de 1968, no Brasil. Idioma: nglês.
Direção: Roger Vadim. Roteiro: Terry Southern, Roger Vadim, Claude Brulé, Vittorio Bonicelli, Clement Biddle Wood, Brian Degas, Tudor Gates e Jean-Claude Forest. Elenco: Jane Fonda, John Phillip Law, Anita Pallenberg, Milo O'Shea, Marcel Marceau, David Hemmings, Ugo Tognazzi e Claude Dauphin.
Distribuição no Brasil: Paramount Pictures. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

.: Filme "Banho de Sangue" tem herança e carnificina à moda de Mario Bava


Clássico italiano de 1971 antecipa o slasher, coleciona mortes criativas e deixa "Sexta-Feira 13" com uma dívida considerável

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Antes de Jason Voorhees aparecer para atormentar adolescentes em acampamentos, Mario Bava já tinha descoberto que uma propriedade isolada, um punhado de pessoas gananciosas e uma quantidade generosa de sangue poderiam render uma bela carnificina. É nesse território que chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte o filme "Banho de Sangue", produção italiana de 1971 que permanece como uma das obras mais influentes do cinema de horror.

Dirigido por Bava, o filme parte de uma premissa simples: a morte da condessa Federica Donati abre uma disputa pela propriedade situada em uma baía isolada. O que poderia render uma briga familiar, algumas reuniões de herdeiros e um processo judicial ganha contornos muito mais definitivos quando os interessados começam a morrer um atrás do outro. Bava não entrega ao público um assassino único, metódico e interessado em construir uma carreira. A cobiça movimenta praticamente todos os personagens, e cada um parece carregar uma razão particular para eliminar quem estiver no caminho. A matança vira uma reação em cadeia, como anuncia um dos títulos originais do filme, "Reazione a Catena".

O título original, porém, é "Ecologia del delitto", algo próximo de "Ecologia do Crime". E a escolha faz algum sentido: naquela baía, gente, dinheiro, natureza e propriedade estão envolvidos numa espécie de cadeia alimentar em que a espécie dominante costuma ser aquela que consegue matar primeiro. Com Claudine Auger, Luigi Pistilli, Laura Betti, Claudio Camaso, Isa Miranda, Leopoldo Trieste, Brigitte Skay e outros nomes do cinema italiano, Bava monta um elenco de personagens pouco preocupados com princípios. Auger, conhecida internacionalmente por "007 Contra a Chantagem Atômica", vive Renata Donati, uma das figuras diretamente envolvidas na disputa pela herança. Pistilli interpreta Alberto, enquanto Claudio Camaso aparece como Simon, personagem ligado aos mistérios da propriedade.

O roteiro reúne Mario Bava, Giuseppe Zaccariello, Filippo Ottoni, Dardano Sacchetti e outros colaboradores, com uma trama que mistura elementos do giallo - um subgênero do cinema italiano, especialmente popular entre as décadas de 1960 e 1970, que mistura mistério policial, suspense, terror, investigação e violência gráfica - e aquilo que posteriormente seria reconhecido como a cartilha do slasher. O Museu de Arte Moderna de Nova York, ao apresentar o filme em sua programação, destacou precisamente essa importância histórica: luvas pretas, assassino anônimo, jovens imprudentes e objetos cortantes transformados em instrumentos de morte aparecem entre os elementos que ajudaram a estabelecer as convenções do subgênero.

A influência sobre "Sexta-Feira 13" é particularmente evidente. A famosa sequência em que dois amantes são mortos juntos por uma lança durante o ato sexual reaparece em "Sexta-Feira 13 - Parte 2". A comparação entre as duas cenas é recorrente em estudos e textos sobre a genealogia do slasher. Bava também contou com um nome que se tornaria lendário em outro campo do cinema: Carlo Rambaldi, responsável pelos efeitos de maquiagem. Décadas depois, o italiano ganharia três Oscars, incluindo os prêmios por "Alien, o Oitavo Passageiro" e "E.T. - O Extraterrestre". Em "Banho de Sangue", o trabalho dele ajudou a transformar as mortes em atrações próprias, com direito a machadadas, facadas, decapitações e empalações.

São 13 mortes em uma sucessão que transforma o assassinato em espetáculo visual. O curioso é que a violência não elimina a ironia. Pelo contrário: Bava parece se divertir com a ideia de colocar seus personagens uns contra os outros até que praticamente ninguém reste para reivindicar a propriedade. A abertura já dá o tom. Uma condessa é assassinada e o crime é montado para parecer suicídio. Pouco depois, o homem responsável pela morte também vira vítima. A partir daí, a lógica convencional do suspense começa a escorregar pelo ralo. Quem mata quem? Quem está interessado na herança? Quem pretende explorar comercialmente a baía? Quem apareceu ali por acaso e quem já chegou com a faca escondida?

Essa estrutura ajuda a explicar por que o filme é frequentemente apontado como precursor fundamental do slasher. O próprio material reunido sobre a produção registra a quantidade de títulos internacionais que recebeu, entre eles "A Bay of Blood", "Twitch of the Death Nerve", "Bloodbath" e "Carnage". O IMDb identifica "Ecologia del delitto" como título original e registra duração de 1h24. Outro detalhe saboroso é que Bava, além de dirigir, assumiu a fotografia. A câmera acompanha a paisagem da baía com interesse quase tão grande quanto dedica aos corpos que vão surgindo pelo caminho. 

O resultado cria um contraste curioso: a beleza do cenário e a brutalidade dos assassinatos convivem no mesmo quadro. O filme consegue ser visualmente elegante enquanto seus personagens fazem coisas que dificilmente seriam recomendadas por qualquer manual de boa convivência. A produção foi filmada na região de Sabaudia, ao sul de Roma, incluindo a casa de praia do produtor, segundo registros sobre a obra. 

O orçamento modesto não impediu Bava de apostar em soluções visuais bastante inventivas, uma característica que ajuda a explicar por que "Banho de Sangue" envelheceu como referência cinematográfica, mesmo quando sua narrativa parece disposta a testar a paciência de quem tenta acompanhar todas as relações de parentesco, interesses imobiliários e planos criminosos. 

O filme sabe o que quer entregar: atmosfera, mortes inventivas, humor ácido e uma sucessão de reviravoltas. Bava parece olhar para a ganância de seus personagens com uma sobrancelha levantada. Para quem conhece "Halloween" e "Sexta-Feira 13" antes de chegar aos seus ancestrais italianos, "Banho de Sangue" funciona como uma visita à árvore genealógica do horror. Para quem já conhece Mario Bava, é uma oportunidade de rever um cineasta que transformava limitações de produção em invenção visual.


Ficha técnica
"Banho de Sangue" | "Ecologia del delitto" (título original) | "Baía Sangrenta" (título em Portugal). "A Bay of Blood" (título internacional)
Gênero: terror, giallo, slasher. Duração: 84 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1971. Data de lançamento: 8 de setembro de 1971, na Itália. Idioma: italiano. Direção: Mario Bava.
Roteiro: Mario Bava, Giuseppe Zaccariello, Filippo Ottoni, Dardano Sacchetti, Franco Barberi e Gene Luotto. Elenco: Claudine Auger, Luigi Pistilli, Claudio Camaso, Laura Betti, Leopoldo Trieste, Isa Miranda, Anna Maria Rosati, Brigitte Skay, Chris Avram, Paola Montenero, Nicoletta Elmi, Renato Cestiè, Guido Boccaccini, Roberto Bonanni e Giovanni Nuvoletti. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

.: "Sid e Nancy: o Amor Mata" transforma o amor punk em sentença de morte


Cultuado desde os anos 1980, filme de Alex Cox chega ao Belas Artes à La Carte com Gary Oldman e Chloe Webb em uma das histórias de amor mais caóticas da história do rock

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Sexo, drogas, brigas, heroína, Sex Pistols e um romance que parecia ter sido escrito por alguém com uma queda preocupante por finais infelizes. "Sid & Nancy: o Amor Mata" retorna ao catálogo brasileiro pela plataforma de streaming Belas Artes À La Carte para revisitar a história de Sid Vicious e Nancy Spungen, casal que virou símbolo do lado mais destrutivo do punk em um retrato cru e perturbador da breve e incendiária trajetória de Sid Vicious e Nancy Spungen.

Dirigido por Alex Cox, o filme acompanha Sid Vicious, baixista dos Sex Pistols interpretado por Gary Oldman, e Nancy Spungen, vivida por Chloe Webb. A trama parte da passagem da banda pelos Estados Unidos, em 1978, e acompanha a deterioração do relacionamento entre os dois, enquanto drogas, violência e dependência passam a ocupar cada vez mais espaço na vida do casal. A produção também traz David Hayman como Malcolm McLaren, Andrew Schofield como Johnny Rotten e uma participação de Courtney Love, em uma de suas primeiras experiências no cinema.

Cox escreveu o roteiro ao lado de Abbe Wool. O diretor já vinha do irreverente "Repo Man" e decidiu tratar Sid e Nancy com uma liberdade que incomodou bastante gente ligada aos Sex Pistols. O próprio Cox explicou, anos depois, que a recepção americana do filme, entendido como uma história de amor trágica, estava mais próxima da intenção original do que a leitura britânica que o classificava simplesmente como um filme sobre o movimento punk.

A produção também ganhou força graças ao trabalho de Gary Oldman. O ator emagreceu para interpretar Sid e incorporou postura, voz e gestos do músico. Uma das curiosidades mais saborosas da produção é que Oldman usou durante as filmagens o colar que pertenceu ao próprio Sid Vicious. A mãe do músico, Anne Beverley, entregou a peça ao ator depois de conhecer a produção. Chloe Webb constrói uma Nancy menos fácil de encaixar na caricatura da groupie problemática. A atriz mergulha na instabilidade da personagem e acompanha a transformação de uma relação amorosa em uma espécie de pacto de autodestruição. O resultado incomoda porque o filme não oferece personagens particularmente fáceis de admirar.

A decadência aparece em primeiro plano, com o uso de drogas e a dependência tratados de maneira bastante dura. O filme também carregou uma velha briga com John Lydon, o Johnny Rotten dos Sex Pistols. O vocalista atacou publicamente a produção e reclamou da ausência de sua versão dos acontecimentos durante o processo de realização. Em entrevista ao The Guardian, anos depois, Lydon continuava classificando o filme de forma bastante pouco diplomática.

O incômodo faz algum sentido: Cox nunca pretendeu fazer uma reconstituição histórica convencional. A própria produção assumiu uma abordagem estilizada, misturando acontecimentos reais, memória e imaginação cinematográfica. O diretor chegou a admitir posteriormente que gostaria de ter tornado o final mais duro, deixando ainda mais evidente a dimensão trágica do desperdício das vidas de Sid e Nancy.

A trilha sonora ajuda a explicar por que o filme ganhou vida própria dentro da cultura punk. Joe Strummer, do The Clash, compôs "Love Kills", canção que acabou batizando a produção em diferentes materiais internacionais. A trilha ainda reúne The Pogues, John Cale, Steve Jones, Circle Jerks, Pray for Rain e o próprio Gary Oldman cantando "My Way". Outro detalhe curioso envolve Courtney Love. "Sid e Nancy" marcou uma de suas primeiras experiências no cinema, anos antes de ela conquistar reconhecimento como atriz por "O Povo contra Larry Flynt". No filme de Cox, ela aparece em um papel secundário, quando ainda era uma figura distante da celebridade cinematográfica que viria a se tornar.

A produção não foi um fenômeno comercial. Feita com orçamento estimado em US$ 4 milhões, arrecadou cerca de US$ 2,85 milhões mundialmente. A matemática, portanto, não ajudou. O tempo, entretanto, resolveu ser mais generoso: "Sid e Nancy" ganhou status de clássico cult e passou a ser lembrado como uma das cinebiografias musicais mais particulares dos anos 1980. A recepção crítica também ajudou a preservar o filme. 

Ficha Técnica
"Sid e Nancy: o Amor Mata" | "Sid and Nancy" (título original)
Gênero: drama biográfico, musical e romance. Duração: 112 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1986. Data de lançamento: 7 de agosto de 1987 (Brasil). Idioma: inglês. Direção: Alex Cox. Roteiro: Alex Cox e Abbe Wool. Elenco: Gary Oldman, Chloe Webb, David Hayman, Andrew Schofield, Perry Benson, Tony London e Courtney Love. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não há cena pós-créditos propriamente dita. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

.: "Jacques Tati, Caído da Lua" revela gênio quase destruído por "PlayTime"


Documentário de Jean-Baptiste Péretié revisita a trajetória do criador e mostra como perfeccionismo, ambição e uma cidade construída do zero ajudaram a produzir uma obra-prima - e uma ruína financeira

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com. 

Jacques Tati tinha um problema sério com limites. Para fazer cinema, precisava controlar o enquadramento, o movimento dos atores, o cenário, os ruídos e até aquilo que o espectador deveria descobrir sozinho. Em "Jacques Tati, Caído da Lua", documentário dirigido por Jean-Baptiste Péretié, essa obsessão aparece como uma das chaves para entender tanto a grandeza quanto a derrocada do cineasta francês. A produção estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, e percorre a carreira de Tati por meio de imagens de arquivo, cenas de filmes, entrevistas e registros pouco conhecidos de seu processo criativo.

Com 60 minutos de duração, o documentário acompanha a trajetória do artista desde os primeiros trabalhos no music-hall até o sucesso internacional e o desastre financeiro provocado por "PlayTime". A narração é de Denis Podalydès, ator da Comédie-Française, e o elenco de imagens de arquivo reúne, entre outros, o próprio Tati e nomes como Marcel Amont, Brigitte Bardot, Olivia de Havilland e Charles de Gaulle.

O título original, "Jacques Tati, Tombé de la Lune", traduz a ideia de alguém que parece ter chegado de outro planeta para observar o mundo. A expressão combina perfeitamente com Monsieur Hulot, personagem que Tati transformou em uma espécie de alter ego: alto, desajeitado, educado, distraído e quase sempre deslocado diante das engenhocas, dos costumes e da velocidade do mundo moderno. A diferença é que Hulot tropeça nas situações enquanto Tati parecia arquitetar cada tropeço com régua, compasso e uma paciência quase criminosa.

Péretié recupera um aspecto essencial dessa filmografia: Tati fez da observação cotidiana uma forma particular de comédia. O diretor preferia Buster Keaton a Charlie Chaplin e chegou a criticar Chaplin por concentrar demais a comicidade no protagonista. Tati caminhou em outra direção, espalhando a gag pelo quadro e permitindo que personagens aparentemente secundários participassem da engrenagem humorística. 

O som também ocupa lugar central. Tati pertence ao cinema falado, mas muitas vezes parece trabalhar como se estivesse reinventando o cinema mudo. Portas, motores, passos, máquinas, campainhas, copos, telefones e ruídos urbanos assumem funções que normalmente seriam entregues aos diálogos. A comicidade nasce tanto do que se vê quanto do que se escuta. Em seus filmes, uma porta pode ter personalidade e uma máquina pode parecer mais humana do que quem a opera.

Essa obsessão alcança uma escala quase delirante em "PlayTime". Para filmar a produção de 1967, Tati construiu uma enorme cidade cenográfica conhecida como Tativille, com prédios, escritórios, ruas e interiores concebidos para que o diretor pudesse organizar sua coreografia visual. O projeto consumiu anos de trabalho e extrapolou sucessivamente o orçamento. O resultado hoje é tratado como uma das grandes obras-primas do cinema, mas sua recepção inicial foi bem menos generosa. O fracasso comercial levou Tati a uma crise financeira que envolveu a liquidação de sua empresa e a perda do controle sobre seus filmes, já que ele praticamente apostou a própria vida em uma obra que o público da época não estava preparado para receber. 

O cineasta chegou a hipotecar a casa e outros bens para sustentar a produção. O projeto, concebido com uma ambição monumental, acabou contribuindo para sua ruína. Décadas depois, a história tratou de devolver a "PlayTime" o lugar que Tati imaginava que merecia. O documentário também ajuda a reposicionar o cineasta diante da modernidade. Tati não tratava a tecnologia apenas como vilã. O que o interessava era o modo como os seres humanos se comportavam diante dela. 

Esse olhar continua particularmente atual. A arquitetura padronizada, a obsessão pela eficiência, a proliferação de dispositivos e a dificuldade de estabelecer relações em meio a ambientes cada vez mais automatizados poderiam facilmente alimentar uma comédia contemporânea. Tati percebeu esse mundo quando ele ainda estava começando a tomar forma. Talvez por isso Monsieur Hulot continue parecendo perdido: o problema é que nós também estamos.

"Jacques Tati, Caído da Lua" funciona como uma porta de entrada para uma filmografia pequena em quantidade e enorme em influência. O documentário não precisa transformar Tati em santo da comédia para demonstrar sua importância. Basta acompanhar o homem que começou no music-hall, criou um dos personagens mais reconhecíveis do cinema, ganhou o Oscar por "Meu Tio", construiu uma cidade para realizar "PlayTime" e terminou pagando uma conta brutal por sua própria ambição. Tati morreu em 1982, aos 75 anos, mas sua obra continuou crescendo depois dele. 

O melhor elogio que se pode fazer a "Jacques Tati, caído da Lua" talvez seja lembrar que o cineasta permanece difícil de encaixar. Ele é comediante, ator, roteirista, diretor, mímico e arquiteto de situações. É francês, mas seu humor atravessou fronteiras porque dependia pouco de idioma. É herdeiro de uma tradição burlesca, mas não cabe confortavelmente nela. E criou um personagem que parecia estar sempre alguns segundos atrasado em relação ao mundo, porque Tati estiva, na verdade, alguns anos à frente.


Ficha técnica
"Jacques Tati, caído da Lua" | "Jacques Tati, Tombé de la Lune" (título original)
Gênero: documentário. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: a confirmar no lançamento brasileiro. Ano de produção: 2021. Data de lançamento: a confirmar para a estreia na Belas Artes à La Carte. Idioma: francês. Direção: Jean-Baptiste Péretié. Roteiro: Jean-Baptiste Péretié. Elenco: Jacques Tati, Denis Podalydès (narração), Marcel Amont, Brigitte Bardot, Olivia de Havilland, Charles de Gaulle, entre outros, em imagens de arquivo. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

sábado, 5 de setembro de 2026

.: “Duelo na Riviera Francesa” faz da traição de 40 anos um acerto de contas


Comédia francesa de Ivan Calbérac chega ao Belas Artes À La Carte com André Dussollier, Sabine Azéma e Thierry Lhermitte em uma história na qual o ciúme envelhece, mas aparentemente não prescreve


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com. 

Descobrir uma traição quarenta anos depois pode parecer um excelente motivo para deixar o passado quieto. Para o personagem François Marsault, definitivamente não. Em “Duelo na Riviera Francesa”, comédia francesa de Ivan Calbérac que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte., um general aposentado resolve transformar uma velha infidelidade conjugal em assunto de primeira ordem - porque, para ele, certas ofensas têm prazo de validade semelhante ao vinho francês: aparentemente, quanto mais antigas, mais inflamáveis.

Interpretado por André Dussollier, François é casado há cinco décadas com Annie, vivida por Sabine Azéma. O casamento segue firme quando ele encontra, no sótão, cartas apaixonadas que revelam um caso extraconjugal ocorrido quatro décadas antes. Annie admite o romance e tenta argumentar que o episódio pertence a uma época tão distante que já deveria ter prescrito. François, contudo, não está interessado em jurisprudência sentimental. Decide pedir o divórcio e localizar Boris, o antigo amante da mulher, para acertar as contas pessoalmente.

A missão leva o casal até Nice, na Côte d’Azur, onde o passado reaparece na figura de Boris, vivido por Thierry Lhermitte. O sujeito não parece exatamente disposto a colaborar com a paz matrimonial: ainda guarda sentimentos por Annie e volta a cortejá-la. O que poderia ser apenas uma briga de casal ganha proporções familiares quando os três filhos entram na equação, transformando a viagem numa espécie de excursão involuntária pelos problemas, segredos e afetos de uma família que já deveria saber se comportar melhor.

Calbérac escreve e dirige uma comédia apoiada no choque entre a rigidez de François e a capacidade de Annie de enxergar a situação com alguma distância. A premissa tem uma boa dose de absurdo: um homem de 73 anos decide fazer justiça pelas próprias mãos por causa de algo que aconteceu quando ainda era jovem. O curioso é que o filme não trata o personagem simplesmente como um velho ciumento. A crise acaba servindo para colocar em xeque a maneira como ele passou décadas comandando a própria família.

A dupla André Dussollier e Sabine Azéma acrescenta uma camada particularmente saborosa ao projeto. Os dois atores voltam a interpretar um casal depois de inúmeras colaborações, entre elas “Tanguy”, “On Connaît la Chanson”, “Cœurs” e “Les Herbes Folles”, trabalhos associados, em boa parte, ao cineasta Alain Resnais. Para “Duelo na Riviera Francesa”, essa história compartilhada ajuda a vender uma intimidade que o roteiro precisa construir rapidamente. A própria imprensa francesa chamou atenção para a 12ª colaboração cinematográfica entre os dois.

Thierry Lhermitte entra como o ingrediente capaz de incendiar novamente a situação. Boris é o antigo amante que, quatro décadas depois, ainda conserva uma queda por Annie. O encontro entre os três produz a faísca central da comédia: enquanto François está preocupado em defender uma honra conjugal que já atravessou quatro décadas, Boris parece muito mais interessado em descobrir se uma velha paixão pode ganhar uma segunda temporada.

A origem da história também tem um quê de roteiro pronto. Segundo as informações de produção divulgadas sobre o filme, Calbérac teve a ideia depois de ler uma notícia sobre um italiano com mais de 90 anos que pediu o divórcio ao descobrir antigas cartas de amor endereçadas à esposa. A anedota real acabou virando uma comédia sobre memória, casamento, orgulho e aquela velha mania humana de transformar uma questão encerrada há décadas em emergência nacional.

Lançado na França em 24 de abril de 2024, “Duelo na Riviera Francesa” teve uma abertura expressiva: alcançou 34.020 espectadores no primeiro dia, ficando atrás apenas de “Back to Black” entre os lançamentos daquele dia. Na semana de estreia, acumulou 234.009 espectadores e chegou ao fim de sua passagem francesa com cerca de 594 mil entradas. O filme também circulou internacionalmente com o título “Riviera Revenge”, chegando a outros mercados europeus e à Austrália.

“Duelo na Riviera Francesa” parece interessado em observar o ridículo de homens que levam a própria honra a sério demais e mulheres que já descobriram que determinadas guerras conjugais simplesmente não merecem munição. No fim, a viagem para a Riviera deixa de ser apenas uma perseguição ao amante do passado. François precisa encarar a mulher com quem passou 50 anos, os filhos que conhece menos do que imagina e, sobretudo, a possibilidade incômoda de que uma vida inteira não cabe nas versões que cada integrante da família construiu dela. É uma comédia sobre casamento, velhice e ciúme em que ninguém parece exatamente inocente.


Ficha técnica
“Duelo na Riviera Francesa” | “N’avoue Jamais” (título original) | “Nunca Confesses” (título em Portugal) | “Riviera Revenge” (título internacional)
Gênero: comédia. Duração: 94 minutos. Classificação indicativa: não localizada em fonte oficial brasileira até o momento; na França, o filme recebeu classificação “Tous publics” (livre para todos os públicos). Ano de produção: 2024. Data de lançamento: setembro de 2026 no Belas Artes À La Carte; estreia original na França em 24 de abril de 2024. Idioma: francês. Direção: Ivan Calbérac. Roteiro: Ivan Calbérac. Elenco: André Dussollier (François Marsault), Sabine Azéma (Annie Marsault), Thierry Lhermitte (Boris Pelleray), Joséphine de Meaux (Capucine Marsault), Sébastien Chassagne (Adrien Marsault), Gaël Giraudeau (Amaury Marsault), Eva Rami (Mika), Michel Boujenah (Clément Fontaine), Solal Bouloudnine (Mourad), Frédéric Deleersnyder (tenente Théo), Christiane Conil (Sophie Désenclos), Jacques Brunet (almirante) e Marie Fabre (Marjorie Marsault). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

.: "Aventura de Férias" embaralha férias, memória e família sob o sol da Sardenha


Filme de Sophie Letourneur, destaque do Festival do Rio, acompanha viagem de uma família francesa pela Sardenha e chega ao Brasil pelo Belas Artes à La Carte

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Destaque na programação do Festival do Rio 2025, "Aventura de Férias" chega ao Brasil pelo streaming Belas Artes À La Carte com uma proposta que parece simples até a família colocar o pé na estrada: passar as férias de verão na Sardenha. O problema é que férias em família raramente obedecem ao roteiro imaginado antes de fechar as malas. Dirigido por Sophie Letourneur, o filme acompanha Claudine, uma menina que está prestes a completar 11 anos e decide registrar as histórias da viagem enquanto percorre a ilha italiana de carro com a mãe, Sophie, o padrasto, Jean-Philippe, e o irmão caçula, Raoul, de três anos. Entre passeios, refeições, pequenas descobertas, discussões e as inevitáveis trapalhadas provocadas por uma criança que parece ter energia para abastecer uma cidade inteira, a viagem vai ganhando contornos muito menos turísticos.

Selecionado para a mostra Panorama Mundial do Festival do Rio, "Aventura de Férias" chamou atenção pela maneira como transforma o cotidiano familiar em matéria cinematográfica. O filme acompanha situações aparentemente banais e encontra nelas humor, desconforto, ternura e uma certa melancolia. A proposta está longe da comédia familiar convencional, aquela em que cada confusão precisa desembocar em uma lição edificante antes dos créditos finais. Nesse filme, a família pode discutir, perder a paciência, rir, irritar e continuar junta. Como acontece na vida real, para desespero de quem esperava uma viagem perfeitamente organizada.

A estrutura do filme tem uma particularidade saborosa: as conversas familiares são fundamentais para a construção da narrativa. Letourneur utiliza gravações realizadas durante viagens feitas em 2016 como matéria-prima para o projeto. Segundo informações divulgadas sobre a produção, ela registrou aquelas conversas sem saber exatamente, naquele momento, qual seria o destino do material. Anos depois, as gravações passaram a alimentar a escrita do filme.

O resultado cria uma curiosa mistura de ficção e experiência pessoal. As falas carregam uma naturalidade desconcertante, enquanto a encenação organiza aquilo que poderia parecer apenas um amontoado de lembranças de férias. A própria diretora já havia trabalhado com procedimento semelhante em "Voyages en Italie", de 2023, primeiro filme de uma trilogia dedicada aos relacionamentos e às viagens pela Itália. "A Aventura" é o segundo capítulo desse projeto.

E o título não é por acaso. "Aventura de Férias" faz uma referência direta a "L'Avventura", clássico de Michelangelo Antonioni lançado em 1960. A brincadeira já havia aparecido no filme anterior de Letourneur, "Voyages en Italie", uma alusão evidente a "Viagem à Itália", de Roberto Rossellini. O cinema italiano, portanto, está no retrovisor, embora a família de Letourneur esteja ocupada demais tentando sobreviver às férias para prestar muita atenção à cinefilia.

A comparação com Antonioni, porém, serve mais como provocação cinéfila do que como indicação de que os filmes tenham propostas semelhantes. O clássico de 1960 é uma obra fundamental do cinema moderno, enquanto a produção de Letourneur mergulha no cotidiano, nas relações familiares e na memória. A ligação está principalmente no título e no desejo de transformar uma viagem em uma experiência de observação.

"Aventura de Férias" também carrega uma trajetória internacional respeitável. O filme abriu a programação da ACID no Festival de Cannes 2025, uma das importantes seções paralelas dedicadas ao cinema independente. Depois, passou por outros festivais, entre eles o Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. A imprensa francesa destacou a combinação entre humor, intimidade e situações corriqueiras. O jornal "Le Monde" chamou atenção para a maneira como Letourneur transforma episódios triviais - refeições, passeios, praias, caprichos infantis e pequenas tensões - em material para refletir sobre a passagem do tempo e as transformações dentro de uma família.

Claudine observa tudo com a curiosidade de quem ainda está descobrindo os adultos e suas contradições. Ao registrar as conversas da família, ela transforma a viagem em memória antes mesmo de ela terminar. É como se a menina soubesse que aquelas pequenas confusões, que naquele momento parecem intermináveis, um dia serão as histórias que todos vão querer lembrar.

Com humor agridoce, uma dose generosa de desconforto e um olhar bastante particular para a vida cotidiana, Sophie Letourneur faz de "Aventura de Férias" uma viagem que interessa menos pelo destino turístico do que pelas pessoas dentro do carro. A Sardenha está lá, bonita como cartão-postal. A família, felizmente, trata de estragar um pouco a fotografia.


Ficha técnica
"Aventura de Férias" | "L'Aventura" (título original)
Gênero: comédia dramática. Duração: 1h40min. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 2 de julho de 2025, na França; 2 de julho de 2026, em Portugal. Idioma: francês. Direção: Sophie Letourneur. Roteiro: Sophie Letourneur e Laetitia Goffi. Elenco: Sophie Letourneur, Philippe Katerine, Bérénice Vernet e Esteban Melero. Fotografia: Jonathan Ricquebourg. Montagem: Sophie Letourneur. Música: Laure Arto e Carole Verner. Produção: Sophie Letourneur, Tristan Vaslot, Thomas Verhaeghe e Mathieu Verhaeghe. Produtoras: Tourne Films, Atelier de Production e Sacré Vendredi Productions. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

domingo, 30 de agosto de 2026

.: Chris Marker mostra como Kurosawa construiu “Ran” em documentário


Documentário de Chris Marker acompanha Akira Kurosawa durante a realização de “Ran” e revela o método obsessivo, a escala monumental e os bastidores de uma das produções mais ambiciosas da carreira do cineasta japonês; filme estreia no Belas Artes À La Carte

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Ran” significa “caos”, e o título de um filme nunca pareceu tão apropriado. Em 1985, enquanto Akira Kurosawa colocava em movimento uma das produções mais ambiciosas da carreira dele, Chris Marker estava por perto, observando. O resultado desse encontro é “A.K. Akira Kurosawa - Os Segredos de 'Ran'”, documentário francês que acompanha o cineasta japonês durante as filmagens de “Ran” e está no catálogo do streaming Belas Artes À La Carte, juntamente ao clássico dirigido por Kurosawa. A programação foi anunciada pelo Belas Artes como uma celebração especial da obra do diretor.

Marker, autor de filmes como “La Jetée” e “Sans Soleil”, não transforma o registro em um making of convencional, daqueles que explicam cada departamento da produção como se o espectador estivesse diante de um manual de instruções. O interesse está no homem que dirige, espera, observa, corrige e decide. O Festival de Cannes selecionou “A.K.” para a mostra Un Certain Regard em 1985, ano em que o documentário chegou ao festival.

O documentário acompanha Kurosawa no trabalho de construção de “Ran”, adaptação da tragédia "Rei Lear", de William Shakespeare,, transposta para o Japão feudal. O senhor feudal Hidetora decide dividir seus domínios entre os três filhos, Taro, Jiro e Saburo. Parece uma boa ideia até o momento em que os herdeiros percebem que dividir um reino é muito menos interessante do que tomar posse dele inteiro. É aí que a tragédia começa a ganhar espadas, cavalos, castelos, incêndios e uma quantidade considerável de problemas familiares. Kurosawa substitui as três filhas de Lear pelos três filhos de Hidetora e constrói uma narrativa em que poder, velhice, orgulho e violência se misturam em proporções pouco saudáveis.

“A.K.” observa esse processo de perto. Marker registra Kurosawa, a equipe do filme e os gigantescos preparativos de “Ran” sem transformar o diretor em uma espécie de celebridade entrevistada diante de uma câmera. A atenção recai sobre os gestos, as esperas, os ensaios, os deslocamentos dos figurantes e a maneira como o cineasta organiza uma produção de dimensões extraordinárias. O catálogo do Yamagata International Documentary Film Festival descreve o filme como um registro dos pequenos comportamentos de Kurosawa e da equipe dele, construído de maneira diferente de um making of convencional.

Kurosawa tinha 75 anos quando dirigiu “Ran” e já enfrentava sérios problemas de visão. Durante aproximadamente uma década, preparou o filme por meio de desenhos e storyboards, muitos deles pintados pelo próprio diretor. O material servia como referência para a equipe, que precisava compreender com precisão os enquadramentos, as cores, a posição dos personagens e os movimentos das cenas. A pesquisa reunida no arquivo confirma que os desenhos foram fundamentais para a preparação das filmagens. O documentário mostra essa obsessão em funcionamento. 

Kurosawa podia passar horas esperando a combinação certa de luz, vento ou nuvens. Uma produção que reunia centenas de figurantes e cavalos dependia de uma logística quase militar, enquanto o diretor continuava perseguindo a imagem que tinha imaginado anos antes. O próprio material de pesquisa destaca o modo como Marker registra essas esperas e até uma cena preparada durante um dia inteiro que acabou descartada pelo diretor na montagem.

A dimensão de “Ran” ajuda a entender o tamanho da empreitada. O filme utilizou cerca de 1.400 figurantes e 200 cavalos, e o castelo destruído em uma das sequências mais famosas foi construído especialmente para a produção. A cena do incêndio não nasceu de uma maquete: Kurosawa mandou construir a fortaleza e colocou fogo nela para registrar a destruição. O resultado está entre as imagens mais impressionantes da filmografia do diretor.

O cuidado visual também aparece nos figurinos. Centenas de peças foram confeccionadas manualmente durante cerca de dois anos, trabalho que rendeu a Emi Wada o Oscar de Melhor Figurino em 1986. “Ran” recebeu ainda indicações ao Oscar de Melhor Diretor, Direção de Arte e Fotografia. As cores dos exércitos funcionam quase como personagens dentro da composição de Kurosawa. Amarelo, vermelho e azul ajudam o espectador a identificar as facções e remetem à tradição visual do teatro Nô. O cuidado cromático transforma as batalhas em grandes pinturas em movimento, mas a beleza nunca consegue esconder o desastre humano que acontece dentro delas.

Marker também encontra espaço para observar a relação entre o diretor e aquilo que está ao seu redor. “A.K.” não pretende explicar Kurosawa de maneira definitiva. O espectador percebe um cineasta meticuloso, econômico nas palavras e capaz de coordenar uma máquina gigantesca sem perder de vista a imagem que carrega na cabeça. A produção de “Ran” ainda foi marcada por uma tragédia pessoal. Yōko Yaguchi, esposa de Kurosawa por 39 anos, morreu durante as filmagens. Segundo o material reunido sobre o documentário, o diretor interrompeu a produção por apenas 24 horas e voltou ao trabalho no dia seguinte.

A escolha de Marker para registrar esse momento não poderia ser mais adequada. O cineasta francês também tinha uma relação muito particular com o documentário, trabalhando frequentemente na fronteira entre observação, ensaio e reflexão sobre a própria natureza da imagem. Em “A.K.”, ele encontra um personagem perfeito para esse método: um diretor que pensa cinema até quando parece simplesmente esperar.

A chegada ao Belas Artes À La Carte cria uma oportunidade particularmente boa para assistir aos dois filmes em sequência. Primeiro, “A.K.” mostra a engrenagem. Depois, “Ran” entrega o resultado dessa obsessão em forma de tragédia. É quase como acompanhar a construção de um castelo sabendo, desde o começo, que alguém vai colocar fogo nele.


Ficha técnica
“A.K. Akira Kurosawa – Os Segredos de 'Ran'” | “A.K.” (título original) | “A.K. (Akira Kurosawa)” (título em Portugal)
Gênero: documentário, história, biografia. Duração: 75 minutos. Classificação indicativa: livre. Ano de produção: 1985. Data de lançamento: 20 de maio de 1985, na França. Idioma: francês e japonês. Direção e roteiro: Chris Marker. Fotografia: Frans-Yves Marescot. Música: Tōru Takemitsu. Elenco: Akira Kurosawa, Tatsuya Nakadai, Ishirō Honda, entre outros. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.
Postagens mais antigas → Página inicial
Tecnologia do Blogger.