quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

.: Crítica do filme "Todo o Dinheiro do Mundo"


Por Helder Moraes Miranda, em fevereiro de 2018.

Elke Maravilha disse, certa vez, que existem pessoas tão pobres que só tem dinheiro. Ela se referia a Silvio Santos na ocasião. Mas essa frase se encaixa como uma luva com o filme "Todo o Dinheiro do Mundo" ("All The Money In The World", título original), que assisti na última terça, no Cine Roxy, em Santos, e estreia já nesta quinta-feira em todo o Brasil.

Dirigido por Ridley Scott, o longa-metragem narra a história real dos cinco meses do sequestro do neto de John Paul Getty, em 1973, na Itália, e é baseado no livro de 1995 de John Pearson, "Painfully Rich: The Outrageous Fortunes and Misfortunes of the Heirs of J. Paul Getty". 

Os bastidores foram muito falados e geraram muito burburinho em torno desta produção. Primeiro pelo ator Kevin Spacey, que gravou todo o filme como John Paul Getty e apareceu na campanha de marketing inicial (trailer abaixo), mas foi afastado por várias acusações de assédio sexual e substituído às pressas por Christopher Plummer, que era a escolha original do diretor para o papel, e precisou refazer todas as cenas a um mês antes do lançamento do filme.

A outra polêmica se deu pelo fato de que o salário de Mark Wahlberg teria sido 1500 vezes maior do que o de Michelle Williams para participar das refilmagens. Durante o período de nove dias das refilmagens durante o feriado norte-americano de Ação de Graças, os protagonistas do filme aceitaram participar das gravações sem exigir grandes quantias novamente. 

Enquanto Mark Wahlberg recebeu US$ 1.5 milhão, Michelle Williams ganhou menos de mil dólares pelo trabalho, sem saber do acordo feito pelo ator. A notícia causou revolta em Hollywood e, para remediar o caso, anunciou que doaria a quantia para a campanha Time's Up, em nome de Michelle, para angariar dinheiro para o fundo que auxilia vítimas de assédio sexual.

Polêmicas à parte, o filme é excelente. Não se percebe, em nenhum momento, que o filme passou por refilmagens. Mérito dos atores, dos continuístas e da própria edição. "Todo o Dinheiro do Mundo" nos faz refletir que nem tudo na vida é dinheiro. O filme descreve a recusa de J. Paul Getty de cooperar com as exigências de extorsão de um grupo de sequestradores do grupo Mafia do crime organizado 'Ndrangheta , que sequestrou o neto John Paul Getty III. "Tenho 14 netos, se pagar resgate, terei 14 crianças sequestradas", alegou ele, na época, aos 80 anos.

O personagem de Christopher Plummer só tem o dinheiro para dar aos outros. Todos se aproximam dele somente por isso. Então, ele compra companhia de todos, sem exceção, dos familiares, dos profissionais que o servem. Porque é tão pobre de espírito que só tem isso a oferecer e, em contraponto, está uma mãe, defendida por Michelle Williams, extremamente desprendida no dinheiro. 

Assistindo a interpretação de Michelle e de Mark Wahlberg, fica difícil entender o porquê de ela ter ganhado 1500 a menos que ele nas refilmagens, tendo em vista que ela o engole em cena com tanto talento. Além disso, o drama gira em torno da personagem que é dela. Nada é páreo para uma mãe desesperada, principalmente no cinema, onde tudo é potencializado na tela grande. 

Então, de um lado temos um acumulador de obras de arte que as compra não porque gosta realmente delas, mas porque as considera investimentos. De outro lado, uma mãe desesperada que não tem dinheiro para pagar o resgate de um filho, em cativeiro durante cinco meses, que tem a orelha cortada. Quem vencerá esse embate?

No elenco,  Michelle Williams, Mark Wahlberg, Christopher Plummer, Charlie Plummer, Romain Duris, Andrew Buchan, Timothy Hutton, Stacy Martin, entre outros. Foi lançado nos Estados Unidos em 25 de dezembro de 2017 e, no Brasil, estreia em 1o de fevereiro. Recebeu três indicações no 75º Golden Globe Awards: Melhor Diretor, Melhor Atriz - Drama (Michelle Williams) e Melhor Ator Coadjuvante (Christophet Plummer). Plummer também foi indicado para Melhor Ator Coadjuvante na 90ª Cerimônia de Óscares e Melhor Ator em um Papel de Apoio no 71º Prêmio British Academy Film Awards.


Sobre o diretor
Ridley Scott (South Shields, 30 de novembro de 1937) é um renomado diretor e produtor de cinema britânico, cujos principais trabalhos são "Alien" (1979), "Blade Runner:  Caçador de Andróides" (1982), "Thelma & Louise" (1991), "Gladiador" (2000), "Falcão Negro Em Perigo" (2001), "Cruzada" (2005), "Prometheus" (2012) e "Perdido em Marte" (2015). 

Personagem que teve orelha cortada está morto na vida real
Neto de magnata do petróleo,  John Paul Getty III passou cinco meses em cativeiro aos 16 anos. O avô se recusava a pagar fiança e sequestradores enviaram orelha a um jornal. Estimado em US$ 3 milhões, o resgate foi pago após o bando ter cortado uma orelha do jovem, enviada num envelope, ao lado de uma mecha de seus cabelos vermelhos, a um jornal italiano. 

Em seguida, enviaram uma foto do jovem sem a orelha. John Paul Getty III foi solto em 15 de dezembro de 1973, após ter passado o aniversário de 17 anos em cativeiro. Jornais relataram que ele tentou agradecer ao avô por telefone, mas este se recusou a atender. Um ano após a libertação, John Paul Getty III se casou com a alemã Gisela Martine Zacher.  Ele, com 18 anos, ela, com 24. 

Furioso com o casamento, o avô deserdou o neto. Passou a viver em Los Angeles e mergulhou no álcool e nas drogas. Em 1981, ficou paralisado por um derrame que o deixou quase cego. O avô já tinha morrido e o pai, herdeiro da fortuna, não quis cuidar dele, até ser obrigado, ao final de uma batalha jurídica travada pela mãe do rapaz. Passou os últimos anos da vida em uma mansão pertencente ao pai, no sul da Inglaterra. Faleceu lá, aos 54 anos. 

"Todo o Dinheiro do Mundo" - Trailer com Christopher Plummer

"Todo o Dinheiro do Mundo" - Trailer com Kevin Spacey


*Helder Moraes Miranda escreve desde os seis anos e publicou um livro de poemas, "Fuga", aos 17. É bacharel em jornalismo e licenciado em Letras pela UniSantos - Universidade Católica de Santos, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura, pela USP - Universidade de São Paulo, e graduando em Pedagogia, pela Univesp - Universidade Virtual do Estado de São Paulo. Participou de várias antologias nacionais e internacionais, escreve contos, poemas e romances ainda não publicados. É editor do portal de cultura e entretenimento Resenhando.



Sobre o Cine Roxy: Em mais de oito décadas, o Roxy é caso raro de cinema que acompanhou a transformação da maneira de se exibir um filme: dos primeiros e grandes rolos de película ao sistema digital. A rica trajetória se deve à perseverança e o senso empreendedor da família Campos: de pai para filho, chegou ao atual diretor do Roxy, Antônio Campos Neto, o Toninho Campos. A modernização, aliada à tradição, transformou o Roxy no principal cinema do litoral paulista, fato que rendeu a Toninho o Prêmio ED 2013 na categoria Exibição -Destaque Profissional de Programação, considerado o principal do país nos segmentos de exibição e distribuição. E o convite para ser diretor cultural do Santos & Convention Visitors Bureau.
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