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sábado, 22 de junho de 2024

.: Música Popular Brasileira em festa: Chico Buarque - 80 anos na "Roda Viva"


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Alguns nomes da MPB seguem como unanimidade junto ao público. Um deles com certeza é Chico Buarque, que completou 80 anos no dia 19 e continua sendo um dos mais cultuados compositores de nosso cancioneiro. Suas canções clássicas permanecem sempre atuais, ainda que tenham sido elaboradas em outras épocas.

Carioca de nascimento e torcedor fanático do Fluminense, Chico Buarque praticamente surgiu para a nossa mídia em 1966, quando disputou o festival da canção da TV Record com a canção "A Banda", acompanhado pela cantora Nara Leão. Dividiu o título desse festival com a canção "Disparada", de Geraldo Vandré e Theo de Barros, que foi interpretada por Jair Rodrigues.

Os anos seguintes ainda teriam Chico em festivais, com as canções "Roda Viva" (em 1967) e "Sabiá" em 1968, esta segunda em uma polêmica decisão dos jurados e com a insatisfação do público presente no evento, que preferia a canção de Geraldo Vandré, "Prá Não Dizer que Não Falei das Flores".

Chico Buarque foi sempre uma voz crítica contra a censura imposta durante o período do governo comandado pelos militares. E de uma forma magistral, sempre driblava a censura, criando até um pseudônimo de Julinho da Adelaide, que assinou apenas três canções: "Acorda Amor", "Milagre Brasileiro" e "Jorge Maravilha", sendo esta última um recado subliminar ao então presidente da República, Ernesto Geisel, cuja filha era admiradora das canções de Chico Buarque.

Outra característica marcante é a sua capacidade de escrever canções sobre a ótica do mundo feminino. "Com Açúcar e Com Afeto", "Atrás da Porta", "Olhos nos Olhos" são apenas alguns exemplos que evidenciam sua genialidade. Chico também investiu em trilhas de cinema e peças de teatro. Escreveu a célebre "Ópera do Malandro", cuja trilha sonora também é assinada por ele, além de outras peças marcantes como "Gota D´Água", "Calabar" e "O Grande Circo Místico". Na literatura também se destacou ganhando prêmios com seu trabalho nessa área.

Sua extensa discografia tem vários momentos brilhantes. Um dos pontos altos de sua produção é o álbum "Construção", de 1971, aclamado pela crítica como um dos seus melhores trabalhos. Mas podem ser incluídos ainda o disco de 1978 (com "Apesar de Você" e "Cálice") e de 1984 (com "Vai Passar" e "Pelas Tabelas").

Com a abertura democrática a partir de 1979, a obra de Chico Buarque deixou de ter aquele tom mais contestador para assumir um lado mais lírico, mas sempre com conteúdo relevante. Suas produções, ainda que tenham espaçado cada vez mais nas últimas décadas, sempre brindam o público ouvinte com pérolas musicais, sempre muito bem produzidas. Mas o que impressiona é que o tempo parece não passar para Chico Buarque. Até o tempo conspira a favor dele, pois sua obra continua relevante. Vida longa ao grande compositor.

"Quem Te Viu Quem Te Vê"

"Que Tal Um Samba?"

"Tanto Mar"

domingo, 16 de junho de 2024

.: "Telepatia": Flavio Venturini e Ricardo Bacelar fazem parceria em EP


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Fruto da primeira colaboração entre o cantor e compositor Flávio Venturini e o multi-instrumentista, cantor e produtor Ricardo Bacelar, o EP "Telepatia" já está disponível nas plataformas digitais pelo selo Jasmin Music. O trabalho une pela primeira vez os dois talentos de nossa MPB, que mostram um resultado acima da média. 

Gravado no Jasmin Studio, em Fortaleza, o EP traz três canções, de ritmos variados, incluindo a inédita “Samba Saudade”, primeira parceria de Venturini e Bacelar, com a colaboração do letrista Murilo Antunes. A convite de Ricardo Bacelar, Flávio Venturini instalou-se em Fortaleza durante a temporada de criação e gravação do EP. O projeto contou ainda com a participação do guitarrista e produtor Torcuato Mariano, convidado por Venturini para dividir a produção com Ricardo Bacelar.

Além da canção inédita já citada, o EP reúne “Telepatia”, parceria de Venturini e Jorge Vercillo, e “Lareira”, saída do baú de composições do mineiro de Belo Horizonte. O EP conta ainda com Robertinho Marçal na bateria, Hoto Júnior na percussão e Nélio Costa no contrabaixo.

Sobre o processo em estúdio, Ricardo Bacelar detalha: “Nós fizemos tudo juntos. Como somos ambos pianistas e tecladistas, houve muita troca de ideias. Dividimos os vocais nas três músicas, também. Pra mim foi uma satisfação receber o Venturini aqui em Fortaleza”.

Para o ouvinte que curte a MPB, a inédita parceria abre um novo horizonte, enquanto que a dupla Venturini e Bacelar apresentam uma nova perspectiva de produção autoral para o futuro. A fusão dos dois talentos mostrou que a união realmente faz a força.

"Lareira"

"Telepatia"

"Samba Saudade"

domingo, 9 de junho de 2024

.: "Forró de Pai para Filha": mistura de Graziela e Chico Medori é forró na veia


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Dizem que quanto mais o intérprete diversifica seu repertório, mais calejado e confiante ele fica. No caso de Graziela Medori, essa máxima é mais do que válida. Em seu mais recente lançamento, "Forró de Pai para Filha" ela não só explora um dos ritmos mais tradicionais de nosso cancioneiro como ainda traz o pai a tiracolo, tocando bateria, compondo canções e até soltando a voz em alguns momentos.

O disco conta com oito faixas autorais de Chico Medori no melhor estilo forrozeiro. Tem canção que lembra as imagens de festas juninas ("Uma Noite de São João"), enquanto outra brinca com o flerte do início do namoro ("Vem Me Namorar"). Na faixa Mensagem, uma lembrança dos tempos atuais marcados pelas seguidas agressões contra a natureza e a necessidade de entrarmos em uma nova onda de amor na sociedade.

Em "Água pro Nordeste", o músico Antonio Freire, da Banda da Feira, empresta sua voz para lembrar a importância da água para a região seca do Nordeste. A canção é um dos momentos mais emocionantes do disco. A relação de Chico Medori com o ritmo nordestino vem desde a época em que ele tocava com o mestre Dominguinhos. 

As canções prestam tributo ao velho mestre e ao estilo de música que o consagrou.  Além de acompanhar outros nomes da MPB, Medori também fundou o Grupo Medusa nos anos 80 com outros músicos talentosos (Amilson Godoy, Heraldo do Monte e Claudio Bertrami), que tocavam uma música instrumental de qualidade com influência do jazz e da MPB.

Graziela Medori está totalmente a vontade como intérprete cantando o forró. Nada mal para quem já navegou na praia de Rita Lee (na época com o grupo Brazucália), nas pérolas do Clube da Esquina (acompanhada por Alexandre Vianna), na releitura do disco "Transa", de Caetano Veloso e nos discos tributos a Marcos Valle e a sua mãe, a excelente cantora Claudya, que por sinal está em plena atividade e cantando como nunca.

A produção, mixagem, masterização e gravação do Forró de Pai para Filha ficaram a cargo de Alexandre Vianna. Participam os músicos Cosme Vieira (acordeon), Glecio Nascimento (baixo), João Neto (guitarra), Curisco (percussão) e Chico Medori (bateria e produção). E o disco já pode ser ouvido nas plataformas de streaming. Vale a pena a audição

"Noite de São João"

"Vem Me Namorar"


"Água pro Nordeste"

sexta-feira, 31 de maio de 2024

.: Aline Paes em corpo, mar e música, crítica musical de Luiz Gomes Otero


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

A cantora carioca Aline Paes chega ao segundo disco explorando a mística e inspiração em torno da paisagem litorânea. Intitulado "Corpo Mar", o trabalho foi disponibilizado nas plataformas de streaming e sua sonoridade mantém uma forte conexão com ritmos como reggae, xote e o samba

O álbum, que será lançado pelo selo Ala Music, conta com a participação da cantora carioca Marina Iris (Brasil), do cantor angolano Paulo Flores e do compositor cubano Aliesky Perez. A produção musical é assinada pela cantora Aline Paes, pelo percussionista Bernardo Aguiar e pelo guitarrista Diogo Sili. A masterização é do engenheiro de som Alexandre Rabaço e a mixagem foi feita pelo músico Marcos Suzano.

A diversidade de ritmos torna bem interessante a audição das faixas. Uma referência bem próxima de Aline talvez seja Elba Ramalho, que também gosta de explorar ritmos em seu trabalho, sem perder a sua essência nordestina.

Como mostra o título ("Corpo Mar"), Aline busca inspiração em nossa paisagem litorânea e no mar, ou naquilo que ele oferece em magia e beleza natural. E nesse processo de criação, Aline se descobriu como compositora, ampliando mais os seus horizontes na música.

Destaques para a animada faixa "Mana que Emana", com participação do músico angolano Paulo Flores, e na igualmente ótima "Sem Fronteiras", cantada em dueto com a cantora Marina Iris, além de "Mar Aberto", que comprova a força de Aline como compositora.

Sua estreia em disco foi em 2015, com "Batucada Canção" (Biscoito Fino). O trabalho foi destacado como Revelação pela revista Rolling Stone Brasil, além de recolher elogios dos críticos na imprensa.

Como informa o release de divulgação, “a música de Aline Paes é um vasto oceano de influências que aportam no litoral brasileiro, dando voz ao feminino, ao amor, ao sagrado e tudo o mais que permeia a música popular do nosso país”. Na prática, ela mostra que é possível produzir um som popular com qualidade e mensagens positivas.

 "Sem Fronteiras"

"Mar Aberto"


"Um Dia Você Acerta"

sexta-feira, 24 de maio de 2024

.: Entrevista: Dalmo Medeiros, do MPB-4, fala sobre 60 anos de música


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. 

O tão esperado álbum comemorativo de 60 anos de carreira do MPB4 será lançado pela gravadora Biscoito Fino em breve. O primeiro single desse trabalho, foi dedicado ao Quarteto em Cy. A música escolhida do álbum é “Angélica”, gravada originalmente, em 1978, pelo quarteto formado, à época, por Cynara, Cyva, Dorinha e Sônia. Além do mais, “Angélica” é a única parceria de Chico Buarque com um integrante do MPB4 (Miltinho). Chico Buarque participou dessa regravação.

A história do grupo começou nos anos 60, na época dos festivais. E vem atravessando as últimas décadas de forma impecável. Mesmo com algumas mudanças na formação, sempre manteve um nível elevado de qualidade no repertório. Esse item, aliás, é destacado por Dalmo Medeiros, integrante da formação atual, juntamente com Miltinho, Aquiles e Paulo Malaguti Pauleira. Em entrevista ao Resenhando.com, Dalmo conta um pouco sobre o como ocorre o processo de criação dos arranjos e sobre a fase atual do grupo. “O MPB-4 é uma entidade musical muito forte, pela sua história e pelo seu incrível repertório sempre rico”.


Resenhando.com - Como funciona o processo criativo atual do grupo?
Dalmo Medeiros - Temos o Miltinho e o Paulo Malaguti como arranjadores. Na questão das vozes, sempre procuramos conversar e ver sempre se o alcance de cada voz está adequado para a melodia escolhida. O Aquiles, por ter uma escrita privilegiada, costuma fazer os roteiros das apresentações, ajudando sempre a direcionar o que cada um deve falar nos shows.


Resenhando.com - E esse novo trabalho, como foi trazer esse time de feras para cantar no disco?
Dalmo Medeiros - Foi uma emoção muito grande. A presença do Chico Buarque era algo até natural, levando em consideração a trajetória do grupo. Mas tivemos a presença do João Bosco, que participa da faixa "Pret-à-porter de Tafetá", que deve ser o segundo single, a princípio. Mas tivemos ainda Ivan Lins, Milton Nascimento e mais outros. Tem também o Dori Caymmi que ajudou nos arranjos. Em breve divulgaremos a escalação completa do time.

 
Resenhando.com - Você entrou em 2004 no grupo. Na sua opinião, qual seria a melhor qualidade a ser destacada no MPB-4?
Dalmo Medeiros - Eu acredito que o repertório que o grupo escolheu ao longo dos anos seja o ponto mais forte. Veja bem: o grupo consegue resgatar canções mais antigas e se integrar perfeitamente com autores da geração mais atual, como por exemplo, o Lenine. Todas as fases do grupo são recheadas de canções que marcaram a nossa música.


Resenhando.com - E como estão os planos para shows?
Dalmo Medeiros - Certamente iremos ao palco para levar esse repertório e outras canções que marcaram os 60 anos do MPB-4. Temos um show em São Paulo e depois devemos seguir adiante por outros estados.

"Angélica"

quinta-feira, 23 de maio de 2024

.: Entrevista com Manuel de Oliveira: entre a música flamenca e o jazz


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. 

O renomado violonista ibérico Manuel de Oliveira veio ao Brasil para se apresentar na capital paulista e em Illhabela. Natural de Guimarães, Portugal, o guitarrista contemporâneo tem sido presença destacada nos principais festivais de jazz europeus. Com mais de 20 anos de carreira, Manuel de Oliveira consolidou-se como um dos mais proeminentes violonistas contemporâneos. Autodidata, ele absorveu influências de diversas culturas musicais, incluindo flamenco, música sul-americana e fado, criando uma identidade sonora reconhecível em constante evolução. 

Seus concertos e documentários foram lançados pela Qwest TV, canal do icônico Quincy Jones, ao lado de músicos como Brad Meldhau e Chick Corea, ele se estabeleceu como um dos pioneiros do estilo flamenco-jazz. Em entrevista para o Resenhando.com, ele conta como a nossa música brasileira imapctou em su formação e explica como preparou o seu "Looping Solo". “A música instrumental etno contemporânea, que dialoga entre várias culturas, é uma tendência global e de uma riqueza enorme”.


Resenhando.com - O Brasil tem uma relação muito próxima de Portugal com a música. Como a música brasileira impactou em sua formação musical?
Manuel de Oliveira -
A música do Brasil é de uma riqueza infinita e depois tem uma natural identificação com a cultura portuguesa, mesmo para além da língua - artistas da área instrumental como Egberto Gismonti, Rafael Rabelo, Hermeto Pascoal, os grandes da MPB também, como Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano Veloso, enfim, é ao mesmo tempo um espanto pela qualidade e um vislumbramento do potencial criativo de um diálogo cultural que não tem barreiras.


Resenhando.com - No Brasil há uma queixa recorrente dos músicos para ganhar mais espaço na mídia para a música instrumental. Como está o espaço em Portugal para esse estilo?
Manuel de Oliveira -
É de fato um problema. Ainda bem que aqui há queixa. Em Portugal, acho que ainda nem sequer chegou a isso. A música instrumental no Brasil vai tendo alguns contatos importantes, como festivais e o próprio Sesc, apesar de ser muito pouco. Não só há poucos contextos no geral para a música instrumental, como os que existem são muitas vezes fechados a géneros como o jazz ou a clássica. A música instrumental etno contemporânea, que dialoga entre várias culturas, é uma tendência global e de uma riqueza enorme. É realmente necessário criar mais contatos e canais de comunicação para esta vertente.


Resenhando.com - O que é o “Looping Solo”?
Manuel de Oliveira -
O "Looping Solo" é o nome que dei ao meu show a solo, com o uso uma tecnologia que me permite em tempo real gravar uma série de partes. Assim eu estabeleço no fundo um diálogo comigo mesmo.


Resenhando.com - O estilo flamenco ainda tem influência no jazz contemporâneo? Cite alguns exemplos.
Manuel de Oliveira  -
Muito. O flamenco e o jazz abriram um caminho sem retorno nos anos 80 com artistas como Paco de Lucia, Jorge Pardo, Carles Benavent, tem cada vez mais artistas a explorar esses caminhos - sendo uma música urbana por si, é um diálogo muito natural de estabelecer, como o fado com o flamenco, o tango com o fado, o blues com a bossa, enfim. Entre os exemplos de artistas do Flamenco Jazz, citaria Nino Josele, Josemi Carmona, Jorge Pardo, Ano Dominguez, entre muitos outros.


Resenhando.com - Quais os músicos que influênciaram na sua formação musical?
Manuel de Oliveira -
Paco de Lucia, José Afonso e Egberto Gismonti, acho que assim como uma matriz, entre várias outras influências.

sexta-feira, 17 de maio de 2024

.: Banda Selton apresenta o álbum "Gringo", análise do crítico musical Otero

Banda Selton. Foto: Simone Biavati

Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. 

É possível uma banda de pop rock ter nascido no Brasil, se criado na Espanha e se consolidar na Itália? No caso da Selton, essa situação inusitada já é uma realidade há 15 anos. O mais recente trabalho do grupo, o álbum Gringo, que conta com a participação de Ney Matogrosso, apresenta uma sonoridade mais próxima do universo radiofônico pop.

Formada por Ramiro Levy, Daniel Plentz e Eduardo Stein Dechtiar, o projeto começou como uma banda tocando covers dos Beatles nas ruas de Barcelona. Depois que um produtor da MTV italiana os viu tocando nas ruas, o grupo assinou seu primeiro contrato de gravação na Itália, onde estão na cidade de Milão há 15 anos.

A produção é de Ricky Damian, vencedor de um Grammy Award com “Uptown Funk” de Bruno Mars, que se mudou para Londres. Juntos, a banda e Damian  gravaram grande parte do disco no estúdio de Damon Albarn (das bandas Blur e Gorillaz).

Banda Selton. Foto: Simone Biavati

Além das canções autorais, há uma interessante releitura de Sangue Latino, do Secos e Molhados, com letra em italiano. Essa faixa tem a participação de Ney Matogrosso, cuja presença para os músicos representou uma benção. A ideia de fazer uma versão italiana de Sangue Latino, segundo eles, veio uma noite em um sonho que acabou se tornando realidade. “A letra original parece ter sido escrita já pensando que algum dia ela seria traduzida ao italiano. De alguma maneira sentimos que essa canção nos pertence, pertence a esse nosso momento”, explicam os músicos.

As canções oscilam entre o pop e a MPB, criand0 uma sonoridade próxima do chamado som Indie alternativo. Faixas como Café para Dois, Maresia e Fatal apresentam elementos pop com potencial radiofônico.  O álbum Gringo é uma surpresa agradável de uma banda cuja trajetória une Brasil, Espanha, Itália e Inglaterra.


Sangue Latino


Fatal


Calma Cara



sexta-feira, 10 de maio de 2024

.: Catia de França: disco autoral marca os 50 anos de carreira


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. 

Um disco que une o passado e o presente, que resgata memórias e perspectivas ao longo de 77 anos bem vividos. Em 12 faixas inéditas, músicas que revelam desde os sentimentos juvenis até às incertezas da censura imposta aos artistas brasileiros. “No Rastro de Catarina”, novo disco da multiartista paraibana Cátia de França, chega às plataformas digitais com toda força e vitalidade de uma artista com influências em diversas gerações da música brasileira.

Com seis discos lançados entre 1979 e 2016, Cátia de França transita entre palcos e parceiros musicais dos quatro cantos do país. Sua história envolve evolução de ritmos, experimentações e parcerias com artistas como Zé Ramalho, Dominguinhos, Sivuca, Lulu Santos, Chico César, Elba Ramalho e Bezerra da Silva em seus discos.

“No Rastro de Catarina” é uma obra que expõe a poética e sonoridade múltipla de Cátia de França. O disco percorre toda a história da artista, desde “Indecisão”, um poema de amor escrito quando Cátia tinha 14 anos e só agora musicado, ao mergulho em seu envelhecimento com “Malakuyawa”, cantando sobre seus cabelos brancos, veias aparentes e sorriso sem dentes. “No Rastro de Catarina” foi gravado em João Pessoa, terra natal da cantora, no Estúdio Peixeboi. O disco foi produzido pelo selo Tuim Discos, também da Paraíba. O lançamento no exterior será pelo selo Amplifica Music.

A banda foi composta só por músicos paraibanos: Cristiano Oliveira (viola, violão e violão de aço), Marcelo Macêdo (guitarra e violão de aço), Elma Virgínia (baixo acústico, baixo elétrico e fretless), Beto Preah (bateria e percussões) e Chico Correa (sintetizadores e samplers), que também assina a produção musical do disco ao lado de Marcelo Macêdo. O disco conta ainda com participação de Gláucia Lima no vocal, Dina Faria na direção artística e Felipe Tichauer na masterização.

Cátia de França representa na MPB aquele tipo de personagem inusitado, capaz de surpreender sempre com sua sonoridade a cada trabalho realizado. E nem mesmo os seus 77 anos representam uma barreira no processo criativo de sua música, que permanece fértil e interessante.

"Fênix"

"Negritude"

"Conversando com o Rio"



 

sexta-feira, 3 de maio de 2024

.: Música: há 50 anos, calava-se a voz maravilhosa de Mama Cass


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. 

Há 50 anos, Cass Elliot, mais conhecida como “Mama Cass” do grupo The Mamas & The Papas, saia de cena deste mundo. Tinha apenas 32 anos e uma curta carreira em grupo vocal e como artista solo. Mas deixou um inegável legado com o talento de sua voz e ao quebrar tabus e preconceitos na sociedade da sua época.

Feminista pioneira e ícone da cultura pop, ela foi uma das maiores cantoras de sua geração e a voz poderosa por trás de hits como “California Dreamin'”, “Monday Monday” e “Dream a Little Dream of Me” - canções essas que marcaram uma era musical, misturando os gêneros folk, rock e pop.

Nascida Ellen Naomi Cohen em 19 de setembro de 1941, Cass Elliot desenvolveu uma intuição para a boa música. Encontrando seu caminho na cena folk-rock dos anos 60, Cass se tornaria uma das vozes definidoras do movimento da contracultura e, mais tarde, uma presença querida na televisão americana.

Pessoas que a conheceram descrevem o magnetismo que ela gerava em torno de si, uma força de autodeterminação, humor e carisma que a acompanhou ao longo de sua breve carreira no show business. Ainda por cima era uma “casamenteira” nata, pois foi pelo menos parcialmente responsável pelas uniões do trio Crosby, Stills & Nash e do grupo The Lovin’ Spoonful.

No início, Cass teve uma experiência no teatro. Mas a partir de 1962, ela encontrou seu lugar na música, no caso, na música folk com o grupo The Big 3 e depois com o The Mugwumps, em paralelo com o auge da Beatlemania nos Estados Unidos.

Em 1965 ela se juntou com Denny Doherty, ex-colega de banda do The Mugwumps, que já havia feito parceria com John e Michelle Phillips do The New Journeymen. Estava formado o quarteto original que se chamaria The Mamas and Papas.

O grupo vocal obteve um rápido sucesso comercial após o lançamento de “California Dreamin'”, seu primeiro single, no final de 1965. A música terminou em primeiro lugar no Cash Box Year End Hot 100 e em décimo lugar no single Hot 100 de final de ano da Billboard de 1966. Outros sucessos como “Monday, Monday”, “Creeque Alley” e “Dedicated to the One I Love” atingiriam em cheiio as paradas americanas. Seu primeiro show foi realizado no mítico Hollywood Bowl e a banda encerrou o icônico festival pop internacional de Monterey em 1967, ao lado de artistas como Jefferson Airplane, The Who, Grateful Dead e Jimi Hendrix.

O grupo se separou em 1968 após gravar quatro álbuns. Enquanto isso, Cass escolheu conscientemente a maternidade solteira, e sua filha Owen Vanessa nasceu durante o último ano de Cass na banda. Além de enfrentar o então tabu social de ser mãe solteira, Cass decidiu seguir com sua tão esperada carreira solo.

No final dos anos 60, ela participava regularmente de programas noturnos populares de televisão americana, chegando a apresentar dois especiais de televisão no horário nobre em 1969 e 1973. A inteligência e a determinação de Cass valeram a pena; ela lançaria cinco álbuns solo e um single top 40, “Make Your Own Kind of Music”, antes de seu falecimento repentino em 1974, aos 32 anos de idade.

Cass Elliot faleceu em julho de 1974, após realizar um show em Londres, na Inglaterra, onde foi aplaudida por um numeroso público. Morreu dormindo no quarto de um hotel, vítima de insuficiência cardíaca devido a degeneração miocárdica provocada pela obesidade.

Por coincidência, quatro anos depois, nesse mesmo quarto de hotel, o baterista da banda The Who, Keith Moon, morreu em função de uma overdose de medicamentos para controlar o alcoolismo. O fato de ser obesa, fora dos padrões estéticos do show business, não impediu que ela brilhasse intensamente na música. Ela não só quebrou os tabus como ainda abriu caminhos para a presença feminina na música.

Sua obra musical permanece incrivelmente atual. Com sua interpretação singular, baseada na música dos anos 40 e 50 e na folk music, acabou se tornando referência para outras gerações. A cantora britânica Adele, por exemplo, mostra algumas influências da eterna Mama Cass. Se estivesse viva, talvez unisse forças com outros músicos de gerações mais recentes. Não é difícil imaginar, por exemplo, o duo Pet Shop Boys chamando Mama Cass para gravar alguma canção dançante bem ao estilo techno-pop.

Coube a filha de Cass, Owen Vanessa, manter vivo o legado da mãe, por meio de um site oficial (www.casselliot.com) e a representando por exemplo na indicação do Mamas & Papas no Hall of Fame do Rock. Recentemente Cass Elliot ganhou postumamente uma estrela na famosa Calçada da Fama de Hollywood, em solenidade com participação de Owen.

"It´s Getting Better"

"Dream a Little Dream Of Me"

"Make Your Own Kind of Music"

terça-feira, 30 de abril de 2024

.: Egberto Gismonti volta a São Paulo para mostrar seu trabalho atual


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Um dos músicos mais conceituados do país está de volta aos palcos de São Paulo. O compositor, multi-instrumentista e arranjador Egberto Gismonti, com mais de 45 anos de carreira e mais de 60 discos gravados, é a atração do projeto Estação Brasileira, do Sesc Belenzinho, entre os dias 3 e 5 de maio, sexta e sábado, às 21h00, e domingo, às 18h00.

O músico carioca apresenta show inédito, dando uma prévia de seu novo álbum, cujo lançamento está previsto para ocorrer ainda em 2024. No repertório, além das composições inéditas, Gismonti interpreta alguns clássicos da sua carreira.  Seja qual for a fase a ser mostrada neste show, sempre haverá algo mágico e interessante para quem for conferir.

Egberto Gismonti, 77 anos, nasceu em Carmo, no Rio de Janeiro. Sua obra não comporta classificações de gênero. As fronteiras entre música popular e erudita são diluídas em suas músicas, trazendo uma sonoridade ímpar e original. Com formação erudita, o artista é notório pela pesquisa em música popular e folclórica brasileiras, além de ser um dos primeiros músicos do país a usar sintetizadores em seu trabalho. Além da vasta discografia, ele assina diversas produções e arranjos para outros artistas. 

Aclamado internacionalmente, Gismonti já apresentou sua música em várias partes do mundo, tendo discos lançados em países como França e Alemanha. É também autor de dezenas de trilhas sonoras para cinema, teatro, balé, séries de televisão e projetos de artes visuais. Impossível destacar um item apenas de sua extensa discografia, pois todo o material é interessante e relevante para o ouvinte.

Passa por uma rica obra autoral em discos como "Circense", "Em Família", "Mágico" e o antológico "Dança das Cabeças", ao lado do percussionista Naná Vasconcelos. E ainda inclui ótimas releituras da obra do compositor Heitor Villa-Lobos no disco "Trem Caipira". O show em São Paulo será uma rara oportunidade para o público conferir de perto a genialidade desse músico, cuja produção extrapola até as fronteiras do Brasil. Sua música é universal.

Serviço
Show Egberto Gismonti
Projeto: Estação Brasileira
Dias 3, 4 e 5 de maio de 2024.
Sexta e sábado, às 21h. Domingo, às 18h.
Valores: R$ 50 (inteira), R$ 25 (meia-entrada), R$ 15 (Credencial Sesc).
Ingressos disponíveis somente nas bilheterias das unidades Sesc.
Limite de dois ingressos por pessoa.
Local: Teatro (374 lugares). Classificação: 12 anos. Duração: 90 min.


Sesc Belenzinho
Endereço: Rua Padre Adelino, 1000.
Belenzinho – São Paulo (SP)
Telefone: (11) 2076-9700 
sescsp.org.br/Belenzinho  


"Palhaço"


"Baião Malandro"


"Mais que a Paixão"

sexta-feira, 26 de abril de 2024

.: Orquestra Jazz de Matosinhos toca clássicos da MPB, por Luiz Otero

CD reúne clássicos da MPB com músicos lusitanos. Foto: divulgação


Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.


Lançado simultaneamente no Brasil e em Portugal, o álbum “MÚSICAS BRASILEIRAS, MÚSICOS PORTUGUESES”, da Orquestra Jazz de Matosinhos,  contou com a curadoria do musicólogo, jornalista, radialista e produtor musical Zuza Homem de Mello (1933-2020). O projeto reúne versões primorosas de canções da MPB feitas sob um olhar jazzístico por músicos lusitanos.

No repertório há clássicos como “Corcovado”, “Wave” (Antônio Carlos Jobim), “Carinhoso” (Pixinguinha), “Nanã (Coisa nº 5)” (Moacir Santos), “Linha de Passe” (João Bosco) e “Canto Para Nanã” (Dorival Caymmi), que ganharam versões instrumentais impecáveis da Orquestra, com aquele conceito de Big Band dos anos 40 e 50.

O projeto foi um dos últimos que Zuza realizou. Ganhou arranjos especialmente escritos por Antonio Adolfo, Mario Adnet, Letieres Leite, Nelson Ayres e Nailor Proveta.

O fato é que os arranjos acabaram se tornando fundamentais para o êxito desse projeto. Todos os arranjadores são músicos de primeira linha e souberam traduzir a emoção de cada canção para a orquestra interpretar. Percebe-se isso principalmente nas duas canções de Tom Jobim (Wave e Corcovado).

É necessário destacar as participações dos músicos Kiko Freitas (baterista eleito ‘o melhor do mundo’ na categoria de World Music da revista americana Modern Drummer, em 2019), e Gabi Guedes (percussionista baiano, integrante da Orkestra Rumpilezz). O resultado ficou acima da média. Vale muito a pena a audição.

Wave


Linha de Passe


Carinhoso



sexta-feira, 19 de abril de 2024

.: Dori Caymmi – 80 anos com Prosa e Papo, por Luiz Otero

Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.


Não são muito músicos que chegam aos 80 anos ainda em plena forma, produzindo novas canções com a maestria de sempre. Dori Caymmi com certeza está inserido nesse seleto grupo, com seu mais recente lançamento, o álbum Prosa e Papo, que contou com participações de vários convidados especiais.

Das 11 canções do álbum, oito são inéditas: além do poeta e compositor Paulo César Pinheiro, Roberto Didio divide com Dori a autoria de duas canções.

Todas as músicas do disco são letras que Dori musicou de forma brilhante. O MPB4 surge na música título e também em “Um Carioca Vive Morrendo de Amor”, da safra recente de parcerias com Paulo César Pinheiro. A canção exalta o sentimento do cidadão carioca, amenizando um pouco as notícias que chocam os leitores de jornais e noticiários sobre o Rio de Janeiro. Nesta faixa participam ainda Joyce Moreno e Zé Renato (do Boca Livre).

Foto: Nana Moraes

Falando em Joyce Moreno, a cantora e compositora brilha ainda em “Evoé, Nação!”, faixa na qual divide os vocais com Mônica Salmaso. Duas vozes femininas que sempre abrilhantam as canções que ambas interpretam. Joyce e Mônica aliás já haviam participado juntas de um disco lançado em 2015, com textos de Mario Lago musicados por Dori.

O cantor Renato Braz dá voz a “Canto para Mercedes Sosa”, uma bela homenagem a cantora que foi uma das maiores intérpretes da América Latina. E o mais jovem dos convidados é o cantor e compositor João Cavalcanti, na bem humorada “Chato”. A gravação de “Canção Partida” conta com as participações de Ana Rabello no cavaquinho e Julião Pinheiro no violão 7 cordas.

O disco traz lembranças do pai de Dori, Dorival Caymmi, ao utilizar expressões que o velho mestre da MPB usava nas conversas. A sua voz grave e suave segue impecável, assim como o som inconfundível de seu violão. Prosa e Papo é um daqueles lançamentos para ser apreciado por todos que curtem uma MPB de qualidade.


Um carioca vive morrendo de amor


Prosa e Papo


Evoé Nação



sexta-feira, 12 de abril de 2024

.: André Morais chega ao terceiro disco com “Voragem”, por Luiz Otero

André Morais. Foto: divulgação

Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.


Com 20 anos de carreira, o multiartista paraibano André Morais (ator, diretor, cantor e compositor) está divulgando seu terceiro álbum autoral, intitulado Voragem. As dez canções do disco apresentam o olhar do artista sobre o mundo, contando com as participações de Ney Matogrosso e Fabiana Cozza.

Nesse trabalho, André Morais reafirma sua parceria com a compositora Lucina e abre parcerias com a cantora e compositora paraibana Socorro Lira e com a potiguar Valéria Oliveira, construindo um universo criativo em que a presença do feminino é essencial.

Ney Matogrosso participa de “Cantar e Sangrar”, primeiro single lançado do álbum e um dos destaques desse trabalho. E Fabiana Cozza participa na canção “Pátria” (parceria dele com Valéria Oliveira), proporcionando outro momento interessante.

“Voragem” é um álbum de sonoridade acústica, construído com um olhar da Paraíba e do Nordeste, mas de braços abertos para o mundo. Com produção musical de Helinho Medeiros, pianista e acordeonista paraibano, em parceria com o violonista e professor Pedro Medeiros, “Voragem” tem arranjos construídos de forma coletiva, com a liderança e execução de Helinho (piano acústico e acordeom), Pedro Medeiros (violão, violão de 7 cordas, violão de aço e viola caipira), João Cassiano (Percussões) e Victor Mesquita (baixo acústico).

André Morais e Ney Matogrosso . Foto: divulgação

As canções seguem aquele padrão interessante da nossa MPB, com alguns arranjos inspirados nos ritmos nordestinos. André não tem uma extensão vocal muito grande, mas compensa isso utilizando um tipo de interpretação que intensifica a mensagem das canções. A sua escola como ator deve ter sido fundamental para moldar o cantor, pois ele consegue transmitir a emoção na dose certa, auxiliado pelos ótimos arranjos coletivos feitos pelos músicos da banda de apoio. 

André Morais é um artista com trajetória pavimentada por três pilares fundamentais: a música, o teatro e o cinema. Nascido na cidade de João Pessoa, Paraíba, é autor de canções em parceria com nobres nomes da música popular brasileira como Chico César, Carlos Lyra, Ná Ozzetti, Sueli Costa, Ceumar, Milton Dornellas, Socorro Lira e Seu Pereira. Já cantou e gravou ao lado de nomes como Elza Soares, Ney Matogrosso, Mônica Salmaso, Naná Vasconcelos e Tetê Espíndola. Lançou o seu primeiro álbum, Bruta Flor, em 2011, sendo vencedor do Prêmio Nacional Grão de Música. Seu segundo álbum, Dilacerado, foi eleito um dos 100 melhores lançamentos nacionais de 2015.

No teatro, viajou pelas cinco regiões do país, em mais de 60 cidades, como ator e criador do monólogo “Diário de um Louco”, baseado no conto russo de Nicolai Gogol. No cinema, é diretor e roteirista. Seu primeiro filme, o curta-metragem “Alma”, participou de mais de 20 festivais no Brasil e no exterior. Recebeu o prêmio de Melhor Curta do Festival Latino-Americano de Toronto no Canadá. Seu primeiro longa-metragem como autor e diretor, “Rebento”, estreou em janeiro de 2018 na seleção oficial da Mostra de Cinema de Tiradentes e foi vencedor de 27 prêmios nacionais e internacionais.


Cantar e Sangrar


A Lira Nua


Maré Alta


sexta-feira, 5 de abril de 2024

.: Entrevista: Zé Geraldo, o menestrel folk da MPB

Zé Geraldo. Foto: Paulo Higa/Divulgação

Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.


Mineiro da Zona da Mata e radicado em São Paulo há vários anos, Zé Geraldo construiu uma carreira que sempre se manteve bem próxima do público.  Mesmo longe da grande mídia, seus shows sempre foram procurados tanto pelos admiradores de seu trabalho como pelos que curtem uma música com mensagens reflexivas e interessantes. Com forte influência da música folk representada principalmente por Bob Dylan, ele conseguiu produzir um repertório que se tornou atemporal, cada vez mais atual. Ele se apresentará com sua banda neste sábado (6) a partir das 20h30 no Sesc Belenzinho, da Capital Paulista. Em entrevista para o Resenhando, Zé Geraldo conta detalhes de sua carreira e como desenvolve sua produção musical. “Minha música é feita com liberdade total”.


Resenhando - Seu estilo de compor é frequentemente associado ao rock rural, mas percebe-se outras influências em seus trabalhos. Quais foram suas referências na música?

Zé Geraldo – A minha primeira influência veio da música caipira tradicional, bem simples em termos de harmonia. Quando cheguei em São Paulo, percebi que essa música tinha algumas semelhanças com o rock. Então, quando comecei a compor e cantar, o saudoso Zé Rodrix falava que eu fazia rock rural. Já o Renato Teixeira dizia que minha música era folk. Aí então assumi essas características da influência do rock dos anos 60 e 70 e do blues, mesclando com a música caipira e, claro, tendo Bob Dylan como referência também.


Resenhando - Seus três primeiros discos contém canções que se tornaram clássicos (Como Diria Dylan, Milho Aos Pombos, etc.) de seu repertório. Essa produção autoral surgiu a cada disco mesmo ou você já tinha esse material produzido antes de grava-lo?

Zé Geraldo – Quando eu lancei meus três primeiros discos pela CBS, eu tinha uma quantidade boa de músicas. Daria até para gravar mais dois discos naquela época. Uma ou outra foi composta naquele momento, mas a maioria eu já tinha realmente pronta na minha sacola de versos.


Resenhando - A indústria da música vem mudando nos últimos anos. Como você analisa o quadro atual para o músico?

Zé Geraldo – Depois dos discos na CBS e dos dois da gravadora Copacabana, em me tornei um artista independente, apesar de ter discos distribuídos pela Gravadora Eldorado, por exemplo. A partir do momento que eu descobri que eu tinha uma legião de admiradores, isso salvou a minha carreira. Eu estava pensando seriamente em parar, depois que as gravadoras passaram a investir para tocar seus lançamentos. Nessa época eu fui deixado de lado. Então, quando percebi que tinha admiradores, virei as costas para o mercado e cai na estrada para levar minha música para o público.


Resenhando - Como funciona o seu processo criativo? O que vem primeiro, melodia ou letra? Ou vem os dois simultaneamente?

Zé Geraldo – Eu não tenho um modelo definido. Às Vezes vem um pedaço de letra que cantarolo ao violão. Na maioria das vezes eu escrevo a letra primeiro. Mas já tive momentos em que a melodia veio antes da letra. Na verdade, não tenho um esquema definido. Minha produção é com liberdade total.


Resenhando - Você também participou de festivais nos anos 70. Ainda há espaço para novos festivais na atualidade?

Zé Geraldo – Sim. Eu acredito que há espaço. Lembro dos festivais das emissoras de TV que foram importantes em suas épocas. Eu sempre aconselho os músicos iniciantes a tocar nos festivais, que ainda são um veículo eficaz de divulgação. Eu sempre procuro tocar em festivais, porque gosto muito daquele ambiente que se cria nesses eventos.


Resenhando - Em um de seus trabalhos tem parceria com o Zeca Baleiro. Fale sobre essa parceria e cite outros parceiros também

Zé Geraldo – O Zeca Baleiro era meu vizinho na Vila Madalena. Minha filha uma vez me disse que eu tinha que conhecer um músico, que veio do Maranhão. Um belo dia ele convidou minha filha para almoçar em casa e disse para me levar junto. Daí nasceu nossa primeira parceria. E já tem uma segunda pronta que lançarei em breve. Ele é um grande amigo e um talento raro na música. Mas tive outros parceiros, como o Mario Marcos, irmão do saudoso Antonio Marcos, o Antonio Porto, músico do Mato Grosso do Sul. Não são muitos parceiros, mas todos eles são muito especiais.


Milho aos Pombos


Como Diria Dylan


Cidadão



sexta-feira, 29 de março de 2024

.: Box resgata discos do Black Sabbath com Tony Martin no vocal


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Um relançamento aguardado há anos finalmente vai acontecer. Trata-se do box "Anno Domini – 1989-1995", da banda de rock Black Sabbath, que resgata o período em que contava com Tony Martin no vocal.

É preciso lembrar aquele momento da banda, que atravessava uma série de problemas com as mudanças constantes de formação após a saída de Ozzy Osbourne e, posteriormente, Ronnie James Dio. O guitarrista Tommy Iommi foi o único da formação original que permaneceu em todos os discos, firme no propósito de levar adiante sua música. No final dos anos 80 encontra o cantor Tony Martin que assume os vocais da banda, com Cozy Powell na bateria e Geoff Nichols nos teclados.

Se por um lado a sonoridade difere bastante do período inicial (da era Ozzy), a era Tony Martin teve o mérito de ajudar a manter acesa a chama do grupo, com um som bem próximo do estilo heavy metal. Provavelmente influenciado pelo estilo do então novo vocalista e pelo fato do estilo na época estar em alta com o público.

A colaboração de Martin resultou no lançamento dos discos inclusos no box: "Headless Cross", "Tyr", "Cross Purposes" e "Forbidden". Iommi incluiu algumas faixas bônus que despertarão os fãs da banda. E remixou as faixas de Forbidden especialmente para esse relançamento. Só ficou de fora o álbum "Eternal Idol", que na prática é o primeiro da fase com o Tony Martin.

O box inclui um livreto com fotos, obras de arte e notas de capa de Hugh Gilmour. A coleção também contém um pôster de "Headless Cross" e uma réplica do livro de concertos da turnê do disco. Com essa iniciativa, Iommi consegue manter viva a história do grupo. Ainda que seja um período inferior em comparação com o inicial, vale a pena conhecer mais detalhes dessa fase da banda.

"Headless Cross"

"Feels Good To Me"

sexta-feira, 22 de março de 2024

.: Entrevista: Chico e João Faria, do duo Mano a Mano, unidos pela música


Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Filhos de dois ícones da MPB – Cynara (Quarteto em Cy) e Ruy Faria (MPB-4) – os irmãos Chico e João Faria decidiram unir forças em um projeto musical destinado a preservar o legado de seus pais. Batizado de Mano a Mano, o duo pretende explorar um repertório vasto e rico de nossa música. Canções que foram cantadas por seus pais e outras que marcaram épocas nas vozes de outros artistas consagrados. Inicialmente o duo investirá em interpretações, mas no futuro nada impede de investir também em um material autoral.

Os irmãos Faria não são iniciantes. Chico, por exemplo, já gravou um disco com canções de um certo xará famoso (Chico Buarque). E João Faria é um músico requisitado para gravações e apresentações ao vivo, sendo um habilidoso baixista e que também possui um material autoral interessante. Em entrevista para o Resenhando, a dupla conta como foi possível viabilizar a iniciativa do projeto Mano a Mano e comenta o panorama atual da MPB. “O Brasil é um País muito rico musicalmente”, afirmam.


Resenhando.com – Vocês já atuam na música há alguns anos e até já tocaram juntos em vários momentos. Qual será a novidade em relação ao projeto atual, o Mano a Mano?
Chico e João Faria –
Pois é, já temos uma carreira sólida como músicos. Realmente tocamos juntos no Quarteto. Em Cy e com Dudu Nobre, Diogo Nogueira, e em muitas gravações com outros artistas. A grande novidade é que estamos cantando juntos agora. Estamos trazendo um repertório baseado na nossa vivência musical e juntando a linda história dos nossos pais. Um repertório de muita qualidade e que representa tudo que aprendemos e vivemos nesses anos de música.

Resenhando.com – Seus pais exploraram um repertório incrivelmente vasto em seus respectivos grupos vocais. Como vocês pretendem mostrar esse material?
Chico e João Faria –
Esse repertório dos nossos pais é mesmo muito rico. Temos selecionado inicialmente músicas emblemáticas e que contam histórias importantes para nós. Mas como a quantidade é enorme, temos variações para construir um roteiro bonito. E, modéstia à parte, está lindo.


Resenhando.com – Como vocês pretendem mostrar esse trabalho ao vivo? Apenas em dupla ou com mais músicos acompanhando?
Chico e João Faria –
Já temos uma banda praticamente definida, com grandes músicos. Os shows ao vivo podem variar, devido a demanda e palcos. Tanto podemos fazer em dupla, com Chico ao violão, no formato pocket show, ou explorar formações variadas com até cinco músicos.

Resenhando.com – Há planos para produzir material autoral no futuro?
Chico e João Faria –
Sempre temos ideias de composição autoral. Mas nesse início, por enquanto, vamos atacar de intérpretes mesmo, criando arranjos e também aproveitando arranjos originais que são sucessos.


Resenhando.com – Como vocês analisam o atual panorama da MPB?
Chico e João Faria –
Nós ouvimos de tudo.  Estamos atentos para as novidades. Gostamos dos compositores que estão surgindo. A música brasileira está se renovando. Somos otimistas. Mas reverenciamos e temos com a gente no nosso convívio os grandes mestres que se consolidaram durante esse tempo todo. São nossos ídolos. Gostamos dessa diversidade que o Brasil tem.

"Argumento"

"Pecado Capital"

sexta-feira, 15 de março de 2024

.: A infinitude do tempo e do mar no disco de estreia de Carlos Cavallini


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Radicado há alguns anos em Portugal, o cantor e compositor Carlos Cavallini está lançando o seu primeiro disco autoral, intitulado "O Tamanho do Tempo". Uma iniciativa na qual buscou sintetizar suas influências em um trabalho de extremo bom gosto, que aponta para novos caminhos na MPB utilizando o seu cotidiano como principal fonte de inspiração.

Dono de uma voz suave e afinada, Cavallini mostra um tipo de interpretação no estilo cool, em que a mensagem transmitida nas letras oferece momentos de reflexão para o ouvinte. A faixa "Nem Todo Mundo" exemplifica o tipo de mensagem que ele deseja passar: “...Nem todo mundo acredita/ No mesmo Deus que você/Nem todo mundo precisa acreditar...”.

Na faixa "Natureza" se destacam os sopros suaves nos arranjos de trompete e flugelhorn de Aquiles Moraes. E uma letra com mensagem simples e pertinente, lembrando que todos nós fazemos parte da natureza. Na faixa "Sempre Mar", Cavallini procurar ilustrar para o ouvinte o que representa o mar em sua poesia, de uma forma conectada com a paisagem da natureza que ele observa atualmente em terras portuguesas. O resultado ficou acima da média.

O álbum foi produzido por Domenico Lancellotti e Ricardo Dias Gomes, que também fizeram arranjos e contribuíram instrumentalmente no projeto. Além disso, conta com colaborações de músicos de destaque como Pedro Sá, João Erbetta, Davi Moraes, Aquiles Moraes e Jonas Sá. A acordeonista, cantora e compositora Celina da Piedade, participa de uma das faixas do disco.

Cavallini estuda Etnomusicologia na Universidade Nova de Lisboa e prepara-se agora para a sua estreia no panorama musical. "O Tamanho do Tempo" é um mergulho na riqueza da música brasileira, refletindo uma diversidade de influências musicais. Um começo e tanto para um iniciante.

"Nem Todo Mundo"

"Sempre Mar"

"Natureza"

sábado, 9 de março de 2024

.: Integrantes da Banda Front falam sobre viagem musical em nome da arte


“A Front é uma manifestação artística com muitas ramificações”
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Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Fundada em 1983, no início do movimento do Rock Brasil, a banda Front acabou não seguindo adiante naquela ocasião. Isso porque todos seus integrantes originais – Nani Dias, Ricardo Palmeira e Rodrigo Santos - acabaram sendo escalados pela nata do pop rock para integrarem suas respectivas bandas. 

Com isso, eles acabaram tocando com nomes como Cazuza, Blitz, Leo Jaime, Kid Abelha, Lobão, Barão Vermelho, só pra citar alguns exemplos. E agora, depois de 40 anos, o trio da formação original se reuniu para reativar o antigo projeto, que consistia em gravar canções autorais com foco na música eletrônica e na sonoridade pop dos anos 80. Em um curto espaço de tempo, já lançaram três álbuns e estão em fase de produção do quarto disco! Em entrevista para o Resenhando, os músicos Nani Dias, Rodrigo Santos e Ricardo Palmeira contam como se deu o retorno da banda e a elaboração do processo criativo do grupo. 

Resenhando – Como foi que surgiu a oportunidade de reunir os integrantes da banda Front?
Rodrigo Santos -
Estávamos já tocando uns com os outros em projetos diferentes, quando veio a ideia da volta do Front. Não exatamente como uma banda tradicional dos 80, buscando um lugar ao sol. Esse lugar já conquistamos. Queríamos uma nova forma de ver a arte e a vida como um todo. Um manifesto em movimento, sair da mesmice que vemos por aí. Gostamos de coisas bem plurais e flertamos com a música eletrônica dessa vez. Porém, o Front não tem fronteiras. Tanto não tem, que começamos a gravar álbuns pelo mundo todo, com músicas em estilos variados. Começamos a compor muito em agosto de 2023. O que já daria para fazer uns 10 álbuns. O que resolvemos fazer é viver de arte, de uma forma inusitada. Todos temos milhares de projetos. Somos compositores, produtores etc. E nos conhecemos há 40 anos. Tinha de ter desafio. E o desafio foi começar a gravar, filmar e misturar cultura, turismo, história, música, artes plásticas viajando pelo mundo. Os dois primeiros discos foram gravados no Brasil e lançados em outubro do ano passado. Aí, partimos pra Berlim em novembro para gravar no Hansa Studio, o mesmo de Bowie, U2, REM, Bjork, Depeche Mode e muitos outros. O berço da música eletrônica. Com nossa experiência de décadas, sabemos o que queremos, porque queremos e o que fazer na pré e pós-produção e gravação dos álbuns. Dois meses depois - lançamos em janeiro de 2024 o terceiro álbum - já estávamos em Amsterdam e Hilversum na Holanda, pra gravar o quarto álbum no mesmo estúdio que gravaram The Police, Elton John, Mick Jagger, etc : o Wisseloord Studios. Mais um local maravilhoso, icônico.


Resenhando - Por que no início, em 1983, a banda não seguiu o mesmo curso das outras que fizeram sucesso naquele período? Faltou mais divulgação naquela ocasião?
Nani Dias –
Na verdade, nós estávamos seguindo o curso natural das bandas, tocando nas danceterias, festivais e buscando as gravadoras. Gravamos pela CBS um single pra coletânea Os Intocáveis e um compacto que também entrou na trilha e álbum do filme Rock Estrela. Daí fomos chamados prá banda do Leo Jaime e pulamos pra etapa dos shows top do mercado. O Leo tinha 10 hits nas paradas, circuito primeira linha ... daí seguimos "bem acostumados",  tocando com outros artistas top: Cazuza, Lobão , Kid Abelha , Paulo Ricardo,  Blitz... Rodrigo como músico fixo no Barão...E agora, passados 40 anos , aproveitamos bem toda nossa história pra continuar a escrever novas canções e desfrutar da liberdade que a nossa história nos deu, abrindo caminhos e grandes experiências.


Resenhando – Cada integrante da Front tem um currículo bem significativo na música. Como isso contribuiu para vocês nesse momento atual?
Ricardo Palmeira -
Nos reencontramos no auge artístico de nossas carreiras. Está sendo muito gratificante. Ainda temos a mesma afinidade musical e o resultado está sendo ótimo.


Resenhando  – Como funciona o processo criativo da banda? Todos compõem?
Rodrigo Santos -
Todos compõem, todos participam juntos dos arranjos, a afinidade e amizade são tão grandes, que tentamos desde o início convergir no que os três curtem. Só assim dá certo. As ideias podem vir de várias maneiras. Um som. Uma letra. Ambos ao mesmo tempo. Depois, claro, vamos mexendo até chegar ao ponto certo para os três. Seja na letra, seja na melodia, mixagem etc. É muito unido esse processo. Aliás tudo. Tudo é muito leve e unido.

Resenhando – De 83 para cá, muita coisa mudou na indústria da música. Como você encaram esse momento atual?
Ricardo Palmeira -
O momento atual da música pop está extremamente propício para os músicos da nossa geração, pois artistas de ponta como Harry Styles, The Weekend, Coldplay e Ariana Grande estão usando e abusando da estética musical dos anos 80, combinando com a linguagem eletrônica atual. Como já estávamos mergulhando naturalmente nessa onda, nos sentimos completamente à vontade para participar do cenário contemporâneo e ainda por cima trazer elementos rítmicos brasileiros e de outras culturas consideradas exóticas, pra enriquecer essa mistura.

Resenhando – Como ficam as carreiras solo dos integrantes? Seguem em paralelo?
Rodrigo Santos -
Sim, faremos tudo que quisermos o tempo todo. Tem espaço para tudo. Arte não tem limites ou limitações. O que interessa é a vontade de ficar junto e fazer coisas juntos. Exclusividade não combina com a proposta do Front. E sim a mistura de tudo um pouco! Há espaço e tempo pra tudo. O que importa é estar de bem com a vida e fazer com dedicação, feliz, focado. E isso nós temos de sobra. Então na minha opinião nada briga com nada, tudo se completa e quero viver junto tocando com esses caras pra sempre! Exatamente porque não tem amarras ou fronteiras. Isso chama-se maturidade. Emocional e musical. Quanto mais coisas fizermos, melhor como pessoas ficamos. Serve prá vida o exemplo do Front. Por isso essa “volta” faz tanto sentido. Porque não é uma volta. É uma ida! Um trem para as estrelas. It’s a Long Way Now.

Resenhando – Como está a gravação do quarto disco?
Rodrigo Santos -
Já estamos na mixagem do quarto álbum, gravado na Holanda em fevereiro de 2024. Os três primeiros ("Tempo/Espazo", "Espazo/Tempo" e "The Hansa Album") já podem ser ouvidos nas plataformas de streaming

Resenhando – Há planos para shows neste ano?
Rodrigo Santos -
Sim, claro! Mas não um show qualquer. Estamos criando conteúdo primeiro, fazendo parceria com uma rádio e TV e depois vamos chegar com o show. Estamos preparando algo diferente para o público.


"A Tempestade"

"Sem Você"


"Valeu"

sexta-feira, 1 de março de 2024

.: Disqueria: o fim de uma era e o início de outra


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Fundada em 1986, a Disqueria anunciou o fechamento de suas portas no final de fevereiro. Vai deixar de ser uma loja física para desbravar o ambiente virtual, ainda oferecendo uma série de discos de vinil, CDs e livros, além de outros tipos de produtos procurados por colecionadores.

Apesar da novidade da loja virtual ser um alento, é impossível deixar de sentir uma ponta de saudade desse local, que marcou época comandado pelo saudoso DJ Wagner Parra, que cuidava das seleções musicais que tocavam no Bar da Praia e do Bar do Torto, no qual criou os eventos denominados Vitroladas, levando sempre uma seleção de músicas sempre com o foco na produção latino-americana e nacional.

Lembro que a loja chegou a funcionar na Rua Goias, quase esquina com o Canal 3, no Gonzaga, antes de se mudar para a Avenida Conselheiro Nébias, 850, no Boqueirão. E foi na Disqueria, entre um papo e outro, que o Parra me falava os nomes dos cantores e cantoras latinos mais significativos. Nomes como Willie Colon, Celia Cruz, Tito Puente, Ruben Blades e Hector Lavoe chegaram até mim por intermédio de Parra. Se hoje eu passei a conhecer um pouco mais sobre as canções latino-americanas, devo isso ao Parra e seu inesgotável arsenal sonoro.

Numa dessas visitas, ele me mostrou um disco do percussionista Chico Batera, de 1979, que tinha uma canção chamada "La Rumba", que depois me lembrei que ouvi na época em que ele discotecava no Bar da Praia. Ele ficou surpreso quando reconheci a canção, cujo arranjo era baseado na conhecida salsa cubana.

Ali, na loja física, adquiri uma série de discos de vinil e CDs que hoje compõem a minha modesta coleção. Desde jazz (Duke Ellington, Miles Davis, etc.), passando pelas orquestras tipo Easy Listening e alguns clássicos da MPB (Lo Borges, Chico Buarque, etc). E, claro, rock clássico (Jethro Tull, Led Zeppelin, entre outros). São tantas passagens marcantes na Disqueria, que seria impossível resumi-las em um único texto.

Mas é compreensível a decisão da companheira de Parra, Claudia Chelotti, que após o falecimento dele, em 2015, conseguiu prosseguir firme com a loja funcionando. Com o passar dos anos, é natural que o dono ou dona do estabelecimento queiram ter uma qualidade de vida melhor, de acordo com o momento que eles vivem. Por tudo que a Disqueria nos proporcionou ao longo de todos esses anos, só temos que agradecer a Claudia Chelotti. E iremos conferir com certeza o ambiente virtual da loja, que pode ser acessado pelo link https://disqueria.mercadoshops.com.br.

"La Rumba" (Chico Batera)

"Quimbara" - Celia Cruz e Tito Puente

"Che Che Cole" - Willie Colon e Hector Lavoe"

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

.: "A Noite que Mudou o Pop": Netflix e o documentário do projeto USA for Africa



Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

A Netflix disponibilizou o documentário "A Noite que Mudou o Pop", que mostra os bastidores da gravação da canção "We Are The World" para o projeto USA for Africa. A produção desvenda a incrível odisseia que foi reunir um time de cerca de 50 artistas em pleno auge de suas carreiras para participar da histórica gravação.

A proposta se baseava em gravar uma canção para arrecadar dinheiro para a Etiópia, que na época atravessava uma grave crise humanitária, com um grande número de crianças e famílias morrendo de fome. O cantor Harry Belafonte foi um dos mentores da ideia, que se inspirou em no projeto do britânico Bob Geldof, que havia feito algo parecido meses antes.

O documentário se concentra nas memórias de Lionel Richie, autor da canção em parceria com Michael Jackson. E há alguns momentos bem divertidos, como o que Lionel conta quando foi na casa do então Rei do Pop e se deparou com uma cobra e outros animais exóticos. É difícil imaginar como conseguiram conciliar, naquela ocasião, 50 agendas de artistas com a gravação da canção, que ainda foi feita numa única noite, iniciando no dia 28 de janeiro de 1985 e terminando somente na manhã do dia seguinte. Quase doze horas de gravação ininterruptas.

A reunião foi viabilizada no estúdio da AM Records, logo depois da premiação do American Awards. Tudo feito de forma milagrosamente sigilosa. Mas é preciso ressaltar que em 1985 ainda não havia celulares e a internet ainda engatinhava, bem distante de sua força globalizadora e imediatista atual. Talvez hoje isso fosse impossível realizar. Alguns artistas como Bob Dylan e Bruce Springsteen se juntaram ao grupo no estúdio na data combinada.

Cada artista que solou na canção aprendeu praticamente na hora a sua parte, como é mostrado no documentário. Houve exaustivos ensaios até atingirem o efeito desejado. O grande mérito da gravação é atribuído ao produtor Quincy Jones, que além de comandar com pulso firme o grupo, ainda regeu o coro e cuidou da mixagem e produção final.

Há muitos momentos interessantes dos bastidores, como a presença da cantora Sheila E, que confessa ter se sentido usada como isca para atrair o cantor Prince. Mas o fato é que Prince se ofereceu para apenas tocar um solo de guitarra, longe do grupo.  A proposta foi recusada por Quincy Jones. O solo vocal de Huey Lewis, aliás, era originalmente previsto para Prince.

O mais incrível foi notar que todos os artistas ali presentes, sem exceção, deixaram de lado o estrelismo e se comportaram como pessoas comuns. Alguns até aproveitaram a ocasião para pegar autógrafos de seus ídolos ou simplesmente trocar algumas palavras com eles. É possível notar que alguns pontos poderiam ser mais explorados, como o critério da escolha dos solistas. Alguns artistas questionaram na época o fato de só cantarem no coro ao invés de terem alguns minutos de destaque nos solos. Mesmo assim, vale a pena conferir a verdadeira epopeia que foi essa gravação.

Clip de "We Are the World"

Trailer de "A Noite que Mudou o Pop"

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