Por Helder Moraes Miranda, editor do Resenhando.
Escritor e jornalista português, Hugo Gonçalves lança, no Brasil, pela Companhia das Letras, o livro "Mãe". A obra autobiográfica faz uma investigação íntima e sensível sobre os efeitos da perda da mãe na formação da identidade e do caráter de um homem. Aos 40 anos, mais de 30 após esta morte, ele analisa os impactos da perda na própria vida, a partir de uma viagem - geográfica e reflexiva - em um relato honesto.
Durante mais de um ano, o escritor procurou pessoas e lugares que o permitiram resgatar memórias, completar lacunas e lançar luz onde havia desconhecimento em um assunto que se relaciona ao afeto, às origens, à família e às dores de crescimento. Para manter a fidelidade da conversa e até a sonoridade do idioma, algumas palavras foram mantidas com o português de Portugal. Uma conversa, e um livro, necessários aos tempos de hoje.
Como surgiu a ideia de escrever um livro sobre o impacto da perda de sua mãe?
Hugo Gonçalves - Sem que me desse conta, o livro foi-se construindo ao longo de muitos anos, aliás, se a minha mãe não tivesse morrido, não estou seguro de que seria escritor - a escrita foi, desde muito cedo, sendo uma forma de lidar com os sentimentos de perda e de singularidade (o único rapaz da turma que não tinha mãe). A ausência da mãe aparecia nos primeiros poemas da adolescência, nas crónicas que escrevi em adulto para os jornais e, de uma forma ou outra, nos meus livros anteriores a este. Durante muitos anos, não estava preparado para tamanho desafio, para enfrentar, em vez de fugir. Para ir fundo, em vez de aflorar brevemente. Foi preciso uma separação, após uma relação amorosa longa, e o regresso a Portugal, depois de dez anos a viver fora - incluindo quatro anos no Brasil - para perceber que tinha chegado a esse ponto da vida em que deixamos de fantasiar exclusivamente com o futuro e passamos a olhar para o passado, de forma a entender quem somos e como aqui chegámos. Ter crescido sem mãe era uma parte fundamental da minha existência, e estava na hora de aceitar isso, de investigar esse impacto em mim e na minha família. Estava cansado de fugir. Tinha as ferramentas de escritor à minha disposição. Queria saber o que evitara durante tanto tempo. Decidi ficar e escrever.
De que maneira a morte de uma mãe pode impactar na vida de um filho homem?
Escrever sobre o assunto foi uma maneira de passar a vida a limpo superá-lo?
O que há de mais traumático e de mais libertador ao voltar ao passado pela literatura?
Reescrever uma etapa da vida em que se viveu é algo semelhante a brincar de Deus?
Hugo Gonçalves - O livro começa com um aviso: "Este é um relato verdadeiro ainda que, na tentativa de fazer sentido, a nossa memória seja tantas vezes imaginação". Tentei ser o mais fiel às minhas memórias, e às memórias das pessoas com quem falei, mas a memória, em si, já está pejada de preconceitos, embelezamentos, ângulos mortos, exageros. Várias vezes - e isso está no livro - percebi que havia versões distintas do mesmo acontecimento. Eu estava certo que a minha mãe tinha saído de casa, para um hospital em Londres, numa manhã, antes de eu ir para a escola. A minha avó garantiu que foi no final da tarde. Mas qual a verdade? A verdade é aquela que faz sentido para nós. Parti para este livro com o propósito de ser fiel à verdade, não queria manipular sentimentos, enganar o leitor, isso era algo inegociável. Mas a verdade tem vários corações a bater dentro de si, vários pares de olhos, vários relicários de memórias.
Se pudesse reescrever a própria história a partir de seu livro, o que mudaria nela?
O que hoje permanece vivo de sua mãe em você?























