Jornalista e escritor apresenta livro que revisita a morte de Juscelino Kubitschek e reúne documentos, depoimentos e perícia realizada décadas após o acidente. Foto: divulgação
Sobre o autor
Visite a lojinha do Resenhando.com!
O que pode acontecer quando um filho gay convida o próprio pai, um homem do campo, de origem humilde e criado em um ambiente conservador, a experimentar o universo drag? Para o artista brasileiro Danilo Zocatelli Cesco, a resposta virou a exposição "Querido Pai", série fotográfica com curadoria de Renato Negrão que coloca a relação entre pai e filho no centro de uma investigação sobre masculinidade, memória, identidade queer e afeto. Radicado em Londres, onde concluiu o mestrado em fotografia pelo Royal College of Art, Zocatelli retorna ao Brasil para apresentar o trabalho na galeria de arte O Jardim, em São Paulo. A abertura acontece no dia 12 de setembro, com curadoria de Renato Negrão e performances das artistas queers PAVUNAGATOPRETO e Anuby Messias.
Nascido em 1989 e criado em Marialva, no Paraná, Danilo cresceu em um ambiente rural no qual a masculinidade também funcionava como uma espécie de código de pertencimento. Jogar futebol, trabalhar na terra, dirigir tratores, frequentar a igreja e participar das atividades da comunidade faziam parte do repertório esperado de um menino. Para ele, essas experiências serviam como lembretes de um universo masculino ao qual sentia não pertencer.
Ao se reconhecer como queer e encontrar na comunidade drag uma possibilidade de expressão e pertencimento, o artista enxergou nessa linguagem uma ponte possível com o pai. Em vez de explicar sua identidade por meio de uma conversa, propôs que o pai experimentasse fisicamente aquele universo. Diante da câmera, aplicou maquiagem em seu rosto e colocou uma grande peruca, criando uma personagem drag a partir do homem que, em sua memória, representava parte das estruturas de masculinidade das quais havia tentado escapar. “Não se trata de uma tentativa de transformar meu pai em outra pessoa, porque eu aprendi a amá-lo e entendê-lo como ele é. Eu só quiz mostrar a ele como pertenço ao mundo e como me sinto”, conta Danilo.
As fotografias nascem de uma carta escrita pelo artista ao pai. Os trechos da correspondência dão nome às imagens e transformam a série em uma narrativa construída a partir de lembranças pessoais. Entre elas estão o medo de decepcionar o pai e a experiência de crescer ouvindo uma palavra usada de maneira pejorativa para se referir a homens gays. Também aparece na carta uma lembrança decisiva. Aos 17 anos, depois que sua mãe contou ao pai que ele havia se assumido gay, Danilo ouviu dele, pela primeira vez, que era amado.
A história familiar ganhou alcance internacional e levou "Querido Pai" a instituições e festivais dedicados à fotografia contemporânea. A série foi apresentada nos Rencontres d’Arles, na França; na Saatchi Gallery e no Institute of Contemporary Arts (ICA), em Londres; na Embaixada do México em Londres; na Embaixada Britânica em São Francisco; e no PhotoBrussels Festival, na Bélgica. O projeto também foi selecionado para o New Contemporaries, iniciativa britânica que há mais de 70 anos destaca artistas emergentes. Em 2025, integrou ainda a seleção do Dior Photography and Visual Arts Award for Young Talents, apresentado na Luma, em Arles, e posteriormente na Suíça.
A abertura em São Paulo amplia a proposta da exposição com performances de PAVUNAGATOPRETO e Anuby Messias, escolhidas por meio de uma convocatória pública da galeria. Multiartista, cantora, cineasta e performer, Anuby Messias é uma mulher trans e negra criada na periferia de Guarulhos. Seu trabalho reúne audiovisual, música, performance, transgeneridade e negritude. Entre seus projetos está "Ira — A Travesti na Escravidão", que estabelece uma reflexão sobre identidade negra e trans a partir da história de Xica Manicongo, reconhecida como a primeira travesti do Brasil. A participação de PAVUNAGATOPRETO completa a programação da abertura e aproxima "Querido Pai" de uma cena contemporânea de performance que utiliza o corpo como espaço de expressão, provocação e resistência.
Sobre o artista
Nascido em 1989, Danilo Zocatelli Cesco é artista brasileiro radicado em Londres. A prática dele investiga identidade, memória e experiências humanas por meio de storytelling, livros de artista, fotografia sem câmera, vídeo, som e escultura. Os trabalhos dele abordam temas como enfermidade, sistema prisional, crimes de ódio, resiliência queer e reconexões familiares. É mestre em fotografia pelo Royal College of Art (2024) e teve trabalhos apresentados em instituições e exposições no Reino Unido, França, Estados Unidos e outros países.
Serviço
Exposição "Querido Pai", de Danilo Zocatelli
Curador: Renato Negrão
Local: O Jardim, galeria de arte
Endereço: Rua Ilansa, 185, Mooca – São Paulo/SP
Abertura: 12 de setembro, das 15h00 às 20h00
Período de visitação: 12 de setembro a 17 de outubro
Abertura com performances de: Anuby Messias e PAVUNAGATOPRETO
Vencedora do Prêmio Jabuti Acadêmico pelo livro "Exu-Mulher e o Matriarcado Nagô", a jornalista e escritora Claudia Alexandre integra a programação oficial da Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Pesquisadora das tradições de matrizes africanas, ela participa de uma roda de conversa no Salão de Ideias, no dia 12 de setembro, ao lado da sambista e jornalista Lyllian Bragança. O encontro apresenta o livro infantil "Tia Ciata e o Mistério da Foto", com início às 19h30. Antes do bate-papo, às 17h00, Claudia autografa o lançamento no estande da Cortez Editora, na Rua G 26.
Resultado de uma pesquisa iniciada em 2008, "Tia Ciata e o Mistério da Foto" transforma em narrativa lúdica uma investigação sobre lacunas, contradições e registros históricos e fotográficos atribuídos à chamada "mãe do samba". A pesquisa lança um olhar curioso para as imagens que ajudaram a construir a memória de Tia Ciata e para aquilo que ficou de fora delas.
Na obra, Claudia também recupera a dimensão multifacetada de Tia Ciata, destacando sua atuação como rezadeira, musicista e personagem fundamental na história do samba. Entre os episódios revisitados está a criação de "Pelo Telefone", considerado o primeiro samba gravado. A trajetória da autora passa ainda pelo Prêmio Jabuti Acadêmico. Claudia Alexandre venceu a premiação em 2024 com "Exu-Mulher e o Matriarcado Nagô" e voltou a ser reconhecida em 2025, desta vez pela obra coletiva "A Salvação da Pátria Amada". No ano passado, "Exu-Mulher" serviu de inspiração para o enredo que levou a Escola de Samba Pérola Negra ao título em São Paulo.
Serviço
Roda de conversa com Claudia Alexandre e lançamento de "Tia Ciata e o Mistério da Foto"
Sábado, dia 12 de setembro, às 17h00 - Sessão de autógrafos
Estande da Cortez Editora – Rua G 26
19h30 - Roda de conversa
Salão de Ideias - Programação Oficial da Bienal do Livro
Endereço da Bienal: Distrito Anhembi - Av. Olavo Fontoura, 1209 - Santana / São Paulo
Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.
Sexo, drogas, brigas, heroína, Sex Pistols e um romance que parecia ter sido escrito por alguém com uma queda preocupante por finais infelizes. "Sid & Nancy: o Amor Mata" retorna ao catálogo brasileiro pela plataforma de streaming Belas Artes À La Carte para revisitar a história de Sid Vicious e Nancy Spungen, casal que virou símbolo do lado mais destrutivo do punk em um retrato cru e perturbador da breve e incendiária trajetória de Sid Vicious e Nancy Spungen.
Dirigido por Alex Cox, o filme acompanha Sid Vicious, baixista dos Sex Pistols interpretado por Gary Oldman, e Nancy Spungen, vivida por Chloe Webb. A trama parte da passagem da banda pelos Estados Unidos, em 1978, e acompanha a deterioração do relacionamento entre os dois, enquanto drogas, violência e dependência passam a ocupar cada vez mais espaço na vida do casal. A produção também traz David Hayman como Malcolm McLaren, Andrew Schofield como Johnny Rotten e uma participação de Courtney Love, em uma de suas primeiras experiências no cinema.
Cox escreveu o roteiro ao lado de Abbe Wool. O diretor já vinha do irreverente "Repo Man" e decidiu tratar Sid e Nancy com uma liberdade que incomodou bastante gente ligada aos Sex Pistols. O próprio Cox explicou, anos depois, que a recepção americana do filme, entendido como uma história de amor trágica, estava mais próxima da intenção original do que a leitura britânica que o classificava simplesmente como um filme sobre o movimento punk.
A produção também ganhou força graças ao trabalho de Gary Oldman. O ator emagreceu para interpretar Sid e incorporou postura, voz e gestos do músico. Uma das curiosidades mais saborosas da produção é que Oldman usou durante as filmagens o colar que pertenceu ao próprio Sid Vicious. A mãe do músico, Anne Beverley, entregou a peça ao ator depois de conhecer a produção. Chloe Webb constrói uma Nancy menos fácil de encaixar na caricatura da groupie problemática. A atriz mergulha na instabilidade da personagem e acompanha a transformação de uma relação amorosa em uma espécie de pacto de autodestruição. O resultado incomoda porque o filme não oferece personagens particularmente fáceis de admirar.
A decadência aparece em primeiro plano, com o uso de drogas e a dependência tratados de maneira bastante dura. O filme também carregou uma velha briga com John Lydon, o Johnny Rotten dos Sex Pistols. O vocalista atacou publicamente a produção e reclamou da ausência de sua versão dos acontecimentos durante o processo de realização. Em entrevista ao The Guardian, anos depois, Lydon continuava classificando o filme de forma bastante pouco diplomática.
O incômodo faz algum sentido: Cox nunca pretendeu fazer uma reconstituição histórica convencional. A própria produção assumiu uma abordagem estilizada, misturando acontecimentos reais, memória e imaginação cinematográfica. O diretor chegou a admitir posteriormente que gostaria de ter tornado o final mais duro, deixando ainda mais evidente a dimensão trágica do desperdício das vidas de Sid e Nancy.
A trilha sonora ajuda a explicar por que o filme ganhou vida própria dentro da cultura punk. Joe Strummer, do The Clash, compôs "Love Kills", canção que acabou batizando a produção em diferentes materiais internacionais. A trilha ainda reúne The Pogues, John Cale, Steve Jones, Circle Jerks, Pray for Rain e o próprio Gary Oldman cantando "My Way". Outro detalhe curioso envolve Courtney Love. "Sid e Nancy" marcou uma de suas primeiras experiências no cinema, anos antes de ela conquistar reconhecimento como atriz por "O Povo contra Larry Flynt". No filme de Cox, ela aparece em um papel secundário, quando ainda era uma figura distante da celebridade cinematográfica que viria a se tornar.
A produção não foi um fenômeno comercial. Feita com orçamento estimado em US$ 4 milhões, arrecadou cerca de US$ 2,85 milhões mundialmente. A matemática, portanto, não ajudou. O tempo, entretanto, resolveu ser mais generoso: "Sid e Nancy" ganhou status de clássico cult e passou a ser lembrado como uma das cinebiografias musicais mais particulares dos anos 1980. A recepção crítica também ajudou a preservar o filme.
Ficha Técnica
"Sid e Nancy: o Amor Mata" | "Sid and Nancy" (título original)
Gênero: drama biográfico, musical e romance. Duração: 112 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1986. Data de lançamento: 7 de agosto de 1987 (Brasil). Idioma: inglês. Direção: Alex Cox. Roteiro: Alex Cox e Abbe Wool. Elenco: Gary Oldman, Chloe Webb, David Hayman, Andrew Schofield, Perry Benson, Tony London e Courtney Love. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não há cena pós-créditos propriamente dita. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
O Prêmio Sesc de Literatura anunciou as obras vencedoras da edição 2026: na categoria romance o ganhador foi “A Vontade das Coisas Mortas”, do Distrito Federal, escrito por Mariana do Nascimento Ramos; em Conto o livro “A Replicação do Sangue”, da Paraíba, de autoria de Anacã Agra; e em poesia “Geografia do Desconforto”, de Alagoas, por Guilherme de Miranda Ramos. Neste ano, o prêmio bateu recorde histórico de inscrições com 2.969 obras, sendo 1.203 de poesia, 960 romances e 806 livros de contos. As obras foram selecionadas por especialistas convidados para cada categoria.
“Chegar a 23ª edição com recorde de inscrições é um reconhecimento da força que o Prêmio Sesc de Literatura conquistou ao longo de sua trajetória. Os trabalhos recebidos este ano mostram que há uma produção literária diversa, potente e interessada em encontrar novos caminhos para contar as histórias do nosso país. Mais do que revelar novos autores, o prêmio reafirma o compromisso do Sesc com a literatura brasileira, criando oportunidades para que essas vozes sejam publicadas, circulem e cheguem a leitores de diferentes lugares”, afirma Diana dos Santos Abreu, Diretora de Saúde, Cultura, Lazer e Assistência do Departamento Nacional do Sesc.
Criado para incentivar novos talentos da literatura nacional, o Prêmio Sesc de Literatura é voltado exclusivamente a autores inéditos, ou seja, aqueles que nunca tiveram livros publicados na categoria para a qual concorrem. Os vencedores têm seus livros publicados pela Editora Senac Rio e recebem uma premiação em dinheiro no valor de R$ 30 mil. Além disso, circulam pelo país em uma programação composta por eventos como clubes de leitores, bate-papos com o público e eventos de literários.
Romance
Vencedora na categoria Romance, Mariana do Nascimento Ramos, carioca de 45 anos que mora em Brasília, é a autora de “A Vontade das Coisas Mortas”. Escritora, professora e servidora pública, Mariana é formada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde também concluiu mestrado em Ciência da Literatura. Atuou como professora de Literatura Brasileira na Argentina, na Costa Rica e na China.
“A Vontade das Coisas Mortas” conta a história de Bruna, professora de literatura de uma pequena cidade do interior que tenta reconstruir a própria vida depois de sobreviver a um massacre escolar. Entre sessões de terapia, o retorno ao trabalho, relações familiares e lembranças do passado, a personagem enfrenta o luto, a culpa e o trauma. A narrativa alterna presente e passado e aborda temas como memória, morte, solidão e as marcas deixadas por tragédias em pessoas e lugares. “Esse foi o primeiro romance que eu escrevi. O livro foi inspirado no caso de Suzano, em São Paulo, e tentei trazer intimidade de um lugar difícil, que é a violência. Procurei falar com lirismo e ternura, tratando a violência de forma silenciosa e que se entranha nas relações e nas coisas. Estou ansiosa para ver qual vai ser a percepção do público sobre a história”, conta.
Conto
Na categoria Conto, o escritor é o paraibano Anacã Agra, de 48 anos, com “A Replicação do Sangue”. Formado em Letras, com mestrado e doutorado em Literatura, Anacã é professor na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), onde ministra, desde 2017, um curso de criação literária. A literatura e a escrita estão presentes na vida dele desde a infância, com influência do pai, que também foi professor de literatura, letras e escritor. “Segundo meu pai conta, escrevi meu primeiro conto aos 13 anos e não parei mais”. Escritor de romances, contos, poemas e roteiros cinematográficos, Anacã publicou de forma independente os romances “A Face Interna da Carne”, “O Circo da Galileia”, “Amadis de Riorraso” e “Éramos Eternos”.
“A Replicação do Sangue” reúne contos marcados por tragédias humanas, violência, culpa, desejo e ironias do destino. As histórias colocam personagens comuns diante de situações extremas e exploram dramas familiares, paixões frustradas, vinganças, acidentes, crimes e encontros marcados pelo acaso. “Uma semana antes de receber a notícia do prêmio eu pensei em desistir de publicar. Faz mais de 30 anos que eu produzo e ainda não havia conseguido um ‘sim’. Agora eu não desisto mais”. Anacã diz que os contos que compõem o livro foram escritos ao longo do tempo, inicialmente sem a intenção de formar uma obra única. Posteriormente, o autor identificou aproximações temáticas entre os textos e os reuniu. “Parte das histórias tem origem em experiências próprias ou de pessoas próximas, enquanto outras nasceram de notícias, filmes e outras referências”, ele explica.
Poesia
O vencedor na categoria Poesia é o alagoano Guilherme de Miranda Ramos, 54 anos, com “Geografia do Desconforto”. Escritor, compositor e produtor cultural, Guilherme é autor de livros infantis e de crônicas e possui textos premiados em editais e concursos. Na música, é idealizador do Intermídia Estúdio de Criação e do projeto Quarentemas, além de compor trilhas sonoras para literatura, audiovisual e artes cênicas e produzir singles e álbuns autorais. Guilherme diz que o primeiro contato que teve com a arte foi criança, quando leu um poema em uma revista que sua mãe levou para casa. “Essa poesia me encantou, eu ficava reescrevendo como se o texto fosse meu”. Depois disso, se envolveu com arte na escola e passou a ler tudo, até bula de remédio, ele brinca.
Em “Geografia do Desconforto”, os poemas percorrem três territórios simbólicos: o sangue, o asfalto e o espelho. A primeira parte aborda memórias familiares, heranças afetivas, silêncios entre gerações, perdas e a busca por identidade. Na segunda, o olhar se volta para trabalhadores invisibilizados nas cidades, discutindo desigualdade, precarização, resistência e dignidade. Já a terceira parte mergulha em questões existenciais relacionadas ao corpo, ao tempo, à solidão, à saúde mental e ao sentimento de não pertencimento. Com linguagem simples e imagens marcantes, o livro constrói uma cartografia da memória e da condição humana. “Para esse livro eu saí da minha zona de conforto e experimentei formatos que antes eu não tinha coragem. Estou ansioso para encontrar outros escritores, trocar experiências com essas pessoas e ser fonte de inspiração para que eles não desistam dos seus sonhos, como eu não desisti do meu”.
Os autores vencedores serão apresentados ao público em uma cerimônia com noite de autógrafos no fim do ano. Após a publicação, os livros serão vendidos em livrarias online e físicas por todo país e distribuídos na rede de bibliotecas e escolas do Sesc.
Os jurados em 2026
O júri do Prêmio Sesc de Literatura 2026 reúne nomes de destaque da literatura brasileira. Em Romance, Maria Esther Maciel, escritora, poeta e professora da UFMG, e Itamar Vieira Junior, autor de Torto Arado e vencedor dos prêmios Jabuti, LeYa e Oceanos. Em Conto, participaram Miriam Alves, escritora e importante voz da literatura afro-brasileira contemporânea, e Dau Bastos, escritor, ensaísta e professor da UFRJ. Já o júri de Poesia foi formado por Cida Pedrosa, vencedora do Jabuti por Solo para Vialejo, e Edimilson de Almeida Pereira, poeta, ensaísta e professor da UFJF, vencedor do Oceanos e do Prêmio São Paulo de Literatura.
Sobre o Prêmio Sesc de Literatura
Criado em 2003, o Prêmio Sesc de Literatura já recebeu cerca de 27 mil originais e revelou ao mercado editorial 46 novos autores. O processo de avaliação tem como base o anonimato dos autores, garantindo a lisura do projeto e a liberdade de análise das comissões julgadoras, que fazem a seleção pelo mérito literário, com soberania sobre a decisão final. Os autores devem ser inéditos nas categorias pelas quais concorrem, ou seja, sem obras publicadas na categoria escolhida. Ao longo de sua trajetória, a iniciativa vem contribuindo para a publicação e circulação de novos autores, aproximando suas obras de leitores de diferentes regiões do país.
O que acontece quando a vida construída durante décadas começa a pedir uma revisão de roteiro? É dessa inquietação que parte “Nós, Ursos”, espetáculo que chega ao Teatro Commune, em São Paulo, com direção de André Corrêa e adaptação teatral assinada pelo escritor Gilvan Azevedo. A montagem, que segue em cartaz até dia 27 no Teatro Commune, reúne no elenco o próprio autor e Mauricio Constantino, seu marido e parceiro na criação da Cia. Salor. O espetáculo adapta o romance “Éramos Ursos e Não Sabíamos”, obra que conquistou leitores ao tratar de amor, identidade e reinvenção na maturidade. As apresentações acontecem aos sábados e domingos, às 20h00.
Em cena, Saulo e Rodney são dois homens maduros que passaram boa parte da vida seguindo os caminhos que pareciam previamente traçados. Pais de família, profissionais estabelecidos e acostumados a atender às expectativas alheias, eles se conhecem quando já carregam no currículo afetivo uma boa coleção de responsabilidades, escolhas e renúncias. A aproximação começa entre mensagens, viagens e encontros escondidos. Aos poucos, a relação ganha espaço e se transforma em algo difícil de manter nos bastidores. O romance passa então a conviver com afastamentos, conflitos internos, pressões familiares e as pequenas vitórias de quem decide, finalmente, olhar para a própria vida com outros olhos.
Misturando humor, drama e poesia, “Nós, Ursos” aborda amor, paternidade, masculinidades, liberdade, envelhecimento, desejo e reinvenção na vida adulta. A montagem também coloca em evidência relações LGBTQIA+ maduras, tema ainda pouco explorado pela dramaturgia brasileira contemporânea. Gilvan Azevedo, além de adaptar o romance, interpreta um dos protagonistas ao lado de Mauricio Constantino. A passagem da literatura para o palco nasceu da vontade de investigar o que o teatro poderia acrescentar à história.
"O teatro tem a capacidade de tornar visíveis conflitos que, no romance, acontecem dentro dos personagens. A adaptação não surgiu do desejo de ilustrar o livro, mas de explorar aquilo que o palco pode revelar de maneira única", afirma Gilvan Azevedo. Na direção, André Corrêa concentra a encenação nas relações entre os personagens e na passagem do tempo. A proposta combina interpretação, projeções e desenho de som, mantendo os atores e os vínculos estabelecidos entre eles no centro da narrativa.
"Vejo 'Nós, Ursos' como uma história sobre pessoas que chegam a um determinado momento da vida e precisam lidar com escolhas feitas, caminhos abandonados e possibilidades que ainda permanecem abertas. Buscamos uma encenação simples, focada nos atores e nos vínculos que eles constroem, combinando interpretação, projeções e desenho de som para ampliar a experiência emocional do público", afirma o diretor. O título da peça remete à cultura bear, surgida nos Estados Unidos na década de 1980 e difundida no Brasil a partir dos anos 1990.
Na comunidade LGBTQIA+, "urso" identifica homens gays ou bissexuais associados a corpos robustos, pelos e barbas. A expressão também carrega ideias de acolhimento, autenticidade e pertencimento. A referência serve de ponto de partida para ampliar a conversa sobre corpos, afetos e diferentes formas de masculinidade, longe de caricaturas e estereótipos. "A peça apresenta dois homens gays, mas não pretende transformar a sexualidade no único eixo de leitura desses personagens. Eles também são filhos, pais, profissionais, amigos, pessoas tentando conciliar expectativas externas e necessidades internas", afirma Gilvan Azevedo.
O escritor vê na trajetória de Saulo e Rodney uma história capaz de conversar com questões que vão muito além da experiência específica dos protagonistas. "Por isso, embora a história parta de uma experiência específica, acredito que ela dialoga com qualquer pessoa que já tenha se perguntado se a vida que construiu corresponde à vida que deseja viver”. Publicado inicialmente no Brasil e posteriormente lançado em inglês com o título “We Were Bears and Didn't Know”, o romance reúne leitores interessados em temas como identidade, afeto, corpo, pertencimento e as possibilidades que surgem depois dos 40 anos.
A adaptação marca, portanto, uma nova etapa para uma história que nasceu nas páginas de um livro e agora ganha corpo, voz e presença no palco. Porque algumas histórias de amor podem até demorar para começar. O problema é convencer o coração de que ele deveria continuar esperando. “Nós, Ursos” é uma produção da Cia. Salor, criada por Gilvan Azevedo e Mauricio Constantino a partir da experiência da Editora Salor. A companhia desenvolve projetos que aproximam literatura, teatro e outras linguagens artísticas.
“Éramos Ursos e Não Sabíamos” transforma crise de identidade em romance sobre liberdade
Publicado em 2024, o romance “Éramos Ursos e Não Sabíamos”, de Gilvan Azevedo, acompanha dois homens maduros inseridos no universo corporativo de São Paulo e diante de uma pergunta que costuma chegar sem convite: e se a vida que deu certo para todo mundo estiver errada para quem a vive?
Rodney é um executivo bem-sucedido, mas enfrenta um casamento desgastado e desejos que permanecem escondidos. A rotina ganha outro contorno quando ele conhece Paulo, também executivo e marcado por uma formação familiar conservadora. A aproximação entre os dois provoca uma sucessão de questionamentos sobre identidade, desejo, autonomia e as escolhas feitas ao longo da vida.
Com 213 páginas, o livro combina romance, conflitos familiares, discussões filosóficas e situações do cotidiano para acompanhar personagens que precisam decidir entre a segurança de uma existência conhecida e os riscos de uma vida mais autêntica. O título faz referência à cultura bear e à descoberta tardia de uma identidade que esteve ali o tempo todo, ainda que os próprios personagens não soubessem reconhecê-la.
A obra, que deu origem ao espetáculo “Nós, Ursos”, também propõe uma reflexão sobre o envelhecimento e as possibilidades de recomeço depois dos 40. Afinal, amadurecer pode trazer rugas, boletos e algumas certezas — mas também a coragem de descobrir que ainda há tempo para mudar o roteiro. Compre o livro “Éramos Ursos e Não Sabíamos”, de Gilvan Azevedo, neste link.
Ficha técnica
Espetáculo "Nós, Ursos"
Direção: André Corrêa. Texto e adaptação teatral: Gilvan Azevedo. Elenco: Mauricio Constantino e Gilvan Azevedo. Produção: Cia. Salor. Figurinos e preparação corporal: Lu Castro. Desenho de iluminação: Rodrigo Pivetti. Desenho de som e projeções: Giba. Coordenação de produção: Lu Castro. Assistência de produção: Diogo Castro. Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli. Design gráfico: Werner Schultz. Fotos e filmagens: Daniela Ferreira. Realização: Cia. Salor. Apoios: Carne Fresca Clothing, Planeta’s Restaurante, Cantina Luna di Capri, Piolin, Instituto Marcio Kozonara e ABC Bailão.
Serviço
Espetáculo “Nós, Ursos”
Temporada: de 8 de agosto a 27 de setembro de 2026. Sessões: sábados e domingos, às 20h00. Classificação indicativa: 16 anos. Duração: 70 minutos. Ingressos: R$ 100,00 (inteira) e R$ 50,00 (meia-entrada). Vendas: Sympla - https://www.sympla.com.br/evento/nos-ursos/3453018. Teatro Commune | Rua da Consolação, 1218, Consolação / São Paulo. Próximo à estação Higienópolis-Mackenzie.
Chapeuzinho Vermelho já percorreu a floresta tantas vezes que talvez estivesse na hora de experimentar um figurino novo. É o que fazem José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta em "Chapeuzinhos Mais Coloridos", novo livro infantil da dupla, publicado pela Padaria de Livros, editora independente criada pelos próprios autores, que começa pré-venda no dia 15 de setembro, com ilustrações de Marilia Pirillo. O título dá continuidade a "Chapeuzinhos Coloridos", lançado em 2010 pela Companhia das Letras e que já vendeu 200 mil exemplares. Desta vez, os escritores ampliam a brincadeira e apresentam seis novas possibilidades para a personagem: Amarelo-Canário, Marrom, Rosa, Transparente, Xadrez e Arco-Íris.
Em cada versão, a conhecida história de Chapeuzinho Vermelho ganha outro rumo. A dupla parte do conto tradicional para abordar assuntos como vaidade, folclore brasileiro, questões ambientais, terceira idade, fome, arte e até os mecanismos dos próprios contos de fada, em uma história que brinca com a metalinguagem. "Chapeuzinhos Mais Coloridos" integra a coleção "Eram Mil Vezes", dedicada às reinvenções de histórias conhecidas.
Torero e Pimenta escrevem juntos há mais de 30 anos e acumulam mais de 30 títulos em parceria, entre livros infantis, juvenis e adultos. O método de trabalho é curioso: um funciona como revisor do outro, numa parceria literária que sobreviveu a três décadas e, aparentemente, ainda rende novas maneiras de mexer com personagens que todo mundo acha que conhece. Na mesma coleção, os autores já publicaram "Os Penteados de Rapunzel" (2023), "O Patinho Feio que Não Era Patinho Nem Feio" (2024) e "Os Coelhos e as Tartarugas" (2025).
Na coleção "Fábrica de Fábulas", da Cia das Letrinhas, a dupla soma outros nove títulos de recontos. Jornalistas de formação, Torero e Pimenta se conheceram quando trabalhavam como revisores de uma revista especializada na área química. A parceria literária também passou pela ficção histórica. Entre os trabalhos da dupla está "Galantes Memórias e Admiráveis Aventuras do Virtuoso Conselheiro Gomes, O Chalaça", publicado originalmente em 1995 e vencedor do Prêmio Jabuti de Romance.
Ao longo da carreira, os dois publicaram por editoras como Companhia das Letras, Alfaguara, Moderna e Objetiva. Em 2019, ao lado do ilustrador Ivo Minkovicius, criaram a Padaria de Livros, que publica exclusivamente obras dos três sócios. A editora já lançou mais de 30 títulos, alguns deles indicados ao Prêmio Jabuti, e ultrapassou a marca de cem mil exemplares vendidos. "Chapeuzinhos Mais Coloridos" chega com 56 páginas e formato de 21 x 28 centímetros. A pré-venda começa em 15 de setembro, pelo site da Padaria de Livros. Pré-venda neste link.
Jacques Tati tinha um problema sério com limites. Para fazer cinema, precisava controlar o enquadramento, o movimento dos atores, o cenário, os ruídos e até aquilo que o espectador deveria descobrir sozinho. Em "Jacques Tati, Caído da Lua", documentário dirigido por Jean-Baptiste Péretié, essa obsessão aparece como uma das chaves para entender tanto a grandeza quanto a derrocada do cineasta francês. A produção estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, e percorre a carreira de Tati por meio de imagens de arquivo, cenas de filmes, entrevistas e registros pouco conhecidos de seu processo criativo.