Arnaud Desplechin mistura ficção, documentário e ensaio para revisitar a formação de Paul Dédalus e investigar por que o cinema continua ocupando um lugar tão particular na vida de quem assiste
Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.
Ir ao cinema pode ser uma experiência tão íntima que, em determinados momentos, um filme parece saber alguma coisa sobre quem está sentado diante da tela. É nesse território de lembranças, descobertas e obsessões que Arnaud Desplechin coloca “Loucos por Cinema!”, produção francesa que chega à plataforma de streaming da Reserva Imovision depois de passar por festivais como Cannes e Festival do Rio.
O cineasta retoma Paul Dédalus, personagem que funciona como seu alter ego, para reconstruir a formação de um espectador apaixonado por filmes. A trajetória começa na infância, quando o garoto descobre o cinema levado pela avó para assistir a “Fantômas”, e acompanha diferentes fases de sua vida até o momento em que a cinefilia deixa de ser apenas uma paixão e passa a interferir na maneira como ele compreende o mundo.
Paul é interpretado em diferentes idades por Louis Birman, Milo Machado-Graner, Sam Chemoul e Salif Cissé. Mathieu Amalric, presença recorrente na filmografia de Desplechin e intérprete de Paul Dédalus em “Como Eu Briguei (Por Minha Vida Sexual)”, aparece como o cineasta. A escolha reforça uma espécie de jogo de espelhos que acompanha o diretor há décadas.
A graça está justamente nessa mistura. “Loucos por Cinema!” se move entre a memória pessoal, a encenação ficcional, entrevistas, reflexão sobre a experiência de assistir a um filme e uma quantidade generosa de referências cinematográficas. Desplechin olha para a própria formação como cinéfilo e, ao fazer isso, acaba convidando o público a recuperar suas próprias primeiras sessões, os filmes descobertos por acaso, os personagens que permaneceram na lembrança e até aquelas obras que modificaram alguma coisa sem que fosse possível perceber imediatamente.
O diretor passeia por nomes e títulos fundamentais para a formação de seu olhar. “Os Incompreendidos”, de François Truffaut, “Gritos e Sussurros”, de Ingmar Bergman, “As Pequenas Margaridas”, de Věra Chytilová, e “Shoah”, de Claude Lanzmann, aparecem em uma coleção de referências que ajuda a desenhar a educação sentimental de Paul. A própria escolha de “Fantômas” como ponto de partida remete a uma lembrança de infância do cineasta. Desplechin quer entender por que as pessoas continuam indo ao cinema depois de mais de um século de imagens projetadas. Cannes definiu a produção como uma homenagem às salas de cinema, enquanto o próprio diretor explicou que reuniu memórias, ficção e investigação para criar uma espécie de percurso de formação de um espectador.
O problema aparece quando a paixão do diretor começa a pesar sobre a narrativa. As referências são tantas, e a vontade de discutir cinema é tão evidente, que determinadas passagens parecem destinadas principalmente a quem já domina o repertório apresentado. O filme ganha força quando transforma a cinefilia em memória compartilhada; perde um pouco dela quando se fecha em conversas e associações que exigem do público uma intimidade semelhante com a história do cinema.
Ainda assim, existe algo bastante simpático nessa imperfeição. Desplechin não tenta organizar sua paixão de maneira didática. Ele deixa que lembranças, cenas, ideias e personagens se encontrem, como acontece na própria memória de quem passa anos assistindo a filmes. Uma lembrança de Bergman pode levar a uma discussão filosófica; um cineclube escolar pode despertar uma paixão; uma sessão pode se transformar em acontecimento amoroso; um personagem de ficção pode carregar traços de quem o criou.
Com 88 minutos, “Loucos por Cinema!” tem o tamanho de uma lembrança que se recusa a terminar. A produção francesa foi apresentada na Sessão Especial de Cannes em 2024 e chegou aos cinemas brasileiros em março de 2025. O resultado é irregular, mas coerente com o próprio objeto. Afinal, a cinefilia também tem seus excessos. Há quem assista a um filme e siga para casa. Há quem passe dias pensando nele, procure entrevistas, leia sobre o diretor, descubra outro título, monte uma lista e volte à sala de cinema para rever aquilo que acabou de descobrir. Desplechin claramente pertence ao segundo grupo.
Ficha técnica
“Loucos por Cinema!” | “Spectateurs!” (título original) | “Espectadores!” (título em Portugal)
Gênero: drama, comédia e ficção documental. Duração: 88 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 15 de janeiro de 2025, na França. Idioma: francês. Direção e roteiro: Arnaud Desplechin. Elenco: Louis Birman, Dominique Païni, Clément Hervieu-Léger, Françoise Lebrun, Sandra Laugier, Olga Milshtein, Milo Machado-Graner, Margaux Mussano, Sam Chemoul, Marilou Poujardieu, Salomé Rose Stein, Micha Lescot, Shoshana Felman, Kent Jones, Salif Cissé e Mathieu Amalric. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.
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