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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

.: Manual Crônico, a volta de Thiago Sobral: Luz balão da noite


Porque o nosso passado se liga diretamente às chamas de uma fogueira.

Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no Substack. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.


Há gravetos e retalhos de madeira jogados ao chão. Há galhos e troncos cortados, fragmentos de uma vida que se esvaiu. E há olhos vivos que contemplam as chamas bruxuleando: fogueira doce, luz balão. Junho e julho já passaram e agora já podemos dizer "que saudade!". Não que o tempo tenha sido assim tão longo, mas ninguém aguenta ficar tanto sem festa. Um vinhozinho quente não faz mal a ninguém, muito menos um bolinho de fubá. E a fogueira?

Ela estava lá, no meio da rua. Troncos grossos, gravetos, madeira, tudo sendo consumido. Poucos olhos a alcançavam, ainda que o calor nos aquecesse a todos. Mas havia olhos que não desgrudavam das chamas. De tempos em tempos, mais lenha era colocada. Sem notar os olhos que a acompanhavam, titia sujava as mãos de cinzas e sentava diante das labaredas, como se buscasse o passado.

Porque o nosso passado se liga diretamente às chamas de uma fogueira. Meu avô nasceu em vinte e três de junho. Chamava-se João por gratidão ao santo homônimo que nasceu um dia depois. Ao longo da vida, ele uniu devoção à comemoração, e construiu fogueiras. A cada ano completado, uns centímetros a mais de labareda. A cada festa celebrada, mais a tradição se firmava. Por isso, titia contemplava a fogueira com olhos d’água.

Por isso, também, comemoramos o São João todos os anos. Dessa vez, foram duas festas. A primeira, de mamãe. Povo reunido, altar, flores, Ave-Marias e boca pra que te quero. O cantochão sanfonado, triangulado e zabumbado se arrastou por toda a noite. Em certo momento, o padre, no meio do salão, convocou os noivos. O casamento mais importante da História se deu, e a frase “se alguém é contra esse casamento, que fale agora ou se cale para sempre” foi dita novamente. E “caminho da roça”. Uma quadrilha improvisada arrebanhou os convidados que, persistentes, se arrastaram no “cestinho de flor / cadeirinha do amor” mais saboroso de todos.

Semanas depois, foi a festa de titia. Rua fechada, mesas e cadeiras no lugar dos carros, e olhos atentos ao vagar do tempo. Mesa repleta, caixa de som ecoando, quadrilha de improviso. As bocas não pararam, ora levando para dentro gostos e texturas, ora exalando vocábulos de um tempo que parece não mais existir. Mamãe e titia juntas se instalaram na infância distante. E, dessa vez, havia o fogo.

Um fogo primordial, que empresta à festa todo o seu colorido e o seu calor. Numa noite fria, as chamas nos lembraram que ainda é possível aquecer e aconchegar. Um fogo de origem, que forja no espírito o gosto pela festa e pela memória. A memória de vovô, que era evocada por titia sentada em sua cadeira, imersa no silêncio contemplativo das chamas que acabara de incitar.

Herança nossa, coletiva, espalhada entre os adultos e as crianças ali presentes. Lembrança de São João, e de vovô João, que nos ensinou o amor pela luz balão, agora, não a do sol, mas a da noite, que foi tecida sob nossos olhos, palavra por palavra, centelha da nossa doce fogueira.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

.: Dez motivos para ler "O Pai, a Faca e o Beijo", de Thiago Sobral


Romance de estreia de Thiago Sobral mergulha em violência familiar, desejo, fé, racismo, homofobia e culpa para construir uma história em que ninguém é completamente inocente

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com

Poucas coisas são tão literárias quanto descobrir que o monstro da história pode ter sido vítima antes de virar monstro e que isso, definitivamente, não resolve o problema. Nessa história, há um pai morto, um filho tentando justificar o injustificável, um amor que poderia ter sido e uma cidade pequena onde todo mundo parece saber da vida alheia antes mesmo de a própria pessoa descobrir. É desse material inflamável que Thiago Sobral constrói "O Pai, a Faca e o Beijo", romance de estreia publicado pela Editora Patuá, que será lançado neste sábado, dia 5 de setembro, às 16h00, na Casa das Culturas de Santos. Domingo, dia 6 de setembro, às 14h00, o lançamento será na Bienal Internacional do Livro, no Estande K45 da Editora Pauá.

Ambientado em Cubatão, no litoral de São Paulo, o livro acompanha Santiago e Davi, o Pirueta, em uma relação marcada por desejo, rejeição, violência e uma quantidade considerável de coisas que poderiam ter sido resolvidas com uma conversa. Ex-seminarista franciscano e professor de Língua Portuguesa, Thiago Sobral leva para a ficção questões ligadas à fé, à moral, à família e às contradições humanas. O resultado é um romance seco, provocador e pouco interessado em oferecer ao leitor aquela sobremesa reconfortante chamada redenção.

O próprio autor explica que escreveu a história a partir da ideia freudiana de “matar o pai”, explorada em "Totem e Tabu", relacionando a morte do patriarca à busca de liberdade de Santiago. Depois do crime, porém, o personagem percebe que eliminar o pai não significa necessariamente eliminar aquilo que o pai deixou dentro dele. O romance também nasceu de uma provocação que Sobral ouviu em uma conversa, em 2022, quando alguém afirmou que, para o Brasil “ir para frente”, seria preciso “matar o seu pai”. A frase ficou rondando a cabeça do escritor até virar literatura. Em 2025, depois de retomar o projeto, ele pesquisou casos reais de parricídio e conceitos da psicanálise para dar corpo à narrativa. A seguir, dez motivos para colocar "O Pai, a Faca e o Beijo" na lista de próximas leituras. Compre o livro "O Pai, a Faca e o Beijo", de Thiago Sobral, neste link.


1. Romance transforma o conflito entre pai e filho em uma guerra psicológica
Santiago e Severo não travam apenas uma disputa doméstica. O relacionamento entre os dois concentra violência, medo, desejo de aceitação e uma tentativa desesperada de romper com aquilo que o personagem entende como origem de todos os seus problemas. O resultado é uma relação familiar em que cada gesto parece carregar uma conta antiga. Santiago acredita que matar o pai poderá libertá-lo.


2. Um protagonista difícil de defender
Santiago está longe de ser um "mocinho de estimação". Negro e homossexual, ele carrega o peso do racismo e da homofobia, mas também reproduz contra si e contra os outros parte da violência que sofreu. É homossexual e homofóbico, racista e vítima do racismo, desejante e repressivo, amoroso e cruel. Essa coleção de contradições torna o personagem incômodo e difícil de digerir.


3. O livro pergunta se violência sofrida pode justificar violência cometida
Severo acredita estar protegendo o filho. As agressões são apresentadas por ele como uma forma de educação e de prevenção contra sofrimentos futuros. A mãe relativiza. Os irmãos reproduzem comportamentos. Santiago absorve tudo e, depois, despeja parte dessa brutalidade sobre Davi. Thiago Sobral transforma a violência em uma engrenagem familiar. Quem bate acredita corrigir. Quem se omite acredita evitar problemas. Quem sofre pode acabar repetindo o comportamento que aprendeu. A pergunta fica para o leitor: compreender a origem de uma violência significa perdoá-la?


4. Freud explica e entra na história de maneira indireta
A ideia de “matar o pai” percorre o romance como metáfora de libertação. Thiago Sobral, mesmo que de maneira indireta, mergulhou em "Totem e Tabu", de Sigmund Freud, para construir a relação de Santiago com o pai morto e explorar a ideia de ruptura com a figura paterna. O detalhe mais interessante está na falha dessa libertação. Santiago mata o pai, mas não consegue matar aquilo que carrega dentro de si. A faca resolve uma parte do problema. O restante continua andando pela casa. Como resolver essa situação?


5. Cubatão, que já foi a cidade mais poluída do mundo, deixa de ser cenário e ganha personalidade
Localizada no litoral de São Paulo, Cubatão já foi considerada a cidade mais poluída do mundo pela ONU na década de 1980 e ficou conhecida como "Vale da Morte". Na geografia apertada entre a Serra do Mar, rios, mangues e a área industrial, a atmosfera da narrativa é construída. Thiago Sobral relaciona o espaço físico da cidade ao comportamento dos personagens e à sensação de sufocamento experimentada por Santiago. A própria indústria, com calor e fuligem, reforça essa atmosfera. Cubatão também aparece como território do julgamento. Em lugar pequeno, uma vida privada pode durar pouco tempo antes de virar assunto público.


6. A experiência religiosa do autor aparece sem virar catecismo
Thiago Sobral foi seminarista franciscano, e essa formação inevitavelmente deixa marcas na literatura. O romance trabalha com religião, fé, culpa e moralidade, mas não oferece respostas religiosas mastigadas. O padre Jorge, por exemplo, surge como personagem capaz de apresentar outra possibilidade de relação com a fé, enquanto a instituição religiosa aparece cercada pelas próprias limitações. No contexto do livro, a literatura não substitui a religião, mas pode abrir caminhos e possibilidades para o leitor.

7. Desejo, liberdade e um amor possível, desde que disposto
O personagem Davi, o Pirueta, funciona como contraponto ao protagonista. Ligado à dança, à poesia e à expressão artística, ele carrega uma relação diferente com o próprio corpo, com o desejo e com a liberdade. Enquanto Santiago se debate contra aquilo que sente, Davi parece encontrar na arte uma forma de existir. A relação entre os dois, por isso, ganha uma dimensão que ultrapassa o romance amoroso convencional. O beijo do título não é apenas um gesto de afeto. Ele também representa tudo aquilo que Santiago deseja e, ao mesmo tempo, rejeita.


8. Livro aposta na oralidade e na voz própria dos personagens
Thiago Sobral afirma que buscou reproduzir a oralidade típica de famílias cubatenses formadas por migrantes nordestinos, incluindo referências à própria história familiar. Os diálogos carregam insinuações, ironias, desconfianças e lacunas. Essa escolha aproxima o romance da vida cotidiana e evita personagens que parecem ter saído de um manual de literatura e desembarcado diretamente na página.


9. Machado de Assis aparece como influência sem virar fantasia de imitador
A ironia e a recusa de absolver os personagens aproximam o romance "O Pai, a Faca e o Beijo" da tradição machadiana. A referência está no prazer de observar seres humanos cometendo erros enquanto encontram excelentes justificativas para continuar cometendo os mesmos erros. O resultado é uma narrativa que desconfia das versões oficiais de todos aos fatos que vivem, inclusive daquela contada pelo próprio protagonista.


10. Romance se recusa a entregar a catarse que o leitor espera
"O Pai, a Faca e o Beijo" cria expectativas de reconciliação, redenção e libertação, mas não oferece nenhuma garantia de que isso vá acontecer. Thiago Sobral afirma que a literatura depende da cumplicidade do leitor e afirma que uma mesma narrativa pode produzir histórias diferentes a cada leitura. Diferentes leitores podem querer salvar Santiago, condená-lo, compreendê-lo ou simplesmente mandar todo mundo para terapia, uma alternativa que, infelizmente, não parece estar disponível no universo do livro.

Serviço | Lançamento de "O Pai, a Faca e o Beijo", de Thiago Sobral

Casa das Culturas de Santos
Sábado, dia 5 de setembro, às 16h00
Rua Sete de Setembro, 49 - Vila Nova / Santos

Bienal Internacional do Livro de São Paulo
Domingo, dia 6 de setembro, às 14h00
Estande K45 da Editora Pauá

domingo, 26 de julho de 2026

.: Entrevista: Thiago Sobral, o homem que ousou matar o pai na ficção


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

No romance de estreia "O Pai, a Faca e o Beijo", escrito por Thiago Sobral, a conversa começa depois do que não tem volta: um filho diante do corpo do pai, tentando organizar a própria versão enquanto empurra todo o resto para fora do quadro. Não há espaço para testemunha, só para a fala que é despejada ali. A cidade observa de perto, como sempre, e o silêncio pesa mais do que qualquer grito.

O romance lançado pela Editora Patuá avança em cima de cortes secos, pistas falsas, desvios  e o leitor fica ali, insistindo, mesmo quando já entendeu o terreno em que está pisando. Ex-seminarista, professor, escritor estreante pela Patuá, o autor prefere o atrito à acomodação. Nesta entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, ele fala de desconfiança, linguagem, fé sem amparo e personagens que não buscam aprovação dos leitores, o que torna tudo mais interessante. Compre o livro "O Pai, a Faca e o Beijo", escrito por Thiago Sobral, neste link.


Resenhando.com - Seu romance parece sabotar o leitor o tempo todo: quando ele pensa que encontrou um afeto, ou quando espera redenção, você oferece outra coisa. Escrever, para você, é um gesto de desconfiança?
Thiago Sobral - Acredito, em partes, que sim. Desconfiança das verdades estabelecidas, das certezas inquebrantáveis. No caso de “O Pai, a Faca e o Beijo”, o leitor talvez pense que, por tratar da relação entre pai e filho, encontre alguma esperança ou possibilidade de redenção, como em tantas outras histórias que se constroem em torno disso, como a parábola do Filho Pródigo, por exemplo. Mas, na história de Santiago e Severo, temos um filho que sofreu muito com as várias violências praticadas pelo pai. Por conta disso, ele não consegue mais olhar para o lado, dialogar com as diferenças e que, por isso, busca, de todas as formas, justificar o parricídio que acabou de cometer. Nessa tentativa, ele conta a sua versão dos fatos. Versão essa que não deixa espaço para a interferência das outras personagens. Todas as possibilidades de construir um novo olhar, de se abrir a novos sentimentos e experimentar novos afetos são sumariamente ignoradas. A pergunta que surge é: Santiago age assim porque é fruto de tudo isso, ou porque escolhe se fechar a qualquer possibilidade de agir e ser diferente?


Resenhando.com - Santiago é um personagem que concentra contradições quase insuportáveis, já que encarna aquilo que combate. Em algum momento você temeu que ele se tornasse tão intragável a ponto de o público não torcer por ele?
Thiago Sobral - Eu quis construir um personagem que, de cara, fosse identificado como vítima e que, ao longo da história, oferecesse elementos capazes de justificar o seu crime e assim ganhasse a confiança do leitor. Justamente por isso, penso que, por mais que sinta vontade de abandoná-lo em seu próprio ódio e condená-lo pelo seu ato, o leitor ainda torce por ele, deseja que supere tudo aquilo e encontre o seu caminho. As possibilidades existem, alguns personagens tentam fazê-lo enxerga-las. E é por isso que o leitor, talvez, deseje, até o final, que tudo acabe bem.


Resenhando.com - No seu livro, a violência aparece como forma de cuidado, omissão e até desejo. Você diria que a forma mais cruel de agressão é aquela que consegue se disfarçar de amor?
Thiago Sobral - Ah, sem dúvida. Quase sempre, nas relações humanas das quais se espera o cuidado, a violência é justificada por quem a pratica. As surras, as palavras pesadas, as ofensas, os puxões de orelha são sempre dados na tentativa de se evitar que algo ruim aconteça. No caso do Severo, ele esperava livrar o filho de certos sofrimentos e, principalmente, de julgamentos morais. Ioiô, a mãe, tenta convencer o filho de que aquele é o jeito do pai e que, uma hora ele vai mudar. Os irmãos homens de Santiago reproduzem aquilo que veem em seu dia a dia. E o próprio Santi reproduz essa violência com seu amigo Davi, seja no ato sexual em si, seja com as palavras que dirige a ele em cada tentativa de afeto recebido. No fim, a violência aparece como parte natural da vida daquela família e como substituta do diálogo, que nunca acontece por completo, porque não são capazes de se abrir à experiência com o outro, ao universo do próximo. Cada um se fecha em suas próprias verdades. E quando não se dialoga, o que resta é a tentativa de impor ao outro as suas próprias convicções; e, por não haver palavra trocada, restam puxões de cabelo, tapas, socos e xingamentos.


Resenhando.com - Severo, o pai opressor, parece agir movido por uma lógica interna que, para ele, faz sentido. O que mais interessava a você ao construí-lo: denunciar a violência ou revelar o quanto ela pode ser racionalizada por quem a pratica?
Thiago Sobral - Na cabeça do Severo, aquela era a melhor forma de educar o filho. Não eram atitudes inconscientes ou impulsivas. Ele queria livrar Santiago de coisas que ele mesmo julgava conhecer bem. E é muito comum nos depararmos com pessoas que pensam assim. Em minha trajetória como professor, já me deparei com pais que pensam e agem dessa forma. Quantas e quantas vezes não já ouvimos a frase: “Isso é falta de surra!”? Ou “Dou uns tapas que aí vira homem rapidinho!”? Então, a violência, nesses casos, é racionalizada, revela-se como um método e é quase institucionalizada. Quanta polêmica não foi feita na época em que se debateu a “Lei da Palmada”? Muita gente pensa que é um direito dos pais corrigirem os filhos com violência, quando julgarem necessário. Tivemos um caso recente no Paraná, de um pai que chutou a filha de três anos. Então, além de denunciar a violência sofrida por muitos filhos, eu quis, sobretudo, mostrar que ela não é mero fruto do acaso. Antes, faz parte de uma estrutura, de um arranjo social muito antigo e que está aos poucos sendo questionado e combatido. Mas ainda é preciso que se faça muito mais nesse campo. Para tornar a reflexão ainda mais complexa, o livro quer propor mais uma reflexão: as violências sofridas por Santiago justificam o crime que ele cometeu?
 

Resenhando.com - A cidade de Cubatão não aparece apenas como cenário, mas como uma espécie de personagem que vigia, regula e rotula. Até que ponto a geografia, na sua escrita, é responsável pelo fracasso das relações?
Thiago Sobral - O espaço que se habita sempre exerce alguma influência sobre nós. O Determinismo, de Hippolyte Taine, ofereceu algumas ferramentas aos escritores naturalistas e estas exercem alguma influência sobre a minha literatura, embora não haja, de minha parte, uma adesão plena a esse pensamento. Mas todo cubatense compartilha, de alguma forma, um instinto bisbilhoteiro e comentador dos fatos cotidianos. Nossa geografia, espremida pela Serra do Mar, e bairros entrecortados por rios e mangues, nos aglutina de tal maneira, que, muitas vezes, temos a sensação de conhecer e saber alguma coisa sobre todo mundo. Além disso, temos as fábricas que ocupam parte significativa desse território, lançam muita fuligem no ar e esquentam a atmosfera, de modo que tudo parece sempre muito abafado. Morar em Cubatão é sufocante em boa parte do ano. E boa parte da vida, dos desejos e da personalidade de Santiago é também sufocada por ele em mesmo e pela vizinhança. Talvez por isso, a despeito da riqueza que a cidade arrecada com os impostos, seja, ainda hoje, um lugar que precisa se desenvolver e superar alguns fracassos do passado que insistem em nos marcar até os dias atuais.
 

Resenhando.com - Sua experiência como ex-seminarista aparece, de alguma maneira, no romance. Mas a fé que aparece ali não dá o conforto que as pessoas esperam de um ex-religioso. A literatura, para você, substitui a religião ou continua sendo uma forma de oração, ainda que sem resposta?
Thiago Sobral - Vejo a religião como uma institucionalização da fé. Por isso, não. A literatura não substitui a religião, embora muitos a coloquem num altar sacrossanto inalcançável. Gostei dessa ideia de ser uma forma de oração, sobretudo porque me faz pensar na experiência que orar proporciona ao que crê. É um ato de elevar o pensamento, vocalizar sentimentos e expressar desejos. A oração é a via-expressa utilizada por aquele que crê para se aproximar do Mistério Absoluto, do Totalmente Outro. Justamente por isso, nela não se encontra certeza, apenas se confia. A literatura também não nos dá certezas, antes, apresenta-nos caminhos, mostra possibilidades e, inclusive, nos permite viver aquilo que não cabe em uma única existência, podendo nos dar um gostinho de vida eterna. No livro, a religião surge como forma de opressão e de aprisionamento. Ainda que o personagem padre Jorge tente mostrar uma outra religião, aquela que se mantém fiel à “Inspiração da Boa Nova”, a que se sobrepõe é a “Instituição” religiosa. Essa coloca algemas no sacerdote, um peso sobre Severo e uma falsa convicção em Santiago. O que surge como outra possibilidade é o espírito artístico de Davi, o Pirueta, que, com sua dança e seus versos, nos deixa uma carta que se mostra quase como uma litania a Santi e um louvor ao amor e à vida.


Resenhando.com - Há ecos claros de Machado de Assis na sua ironia e no modo como você recusa absolver seus personagens. O que interessa mais a você nos diálogos que você escreve e nas tramas que constrói?
Thiago Sobral - Ao construir um personagem, é fundamental que ele tenha voz própria e que essa voz revele muito mais do que as palavras que ele diz. “O Pai, a Faca e o Beijo” é um livro que se constrói pelo que não é dito, mas que está ali; por aquilo que poderia ter sido, mas não foi. Assim, os diálogos pretendem revelar as intenções e a psicologia de cada personagem. Também busquei retratar a oralidade típica de muitas famílias cubatenses, que são formadas por migrantes nordestinos, como ocorre com a minha própria família. Para além disso, há lacunas frequentes nos diálogos entre Severo e Santiago, há insinuações, desconfianças, covardias e ironias que vão permeando as palavras ditas e não ditas. Os capítulos em que Santiago conversa diretamente com o cadáver do pai são carregados de sinceridade, ainda que esta seja calcada numa certa ilusão. Ao longo de praticamente toda a história, a forma como as falas do pai é apresentada traz quase que uma chave de leitura para todo o romance, mas que deixo para o leitor interpretar e decidir.


Resenhando.com - Em vários momentos, o leitor se vê torcendo pelo impossível, numa espécie de tentativa de salvar alguém que não está disposto a ser salvo. Você acredita que a literatura ainda pode operar algum tipo de redenção ou isso já é uma ilusão que o seu livro desmonta?
Thiago Sobral - A literatura, por si só, não opera nada. Ao mesmo tempo, a literatura pode tudo, desde que o leitor se coloque como cúmplice do que lê. Uma história só funciona realmente quando um pacto tácito e secreto é selado entre o narrador e o leitor. Feito isso, uma nova história nasce a cada leitura que se conclui de uma mesma narrativa. E é justamente essa nova história que pode operar tudo, seja uma redenção ou uma condenação. Meu livro pode levar a crer que não há redenção, mas isso ocorre por que as chances foram esgotadas, ou por que aquele que poderia redimir se recusou a olhar para os lados e enxergar outras possibilidades? Por fim, resta-nos pensar em quantas vezes não somos nós mesmos os culpados pelos fracassos e assassinatos metafóricos que cometemos ao longo da vida.


Resenhando.com - A ideia freudiana de “matar o pai” aparece como um gesto simbólico de liberdade. No seu romance, essa ruptura parece sempre incompleta. Existe liberdade possível sem destruição total?
Thiago Sobral - Essa é uma questão interessante, porque ela alcança o cerne do romance. Para escrever essa história, mergulhei no pensamento de Freud a partir dos escritos de “Totem e Tabu”. Essa ideia de matar o pai tirano para ocupar o seu lugar e assim gozar da liberdade e dos privilégios que tal posição lhe daria aparece frequentemente na conversa de Santiago com o pai defunto. Santi acredita piamente que todos os seus problemas decorrem de sua relação com o pai: o medo de que ele tenha certeza de sua orientação sexual, as surras que levou na infância e adolescência, a pele negra que ele tanto odeia e da qual se envergonha. Tudo isso forma a “herança maldita” à qual ele se refere ao longo da história e que alimenta seu discurso de ódio e preconceito contra os irmãos e contra si mesmo e que, inconscientemente, recai sobre Davi. Apesar de tudo isso, ele vai levando a vida, até que uma descoberta torna tudo insuportável para ele. É nesse momento em que seu complexo de Édipo invertido não superado se torna latente que ele passa a acreditar que o assassinato do pai será a via para a sua libertação. Porém, ao cometer o crime, se dá conta de que as coisas não são bem assim e tenta se convencer do contrário. No fim, ele destrói muita coisa, mas não destrói o principal, que está dentro de si mesmo. Por fim, não sei se é preciso destruição total para se alcançar a liberdade. Sei apenas que precisamos soltar a mão de certas coisas para que possamos ser aquilo que a nossa natureza pede de nós mesmos.
 

Resenhando.com - “O Pai, a Faca e o Beijo” termina sem oferecer catarse. Em um mercado editorial que muitas vezes aposta no conforto, você escolheu o incômodo. Escrever hoje é, para você, também uma forma de contrariar expectativas, um ato de indisciplina?
Thiago Sobral - Escrever exige, antes de tudo, constância e disciplina. Penso que justamente isso, constância e disciplina, seja uma forma eficaz de contrariar expectativas e fugir da “disciplina” adotada por muitos e, portanto uma “indisciplina” contemporânea. Esse paradoxo, acredito, perpassa o dia a dia de todo escritor, porque precisamos, muitas vezes, nos refugiarmos numa outra lógica, fora do tempo e do espaço que se constroem hoje. É como se a matéria de nossa dedicação (a palavra) precise ser buscada em lugares pouco frequentados. Não quero com isso dizer que o ofício do escritor seja algo elevado, superior. Muito pelo contrário. A palavra está na “vida ao rés do chão”, como disse o mestre Antônio Candido. Embora ele tenha usado essa expressão para se referir à crônica, penso que todo escritor precisa sentir a poeira da terra, “lamber o chão” para penetrar surdamente no reino das palavras e trazer à vida uma nova história. E isso é encarado como algo natural, ossos do ofício, pois não há nada de extraordinário na literatura. Ao mesmo tempo, ela é uma ação sublime capaz de dar ao leitor novas lentes para ver e decifrar o mundo.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

.: Manual Crônico: Nome de garçom... Bastião, meu chapa, traz mais uma!


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site 
Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.


O universo já esteve em minhas mãos. Como já não sou garçom, ele não está mais. Pois, ser garçom imprime no sujeito uma universalidade rara de alcançar. Em mim, durou cerca de seis meses, e nada mais.

Se o amigo não sabe, o garçom atende por vários nomes, ainda que nenhum conste em sua certidão de batismo. Um bom frequentador de restaurantes, botecos, pizzarias e frege-moscas que se preze tem o dom de olhar para aquele que carrega a bandeja e dar-lhe um nome. Não um nome qualquer, mas aquele que mais convém ao momento. Pode ser João, pode ser Severino, Luiz (mas tem que ser com Z), Manuel (com U), Zé Carlos, Ubaldo etc. Não há regra. Há o instante, a cara do garçom, e a inspiração.

Eu já tive alguns, poucos. Garanto que fui um garçom mais ou menos, e, portanto, recebi certas alcunhas. A única mancha verdadeira em meu currículo é não ter servido num boteco do tipo “copo-sujo”, pois este é o auge da carreira de qualquer garçom. É nele que se alcançam os codinomes mais sublimes, colecionam-se os mais criativos heterônimos, angariam-se os mais perfeitos apelidos, ou, se o leitor tiver alma de artista, pseudônimos.

Digo isso porque os frequentadores dos copo-sujos — ou frege-moscas — são os melhores que há. Geralmente, estão de bem com a vida, ou de coração partido, e isso rende assunto, movimenta pés e mãos, e marca-se a carreira. É comum que tais clientes carreguem sobre o lábio superior farta bigodeira e, ao final, retribuam alguma gorjeta, nem sempre gorda como o bigode, mas, ainda assim, gorjeta. Sem contar os nomes. E que nomes!

O atento leitor deve estar se perguntando como sei de tudo isso, se nunca servi num frege-moscas. Bom, se não servi…

Antes, servi numa requintada e falida pizzaria de minha cidade natal, nos idos anos dois mil. Dois mil e cinco, para ser exato. Lá, os clientes vinham de todas as classes sociais, com todos os gostos (alguns até com belos bigodes), mas não eram bons em dar nomes. Faltava-lhes, penso, ovos coloridos, linguiça acebolada e moela ao molho, junto com um bom rabo de galo, e uma vasta coleção de copos americanos trincados. Havendo isso, certamente se tornariam bons nomeadores.

Da pizzaria restou apenas a pizza portuguesa requentada que comíamos ao final do expediente e que, até hoje, me pinça a memória sempre que como uma pizza portuguesa contemporânea. De nome, ganhei apenas um Luís bem mequetrefe (certeza que era com S) ou um Joaquim qualquer… Nada de um potente Oswaldo, ou um violento Jeremias, muito menos um exótico Nicodemos. Nicodemos é elite, o suprassumo, o auge da carreira garçônica. E se você não concorda é porque não tem um bigode farto.

Mesmo sendo professor, sou um exímio equilibrista de copos (garanto que isso veio da experiência como garçom), só não sei se me tornei um bom cliente. Cultivo o bigode — ainda que grudado à barba —, mas estou em débito com os botequins. Os frege-moscas não me veem há muito tempo, os copo-sujos hoje devem me achar um distinto senhor esnobe, o que me envergonha. A prova disso, conto-a agora:

Era um exemplar boteco copo-sujo, não apenas metafórico: os fundilhos do americano traziam uma camada de poeira fina e acinzentada. Isso talvez não seja mentira, apesar dos dez anos que separam estas linhas da ocorrência do fato. O copo era sujo tanto quanto a minha intenção. Nesta minha última e saudosa vez em um frege-moscas, avistei o garçom, que gabaritava o figurino: calças pretas, sapato social de sola gasta, camisa de botões branca amarelada, um pano de prato encardido sobre o ombro, olhar cansado, mas sorridente e acolhedor, encimado por ampla testa, emendando com a calva.

De início, aproximou-se solicito:

Bom dia, doutor! — esparramou o pano de prato encardido na mesa. — Vai aquela gelada?

Até queria — soltei um sorriso de cachorro pidão —, mas tá cedo, né?

— Passarinho que não deve nada a ninguém tá de pé desde cedo, doutor. — Esboçou um sorriso cúmplice.

Tem razão. Mas só uma, viu. — Assenti, satisfeito com a cumplicidade já esperada.

Sem que eu percebesse o tempo correr, logo a quarta cerveja já estava na mesa. Nem meio-dia ainda. E o meu amigo já suava em bicas, correndo de uma mesa à outra, espantando os mosquitos e enxugando a calva com o pano de prato roto. O frege-moscas fervia.

Na quinta cerveja, já estávamos íntimos. Era doutor pra cá, patrão pra lá. E a família, como está? O menino vai bem na escola? (Eu ainda não tinha menino). Semana quase acabando, meu peixe. Vai trabalhar no sábado? Acho que vai dar praia. Amizade forjada em copo americano é para a vida toda. Mas e o nome? Como eu ainda não havia arriscado um nome? Péssimo cliente, eu…

Bastião, meu chapa, traz mais uma! A sexta, né?

Sétima — respondeu entre dentes.

A sétima, isso! — sorri, já de olhos cruzados.

O Bastião trouxe a sétima, sisudo.

Tá tudo bem, meu patrão? Cansado, né? — expressei minha solidariedade ante a mudança de humor repentina.

Bastião, doutor? Bastião?!

Não gostou? Desculpe. — O impossível parecia acontecer.

Não é que não gostei… É que… é… esse é meu nome mesmo.

Acabou-se a amizade. A oitava não veio…

quinta-feira, 7 de maio de 2026

.: Manual Crônico: “Sabor média”, a nova e triste receita


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site 
Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.

Como não apareço por aqui há algum tempo, penso que a dona de casa esteja com saudade - ou deveria, pelo menos. E, por isso, o paciente leitor há de ouvir, de forma condescendente, as minhas lamúrias advindas do mau trabalho feito pelos padeiros de hoje em dia.

Pois bem. A média pode ser muita coisa. Podemos andar por aí a fazer média com nossos pares. A Matemática nos deu a média aritmética, que tanto custou a entrar em meus miolos. O Direito nos informa sobre o homem médio, que não sei bem pra que serve. E as padarias, universo afora, servem aos clientes a boa e velha média que, para Noel Rosa, não pode ser requentada.

Por aqui, a coisa é diferente. A média de sempre não é média, é pingado, ainda que ali a proporção de leite e café vá além de um simples pingo. Não obstante as diferenças terminológicas, a coisa vai de mal a pior. Veja bem: aqui em nossa província santista (como diz um amigo cronista da região), a média não apresenta estado líquido. Ela é sólida, muito sólida e, hoje em dia, quase um tijolo. E os padeiros… ah, os padeiros! Meu amigo! Eu não sei bem o que está acontecendo com as padarias por aí. Não sei se são todas, mas sei que são muitas.

Talvez o curioso leitor esteja se perguntando o porquê de eu estar metendo o padeiro num assunto sobre média, pois, na prática, não é ele quem prepara e serve a média comum, saboreada por quase todos. Digo quase todos, porque aqui na Baixada não bebemos a média, mas a comemos - ou comíamos, não sei mais… E acabo de me dar conta de que ainda não informei o que é, para nós, a média.

Voilà:

A média aqui é pão. Sim, pão. Aquele pão gostoso, crocante, salgado, composto por apenas quatro ingredientes básicos: farinha de trigo, água, sal e fermento biológico. A boa e velha média, que hoje se tem que buscar à padaria, mas que antes chegava à porta de casa, cedinho, pelas mãos do padeiro, que dizia “não é ninguém, não. É o padeiro”, e nos despreocupávamos da pressa — a não ser que tivéssemos pressa para comê-la quentinha.

Esse mesmo pão, que por aqui se nomeia média, é, em outros lugares, pão de sal, pão francês, cacetinho, pãozinho, pão de trigo, carioquinha, pão careca, pão Jacó, filão, pão de massa grossa, ou o que se queira dizer para nomeá-lo, agora é um ex-manjar dos deuses.

Triste, muito triste…

E a culpa só pode ser dos padeiros. Se não deles, então, dos donos das padocas, que, certamente, seguindo a onda de simplificação na composição dos alimentos, tentam economizar nos ingredientes. Não encontro mais por aqui a boa e velha média, a crocante e saborosa média. Aquela que cabe na boca a cada bocada e faz crec crec durante a manducação. Antes, recebo da moça no balcão uma massa disforme, grande e boluda, que mais se assemelha a um sapo boi.

Indignadamente, protesto contra os padeiros! Abaixo os donos muquiranas das padocas contemporâneas! Sejam honestos e informem nas vitrinas de cada padaria: NESTE ESTABELECIMENTO VENDEMOS PÃO “SABOR MÉDIA”. “Sabor média”, entendeu? Porque média, mesmo, a verdadeira média da Baixada Santista, não existe mais.

Uma pena.

Compre o livro "O Pai, a Faca e o Beijo", de Thiago Sobral, neste link.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

.: Entre "O Pai, a Faca e o Beijo", Thiago Sobral escreve o romance da omissão


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com

Há romances que não se contentam em apenas contar uma história. Eles cutucam, provocam, obrigam o leitor a encarar a vida de uma maneira mais pragmática. "O Pai, a Faca e o Beijo", de Thiago Sobral, é um desses livros que estabelece uma relação de gato e rato com o leitor justamente porque não entrega facilmente o que ele quer. A cada página desse excelente livro de estreia, publicado pela Editora Patuá, a sensação é de se estar diante de uma tragédia anunciada - e, ao mesmo tempo, a de testemunhar um beijo negado, ou acompanhar a trajetória daqueles que se suicidam em vida.

O romance gira em torno de Santiago e Davi, o “Pirueta”. À primeira vista, parece uma história simples: dois homens tentando se aproximar, ainda que cercados por obstáculos, o principal deles é o embate com um pai que faz o que faz para proteger o filho da maledicência de uma cidade pequena. Mas Sobral não entrega um romance de amor no molde previsível. Em vez disso, o autor cria um campo de batalha em que as palavras são mal-entendidas, cada gesto se converte em desentendimentos e cada omissão para evitar o confronto carrega mais peso do que qualquer briga consumada. 

Santiago é o retrato da desesperança: um jovem que parece já ter desistido de si mesmo. Ele também é um paradoxo ambulante: homossexual e homofóbico, negro e racista, puritano e promíscuo, apaixonado e cruel, detestável e vítima das circunstâncias. O protagonista despeja todo tipo de chorume verbal, na fala e nos pensamentos, e ainda assim o leitor insiste em torcer por ele, como se a esperança de redenção pudesse surgir exatamente de quem mais nega a própria possibilidade de mudança e, sobretudo, de ser feliz.

Esse jogo perverso de expectativas é uma das forças do livro. Thiago Sobral não oferece personagens fáceis, mas desafia o leitor a se apegar a eles mesmo assim, como quem insiste em cuidar de uma planta que já nasceu murcha. Essa insistência faz parte da experiência da leitura desse livro: torcer pelo impossível. Mas não são apenas Santiago e Davi que sustentam o enredo de personagens carismáticos e fortes. 

Ao redor deles, um coro de personagens secundários amplia a sensação de claustrofobia emocional. A mãe, apresentada como doce e pilar da família, falha justamente por se omitir - a bondade dela é uma forma de covardia. O padre, que poderia ser refúgio espiritual, é ao mesmo tempo hipócrita e humano até demais, pois também revela-se incapaz de escapar dos dilemas dele. E Severo, o pai opressor e antagonista do próprio filho, representa a insatisfação destilada em cada atitude controversa. 

A falta de conciliação é a espinha dorsal de um livro que se constrói sobre a falha, a omissão e a impossibilidade. Cada gesto que poderia resolver é adiado e cada fala que poderia curar é engolida em um universo onde ninguém é de ninguém e todos se rejeitam o tempo todo. A escrita de Thiago Sobral é impregnada de fé, que no livro não aparece como dogma, muito menos como consolo. O autor, ex-seminarista, sabe quando a religião aperta e escreve sobre espiritualidade sem devoção cega, nem medo de expor as contradições de um universo que insiste em pregar amor enquanto ignora conflitos que poderiam ser resolvidos com uma fala mais incisiva. É uma literatura de coragem porque não teme nomear a ferida.

A influência de Machado de Assis é visível. Não se trata de copiar estilo do Bruxo do Cosme Velho, mas de herdar a ironia fina, a capacidade de desmontar o humano pela sutileza, o gosto pelo pessimismo elegante. Thiago Sobral parece olhar para os personagens que ele cria com a mesma frieza do autor de "Dom Casmurro" diante de Bentinho e Capitu: sem absolvições fáceis e muito menos recorrer ao melodrama.

Curiosamente, a leitura também evoca o cinema. Como no clássico "Casablanca", há uma sensação de destino interrompido, de que os protagonistas sempre carregarão um espaço vazio, um amor não realizado, um “barraco” abandonado em Cubatão, cidade que é cenário de toda essa história, e que traz o peso de uma geografia real para dentro do mito da separação eterna."O Pai, a Faca e o Beijo" é uma ode à liberdade, que nasce do confronto com o que se tentou calar. 

É a liberdade que pode ser percebida nos escombros, no beijo interdito, no pai irredutível e violento, no filho em fuga, naquilo que se faz escondido e no que se varre para baixo do tapete. Não é exagero dizer que também é um soco no estômago. Não há catarse porque não há reconciliação, e talvez esteja aí a ousadia maior do livro: recusar ao leitor a ilusão de que a vida sempre encontra um jeito. Compre o livro "O Pai, a Faca e o Beijo", de Thiago Sobral, neste link.

domingo, 19 de abril de 2026

.: O caso do ônibus 911, e por que errar, às vezes, pode valer a pena


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.


Calma, agora não tem mais jeito. Vamos relaxar e olhar a paisagem  — foi o que disse a avó à neta e ao bisneto, ao perceberem que estavam no ônibus errado.

Era uma viagem curta e a intenção era utilizar apenas uma linha de ônibus. Mas devido a distrações, embarcaram no ônibus errado, o que provocou um nervosismo hostil na neta, que bradava a todos uma insatisfação modorrenta:

Vó, não fala comigo que não tô pra conversa! Já não sei mais o que fazer.

E a velhinha insistia, com uma doçura de dar inveja:

Se o ônibus mudou a placa, que culpa temos nós? Pergunta ao chofer se ele vai voltar por São Vicente, que aí ficamos nesse ônibus mesmo. Vamos aproveitar para conhecer mais um lugar.

E a viagem transcorreu daquele jeito: a jovem nervosa e áspera em suas palavras torturantes; a velhinha, serena como uma criança que acaba de nascer. Era possível ler em seu semblante — mesmo estando com a saúde debilitada — a alegria de que desfrutava, brotada de um erro. Já a neta, em plena saúde, apresentava um rosto obscuro por causa do erro causador do fatal atraso.

O bisneto assistia a tudo. Em alguns momentos até tentou intervir, questionando sobre o itinerário que o coletivo estava tomando, mas era prontamente interrompido pela inteligência da mãe, que o inibia peremptoriamente.

No fim das contas, desceram em Cubatão, onde tomaram outra condução, que os deixaria no lugar de destino.

No ônibus, permaneceu a saudade da senhorinha.

E o bisneto, como será? Está entre a cruz a espada. Tomara que se pareça mais com a bisavó.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

.: Manual Crônico: a carteira de mamãe, não qualquer carteira


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.
 

Mamãe não carrega mais a carteira, mas carregava. Não qualquer carteira, mas uma toda sua, cheia de graça e charme. Comprida, com um fecho frontal dourado e espaçosa o suficiente para que pudesse sustentar o mundo. Papai também tinha a sua, que nunca deixou de carregar consigo. Ia sempre no bolso traseiro da bermuda ou da calça. Nunca saía sem ela. Às vezes, dormia com a nádega direita protuberante. O apego aumentou depois que começou a emprestar dinheiro a juros aos amigos da rua. Coisa pouca, porque papai nunca quis ser agiota. Em seus últimos dias, a carteira estava rechonchuda.

Já mamãe era pouco apegada à sua. Seus bolsos não davam conta do tamanho da carteira, de modo que restava o sovaco como alcova. Dia de feira?, carteira no sovaco; hora do mercado?, carteira debaixo do braço; domingo de Missa?, carteira na axila. Assim, a carteira ia e vinha, sempre que se fazia necessário. Depois, nada de bolsinha de moedas, nada de depósito de cédulas, nada de algibeira de sovaco. Era como se não existisse.

Existia, sim, nessa época, um cheiro todo particular de mamãe. Não há motivo, mas sempre que esse cheiro me vem à memória, vem junto a carteira. Era uma época difícil: alta inflação, produtos caros, preços mudando o tempo todo, recursos escassos. Até o trabalho às vezes faltava. Mas nunca, nunca, a carteira de mamãe deixou faltar. Ainda que não soubéssemos dela no dia a dia, na hora do vamos ver, carteira sob o sovaco e prato cheio na mesa.

O sustento da casa era provido quase todo por papai. Mas a bolseira era mamãe. Sabia a dose de tudo. Pingava dia a dia o custo do aluguel, o peso do frango, o pirulito do recreio. Também com suas mãos produzia o recheio da carteira. Mamãe era doceira. Com bolos e quitutes adoçava os lábios da clientela e abrandava os apertos do fim do mês. Talvez por isso o cheiro que associo à mamãe, quando me lembro da carteira, seja doce.

Hoje, a carteira de papai virou relíquia. Mamãe não carrega mais a sua sob o sovaco, porque mamãe ficou moderna: usa cartão de débito e crédito e está em processo lento de conversão ao Pix. Mas o cheiro doce ainda insiste na memória, a hora da missa ainda desperta minha lembrança, e os apertos do fim do mês não a afligem mais. Em certos aspectos, eles me alcançam, de modo que sonho em ter uma carteira para carregar debaixo da axila.

Assim, peço aos senhores e senhoras que me leem: façamos um esforço, unamo-nos em uníssono e peçamos ao Ministro que crie o Pix de carteira sob o braço, que se possa carregar nas horas de apuros. Certamente, as crianças se sentirão mais seguras e saberão que para tudo se dá um jeito. Uma carteira debaixo do braço pode garantir o sossego mundial.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

.: Manual Crônico: Café para os vivos, o sabor da despedida


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", a ser publicado pela Editora Patuá.

Sem assunto na cabeça, pus-me a pensar no impensável: velórios. E por pensar muito sobre isso - uns cinco minutos, se muito - constatei que nunca fui a um velório que não ocorresse em minha cidade natal. Calma lá! Já velei alguns defuntos em outros lugares, mas velório, velório, mesmo, desses em lugar próprio para o ato, só em Cubatão. Os outros aconteceram em ambiente improvisado, ou em igreja.

Cabeça vazia, oficina do diabo. Por não ter o que pensar, o velório veio até mim, pela primeira vez. Porque, na verdade, sempre vamos aos velórios, ainda que contrariados. Quando se vela um amigo, um parente, um familiar, mal sobra tempo para as coisas interessantes que um velório pode oferecer. Mas quando vamos apenas por conhecer o defunto “de vista e de chapéu”, nossos olhos ficam secos e desimpedidos, aptos às peculiaridades que só um velório pode proporcionar.

Quando padres conhecidos meus morreram, o velório foi em igreja. Lembro-me do finado frei Lindolfo, que saiu a passear de monomotor, mas o teco-teco caiu. Adeus ao frade, que foi velado com rito e pompa na matriz de Ituporanga, em Santa Catarina. Nessa época, eu estava no meu primeiro ano de convento, com os franciscanos. O Carlinhos, seminarista como eu, sentiu-se culpado pela morte do religioso. Pouco antes da decolagem, ele havia se confessado com frei Lindolfo e julgava que o peso de seus pecados fizera o avião cair.

Difícil foi conter o riso em meio ao rito fúnebre dentro da igreja. Como pouco conhecíamos o padre-defunto, as anedotas correram soltas, à boca pequena. Os jovens seminaristas - eu à parte, claro - botavam reparo em tudo quanto era beata que se aproximava aos prantos do caixão exposto na nave central. Muito antes do padre do balão, conhecemos o frade do avião que caiu pelos pecados do Carlinhos.

Outro velório fora de um velório que fui foi o de minha vozinha. Esse, por ter acontecido há muito tempo, recebe as cores da minha memória infantil de nove anos. Tivemos que sair de Cubatão bem cedo, pois ela morava em São Bernardo do Campo. O velório aconteceu num salão de festas, ao que me lembro. Viramos a noite velando. Claro que não resisti e achei um canto que me serviu de cama improvisada. Houve tempo para o choro, fruto da saudade que eu já começava a sentir dela. Mas o que mais ficou na minha memória foi o pão com manteiga mais gostoso que comi em toda a minha vida. Até hoje me causa água na boca.

Agora em Cubatão… Lá, temos o velório Municipal, que frequentei bastante nos meus primeiros anos de adolescência. Ia porque acompanhava minha mãe às visitas ao túmulo de meu avô. Ao final, sempre dávamos uma passadinha no velório. São quatro salas, mais uma capela, que sempre acolhe um corpo extra, quando o número de defuntos aumenta.

Nessas visitas, sempre encontrávamos algum conhecido que conhecia o morto. Em meio a conversas e memórias, surgiam pontos de conexão com o defunto, o que virava ponte para o cafezinho. Ah, como eram bons aqueles velórios. Café de qualidade, cheiroso, bolachas macias, tortas, bolo de coco, de fubá, e tantas coisas…

Já nos velórios de hoje, seja em Cubatão, seja em outro lugar - nunca mais fui em velórios fora de Cubacity -, não se serve mais nada! O que aconteceu com a hospitalidade mortuária? Cadê a consideração com os amigos do defunto? Um cafezinho quente reconforta a perda, aconchega a viúva, atiça a fofoca aos mexeriqueiros, aproxima os amigos e incita o choro das carpideiras. Não larguemos essa tradição, pelo amor de quem morre!

Se eu estiver enganado, e se ainda houver velórios acolhedores, me informem, me atualizem, me convidem. E quando chegar o meu — nunca se sabe quando — que sirvam café, que haja bolo, que ofereçam chá (e uma pinguinha também, ou uma cervejinha, ou os dois, porque ninguém é de ferro; podem servir um tira-gosto, para agradar aos amigos), pois não quero convidado falando mal depois, dizendo que sentiu fome, nem cronista escrevendo sobre velórios com saudosismo barato. Depois, deixem que os mortos sepultem seus mortos, e partam para o samba. Antes, digam apenas consummatum est*, e sigam felizes sob minha memória.

* Tudo está consumado.

sexta-feira, 27 de março de 2026

.: Thiago Sobral: ex-seminarista encena, na ficção, o gesto de “matar o pai”


Thiago Sobral já foi seminarista e estreia na literatura com um romance polêmico que tem como pano de fundo a homossexualidade e teoria de Freud em "matar o próprio pai" para alcançar a liberdade. Foto: divulgação 


O romance “O Pai, a Faca e o Beijo”, de Thiago Sobral, será lançado no sábado, dia 11 de abril, a partir das 18h00, no Mangue Steak e Pub, em Cubatão, no litoral de São Paulo, marcando a estreia do autor pela Editora Patuá. Ex-seminarista com passagem ativa pela Igreja Católica, Sobral apresenta um livro que articula fé, violência e desejo ao colocar a homossexualidade no centro de uma história atravessada por conflitos familiares e repressão social, que se aproxima da noção formulada por Sigmund Freud sobre a necessidade simbólica de “matar o pai” como etapa de ruptura e construção da autonomia psíquica.

Ao colocar um autor com trajetória religiosa escrevendo sobre desejo, violência e identidade, o livro aposta na ousadia e se insere em um campo de debate que ultrapassa a literatura, ao tocar diretamente em questões sociais ainda marcadas pela repressão. A trama se passa em Cubatão e acompanha Santiago e Davi, o “Pirueta”, em uma relação atravessada por ruídos, omissões e agressividades que se disfarçam de cuidado.

O que poderia sugerir um romance amoroso convencional rapidamente se desarma. No lugar da previsibilidade, o autor constrói um campo de conflito contínuo, em que cada gesto falha e cada tentativa de aproximação amplia o abismo entre os personagens. O pai, Severo, acredita proteger o filho, mas sustenta uma dinâmica de opressão que atravessa toda a narrativa. Santiago é o tipo de protagonista que desafia qualquer leitura confortável. Contraditório ao extremo, ele encarna a violência que sofre e reproduz. O personagem oscila entre o desejo e a repulsa, o afeto e a crueldade, construindo uma figura que não tem qualquer chance de redenção.  

Ao redor desse núcleo, personagens secundários reforçam a atmosfera de claustrofobia. A mãe, que se apresenta como sustentação afetiva, revela-se paralisada pela omissão. O padre expõe contradições que desmontam qualquer idealização. O conjunto forma um retrato de relações marcadas por expectativas frustradas e afetos interrompidos.

A experiência de Thiago Sobral como ex-seminarista atravessa o texto sem transformar a fé em conforto. No romance, o autor expõe fissuras, hipocrisias e impasses morais com uma escrita que prefere o corte à ornamentação. Há ecos evidentes de Machado de Assis na construção irônica e no olhar distanciado sobre os personagens, ainda que o romance se sustente por uma voz própria, mais seca e direta.

Ambientado em Cubatão, o livro também incorpora a cidade como elemento narrativo. Além de cenário, a cidade litorânea aparece como algo que condiciona comportamentos, regula relações e amplia o peso do julgamento social. A geografia concreta contribui para a sensação de aprisionamento que atravessa toda a obra. 


Sinopse de "O Pai, a Faca e o Beijo"
No romance “O Pai, a Faca e o Beijo”, Thiago Sobral estreia na ficção com um romance tenso, seco e humano demais. A história de Santiago e Davi, o Pirueta, poderia sugerir um enredo amoroso convencional, mas logo se revela um campo minado de mal-entendidos e violências disfarçadas de cuidado. No centro desse embate, há um pai que acredita proteger o filho enquanto o destrói em uma cidade pequena que vigia, julga e aniquila personalidades. Santiago é um protagonista que ama e agride, deseja e rejeita, sofre e reproduz a mesma brutalidade que o cerca. Com uma formação marcada pela escuta do sagrado, o autor escreve sobre a vida real e expõe hipocrisias e impasses morais com coragem e precisão. Sob ecos de Machado de Assis, é um romance que aposta na liberdade que surge dos confrontos. Um livro incômodo, intenso e necessário.


Sobre o autor
Nasceu em 1987, em Cubatão, no litoral de São Paulo, e vive em Praia Grande. Professor de Língua Portuguesa na escola pública, aprendeu a ler e a escrever tanto na sala de aula quanto fora dela, em meio a livros, alunos e perguntas difíceis. Ex-seminarista franciscano, levou para a literatura o gosto pelo silêncio, pelo tempo interior e pelas contradições humanas, sempre desconfiando de respostas prontas. Leitor atento da tradição literária brasileira e estrangeira, prefere textos que confiam no leitor. Amante de gatos e cachorros, quase sempre mais atentos ao que os humanos deixam passar, encontra no cotidiano e nos gestos mínimos a matéria de sua escrita.


Serviço
Lançamento do livro "O Pai, a Faca e o Beijo"
Sábado, dia 11 de abril, a partir das 18h00
Mangue Steak e Pub - Praça Januário Esteves de Lara Dantas, 216 - Vila Nova - Cubatão/SP



quinta-feira, 26 de março de 2026

.: Manual Crônico: Doutor Cacareco, quando o mundo ficou maior


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", a ser publicado pela Editora Patuá.

O fusca amarelo chegava da rua e se posicionava em frente à garagem. Ninguém descia, mas o portão se abria e o carro adentrava a casinha formosa dos anos 50. Em seguida, bombons eram distribuídos às mãos prestativas, que se estendiam ávidas pelo doce e pelo sabor de saber que a infância ali era preservada e se estendia.

Do Doutor Cacareco da minha rua, pouco restou na minha memória. Quem foi criança nos anos 80 deve se lembrar de um programa infantil com esse nome. Eu não me lembro, mas sei que existiu, pois minha mãe apelidou assim o senhorzinho que morava três casas depois da minha, na rua João Damaso. Dizia que se pareciam, o da minha rua e o da TV. Pelo menos o bigode, acho que sim.

Porque o Doutor Cacareco - o da minha rua - era quietinho, tímido, silencioso, a ponto de quase chegar a nos causar medo. Não gostava de bagunça na rua, odiava que a bola caísse em seu quintal, nunca o víamos nas festas, na padaria ou na mesa do bar. Seu nome eu nunca soube. Soube apenas do fusca amarelo, da sua gentil esposa, sempre no banco do carona, dos bombons distribuídos às crianças que abriam o portão da garagem, do bigode e da careca. Ah, era franzino, magrinho, e usava óculos de armação discreta.

Não posso esquecer que o Doutor Cacareco tinha mãos de jardineiro. O quintal de muro baixo nos permitia contemplar flores e plantas plasmadas por uma estética que não sei… só sei que está aqui dentro até hoje. Isso sem falar da arvorezinha da calçada que ele cuidava, podava, e deixava a copa arredondada, ou geometricamente desenhada por sua tesoura habilidosa, que, num tec-tec rápido, moldava o seu mundo.

Certo dia, o Doutor Cacareco não estava tão sisudo assim, e a sua generosidade extrapolou a caixa de bombom. Abriu as portas da esperança de sua garagem com as próprias mãos e convidou a criançada para o quintal dos fundos. Meu Deus! Plantas e flores aos borbotões. Uma relva macia sob os pés. Um sol escaldante grudado no céu. E alguns pés de acerola diante dos meus olhos pela primeira vez na vida.

Podem colher à vontade - ouvi sua voz pela primeira vez.

Além dos olhos, meu paladar também teve o primeiro contato com a frutinha. Também havia maracujá, também havia goiaba, também havia manga, também havia tanta coisa que não sei ao certo quanta coisa havia. Mas sei que havia um mundo inteiro dentro do mundo do Doutor Cacareco. Foi porque o Doutor Cacareco nos abriu seu quintal que pude saber que o meu mundo era pequeno, já que três casas depois da minha havia um universo.

Depois desse dia, havia buzina do fusca amarelo ao se aproximar do portão. Havia “Olá, crianças” na voz rouca do Doutor Cacareco. Havia sorriso nos lábios finos do meu melhor vizinho. Havia graça no bigode espesso do dono do pomar. Havia mais cores nas partidas de futebol, havia mais cheiro doce no ar da rua João Damaso, havia mais sabor em saber que o Doutor Cacareco se tornara mais feliz. Um dia, farei um curso de jardinagem, farei estoque de bombons e comprarei um fusca amarelo. As crianças do futuro que me aguardem!

sexta-feira, 20 de março de 2026

.: Manual Crônico: Palavras, sem o Brasil o português não seria tão belo


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", a ser publicado pela Editora Patuá.

Que a Língua nos prega peças sabemos desde muito cedo. Eu, por exemplo, tropeço até hoje na palavra “exigência”. É um trava-língua dos diabos! Sempre me atravanca o caminho. No dia da criação das palavras, foi de uma leviandade pachorrenta colocar um “x” – com som de “z”, há de se frisar – ao lado de um “g”. Maldades da fonética. A minha hábil língua, nessa hora, bamboleia dentro da boca ao tentar modular o famigerado vocábulo; por fim, sibila em notas parecidas, samba, sapateia e enuncia qualquer coisa que seja próxima à pronúncia que se espera.

Se a criação das palavras também é obra de Deus, certamente sete dias não foram suficientes, e talvez por isso o Gênesis não esteja tão certo assim. Sabendo que o criador é alguém bastante ocupado, deve ter relegado à sua milícia tal tarefa. Estes, querendo um título a mais, deram-se o nome de lexicógrafos; ou dicionaristas, ainda que esse livro não existisse; pode ser que tenham desejado o nome de gramáticos, pois previam os ecos que a erudição da língua lhes traria. De todo modo, as palavras estão aí, belas e várias, para serem faladas, usadas e abusadas, ainda que não tão bem pronunciadas.

Vejamos.

Meu pai, por exemplo, gostava de lançar suas sentenças em alta velocidade. Suas falas pareciam jaculatórias apressadas de senhorinhas que rezam o Terço, embora ele tivesse um pouco de ojeriza dessa tão salutar devoção. “Repete coisa demais”, dizia. Não discordo. Inclusive, a Ave Maria sempre se torna mais graciosa quando se reza “bendita suas voz entre as mulheres”. Assim, a prece deve chegar mais perto dos céus, e quase me resgata a fé.

A Helena, por sua vez, durante o seu período de aprendizagem da fala, brindava o mundo com inúmeros neologismos. Costumava fiscalizar as “bernugas” que eu vestia para ir à padaria. Hoje, ela já está crescida, com seus quase dez anos, e raramente cria palavras. Custa-me muito lembrar de suas pérolas e me arrependo bastante de não ter feito um glossário das coisas que dizia.

Alguns amigos meus são muito bons com as palavras e com as situações que as envolvem. Um deles esbarrou nos limites da convivência entre idiomas. Estávamos no Sul, em uma cidade de colonização italiana, e por lá, o idioma de Dante Alighieri grassava por todos os cantos e bocas. Fomos tomar café da tarde numa casinha bem tradicional. A nonna, solícita, estendeu-lhe uma bandeja: “Formaggio, frei?”. Ele montou uma carranca de surpresa e sem pestanejar, perguntou: “Uai, não é queijo?.” Já um outro amigo se deliciava, rindo à solta, sempre que ouvia uma piada. Dizia ele “Não guento o Carlinhos com essas medótas!”. Medótas iam, medótas vinham, e as anedotas afluíam noite adentro, tirando-nos risos e gargalhadas.

Pode ser que os fiscais da Língua e os puritanos da linguagem (falemos baixo para não atrair os gramáticos, melhor afugentar os conservadores) não se agradem muito do meu texto e me julguem ainda mais por eu ser professor de Língua Portuguesa. Não faz mal, não gosto muito deles. Dou pouca monta aos frutos de seus trabalhos, somente o necessário para que meus alunos aprendam a escrever memorandos, requerimentos, e-mails e uma redaçãozinha para o Enem. Mas há palavras que soam muito mais atrativas e gostosas quando subvertem a ortografia ou a fonética.

Vai dizer que você não abre um sorriso largo ao ouvir que é preciso limpar o imbigo do bebê? O pedreiro, depois de revestir um piso, a fim de evitar que o seu trabalho seja avacalhado, diz-nos: “Se for passar pra lá, pisa naquela tauba ali, pra não deixar marca”. Ou ainda, ao comprar um sorvete de casquinha, num dia quente. Percebendo que ele começa a derreter, não há melhor advertência que: “Lembe logo isso daí, antes que caia tudo no chão!”. Não existem palavras mais autênticas que estas: imbigo, tauba e lember. Uso-as sempre, que chego a esquecer da ortografia e da fonética oficiais delas. Pouco me importam, cada um que cuide de seu imbigo.

Uma amiga, professora de criancinhas em fase de alfabetização, já me contou inúmeras histórias e causos de sala de aula. Os pequenos dão show de criatividade e coragem a despeito da ortografia. Pisam sem dó na fonética e tornam nosso idioma ainda mais lindo. Eis o melhor deles:

— Tia, “xu” é com “x” ou com “ch”? – a pequena abordou a mestra.

— Depende, meu amor. Que palavra você quer escrever? – respondeu a professora, curiosa.

— Xujeira.

Ah, as crianças, como as adoro! Desde cedo, o nosso talento para abrilhantar a língua lusitana e torná-la ainda mais bela e brasileira se manifesta por todos os cantos.

quinta-feira, 12 de março de 2026

.: O inquilino - Há no país uma legenda: sem-terra se mata com tiro


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", a ser publicado pela Editora Patuá.

Há poucas casas no país, é preciso encontrar terreno. Há poucos lares no país, é preciso erguer moradias. Há no país uma legenda: sem-terra se mata com tiro. E no país há também uma lei: a propriedade privada é inviolável. Não se pode tomá-la, mas se pode matar para protegê-la. Penso ser de suma importância proteger a propriedade de inquilinos indesejados. Por isso, sou a favor do despejo. Não há lágrimas que segurem um morador inadimplente. Que importa que parta para as ruas? Que importa que durma ao relento? Dá-se-lhe duas bordoadas no pé da orelha para que se vá e aprenda a dizer “Estrelas, para que vos quero, senão para que me sirvam de lençol?”, e vida que segue.

Foi por isso que, num passado distante, libertaram os escravizados a toque de caixa. Antes, vê-los livres rapidamente do que donos de terra. Repartir significaria empobrecer, uma puta sacanagem com quem se esforçou para possuir, ainda que não usufruísse do naco de terra que angariou. Portanto, viva aos abolicionistas! Viva aos homens de bem que mandaram os negros às ruas!

Pelo mesmo motivo, dia desses, desmanchei umas casinhas de marimbondo - ou vespa, não sei - que apareceram nas telas de proteção de minha janela e sacada. Pois minha propriedade, ainda que alugada, é privada e, portanto, posso matar por ela. Economia e sociologia à parte, acho marimbondos fofinhos, embora me pele de medo. Sobretudo, depois de descobrir a variedade que há deles.

Lembro-me do dia em que dirigia para o trabalho e, na subida da Ponte do Mar Pequeno, uma vespa-oleira invadiu o carro. Meus músculos se contraíram só um tantinho - juro por Deus -, as mãos sufocaram o volante e desabei para o acostamento. Com sopros suaves, cheios de gratiluz, encaminhei a mocinha para a janela e respirei aliviado (e talvez borrado).

Esse povo que não tem propriedade adora invadir a propriedade alheia. Começa assim, chegando devagar, sorrateiro, e vai ocupando espaço, como em “Casa tomada”, do Cortázar. E tem disso em toda espécie: crianças abandonadas, orquídeas hospedeiras, rêmoras no tubarão, gatinhos de rua (a Cecília, lá de casa, é uma), e até marimbondos marombeiros. Estávamos na faxina das férias, quando a Pietra, minha esposa, convocou-me à sacada:

Olha aquilo ali na tela — apontou, receosa.

Mirei a trama de segurança. Umas bolinhas de barro amontoadas e grudadas. Na janela ao lado, outras.

Isso é casa de marimbondo — decretei na força do ódio-proprietário que ser inquilino me proporciona.

Não sei — ponderou ela, já puxando do celular para pesquisar pelo Google Lens, dado o seu espírito sherlockiano.

Eram casinhas de vespas. Armei-me de uma bela vassoura e, zás!, está salva a propriedade. De dentro das bolinhas, saíram larvas verdes. O gérmen do MTST ali, querendo brotar: o parasita do meu lar alugado, o inquilino de minha propriedade comprada a cada mês, sem garantia de permanência. A noite geral prossegue, a manhã custa a chegar. Mas chegou. Foi nesse último final de semana, domingo. Eu estava prestes a sair de casa para ir à farmácia, quando a Helena gritou:

Pai! Uma formiga vermelha voando! — retraiu-se no sofá.

Outro invasor, pensei. Não era. Era, na verdade, uma vespa, uma maldita vespa - ou marimbondo, não sei -, pairando no ar, tal como um helicóptero criminoso. Enchi o peito e parti para a guerra contra o inseto proletário. O chinelo saltou para a minha mão e alcançou o bicho-inquilino que, certamente, já queria erguer nova morada em minha não-propriedade. Lançado ao chão violentamente, ele agonizava. Como bom sinhô que sou, espragatei-o, torci o chinelo sobre o chão, e fim. Quando descobri, contemplei o resultado: cabeça para um lado, corpo para o outro.

Parti feliz para a farmácia. Minutos depois, recebi um vídeo da minha esposa. A cabeça do inquilino ainda se mexia, esticando a língua para fora. Pouco importa. Exerci o meu direito: matei. Está salva a propriedade, ainda que eu continue a ser nela o principal inquilino.

quinta-feira, 5 de março de 2026

.: Manual Crônico, de Thiago Sobral: Era pra ser um filme... mas não é


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", a ser publicado pela Editora Patuá.


Era pra ser uma emoção de cinema a cada míssil lançado sobre o inimigo. Uma iluminação fraca; paleta de cores em tons terrosos - marrom, cinza e verde-musgo - pra parecer sujo, desgastado e caótico. Era pra deixar os músculos tensos, os olhos arregalados, a mandíbula cerrada e a respiração suspensa. Contemplar aviões em voos rasantes sobre cidades semidestruídas, com antigos belos prédios virando escombros, o que excita a mente do telespectador.

Era pra ter soldados com cara de herói enfrentando inimigos maldosos que queriam destruir a humanidade, mas foram barrados pela “Nação boazinha”. Isso nos causaria orgulho, mesmo que a tal “Nação boazinha” não fosse a nossa, afinal, no fundo, sempre desejamos imitá-la.

Era pra ser emocionante ver metralhadoras cuspindo fogo e acertando balas em homens com feições diferentes, a cara da maldade. Seus rostos seriam focados, ocupariam, em primeiro plano, toda a tela e arrancariam sorrisos de satisfação do público logo que visse um corpo inimigo tombando.

Era pra ser um exército inimigo causando repugnância nos olhos atentos de quem foi à pré-estreia. Todos teriam comprado seus ingressos antecipadamente, ansiosos por ver o monstro fundamentalista ser combatido pela “Nação dos sonhos”.

Era pra ver os inimigos opressores serem derrotados pela nação imperialista. Assim, os ânimos do mundo se acalmariam e, no final da sessão, todos aplaudiriam, porque, apesar do saldo de mortes, teríamos mais uma guerra pra preencher as páginas dos livros de história e inspirar cineastas.

Era pra ser um grupo extremista sendo exterminado, porque no mundo não há espaço pra fundamentalistas opressores. Diante deles, o povo que cruzou o deserto no passado teria o direito de matar e destruir e assim livrar os vizinhos de uma opressão. Os streamings liberariam a película de graça, na faixa – porque é justamente na Faixa que o sangue molha o chão – e, sim, há quem goste disso.

Era pra tudo isso repercutir nas redes sociais o sucesso que foi tal produção. Um campo aberto aos experimentos de novas tecnologias que agilizam a guerra, fazem mais vítimas, se enquadram bem nas tomadas de cena e criam mercados pra inúmeros releases e notícias bombásticas.

Era pra ser retratado um mundo em lutas e embates generalizados, passado distante, sonho dissonante, sobre o qual apenas se lê, ao qual apenas se assiste, e depois gera debates boquiabertos que não conseguem conceber como foram capazes de realmente fazer isso no passado… Chamaríamos de arte, pois seriam belos filmes, com belos atores que ganhariam prêmios disputadíssimos e permitiriam a nós percebermos o quão bons somos em retratar nossas mazelas já superadas.

Era pra ser…

Mas não é.

Não é porque não é filme. Não é porque não é série da Netflix. Não é porque não é novela da Rede Globo. Não é porque não é filme cult iraniano. Não é porque não é aquela aula de história sobre guerras do passado que mais parecem ficção e que nunca mais vão acontecer.

É a realidade que nos rodeia, devora e aflora em nós o sentimento de medo de que tudo aconteça novamente. Os personagens não mudaram muito. Os motivos também não. Talvez o público de agora seja um pouco diferente de antigamente, pois parece que acompanha os fatos como se fossem uma obra de arte. Há ainda os que torcem por algum lado, como se os que promovem a guerra fossem equipes esportivas ou agremiações de carnaval. E isso não é só triste…

Era pra ser um filme… mas não é.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

.: Manual Crônico, de Thiago Sobral: Crime hediondo


Se é crime, me submeterei ao julgamento, ouvirei a sentença, aceitarei a condenação.

Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_.


Há pecados, pecadinhos, pecadões. Há crimes e crimes, diriam os relativistas. Pecado é sempre pecado, ressoa até hoje minha grudenta herança católica. Suporta-se mais ou menos o crime alheio conforme ele diz algo sobre nós. Disso decorre a absolvição ou sentença do réu.

Cometo crimes há muito tempo. O primeiro foi nascer, diz a Palavra. A mancha original, herdada do primeiro homem, firmou-se em mim até o meu batismo, coisa que ocorreu quase dois anos depois que fui parido. Três jorros de água em minha careca infante, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, amém, apagaram o pecado. Os banhos de mamãe, ainda que diários, não foram suficientes, tadinha.

Também cometi outros crimes mais ou menos dignos ou indignos, que talvez causem identificação no leitor. Já furei sinal vermelho, dormi sem escovar os dentes ou tomar banho, bebi água na boca da garrafa, furei fila, ouvi conversa alheia, etc., etc. Já até fui parar na delegacia. Mas há um crime do qual tenho muita vergonha (fazer faxina no nariz enquanto, no carro, espero o sinal abrir). Juro que é só de vez em quando, por isso não vou contar nunca, mas o amigo deve saber qual é.

Espero, de coração, que eu não seja o único pecador e criminoso deste século. Houve uma época em que tinha certeza da existência de outros… Havia gente que assassinava o semelhante, desviava dinheiro público, roubava o pertence alheio, difamava o irmão e tantas outras coisas. Crimes e pecados para todos os gostos e métodos. A depender da empatia dos demais, a sentença era dura ou branda — ou nem existia. Não sei se hoje ainda existem tais criminosos e seus pecados…

O fato é que o crime praticado nem sempre é transgressão. Pode ser um mero ato de sobrevivência, um protesto, uma subversão. A depender de quem o comete, a depender dos olhos que assistem, da cabeça que julga e da mão que condena, a condescendência, muita vez, é generosa, e deixamos passar. Afinal, um pecadinho a mais não deixará o inferno superlotado, e no céu há sempre espaço para mais um ladrão arrependido.

Há um pecado, porém, que não pode ser cometido nunca. Para ele não há perdão. É o maior e mais ofensivo que se pode praticar. Um verdadeiro crime hediondo, diz a minha experiência. E, para mim, não há saída, pois o cometo frequentemente. Dele não consigo me livrar. É um vício: habita minha alma, corre nas minhas veias e domina minhas sinapses cerebrais. Sempre que o cometo, recebo olhares atravessados, reações de espanto, caretas de repulsa. Pessoas que não estão presentes me enviam mensagens de advertência, julgamento e condenação, preocupadas com minha sanidade mental.

Devo deixar claro que, apesar de hediondo, esse crime não me incomoda. Minha alma, ainda que batizada, já está condenada a ele. Cometo-o sem peso na consciência, antes, muito consciente da culpa e do dolo. Desconfio que a repulsa por esse crime diga mais sobre os outros do que sobre mim. Por isso, aviso a todos, grito a plenos pulmões: VOU CONTINUAR COMETENDO ESTE CRIME, DOA A QUEM DOER. E f*d@-53.

Mas que crime é esse, meu patrão? Confesso que é grave, gravíssimo, diria José Dias. O crime, caro leitor, é ler na praia. Algumas páginas bobas, um livrinho qualquer, nada demais. Não consigo agir de outro modo. Sou um praticante inveterado dessa tipologia criminal, mas o povo não se acostuma. Insiste em me julgar, em querer condenar. Ficam abismados com o fato de eu não aproveitar a praia com outras coisas, enquanto estou nela. Não dão conta de tamanha ofensa.

Paciência, Iracema, paciência…, diria Adoniran. Se ler na praia é pecado, morrerei pecando. Se é crime, me submeterei ao julgamento, ouvirei a sentença, aceitarei a condenação.

Factum est.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

.: Manual Crônico: Síndrome do pequeno imperador vencido


Quem não é visto, não é lembrado, e seria melhor continuar assim

Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_.

 Fui uma criança feliz.

Não que a minha infância tenha sido perfeita, longe disso. Nos anos noventa, ser criança em Cubatão não era lá essas coisas, já lhes adianto. Ainda assim, era totalmente possível. Embora eu tenha nascido na época do “Vale da Morte”, onde crianças nasciam sem cérebro, passei ileso, eu acho. Hoje, consigo fazer coisas básicas, organizar minha rotina, trabalhar um pouco (coisa de cinquenta e nove, sessenta aulas semanais, apenas) e escrever palavras no papel na esperança de ser lido. Enfim, deve ter alguma coisa aqui dentro.

Nesse período, este ex-menino franzino que aqui palreia abusava da liberdade não conquistada e se arriscava de bicicleta pelas ruas do bairro. Brincava de pega-pega e esconde-esconde, de polícia e ladrão, e até acreditava conseguir jogar bola. Nos dias mais ousados, ia mais longe, e catava maria-mulata (talvez você conheça por outro nome, paciência) no canal que desaguava no mangue. Quando me tornei rebelde, adentrei à mata para caçar passarinhos. Meu espírito ditador e carcereiro durou alguns anos, para a tristeza das belas avezinhas.

Morávamos numa edícula atrás de um prédio comercial, dotada de um quintal que formava um “U” no entorno da construção fronteira. Numa dessas laterais, fui chefe, dono, rei e imperador. Naquele meu pedaço, nada fugia às minhas garras. Como ali o chão era de terra, felinos zombeteiros de casa, e gatos quizilentos da rua invadiam para marcar território. Eu me enfurecia, bradava pela guerra, jurava de morte. Porém, quando dava a sorte de encontrá-los e capturá-los, sucumbia ante suas quatro pantufas e o ronronado sedutor.

No meu pedaço, cheguei a declarar-me prefeito. Já escrevi sobre isso. Fui prefeito da cidade das formigas. Construí dois montes de terra, liguei-os por uma ponte, atraí as pequenas e governei com mãos de ferro. Ai daquela que ousasse transpor a ponte sem o devido visto e passaporte! Aquele corredor era meu, invadido e tomado. Nessa época, o espírito do MST já me contaminava — desde que aquelas terras fossem apenas minhas, e de mais ninguém.

O problema estava no entorno. Sempre há vizinhos, e daquele lado havia muitos. Eram três casas ocupadas por inquilinos. Assim, a rotatividade de moradores era grande. Quando chegava alguma criança e eu conseguia travar alguma amizade, ganhava plateia. Adorava exibir o meu império, ostentar meus poderes, ser assistido em meu exercício democrático. Gostava de companhia também, é claro. Criança brinca melhor junto com outra, até mesmo eu.

Certa vez, chegou uma nova família. Fiquei ansioso por saber se havia criança. E havia. Às vezes, eu a ouvia falar. Aumentei meu tempo de atividade lúdica, toda hora espichando os olhos para saber se era visto. A criança, uma menina, nunca saía. Dias e dias se passavam, e nada. Os hábitos dos novos moradores eram diferentes, o que me deixava ainda mais incomodado e ansioso. Cheguei a ver a menina de longe. A curiosidade aumentou, mas nada além. Eu continuava a governar cruelmente as formigas, a declarar e perder guerras para os gatos, e a ser parcialmente feliz.

Não há choro que dure a noite toda, não há tristeza que dure para sempre.

Ou há.

Numa tarde, a janela do quarto vizinho estava aberta e dela saía, alta e fina, a voz da menina. Estava brava, fazia birra e chorava. Eis a chance mais real de contato que tive até aquele momento. Comecei a me movimentar e a cantar alto. Quem não é visto, não é lembrado, pensei no alto da sabedoria dos meus nove anos. A voz revoltada começou a se aproximar. Fiquei aguardando, afoito.

Da janela, brotou o rosto choroso, ranhento e descabelado da garota branca, que, ao me ver, proferiu, agora sem choro, nem vela, e cortante:

— Eita menino feio da gota. Parece um macaco.

E logo sumiu janela adentro.

Foram segundos arrebatadores que fizeram ruir o meu império, acabar com o meu governo e sentir, talvez pela primeira vez, que as diferenças existem e marcam.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

.: Manual crônico, de Thiago Sobral: O não-retorno da Fênix


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_.

Se criar hábito leva vinte e um dias e eu criei em apenas um, sou incomum?

Eis o retorno, não o da Fênix, que julgo ter morrido faz tempo, mas o meu. Declaro, com lágrimas nos olhos e dedos enferrujados, que não estou mais de férias. Nesse ponto, tenho alguma semelhança com a Fênix. Não a popular, que ressurge das cinzas, mas a do meu imaginário, defunta.

Dizem por aí que levam-se vinte e um dias para criar um novo hábito, ideia popularizada pela autoajuda nos anos sessenta. A sabedoria popular contemporânea, muito mais rica e pautada pela alta e valiosíssima cultura dos memes, deu fundamentação prática a isso, e foi além: “Se criar hábito leva vinte e um dias e eu criei em apenas um, sou incomum?”. Isso brotou na tela de meu celular recentemente e me causou profunda estupefação.

Sim, sou incomum (duvido que você seja), tal como minha Fênix morta, pois no primeiro dia das minhas férias, já estava completamente adaptado e afeiçoado a elas, de modo que agora custa-me muito voltar ao batente. “Ai, que preguiça!”, diria Macunaíma. “Ai, que preguiça!”, digo eu sempre. E digo mais forte ainda nestes primeiros dias de retorno ao labor, sem hábito algum.

Minha alma boêmia aposentada gosta da vagabundice, da vida faceira, das costas na rede, dos olhos nas páginas e do copo na mão - seja de café ou de cerveja. Nada de sala de aula, nem de zum-zum-zum de aluno; nada de tec-tec do teclado, nem de revisão de texto; zero edição de postagem em rede social, nem desejo de likes ou aumento de engajamento. Apenas eu, minha preguiça, meu Karamázov e o empurrar com a barriga de tudo o que não era estritamente necessário à minha parca sobrevivência.

Não queria escrever, mas… Se me tens aqui, querido leitor, é por amor a ti, que talvez não me ame tanto assim — e com razão. Mas voltei. Valorize-me, pois!  Essas semanas de ausência minha devem ter lhe causado extrema falta nenhuma. Já que voltei, leia-me, comente-me, curta-me, compartilhe-me. O algoritmo gosta, o engajamento agradece. Eu não gosto, senti zero falta disso, mas preciso. Assim, eis-me aqui, de novo, a deitar palavras à toa. Pelo menos isso combina com o copo que tanto segurei nos últimos dias, seja ele quente ou frio.

E como ficou o mundo nesses dias de minha ausência? Conte-me! Dê-me notícias alvissareiras, por favor. Está difícil me habituar de novo ao trabalho. Vez ou outra, espiei o mundo lá fora. Fiquei com medo, confesso. Até avisei à Fênix popular (não à minha, falecida) que não retorne, porque a coisa está feia.

Nem tudo são flores, mas também nem tudo é choro. Se em um dia me habituei à vadiagem, estes quatro dias de trabalho não fizeram nem cosquinha. Neste prelúdio de dois mil e vinte e seis, há alguma flor em meu caminho, em meio a muitas pedras, mas hei de colhê-la. Ah, como hei! É o que desejo a todos. Talvez a minha Fênix até tente renascer; vou pensar no caso.
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