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quinta-feira, 9 de abril de 2026

.: Manual Crônico: a carteira de mamãe, não qualquer carteira


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.
 

Mamãe não carrega mais a carteira, mas carregava. Não qualquer carteira, mas uma toda sua, cheia de graça e charme. Comprida, com um fecho frontal dourado e espaçosa o suficiente para que pudesse sustentar o mundo. Papai também tinha a sua, que nunca deixou de carregar consigo. Ia sempre no bolso traseiro da bermuda ou da calça. Nunca saía sem ela. Às vezes, dormia com a nádega direita protuberante. O apego aumentou depois que começou a emprestar dinheiro a juros aos amigos da rua. Coisa pouca, porque papai nunca quis ser agiota. Em seus últimos dias, a carteira estava rechonchuda.

Já mamãe era pouco apegada à sua. Seus bolsos não davam conta do tamanho da carteira, de modo que restava o sovaco como alcova. Dia de feira?, carteira no sovaco; hora do mercado?, carteira debaixo do braço; domingo de Missa?, carteira na axila. Assim, a carteira ia e vinha, sempre que se fazia necessário. Depois, nada de bolsinha de moedas, nada de depósito de cédulas, nada de algibeira de sovaco. Era como se não existisse.

Existia, sim, nessa época, um cheiro todo particular de mamãe. Não há motivo, mas sempre que esse cheiro me vem à memória, vem junto a carteira. Era uma época difícil: alta inflação, produtos caros, preços mudando o tempo todo, recursos escassos. Até o trabalho às vezes faltava. Mas nunca, nunca, a carteira de mamãe deixou faltar. Ainda que não soubéssemos dela no dia a dia, na hora do vamos ver, carteira sob o sovaco e prato cheio na mesa.

O sustento da casa era provido quase todo por papai. Mas a bolseira era mamãe. Sabia a dose de tudo. Pingava dia a dia o custo do aluguel, o peso do frango, o pirulito do recreio. Também com suas mãos produzia o recheio da carteira. Mamãe era doceira. Com bolos e quitutes adoçava os lábios da clientela e abrandava os apertos do fim do mês. Talvez por isso o cheiro que associo à mamãe, quando me lembro da carteira, seja doce.

Hoje, a carteira de papai virou relíquia. Mamãe não carrega mais a sua sob o sovaco, porque mamãe ficou moderna: usa cartão de débito e crédito e está em processo lento de conversão ao Pix. Mas o cheiro doce ainda insiste na memória, a hora da missa ainda desperta minha lembrança, e os apertos do fim do mês não a afligem mais. Em certos aspectos, eles me alcançam, de modo que sonho em ter uma carteira para carregar debaixo da axila.

Assim, peço aos senhores e senhoras que me leem: façamos um esforço, unamo-nos em uníssono e peçamos ao Ministro que crie o Pix de carteira sob o braço, que se possa carregar nas horas de apuros. Certamente, as crianças se sentirão mais seguras e saberão que para tudo se dá um jeito. Uma carteira debaixo do braço pode garantir o sossego mundial.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

.: Manual Crônico: Café para os vivos, o sabor da despedida


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", a ser publicado pela Editora Patuá.

Sem assunto na cabeça, pus-me a pensar no impensável: velórios. E por pensar muito sobre isso - uns cinco minutos, se muito - constatei que nunca fui a um velório que não ocorresse em minha cidade natal. Calma lá! Já velei alguns defuntos em outros lugares, mas velório, velório, mesmo, desses em lugar próprio para o ato, só em Cubatão. Os outros aconteceram em ambiente improvisado, ou em igreja.

Cabeça vazia, oficina do diabo. Por não ter o que pensar, o velório veio até mim, pela primeira vez. Porque, na verdade, sempre vamos aos velórios, ainda que contrariados. Quando se vela um amigo, um parente, um familiar, mal sobra tempo para as coisas interessantes que um velório pode oferecer. Mas quando vamos apenas por conhecer o defunto “de vista e de chapéu”, nossos olhos ficam secos e desimpedidos, aptos às peculiaridades que só um velório pode proporcionar.

Quando padres conhecidos meus morreram, o velório foi em igreja. Lembro-me do finado frei Lindolfo, que saiu a passear de monomotor, mas o teco-teco caiu. Adeus ao frade, que foi velado com rito e pompa na matriz de Ituporanga, em Santa Catarina. Nessa época, eu estava no meu primeiro ano de convento, com os franciscanos. O Carlinhos, seminarista como eu, sentiu-se culpado pela morte do religioso. Pouco antes da decolagem, ele havia se confessado com frei Lindolfo e julgava que o peso de seus pecados fizera o avião cair.

Difícil foi conter o riso em meio ao rito fúnebre dentro da igreja. Como pouco conhecíamos o padre-defunto, as anedotas correram soltas, à boca pequena. Os jovens seminaristas - eu à parte, claro - botavam reparo em tudo quanto era beata que se aproximava aos prantos do caixão exposto na nave central. Muito antes do padre do balão, conhecemos o frade do avião que caiu pelos pecados do Carlinhos.

Outro velório fora de um velório que fui foi o de minha vozinha. Esse, por ter acontecido há muito tempo, recebe as cores da minha memória infantil de nove anos. Tivemos que sair de Cubatão bem cedo, pois ela morava em São Bernardo do Campo. O velório aconteceu num salão de festas, ao que me lembro. Viramos a noite velando. Claro que não resisti e achei um canto que me serviu de cama improvisada. Houve tempo para o choro, fruto da saudade que eu já começava a sentir dela. Mas o que mais ficou na minha memória foi o pão com manteiga mais gostoso que comi em toda a minha vida. Até hoje me causa água na boca.

Agora em Cubatão… Lá, temos o velório Municipal, que frequentei bastante nos meus primeiros anos de adolescência. Ia porque acompanhava minha mãe às visitas ao túmulo de meu avô. Ao final, sempre dávamos uma passadinha no velório. São quatro salas, mais uma capela, que sempre acolhe um corpo extra, quando o número de defuntos aumenta.

Nessas visitas, sempre encontrávamos algum conhecido que conhecia o morto. Em meio a conversas e memórias, surgiam pontos de conexão com o defunto, o que virava ponte para o cafezinho. Ah, como eram bons aqueles velórios. Café de qualidade, cheiroso, bolachas macias, tortas, bolo de coco, de fubá, e tantas coisas…

Já nos velórios de hoje, seja em Cubatão, seja em outro lugar - nunca mais fui em velórios fora de Cubacity -, não se serve mais nada! O que aconteceu com a hospitalidade mortuária? Cadê a consideração com os amigos do defunto? Um cafezinho quente reconforta a perda, aconchega a viúva, atiça a fofoca aos mexeriqueiros, aproxima os amigos e incita o choro das carpideiras. Não larguemos essa tradição, pelo amor de quem morre!

Se eu estiver enganado, e se ainda houver velórios acolhedores, me informem, me atualizem, me convidem. E quando chegar o meu — nunca se sabe quando — que sirvam café, que haja bolo, que ofereçam chá (e uma pinguinha também, ou uma cervejinha, ou os dois, porque ninguém é de ferro; podem servir um tira-gosto, para agradar aos amigos), pois não quero convidado falando mal depois, dizendo que sentiu fome, nem cronista escrevendo sobre velórios com saudosismo barato. Depois, deixem que os mortos sepultem seus mortos, e partam para o samba. Antes, digam apenas consummatum est*, e sigam felizes sob minha memória.

* Tudo está consumado.

quinta-feira, 26 de março de 2026

.: Manual Crônico: Doutor Cacareco, quando o mundo ficou maior


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", a ser publicado pela Editora Patuá.

O fusca amarelo chegava da rua e se posicionava em frente à garagem. Ninguém descia, mas o portão se abria e o carro adentrava a casinha formosa dos anos 50. Em seguida, bombons eram distribuídos às mãos prestativas, que se estendiam ávidas pelo doce e pelo sabor de saber que a infância ali era preservada e se estendia.

Do Doutor Cacareco da minha rua, pouco restou na minha memória. Quem foi criança nos anos 80 deve se lembrar de um programa infantil com esse nome. Eu não me lembro, mas sei que existiu, pois minha mãe apelidou assim o senhorzinho que morava três casas depois da minha, na rua João Damaso. Dizia que se pareciam, o da minha rua e o da TV. Pelo menos o bigode, acho que sim.

Porque o Doutor Cacareco - o da minha rua - era quietinho, tímido, silencioso, a ponto de quase chegar a nos causar medo. Não gostava de bagunça na rua, odiava que a bola caísse em seu quintal, nunca o víamos nas festas, na padaria ou na mesa do bar. Seu nome eu nunca soube. Soube apenas do fusca amarelo, da sua gentil esposa, sempre no banco do carona, dos bombons distribuídos às crianças que abriam o portão da garagem, do bigode e da careca. Ah, era franzino, magrinho, e usava óculos de armação discreta.

Não posso esquecer que o Doutor Cacareco tinha mãos de jardineiro. O quintal de muro baixo nos permitia contemplar flores e plantas plasmadas por uma estética que não sei… só sei que está aqui dentro até hoje. Isso sem falar da arvorezinha da calçada que ele cuidava, podava, e deixava a copa arredondada, ou geometricamente desenhada por sua tesoura habilidosa, que, num tec-tec rápido, moldava o seu mundo.

Certo dia, o Doutor Cacareco não estava tão sisudo assim, e a sua generosidade extrapolou a caixa de bombom. Abriu as portas da esperança de sua garagem com as próprias mãos e convidou a criançada para o quintal dos fundos. Meu Deus! Plantas e flores aos borbotões. Uma relva macia sob os pés. Um sol escaldante grudado no céu. E alguns pés de acerola diante dos meus olhos pela primeira vez na vida.

Podem colher à vontade - ouvi sua voz pela primeira vez.

Além dos olhos, meu paladar também teve o primeiro contato com a frutinha. Também havia maracujá, também havia goiaba, também havia manga, também havia tanta coisa que não sei ao certo quanta coisa havia. Mas sei que havia um mundo inteiro dentro do mundo do Doutor Cacareco. Foi porque o Doutor Cacareco nos abriu seu quintal que pude saber que o meu mundo era pequeno, já que três casas depois da minha havia um universo.

Depois desse dia, havia buzina do fusca amarelo ao se aproximar do portão. Havia “Olá, crianças” na voz rouca do Doutor Cacareco. Havia sorriso nos lábios finos do meu melhor vizinho. Havia graça no bigode espesso do dono do pomar. Havia mais cores nas partidas de futebol, havia mais cheiro doce no ar da rua João Damaso, havia mais sabor em saber que o Doutor Cacareco se tornara mais feliz. Um dia, farei um curso de jardinagem, farei estoque de bombons e comprarei um fusca amarelo. As crianças do futuro que me aguardem!

sexta-feira, 20 de março de 2026

.: Manual Crônico: Palavras, sem o Brasil o português não seria tão belo


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", a ser publicado pela Editora Patuá.

Que a Língua nos prega peças sabemos desde muito cedo. Eu, por exemplo, tropeço até hoje na palavra “exigência”. É um trava-língua dos diabos! Sempre me atravanca o caminho. No dia da criação das palavras, foi de uma leviandade pachorrenta colocar um “x” – com som de “z”, há de se frisar – ao lado de um “g”. Maldades da fonética. A minha hábil língua, nessa hora, bamboleia dentro da boca ao tentar modular o famigerado vocábulo; por fim, sibila em notas parecidas, samba, sapateia e enuncia qualquer coisa que seja próxima à pronúncia que se espera.

Se a criação das palavras também é obra de Deus, certamente sete dias não foram suficientes, e talvez por isso o Gênesis não esteja tão certo assim. Sabendo que o criador é alguém bastante ocupado, deve ter relegado à sua milícia tal tarefa. Estes, querendo um título a mais, deram-se o nome de lexicógrafos; ou dicionaristas, ainda que esse livro não existisse; pode ser que tenham desejado o nome de gramáticos, pois previam os ecos que a erudição da língua lhes traria. De todo modo, as palavras estão aí, belas e várias, para serem faladas, usadas e abusadas, ainda que não tão bem pronunciadas.

Vejamos.

Meu pai, por exemplo, gostava de lançar suas sentenças em alta velocidade. Suas falas pareciam jaculatórias apressadas de senhorinhas que rezam o Terço, embora ele tivesse um pouco de ojeriza dessa tão salutar devoção. “Repete coisa demais”, dizia. Não discordo. Inclusive, a Ave Maria sempre se torna mais graciosa quando se reza “bendita suas voz entre as mulheres”. Assim, a prece deve chegar mais perto dos céus, e quase me resgata a fé.

A Helena, por sua vez, durante o seu período de aprendizagem da fala, brindava o mundo com inúmeros neologismos. Costumava fiscalizar as “bernugas” que eu vestia para ir à padaria. Hoje, ela já está crescida, com seus quase dez anos, e raramente cria palavras. Custa-me muito lembrar de suas pérolas e me arrependo bastante de não ter feito um glossário das coisas que dizia.

Alguns amigos meus são muito bons com as palavras e com as situações que as envolvem. Um deles esbarrou nos limites da convivência entre idiomas. Estávamos no Sul, em uma cidade de colonização italiana, e por lá, o idioma de Dante Alighieri grassava por todos os cantos e bocas. Fomos tomar café da tarde numa casinha bem tradicional. A nonna, solícita, estendeu-lhe uma bandeja: “Formaggio, frei?”. Ele montou uma carranca de surpresa e sem pestanejar, perguntou: “Uai, não é queijo?.” Já um outro amigo se deliciava, rindo à solta, sempre que ouvia uma piada. Dizia ele “Não guento o Carlinhos com essas medótas!”. Medótas iam, medótas vinham, e as anedotas afluíam noite adentro, tirando-nos risos e gargalhadas.

Pode ser que os fiscais da Língua e os puritanos da linguagem (falemos baixo para não atrair os gramáticos, melhor afugentar os conservadores) não se agradem muito do meu texto e me julguem ainda mais por eu ser professor de Língua Portuguesa. Não faz mal, não gosto muito deles. Dou pouca monta aos frutos de seus trabalhos, somente o necessário para que meus alunos aprendam a escrever memorandos, requerimentos, e-mails e uma redaçãozinha para o Enem. Mas há palavras que soam muito mais atrativas e gostosas quando subvertem a ortografia ou a fonética.

Vai dizer que você não abre um sorriso largo ao ouvir que é preciso limpar o imbigo do bebê? O pedreiro, depois de revestir um piso, a fim de evitar que o seu trabalho seja avacalhado, diz-nos: “Se for passar pra lá, pisa naquela tauba ali, pra não deixar marca”. Ou ainda, ao comprar um sorvete de casquinha, num dia quente. Percebendo que ele começa a derreter, não há melhor advertência que: “Lembe logo isso daí, antes que caia tudo no chão!”. Não existem palavras mais autênticas que estas: imbigo, tauba e lember. Uso-as sempre, que chego a esquecer da ortografia e da fonética oficiais delas. Pouco me importam, cada um que cuide de seu imbigo.

Uma amiga, professora de criancinhas em fase de alfabetização, já me contou inúmeras histórias e causos de sala de aula. Os pequenos dão show de criatividade e coragem a despeito da ortografia. Pisam sem dó na fonética e tornam nosso idioma ainda mais lindo. Eis o melhor deles:

— Tia, “xu” é com “x” ou com “ch”? – a pequena abordou a mestra.

— Depende, meu amor. Que palavra você quer escrever? – respondeu a professora, curiosa.

— Xujeira.

Ah, as crianças, como as adoro! Desde cedo, o nosso talento para abrilhantar a língua lusitana e torná-la ainda mais bela e brasileira se manifesta por todos os cantos.

quinta-feira, 12 de março de 2026

.: O inquilino - Há no país uma legenda: sem-terra se mata com tiro


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", a ser publicado pela Editora Patuá.

Há poucas casas no país, é preciso encontrar terreno. Há poucos lares no país, é preciso erguer moradias. Há no país uma legenda: sem-terra se mata com tiro. E no país há também uma lei: a propriedade privada é inviolável. Não se pode tomá-la, mas se pode matar para protegê-la. Penso ser de suma importância proteger a propriedade de inquilinos indesejados. Por isso, sou a favor do despejo. Não há lágrimas que segurem um morador inadimplente. Que importa que parta para as ruas? Que importa que durma ao relento? Dá-se-lhe duas bordoadas no pé da orelha para que se vá e aprenda a dizer “Estrelas, para que vos quero, senão para que me sirvam de lençol?”, e vida que segue.

Foi por isso que, num passado distante, libertaram os escravizados a toque de caixa. Antes, vê-los livres rapidamente do que donos de terra. Repartir significaria empobrecer, uma puta sacanagem com quem se esforçou para possuir, ainda que não usufruísse do naco de terra que angariou. Portanto, viva aos abolicionistas! Viva aos homens de bem que mandaram os negros às ruas!

Pelo mesmo motivo, dia desses, desmanchei umas casinhas de marimbondo - ou vespa, não sei - que apareceram nas telas de proteção de minha janela e sacada. Pois minha propriedade, ainda que alugada, é privada e, portanto, posso matar por ela. Economia e sociologia à parte, acho marimbondos fofinhos, embora me pele de medo. Sobretudo, depois de descobrir a variedade que há deles.

Lembro-me do dia em que dirigia para o trabalho e, na subida da Ponte do Mar Pequeno, uma vespa-oleira invadiu o carro. Meus músculos se contraíram só um tantinho - juro por Deus -, as mãos sufocaram o volante e desabei para o acostamento. Com sopros suaves, cheios de gratiluz, encaminhei a mocinha para a janela e respirei aliviado (e talvez borrado).

Esse povo que não tem propriedade adora invadir a propriedade alheia. Começa assim, chegando devagar, sorrateiro, e vai ocupando espaço, como em “Casa tomada”, do Cortázar. E tem disso em toda espécie: crianças abandonadas, orquídeas hospedeiras, rêmoras no tubarão, gatinhos de rua (a Cecília, lá de casa, é uma), e até marimbondos marombeiros. Estávamos na faxina das férias, quando a Pietra, minha esposa, convocou-me à sacada:

Olha aquilo ali na tela — apontou, receosa.

Mirei a trama de segurança. Umas bolinhas de barro amontoadas e grudadas. Na janela ao lado, outras.

Isso é casa de marimbondo — decretei na força do ódio-proprietário que ser inquilino me proporciona.

Não sei — ponderou ela, já puxando do celular para pesquisar pelo Google Lens, dado o seu espírito sherlockiano.

Eram casinhas de vespas. Armei-me de uma bela vassoura e, zás!, está salva a propriedade. De dentro das bolinhas, saíram larvas verdes. O gérmen do MTST ali, querendo brotar: o parasita do meu lar alugado, o inquilino de minha propriedade comprada a cada mês, sem garantia de permanência. A noite geral prossegue, a manhã custa a chegar. Mas chegou. Foi nesse último final de semana, domingo. Eu estava prestes a sair de casa para ir à farmácia, quando a Helena gritou:

Pai! Uma formiga vermelha voando! — retraiu-se no sofá.

Outro invasor, pensei. Não era. Era, na verdade, uma vespa, uma maldita vespa - ou marimbondo, não sei -, pairando no ar, tal como um helicóptero criminoso. Enchi o peito e parti para a guerra contra o inseto proletário. O chinelo saltou para a minha mão e alcançou o bicho-inquilino que, certamente, já queria erguer nova morada em minha não-propriedade. Lançado ao chão violentamente, ele agonizava. Como bom sinhô que sou, espragatei-o, torci o chinelo sobre o chão, e fim. Quando descobri, contemplei o resultado: cabeça para um lado, corpo para o outro.

Parti feliz para a farmácia. Minutos depois, recebi um vídeo da minha esposa. A cabeça do inquilino ainda se mexia, esticando a língua para fora. Pouco importa. Exerci o meu direito: matei. Está salva a propriedade, ainda que eu continue a ser nela o principal inquilino.

quinta-feira, 5 de março de 2026

.: Manual Crônico, de Thiago Sobral: Era pra ser um filme... mas não é


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", a ser publicado pela Editora Patuá.


Era pra ser uma emoção de cinema a cada míssil lançado sobre o inimigo. Uma iluminação fraca; paleta de cores em tons terrosos - marrom, cinza e verde-musgo - pra parecer sujo, desgastado e caótico. Era pra deixar os músculos tensos, os olhos arregalados, a mandíbula cerrada e a respiração suspensa. Contemplar aviões em voos rasantes sobre cidades semidestruídas, com antigos belos prédios virando escombros, o que excita a mente do telespectador.

Era pra ter soldados com cara de herói enfrentando inimigos maldosos que queriam destruir a humanidade, mas foram barrados pela “Nação boazinha”. Isso nos causaria orgulho, mesmo que a tal “Nação boazinha” não fosse a nossa, afinal, no fundo, sempre desejamos imitá-la.

Era pra ser emocionante ver metralhadoras cuspindo fogo e acertando balas em homens com feições diferentes, a cara da maldade. Seus rostos seriam focados, ocupariam, em primeiro plano, toda a tela e arrancariam sorrisos de satisfação do público logo que visse um corpo inimigo tombando.

Era pra ser um exército inimigo causando repugnância nos olhos atentos de quem foi à pré-estreia. Todos teriam comprado seus ingressos antecipadamente, ansiosos por ver o monstro fundamentalista ser combatido pela “Nação dos sonhos”.

Era pra ver os inimigos opressores serem derrotados pela nação imperialista. Assim, os ânimos do mundo se acalmariam e, no final da sessão, todos aplaudiriam, porque, apesar do saldo de mortes, teríamos mais uma guerra pra preencher as páginas dos livros de história e inspirar cineastas.

Era pra ser um grupo extremista sendo exterminado, porque no mundo não há espaço pra fundamentalistas opressores. Diante deles, o povo que cruzou o deserto no passado teria o direito de matar e destruir e assim livrar os vizinhos de uma opressão. Os streamings liberariam a película de graça, na faixa – porque é justamente na Faixa que o sangue molha o chão – e, sim, há quem goste disso.

Era pra tudo isso repercutir nas redes sociais o sucesso que foi tal produção. Um campo aberto aos experimentos de novas tecnologias que agilizam a guerra, fazem mais vítimas, se enquadram bem nas tomadas de cena e criam mercados pra inúmeros releases e notícias bombásticas.

Era pra ser retratado um mundo em lutas e embates generalizados, passado distante, sonho dissonante, sobre o qual apenas se lê, ao qual apenas se assiste, e depois gera debates boquiabertos que não conseguem conceber como foram capazes de realmente fazer isso no passado… Chamaríamos de arte, pois seriam belos filmes, com belos atores que ganhariam prêmios disputadíssimos e permitiriam a nós percebermos o quão bons somos em retratar nossas mazelas já superadas.

Era pra ser…

Mas não é.

Não é porque não é filme. Não é porque não é série da Netflix. Não é porque não é novela da Rede Globo. Não é porque não é filme cult iraniano. Não é porque não é aquela aula de história sobre guerras do passado que mais parecem ficção e que nunca mais vão acontecer.

É a realidade que nos rodeia, devora e aflora em nós o sentimento de medo de que tudo aconteça novamente. Os personagens não mudaram muito. Os motivos também não. Talvez o público de agora seja um pouco diferente de antigamente, pois parece que acompanha os fatos como se fossem uma obra de arte. Há ainda os que torcem por algum lado, como se os que promovem a guerra fossem equipes esportivas ou agremiações de carnaval. E isso não é só triste…

Era pra ser um filme… mas não é.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

.: Manual Crônico, de Thiago Sobral: Crime hediondo


Se é crime, me submeterei ao julgamento, ouvirei a sentença, aceitarei a condenação.

Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_.


Há pecados, pecadinhos, pecadões. Há crimes e crimes, diriam os relativistas. Pecado é sempre pecado, ressoa até hoje minha grudenta herança católica. Suporta-se mais ou menos o crime alheio conforme ele diz algo sobre nós. Disso decorre a absolvição ou sentença do réu.

Cometo crimes há muito tempo. O primeiro foi nascer, diz a Palavra. A mancha original, herdada do primeiro homem, firmou-se em mim até o meu batismo, coisa que ocorreu quase dois anos depois que fui parido. Três jorros de água em minha careca infante, em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, amém, apagaram o pecado. Os banhos de mamãe, ainda que diários, não foram suficientes, tadinha.

Também cometi outros crimes mais ou menos dignos ou indignos, que talvez causem identificação no leitor. Já furei sinal vermelho, dormi sem escovar os dentes ou tomar banho, bebi água na boca da garrafa, furei fila, ouvi conversa alheia, etc., etc. Já até fui parar na delegacia. Mas há um crime do qual tenho muita vergonha (fazer faxina no nariz enquanto, no carro, espero o sinal abrir). Juro que é só de vez em quando, por isso não vou contar nunca, mas o amigo deve saber qual é.

Espero, de coração, que eu não seja o único pecador e criminoso deste século. Houve uma época em que tinha certeza da existência de outros… Havia gente que assassinava o semelhante, desviava dinheiro público, roubava o pertence alheio, difamava o irmão e tantas outras coisas. Crimes e pecados para todos os gostos e métodos. A depender da empatia dos demais, a sentença era dura ou branda — ou nem existia. Não sei se hoje ainda existem tais criminosos e seus pecados…

O fato é que o crime praticado nem sempre é transgressão. Pode ser um mero ato de sobrevivência, um protesto, uma subversão. A depender de quem o comete, a depender dos olhos que assistem, da cabeça que julga e da mão que condena, a condescendência, muita vez, é generosa, e deixamos passar. Afinal, um pecadinho a mais não deixará o inferno superlotado, e no céu há sempre espaço para mais um ladrão arrependido.

Há um pecado, porém, que não pode ser cometido nunca. Para ele não há perdão. É o maior e mais ofensivo que se pode praticar. Um verdadeiro crime hediondo, diz a minha experiência. E, para mim, não há saída, pois o cometo frequentemente. Dele não consigo me livrar. É um vício: habita minha alma, corre nas minhas veias e domina minhas sinapses cerebrais. Sempre que o cometo, recebo olhares atravessados, reações de espanto, caretas de repulsa. Pessoas que não estão presentes me enviam mensagens de advertência, julgamento e condenação, preocupadas com minha sanidade mental.

Devo deixar claro que, apesar de hediondo, esse crime não me incomoda. Minha alma, ainda que batizada, já está condenada a ele. Cometo-o sem peso na consciência, antes, muito consciente da culpa e do dolo. Desconfio que a repulsa por esse crime diga mais sobre os outros do que sobre mim. Por isso, aviso a todos, grito a plenos pulmões: VOU CONTINUAR COMETENDO ESTE CRIME, DOA A QUEM DOER. E f*d@-53.

Mas que crime é esse, meu patrão? Confesso que é grave, gravíssimo, diria José Dias. O crime, caro leitor, é ler na praia. Algumas páginas bobas, um livrinho qualquer, nada demais. Não consigo agir de outro modo. Sou um praticante inveterado dessa tipologia criminal, mas o povo não se acostuma. Insiste em me julgar, em querer condenar. Ficam abismados com o fato de eu não aproveitar a praia com outras coisas, enquanto estou nela. Não dão conta de tamanha ofensa.

Paciência, Iracema, paciência…, diria Adoniran. Se ler na praia é pecado, morrerei pecando. Se é crime, me submeterei ao julgamento, ouvirei a sentença, aceitarei a condenação.

Factum est.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

.: Manual Crônico: Síndrome do pequeno imperador vencido


Quem não é visto, não é lembrado, e seria melhor continuar assim

Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_.

 Fui uma criança feliz.

Não que a minha infância tenha sido perfeita, longe disso. Nos anos noventa, ser criança em Cubatão não era lá essas coisas, já lhes adianto. Ainda assim, era totalmente possível. Embora eu tenha nascido na época do “Vale da Morte”, onde crianças nasciam sem cérebro, passei ileso, eu acho. Hoje, consigo fazer coisas básicas, organizar minha rotina, trabalhar um pouco (coisa de cinquenta e nove, sessenta aulas semanais, apenas) e escrever palavras no papel na esperança de ser lido. Enfim, deve ter alguma coisa aqui dentro.

Nesse período, este ex-menino franzino que aqui palreia abusava da liberdade não conquistada e se arriscava de bicicleta pelas ruas do bairro. Brincava de pega-pega e esconde-esconde, de polícia e ladrão, e até acreditava conseguir jogar bola. Nos dias mais ousados, ia mais longe, e catava maria-mulata (talvez você conheça por outro nome, paciência) no canal que desaguava no mangue. Quando me tornei rebelde, adentrei à mata para caçar passarinhos. Meu espírito ditador e carcereiro durou alguns anos, para a tristeza das belas avezinhas.

Morávamos numa edícula atrás de um prédio comercial, dotada de um quintal que formava um “U” no entorno da construção fronteira. Numa dessas laterais, fui chefe, dono, rei e imperador. Naquele meu pedaço, nada fugia às minhas garras. Como ali o chão era de terra, felinos zombeteiros de casa, e gatos quizilentos da rua invadiam para marcar território. Eu me enfurecia, bradava pela guerra, jurava de morte. Porém, quando dava a sorte de encontrá-los e capturá-los, sucumbia ante suas quatro pantufas e o ronronado sedutor.

No meu pedaço, cheguei a declarar-me prefeito. Já escrevi sobre isso. Fui prefeito da cidade das formigas. Construí dois montes de terra, liguei-os por uma ponte, atraí as pequenas e governei com mãos de ferro. Ai daquela que ousasse transpor a ponte sem o devido visto e passaporte! Aquele corredor era meu, invadido e tomado. Nessa época, o espírito do MST já me contaminava — desde que aquelas terras fossem apenas minhas, e de mais ninguém.

O problema estava no entorno. Sempre há vizinhos, e daquele lado havia muitos. Eram três casas ocupadas por inquilinos. Assim, a rotatividade de moradores era grande. Quando chegava alguma criança e eu conseguia travar alguma amizade, ganhava plateia. Adorava exibir o meu império, ostentar meus poderes, ser assistido em meu exercício democrático. Gostava de companhia também, é claro. Criança brinca melhor junto com outra, até mesmo eu.

Certa vez, chegou uma nova família. Fiquei ansioso por saber se havia criança. E havia. Às vezes, eu a ouvia falar. Aumentei meu tempo de atividade lúdica, toda hora espichando os olhos para saber se era visto. A criança, uma menina, nunca saía. Dias e dias se passavam, e nada. Os hábitos dos novos moradores eram diferentes, o que me deixava ainda mais incomodado e ansioso. Cheguei a ver a menina de longe. A curiosidade aumentou, mas nada além. Eu continuava a governar cruelmente as formigas, a declarar e perder guerras para os gatos, e a ser parcialmente feliz.

Não há choro que dure a noite toda, não há tristeza que dure para sempre.

Ou há.

Numa tarde, a janela do quarto vizinho estava aberta e dela saía, alta e fina, a voz da menina. Estava brava, fazia birra e chorava. Eis a chance mais real de contato que tive até aquele momento. Comecei a me movimentar e a cantar alto. Quem não é visto, não é lembrado, pensei no alto da sabedoria dos meus nove anos. A voz revoltada começou a se aproximar. Fiquei aguardando, afoito.

Da janela, brotou o rosto choroso, ranhento e descabelado da garota branca, que, ao me ver, proferiu, agora sem choro, nem vela, e cortante:

— Eita menino feio da gota. Parece um macaco.

E logo sumiu janela adentro.

Foram segundos arrebatadores que fizeram ruir o meu império, acabar com o meu governo e sentir, talvez pela primeira vez, que as diferenças existem e marcam.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

.: Manual crônico, de Thiago Sobral: O não-retorno da Fênix


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_.

Se criar hábito leva vinte e um dias e eu criei em apenas um, sou incomum?

Eis o retorno, não o da Fênix, que julgo ter morrido faz tempo, mas o meu. Declaro, com lágrimas nos olhos e dedos enferrujados, que não estou mais de férias. Nesse ponto, tenho alguma semelhança com a Fênix. Não a popular, que ressurge das cinzas, mas a do meu imaginário, defunta.

Dizem por aí que levam-se vinte e um dias para criar um novo hábito, ideia popularizada pela autoajuda nos anos sessenta. A sabedoria popular contemporânea, muito mais rica e pautada pela alta e valiosíssima cultura dos memes, deu fundamentação prática a isso, e foi além: “Se criar hábito leva vinte e um dias e eu criei em apenas um, sou incomum?”. Isso brotou na tela de meu celular recentemente e me causou profunda estupefação.

Sim, sou incomum (duvido que você seja), tal como minha Fênix morta, pois no primeiro dia das minhas férias, já estava completamente adaptado e afeiçoado a elas, de modo que agora custa-me muito voltar ao batente. “Ai, que preguiça!”, diria Macunaíma. “Ai, que preguiça!”, digo eu sempre. E digo mais forte ainda nestes primeiros dias de retorno ao labor, sem hábito algum.

Minha alma boêmia aposentada gosta da vagabundice, da vida faceira, das costas na rede, dos olhos nas páginas e do copo na mão - seja de café ou de cerveja. Nada de sala de aula, nem de zum-zum-zum de aluno; nada de tec-tec do teclado, nem de revisão de texto; zero edição de postagem em rede social, nem desejo de likes ou aumento de engajamento. Apenas eu, minha preguiça, meu Karamázov e o empurrar com a barriga de tudo o que não era estritamente necessário à minha parca sobrevivência.

Não queria escrever, mas… Se me tens aqui, querido leitor, é por amor a ti, que talvez não me ame tanto assim — e com razão. Mas voltei. Valorize-me, pois!  Essas semanas de ausência minha devem ter lhe causado extrema falta nenhuma. Já que voltei, leia-me, comente-me, curta-me, compartilhe-me. O algoritmo gosta, o engajamento agradece. Eu não gosto, senti zero falta disso, mas preciso. Assim, eis-me aqui, de novo, a deitar palavras à toa. Pelo menos isso combina com o copo que tanto segurei nos últimos dias, seja ele quente ou frio.

E como ficou o mundo nesses dias de minha ausência? Conte-me! Dê-me notícias alvissareiras, por favor. Está difícil me habituar de novo ao trabalho. Vez ou outra, espiei o mundo lá fora. Fiquei com medo, confesso. Até avisei à Fênix popular (não à minha, falecida) que não retorne, porque a coisa está feia.

Nem tudo são flores, mas também nem tudo é choro. Se em um dia me habituei à vadiagem, estes quatro dias de trabalho não fizeram nem cosquinha. Neste prelúdio de dois mil e vinte e seis, há alguma flor em meu caminho, em meio a muitas pedras, mas hei de colhê-la. Ah, como hei! É o que desejo a todos. Talvez a minha Fênix até tente renascer; vou pensar no caso.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

.: Nasce-pisca-morre: manual crônico sobre como amarrar o tempo no poste


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_.


Em algum destes dias, devo ficar mais velho, meu capitão. Não sei ao certo quando, mas sei que é por agora. Isso me pegou de um jeito que não consigo mais pensar em outra coisa. Quase quarenta anos vividos nesta terra de meu deus. O que se faz com isso? E o que se faz depois disso? Aguardo sua resposta. Se não puder me responder, paciência. Fica este manual comprometido, mas não incompleto.

Não incompleto porque há sábios no mundo. Dou-lhe a prova: “A vida, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar chegou ao fim, morreu”, disse uma boneca de pano a um certo Sabugo, conhecido como Visconde de Sabugosa. Veja só, capitão: a vida é um pisca-pisca. Pois bem. Providenciarei uma árvore de Natal, que já se aproxima, onde depositarei toda a minha vida. Há de ser um Ipê-amarelo frondoso, com quase quarenta galhos, piscando, piscando, piscando…

E como a fala da boneca é linda, penso que o senhor gostará de saber do restante, que transcrevo aqui: “A vida das gentes neste mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscados. Cada pisco é um dia. Pisca e mama, pisca e brinca, pisca e estuda, pisca e ama, pisca e cria filhos, pisca e geme os reumatismos, e por fim pisca pela última vez e morre.”

Já parou para pensar nisso, capitão? Fiquei boquiaberto com as palavras dela. Mais ainda com o que vem na sequência:

“— E depois que morre?, perguntou o Visconde.

— Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?” *

Acho que é isso mesmo: hipótese, não só depois que morre, mas desde sempre. A cada manhã, ao acordar, levantamos uma hipótese. Aí, partimos para o mundo, e seja o que deus quiser. Vamos vivendo atabalhoados nos afazeres, sem perceber o que acontece durante a piscada. Uma sucessão de minutos, de horas, de dias e de fatos vai se unindo e tecendo a trama do que chamamos vida. Até que uma hora, tudo para. Não há mais vida.

E o que fica depois?

Aumenta-se a hipótese, talvez. Perdi o interesse por esse depois. Basta-me o desenrolar de cada segundo entre o intervalo da primeira e da última batida do meu coração, ou piscadas.

Até porque, "O Tempo só anda de ida. / A gente nasce, cresce, envelhece e morre.” Não tem escapatória, meu capitão. Temos todos o mesmo fim. Ambos aqui não sabemos quando ele ocorrerá. Mas ainda bem que temos a poesia e que ela nos deu Manoel de Barros, que continua esses versos nos ensinando um macete dos bons:

Pra não morrer

É só amarrar o Tempo no Poste.

Eis a ciência da poesia:

"Amarrar o Tempo no Poste!"

Ainda não é tempo para isso “na vida de minhas retinas tão fatigadas.” Mas, quando esse tempo chegar para mim, arranjarei uma corda bem forte e um poste bem firme, calejado por cãezinhos marotos, darei um nó muito bem dado, e porei em prática a ciência da poesia.

E quando cansar, meu capitão? O poeta já deixou a resposta: "dia que a gente estiver com tédio de viver, é só desamarrar o Tempo do Poste.", e voltar ao pisca-pisca.

Ainda quero piscar muito, meu capitão. Piscar e amar, piscar e criar filhos, piscar e escrever, piscar e perder, piscar muito antes da última piscada.

E quando eu não mais quiser amarrar o Tempo, deixe-me com os cãezinhos amigos do poste. Eles cuidarão de meus olhos cansados.


* Monteiro Lobato, em “Memórias de Emí­lia”.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

.: Machado de Assis sabia: um manual crônico para enfrentamentos urgentes


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. Na imagem, representações das personagens machadianas Helena, Capitu e Marcela

"Oh, captain, my captain", as notícias que trago hoje não são nada alvissareiras. O mundo, que sempre foi perigoso, anda perigoso e meio. Para as mulheres, perigoso à décima quinta potência. Andar por este vale de lágrimas, para elas, é cair no olho do furacão. Onde vamos parar? "Marcela amou-me por quinze meses e onze contos de réis." Lembra-se, capitão? Pois é… Marcela teve sorte (e, cá entre nós, foi muito esperta). Brás Cubas não era flor que se cheire e, com certeza, não perderia a chance de se tornar um risco iminente para a espanhola. Ela, nada boba, botou prazo de validade e valor de custo.

O Bruxo do Cosme Velho não dava ponto sem nó. Disse o que disse já sabendo o tipo de homem que o defunto viria a ser. Brás desesperou-se enquanto cruzava o Atlântico e, já do outro lado, lançou-se em novas vivências. De volta ao RJ, foi cruel com Eugênia e aproveitador com Virgília. Ainda falando do velho Machado, Capitu é que era das boas! Não deu asas ao lunático Casmurro. Com seus olhos de ressaca, partiu para longe do marido e se salvou. Quem garante que ela continuaria segura? “Por que essa divindade nos dá golpes tão fortes de realidade e parte nossos sonhos?”, perguntava-se ela. Na prática, não é a divindade que dá golpes, meu capitão…

E ainda tem a Helena. Ah, que menina! Não teve medo dos julgamentos e se lançou à vida. Em meio a homens, se impôs e decidiu o próprio destino. Ignorou o patriarcado oitocentista. “E meu espírito gosta, às vezes, de trotar livremente na solidão." Não foi à toa que ela disse isso. Uma mulher dessa, capitão! Com um nome desse! O passado não deu trégua para as mulheres. O presente, não dá tempo. Ele ceifa vidas femininas com crueldade sem limites. E a palavra? A palavra, às vezes falta, não dá conta, mas se sustenta. Não dá para fazer literatura branda.

O que fazer, então, meu capitão? As respostas não chegam de imediato. Braços, para que vos quero, se não para apedrejar a mão vil que finge afagar os lábios de quem a beija? É isso: tirar as pedras do caminho delas e fazer da palavra uma pedra contra quem mata. Antes, esses detratores tivessem sido os filhos que Brás Cubas não teve. Não teriam materializado o legado de nossa miséria. Machado sabia, meu capitão, sabia muito…


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

.: Carta de demissão: um manual prático para desistir de desistir


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_

Praia Grande, 4 de dezembro de 2025.

Senhores editores do Portal Resenhando.

Lamento informar que estou me demitindo do cargo de colunista deste respeitável veículo. Meu último dia será em quatro de dezembro de dois mil e vinte e cinco — vulgo hoje — por motivo de inaptidão para a função.

O teco-teco das teclas e o plic-plic das telas me cansam os dedos e me enjoam a vista. Ainda que eu seja um sujeito moderno, prefiro o tec-tec das máquinas de escrever, engenhoca que eu pediria às vossas senhorias de bom grado, se coragem e humildade eu tivesse. Mas não tenho. Tenho muito é melancolia e estresse pós-moderno, que me assolam e maltratam toda vez que ponho os pés nas ruas, e as rodas no asfalto.

Por falar em asfalto, ele deve começar a ficar mais quente, já que o verão se aproxima. Então, terei de redobrar a audácia para continuar andando descalço por aí. Como sou um sujeito arquetípico, não posso me furtar de sentir a natureza tocando meus pés a cada passo que dou pelas ruas da cidade.

Neste longo período desde que assumi esta coluna — duas semanas —, sinto-me deveras cansado, o que me abriu os olhos para a minha incapacidade de mantê-la com o decoro e o luxo que ela requer. Outrossim, não sei a quem pode agradar a existência de um Manual Crônico como este. Andei conversando com meu capitão, e ele me aconselhou a deixar pra lá, empurrar com a barriga, escrever qualquer coisa, “ninguém há de notar”, disse-me à boca pequena. Peço-lhe a finesse de não contar isso aos leitores.

Além disso, há um antigo manuscrito por aí que diz: “a quem muito tem, muito mais será dado. Mas a quem pouco tem, até o pouco lhe será tirado”, ou algo parecido. Se isso for verdade, é outro motivo a se acrescentar à minha demissão. Quando isso acontecer - hoje -, “nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas”. Serei eternamente grato, apesar de minha ingratidão em abandonar este sagrado encargo.

Peço a dispensa do cumprimento do Aviso Prévio. Não carece estender o contrato. “Deixe que os mortos sepultem seus mortos”, diz o mesmo antigo manuscrito. Mortos não estamos, mas não custa deixar avisado: não haverá velório, muito menos sepultamento (e nem despedida). Nunca poderei agradecer o suficiente pelas oportunidades que este distinto portal cultural me proporcionou. Trabalhar aqui foi imprescindível para o meu crescimento profissional. Esperem… Um minuto! Silêncio. Ouço ruídos. Preciso ir até a sacada nesta quinta-feira modorrenta que insiste em prosseguir.




Voltei.

“Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu”.

Depois de avistar a cena que me tragou para a sacada agora há pouco, puxei da estante “A Rosa do Povo”. Foi pelo ocorrido que procurei esse verso que há muito eu não lia. Repito:

“Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu”.

Por favor, queridos editores, desconsiderem meu pedido. Podem rasgar esta carta de demissão, não a exponham aos leitores, imploro. Continuarei com esta coluna, porque “uma flor nasceu na rua!”. “É feia. Mas é flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.” Vou comunicar ao meu capitão.

Atenciosamente,

Thiago Sobral.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

.: Manual Crônico, de Thiago Sobral: Sujeito moderno


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_

Sou um sujeito nojentamente moderno e afeito às inovações tecnológicas deste milênio, meu capitão. Não deixo passar nada. Toda e qualquer novidade chega às minhas mãos na velocidade da luz. Porque de luz eu entendo e posso provar: fui eletricista por quatro anos, divididos em duas empresas. Na primeira, o serviço manual durou quatro dias (depois, mandaram-me trabalhar no escritório); na segunda, durou cinco (mandaram-me novamente ao escritório, para não me mandarem a outro lugar).

Não lamentei os ocorridos, apenas sacudi a poeira dos pés e proferi aos meus opositores patronais: se aqui não me querem, o mundo me quererá, porque de luz eu entendo. Fui ao mundo e bradei: “Faça-se a luz!”. E a luz se fez. E assim tem sido, my captain. Sou o lume fumegante que alumia as novidades deste século. Por exemplo: entendo de aparelhos celulares. Celulares, não, smartphones. Há muito abandonei os tijolões. Carrego comigo um arrojado Samsung A21S há cinco anos, e ninguém o domina tão bem quanto eu.

A “artificial intelligence” — ou IA, como dizem por aqui — bebeu das letras de minha pena para se construir. O resto é história. Quem vive sem ela hoje em dia é um verdadeiro espécime dos Australopithecus (perdoe-me a franqueza, capitão, mas essa é a verdade). Este texto mesmo foi escrito sob ímpeto do algoritmo, acredite se quiser. A prova são os travessões. Já me empolguei com os carros elétricos, mas cansei. Não quero ficar para trás e, por isso, já estou tendo aulas de direção em veículos a células de hidrogênio. O capitão ficará boquiaberto quando me vir pelas ruas da Baixada Santista montado numa nave destas.

Há um bom tempo, guardo dólares e libras esterlinas para comprar um apartamento em Marte. Terá sacada gourmet e tudo! Lá do alto, olharei para a Terra retrógrada, da qual não sentirei saudades. Prometo escrever ao senhor, capitão, já que prefere não me acompanhar nas evoluções. Tenho feito contato com médicos da Coreia do Sul e de Cingapura. Levando em consideração meu estado corporal, eles disseram que conseguirão aumentar meu tempo de vida (que era de noventa e cinco anos) em mais três décadas. Isso porque terei acesso a uma pesquisa supersecreta que eles vêm desenvolvendo. Agora, entende por que vivo rindo à toa?

Mas tem uma coisa, meu capitão… que me pega de jeito. É a tecnologia mais sublime de que se tem notícia. Nada a supera, está sempre em evolução e não cansa de me surpreender, lançando luz sobre as trevas o tempo todo — e olha que de luz eu entendo, já disse. O mais curioso é que ela não surgiu hoje, nem ontem e, muito menos, surgirá amanhã. Acho um disparate que tal tecnologia tenha sido criada antes de mim, um sujeito moderno.

Tudo bem, aceito a precedência. Afinal, o que sou eu - apesar de moderno - diante do livro? Como não sou bobo nem nada, há muito tempo estendi a mão em direção às páginas, deitei meus olhos no papel e me pus a ler. É ou não é uma invenção dos diabos, meu capitão? Sei que essa alta tecnologia não está tão na moda assim aqui em nossas terras. Temo que, daqui a algum tempo, um desavisado tente usar um livro arrastando para cima, na capa, ou procure um botão de curtir ou compartilhar. E, por isso mesmo, quero registrar aqui neste Manual o que é e o seu modo de uso, em cinco passos. Vamos lá.

Segundo o dicionário Michaelis:
livro (s.m.). 1. Conjunto de folhas de papel, impressas ou manuscritas, coladas ou costuradas num dos lados, cobertas por uma capa; 2. Considerando-se o seu conteúdo, geralmente de caráter literário, artístico, científico, técnico etc., constituído por um ou mais volumes; 3. Cada um dos volumes que constituem uma determinada obra; 4. Cada uma das partes que compõem uma obra extensa; 5. Etc.

Modo de usar:
1. Aponte os olhos para a capa e identifique o título;
2. Coloque as mãos no objeto, abra-o e decodifique as letras;
3. Penetre “surdamente no reino das palavras”;
4. Desvende o que há por trás das palavras e nas entrelinhas;
5. E seja feliz.

Que este texto não se perca, meu capitão! Tão rara e rica tecnologia não pode se extinguir por falta de adeptos. Nenhuma outra tecnologia seria suficiente para cobrir o rombo que o fim dos livros traria. Caso isso venha a acontecer em algum século, voltarei das profundezas para falar ao mundo aquilo de que mais entendo: “Faça-se a luz”, e então surgirei com a lâmpada nas mãos: um livro.

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

.: Manual Crônico, com Thiago Sobral: no princípio, o verbo


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_

No princípio, havia o nada, e do nada, criou-se o tudo. Do tudo veio o todo e do todo fizeram-se as partes; ou das partes fez-se o todo, tanto faz. Digo isso porque aqui temos o princípio do que antes era o nada para mim. Devo confessar que esta é a primeira vez que me cedem uma coluna. Estou lisonjeado, encantado e um pouco tímido, mas não deixarei isso transparecer. Antes, fingirei costume e erguerei o nariz; deslizarei a pena, deitando ao papel palavras que se pretendem como um manual crônico para aqueles que tiverem a gentileza e a paciência de as ler.

Ainda que não lhe faça promessas, juro que trarei aqui palavras leves, mesmo que carreguem o peso do sentido. Não ofertarei reflexões profundas, embora, vez ou outra, possamos dar algum mergulho no reino das palavras. Não farei filosofia, mesmo quando quisermos saber o porquê. Não serei proselitista, ainda que, por vezes, queira convertê-lo ao verbum literário. Na verdade, meu capitão, pretendo oferecer um verdadeiro "Manual Crônico" da vida prática, a saber: a beleza escondida em um verso qualquer, o fiat lux de um movimento literário ou o sorriso banguela de um cãozinho de rua que tenha cruzado meu caminho. 

Sim, tudo isso pode vir a ser objeto do nosso "Manual Crônico" da vida prática, que lhe ofertarei em troca do módico valor de sua atenção. Esse é o meu devir. Talvez seja muito o que lhe peço, mas peço de coração. Se assim puder agir, prometo - sem jurar - retribuir-lhe com palavras de mentira e fingimento, pois não posso trair nossa divindade suprema, Fernando Pessoa (sou politeísta, confesso), que determinou que “o poeta é um fingidor”. Acolhi esse verso como um mandamento.

E por que deve você, meu capitão, dar-me fé e atenção? Digo sinceramente que não sei, mas desejo ardentemente que faça isso. Sou um modesto professor de Língua Portuguesa e Literatura, estudante de Filosofia, autor de romances e crônicas, que busca ardentemente o apodo de escritor. Se me leres, serei mais feliz. Se não, paciência - nem todo céu se dá ao homem, nem todo inferno se dá ao ser. E, quando um não quer, dois não brigam.

Como sou politeísta (sei que já disse isso e não quero amolar mais, mas sinto-me obrigado), rendo graças aos deuses editores deste nobre veículo que me cedem esse espaço, ainda que talvez paguem um preço alto por isso. Mas eles são pessoas de bom coração, e juro - sem prometer - que farei de tudo
para não decepcioná-los.

Como no princípio havia o nada, já agora temos alguma coisa, talvez uma parte de um todo que se pretende construir com crônicas, ensaios e artigos literários. E, se os deuses quiserem, permitirem e me inspirarem, alguma poesia, porque ninguém é de ferro. Espero alcançar tal intento. Por ora, é o que temos: a palavra se fez texto e esta coluna está entre nós. Eis o nosso "Manual Crônico".

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

.: Literalistas: escritor Thiago Sobral indica "O Amor nos Tempos de Cólera"


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. Foto: divulgação

Toda coluna nasce de uma inquietação. "Literalistas" surge do encontro entre literatura e artistas - vozes que carregam no corpo e na palavra as próprias histórias, mas que, aqui, dividem também as leituras que estão fazendo. O nome da coluna traz esse duplo sentido: os que se deixam levar pelas letras e, ao mesmo tempo, aqueles que as recriam a partir das próprias experiências. Quem inaugura esse espaço é o escritor Thiago Sobral, autor do romance independente "O Pai, a Faca e o Beijo". Entre páginas novas que escreve e a memória de obras que marcaram sua trajetória, Sobral revisita um clássico de Gabriel García Márquez: "O Amor nos Tempos de Cólera"

“Estou lendo 'O Amor nos Tempos de Cólera', de Gabriel García Márquez. Decidi relê-lo hoje, 17 anos depois, por conta de um novo projeto de escrita que estou gestando. É uma história belíssima, que retrata o amor na velhice. Na verdade, um amor de juventude que não vingou, mas que, meio século depois, encontra a chance de renascer e existir por completo. Ler Gabo é sempre uma jornada pelas loucuras e peripécias que a vida nos propõe e, muitas vezes, nos impõe. É por isso que recomendo este livro. Acho que deve ser lido porque quebra preconceitos etários e nos dá a chance de acreditar no amor uma vez mais, ainda que tudo pareça indicar o contrário.”

Publicado pela editora Record, "O Amor nos Tempos de Cólera" é uma das obras-primas do colombiano Gabriel García Márquez (1927–2014), Nobel de Literatura em 1982 e referência do realismo mágico. Autor de clássicos como "Cem Anos de Solidão" e "Crônica de Uma Morte Anunciada", Márquez construiu uma obra que atravessa fronteiras culturais e permanece entre os pilares da literatura universal. Compre o livros de Gabriel García Márquez neste link. 

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

.: Entre "O Pai, a Faca e o Beijo", Thiago Sobral escreve o romance da omissão



Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com

Há romances que não se contentam em apenas contar uma história. Eles cutucam, provocam, obrigam o leitor a encarar a vida de uma maneira mais pragmática. "O Pai, a Faca e o Beijo", de Thiago Sobral, é um desses livros que estabelece uma relação de gato e rato com o leitor justamente porque não entrega facilmente o que ele quer. A cada página desse excelente livro de estreia, a sensação é de se estar diante de uma tragédia anunciada - e, ao mesmo tempo, a de testemunhar um beijo negado, ou acompanhar a trajetória daqueles que se suicidam em vida.

O romance gira em torno de Santiago e Davi, o “Pirueta”. À primeira vista, parece uma história simples: dois homens tentando se aproximar, ainda que cercados por obstáculos, o principal deles é o embate com um pai que faz o que faz para proteger o filho da maledicência de uma cidade pequena. Mas Sobral não entrega um romance de amor no molde previsível. Em vez disso, o autor cria um campo de batalha em que as palavras são mal-entendidas, cada gesto se converte em desentendimentos e cada omissão para evitar o confronto carrega mais peso do que qualquer briga consumada. 

Santiago é o retrato da desesperança: um jovem que parece já ter desistido de si mesmo. Ele também é um paradoxo ambulante: homossexual e homofóbico, negro e racista, puritano e promíscuo, apaixonado e cruel, detestável e vítima das circunstâncias. O protagonista despeja todo tipo de chorume verbal, na fala e nos pensamentos, e ainda assim o leitor insiste em torcer por ele, como se a esperança de redenção pudesse surgir exatamente de quem mais nega a própria possibilidade de mudança e, sobretudo, de ser feliz.

Esse jogo perverso de expectativas é uma das forças do livro. Thiago Sobral não oferece personagens fáceis, mas desafia o leitor a se apegar a eles mesmo assim, como quem insiste em cuidar de uma planta que já nasceu murcha. Essa insistência faz parte da experiência da leitura desse livro: torcer pelo impossível. Mas não são apenas Santiago e Davi que sustentam o enredo de personagens carismáticos e fortes. 

Ao redor deles, um coro de personagens secundários amplia a sensação de claustrofobia emocional. A mãe, apresentada como doce e pilar da família, falha justamente por se omitir - a bondade dela é uma forma de covardia. O padre, que poderia ser refúgio espiritual, é ao mesmo tempo hipócrita e humano até demais, pois também revela-se incapaz de escapar dos dilemas dele. E Severo, o pai opressor e antagonista do próprio filho, representa a insatisfação destilada em cada atitude controversa. 

A falta de conciliação é a espinha dorsal de um livro que se constrói sobre a falha, a omissão e a impossibilidade. Cada gesto que poderia resolver é adiado e cada fala que poderia curar é engolida em um universo onde ninguém é de ninguém e todos se rejeitam o tempo todo. A escrita de Thiago Sobral é impregnada de fé, que no livro não aparece como dogma, muito menos como consolo. O autor, ex-seminarista, sabe quando a religião aperta e escreve sobre espiritualidade sem devoção cega, nem medo de expor as contradições de um universo que insiste em pregar amor enquanto ignora conflitos que poderiam ser resolvidos com uma fala mais incisiva. É uma literatura de coragem porque não teme nomear a ferida.

A influência de Machado de Assis é visível. Não se trata de copiar estilo do Bruxo do Cosme Velho, mas de herdar a ironia fina, a capacidade de desmontar o humano pela sutileza, o gosto pelo pessimismo elegante. Thiago Sobral parece olhar para os personagens que ele cria com a mesma frieza do autor de "Dom Casmurro" diante de Bentinho e Capitu: sem absolvições fáceis e muito menos recorrer ao melodrama.

Curiosamente, a leitura também evoca o cinema. Como no clássico "Casablanca", há uma sensação de destino interrompido, de que os protagonistas sempre carregarão um espaço vazio, um amor não realizado, um “barraco” abandonado em Cubatão, cidade que é cenário de toda essa história, e que traz o peso de uma geografia real para dentro do mito da separação eterna."O Pai, a Faca e o Beijo" é uma ode à liberdade, que nasce do confronto com o que se tentou calar. 

É a liberdade que pode ser percebida nos escombros, no beijo interdito, no pai irredutível e violento, no filho em fuga, naquilo que se faz escondido e no que se varre para baixo do tapete. Não é exagero dizer que também é um soco no estômago. Não há catarse porque não há reconciliação, e talvez esteja aí a ousadia maior do livro: recusar ao leitor a ilusão de que a vida sempre encontra um jeito. Compre o livro "O Pai, a Faca e o Beijo", de Thiago Sobral, neste link.

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