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domingo, 14 de junho de 2026

.: Delicado, “Linda e Selvagem” revela Diane Keaton diretora e surpreende


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O filme “Linda e selvagem” chega na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, como um daqueles achados que parecem sussurrados pela memória da televisão dos anos 1990. Dirigido por Diane Keaton, em uma incursão rara atrás das câmeras, o filme aposta na observação paciente de relações afetivas que nascem onde antes só havia isolamento. Baseado no livro "Alice", de Sara Flanigan - que também assina o roteiro -, o longa acompanha uma jovem surda e com crises epilépticas, mantida à margem da convivência social por um padrasto violento. A narrativa se passa em 1938 e ganha fôlego quando dois irmãos, vividos por William McNamara e uma ainda iniciante Reese Witherspoon, descobrem a existência da garota e insistem em romper o cerco de abandono que a aprisiona.

Patricia Arquette, em início de carreira, sustenta o filme com uma atuação de entrega física e emocional notável, evitando caricaturas e construindo uma personagem que se comunica pelo olhar, pelo gesto e pela resistência. Há algo de cru em sua presença, uma vulnerabilidade que nunca se rende ao sentimentalismo fácil. Ao redor dela, Beau Bridges e Susan Blakely ajudam a compor um ambiente familiar marcado por tensões e silêncios impostos - ainda que o filme prefira sugerir a violência a explorá-la de forma gráfica.

Diane Keaton conduz tudo com discrição. Sua direção não busca virtuosismo, e sim proximidade. A câmera se mantém atenta às relações, aos pequenos deslocamentos emocionais, aos instantes em que a confiança começa a nascer. Esse olhar encontra eco na fotografia de Janusz Kamiński, anos antes de sua consagração ao lado de Steven Spielberg, já demonstrando cuidado com luz natural e ambientação.

Produzido para a televisão e exibido originalmente nos Estados Unidos em 3 de dezembro de 1991, o filme carrega marcas desse formato - duração mais elástica, ritmo menos urgente -, mas transforma essas limitações em terreno fértil para o desenvolvimento dos personagens. Não por acaso, a obra conquistou duas premiações e acumulou indicações, consolidando-se como um título lembrado pela delicadeza com que aborda temas espinhosos.

Há também um charme adicional em revisitar “Linda e Selvagem” hoje: reconhecer, em estado embrionário, nomes que se tornariam centrais em Hollywood. Reese Witherspoon aparece aqui em sua estreia televisiva, enquanto Patricia Arquette já indica o alcance dramático que marcaria sua trajetória. O filme não tenta reinventar a roda. Prefere girá-la com cuidado, deixando que cada gesto, cada aproximação, construa um caminho possível entre brutalidade e afeto. 


Ficha técnica
“Linda e Selvagem” | "Wildflower" (título original) | "Uma Flor Selvagem" (em Portugal)
Gênero: drama, romance. Duração: 120 minutos. Classificação indicativa: não classificado. Ano de produção: 1991. Idioma: inglês. Direção: Diane Keaton. Roteiro: Sara Flanigan. Elenco: Beau Bridges, Susan Blakely, Patricia Arquette, Reese Witherspoon, William McNamara. Distribuição no Brasil: Não disponível comercialmente (filme para televisão). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

domingo, 7 de junho de 2026

.: André Téchiné mergulha na Paris que engole sonhos em "Não Dou Beijos"


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Lançado em 1991 e agora em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, "Não Dou Beijos" é uma das obras mais contundentes da filmografia de André Téchiné. O cineasta francês abandona qualquer idealização da capital francesa para acompanhar a trajetória de Pierre, interpretado por Manuel Blanc, um jovem do interior dos Pireneus que desembarca em Paris carregando o sonho de se tornar ator. O que encontra, porém, está longe das promessas de ascensão social frequentemente associadas à cidade. Sem conseguir se firmar profissionalmente, Pierre atravessa uma sucessão de fracassos que o empurram para a marginalidade. Aos poucos, a sobrevivência fala mais alto do que as ambições artísticas, levando-o à prostituição masculina. O percurso do personagem é marcado por encontros, perdas e humilhações que moldam uma dolorosa passagem para a vida adulta.

Escrito por Jacques Nolot em parceria com André Téchiné, o roteiro nasceu de experiências pessoais do próprio Nolot, que chegou a transformar suas vivências em um romance inédito antes da adaptação para o cinema. A colaboração resulta em uma narrativa de forte autenticidade emocional, interessada na observação de um indivíduo tentando encontrar algum lugar no mundo. O título "Não Dou Beijos" sintetiza a postura do protagonista diante de um universo em que quase tudo pode ser negociado. A frase funciona como uma espécie de código íntimo, um limite que Pierre tenta preservar quando sua vida passa a ser determinada por circunstâncias cada vez mais adversas.

Manuel Blanc entrega uma atuação de enorme intensidade, responsável por projetar seu nome internacionalmente e render-lhe o César de Ator Revelação. Ao seu redor, Philippe Noiret constrói um personagem complexo e melancólico, enquanto Emmanuelle Béart adiciona magnetismo e vulnerabilidade à figura de Ingrid. Hélène Vincent completa o núcleo central com uma interpretação marcada por delicadeza e frustração. Téchiné conduz a narrativa sem concessões. 

A Paris dele não possui cartões-postais nem encantamento turístico. As ruas, os apartamentos modestos e os espaços de encontro noturno compõem um cenário hostil, em que o desejo de pertencimento esbarra constantemente na indiferença coletiva. Essa visão desencantada da metrópole antecipa temas que o diretor voltaria a explorar em obras posteriores, entre elas "Rosas Selvagens", consolidando seu interesse por personagens jovens deslocados social e emocionalmente.

Outra curiosidade relevante envolve o personagem Romain, interpretado por Philippe Noiret. Segundo registros sobre a produção, a figura foi inspirada no filósofo Roland Barthes, amigo tanto de Téchiné quanto de Jacques Nolot. A referência acrescenta uma camada intelectual discreta a um filme que, embora profundamente humano, jamais abandona a reflexão sobre poder, afeto e vulnerabilidade. 

Recebido com respeito pela crítica internacional, "Não Dou Beijos" também chamou atenção pela forma direta com que abordou a prostituição masculina, tema raramente tratado com tanta frontalidade no início da década de 1990. O diretor rejeita glamourizações e oferece um retrato duro de quem tenta preservar a própria identidade enquanto tudo ao redor parece exigir algum tipo de renúncia. Mais de três décadas após a estreia, "Não Dou Beijos" continua impressionando pela honestidade de seu olhar. É um drama sobre juventude, desilusão e sobrevivência que permanece atual justamente porque compreende algo fundamental: crescer nem sempre significa realizar sonhos; às vezes significa aprender o que sobra deles.


Ficha técnica
"Não Dou Beijos" | "J'embrasse Pas" (título original) | "Je N'Embrasse Pas" (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 115 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: francês. Direção: André Téchiné. Roteiro: Jacques Nolot e André Téchiné (com colaboração de Michel Grisolia). Elenco: Manuel Blanc, Philippe Noiret, Emmanuelle Béart, Hélène Vincent, Roschdy Zem, Ivan Desny, Christophe Bernard e Michèle Moretti. Data de lançamento nos cinemas: 20 de novembro de 1991 (França). Distribuição no Brasil: sem distribuição comercial ampla registrada nos cinemas brasileiros; circulou em mostras e circuitos especializados. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sábado, 6 de junho de 2026

.: "Dominados pelo Desejo" resgata alma do noir e afunda personagens no medo


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Lançado em 1990, "Dominados pelo Desejo", que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte,  foi transformado em objeto de culto do cinema norte-americano. Dirigido por James Foley, cineasta que transitou entre o suspense, o drama e produções de grande apelo comercial, o longa-metragem adapta o romance "After Dark, My Sweet", de Jim Thompson, um dos escritores mais influentes da literatura policial americana.

A trama acompanha Kevin "Kid" Collins, interpretado por Jason Patric, um ex-boxeador atormentado que foge de uma instituição psiquiátrica e passa a vagar pelo deserto californiano. Durante a fuga, ele cruza o caminho de Fay Anderson, personagem de Rachel Ward, uma mulher fragilizada por perdas e vícios, que vive sob a influência de Garrett "Tio Bud" Stoker, papel de Bruce Dern. O encontro entre os três dá origem a um plano de sequestro que parece simples apenas na superfície. Conforme a situação se deteriora, a desconfiança, a manipulação e os impulsos autodestrutivos assumem o controle da narrativa.

James Foley, que anos antes dirigira "Quem é Essa Garota?" e posteriormente assinaria títulos como "O Sucesso a Qualquer Preço" e capítulos da franquia "Cinquenta Tons de Cinza", encontra neste filme uma de suas obras mais elogiadas pela crítica especializada. A direção aposta na construção psicológica dos personagens, mantendo o espectador preso à instabilidade emocional do protagonista.

Grande parte da força do filme reside na fidelidade ao universo criado por Jim Thompson. Conhecido por romances como "The Killer Inside Me" e "Pop. 1280", o escritor construiu uma carreira retratando criminosos fracassados, pessoas à deriva e indivíduos incapazes de escapar das próprias limitações. "Dominados pelo Desejo" preserva esse espírito sem recorrer a glamourizações, oferecendo um retrato áspero de personagens que avançam rumo ao desastre quase por inércia.

A atuação de Jason Patric costuma ser apontada como um dos pontos mais marcantes de sua trajetória. O ator confere humanidade e vulnerabilidade a um homem constantemente dividido entre a lucidez e a confusão mental. Rachel Ward evita qualquer romantização da figura da femme fatale clássica, compondo uma mulher emocionalmente ferida, imprevisível e contraditória. Já Bruce Dern entrega um personagem oportunista e desprezível na medida certa, reforçando o clima de tensão permanente.

Visualmente, o longa também chama atenção. A fotografia de Mark Plummer utiliza paisagens áridas e ensolaradas para construir uma atmosfera opressiva. O resultado aproxima o filme do chamado "neo-noir solar", vertente que substitui becos escuros e ruas molhadas pela sensação de isolamento provocada pelo calor e pelos espaços abertos. O fatalismo característico do noir clássico permanece intacto, apenas muda de cenário.

Embora não tenha obtido sucesso expressivo nas bilheterias durante o lançamento, "Dominados pelo Desejo" conquistou admiradores ao longo das décadas. Muitos críticos o consideram uma das adaptações mais consistentes da obra de Jim Thompson para o cinema, justamente por compreender que seus personagens não são gênios do crime, mas seres humanos frágeis, guiados por impulsos, ilusões e decisões equivocadas. Um suspense psicológico que prefere explorar a deterioração moral e emocional de seus protagonistas a oferecer respostas fáceis. Uma experiência marcada pela inquietação, pela melancolia e pela certeza de que, naquele universo, cada escolha carrega consequências difíceis de evitar.


Ficha técnica
"Dominados pelo Desejo" | "After Dark, My Sweet" (título original)
Gênero: romance, suspense, drama, policial, mistério (neo-noir). Duração: 114 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1990. Idioma: inglês. Direção: James Foley. Roteiro: James Foley e Robert Redlin, baseado no romance de Jim Thompson. Elenco: Jason Patric, Rachel Ward, Bruce Dern, George Dickerson, Ira Wheeler e Rockne Tarkington. Distribuição no Brasil: disponibilidade em plataformas e distribuidoras varia conforme o período de exibição. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sexta-feira, 5 de junho de 2026

.: A carne, o mar e a ruptura: a juventude desenfreada de "Paixão Juvenil"


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Lançado em 1956 e dirigido com maestria por Kô Nakahira, "Paixão Juvenil", que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, hoje é reverenciado como clássico, mas já representou uma transgressão perigosa quando foi lançado. É nesse terreno de provocação que se posiciona o cinema japonês daquele período, batizado de Nuberu Bagu (a "Nouvelle Vague" japonesa). O movimento focava em pequenas crises cotidianas e no registro da intensidade de uma geração que buscava escapar do autoritarismo e da mesmice, sem a preocupação de entregar respostas fáceis ao público. 

As grandes transformações políticas e os traumas das guerras historicamente deixam marcas profundas na produção artística, gerando movimentos que ecoam diretamente no comportamento das novas gerações. Nos anos 1950 e 1960, a efervescência cultural moldou um estilo de vida rebelde, cuja atitude muitas vezes foi confundida com mera imaturidade ou contestação vazia. No cinema, essa necessidade de crueza e urgência encontrou paralelo perfeito com a entrega dos jovens daquela época, uma mistura explosiva de audácia e coragem para desafiar sistemas corrompidos. 

O filme acompanha a trajetória de dois irmãos de classe média alta que aproveitam o verão em uma estância balnear. Natsuhisa, o mais velho, esbanja autoconfiança e experiência com as mulheres; já Haruji, o caçula, carrega uma timidez crônica diante do sexo oposto. A dinâmica pacata e tediosa desse grupo de jovens ricos sofre uma ruptura quando ambos se apaixonam pela mesma mulher, Eri, uma figura misteriosa que o irmão mais novo conhece ao desembarcar na estação de trem. À medida que o enredo avança, descobre-se que a jovem esconde segredos densos, incluindo um casamento com um estrangeiro mais velho, transformando o conflito fraterno em um triângulo amoroso obsessivo e destrutivo.

A construção da personagem feminina representa uma verdadeira revolução para os padrões da cinematografia japonesa da época, historicamente pautada por figuras femininas frágeis e submissas. Eri surge como uma femme fatale de filme noir, uma mulher dotada de uma liberdade incomum que usa a beleza e a aparente fragilidade como isca para manipular e devorar os homens ao seu redor. Nakahira explora o erotismo e o toque corporal com uma audácia impressionante para o ano de 1956, inundando a tela com uma efervescência juvenil focada na busca incessante pelo prazer individual, onde o sentimento amoroso é relegado a um plano secundário.

O longa-metragem escancara a massiva influência dos Estados Unidos no Japão pós-guerra, visível tanto nos figurinos inspirados na moda norte-americana quanto na trilha sonora dominada pelo ritmo das big bands ocidentais. Contudo, essa dominação cultural é ironizada pelo diretor em momentos cirúrgicos, como nas piadas direcionadas ao rapaz que passou uma temporada em solo americano ou na própria escolha de colocar um estrangeiro no papel de marido traído. Em termos técnicos, a produção abraça a cartilha de Hollywood com maestria: a narrativa possui um ritmo frenético, construída com cortes rápidos, planos curtos, variações constantes de tomada e um desenho de som ativo que impede qualquer ameaça de monotonia.

A relevância estética de "Paixão Juvenil" é tamanha que a produção serviu de inspiração direta para os realizadores da Nouvelle Vague francesa, como François Truffaut. O enredo, que remete aos conflitos passionais de "Jules e Jim", caminha para um desfecho violento e febril, comparável ao terceiro ato das tragédias de Tennessee Williams, em que as emoções reprimidas transbordam e provocam a ruína completa dos personagens. Trata-se de um registro temporal audacioso e atemporal, cuja contextualização histórica apenas amplia o prazer de testemunhar o nascimento de uma nova linguagem cinematográfica.


Ficha técnica
“Paixão Juvenil” | "Kurutta kajitsu" (título original) | "Fruto de Paixão" (título em Portugal)
Gênero: drama, cult. Duração: 1h 26min (86 minutos). Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1956. Idioma: japonês e inglês. Direção: Kô Nakahira. Roteiro: Shintaro Ishihara. Elenco: Yûjirô Ishihara (Takishima Natsuhisa), Masahiko Tsugawa (Takishima Haruji), Mie Kitahara (Eri), Harold Conway (Marido de Eri), Taizô Fukami (Pai), Masumi Okada, Eiko Higashiya, Atsuko Akashi, Yoko Benisawa, Ayuko Fujishiro, Keiko Hara, Shigeo Hayashi, Eiko Higashitani, Hiroshi Kondo. Distribuição no Brasil: sem distribuidor oficial nos cinemas (lançado diretamente em festivais e mídia física de colecionador). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: "Kokuho" desafia o cinema ao tentar filmar a alma do kabuki


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O cinema contemporâneo raramente se atreve a flertar com a grandiosidade dos épicos que exigem tempo, fôlego e entrega absoluta. Sob a assinatura do cineasta Lee Sang-il, "Kokuho - O Preço da Perfeição", que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision, é uma dessas raras e monumentais exceções. O longa-metragem consegue a proeza de transportar o espectador para o coração pulsante do teatro kabuki, mapeando cinquenta anos de história com uma força dramática que evoca os grandes clássicos do cinema asiático. 

A produção desembarcou nas telas brasileiras precedida por uma trajetória robusta no circuito internacional, que incluiu uma première mundial na prestigiosa Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes, além de passagens celebradas pelos festivais de Toronto e Busan. Fenômeno comercial histórico em seu país de origem, a obra arrastou mais de 12 milhões de espectadores aos cinemas, tornando-se o live-action de maior bilheteria da história do Japão.

A narrativa, estruturada a partir do roteiro preciso de Satoko Okudera, adapta o celebrado romance em dois volumes de Shûichi Yoshida, lançado em 2018. A trama acompanha a saga de Kikuo Tachibana, jovem que carrega o estigma de ter nascido em uma família ligada à yakuza. Após o brutal assassinato de seu pai, o destino do garoto de 14 anos sofre uma guinada radical quando ele acaba acolhido pelo lendário mestre do kabuki, Hanai Hanjiro II, papel defendido com a habitual crueza e generosidade paternal de Ken Watanabe. Nos bastidores da tradicional dinastia artística de Kamigata, Kikuo passa a dividir os dias com Shunsuke Ogaki, o herdeiro legítimo do clã. Juntos, os dois garotos mergulham em um universo onde a busca pela excelência artística exige a renúncia de qualquer vestígio de normalidade cotidiana, iniciando uma jornada que flutua constantemente entre a irmandade mútua e uma rivalidade silenciosa e devastadora.

O núcleo dramático gira em torno da obsessão dos protagonistas em alcançar o título de Kokuho - a honraria máxima de "Tesouro Nacional Vivo", concedida pelo governo japonês aos grandes mestres da arte tradicional. Ambos dedicam-se à complexa especialidade do onnagata, os atores que assumiram os papéis femininos na cena teatral desde que o xogunato baniu as mulheres dos palcos no Período Edo por questões morais. A dinâmica entre os dois adultos, interpretados com assombrosa entrega por Ryo Yoshizawa e Ryusei Yokohama, expõe um embate clássico: de um lado, o talento bruto e instintivo de um órfão marginalizado; de outro, o peso esmagador da hereditariedade e a cobrança pelo sangue azul de uma linhagem artística. O diretor conduz esse emaranhado de orgulho e dor sem pressa, permitindo que o tempo dilate o sacrifício físico e emocional dos personagens.

A obsessão do filme pela autenticidade transborda em cada plano trabalhado pelo diretor de fotografia Sofian El Fani. Para conferir o realismo necessário aos bastidores e camarins, o autor do livro original, Shuichi Yoshida, passou três anos infiltrado como um Kurogo - o assistente de palco que se veste inteiramente de preto para se tornar "invisível" aos olhos do público. Essa vivência íntima reverbera na tela na meticulosa preparação dos atores. 

O protagonista Ryo Yoshizawa submeteu-se a um intenso e rigoroso treinamento de 18 meses com profissionais do kabuki para dominar a precisão cirúrgica de cada gesto, postura e olhar. Não por acaso, a produção garantiu uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Maquiagem e Cabelo, honrando a deslumbrante transformação dos intérpretes na alvura impecável das maquiagens tradicionais, contrapondo-se ao universo rústico e melancólico da masculinidade tóxica que rege a vida fora dos palcos.

A trilha sonora sublime de Marihiko Hara, pontuada por canções interpretadas por Miu Sakamoto e Iguchi Osamu, eleva a voltagem dramática da produção, especialmente nas sequências em que a câmera rompe a barreira do "teatro filmado" para rodopiar de forma imersiva ao redor dos corpos em cena. Embora a montagem execute saltos temporais bruscos que por vezes sacrificam o desenvolvimento das personagens femininas - como a matriarca interpretada por Shinobu Terajima -, a obra compensa as arestas com uma força visual avassaladora. "Kokuho – O Preço da Perfeição" se consolida como um registro sofisticado sobre uma manifestação cultural tricentenária que tenta sobreviver ao avanço da modernidade no Japão pós-guerra, expondo sem filtros as cicatrizes incuráveis de quem decide vender a própria alma em troca do vislumbre eterno da divindade artística.


Ficha técnica
“Kokuho  O Preço da Perfeição” | “Kokuhō” (título original)
Gênero: drama. Duração: 175 minutos (2h55m). Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: japonês. Direção: Lee Sang-il. Roteiro: Satoko Okudera (baseado no romance de Shûichi Yoshida). Elenco: Ryo Yoshizawa, Ryusei Yokohama, Sōya Kurokawa, Keitatsu Koshiyama, Ken Watanabe, Mitsuki Takahata, Shinobu Terajima, Nana Mori, Ai Mikami, Kumi Takiuchi, Masatoshi Nagase, Emma Miyazawa, Takahiro Miura, Kyusaku Shimada, Tateto Serizawa, Nakamura Ganjirō IV, Min Tanaka. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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A equipe do Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. 
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quinta-feira, 4 de junho de 2026

.: A poética do asfalto de Steve Martin ganha as telas em "L.A. Story"


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Há cidades que não passam de cenários, mas Los Angeles, no olhar afiado de Steve Martin, é uma piada pronta que insiste em se levar a sério. Sob a direção do britânico Mick Jackson, o comediante de cabelos brancos concebeu uma crônica ácida, porém estranhamente terna, sobre a capital mundial das aparências. Longe de ser apenas mais uma comédia romântica desmiolada para preencher as tardes de domingo, o longa-metragem "L.A. Story", que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, é uma sátira sofisticada que bebe diretamente na fonte do neorrealismo italiano e no teatro clássico inglês, oferecendo um espelho deformado e cirúrgico do modo de vida californiano. A poética do asfalto, que afirma que "o sol brilha para todos", é destrinchada neste filme.

A trama acompanha as desventuras de Harris K. Telemacher, um homem que carrega o fardo de um doutorado em artes e humanidades, mas ganha a vida como o "meteorologista maluco" de um telejornal local. Em uma cidade onde o clima se resume a um eterno e imutável ensolarado, a função de Harris é a própria definição da inutilidade elegante. Ele patina por galerias de arte destilando resenhas excêntricas e recita Shakespeare em esquinas movimentadas, tateando qualquer resquício de significado em meio a um oceano de futilidades. A vida do protagonista entra em parafuso quando ele descobre que sua namorada ambiciosa o trai há três anos com seu próprio agente, e que uma previsão errada de temporal acabou por afundar o iate de seu chefe, custando-lhe o emprego.

O ponto de virada surge na solidão da rodovia, quando o carro de Harris quebra e um painel eletrônico de sinalização de trânsito começa a piscar mensagens enigmáticas, direcionadas exclusivamente a ele. Essa entidade mecânica e conselheira passa a guiar seus passos românticos em direção a Sara, uma jornalista londrina que desconfia do estilo de vida local, mas que se vê presa ao desejo de reconciliação de seu ex-marido. Para complicar o quadrante amoroso, Harris se envolve com SanDeE*, uma jovem e desinibida aspirante a modelo cuja maior profundidade intelectual reside na grafia peculiar de seu próprio nome.

A genialidade do roteiro de Steve Martin está na capacidade de extrair humor da neurose urbana sem descambar para a grosseria. A antológica cena do restaurante "California Cuisine", onde os frequentadores pedem variações milimetricamente pretensiosas de café descafeinado com toques de limão e reagem a um terremoto com a naturalidade de quem espanta uma mosca, resume o espírito da obra. Martin escreveu o texto como uma resposta da Costa Oeste ao clássico "Contos de Nova York", provando que a futilidade de Los Angeles também merecia sua própria poesia. A própria abertura do filme, inclusive, faz uma reverência direta e refinada a "A Doce Vida", clássico de Federico Fellini.

O longa também carrega marcas de bastidores. Martin dividiu o protagonismo com Victoria Tennant, com quem era casado na vida real durante a produção. O elenco de apoio brilha com Sarah Jessica Parker entregando uma atuação inspirada como a bimbette californiana e Patrick Stewart roubando a cena como o maître do pomposo restaurante L'Idiot. Curiosamente, grandes nomes como John Lithgow e Scott Bakula chegaram a rodar participações importantes como um agente de cinema e um vizinho, respectivamente, mas tiveram suas cenas completamente limadas na sala de edição para garantir o ritmo da narrativa - embora referências aos diálogos de Lithgow ainda ecoem na versão final. Outros astros, como Chevy Chase, Woody Harrelson e Rick Moranis, dão as caras em aparições rápidas e não creditadas que divertem o espectador atento.

A embalagem sonora do filme ganha um tom místico com a presença da música de Enya, criando o contraponto perfeito para as bizarrices visuais e as perseguições nas autoestradas. Para os cinéfilos detalhistas, uma curiosidade de bastidor une esta produção a clássicos posteriores: a placa de carro "2GAT123", utilizada no veículo de Harris, tornou-se um dos maiores easter eggs de Hollywood, reaparecendo anos depois em produções de peso como "Traffic", "Cidade dos Sonhos" e "A Corrente do Bem". Entre o deboche e o lirismo, o filme sobrevive ao tempo como um registro afetuoso de uma cidade que insiste em inventar sua própria realidade.


Ficha técnica
"Loucuras em Los Angeles" | "L.A. Story" (título original) | "Viver e Amar em Los Angeles" (título em Portugal)
Gênero: comédia, romance, fantasia. Duração: 98 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: inglês. Direção: Mick Jackson. Roteiro: Steve Martin. Elenco: Steve Martin, Victoria Tennant, Richard E. Grant, Marilu Henner, Sarah Jessica Parker, Susan Forristal, Kevin Pollak, Patrick Stewart. Distribuição no Brasil: Tri-Star Pictures / Columbia TriStar Home Video. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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quarta-feira, 3 de junho de 2026

.: "Delicatessen" é banquete surrealista de Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O cinema francês sempre carregou a fama de flertar com o existencialismo e a filosofia profunda, muitas vezes esquecendo o poder do puro absurdo. Quando estreou nos cinemas franceses, em abril de 1991, "Delicatessen", que agora volta em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, implodiu essa solenidade europeia com a precisão de um cutelo bem afiado. Dirigido pela dupla estreante Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro, o longa-metragem injetou um humor revigorante e uma estética visual arrebatadora no cenário internacional, conquistando rapidamente o status de cult definitivo. 

Sob a assinatura estética inspirada na fotografia monocromática de Brassaï e no lirismo caótico de Terry Gilliam - que inclusive apadrinhou o lançamento da obra na América do Norte -, o filme transforma a escassez absoluta em uma experiência cinematográfica de fartura sensorial. A trama se estabelece em um edifício dilapidado, imerso em uma França pós-apocalíptica de tons amarelados e cinzentos, onde a comida se tornou o bem mais precioso e os grãos de cereais funcionam como moeda de troca oficial. 

No térreo desse microcosmo social, opera um açougue comandado por Clapet, um senhorio brutal interpretado com maestria sádica por Jean-Claude Dreyfus. Para manter o negócio abastecido e os inquilinos devidamente alimentados, Clapet adota uma estratégia de recrutamento peculiar: publica anúncios de emprego para atrair trabalhadores desavisados, que logo se transformam na matéria-prima das iguarias vendidas no balcão. O equilíbrio dessa engrenagem macabra é colocado à prova quando Louison, um ex-palhaço de circo desempregado vivido pelo expressivo Dominique Pinon, aceita a vaga de zelador e desperta o afeto de Julie, a doce filha do açougueiro, interpretada por Marie-Laure Dougnac.

Os bastidores da produção revelam que o cerne desta sátira canibal nasceu de vivências bastante cotidianas e curiosas do próprio Jean-Pierre Jeunet. Em 1988, durante as férias nos Estados Unidos, o cineasta se deparou com uma culinária de hotel tão insossa e peculiar que brincou com a ideia de que os pratos seriam feitos de carne humana. O estalo definitivo, contudo, ocorreu quando morava no andar superior de um açougue em Paris; todas as manhãs, por volta das sete horas, o som rítmico do cutelo batendo contra o balcão ecoava em seu quarto, inspirando a criação do ritmado e claustrofóbico universo do prédio. 

Toda essa bagagem cultural e o amor por referências que vão da melancolia fotográfica de Robert Doisneau às peripécias físicas de Buster Keaton e Tex Avery foram condensados em sequências antológicas, como a sinfonia cômica que une o ranger das molas de uma cama a uma colagem de sons cotidianos do edifício. Embora uma parcela da crítica norte-americana da época tenha demonstrado certa resistência ao clímax cataclísmico e molhado do terceiro ato, o consenso crítico foi amplamente favorável, rendendo ao filme uma aceitação duradoura de 90% no agregador Rotten Tomatoes.

Para além do entretenimento excêntrico, analistas contemporâneos enxergam na obra uma alegoria ácida sobre o movimento de resistência na Europa ocupada e as dinâmicas de sobrevivência social. A consagração na temporada de premiações confirmou o talento da dupla de realizadores: "Delicatessen" arrebatou quatro prêmios César - incluindo Melhor Estreia e Melhor Roteiro Original, escrito em parceria com Gilles Adrien -, além do prêmio de Melhor Direção no Festival de Sitges e o prestigiado Prêmio de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Tóquio. É uma iguaria cinematográfica indispensável que abriu as portas do mundo para que Jeunet, dez anos mais tarde, fizesse história com o solar "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain".


Ficha técnica
“Delicatessen”
Gênero: comédia, ficção científica, fantasia. Duração: 99 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: francês. Direção: Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro. Roteiro: Gilles Adrien, Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro. Elenco: Dominique Pinon, Marie-Laure Dougnac, Jean-Claude Dreyfus, Karin Viard, Ticky Holgado, Rufus, Howard Vernon, Chick Ortega. Distribuição no Brasil: Flashstar Home Video / Continental Home Vídeo (lançamentos históricos em home video). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.


.: MIS SP promove curso “100 Anos de Marilyn Monroe”


Andy Warhol. Marilyn Monroe. 1967

O Museu da Imagem e do Som de São Paulo abre as portas para uma imersão profunda na trajetória da maior lenda de Hollywood. Celebrando o centenário de nascimento da atriz e cantora estadunidense, nascida em 1º de junho de 1926, o curso presencial “100 Anos de Marilyn Monroe” propõe um debate essencial sobre o verdadeiro legado de Marilyn Monroe, subvertendo o rótulo de mero símbolo estético para focar na genialidade técnica da atriz e no impacto cultural que ela consolidou ao longo do século 20. 

Uma das grandes curiosidades que cercam a carreira da estrela, frequentemente debatida por pesquisadores e pela imprensa especializada, é o controle rigoroso que ela tentava exercer sobre a própria narrativa artística, chegando a fundar a sua própria produtora para fugir dos papéis estereotipados que os grandes estúdios tentavam lhe impor. O programa educativo foi estruturado para analisar essa evolução passo a passo. As aulas mergulham na filmografia de Marilyn desde a sua estreia em papéis de destaque, como no musical “Mentira Salvadora” (1948), passando pelo prestigiado clássico policial “O Segredo das Joias” (1950), dirigido por John Huston, até alcançar o crepúsculo de sua carreira no denso “Os Desajustados” (1961), longa roteirizado por seu então marido, o dramaturgo Arthur Miller. 

Além do cinema, as aulas investigam o trabalho dos fotógrafos responsáveis por imortalizar a sua imagem, como Bert Stern e Allan Grant, e a força de sua iconografia na pop art de Andy Warhol e na música pop contemporânea, explicitada no videoclipe “Material Girl”, em que Madonna recria a famosa cena de “Os Homens Preferem as Loiras” (1953). A investigação acadêmica também joga luz sobre a obsessão contemporânea em decifrar a vida privada da artista por meio de produções biográficas. 

O curso analisa criticamente obras recentes e consagradas, como o drama “Sete Dias com Marilyn” (2011), de Simon Curtis, a controversa cinebiografia “Blonde” (2022), de Andrew Dominik, e o documentário "O Mistério de Marilyn Monroe: Gravações Inéditas" (2022), dirigido por Emma Cooper. Os encontros presenciais acontecem nos dias 2, 9, 11 e 16 de junho, sempre às terças e quintas-feiras, das 19h00 às 21h30. O investimento é de R$ 200, e as inscrições podem ser feitas diretamente no site oficial do MIS.

Marilyn Monroe no streaming
A atriz Marilyn Monroe completaria 100 anos no dia 1.° de junho de 2026. Mais de seis décadas depois de sua morte, aos 36 anos, ela continua sendo a figura feminina mais reconhecida da história do cinema. Para celebrar o centenário da atriz, a plataforma Belas Artes À La Carte destaca uma coletânea especial com alguns dos filmes mais importantes da sua carreira: "O Segredo das Joias" (1950), de John Huston; "A Malvada" (1950), de Joseph L. Mankiewicz; "Conflito à Noite" (1952), de Fritz Lang; "Como Agarrar um Milionário" (1953), de Jean Negulesco; "Os Homens Preferem as Loiras" (1953), de Howard Hawks; e "O Pecado Mora ao Lado" (1955), de Billy Wilder. 

É uma boa chance de revisitar uma atriz que, durante muito tempo, acabou reduzida apenas à própria imagem. No fim das contas, Marilyn acabou se tornando tão eterna quanto os diamantes que ostentou em uma de suas performances mais icônicas Antes de virar estrela mundial, ela passou anos tentando conseguir espaço em papéis pequenos e produções em que quase sempre aparecia dentro do mesmo tipo de personagem. Aos poucos, porém, começou a chamar atenção pelo talento para a comédia, pela presença em cena e pelo carisma que tinha diante das câmeras. 

Foi a partir daí que ela passou a trabalhar com alguns dos diretores mais importantes do cinema, como John Huston, Joseph L. Mankiewicz, Fritz Lang, Billy Wilder e Howard Hawks. Com o tempo, vieram personagens mais interessantes e também o reconhecimento da indústria. Em 1960, Marilyn venceu o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Comédia ou Musical por "Quanto Mais Quente Melhor", prêmio que ajudou a reforçar algo que muita gente já via nas telas: ela era uma atriz muito mais versátil do que os estúdios costumavam admitir. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.


Serviço
Curso presencial “100 Anos de Marilyn Monroe” |
R$ 200,00 | 2, 9, 11 e 16 de junho, das 19h00 às 21h30, terças e quintas. Mais informações: https://mis-sp.org.br/evento/100-anos-de-marilyn-monroe/. MIS SP - Avenida Europa, 158 - Jd. Europa - São Paulo. A programação é uma realização do Ministério da Cultura, Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas de São Paulo, e MIS, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, ProAC e Promac. O MIS tem patrocínio institucional da Livelo, Vivo, Goldman Sachs, Ituran e Goodstorage e apoio institucional das empresas Delboni, EAÍ?! Marketing, Unisys, Volkswagen Caminhões e Ônibus, Unipar, Campari, Colégio Albert Sabin, PWC, Telium, Kaspersky, Gabriel e Play Audiovisual.





segunda-feira, 1 de junho de 2026

.: 100 Anos de Marilyn Monroe é destaque no Belas Artes À La Carte


Nesta segunda-feira, dia 1º de junho, a atriz Marilyn Monroe completaria 100 anos. Mais de seis décadas depois de sua morte, aos 36 anos, ela continua sendo a figura feminina mais reconhecida da história do cinema. Para celebrar o centenário da atriz, a plataforma Belas Artes À La Carte destaca uma coletânea especial com alguns dos filmes mais importantes da sua carreira: "O Segredo das Joias" (1950), de John Huston; "A Malvada" (1950), de Joseph L. Mankiewicz; "Conflito à Noite" (1952), de Fritz Lang; "Como Agarrar um Milionário" (1953), de Jean Negulesco; "Os Homens Preferem as Loiras" (1953), de Howard Hawks; e "O Pecado Mora ao Lado" (1955), de Billy Wilder. 

É uma boa chance de revisitar uma atriz que, durante muito tempo, acabou reduzida apenas à própria imagem. No fim das contas, Marilyn acabou se tornando tão eterna quanto os diamantes que ostentou em uma de suas performances mais icônicas Antes de virar estrela mundial, ela passou anos tentando conseguir espaço em papéis pequenos e produções em que quase sempre aparecia dentro do mesmo tipo de personagem. Aos poucos, porém, começou a chamar atenção pelo talento para a comédia, pela presença em cena e pelo carisma que tinha diante das câmeras. 

Foi a partir daí que ela passou a trabalhar com alguns dos diretores mais importantes do cinema, como John Huston, Joseph L. Mankiewicz, Fritz Lang, Billy Wilder e Howard Hawks. Com o tempo, vieram personagens mais interessantes e também o reconhecimento da indústria. Em 1960, Marilyn venceu o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Comédia ou Musical por "Quanto Mais Quente Melhor", prêmio que ajudou a reforçar algo que muita gente já via nas telas: ela era uma atriz muito mais versátil do que os estúdios costumavam admitir.


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quarta-feira, 27 de maio de 2026

.: "Delírio de Loucura" coloca veneno na receita da família perfeita


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O cinema clássico norte-americano sempre encontrou maneiras elegantes de implodir a fachada hipócrita do comercial de margarina que ilustrava o "American Way of Life" na era Eisenhower. Mas poucos diretores ousaram tanto, e de forma tão visceral, quanto Nicholas Ray. Em "Delírio de Loucura", em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carteo cineasta pega a obsessão da classe média suburbana pelo sucesso e pela estabilidade e a injeta com uma dose cavalar de cortisona, transformando o sonho americano em um autêntico filme de terror doméstico.

Baseado no artigo jornalístico "Ten Feet Tall", publicado por Berton Roueché na revista The New Yorker em 1955, o roteiro de Cyril Hume e Richard Maibaum (com colaboração não-creditada do mestre do teatro Clifford Odets) acompanha o drama de Ed Avery. Interpretado com uma intensidade assustadora por James Mason, que também  produziu o longa-metragem, Avery é o epítome do cidadão exemplar: professor primário dedicado que, para fechar as contas do mês e mimar a esposa, trabalha secretamente como despachante de táxi. Quando crises terríveis revelam uma poliarterite nodosa, uma rara e letal inflamação das artérias, a medicina lhe oferece a salvação através de um hormônio experimental. O milagre da cura, contudo, cobra um preço alto demais quando o protagonista passa a abusar das doses e mergulha em uma psicose megalomaníaca.

O que se segue é uma das descrições mais perturbadoras da masculinidade tóxica e do totalitarismo familiar já registradas pelo CinemaScope. Ray sabota os espaços claustrofóbicos da residência dos Avery utilizando as cores e as lentes largas, geralmente reservadas para grandes faroestes, para sufocar o espectador. James Mason entrega uma atuação cirúrgica, transitando do pai amoroso ao tirano bíblico que evoca o sacrifício de Isaac para justificar um plano de homicídio seguido de suicídio. Ao seu lado, Barbara Rush brilha no papel da esposa impotente diante da heresia médica, e Walter Matthau, ainda longe de seus papéis cômicos consagrados, entrega uma performance sóbria como o amigo e a voz da razão que tenta conter a tragédia.

Curiosamente, os bastidores de "Delírio de Loucura" guardam uma pérola da Hollywood clássica. Marilyn Monroe, grande amiga de Nicholas Ray, estava filmando "Nunca Fui Santa" no estúdio vizinho e chegou a gravar uma participação especialíssima como enfermeira. Infelizmente para os cinéfilos, a cena foi totalmente cortada na sala de montagem devido a entraves contratuais rígidos entre a estrela e a Fox.

O filme também enfrentou forte resistência da indústria farmacêutica. Gigantes como a Merck, nos Estados Unidos, e a Glaxo, no Reino Unido, manifestaram séria preocupação de que a fúria psicótica de Ed Avery gerasse pânico na população e boicote ao uso legítimo da cortisona. O temor corporativo, aliado à rejeição do público americano da época, que considerou a obra sombria e melodramática demais, resultou em um retumbante fracasso de bilheteria. O crítico Bosley Crowther, do The New York Times, chegou a rotular o filme como "tedioso".

O tempo, no entanto, é o senhor da razão e o melhor curador da arte. Foram os críticos franceses da Cahiers du Cinéma os primeiros a resgatar o valor da obra. François Truffaut teceu loas à precisão de Mason e à beleza visual da produção, enquanto Jean-Luc Godard colocou o longa na seleta lista dos dez melhores filmes sonoros americanos da história. Décadas mais tarde, a crítica contemporânea reconhece "Delírio de Loucura" não apenas como um alerta médico, mas como uma brilhante e atemporal acusação contra o conformismo, a pressão econômica sobre os professores e as rachaduras ocultas na estrutura da família tradicional. Uma obra-prima violenta, lírica e desesperada que ecoa até os dias de hoje.


Ficha Técnica:
“Delírio de Loucura” | "Bigger Than Life" (título original) | "Atrás do Espelho" (título em Portugal)
Gênero: drama / melodrama / drama psicológico. Duração: 95 minutos (1h 35min). Classificação indicativa: 14 anos (Recomendado/Approved na época). Ano de produção: 1956. Idioma: inglês. Direção: Nicholas Ray. Roteiro: Cyril Hume e Richard Maibaum (baseado no artigo "Ten Feet Tall" de Berton Roueché). Elenco: James Mason, Barbara Rush, Walter Matthau, Christopher Olsen, Robert F. Simon, Roland Winters, Rusty Lane. Distribuição no Brasil: 20th Century Fox (20th Century Studios). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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terça-feira, 26 de maio de 2026

.: Porque "Todas as Manhãs do Mundo" desbancou Michael Jackson e Madonna


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

A reconstituição histórica no cinema frequentemente se perde em excessos visuais, mas há obras que abraçam a grandiosidade no recolhimento e na precisão. É esse o triunfo que o público testemunha com a estreia de "Todas as Manhãs do Mundo" na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, uma obra-prima de 1991 dirigida por Alain Corneau. É um drama de época refinado, focado na música, na perda e na complexa transmissão de conhecimento entre duas gerações de artistas no século XVII, sob o reinado de Luís XIV.

O roteiro, escrito a quatro mãos pelo próprio diretor e pelo autor Pascal Quignard - adaptando o romance homônimo lançado no mesmo ano -, acompanha a trajetória do renomado músico Marin Marais. Na maturidade, o personagem é interpretado com o vigor habitual de Gérard Depardieu, que acumula a função de narrador da própria juventude. Filho do ator na vida real, Guillaume Depardieu, assume o papel do jovem Marais com uma entrega impressionante. 

O centro da narrativa está na busca do rapaz pelo aprendizado com o recluso e jansenista Monsieur de Sainte-Colombe, vivido magistralmente por Jean-Pierre Marielle, um mestre que se isolou do mundo e da corte após a morte da esposa para se dedicar apenas às filhas e à arte. O elenco principal se completa com Anne Brochet na pele de Madeleine, a filha mais velha do tutor, que se apaixona por Marais. Curiosamente, a crítica internacional destacou na época que esta foi a segunda vez consecutiva que Brochet e Gérard Depardieu viveram um par romântico nas telas, repetindo a química já testada no aclamado "Cyrano de Bergerac".

Além das intrigas amorosas e as desilusões que culminam em tragédia, o verdadeiro coração do longa-metragem reside na música barroca, executada na emblemática viola da gamba pelas mãos virtuosas de Jordi Savall. A trilha sonora não apenas dita o tom melancólico e poético da produção, mas também estabeleceu um fenômeno comercial sem precedentes no mercado fonográfico global. Em uma das maiores surpresas da indústria cultural da década de 1990, o álbum com as composições barrocas do filme superou as vendas de "Dangerous", de Michael Jackson, na França, e ultrapassou os números da popstar Madonna, que lançava o álbum "Erotica". Um feito histórico para a música erudita.

A consagração do filme não se limitou ao sucesso comercial da trilha sonora. "Todas as Manhãs do Mundo" foi o grande vencedor da 17ª edição do Prêmio César em 1992, faturando sete estatuetas, incluindo as de Melhor Filme, Melhor Diretor para Alain Corneau, Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Brochet e Melhor Música para Jordi Savall. Além disso, o diretor conquistou o prestigiado Urso de Prata no Festival Internacional de Cinema de Berlim e a obra garantiu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 1993. O título poético faz referência a uma das falas mais dolorosas de Marais ao constatar a finitude da vida e o peso dos erros passados: todas as manhãs do mundo nunca mais voltam. É um cinema rigoroso, esteticamente impecável e que merece ser absorvido por quem o assiste.


Ficha técnica
“Todas as Manhãs do Mundo” | “Tous les Matins du Monde” (título original)
Gênero: drama. Duração: 115 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: francês. Direção: Alain Corneau. Roteiro: Pascal Quignard e Alain Corneau. Elenco: Jean-Pierre Marielle, Gérard Depardieu, Anne Brochet, Guillaume Depardieu, Carole Richert, Michel Bouquet, Jean-Claude Dreyfus, Yves Gasc, Yves Lambrecht, Jean-Marie Poirier e Myriam Boyer.
Distribuição no Brasil: BAC Films. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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segunda-feira, 25 de maio de 2026

.: Filme expõe bastidores de descoberta que sacodiu o mercado de arte


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O documentário “O Caravaggio Perdido” chega à plataforma de streaming Belas Artes À La Carte  transformando uma história real do mercado de arte em narrativa de suspense, conduzida com rigor documental e ritmo de thriller. Dirigido por Álvaro Longoria, o filme acompanha, em tempo quase real, a redescoberta de uma pintura atribuída ao mestre barroco Michelangelo Merisi da Caravaggio, encontrada por acaso em um apartamento em Madri. O que parecia uma peça sem grande valor, prestes a ser leiloada por 1.500 euros, revela-se um possível tesouro artístico avaliado em dezenas de milhões, desencadeando uma corrida internacional entre especialistas, colecionadores e marchands.

Longoria, que também assina o roteiro, constrói o documentário a partir de acesso privilegiado aos bastidores dessa disputa. Ao longo de três anos e meio de filmagens, a câmera dele registra negociações sigilosas, tensões acadêmicas e interesses financeiros que orbitam o universo da arte. Participam desse jogo figuras como Maria Cristina Terzaghi, Jorge Coll e Filippo Benappi, que aparecem como personagens centrais de uma engrenagem movida por prestígio, dinheiro e obsessão. O diretor transforma mais de uma centena de horas de material bruto em uma montagem dinâmica, marcada por reviravoltas que, segundo ele próprio, alteravam continuamente o rumo da narrativa.

A obra em questão, o “Ecce Homo”, remonta ao início do século XVII, período em que Caravaggio vivia sob a sombra de acusações criminais e produzia algumas de suas telas mais intensas. O documentário resgata esse contexto histórico enquanto acompanha o processo de autenticação da pintura, colocando em evidência a fragilidade e a velocidade com que o mercado valida ou contesta atribuições dessa magnitude. A fotografia aposta em contrastes de luz e sombra que dialogam diretamente com o estilo do pintor italiano, enquanto a trilha sonora acentua o clima de tensão crescente.

Além de reconstituir a trajetória de uma obra, “O Caravaggio Perdido” expõe um sistema pouco transparente, em que interesses culturais e comerciais se entrelaçam. A pintura, hoje restaurada e reconhecida como autêntica, foi adquirida por cerca de 30 milhões de euros e encontra-se atualmente no Museu do Prado, em Madri. O desfecho reforça a percepção de que, no universo da arte, a descoberta de um “sleeper” pode reconfigurar fortunas e narrativas históricas em questão de dias.

Com indicação ao Prêmio Goya de Melhor Documentário, o filme confirma a habilidade de Longoria em capturar o inesperado e transformá-lo em cinema. Ao acompanhar uma história em constante mutação, o diretor oferece ao espectador uma reflexão sobre o valor simbólico e financeiro da arte em um mundo movido por cifras e consagrações tardias.


Ficha técnica
“O Caravaggio Perdido” | “The Sleeper” (título original) | “The Sleeper - O Caravaggio Perdido” (título em Portugal)
Gênero: documentário, suspense. Duração: 78 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: espanhol e italiano. Direção e roteiro: Álvaro Longoria. Elenco: Maria Cristina Terzaghi, Jorge Coll, Filippo Benappi. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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terça-feira, 19 de maio de 2026

.: Filme de encerramento em Veneza, “O Jardim Americano” aposta no suspense


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

“O Jardim Americano” chega à plataforma de streaming Belas Artes À La Carte  como mais um capítulo da longa e inquieta trajetória do cineasta italiano Pupi Avati que, aos quase 90 anos, insiste em revisitar fantasmas, sejam eles pessoais, estéticos e narrativos. Exibido como filme de encerramento do 81º Festival de Veneza, em setembro de 2024, o longa-metragem reafirma o fôlego de um autor que atravessa décadas sem abdicar das próprias obsessões: a memória, o desejo e aquilo que escapa à lógica.

Baseado em romance homônimo escrito pelo próprio Avati, o filme tem roteiro assinado por ele em parceria com o filho, Tommaso Avati, o que reforça o caráter íntimo e autoral do projeto. A trama acompanha um jovem escritor - interpretado por Filippo Scotti - que, entre lembranças fragmentadas e projeções quase delirantes, se vê atravessado por uma paixão súbita e por um desaparecimento que conecta Itália e Estados Unidos. O que começa como uma história de amor à primeira vista logo se converte em uma investigação sinuosa, marcada pelo silêncio, pela ausência e por uma crescente sensação de deslocamento.

A narrativa se ancora em um tempo difuso, que transita entre o passado da guerra e um presente igualmente instável, enquanto o protagonista tenta reconstruir os rastros de uma enfermeira americana por quem se apaixonou. Ao chegar aos Estados Unidos, ele encontra não apenas o vazio deixado por essa mulher, mas também um cenário que desmente as próprias expectativas: um interior americano árido, distante do imaginário idealizado. Esse estranhamento funciona como motor dramático para o retorno à Itália e para o mergulho em uma trama que envolve crimes, julgamentos e figuras ambíguas.

Se o roteiro aposta em digressões e nem sempre sustenta a tensão prometida, a força do filme está em na atmosfera dele. A fotografia em preto e branco de alto contraste, assinada por Cesare Bastelli, confere à obra um verniz gótico que remete aos trabalhos mais sombrios de Avati, especialmente aqueles que dialogam com o suspense psicológico e o horror. A direção de arte acompanha essa proposta, criando imagens que parecem suspensas entre o sonho e a decomposição, como se cada cenário carregasse o peso de uma lembrança mal resolvida.

Conhecido por pela versatilidade, Avati revisita um território inquietante. Há um esforço evidente em explorar a mente do protagonista, recorrendo a imagens oníricas e a uma narrativa que flerta com o surreal. No centro dessa engrenagem está Filippo Scotti, que sustenta o filme com uma atuação sensível e contida. O ator, já conhecido por “A Mão de Deus”, encontra no filme um papel que exige presença constante. Ao seu redor, nomes como Rita Tushingham, Roberto De Francesco e Chiara Caselli compõem um elenco que reforça o caráter melancólico da obra.


Ficha técnica
“O Jardim Americano” | “L’orto Americano” (título original) 
Gênero: romance, mistério. Duração: 107 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2024. Idioma: Italiano e inglês. Direção: Pupi Avati. Roteiro: Pupi Avati, Tommaso Avati. Elenco: Filippo Scotti, Roberto De Francesco, Rita Tushingham, Armando De Ceccon, Chiara Caselli.Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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segunda-feira, 18 de maio de 2026

.: Clássico, "Trapézio" transforma o amor em risco mortal no alto do picadeiro


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, o drama “Trapézio” é um clássico de apelo popular que equilibra espetáculo e melodrama sob o risco constante da queda. Dirigido por Carol Reed, cineasta consagrado por “O Terceiro Homem”, o longa-metragem é baseado no romance “The Killing Frost”, de Max Catto, com roteiro assinado por James R. Webb e adaptação de Liam O’Brien. No centro da narrativa, Burt Lancaster interpreta Mike Ribble, um trapezista marcado por um acidente que interrompeu sua carreira no auge. A entrada de Tino Orsini (Tony Curtis), jovem ambicioso disposto a aprender o perigoso triplo mortal, reativa não só o talento, mas também as feridas do veterano. A equação se complica com a chegada de Lola (Gina Lollobrigida).

No romance original, as relações entre os personagens sugerem camadas de desejo e conflito que o cinema dos anos 1950 não poderia explicitar. O filme suaviza essas tensões, mas não as elimina por completo. Elas permanecem ali, insinuadas, como um movimento interrompido no ar. O filme se ancora em uma estrutura aparentemente simples - o triângulo amoroso - para tensionar temas mais espinhosos, como ambição, vaidade e traição. Para além da superfície romântica, há uma disputa silenciosa por protagonismo, reconhecimento e sobrevivência em um ambiente onde o erro custa caro. 

A produção foi filmada majoritariamente no Cirque d’Hiver, em Paris, o que confere autenticidade às sequências circenses. Lancaster, que antes da carreira no cinema havia sido acrobata, realizou boa parte das próprias cenas, insistência que resultou, inclusive, em uma lesão nas costas durante as filmagens, atrasando a produção. Ainda assim, o ator manteve-se envolvido nas sequências mais exigentes, reforçando a dimensão quase obsessiva de seu personagem.

Visualmente, “Trapézio” explora o contraste entre o brilho do espetáculo e a precariedade dos bastidores. A fotografia de Robert Krasker - colaborador de Reed em “O Terceiro Homem” - aposta em enquadramentos vertiginosos que simulam a perspectiva do próprio trapezista: olhar para baixo nunca foi tão desconfortável. O uso do Technicolor intensifica esse jogo entre fascínio e perigo, transformando o picadeiro em palco de ilusões e conflitos.

Recebido com entusiasmo pelo público da época, o filme figurou entre as maiores bilheterias de 1956 nos Estados Unidos e teve desempenho expressivo também no Reino Unido. A crítica, por outro lado, dividiu-se. Enquanto vozes como a da revista The New Yorker destacaram a energia da direção e o magnetismo de Lancaster e Lollobrigida, o The New York Times, em texto de Bosley Crowther, considerou a trama previsível e os diálogos pouco inspirados. 


Ficha técnica
“Trapézio” | "Trapeze" (título original) 
Gênero: drama, romance. Duração: 1h45. Classificação indicativa: livre (à época, equivalente ao selo Approved). Ano de produção: 1956. Idioma: inglês, italiano. Direção: Carol Reed. Roteiro: James R. Webb, Liam O’Brien (baseado em obra de Max Catto). Elenco: Burt Lancaster, Tony Curtis, Gina Lollobrigida, Katy Jurado, Thomas Gomez. Distribuição no Brasil: não especificada. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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