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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

.: “Na Hora da Zona Morta” faz de dom paranormal um inquietante dilema


Suspense de David Cronenberg, baseado no romance de Stephen King, chega ao Belas Artes À La Carte com uma das atuações mais marcantes da carreira de Christopher Walken

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Christopher Walken interpreta um homem que acorda depois de cinco anos em coma e descobre que perdeu praticamente tudo o que dava sentido à antiga vida. A carreira de professor ficou para trás, a mulher que amava seguiu adiante e o mundo continuou funcionando durante o longo período em que ele permaneceu inconsciente. Em compensação, o personagem dele, Johnny Smith, ganhou um poder que ninguém em sã consciência pediria de presente: ao tocar em alguém, consegue enxergar acontecimentos do passado e possíveis acontecimentos do futuro. É a premissa de “Na Hora da Zona Morta”, produção de 1983 dirigida por David Cronenberg e baseada no romance homônimo de Stephen King, que estreia no catálogo do streaming Belas Artes À La Carte.

A situação poderia facilmente descambar para uma aventura sobrenatural cheia de truques, sustos e explicações convenientes. Cronenberg prefere outro caminho. O extraordinário aparece integrado à rotina de Johnny, quase como uma extensão incômoda de sua existência. O personagem não ganha uma capa, tampouco passa a posar de salvador da humanidade. Continua sendo um homem abatido, confuso e ressentido, tentando descobrir o que fazer com aquilo que lhe aconteceu.

As premonições têm um efeito físico sobre ele, mas o que realmente pesa é saber coisas que os outros desconhecem e carregar informações que não podem ser simplesmente esquecidas. Uma das características mais interessantes da atuação de Walken está nessa mistura de fragilidade e desconforto, sem transformar Johnny em um herói convencional. A escolha do protagonista quase foi outra. Stephen King queria Bill Murray para interpretar Johnny Smith, mas o papel acabou nas mãos de Walken. Hoje, a escalação parece tão perfeitamente encaixada que é difícil imaginar o filme com outra pessoa. 

A produção ainda reúne Brooke Adams, Tom Skerritt, Herbert Lom, Anthony Zerbe, Colleen Dewhurst e Martin Sheen, este último especialmente memorável como Greg Stillson, um político ambicioso que cruza o caminho de Johnny. A Paramount confirma o elenco principal e credita Jeffrey Boam pelo roteiro, baseado no romance de King. O roteiro de Boam organiza a narrativa em episódios que acompanham diferentes situações provocadas pelo dom de Johnny. Ele ajuda pessoas, interfere em acontecimentos e tenta compreender os limites de sua própria capacidade. Entre esses momentos está a colaboração com o xerife Bannerman, vivido por Tom Skerritt, numa investigação envolvendo um assassino de mulheres. 

A estrutura poderia resultar em um filme fragmentado, mas Cronenberg mantém o fio emocional do protagonista enquanto conduz a história até o encontro decisivo com Stillson. O aspecto político ganha força quando Johnny toca a mão de Stillson e vislumbra um futuro de consequências catastróficas. A partir daí, a pergunta deixa de ser apenas o que fazer com uma capacidade paranormal e passa a envolver uma questão bem mais incômoda: até onde alguém pode interferir no destino de outra pessoa quando conhece aquilo que está por vir?

Cronenberg vinha de filmes como “A Ninhada” e “Videodrome”, obras fortemente associadas ao horror corporal e às deformações físicas. Em “Na Hora da Zona Morta”, o diretor trabalha de maneira mais contida. O próprio filme parece interessado em explorar o medo por dentro da cabeça de Johnny, deixando o fantástico conviver com uma atmosfera cotidiana. A percepção das habilidades paranormais também varia visualmente ao longo da narrativa, em vez de obedecer a um único recurso repetido. Essa escolha ajuda a manter as premonições estranhas sem transformá-las em mero espetáculo.

A paisagem de inverno contribui para a sensação de isolamento. Johnny está cercado por neve, casas, pequenas comunidades e pessoas aparentemente comuns, mas carrega informações que o afastam cada vez mais delas. Uma análise publicada pela Cinemateca Portuguesa sobre a obra de Cronenberg destaca justamente o caráter psicológico do filme e sua ambientação fora dos grandes centros urbanos.

Os bastidores também guardam algumas histórias curiosas. Para conseguir reações involuntárias de Walken durante as premonições, Cronenberg disparava, fora do enquadramento, um revólver Magnum .357 carregado com munição de festim. A ideia teria partido do próprio ator. O recurso ajudava a provocar os pequenos espasmos que o diretor queria registrar diante da câmera. 

Outra situação curiosa envolveu um boneco de “E.T. - O Extraterrestre”. Na primeira versão da cena em que Johnny presencia uma premonição envolvendo o quarto de uma menina, o brinquedo aparecia em uma prateleira. Como o personagem pertencia à Universal, a produção precisou refazer a sequência depois que o estúdio ameaçou tomar medidas legais. O boneco, definitivamente, não tinha poderes paranormais, mas quase conseguiu interferir no futuro do filme.

A relação com a literatura também aparece em uma brincadeira que ganhou uma segunda vida anos depois. Antes do acidente, Johnny orienta os alunos a lerem “The Legend of Sleepy Hollow”, de Washington Irving. Em 1999, Christopher Walken interpretaria o Cavaleiro Sem Cabeça em “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, de Tim Burton. A coincidência transformou uma referência aparentemente casual em uma daquelas pequenas conexões que o cinema gosta de guardar para quem presta atenção.

A história de Johnny também tem uma curiosa ligação com Peter Hurkos, holandês que ficou conhecido por afirmar possuir poderes paranormais depois de sofrer uma queda e bater a cabeça. Hurkos dizia conseguir obter informações sobre outras pessoas por meio do toque, ideia que guarda evidente proximidade com a habilidade apresentada no filme.

Outro dado interessante está na própria trajetória de Cronenberg. “Na Hora da Zona Morta” foi seu primeiro grande sucesso de público, segundo a Cinemateca Portuguesa, e recebeu reconhecimento em festivais e premiações. O filme ganhou o Saturn Award de Melhor Filme de Terror em 1984, enquanto Walken, Cronenberg e Jeffrey Boam foram indicados nas categorias de atuação, direção e roteiro. Cronenberg também recebeu prêmios no Festival de Cinema Fantástico de Avoriaz, e a fotografia de Mark Irwin foi premiada pela Canadian Society of Cinematographers.

O longa-metragem tem ainda uma característica que ajuda a explicar sua permanência: o poder de Johnny nunca elimina sua condição humana. Ele continua sofrendo, hesitando, perdendo e fazendo escolhas cujas consequências não consegue controlar completamente. O sobrenatural serve, portanto, para apertar ainda mais o parafuso de uma história sobre culpa, destino, perda e responsabilidade. Com “Na Hora da Zona Morta”, Cronenberg encontrou uma maneira particularmente eficiente de adaptar Stephen King sem depender do excesso. O horror está naquilo que Johnny descobre quando toca alguém, mas também naquilo que ele gostaria de nunca ter visto.


Ficha técnica
“Na Hora da Zona Morta” | “The Dead Zone” (título original) | “Zona de Perigo” (título em Portugal).
Gênero: suspense, terror, ficção científica e drama psicológico. Duração: 103 minutos. Classificação indicativa: 14 anos no Brasil; M/16 em Portugal. Ano de produção: 1983. Data de lançamento: 21 de outubro de 1983 nos Estados Unidos. Idioma: inglês. Direção: David Cronenberg. Roteiro: Jeffrey Boam, baseado no romance de Stephen King. Elenco: Christopher Walken, Brooke Adams, Martin Sheen, Tom Skerritt, Herbert Lom, Anthony Zerbe, Colleen Dewhurst, Nicholas Campbell, Sean Sullivan e Jackie Burroughs. Distribuição no Brasil: Paramount Pictures. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: “Prazeres Desconhecidos”: a juventude perdida na China em transformação


Longa-metragem de Jia Zhangke acompanha dois jovens desempregados em Datong e registra, com humor seco e olhar documental, os desejos, frustrações e contradições de uma geração diante da modernização chinesa

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Dois jovens desempregados passam os dias andando de moto, jogando conversa fora, assistindo televisão e tentando descobrir o que fazer da própria vida. Em meio a uma China que acelera rumo à modernização, Xiao Ji (Wu Qiong) e Bin Bin (Zhao Weiwei) parecem ter ficado para trás. É desse aparente vazio que Jia Zhangke constrói “Prazeres Desconhecidos”, longa-metragem que chega à plataforma de streaming Reserva Imovision.

Terceiro longa dirigido pelo cineasta chinês, o filme acompanha os dois amigos em Datong, cidade industrial da província de Shanxi, durante 2001. O cenário ajuda a contar a história tanto quanto os personagens: prédios degradados, ruas em obras, fábricas, motocicletas, bares, karaokês e televisores ligados registram uma sociedade que começa a experimentar novas possibilidades econômicas e culturais. 

Xiao Ji se interessa por Qiao Qiao (Zhao Tao), cantora e dançarina que trabalha como garota-propaganda de uma empresa de bebidas alcoólicas. O problema atende pelo nome de Qiao San (Li Zhubin), namorado da moça, um sujeito envolvido com atividades criminosas e pouco disposto a aceitar a aproximação do rapaz. Bin Bin, por sua vez, vive uma relação cada vez mais distante com Yuan Yuan (Zhou Qingfeng), jovem que pretende deixar Datong para estudar comércio internacional em Pequim.

Enquanto os dois amigos perambulam pela cidade, a televisão anuncia acontecimentos que parecem pertencer a outro universo: a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, a candidatura de Pequim aos Jogos Olímpicos de 2008, acontecimentos políticos e episódios de violência. A vida particular dos personagens segue em outra velocidade, quase como se eles assistissem ao próprio país avançar pela tela sem saber muito bem onde se encaixar. O filme registra uma geração influenciada pela televisão, pela cultura pop ocidental e pelo desejo de consumo, mas que ainda vive cercada por estruturas sociais e econômicas bastante precárias. 

O título original, “Ren Xiao Yao”, remete a um conceito associado ao filósofo taoista Zhuangzi e pode ser compreendido como uma ideia de liberdade diante das restrições. A expressão também aparece ligada a uma canção pop bastante conhecida entre os jovens chineses naquele período. O curioso é que a busca por liberdade dos personagens frequentemente esbarra em dívidas, desemprego, relacionamentos complicados, violência e falta de perspectivas. O prazer anunciado pelo título está sempre por perto, mas raramente ao alcance deles.

A relação com a cultura norte-americana aparece de maneira divertida e, ao mesmo tempo, reveladora. “Pulp Fiction”, de Quentin Tarantino, é citado pelos personagens, enquanto filmes, músicas, televisão e produtos estrangeiros compõem o imaginário de Xiao Ji e Bin Bin. Jia não trata essas referências como simples decoração: elas ajudam a mostrar como uma juventude de uma cidade provincial passa a construir seus desejos a partir de imagens vindas de um mundo muito maior.

A produção também guarda uma particularidade importante. “Prazeres Desconhecidos” foi o primeiro longa de Jia Zhangke filmado em vídeo digital. Segundo informações de produção reunidas pelo próprio diretor, a opção estava ligada às limitações de orçamento e tempo. O filme foi rodado em apenas 19 dias, e a câmera digital permitiu maior mobilidade para acompanhar as ruas de Datong.

A escolha estética combina com a história. Jia observa os personagens a uma certa distância, deixa as situações se desenvolverem e evita conduzir o espectador pela mão. Em vez de transformar cada conflito em grande acontecimento dramático, acompanha o cotidiano de pessoas que parecem não saber muito bem para onde ir. “Prazeres Desconhecidos” também encerra uma fase da carreira de Jia Zhangke. O longa é frequentemente associado a uma trilogia informal formada por “Xiao Wu”, “Plataforma” e este filme, dedicada a observar diferentes momentos de uma China em processo acelerado de mudança. A partir de “The World”, de 2004, o diretor passou a trabalhar dentro do sistema oficial de produção cinematográfica chinês.


Ficha técnica
“Prazeres Desconhecidos” | “Ren Xiao Vao” (título original)
Gênero: comédia dramática. Duração: 113 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2002. Data de lançamento no Brasil: 23 de outubro de 2026. Idioma: mandarim. Direção: Jia Zhangke. Roteiro: Jia Zhangke. Elenco: Zhao Weiwei, Wu Qiong, Zhao Tao, Zhou Qingfeng, Wang Hongwei, Bai Ru, Liu Xi'an e Li Zhubin. Distribuição no Brasil: Imovision, pela plataforma Reserva Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

.: Confusões familiares e aposentadoria dão o tom de “Querendo ou Não"


Comédia italiana de Gianni Di Gregorio chega à Reserva Imovision depois de passar pelo Festival de Veneza e observa, com humor delicado, os incômodos e afetos que acompanham a vida em família

Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Um professor aposentado na casa dos 70 anos finalmente conquistou aquilo que imaginava ser uma espécie de prêmio pela passagem dos anos: uma vida organizada segundo os próprios interesses. Em “Querendo ou Não”, que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision, o ator e diretor Gianni Di Gregorio interpreta esse homem que encontrou prazer na rotina tranquila, entre amigos, leituras, escritos que avançam devagar e uma existência sem grandes sobressaltos. O problema é que família, como se sabe, costuma ter pouca consideração pelos planejamentos alheios.

A tranquilidade do professor muda quando sua filha Sofia (Greta Scarano) retorna da Alemanha depois de descobrir a traição do marido, Helmut (Tom Wlaschiha). Ela chega acompanhada dos dois filhos, Olga e Tommaso, e instala na casa do pai uma confusão que altera seus hábitos, sua privacidade e até a maneira como ele passa a enxergar os próprios dias. Dirigido por Di Gregorio, que também assina o roteiro ao lado de Marco Pettenello, o filme acompanha esse rearranjo familiar com humor discreto. 

A situação poderia facilmente escorregar para a comédia de conflitos domésticos, mas o cineasta prefere observar os personagens em suas pequenas contradições. O professor gosta da liberdade que tem, mas também se intromete na vida alheia quando lhe interessa. Sofia está fragilizada pela crise conjugal, mas nem por isso deixa de ser exigente. Os netos chegam como uma pequena força da natureza. Helmut, arrependido, tenta reconstruir a relação percorrendo um caminho bastante peculiar da Alemanha até Roma.

A premissa tem uma particularidade interessante: o homem que imaginava ter finalmente conquistado o direito de administrar o próprio tempo descobre que a aposentadoria, para os outros, pode significar exatamente o contrário. Quando Sofia lembra ao pai que ele é aposentado, a frase aparentemente banal carrega uma dose considerável de ironia. O trabalho confere uma espécie de legitimidade social aos compromissos, enquanto aquilo que alguém escolhe fazer por prazer pode ser tratado como tempo disponível para resolver problemas familiares.

Esse aspecto aproxima “Querendo ou Não” de uma tradição do cinema italiano interessada em encontrar humor nas pequenas engrenagens da convivência. Di Gregorio não precisa inventar grandes acontecimentos para movimentar a narrativa. A casa cheia, uma rotina interrompida, uma conversa atravessada ou a necessidade de dividir novamente espaços que pareciam definitivamente particulares já bastam para provocar situações engraçadas. O filme mantém essa atenção aos personagens comuns e aos pequenos embaraços da existência.

O romance também aparece nessa equação. O professor demonstra interesse por uma mulher e se permite flertar, lembrar que ainda existe desejo e imaginar uma possibilidade de relacionamento. A abordagem é discreta, sem transformar a velhice em sinônimo de ausência de interesse amoroso. Nesse ponto, o filme ganha uma conversa peculiar com outras produções recentes que colocam personagens mais velhos no centro de histórias de amor e desejo.Talvez exista, na comédia de Di Gregorio, alguma sabedoria nessa inconveniente matemática doméstica: certas coisas simplesmente chegam, ocupam espaço e nos obrigam a recalcular a rota.


Ficha técnica
“Querendo ou Não” | “Come Ti Muovi, Sbagli” (título original)
Gênero: comédia. Duração: 97 min. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento no Brasil: 22 de outubro de 2026, na Reserva Imovision. Idiomas: italiano e alemão. Direção: Gianni Di Gregorio. Roteiro: Gianni Di Gregorio e Marco Pettenello. Elenco: Gianni Di Gregorio, Greta Scarano, Tom Wlaschiha, Iaia Forte, Anna Losano, Pietro Serpi e Alessandro Bedetti. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não identificadas nas fontes consultadas. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: Tiros, teatro e humor à moda Corbucci: “Que Faço no Meio de Uma Revolução?”


A comédia de Sergio Corbucci mistura western, aventura e sátira política ao acompanhar dois italianos que caem, contra a vontade, no meio da Revolução Mexicana

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Sergio Corbucci levou Vittorio Gassman e Paolo Villaggio para o México revolucionário em “Que Faço no Meio de Uma Revolução?”, comédia de 1972 que chega ao streaming pelo streaming Belas Artes À La Carte. O filme coloca lado a lado um ator de teatro cheio de artimanhas e um padre pouco disposto a aventuras, dupla que passa a sobreviver entre revolucionários, tropas federais, fuzilamentos, fugas e disfarces. O resultado é uma mistura deliberadamente amalucada de western, aventura e humor.

Gassman interpreta Guido Guidi, líder de uma companhia teatral em turnê pelo México. Villaggio é don Albino Moncalieri, religioso que acaba envolvido na mesma confusão. A dupla circula por um país em ebulição e, a cada tentativa de escapar da encrenca, parece encontrar outra situação ainda mais complicada. O filme acompanha os dois italianos enquanto são jogados de um lado para outro entre grupos revolucionários e forças federais, sempre com a ameaça de uma execução por perto.

Corbucci já havia mergulhado no México revolucionário em “O Mercenário” (1968) e “Vamos a Matar, Companheiros” (1970). Em “Que Faço no Meio de Uma Revolução?”, porém, o cineasta leva o seu western para um terreno muito mais próximo da farsa. A produção integra o ciclo dos chamados Zapata Westerns, subgênero do western italiano ambientado na Revolução Mexicana e frequentemente marcado por conflitos sociais e políticos.

O elenco reúne ainda Riccardo Garrone, Eduardo Fajardo, Leo Anchóriz, José Canalejas, Simón Arriaga, Rosanna Yanni, Carmen Pericolo, Víctor Israel e Lorenzo Robledo. O roteiro foi escrito por Corbucci ao lado de Massimo Franciosa e Sabatino Ciuffini, enquanto Alejandro Ulloa cuidou da fotografia e Eugenio Alabiso da montagem. A trilha sonora ficou a cargo de Ennio Morricone, colaborador frequente do cinema de gênero italiano.

Existe ainda uma história de bastidores digna de uma comédia de Corbucci. Segundo Paolo Villaggio, depois de cerca de três meses de filmagens, a equipe descobriu que um problema técnico havia impedido o registro das cenas. Praticamente tudo precisou ser refilmado. A façanha foi realizada em apenas 22 dias, numa espécie de corrida contra o prejuízo que combina bastante com a reputação caótica do projeto.

O título original, “Che c'entriamo Noi con la Rivoluzione?”, pode ser entendido literalmente como “O que Nós Temos a Ver com a Revolução?”. A pergunta resume a situação dos protagonistas, dois italianos que vão parar no centro de uma guerra que, inicialmente, pouco lhes dizia respeito. O próprio conceito também brinca com a tradição do western revolucionário italiano, gênero que Corbucci ajudou a consolidar durante os anos 1960 e 1970.

Ficha técnica
“Que Faço no Meio de Uma Revolução?” | “Che c'entriamo noi con la rivoluzione?” (título original) | “What Am I Doing in the Middle of the Revolution?” (título internacional).
Gênero: comédia, aventura, western. Duração: 103 minutos. Classificação indicativa: 10 anos (classificação registrada no lançamento brasileiro). Ano de produção: 1972. Data de lançamento: 19 de dezembro de 1972 (Itália). Idioma: italiano. Direção: Sergio Corbucci. Roteiro: Sergio Corbucci, Massimo Franciosa e Sabatino Ciuffini. Elenco: Vittorio Gassman, Paolo Villaggio, Riccardo Garrone, Eduardo Fajardo, Leo Anchóriz, Rosanna Yanni, José Canalejas, Simón Arriaga, Carmen Pericolo, Víctor Israel e Lorenzo Robledo. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte, em estreia no streaming. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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terça-feira, 20 de outubro de 2026

.: “O Americano Tranquilo” revisita a Indochina de Greene e da Guerra Fria


Clássico dirigido por Joseph L. Mankiewicz chega ao Belas Artes à La Carte com Audie Murphy e Michael Redgrave em um triângulo amoroso cercado por disputas políticas, colonialismo e interesses estrangeiros

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O cinema gosta de revisitar as próprias feridas, às vezes com uma elegância que chega a ser desconfortável. É o caso de “O Americano Tranquilo”, produção de 1958 dirigida por Joseph L. Mankiewicz que estreia no catálogo do streaming Belas Artes À La Carte. Adaptado do romance homônimo de Graham Greene, o filme mergulha na Saigon de 1952 para acompanhar a relação entre um jornalista britânico experiente, um jovem americano cheio de convicções e uma vietnamita que se torna o centro de uma disputa afetiva e política.

Michael Redgrave interpreta Thomas Fowler, correspondente britânico que conhece bem as engrenagens da Indochina e prefere observar os acontecimentos com uma dose generosa de cinismo. Audie Murphy vive o americano, personagem chamado Alden Pyle no romance, mas que permanece sem nome no filme. Giorgia Moll interpreta Phuong, jovem vietnamita envolvida com Fowler e, depois, também com o recém-chegado americano. Claude Dauphin completa o quarteto principal como o inspetor Vigot.

A trama começa com a descoberta do corpo do americano e recua no tempo para mostrar como aquela morte foi construída pelas relações entre os personagens. O que poderia se limitar a um triângulo amoroso ganha proporções maiores quando as ideias políticas de Pyle entram em choque com a experiência de Fowler. O americano acredita em uma espécie de “terceira força” capaz de reorganizar a região, enquanto o jornalista desconfia cada vez mais das boas intenções de quem chega de fora com soluções prontas.

A diferença entre o romance de Greene e o filme de Mankiewicz é uma das partes mais interessantes dessa história. No livro, publicado em 1955, Alden Pyle é um agente americano ligado à CIA e a intervenção estrangeira aparece sob uma perspectiva bastante crítica. A adaptação mudou radicalmente esse desenho: o personagem passou a ser apresentado como um civil ligado a uma organização de ajuda internacional, o que suavizou sua relação com o governo dos Estados Unidos. O Film at Lincoln Center observa que essa alteração provocou a reação de Greene, enquanto a mesma mudança acabou fortalecendo, para alguns críticos, o conflito dramático entre Pyle e Fowler.

Graham Greene não gostou da brincadeira. O escritor considerou que Mankiewicz havia alterado o sentido político de sua história. O British Film Institute lembra que o cineasta modificou o desfecho da trama de maneira significativa, invertendo a responsabilidade pelos atentados que aparecem na narrativa. No romance, a participação americana está no centro da violência; no filme, a explicação apresentada segue outro caminho.

A mudança não aconteceu por acaso. Hollywood ainda carregava as marcas do macarthismo e da perseguição a artistas acusados de simpatias comunistas. O próprio ambiente político da época ajuda a compreender por que um romance tão desconfiado da intervenção americana ganhou uma adaptação com posições diferentes das de Greene. Existe ainda uma figura curiosa nos bastidores: Edward Lansdale, oficial de inteligência americano que colaborou sem crédito no roteiro. O envolvimento dele ajudou a alimentar a associação entre o personagem e a atuação americana no Sudeste Asiático. A presença de Lansdale na produção tornou a história ainda mais curiosa, sobretudo porque o filme trata de uma região que poucos anos depois estaria no centro de uma intervenção militar americana de proporções muito maiores.

A escolha de Audie Murphy também acrescenta uma camada peculiar ao filme. Herói de guerra condecorado e uma das grandes celebridades militares americanas da época, Murphy carregava para a tela uma imagem pública muito diferente daquela de um ator convencional. Mankiewicz chegou a considerar Montgomery Clift para o papel, enquanto Laurence Olivier estava ligado inicialmente ao personagem de Fowler. Com a saída de Clift por problemas de saúde, Olivier também deixou o projeto, e Michael Redgrave assumiu o papel.

É Redgrave, aliás, quem acaba dominando boa parte do filme. A interpretação de Fowler recebeu elogios desde o lançamento e continua sendo apontada como um dos grandes trunfos da produção. As imagens de Saigon são outro capítulo à parte. “O Americano Tranquilo” foi o primeiro filme de Hollywood filmado no Vietnã, e parte significativa das cenas externas foi realizada em Saigon. Mercados, cerimônias religiosas e ruas da cidade foram incorporados à produção, dando ao filme uma dimensão documental rara para uma obra hollywoodiana daquele período. O restante das filmagens foi realizado nos estúdios Cinecittà, em Roma.

As filmagens vietnamitas renderam situações quase cinematográficas demais para serem verdadeiras. A equipe precisava evitar o meio-dia por causa da luz intensa, teve dificuldades para conseguir autorização para filmar em um templo budista e acabou registrando, sem saber, uma manifestação política que a polícia local acreditava ser uma cena de figuração. A produção pensou estar diante de uma procissão religiosa; depois descobriu que se tratava de um protesto.

A fotografia em preto e branco de Robert Krasker reforça essa atmosfera. Responsável também pela cinematografia de “O Terceiro Homem” e “Desencanto”, Krasker cria uma Saigon de contrastes fortes, em que a movimentação das ruas convive com a tensão permanente entre os personagens. O resultado tem o peso visual do cinema clássico, mas registra uma cidade que ainda estava longe de se tornar o cenário conhecido mundialmente pela Guerra do Vietnã.

O filme acabou ficando em uma posição curiosa na história do cinema. Foi recebido com atenção, mas enfrentou críticas pela distância em relação ao romance de Greene e não se transformou em grande sucesso comercial. Décadas depois, ganhou uma nova leitura, especialmente porque o que parecia uma disputa política distante passou a ser visto à luz dos acontecimentos que se seguiriam no Vietnã.

Jean-Luc Godard chegou a defender a produção de Mankiewicz e a considerá-la um dos grandes filmes de 1958. Em 2002, Philip Noyce voltou ao romance de Greene com Michael Caine, Brendan Fraser e Do Thi Hai Yen. Essa segunda versão é considerada mais fiel ao livro e ajuda a perceber o tamanho das mudanças feitas por Mankiewicz. As duas adaptações podem ser vistas quase como respostas cinematográficas diferentes para a mesma pergunta: até onde vai a ingenuidade de quem acredita estar ajudando um país estrangeiro e quando essa suposta ajuda começa a produzir consequências que ninguém consegue controlar?


Ficha técnica
“O Americano Tranquilo” | “The Quiet American” (título original)
Gênero: drama, romance, suspense e guerra. Duração: 122 minutos. Classificação indicativa: não informada no Brasil; produção originalmente classificada como Approved nos Estados Unidos. Ano de produção: 1958. Data de lançamento: 8 de fevereiro de 1958, nos Estados Unidos. Idiomas: inglês, francês e vietnamita. Direção: Joseph L. Mankiewicz. Roteiro: Graham Greene (romance) e Joseph L. Mankiewicz; Edward Lansdale colaborou sem crédito. Elenco: Audie Murphy, Michael Redgrave, Claude Dauphin, Giorgia Moll, Bruce Cabot, Fred Sadoff, Kerima e Richard Loo. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte, em estreia na plataforma. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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domingo, 11 de outubro de 2026

.: “Grande Sertão: Veredas” em novas leituras para uma história sem fim


Sete décadas depois da publicação, o romance de João Guimarães Rosa permanece aberto a novas leituras, adaptações, pesquisas e interpretações que mantêm linguagem e personagens em movimento

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Em julho de 1956, “Grande Sertão: Veredas” chegou às livrarias brasileiras. Setenta anos depois, o romance continua sendo lido, estudado, adaptado, encenado, desenhado, filmado e discutido. A distância entre essas duas datas ajuda a dimensionar a permanência de uma obra que nunca se acomodou dentro da própria importância. O livro de João Guimarães Rosa atravessou gerações sem perder a capacidade de provocar estranhamento. 

Riobaldo continua contando a história dele, Diadorim permanece escondendo segredos, os jagunços seguem atravessando o sertão e as perguntas sobre amor, violência, fé, destino, coragem, medo e escolha ainda estão abertas. A explicação para a vitalidade do romance é uma: “Grande Sertão: Veredas” não oferece uma leitura única de si mesmo. A publicação de 1956 representou um momento decisivo na trajetória de Guimarães Rosa. O escritor já havia chamado atenção com “Sagarana”, publicado dez anos antes, mas o novo romance ampliou de maneira radical as possibilidades de sua literatura.

A história acompanha Riobaldo em um longo relato sobre a vida entre jagunços, as guerras, as alianças, as perdas e a relação com Diadorim. Só que a aventura nunca aparece separada das grandes questões que ocupam o narrador. Enquanto conta o que viveu, Riobaldo tenta compreender o que fez, o que desejou, aquilo em que acreditou e até onde suas escolhas foram realmente suas. Essa combinação dá ao livro uma característica incomum. Há uma história para acompanhar, mas também há uma linguagem que exige atenção. Há personagens e acontecimentos, mas existe ainda uma voz que pensa sobre tudo isso enquanto narra. O resultado é um romance que permite diferentes portas de entrada.

Um leitor pode chegar pela história de Riobaldo e Diadorim. Outro pode se interessar pelo sertão. Há quem entre pela linguagem, pela filosofia, pela religiosidade, pela violência ou pela própria construção do narrador. Pedro Süssekind, autor de “O Mar, o Rio e a Tempestade: sobre Homero, Rosa e Shakespeare”, defende essa condição viva do clássico. Para ele, uma obra dessa dimensão não deve ser tratada como peça de museu: cada nova leitura pode recolocar o livro em circulação e fazer com que leitores de épocas diferentes encontrem outras possibilidades na narrativa.


O sertão ficou maior que o mapa
A frase de Riobaldo - “o sertão é do tamanho do mundo” - ganhou uma espécie de vida própria ao longo das décadas. Guimarães Rosa conhecia o sertão mineiro desde a infância, mas também voltou a ele como observador e escritor. Em 1952, acompanhou durante dez dias uma comitiva de oito vaqueiros que conduzia cerca de 180 cabeças de gado até Araçaí. Durante a viagem, registrou palavras, expressões, nomes de lugares, histórias, comportamentos e detalhes do cotidiano, um material que foi transformado pela literatura. No livro aparecem rios, veredas, fazendas, chapadas, animais, vaqueiros e jagunços reconhecíveis. mas também existe também um território interior, feito de dúvidas e decisões, no qual qualquer pessoa pode se reconhecer.

Riobaldo ainda tem perguntas está o tempo todo tentando interpretar os acontecimentos. O homem mais velho que ele se tornou olha para o jagunço do passado e procura compreender o jovem que tomou determinadas decisões. A distância entre experiência e memória produz uma narrativa cheia de dúvidas. Ele acredita que fez um pacto com o Diabo? O destino existe ou é uma explicação que inventamos depois dos acontecimentos? As pessoas escolhem seus caminhos ou apenas descobrem tarde demais aquilo que já fizeram?

Süssekind aproxima Riobaldo de personagens de tradições muito diferentes, como Hamlet, de Shakespeare. A comparação pode parecer inesperada, mas parte de uma ideia simples: a dimensão de um personagem não depende do lugar onde ele vive. Riobaldo pensa sobre a existência com uma intensidade que ultrapassa a classificação de “personagem regional”.


Diadorim continua mudando de rosto
Sônia Clara viveu Diadorim no filme de 1965. Bruna Lombardi assumiu a personagem na minissérie da TV Globo de 1985. Luiza Lemmertz levou a personagem para a montagem teatral de Bia Lessa e depois voltou a interpretá-la no cinema. Luisa Arraes, que também participou da montagem teatral, assumiu Diadorim no “Grande Sertão” de Guel Arraes. A cada versão, a personagem muda de corpo, de ambiente e de linguagem.

A televisão dos anos 1980 encontrou uma Diadorim inserida em uma produção de grandes dimensões, filmada no sertão mineiro. O teatro de Bia Lessa transformou o romance em uma experiência espacial. O cinema de Guel Arraes transferiu os conflitos dos jagunços para uma periferia urbana. As adaptações de “Grande Sertão: Veredas” mostram isso com clareza. O filme de 1965 precisou condensar uma narrativa monumental. A minissérie de 1985 ampliou o tempo e a dimensão da história. Bia Lessa transformou a obra em teatro e instalação. Guel Arraes levou os conflitos do livro para outro território. Também houve quadrinhos, música e videoinstalação. Mas nenhuma dessas versões substitui o romance, já que ajudaram a mantê-lo em circulação.


Setenta anos também cabem em novas leituras
A permanência de “Grande Sertão: Veredas” aparece ainda na quantidade de maneiras encontradas para voltar a ele. Em 2026, a edição especial de 70 anos publicada pela Companhia das Letras ganhou novo projeto gráfico, capa inspirada em trabalho da artista mineira Sonia Gomes, ensaio de Érico Melo sobre o processo de construção do romance e depoimentos de escritores, pesquisadores e leitores. O aniversário também movimenta outras iniciativas, entre elas uma nova edição de  “Diário do Grande Sertão”, de Bruna Lombardi, debates e uma versão em audiolivro narrada por Caio Blat.

Na Flip de 2026, mais de 300 pessoas acompanharam a conferência “70 Anos de Grande Sertão: Veredas”, com Itamar Vieira Junior, dedicada à permanência e à força do romance no presente. A quantidade de atividades em torno da obra revela uma coisa curiosa: comemorar 70 anos não significa olhar para trás durante sete dias, pelo contrário, evidencia encontrar novos motivos para voltar ao livro. Existe ainda uma razão menos evidente para a permanência de “Grande Sertão: Veredas”: Guimarães Rosa continua sendo descoberto.

A biografia dele ajuda a entender parte dessa obra. O menino de Cordisburgo que cresceu ouvindo histórias, o médico que percorreu pequenas cidades do interior, o diplomata que viveu na Europa e ajudou a salvar muitas vidas, o homem interessado por idiomas e culturas diferentes e o escritor que voltou ao sertão para recolher palavras e histórias não cabem numa imagem única.

Chamar Guimarães Rosa apenas de escritor regional seria pequeno demais. Colocá-lo exclusivamente entre os autores do modernismo também não dá conta do que ele fez com a linguagem. Transformar “Grande Sertão: Veredas” em monumento literário pode até reconhecer sua importância, mas cria uma distância desnecessária entre o livro e quem ainda não o leu. A literatura brasileira mudou muito desde 1956. Mudaram os leitores, os costumes, as formas de publicação, os meios de comunicação e as maneiras de contar histórias.

O livro hoje pode ser encontrado numa edição comemorativa, discutido em uma universidade, transformado em filme, levado ao teatro, convertido em quadrinhos, ouvido em audiolivro ou apresentado em uma conversa com escritores. Pode chegar ao leitor que conhece Guimarães Rosa desde a escola e também àquele que abre o livro pela primeira vez. A obra sobrevive porque permite essas aproximações sem perder a ´própria estranheza e não precisa ser simplificada para continuar atual. Ele permanece disponível para novas perguntas sem entregar uma interpretação definitiva de si mesmo.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

.: "Nós Acreditamos em Vocês" coloca a Justiça diante da palavra de uma mãe


Drama belga de Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys, premiado na Berlinale, acompanha uma audiência de guarda marcada por acusações de violência sexual e chega com exclusividade à Reserva Imovision

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Alice chega ao tribunal sabendo que qualquer palavra pode interferir no destino dos filhos. A guarda das crianças está em discussão, o ex-marido está diante dela e a mãe precisa sustentar, perante uma juíza, a decisão de protegê-las. É a situação central de "Nós Acreditamos em Vocês" ("On vous croit"), drama belga dirigido por Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys que estreia exclusivamente na plataforma Reserva Imovision nesta sexta-feira, dia 9 de outubro. O filme foi lançado nos cinemas brasileiros em julho, pela Filmes do Estação, e retorna agora ao streaming depois de conquistar espaço em festivais internacionais.

Myriem Akheddiou interpreta Alice, personagem que concentra praticamente toda a tensão da narrativa. Conhecida por trabalhos como "Titane" e pela colaboração com os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, a atriz divide o elenco com Laurent Capelluto, no papel do pai, e Natali Broods, como a juíza. Ulysse Goffin e Adèle Pinckaers completam o núcleo familiar, respectivamente como Etienne e Lila. A direção e o roteiro são assinados por Devillers e Dufeys, que realizam aqui o primeiro longa-metragem da carreira conjunta.

O ponto de partida é uma audiência de família na qual Alice tenta impedir que os filhos voltem a ficar sob os cuidados do pai, acusado de violência sexual contra uma das crianças. A mãe precisa apresentar sua versão diante de advogados e da magistrada, enquanto sua própria conduta passa a ser examinada pelo sistema judicial. O filme acompanha esse embate durante uma manhã e mantém a narrativa praticamente confinada ao ambiente do tribunal, fazendo da burocracia, dos questionamentos e das respostas uma fonte contínua de tensão.

A escolha formal é decisiva para esse efeito. "Nós Acreditamos em Vocês" foi realizado no formato 4:3, com enquadramentos próximos dos rostos, especialmente o de Myriem Akheddiou. Charlotte Devillers explicou que o formato surgiu também da necessidade de trabalhar com recursos reduzidos e que o rosto de Alice se tornou uma espécie de paisagem principal da produção. A diretora e Arnaud Dufeys queriam deixar espaço para a atuação e para a sensação de que aquela audiência estava acontecendo diante do espectador.

Uma das características mais particulares da produção está na extensa cena de audiência. Segundo a entrevista concedida por Akheddiou ao AlloCiné, a sequência principal tem cerca de 55 minutos e foi filmada em uma tomada, com três câmeras. A atriz também enfrentou um monólogo de aproximadamente 25 minutos, exigência que ajudou a transformar a interpretação de Alice no eixo físico e emocional da produção.

O resultado é um drama de tribunal que evita transformar a acusação em mero recurso para produzir reviravoltas. Os diretores concentram a atenção na maneira como uma mãe precisa organizar sua fala enquanto enfrenta perguntas, objeções e procedimentos jurídicos. A estrutura também coloca o espectador numa posição desconfortável, porque a dúvida institucional passa a disputar espaço com aquilo que Alice afirma estar tentando impedir: que os filhos sejam novamente expostos ao homem que ela acusa.

A origem do projeto ajuda a entender essa escolha. Charlotte Devillers é enfermeira e teve contato profissional com questões relacionadas à saúde sexual e a vítimas de violência. Em entrevistas, ela e Dufeys relatam que pesquisaram o funcionamento da Justiça e conversaram com vítimas e profissionais antes de desenvolver o roteiro. A preocupação dos realizadores era compreender o desgaste de mães que chegam às instituições depois de longos períodos tentando proteger os filhos e precisam, ainda assim, explicar repetidamente suas decisões.

O filme também ganhou atenção pela maneira como utiliza atores profissionais ao lado de pessoas ligadas ao universo jurídico. As advogadas Alisa Laub e Marion de Nanteuil, que atuam na defesa da proteção infantil na Bélgica, participam da produção, assim como Mounir Bennaoum no papel do advogado das crianças. Devillers contou que o texto destinado aos advogados recebeu tratamento diferente durante as filmagens: eles receberam as ideias centrais e puderam desenvolver seus argumentos durante a longa cena da audiência.

A repercussão internacional começou na Berlinale 2025, onde "On vous croit" participou da seção Perspectives e recebeu uma Menção Especial do júri na categoria de primeiro longa-metragem. O reconhecimento oficial da Berlinale confirma a distinção, concedida ao filme dirigido por Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys.

A trajetória posterior ampliou a recepção da produção. "Nós Acreditamos em Vocês" acumulou premiações em festivais e, posteriormente, conquistou seis troféus na primeira edição do prêmio René du Cinéma, entre eles Melhor Filme e Melhor Direção. A atuação de Myriem Akheddiou também recebeu reconhecimento em diferentes festivais, reforçando a posição da atriz como principal força interpretativa da produção.

O título ganha sentido completo quando a audiência chega ao fim. "Nós Acreditamos em Vocês" se refere diretamente à necessidade de reconhecer a palavra de vítimas de violência e, ao mesmo tempo, expõe a distância entre o que uma pessoa vive e aquilo que precisa ser traduzido para dentro de uma estrutura jurídica. A produção encontra sua força justamente nessa fricção: Alice precisa falar, explicar, responder e insistir enquanto tenta impedir que a proteção dos filhos seja tratada como uma questão secundária.

Com 78 minutos, fotografia de Pépin Struye, montagem de Nicolas Bier, direção de arte de Mathilde Lejeune e música de Lolita Del Pino, "Nós Acreditamos em Vocês" constrói uma experiência concentrada, sustentada pela atuação de Myriem Akheddiou e pela decisão de manter o espectador dentro daquela audiência durante praticamente toda o filme.

Ficha técnica
"Nós Acreditamos em Vocês" | "On Vous Croit" (título original) | "Acreditamos em Ti" (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 78 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: francês. Direção: Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys. Roteiro: Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys. Elenco: Myriem Akheddiou, Laurent Capelluto, Natali Broods, Ulysse Goffin, Adèle Pinckaers, Alisa Laub, Marion de Nanteuil e Mounir Bennaoum. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.



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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

.: "Um Espírito Baixou em Mim": Steve Martin e Lily Tomlin no mesmo corpo


Comédia de Carl Reiner transforma uma tentativa de transferência de alma em um duelo físico entre dois personagens incompatíveis e marca a última parceria do diretor com Steve Martin

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A morte pode até ser inevitável, mas, em "Um Espírito Baixou em Mim", de Carl Reiner, ela está longe de ser o fim dos problemas. A comédia de 1984 chega ao catálogo do streaming Belas Artes À La Carte com Steve Martin e Lily Tomlin em uma das situações mais absurdas do cinema americano dos anos 1980: dois personagens incompatíveis obrigados a dividir o mesmo corpo. É uma premissa que poderia facilmente virar uma bobagem descartável, mas encontra em Martin um intérprete disposto a transformar cada movimento do personagem numa pequena catástrofe física.

Roger Cobb é um advogado que vive uma existência bastante menos interessante do que gostaria. Durante o dia, trabalha no escritório; à noite, alimenta o sonho de se dedicar à música. A rotina ganha contornos definitivamente estranhos quando ele assume o caso de Edwina Cutwater, uma milionária excêntrica que está morrendo e pretende transferir sua alma para o corpo da jovem Terry Hoskins, interpretada por Victoria Tennant. O plano parece suficientemente extravagante, mas Hollywood ainda tinha algumas cartas na manga.

O ritual dá errado e Edwina acaba dentro do corpo de Roger, ocupando apenas um dos lados. A partir daí, o advogado passa a disputar pernas, braços, voz e movimentos com a mulher que mal consegue suportar. A engenhoca funciona principalmente porque Steve Martin se entrega de corpo inteiro ao exercício. O ator precisa representar Roger, representar Edwina e, em vários momentos, representar Roger sendo tomado pelas vontades de Edwina. A comicidade nasce do controle corporal, dos gestos desencontrados e da tentativa de fazer parecer natural aquilo que, por definição, é completamente ridículo. 

Lily Tomlin, por sua vez, participa de uma brincadeira curiosa: depois da morte de Edwina, sua presença aparece sobretudo pela voz e pelos reflexos, enquanto Martin carrega fisicamente a personagem. O resultado exige dos dois atores um jogo de timing bastante preciso. A dupla recebeu indicações ao Globo de Ouro de 1985 nas categorias de atuação em comédia ou musical, reconhecimento que ajuda a dimensionar o impacto das performances na época. O filme foi dirigido por Carl Reiner, cineasta que já havia trabalhado com Martin em "O Panaca", "Cliente Morto Não Paga" e "O Médico Erótico". "Um Espírito Baixou em Mim" encerrou essa parceria cinematográfica entre os dois, que transformaram a persona cômica de Martin em matéria-prima para diferentes tipos de maluquice.

O roteiro de Henry Olek e Phil Alden Robinson parte do romance inédito "Me Two", de Edwin Davis. Segundo o catálogo do American Film Institute, o projeto chegou a circular durante a produção com os títulos provisórios "Me, Two" e "Me, Too", antes de assumir o definitivo "All of Me". A mesma fonte registra que a versão cinematográfica foi baseada no romance não publicado de Davis e teve lançamento nos Estados Unidos em 21 de setembro de 1984. Também chama atenção a participação de Victoria Tennant como Terry Hoskins. Durante as filmagens, a atriz conheceu Steve Martin, e os dois se casaram em 1986, permanecendo juntos até 1994. Tennant ainda voltaria a trabalhar com Martin anos depois, em "L.A. Story", de 1991. 

"Um Espírito Baixou em Mim" tem aquela aparência assumidamente oitentista de uma comédia que não precisa explicar demais o absurdo para colocá-lo em movimento. Algumas soluções envelheceram, certos efeitos denunciam a época e o humor pode provocar reações bem diferentes de quem chega ao filme hoje. Ainda assim, a proposta central continua funcionando quando Martin e Tomlin estão em cena, sobretudo porque a história encontrou um terreno perfeito para o talento físico do ator. Não por acaso, Martin ganhou em 1985 os prêmios de melhor ator da National Society of Film Critics e do New York Film Critics Circle pelo trabalho no filme, enquanto também disputou o Globo de Ouro ao lado de Lily Tomlin.


Ficha técnica
"Um Espírito Baixou em Mim" | "All of Me" (título original) | "Almas do Outro Mundo" (título em Portugal)
Gênero: comédia e fantasia. Duração: 93 minutos. Classificação indicativa no Brasil: 14 anos. Ano de produção: 1984. Data de lançamento: 21 de setembro de 1984 nos Estados Unidos. Idioma: inglês. Direção:Carl Reiner. Roteiro: Phil Alden Robinson e Henry Olek, baseado no romance "Me Two", de Edwin Davis. Elenco: Steve Martin, Lily Tomlin, Victoria Tennant, Madolyn Smith Osborne, Richard Libertini, Dana Elcar, Jason Bernard, Selma Diamond, Eric Christmas, Gailard Sartain, Neva Patterson, Michael Ensign e Peggy Feury. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não há cena pós-créditos, porém há uma sequência musical durante os créditos finais. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

.: “As Cores do Tempo” recupera história de família e aproxima 1895 de 2025


Filme de Cédric Klapisch  chega à Reserva Imovision depois de passagem pelos cinemas brasileiros e pelo 2º Festival de Cinema Europeu Imovision

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Uma casa abandonada na Normandia, fotografias antigas, objetos esquecidos e uma mulher que deixou sua terra natal em 1895 são os pontos de partida de “As Cores do Tempo”, novo filme de Cédric Klapisch, que estreia na Reserva Imovision nesta quinta-feira, dia 8 de outubro. Depois de dez semanas nos cinemas brasileiros e da participação no 2º Festival de Cinema Europeu Imovision, a produção franco-belga chega ao streaming da distribuidora para reencontrar o público em uma história que aproxima duas épocas e transforma uma investigação familiar em uma espécie de viagem pela memória.

Na trama, quatro primos distantes recebem uma herança inesperada: uma antiga casa que permanece intocada desde os anos 1940. Seb, Guy, Céline e Abdel são encarregados de examinar o imóvel e acabam encontrando fotografias, cartas, pinturas e outros vestígios ligados a Adèle, ancestral que viveu naquele lugar. Aos 20 anos, ela deixou a Normandia e partiu para Paris, onde entrou em contato com uma cidade em plena transformação cultural e tecnológica. A investigação dos descendentes estabelece uma ponte com 1895, período em que a fotografia ganhava força e o impressionismo modificava profundamente a pintura. O próprio Festival de Cannes, onde o filme foi exibido fora de competição, descreve a estrutura como um movimento entre 1895 e 2025 a partir dos vestígios encontrados na casa.

Suzanne Lindon interpreta Adèle e divide o elenco com Abraham Wapler, Vincent Macaigne, Julia Piaton, Zinedine Soualem, Paul Kircher, Vassili Schneider, Sara Giraudeau e Cécile de France. Olivier Gourmet aparece como Claude Monet, enquanto Fred Testot interpreta Félix Nadar. A produção ainda reúne François Berléand como Victor Hugo e Philippine Leroy-Beaulieu como Sarah Bernhardt, entre outras participações. A escalação chama atenção pela presença de vários nomes ligados a famílias conhecidas do cinema francês, questão que chegou a provocar comentários na imprensa especializada e foi respondida pelo próprio Klapisch durante a divulgação do filme.

A presença de Suzanne Lindon, filha dos atores Vincent Lindon e Sandrine Kiberlain, ganhou um capítulo próprio na trajetória do filme. A atriz foi indicada ao César 2026 na categoria de Melhor Revelação Feminina, enquanto “As Cores do Tempo” também concorreu nas categorias de Melhor Direção de Arte, para Marie Cheminal, e Melhor Figurino, para Pierre-Yves Gayraud. O Centro Nacional do Cinema da França confirmou as três indicações.

Klapisch assina a direção e o roteiro ao lado de Santiago Amigorena. Conhecido por construir histórias em torno de relações humanas, juventude e mudanças de fase, o cineasta encontra aqui uma maneira particularmente visual de trabalhar esses temas. A Paris do fim do século XIX aparece ligada à fotografia, à pintura e aos artistas que ajudaram a construir a imagem moderna da cidade. Claude Monet, Victor Hugo, Sarah Bernhardt, Félix Nadar, Paul Cézanne, Pierre-Auguste Renoir, Édouard Manet, Camille Pissarro e Alfred Sisley estão entre as figuras históricas incorporadas à narrativa.

A proposta também explica o título. As cores do tempo aparecem nas pinturas, nas fotografias e na própria maneira como o filme coloca passado e presente em relação. As duas épocas acabam funcionando como espelhos para personagens que, inicialmente, se encontram por obrigação e passam a compreender melhor suas próprias histórias à medida que investigam a trajetória de Adèle. Algumas avaliações internacionais destacaram justamente a forma como Klapisch aproxima a vida cotidiana do século XIX da experiência contemporânea, enquanto outras apontaram um ritmo deliberadamente sereno e uma inclinação sentimental que pode dividir o público.

Essa mistura de memória, família e arte também está no centro da recepção do filme. Críticas e comentários reunidos no IMDb destacam a fotografia, a reconstituição de Paris e a atuação de Suzanne Lindon, além da passagem entre 1895 e 2025. Há quem veja na produção uma reflexão delicada sobre a relação entre gerações e sobre a maneira como a arte pode modificar a percepção da própria vida; outros consideram que algumas ideias são explicadas de forma excessiva e que a duração poderia ser menor. A variedade de leituras combina com um filme interessado justamente em observar como diferentes pessoas olham para as mesmas lembranças.

O resultado é uma produção que usa uma herança familiar como porta de entrada para um período decisivo da cultura francesa. A casa esquecida, os objetos guardados durante décadas e a trajetória de Adèle dão aos personagens do presente a possibilidade de conhecer uma mulher que viveu em outro mundo, mas que deixou marcas capazes de chegar até eles. Ao aproximar os dois períodos, Klapisch encontra no cinema, na fotografia e na pintura instrumentos para falar daquilo que permanece quando as pessoas e as cidades mudam.

Para quem perdeu “As Cores do Tempo” nos cinemas ou deseja revê-lo, a chegada à Reserva Imovision amplia o percurso de um dos títulos franceses apresentados pela distribuidora em 2026. O filme participou do 2º Festival de Cinema Europeu Imovision, realizado entre 23 e 29 de abril, e integrou a seleção francesa ao lado de produções como “O Grande Arco de Paris”, “A Divina Sarah Bernhardt” e “E Seus Filhos Depois Deles”.


Ficha técnica
“As Cores do Tempo” | “La Venue de l’avenir” (título original)
Gênero: comédia dramática, drama e romance. Duração: 124 minutos. Classificação indicativa: 14 anos - contém conteúdo sexual, drogas e nudez. Ano de produção: 2025. Data de lançamento no Brasil: 30 de julho de 2026 nos cinemas. Idioma: francês. Direção: Cédric Klapisch. Roteiro: Cédric Klapisch e Santiago Amigorena. Elenco: Suzanne Lindon, Abraham Wapler, Vincent Macaigne, Julia Piaton, Zinedine Soualem, Paul Kircher, Vassili Schneider, Sara Giraudeau, Cécile de France, Olivier Gourmet, Claire Pommet (Pomme), Fred Testot, François Berléand, Philippine Leroy-Beaulieu, entre outros. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: Drama "Julgamento em Nuremberg”: a Justiça como instrumento de um regime

Com Spencer Tracy, Burt Lancaster, Richard Widmark, Marlene Dietrich, Montgomery Clift e Maximilian Schell, clássico de Stanley Kramer revisita o julgamento de magistrados nazistas e coloca a própria ideia de Justiça no banco dos réus

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O streaming Belas Artes À La Carte recebe “Julgamento em Nuremberg”, clássico dirigido por Stanley Kramer em 1961, um dos grandes dramas judiciais do cinema americano e uma produção que reuniu Spencer Tracy, Burt Lancaster, Richard Widmark, Marlene Dietrich, Montgomery Clift, Maximilian Schell e Judy Garland. Inspirado no chamado “Julgamento dos Juízes”, realizado em Nuremberg depois da Segunda Guerra Mundial, o filme desloca a atenção dos grandes líderes nazistas para homens que ajudaram a transformar a Justiça alemã em instrumento de perseguição. A questão que move a narrativa continua incômoda: o que acontece quando a lei passa a servir ao poder em vez de proteger o indivíduo?

Na trama, o juiz americano Dan Haywood, interpretado por Spencer Tracy, chega à Alemanha ocupada para presidir o julgamento de quatro magistrados acusados de colaborar com o regime nazista. O processo coloca frente a frente o promotor Tad Lawson, vivido por Richard Widmark, e o advogado de defesa Hans Rolfe, papel de Maximilian Schell, enquanto depoimentos e provas revelam como decisões tomadas dentro dos tribunais contribuíram para legitimar esterilizações, perseguições raciais e assassinatos. O filme se passa em 1948, um ano depois do julgamento histórico que serviu de base ao roteiro, alteração feita por Abby Mann para incorporar ao drama o clima da Guerra Fria e a crescente pressão política por uma reaproximação com a Alemanha.

É nessa distância entre a letra da lei e a responsabilidade de quem a aplica que Stanley Kramer concentra sua força. “Julgamento em Nuremberg” não se limita a reconstruir um episódio histórico. O roteiro de Abby Mann, vencedor do Oscar, pergunta até onde pode ir a obediência de um funcionário do Estado e em que momento seguir uma ordem, uma norma ou uma legislação deixa de ser uma justificativa. A Biblioteca do Congresso, ao incluir o filme no National Film Registry em 2013, destacou justamente essa dimensão: a produção amplia o debate sobre os responsáveis pela administração da Justiça e sobre o dever de preservar direitos humanos mesmo quando eles entram em choque com interesses nacionais.

O elenco transforma esse embate jurídico em matéria dramática de primeira grandeza. Spencer Tracy conduz a história com uma atuação contida como o juiz Haywood, enquanto Maximilian Schell imprime ao advogado Hans Rolfe uma combinação de inteligência, agressividade e convicção. Schell havia interpretado o mesmo personagem na versão televisiva de “Judgment at Nuremberg”, exibida pelo programa “Playhouse 90”, da CBS, em 1959, e acabou permanecendo no papel mesmo depois de Marlon Brando manifestar interesse em assumir a função. A escolha se mostrou decisiva: Schell ganhou o Oscar de Melhor Ator.

Montgomery Clift e Judy Garland aparecem em momentos particularmente dolorosos do julgamento. Clift interpreta Rudolph Petersen, testemunha cuja experiência revela a violência praticada pelo sistema nazista, enquanto Garland vive Irene Hoffmann, personagem que presta um depoimento devastador. O filme ainda reserva a Marlene Dietrich uma presença de enorme força como Madame Bertholt, viúva de um general alemão executado por crimes de guerra. A atriz chegou a ter dificuldades para realizar uma das cenas porque discordava profundamente da ideia defendida por sua personagem sobre a suposta ignorância dos civis alemães em relação às atrocidades cometidas durante a guerra.

Uma das cenas mais lembradas pertence a Spencer Tracy. O discurso final do juiz Haywood dura cerca de 11 minutos e foi filmado em uma única tomada, com câmeras posicionadas simultaneamente para garantir a cobertura necessária. A decisão de Kramer preservou a continuidade da atuação e evitou interromper a concentração do protagonista. O resultado é uma das passagens mais emblemáticas do filme e demonstra por que o trabalho de Tracy permanece no centro da memória de “Julgamento em Nuremberg”.

A produção também incorporou imagens reais dos crimes cometidos nos campos de concentração. A Biblioteca do Congresso chama atenção para os cerca de sete minutos de material documental inseridos no filme, recurso que aproxima a ficção das provas históricas apresentadas dentro do tribunal. Essa combinação entre representação dramática e imagens documentais ajudou a dar ao julgamento uma dimensão particularmente perturbadora para o público de 1961.

A liberdade tomada pelo roteiro em relação aos acontecimentos históricos é considerável. O julgamento real dos juízes ocorreu em 1947 e teve 16 acusados, enquanto Abby Mann condensou a história em quatro réus e combinou características de diferentes figuras históricas. A mudança para 1948 também permitiu que a narrativa incorporasse o golpe comunista na Tchecoslováquia e a tensão crescente entre Estados Unidos e União Soviética. O AFI Catalog registra a origem do projeto no telefilme exibido em 1959 e a posterior adaptação de Mann para o cinema.

Essa dimensão de reconstrução histórica ajuda a compreender por que o filme permanece tão discutido. Bosley Crowther, do “The New York Times”, reconheceu na época a força do trabalho de Kramer e observou que a produção conseguia dizer muito sobre uma questão que continuava a exigir atenção. Décadas depois, o “Los Angeles Times” voltou a destacar o desempenho de Tracy e a maneira como o roteiro de Mann transformava a memória dos crimes nazistas em um conflito moral e jurídico.

“Julgamento em Nuremberg” também carrega uma curiosidade cinematográfica rara: Maximilian Schell venceu o Oscar de Melhor Ator embora apareça apenas como o quinto nome na ordem dos créditos principais. O filme recebeu 11 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, Direção, Ator para Spencer Tracy, Ator Coadjuvante para Montgomery Clift e Atriz Coadjuvante para Judy Garland, além de categorias técnicas. As duas estatuetas foram para Schell e Abby Mann.

O reconhecimento institucional veio muitos anos depois. Em 2013, a Biblioteca do Congresso selecionou “Judgment at Nuremberg” para preservação no National Film Registry, que reúne obras consideradas cultural, histórica ou esteticamente significativas para o cinema dos Estados Unidos. A escolha reforça a permanência de um filme que nasceu ligado a um acontecimento específico, mas encontrou no tribunal uma maneira de discutir algo muito maior: a responsabilidade individual quando instituições inteiras decidem obedecer ao poder.


Ficha técnica

“Julgamento em Nuremberg” | “Judgment at Nuremberg” (título original)
Gênero: guerra, histórico e drama jurídico. Duração: 186 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1961. Data de lançamento: 14 de dezembro de 1961. Idioma: inglês e alemão. Direção: Stanley Kramer. Roteiro: Abby Mann. Elenco: Spencer Tracy, Burt Lancaster, Richard Widmark, Marlene Dietrich, Montgomery Clift, Maximilian Schell, Judy Garland, William Shatner, Werner Klemperer, Torben Meyer e Martin Brandt. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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terça-feira, 6 de outubro de 2026

.: Doc “Orlando, Minha Biografia Política” é Virginia Woolf em carta sobre gênero


Filme de Paul B. Preciado chega à Reserva Imovision quase um século depois de Virginia Woolf criar Orlando e reúne 26 pessoas trans e não binárias para reinventar o personagem

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Em 1928, Virginia Woolf publicou “Orlando”, romance em que o personagem principal muda de sexo no decorrer da história e atravessa diferentes épocas sem envelhecer da maneira convencional. Quase um século depois, o filósofo, escritor e ativista trans Paul B. Preciado responde à autora com cinema. Em “Orlando, Minha Biografia Política”, ele escreve uma carta filmada para Woolf e avisa que seu personagem saiu das páginas do livro para ganhar corpo, voz e experiências no mundo contemporâneo.

A produção francesa, que chega à plataforma de streaming Reserva Imovision, foi o primeiro filme dirigido por Preciado e construiu uma trajetória de destaque no circuito internacional de festivais. Em 2023, na Berlinale, recebeu o Teddy Award de Melhor Documentário, o Prêmio Especial do Júri da mostra Encounters, além de outras distinções. No Brasil, também conquistou o Prêmio Félix de Melhor Documentário no Festival do Rio e o Prêmio do Público de Melhor Longa-Metragem Internacional no Festival MixBrasil.

A ideia surgiu de uma proposta da ARTE France, rede pública de televisão e mídia franco-alemã, inicialmente interessada em um documentário sobre a trajetória de Preciado. Ele recusou fazer uma autobiografia convencional e sugeriu uma adaptação de “Orlando: Uma Biografia”, de Virginia Woolf. A brincadeira acabou virando filme. A partir daí, Preciado organiza um teste de elenco e reúne 26 pessoas trans e não binárias, de oito a 70 anos, para interpretar Orlando. 

O personagem deixa de pertencer a uma única pessoa e passa a existir em diferentes corpos, idades e experiências. Entre os participantes estão o próprio Preciado, Oscar S. Miller, Janis Sahraoui, Liz Christin, Elios Levy, Victor Marzouk, Kori Ceballos, Vanasay Khamphommala, Ruben Rizza, Julia Postollec, Amir Baylly, Naëlle Dariya, Jenny Bel'Air, Emma Avena, Lillie, Arthur, Eleonore, La Bourette, Noam Iroual, Iris Crosnier e Clara Deshayes.

O resultado mistura documentário, reconstituição, performance, autobiografia e adaptação literária. Em vez de simplesmente ilustrar o romance, Preciado cria uma relação direta entre a experiência de Orlando e as histórias daqueles que o interpretam. Os participantes falam de suas próprias vidas, enquanto também assumem as palavras e situações do personagem criado por Woolf.

É nessa combinação que o filme encontra sua personalidade. A literatura aparece como ponto de partida, mas as experiências contemporâneas modificam o sentido do personagem. As vozes individuais formam uma espécie de Orlando coletivo, capaz de conectar questões de identidade, gênero, corpo, documentação, psiquiatria, memória e reconhecimento social. O filme também recupera imagens e referências históricas relacionadas às experiências de pessoas trans ao longo do século XX. Preciado amplia, assim, a dimensão temporal do romance de Woolf: o Orlando que atravessa os séculos deixa de ser apenas uma invenção literária e passa a funcionar como uma figura capaz de reunir diferentes histórias de transformação.

A relação com Virginia Woolf permanece no centro da proposta. “Orlando” foi publicado em 1928 e acompanha um aristocrata inglês que, depois de viajar à Turquia, acorda transformado em mulher. A personagem continua vivendo ao longo dos séculos, enquanto o romance brinca com identidade, tempo, literatura e convenções sociais. Preciado parte justamente dessa liberdade para construir sua própria leitura do livro.

No filme, a separação entre depoimento e representação também perde importância. Uma pessoa pode falar de sua própria experiência e, no instante seguinte, assumir Orlando. A literatura se mistura à vida cotidiana; referências históricas convivem com situações atuais; a teatralidade divide espaço com relatos pessoais. O dispositivo deixa evidente que a identidade também pode ser narrada, encenada, reinventada e questionada.

Essa escolha aproxima “Orlando, Minha Biografia Política” de uma tradição de cinema ensaístico em que o realizador usa a própria experiência para investigar uma questão coletiva. Preciado, porém, desloca o centro da autobiografia. Sua história está presente, mas Orlando pertence a muitas pessoas. O filme ganha força justamente quando deixa de procurar uma única trajetória capaz de representar todas as outras.

A produção também chama atenção pela maneira como evita transformar uma discussão complexa em um documentário de formato convencional. O humor, a performance e a teatralidade convivem com assuntos como violência, patologização, transição de gênero e reconhecimento legal. A proposta nasceu de Virginia Woolf, mas chega a questões que pertencem diretamente ao presente.

A recepção internacional acompanhou a singularidade do projeto. Além dos prêmios conquistados em Berlim, “Orlando, Minha Biografia Política” passou por festivais como Toronto, Nova York, San Sebastián, Karlovy Vary, IDFA e Festival do Rio. O filme também foi exibido no Festival Varilux de Cinema Francês e entrou no circuito brasileiro em julho de 2024, distribuído pela Filmes do Estação. A provocação continua a mesma: quase cem anos depois de Woolf imaginar um Orlando capaz de mudar de sexo e atravessar os séculos, quantas outras formas esse personagem pode assumir?

“Orlando, Minha Biografia Política” parte de uma personagem literária para discutir pessoas reais. Paul B. Preciado transforma a carta destinada a Virginia Woolf em um filme coletivo, no qual literatura e experiência pessoal se encontram para atualizar uma personagem que continua encontrando novos corpos para existir.


Ficha técnica
“Orlando, Minha Biografia Política” | “Orlando, ma biographie politique” (título original)

Gênero: documentário, docuficção, cinema de arte. Duração: 98 minutos. Classificação indicativa: 14 anos - contém linguagem imprópria, nudez e temas sensíveis. Ano de produção: 2023. Idioma: Francês. Direção e roteiro: Paul B. Preciado Elenco: Paul B. Preciado, Oscar S. Miller, Janis Sahraoui, Liz Christin, Elios Levy, Victor Marzouk, Kori Ceballos, Vanasay Khamphommala, Ruben Rizza, Julia Postollec, Amir Baylly, Naëlle Dariya, Jenny Bel'Air, Emma Avena, Lillie, Arthur, Eleonore, La Bourette, Noam Iroual, Iris Crosnier, Clara Deshayes, Castiel Emery, Tristana Gray Martyr, Le Filip, Miss Drinks, Frédéric Pierrot, Nathan Callot, Pierre et Gilles, Tom Dekel, Virginie Despentes, Rilke & Pompom. Cenas pós-créditos: Não há indicação de cenas pós-créditos. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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