O mestre das HQs italianas ganha vida na obra-prima psicodélica de Mario Bava, com trilha inesquecível de Ennio Morricone e o charme imortal do crime em Technicolor. Foto: divulgação
Ficha técnica
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Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.
O crime está em um hotel parisiense, mas Jean-Luc Godard parece muito mais interessado em investigar o próprio cinema. “Detetive de Godard” (“Détective”), produção francesa de 1985, chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte recuperando uma das obras mais particulares da fase dos anos 1980 do cineasta franco-suíço. No centro da trama estão um assassinato ocorrido dois anos antes, uma dívida milionária, uma luta de boxe, um casamento em crise e uma pequena multidão de personagens que circula pelo mesmo hotel como se todos escondessem alguma coisa.
Laurent Terzieff interpreta William Prospero, antigo detetive do hotel que retorna ao local determinado a esclarecer o assassinato de um hóspede conhecido como Príncipe. Jean-Pierre Léaud vive seu sobrinho, o inspetor Neveu, enquanto Aurelle Doazan interpreta Arielle. Do outro lado dessa intricada rede estão Françoise Chenal, personagem de Nathalie Baye, e seu marido Émile, vivido por Claude Brasseur. O casal enfrenta dificuldades financeiras e pressiona Jim Fox Warner, empresário de boxe interpretado pelo cantor e ator Johnny Hallyday. Para complicar ainda mais a situação, Jim também deve dinheiro à máfia. Alain Cuny aparece como o velho mafioso, enquanto Emmanuelle Seigner e Julie Delpy completam o elenco principal.
A investigação, portanto, rapidamente deixa de ser uma questão policial convencional. Godard espalha as pistas pelo cenário, pelas falas, pelos objetos e pela montagem. O hotel torna-se um tabuleiro em que detetives, boxeadores, amantes, mafiosos e devedores circulam em diferentes combinações. O espectador precisa montar as peças enquanto o diretor embaralha deliberadamente as expectativas de quem espera uma narrativa policial tradicional.
O roteiro é assinado por Alain Sarde e Philippe Setbon, com participação de Jean-Luc Godard nos diálogos e na adaptação ao lado de Anne-Marie Miéville, segundo a Cinemateca Portuguesa. A própria ficha do Festival de Cannes credita Sarde e Setbon pelo roteiro. A escolha do gênero policial tinha uma razão bastante concreta. “Detetive” nasceu de uma encomenda do produtor Alain Sarde, interessado em aproximar Godard de um projeto com potencial comercial. A estratégia reunia atores conhecidos do público francês, como Baye, Brasseur, Hallyday, Terzieff e Cuny, e colocava o diretor diante dos códigos do filme noir. O resultado, porém, conserva o gosto de Godard por desmontar convenções e fazer do próprio mecanismo cinematográfico parte da história.
A imprensa especializada percebeu justamente esse jogo. O crítico Vincent Canby, do “The New York Times”, definiu a produção como uma homenagem fragmentada e divertida ao film noir, enquanto o “Los Angeles Times” observou que Godard reduziu a narrativa ao essencial e carregou cada sequência de referências e associações, exigindo do público uma postura investigativa para compreender personagens e acontecimentos. O filme também marcou a estreia de Julie Delpy no cinema. Aos 14 anos, a atriz aparece em uma participação pequena, anos antes de conquistar reconhecimento internacional por trabalhos como “Antes do Amanhecer”, dirigido por Richard Linklater.
Outro detalhe curioso está na própria formação do elenco. Johnny Hallyday, uma das maiores estrelas da música francesa, assume o papel de um empresário de boxe envolvido com dívidas e negócios escusos. Já Jean-Pierre Léaud, figura fundamental da nouvelle vague e presença recorrente no cinema de Godard, interpreta um detetive de energia quase descontrolada. O contraste entre essas personalidades ajuda a criar a atmosfera peculiar da produção.
“Detetive” ainda foi exibido em competição no Festival de Cannes de 1985, ao lado de filmes como “Paris, Texas”, “Mishima” e “O Beijo da Mulher-Aranha”, entre outros títulos daquele ano. A presença de Godard na competição reforçava sua relação histórica com o festival, que acompanhou diversas fases de sua carreira. O filme é dedicado a três cineastas que Godard admirava: John Cassavetes, Edgar G. Ulmer e Clint Eastwood. A homenagem ajuda a iluminar o caminho escolhido pelo diretor: partir do crime, do gangster, do detetive e das convenções do cinema popular para criar uma obra que brinca com esses elementos enquanto questiona a maneira como uma história policial é construída. Com 95 minutos de duração, “Detetive” permanece uma experiência especialmente interessante para quem gosta de cinema que exige atenção aos detalhes. A trama oferece assassinato, dinheiro, sexo, boxe e máfia, mas Godard acrescenta citações literárias, música clássica, referências cinematográficas e uma montagem que transforma cada cena em uma nova pista. É uma oportunidade de reencontrar um Godard menos celebrado, porém cheio de provocações, inclusive contra as próprias regras do gênero que decidiu explorar.
Ficha técnica
“Detetive de Godard” | “Détective” (título original)
Gênero: comédia, crime e drama. Duração: 95 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1985. Data de lançamento: 10 de maio de 1985. Idioma: francês, com registros de inglês e italiano. Direção: Jean-Luc Godard. Roteiro: Alain Sarde, Philippe Setbon e Jean-Luc Godard, com adaptação de Alain Sarde, Philippe Setbon, Anne-Marie Miéville e Jean-Luc Godard. Elenco: Laurent Terzieff, Jean-Pierre Léaud, Nathalie Baye, Claude Brasseur, Johnny Hallyday, Alain Cuny, Aurelle Doazan, Stéphane Ferrara, Emmanuelle Seigner e Julie Delpy. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
A estreia de "Nunca Fui Santa" na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte resgata um momento decisivo na trajetória de Marilyn Monroe. Lançado em 1956, com direção de Joshua Logan e roteiro de George Axelrod, baseado na peça homônima de William Inge, o longa-metragem coloca a estrela em um terreno menos confortável, onde charme não basta. Na trama, o caubói Beauregard “Bo” Decker (Don Murray), jovem, teimoso e completamente despreparado para relações afetivas, cruza o caminho de Cherie (Monroe), cantora de saloon que sonha com uma vida melhor. Um encontro breve vira obsessão. Convencido de que encontrou a futura esposa, ele decide levá-la para seu rancho em Montana - com ou sem consentimento. A viagem de ônibus, interrompida por uma nevasca, força os dois a encarar o que há de mais incômodo: expectativas desencontradas, desejo de liberdade e a dificuldade de reconhecer o outro como sujeito.
Joshua Logan, vindo da Broadway, conduz o filme com atenção ao comportamento dos personagens, sem pressa de resolver conflitos. O texto de Axelrod amplia a peça original e cria situações que expõem o ridículo e a fragilidade de Bo, ao mesmo tempo em que permite a Cherie escapar do estereótipo da “loira ingênua”. Monroe aproveita cada fresta. Após estudar no Actors Studio com Lee e Paula Strasberg, ela constrói uma personagem com sotaque sulista carregado, gestos contidos e um desleixo calculado no visual. A decisão de usar pouca maquiagem e abandonar o glamour habitual foi uma estratégia e tanto.
A crítica da época percebeu. Bosley Crowther, do The New York Times, escreveu que Monroe finalmente se afirmava como atriz de verdade. A indicação ao Globo de Ouro veio no mesmo embalo. Don Murray, em sua estreia no cinema, recebeu indicação ao Oscar de ator coadjuvante, sustentando com energia um personagem difícil de defender. No elenco, Arthur O’Connell e Betty Field completam o quadro com segurança, enquanto Hope Lange também inicia nesse filme a trajetória nas telas.
Nos bastidores, a produção teve tensão. Logan desconfiava da disciplina de Monroe, famosa por atrasos e inseguranças. Mudou de opinião ao longo das filmagens, chegando a compará-la a Charlie Chaplin pela capacidade de equilibrar humor e emoção. O filme também marca o retorno da atriz após um período de afastamento de Hollywood, quando rompeu com a 20th Century Fox, mudou-se para Nova York e criou a Marilyn Monroe Productions, exigindo maior controle sobre sua carreira.
"Nunca Fui Santa" não resolve todas as contradições - o romance central incomoda, a condução narrativa por vezes acelera soluções - mas permanece como registro de uma virada. O público encontra ali uma Monroe que não quer mais ser apenas imagem. Quer ser levada a sério. E, por boa parte do filme, consegue.
Ficha técnica
“Nunca Fui Santa” | "Bus Stop" (título original) | "Paragem de Autocarro" (título em Portugal). Gênero: comédia dramática, romance. Duração: 96 minutos. Classificação indicativa: livre. Ano de produção: 1956. Data de lançamento: 1956. Idioma: inglês. Direção: Joshua Logan. Roteiro: George Axelrod, baseado na peça de William Inge. Elenco: Marilyn Monroe, Don Murray, Arthur O'Connell, Betty Field, Eileen Heckart, Hope Lange. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
“Vade Retro, Vampiro!” chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, com gosto de provocação e deboche, apostando no exagero. Dirigido por Antonin Peretjatko, o longa-metragem francês gira em torno do mito do vampiro conduzido por um elenco que abraça o absurdo com Estéban à frente, ao lado de Pascal Tagnati, Yolène Gontrand, Alma Jodorowsky e Arielle Dombasle.
A trama acompanha Norbert, um vampiro aristocrata pressionado por regras familiares rígidas e anacrônicas: ele precisa encontrar uma mulher de “sangue puro” para garantir a continuidade da linhagem. A viagem ao Japão, planejada como solução, termina em naufrágio em Boulet Rouge, uma ilha isolada. O que se instala ali não é exatamente um conflito, mas um desfile de situações descontroladas, em que o nonsense se impõe e a narrativa se recusa a se comportar.
Peretjatko, que assina o roteiro ao lado de Masa Sawada e Laure Desmazières, reorganizou o projeto após a pandemia inviabilizar parte do financiamento internacional. O Japão saiu de cena, e a história foi reconfigurada a partir de referências visuais e geográficas da Ilha de La Réunion, território francês no Oceano Índico. A limitação orçamentária - cerca de 1 milhão de euros - faz com que o filme assuma uma estética assumidamente precária, que flerta com o cinema de gênero europeu das décadas de 1970 e 1980.
O humor oscila entre o escracho e a sátira, cutucando temas como pureza racial e dogmas religiosos a partir de uma lente torta e quase carnavalesca. A escolha de Estéban, conhecido pelo trabalho cômico na televisão francesa, reforça esse tom: o Norbert interpretado por ele é, ao mesmo tempo, patético e magnético. Já Alma Jodorowsky carrega no sobrenome um histórico que dialoga com o espírito do filme - neta de Alejandro Jodorowsky, ela parece perfeitamente à vontade nesse universo que beira o delírio. Arielle Dombasle, por sua vez, amplia o lado camp da narrativa. Há quem enxergue no filme uma comédia anárquica cheia de fôlego e invenção; outros se incomodam com o excesso e a falta de eixo. “Vade Retro, Vampiro!” assume o risco de ser indigesto para alguns e irresistível para outros.
Ficha técnica
“Vade Retro, Vampiro!” | “Vade Retro” (título original)
Gênero: comédia, terror. Duração: 95 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 31 de dezembro de 2025 (França). Idioma: francês. Direção: Antonin Peretjatko. Roteiro: Antonin Peretjatko, Masa Sawada, Laure Desmazières. Elenco: Estéban, Pascal Tagnati, Yolène Gontrand, Alma Jodorowsky, Arielle Dombasle, Pascal Légitimus. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
Marco Bellocchio dirige “Diabo no Corpo” , filme que chega à plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, carregando a fama que atravessou décadas: a de obra que dividiu plateias, irritou setores conservadores e alimentou debates sobre erotismo, poder e representação no cinema europeu dos anos 1980. Lançado em 1986, o longa-metragem adapta o romance de Raymond Radiguet, publicado em 1923, e desloca a trama original para o clima tenso da Itália dos chamados anos de chumbo, período marcado por radicalização política, terrorismo e instabilidade social.
A história acompanha Andrea (Federico Pitzalis), um estudante que se envolve com Giulia (Maruschka Detmers), mulher mais velha e noiva de um militante preso por terrorismo. O encontro entre os dois evolui rapidamente para uma relação marcada por obsessão, impulsos destrutivos e uma dinâmica que desafia convenções morais. Bellocchio constrói esse vínculo com um olhar direto, sem recuos, o que ajuda a explicar tanto a repercussão quanto a rejeição que o filme provocou desde sua estreia no Festival de Cannes, em 1986.
Maruschka Detmers se tornou o centro das atenções à época. A atuação intensa da atriz, aliada à exposição física e às cenas explícitas, fez dela um símbolo sexual cult no cinema europeu. O figurino assinado por Giorgio Armani reforça a construção dessa personagem ambígua, ao mesmo tempo sofisticada e instável. A atriz, anos depois, admitiria certo arrependimento pela cena mais comentada do filme, a de sexo oral verdadeiro, que acabou ofuscando outras realizações da carreira dela.
O roteiro, assinado por Marco Bellocchio, Ennio De Concini e Enrico Palandri, amplia o alcance do material original ao inserir o romance em um contexto político mais explícito. O noivo de Giulia, ligado a grupos radicais de esquerda, funciona como pano de fundo para uma narrativa em que o desejo se mistura com a sensação de colapso social. A relação entre os protagonistas não se desenvolve isolada; ela responde a um ambiente em ebulição, em que instituições, famílias e certezas parecem frágeis.
A recepção crítica nunca encontrou consenso. Parte da imprensa enxergou ousadia e vigor na forma como Bellocchio articula erotismo e política; outra parte acusou o filme de recorrer ao choque como estratégia. O tempo, no entanto, consolidou “Diabo no Corpo” como um dos títulos mais lembrados da filmografia do diretor, seja pela coragem formal, seja pelo impacto cultural que provocou.
Ficha técnica
“Diabo no Corpo” | “Diavolo in Corpo” (título original)
Gênero: drama, romance. Duração: 1h54. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1986. Idioma: italiano. Direção: Marco Bellocchio. Roteiro: Marco Bellocchio, Ennio De Concini, Enrico Palandri. Elenco: Maruschka Detmers, Federico Pitzalis, Anita Laurenzi, Alberto Di Stasio, Riccardo De Torrebruna. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
Germi dirige e interpreta o protagonista, gesto ainda incomum no cinema italiano da época. Ao lado de Luisa Della Noce e Sylva Koscina, ele constrói um retrato familiar áspero, atravessado por tensões econômicas, orgulho ferido e vínculos que se desgastam sob pressão. A escolha de um narrador infantil intensifica o impacto dramático: o que se vê não é apenas a queda de um pai, mas a formação de um olhar que tenta compreender o mundo adulto.
Embora dialogue com o neorrealismo, sobretudo na atenção à classe trabalhadora e aos ambientes reais, “O Ferroviário” assume um tom melodramático que o afasta do rigor seco de nomes como De Sica e Rossellini. As cenas filmadas em ferrovias italianas, com apoio de companhias do setor, reforçam a materialidade do cotidiano ferroviário, algo bastante elogiado à época. O filme concorreu à Palma de Ouro em Cannes e teve forte recepção popular, consolidando Germi como um dos diretores centrais do período, antes de migrar para as comédias mordazes que marcariam sua carreira nos anos 1960, como “Divórcio à Italiana”.
A história avança entre conflitos domésticos - o filho desempregado, a filha que engravida cedo, a relação delicada com a esposa - e a lenta corrosão de Andrea, que, afastado do trabalho, mergulha na bebida e na irritação constante. Ainda assim, o filme não se limita à ruína: há espaço para gestos de reconciliação, sobretudo na relação com Sandro, que observa, sofre e, por fim, reage.
Ficha técnica
“O Ferroviário” | “Il Ferroviere” (título original)
Gênero: drama. Duração: 116 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 1956. Idioma: Italiano. Direção: Pietro Germi. Roteiro: Pietro Germi, Alfredo Giannetti. Elenco: Pietro Germi, Luisa Della Noce, Sylva Koscina, Saro Urzì, Carlo Giuffrè, Renato Speziali, Edoardo Nevola.
Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
A história parte de um gesto extremo: Babe (Sissy Spacek) atira no próprio marido e volta para a casa das irmãs, no Mississippi. Lá, reencontra Lenny (Diane Keaton), que vive à sombra de frustrações silenciosas, e Meg (Jessica Lange), uma aspirante a cantora que retorna de Hollywood carregando derrotas mal resolvidas. Entre confissões atravessadas, memórias incômodas e episódios que beiram o absurdo, o trio expõe as feridas de uma família marcada por tragédias antigas - incluindo o suicídio da mãe, um evento que ainda reverbera nas três.
Keaton, Lange e Spacek evitam qualquer disputa de protagonismo e constroem uma dinâmica de cumplicidade que sustenta o filme até nos momentos mais irregulares. Spacek venceu o Globo de Ouro e recebeu indicação ao Oscar, repetindo o feito de Tess Harper, indicada como coadjuvante. O roteiro também entrou na disputa da Academia, reforçando a força do texto original de Henley. Nos bastidores, a produção reuniu três atrizes em fases distintas da carreira, o que contribuiu para a tensão criativa em cena. Jessica Lange já era um nome consolidado, Diane Keaton buscava novos rumos após colaborações marcantes nos anos 1970, e Spacek vinha de uma sequência de papéis intensos. O resultado aparece na tela: um jogo de forças que nunca se acomoda.
Durante as filmagens, Lange estava grávida, o que exigiu ajustes discretos na encenação. Lançado em 1986, o filme teve recepção crítica favorável, ainda que dividida quanto ao tom, que oscila entre a comédia ácida e o melodrama familiar. Há ecos do gótico sulista e de autores como Tennessee Williams, mas com um enquadramento feminino que desloca o eixo das histórias tradicionais.
Ficha técnica
“Crimes do Coração” | “Crimes of the Heart” (título original)
Gênero: comédia dramática. Duração: 1h45. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1986. Idioma: inglês. Direção: Bruce Beresford. Roteiro: Beth Henley. Elenco: Diane Keaton, Jessica Lange, Sissy Spacek, Sam Shepard, Tess Harper. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
A cinebiografia "Rosa Luxemburgo" chega à plataforma de streaming Reserva Imovision para resgatar a força inquieta de uma das figuras mais controversas e fascinantes da história política europeia. Dirigido por Margarethe Von Trotta, o longa-metragem alemão de 1986 aposta menos na rigidez da cinebiografia clássica e mais na pulsação humana de sua protagonista, vivida por Barbara Sukowa em uma interpretação que marcou época - premiada no Festival de Cannes daquele ano.
A narrativa acompanha Rosa Luxemburgo desde a atuação dela como intelectual e militante revolucionária até os anos de repressão, prisões e embates ideológicos que antecederam a Primeira Guerra Mundial. Polonesa de nascimento e figura central da esquerda alemã, Luxemburgo foi filósofa, economista e uma voz ativa dentro da social-democracia europeia, participando da fundação de movimentos que mais tarde desembocariam no Partido Comunista da Alemanha. A trajetória, encerrada de forma brutal em 1919, ecoa no filme como tensão constante entre pensamento e ação.
Von Trotta constrói essa figura histórica sem a engessar em discursos expositivos. Há política, claro, mas há também contradição, afeto, ironia e cansaço. A diretora, que consolidou uma filmografia dedicada a mulheres em conflito com seu tempo, encontra em Rosa um retrato que mistura firmeza intelectual e vulnerabilidade emocional. Essa abordagem se reflete na escolha de incorporar trechos reais das cartas da própria revolucionária, muitas delas escritas durante o cárcere, o que confere densidade e autenticidade ao texto.
Barbara Sukowa, que colaborou diversas vezes com a cineasta, mergulhou nos escritos originais de Luxemburgo para compor a personagem. O resultado é uma atuação que evita caricaturas e destaca a complexidade de uma mulher que recusava simplificações. Ao seu lado, Daniel Olbrychski contribui para dar corpo aos embates políticos e pessoais que atravessam a narrativa.
Realizado em plena Guerra Fria, o filme provocou debates intensos na Alemanha Ocidental, sobretudo por revisitar uma figura marxista em um período ainda marcado por divisões ideológicas profundas. Ainda assim, a diretora optou por não transformar a obra em panfleto, preferindo explorar as ambiguidades de sua personagem. "Rosa Luxemburgo" integra uma espécie de trilogia informal de von Trotta sobre mulheres historicamente engajadas, ao lado de outros retratos femininos igualmente densos. Décadas depois, o filme mantém sua força ao revisitar uma trajetória que segue provocando leituras diversas.
Ficha técnica
“Rosa Luxemburgo” | (“Rosa Luxemburg” (Título original)
Gênero: drama, biografia Duração: 123 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1986. Idioma: alemão. Direção: Margarethe von Trotta. Roteiro: Margarethe von Trotta. Elenco: Barbara Sukowa, Daniel Olbrychski. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.
A estreia de “A Guarda Costeira” na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte recoloca em circulação um dos títulos mais incômodos da filmografia de Kim Ki-duk, cineasta sul-coreano que construiu carreira provocando plateias e festivais com narrativas de alta voltagem emocional. Lançado originalmente em 2002, o longa - cujo título original é “Haeanseon” e que em Portugal recebeu o nome de “A Linha da Costa” - acompanha o soldado Kang, integrante de uma unidade da guarda costeira que vigia uma área cercada por arame farpado, na fronteira simbólica entre Coreia do Sul e Coreia do Norte.
Interpretado por Jang Dong-gun, astro popular do cinema coreano nos anos 2000, o personagem é movido por uma obsessão: eliminar um suposto espião e, com isso, conquistar reconhecimento dentro da hierarquia militar. O que se desenha a partir dessa expectativa é um retrato duro sobre paranoia, disciplina e desumanização. Ao lado de Kim Jeong-hak e Park Ji-ah, o elenco sustenta um clima de tensão crescente, em que o erro — inevitável — desencadeia consequências devastadoras.
Kim Ki-duk assina direção e roteiro, imprimindo sua marca autoral em cada decisão estética. O filme nasce, em parte, de sua própria experiência como ex-integrante da Marinha sul-coreana, o que ajuda a explicar o rigor quase documental em algumas sequências e a violência crua que atravessa a narrativa. Durante as filmagens, realizadas em Jeonju e Seul ao longo de pouco mais de um mês, o diretor adotou métodos intensos, com poucos ensaios e estímulo a reações espontâneas do elenco.
Exibido no Festival de Veneza em 2002 e premiado no Festival de Karlovy Vary com o troféu da crítica internacional (FIPRESCI), “A Guarda Costeira” marcou um momento de virada na trajetória de Kim Ki-duk, que deixou de circular apenas em nichos para ocupar espaço mais amplo no circuito europeu. A história, centrada no equívoco fatal de um soldado que confunde um civil com inimigo, dialoga diretamente com o estado permanente de tensão na península coreana, transformando um episódio individual em comentário político de alcance mais amplo. Sem suavizar a brutalidade de seus personagens, o longa confronta o espectador com a lógica interna de um sistema que premia a violência e pune a dúvida.
Ficha técnica
“A Guarda Costeira” | (“Haeanseon” (Título original) | “A Linha da Costa” (Título em Portugal)
Gênero: drama, guerra. Duração: 1h31m. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 2002. Data de lançamento: 22 de novembro de 2002. Idioma: coreano. Direção e roteiro: Kim Ki-duk. Elenco: Jang Dong-gun, Kim Jeong-hak, Park Ji-ah, Yoo Hae-jin, Kim Tae-woo. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
“Diamantes” chega à plataforma de streaming Belas Artes À La Carte com a assinatura de Ferzan Özpetek, cineasta turco-italiano que volta a Roma dos anos 1970 para encenar um drama coral embalado por amor, disputas e memórias. No filme, um diretor reúne suas atrizes favoritas para um projeto que, pouco a pouco, ganha forma dentro de um ateliê de figurinos cinematográficos comandado pelas irmãs Alberta e Gabriella Canova, vividas por Luisa Ranieri e Jasmine Trinca.
A história do filme desliza entre realidade e ficção enquanto acompanha o cotidiano de mulheres que sustentam, com talento e urgência, a engrenagem invisível do cinema. Entre máquinas de costura, prazos apertados e pressões de uma grande produção, surgem histórias íntimas marcadas por perdas, amores interrompidos, violência doméstica e dificuldades financeiras. O roteiro, assinado por Özpetek, Elisa Casseri e Carlotta Corradi, aposta no entrelaçamento dessas trajetórias para construir um painel coletivo em que cada personagem encontra espaço para brilhar.
Com Stefano Accorsi, Aurora Giovinazzo, Anna Ferzetti e Vinicio Marchioni no elenco, “Diamantes” chama atenção pela reunião de 18 atrizes italianas de destaque - um feito raro no cinema contemporâneo do país. A imprensa local tratou o longa como um encontro das musas de Özpetek, diretor conhecido por valorizar personagens femininas e dinâmicas familiares intensas. O resultado ecoa o melodrama vibrante que muitos associam ao cinema de Pedro Almodóvar, com cores marcantes, emoções à flor da pele e cenas coletivas carregadas de energia.
A origem do projeto está nas lembranças do próprio diretor, que frequentava oficinas de figurino no início da carreira, nos anos 1980, em Roma. Esse material autobiográfico se traduz na atenção aos detalhes - tecidos, cortes e texturas ganham protagonismo e ajudam a contar histórias que vão além do que se vê em cena. A trilha sonora, assinada por Giuliano Taviani e Carmelo Travia, acompanha esse movimento com sensibilidade.
Sucesso de público na Itália, “Diamantes” ultrapassou 16 milhões de euros em bilheteria e levou mais de 2 milhões de espectadores aos cinemas, tornando-se o maior êxito comercial da carreira de Özpetek, superando títulos consagrados como “A Janela da Frente” e “O Banho Turco”. O filme também marca mais uma colaboração do diretor com a cantora Giorgia, responsável pela canção-tema.
Ficha técnica
“Diamantes” | (“Diamanti” (Título original)
Gênero: drama, comédia. Duração: 135 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 19 de dezembro de 2024 (Itália). Idioma: italiano. Direção: Ferzan Özpetek. Roteiro: Ferzan Özpetek, Elisa Casseri, Carlotta Corradi. Elenco: Luisa Ranieri, Jasmine Trinca, Stefano Accorsi, Aurora Giovinazzo, Anna Ferzetti, Vinicio Marchioni, Elena Sofia Ricci, Kasia Smutniak, Vanessa Scalera, entre outros. Distribuição no Brasil: Pandora Filmes. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
No centro da narrativa está Isabelle Adjani, em uma atuação que atravessa fases distintas da vida da personagem com vigor e precisão. A Camille Claudel interpretada por ela surge jovem, obstinada e inquieta, ganha força ao se afirmar como artista e, aos poucos, começa a se desorganizar diante de perdas, frustrações e isolamento. O desempenho rendeu a ela o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim e uma indicação ao Oscar, consolidando o trabalho como um dos pontos altos de sua carreira.
Ao lado dela, Gérard Depardieu interpreta Auguste Rodin com uma presença que oscila entre o mentor generoso e o homem incapaz de romper com suas próprias contradições. A relação entre os dois sustenta o eixo dramático do filme, misturando admiração artística, desejo, disputa e ressentimento. O elenco ainda reúne nomes como Laurent Grévill, Alain Cuny e Madeleine Robinson, compondo um ambiente familiar e social que pressiona e delimita os caminhos da protagonista.
O roteiro, assinado por Nuytten e Marilyn Goldin, parte da biografia escrita por Reine-Marie Paris, sobrinha-neta de Camille, e se mantém atento aos detalhes históricos. A reconstrução da Paris do final do século XIX aparece com rigor, tanto nos cenários quanto nos figurinos e na ambientação dos ateliês, onde o gesto artístico ganha dimensão quase física. A fotografia de Pierre Lhomme acompanha essa proposta com enquadramentos que lembram esculturas, valorizando textura, luz e volume.
Há ainda curiosidades que ampliam o alcance da obra. Isabelle Adjani já havia interpretado outra figura marcada por sofrimento psíquico em “A História de Adèle H.”, o que estabelece um curioso paralelo em sua filmografia. O filme também inclui uma cena que menciona a morte de Victor Hugo, conectando a narrativa a um momento histórico específico. Outro detalhe envolve Alain Cuny, que interpreta o pai da protagonista e, fora das telas, teve contato real com Paul Claudel, irmão da escultora.
“Camille Claudel” também acumulou reconhecimento em premiações importantes. Além das indicações ao Oscar, conquistou diversos prêmios César, incluindo Melhor Filme, Melhor Atriz, fotografia, trilha sonora e direção de arte. A trilha assinada por Gabriel Yared reforça a atmosfera dramática, enquanto a duração extensa - cerca de 175 minutos - permite acompanhar a transformação da personagem com tempo e densidade. A chegada do longa ao catálogo do Belas Artes à La Carte amplia o acesso a uma obra que segue atual ao discutir autoria, reconhecimento e o lugar da mulher em um meio historicamente dominado por homens.
Na trama, Dennis Quaid vive o detetive Remy McSwain, um policial carismático que navega com naturalidade por práticas pouco ortodoxas dentro da corporação. A rotina dele muda quando passa a investigar uma série de assassinatos ligados à própria polícia. É nesse cenário que surge Anne Osborne, promotora interpretada por Ellen Barkin, enviada para enfrentar a corrupção. O envolvimento entre os dois cresce na mesma proporção em que o caso se complica, colocando ética, desejo e poder em rota de colisão.
O elenco ainda reúne nomes como John Goodman e Ned Beatty, que ajudam a dar corpo a esse retrato de uma instituição corroída por interesses paralelos. A química entre Quaid e Barkin se tornou um dos pontos mais comentados à época do lançamento, com ambos os atores apontando o filme como um dos favoritos de suas carreiras.
Filmado integralmente em Nova Orleans, o longa incorpora com força a identidade local, da música zydeco às paisagens urbanas e ao sotaque cajun que marca a performance de Quaid. A cidade não serve apenas de cenário, mas dita o ritmo e o humor da narrativa, contribuindo para que o filme seja lembrado como uma das representações mais autênticas da região no cinema mainstream daquela década.
Outro dado curioso envolve o desenvolvimento do roteiro, que inicialmente se passaria em Chicago e tinha outro título. A mudança para Nova Orleans redefiniu o projeto e ajudou a consolidar o tom híbrido entre policial e romance. O próprio diretor voltaria a trabalhar com Dennis Quaid em “A Fera do Rock” (1989), explorando um registro completamente diferente.
Lançado em meio à renovação do cinema noir, “Acerto de Contas” acabou associado ao movimento neo-noir dos anos 1980, ainda que opte por uma abordagem mais leve, sem abrir mão das zonas cinzentas de seus personagens. Entre investigações, jogos de poder e relações atravessadas por interesse, o filme constrói um retrato envolvente de uma cidade em que charme e corrupção caminham lado a lado.
Na trama, Belmondo interpreta Stan Jalard, policial que vê a vida virar do avesso após a execução de um colega durante uma operação. A partir daí, o que se desenha é uma caçada persistente ao responsável pelo crime, o bandido Charly Schneider (Jean-Pierre Malo), que reaparece anos depois, reacendendo uma busca atravessada por violência, corrupção e desgaste emocional. Michel Beaune completa o elenco principal como o comissário Pezzoli, figura que tensiona ainda mais o ambiente policial.
Com roteiro assinado por Jacques Deray, Simon Michaël e Alphonse Boudard, o filme aposta em uma narrativa linear, sustentada pelo carisma físico de Belmondo e por sequências de ação que dispensam dublês sempre que possível. À época das filmagens, o ator já se aproximava dos 55 anos e mantinha a tradição de realizar suas próprias cenas de risco, o que reforçava sua imagem de herói durão e indomável, uma assinatura que o público reconhecia de imediato.
"O Solitário" também evidencia uma mudança de tom na carreira do ator. Longe da leveza irreverente que marcou sua fase na nouvelle vague, Belmondo surge mais rígido, marcado pelo cansaço e por uma solidão que contamina cada decisão do personagem. Essa transição ajuda a entender por que o filme, mesmo com ambição comercial, carrega um subtexto mais amargo, refletindo um policial que já não acredita tanto nas regras que deveria defender.
Curiosamente, a produção chegou a ser comercializada em alguns países como uma espécie de continuação de "O Profissional" (1981), estratégia de mercado que não encontra respaldo na história. Na França, o desempenho nas bilheteiras ficou abaixo do esperado, indicando um certo desgaste desse tipo de narrativa policial naquele momento. Ainda assim, o longa permanece como registro de uma fase em que Belmondo dominava o cinema de ação europeu com presença e energia raras. Com duração enxuta e ritmo constante, "O Solitário" encontra força no embate entre um homem e aquilo que o mantém em movimento: a necessidade de fazer justiça, mesmo quando tudo ao redor parece já ter perdido o sentido.