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sexta-feira, 5 de junho de 2026

.: A carne, o mar e a ruptura: a juventude desenfreada de "Paixão Juvenil"


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Lançado em 1956 e dirigido com maestria por Kô Nakahira, "Paixão Juvenil", que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, hoje é reverenciado como clássico, mas já representou uma transgressão perigosa quando foi lançado. É nesse terreno de provocação que se posiciona o cinema japonês daquele período, batizado de Nuberu Bagu (a "Nouvelle Vague" japonesa). O movimento focava em pequenas crises cotidianas e no registro da intensidade de uma geração que buscava escapar do autoritarismo e da mesmice, sem a preocupação de entregar respostas fáceis ao público. 

As grandes transformações políticas e os traumas das guerras historicamente deixam marcas profundas na produção artística, gerando movimentos que ecoam diretamente no comportamento das novas gerações. Nos anos 1950 e 1960, a efervescência cultural moldou um estilo de vida rebelde, cuja atitude muitas vezes foi confundida com mera imaturidade ou contestação vazia. No cinema, essa necessidade de crueza e urgência encontrou paralelo perfeito com a entrega dos jovens daquela época, uma mistura explosiva de audácia e coragem para desafiar sistemas corrompidos. 

O filme acompanha a trajetória de dois irmãos de classe média alta que aproveitam o verão em uma estância balnear. Natsuhisa, o mais velho, esbanja autoconfiança e experiência com as mulheres; já Haruji, o caçula, carrega uma timidez crônica diante do sexo oposto. A dinâmica pacata e tediosa desse grupo de jovens ricos sofre uma ruptura quando ambos se apaixonam pela mesma mulher, Eri, uma figura misteriosa que o irmão mais novo conhece ao desembarcar na estação de trem. À medida que o enredo avança, descobre-se que a jovem esconde segredos densos, incluindo um casamento com um estrangeiro mais velho, transformando o conflito fraterno em um triângulo amoroso obsessivo e destrutivo.

A construção da personagem feminina representa uma verdadeira revolução para os padrões da cinematografia japonesa da época, historicamente pautada por figuras femininas frágeis e submissas. Eri surge como uma femme fatale de filme noir, uma mulher dotada de uma liberdade incomum que usa a beleza e a aparente fragilidade como isca para manipular e devorar os homens ao seu redor. Nakahira explora o erotismo e o toque corporal com uma audácia impressionante para o ano de 1956, inundando a tela com uma efervescência juvenil focada na busca incessante pelo prazer individual, onde o sentimento amoroso é relegado a um plano secundário.

O longa-metragem escancara a massiva influência dos Estados Unidos no Japão pós-guerra, visível tanto nos figurinos inspirados na moda norte-americana quanto na trilha sonora dominada pelo ritmo das big bands ocidentais. Contudo, essa dominação cultural é ironizada pelo diretor em momentos cirúrgicos, como nas piadas direcionadas ao rapaz que passou uma temporada em solo americano ou na própria escolha de colocar um estrangeiro no papel de marido traído. Em termos técnicos, a produção abraça a cartilha de Hollywood com maestria: a narrativa possui um ritmo frenético, construída com cortes rápidos, planos curtos, variações constantes de tomada e um desenho de som ativo que impede qualquer ameaça de monotonia.

A relevância estética de "Paixão Juvenil" é tamanha que a produção serviu de inspiração direta para os realizadores da Nouvelle Vague francesa, como François Truffaut. O enredo, que remete aos conflitos passionais de "Jules e Jim", caminha para um desfecho violento e febril, comparável ao terceiro ato das tragédias de Tennessee Williams, em que as emoções reprimidas transbordam e provocam a ruína completa dos personagens. Trata-se de um registro temporal audacioso e atemporal, cuja contextualização histórica apenas amplia o prazer de testemunhar o nascimento de uma nova linguagem cinematográfica.


Ficha técnica
“Paixão Juvenil” | "Kurutta kajitsu" (título original) | "Fruto de Paixão" (título em Portugal)
Gênero: drama, cult. Duração: 1h 26min (86 minutos). Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1956. Idioma: japonês e inglês. Direção: Kô Nakahira. Roteiro: Shintaro Ishihara. Elenco: Yûjirô Ishihara (Takishima Natsuhisa), Masahiko Tsugawa (Takishima Haruji), Mie Kitahara (Eri), Harold Conway (Marido de Eri), Taizô Fukami (Pai), Masumi Okada, Eiko Higashiya, Atsuko Akashi, Yoko Benisawa, Ayuko Fujishiro, Keiko Hara, Shigeo Hayashi, Eiko Higashitani, Hiroshi Kondo. Distribuição no Brasil: sem distribuidor oficial nos cinemas (lançado diretamente em festivais e mídia física de colecionador). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

.: "Kokuho" desafia o cinema ao tentar filmar a alma do kabuki


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O cinema contemporâneo raramente se atreve a flertar com a grandiosidade dos épicos que exigem tempo, fôlego e entrega absoluta. Sob a assinatura do cineasta Lee Sang-il, "Kokuho - O Preço da Perfeição", que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision, é uma dessas raras e monumentais exceções. O longa-metragem consegue a proeza de transportar o espectador para o coração pulsante do teatro kabuki, mapeando cinquenta anos de história com uma força dramática que evoca os grandes clássicos do cinema asiático. 

A produção desembarcou nas telas brasileiras precedida por uma trajetória robusta no circuito internacional, que incluiu uma première mundial na prestigiosa Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes, além de passagens celebradas pelos festivais de Toronto e Busan. Fenômeno comercial histórico em seu país de origem, a obra arrastou mais de 12 milhões de espectadores aos cinemas, tornando-se o live-action de maior bilheteria da história do Japão.

A narrativa, estruturada a partir do roteiro preciso de Satoko Okudera, adapta o celebrado romance em dois volumes de Shûichi Yoshida, lançado em 2018. A trama acompanha a saga de Kikuo Tachibana, jovem que carrega o estigma de ter nascido em uma família ligada à yakuza. Após o brutal assassinato de seu pai, o destino do garoto de 14 anos sofre uma guinada radical quando ele acaba acolhido pelo lendário mestre do kabuki, Hanai Hanjiro II, papel defendido com a habitual crueza e generosidade paternal de Ken Watanabe. Nos bastidores da tradicional dinastia artística de Kamigata, Kikuo passa a dividir os dias com Shunsuke Ogaki, o herdeiro legítimo do clã. Juntos, os dois garotos mergulham em um universo onde a busca pela excelência artística exige a renúncia de qualquer vestígio de normalidade cotidiana, iniciando uma jornada que flutua constantemente entre a irmandade mútua e uma rivalidade silenciosa e devastadora.

O núcleo dramático gira em torno da obsessão dos protagonistas em alcançar o título de Kokuho - a honraria máxima de "Tesouro Nacional Vivo", concedida pelo governo japonês aos grandes mestres da arte tradicional. Ambos dedicam-se à complexa especialidade do onnagata, os atores que assumiram os papéis femininos na cena teatral desde que o xogunato baniu as mulheres dos palcos no Período Edo por questões morais. A dinâmica entre os dois adultos, interpretados com assombrosa entrega por Ryo Yoshizawa e Ryusei Yokohama, expõe um embate clássico: de um lado, o talento bruto e instintivo de um órfão marginalizado; de outro, o peso esmagador da hereditariedade e a cobrança pelo sangue azul de uma linhagem artística. O diretor conduz esse emaranhado de orgulho e dor sem pressa, permitindo que o tempo dilate o sacrifício físico e emocional dos personagens.

A obsessão do filme pela autenticidade transborda em cada plano trabalhado pelo diretor de fotografia Sofian El Fani. Para conferir o realismo necessário aos bastidores e camarins, o autor do livro original, Shuichi Yoshida, passou três anos infiltrado como um Kurogo - o assistente de palco que se veste inteiramente de preto para se tornar "invisível" aos olhos do público. Essa vivência íntima reverbera na tela na meticulosa preparação dos atores. 

O protagonista Ryo Yoshizawa submeteu-se a um intenso e rigoroso treinamento de 18 meses com profissionais do kabuki para dominar a precisão cirúrgica de cada gesto, postura e olhar. Não por acaso, a produção garantiu uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Maquiagem e Cabelo, honrando a deslumbrante transformação dos intérpretes na alvura impecável das maquiagens tradicionais, contrapondo-se ao universo rústico e melancólico da masculinidade tóxica que rege a vida fora dos palcos.

A trilha sonora sublime de Marihiko Hara, pontuada por canções interpretadas por Miu Sakamoto e Iguchi Osamu, eleva a voltagem dramática da produção, especialmente nas sequências em que a câmera rompe a barreira do "teatro filmado" para rodopiar de forma imersiva ao redor dos corpos em cena. Embora a montagem execute saltos temporais bruscos que por vezes sacrificam o desenvolvimento das personagens femininas - como a matriarca interpretada por Shinobu Terajima -, a obra compensa as arestas com uma força visual avassaladora. "Kokuho – O Preço da Perfeição" se consolida como um registro sofisticado sobre uma manifestação cultural tricentenária que tenta sobreviver ao avanço da modernidade no Japão pós-guerra, expondo sem filtros as cicatrizes incuráveis de quem decide vender a própria alma em troca do vislumbre eterno da divindade artística.


Ficha técnica
“Kokuho  O Preço da Perfeição” | “Kokuhō” (título original)
Gênero: drama. Duração: 175 minutos (2h55m). Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: japonês. Direção: Lee Sang-il. Roteiro: Satoko Okudera (baseado no romance de Shûichi Yoshida). Elenco: Ryo Yoshizawa, Ryusei Yokohama, Sōya Kurokawa, Keitatsu Koshiyama, Ken Watanabe, Mitsuki Takahata, Shinobu Terajima, Nana Mori, Ai Mikami, Kumi Takiuchi, Masatoshi Nagase, Emma Miyazawa, Takahiro Miura, Kyusaku Shimada, Tateto Serizawa, Nakamura Ganjirō IV, Min Tanaka. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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A equipe do Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. 
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quinta-feira, 4 de junho de 2026

.: "Rebelião Silenciosa" fala sobre o peso do silêncio e a força da emancipação


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

A aparente calmaria das paisagens bucólicas da Suíça historicamente serviu como uma espécie de biombo para esconder tensões morais e contradições profundas. É justamente nesse cenário de isolamento e aparente virtude que se constrói a narrativa de "Rebelião Silenciosa", o contundente longa-metragem de estreia da diretora Marie-Elsa Sgualdo, que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision. Ambientado no ano de 1943, em meio ao turbilhão da Segunda Guerra Mundial, o drama evita as frentes de batalha tradicionais para focar em um front íntimo, doloroso e profundamente político: o corpo e a autonomia de uma jovem de 15 anos.

A trama acompanha Emma, interpretada com uma vivacidade impressionante por Lila Gueneau, cuja atuação contida e emocionalmente inteligente rendeu elogios da imprensa internacional e o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Fargo. Emma é inicialmente descrita como uma adolescente exemplar na pequena comunidade rural protestante onde vive. No entanto, sua visão de mundo começa a ruir quando ela testemunha a vila recusar abrigo a refugiados franceses que fogem do conflito. O senso de justiça da jovem é testado ao limite quando ela mesma se torna vítima de uma violência sexual brutal. Grávida após o estupro, Emma se recusa a aceitar o papel de mártir ou de vergonha comunitária que a hipocrisia moral local tenta lhe impor.

O roteiro, assinado por Nadine Lamari, Pauline Ouvrard e pela própria diretora, evita o melodrama. A narrativa prefere acompanhar o processo de reconstrução dessa jovem, transformando um trauma devastador no elemento catalisador de sua emancipação e autodeterminação. Enquanto o vilarejo se fecha em dogmas e preconceitos, Emma busca forças para trilhar o próprio caminho e enfrentar as expectativas sufocantes daquela sociedade patriarcal.

A produção é da Suíça, Bélgica e França, com locações que exploram as paisagens do cantão de Vaud, incluindo a histórica comuna de Romainmôtier, além de Goumoëns e Colombier. A escolha desses cenários rurais funciona como um contraponto visual perfeito para o sufocamento psicológico vivido pela protagonista. A primorosa direção de fotografia de Benoît Dervaux e a montagem precisa de Karine Sudan conferem ao filme uma sofisticação estética que não passou despercebida pela crítica especializada, garantindo ao longa os prêmios de Melhor Fotografia e Melhor Montagem no prestigiado Swiss Film Awards de 2026, premiação na qual a obra figurou como uma das grandes líderes com sete indicações, incluindo Melhor Filme e Melhor Roteiro.

Após uma elogiada estreia mundial na mostra Venice Spotlight do 82º Festival Internacional de Cinema de Veneza em setembro de 2025, o filme percorreu um circuito internacional robusto, passando por festivais em Sevilha, Palm Springs, Cairo e Estocolmo. A recepção crítica destacou a sutileza com que Marie-Elsa Sgualdo aborda os direitos das mulheres na década de 1940, construindo um retrato de época que conversa diretamente com as discussões contemporâneas sobre feminismo, corpo e consentimento.

Ficha técnica
"Rebelião Silenciosa" | "À bras-le-corps" (título original)

Gênero: Drama / História. Duração: 96 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: francês / alemão. Direção: Marie-Elsa Sgualdo. Roteiro: Nadine Lamari, Pauline Ouvrard e Marie-Elsa Sgualdo. Elenco: Lila Gueneau, Grégoire Colin, Thomas Doret, Aurélia Petit, Sandrine Blancke, Sasha Gravat Harsch, Cyril Metzger. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: A poética do asfalto de Steve Martin ganha as telas em "L.A. Story"


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Há cidades que não passam de cenários, mas Los Angeles, no olhar afiado de Steve Martin, é uma piada pronta que insiste em se levar a sério. Sob a direção do britânico Mick Jackson, o comediante de cabelos brancos concebeu uma crônica ácida, porém estranhamente terna, sobre a capital mundial das aparências. Longe de ser apenas mais uma comédia romântica desmiolada para preencher as tardes de domingo, o longa-metragem "L.A. Story", que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, é uma sátira sofisticada que bebe diretamente na fonte do neorrealismo italiano e no teatro clássico inglês, oferecendo um espelho deformado e cirúrgico do modo de vida californiano. A poética do asfalto, que afirma que "o sol brilha para todos", é destrinchada neste filme.

A trama acompanha as desventuras de Harris K. Telemacher, um homem que carrega o fardo de um doutorado em artes e humanidades, mas ganha a vida como o "meteorologista maluco" de um telejornal local. Em uma cidade onde o clima se resume a um eterno e imutável ensolarado, a função de Harris é a própria definição da inutilidade elegante. Ele patina por galerias de arte destilando resenhas excêntricas e recita Shakespeare em esquinas movimentadas, tateando qualquer resquício de significado em meio a um oceano de futilidades. A vida do protagonista entra em parafuso quando ele descobre que sua namorada ambiciosa o trai há três anos com seu próprio agente, e que uma previsão errada de temporal acabou por afundar o iate de seu chefe, custando-lhe o emprego.

O ponto de virada surge na solidão da rodovia, quando o carro de Harris quebra e um painel eletrônico de sinalização de trânsito começa a piscar mensagens enigmáticas, direcionadas exclusivamente a ele. Essa entidade mecânica e conselheira passa a guiar seus passos românticos em direção a Sara, uma jornalista londrina que desconfia do estilo de vida local, mas que se vê presa ao desejo de reconciliação de seu ex-marido. Para complicar o quadrante amoroso, Harris se envolve com SanDeE*, uma jovem e desinibida aspirante a modelo cuja maior profundidade intelectual reside na grafia peculiar de seu próprio nome.

A genialidade do roteiro de Steve Martin está na capacidade de extrair humor da neurose urbana sem descambar para a grosseria. A antológica cena do restaurante "California Cuisine", onde os frequentadores pedem variações milimetricamente pretensiosas de café descafeinado com toques de limão e reagem a um terremoto com a naturalidade de quem espanta uma mosca, resume o espírito da obra. Martin escreveu o texto como uma resposta da Costa Oeste ao clássico "Contos de Nova York", provando que a futilidade de Los Angeles também merecia sua própria poesia. A própria abertura do filme, inclusive, faz uma reverência direta e refinada a "A Doce Vida", clássico de Federico Fellini.

O longa também carrega marcas de bastidores. Martin dividiu o protagonismo com Victoria Tennant, com quem era casado na vida real durante a produção. O elenco de apoio brilha com Sarah Jessica Parker entregando uma atuação inspirada como a bimbette californiana e Patrick Stewart roubando a cena como o maître do pomposo restaurante L'Idiot. Curiosamente, grandes nomes como John Lithgow e Scott Bakula chegaram a rodar participações importantes como um agente de cinema e um vizinho, respectivamente, mas tiveram suas cenas completamente limadas na sala de edição para garantir o ritmo da narrativa - embora referências aos diálogos de Lithgow ainda ecoem na versão final. Outros astros, como Chevy Chase, Woody Harrelson e Rick Moranis, dão as caras em aparições rápidas e não creditadas que divertem o espectador atento.

A embalagem sonora do filme ganha um tom místico com a presença da música de Enya, criando o contraponto perfeito para as bizarrices visuais e as perseguições nas autoestradas. Para os cinéfilos detalhistas, uma curiosidade de bastidor une esta produção a clássicos posteriores: a placa de carro "2GAT123", utilizada no veículo de Harris, tornou-se um dos maiores easter eggs de Hollywood, reaparecendo anos depois em produções de peso como "Traffic", "Cidade dos Sonhos" e "A Corrente do Bem". Entre o deboche e o lirismo, o filme sobrevive ao tempo como um registro afetuoso de uma cidade que insiste em inventar sua própria realidade.


Ficha técnica
"Loucuras em Los Angeles" | "L.A. Story" (título original) | "Viver e Amar em Los Angeles" (título em Portugal)
Gênero: comédia, romance, fantasia. Duração: 98 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: inglês. Direção: Mick Jackson. Roteiro: Steve Martin. Elenco: Steve Martin, Victoria Tennant, Richard E. Grant, Marilu Henner, Sarah Jessica Parker, Susan Forristal, Kevin Pollak, Patrick Stewart. Distribuição no Brasil: Tri-Star Pictures / Columbia TriStar Home Video. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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.: "A Cronologia da Água" mergulha na dor e na redenção de Lidia Yuknavitch


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Em sua aguardada estreia na direção de longas-metragens, Kristen Stewart escolheu o caminho mais íngreme e corajoso ao adaptar a autobiografia de Lidia Yuknavitch em "A Cronologia da Água", que estreia no Cine Arte Posto 4, o cinema da orla de Santos, no litoral de São Paulo. Longe da maquiagem que costuma pasteurizar as cinebiografias de Hollywood, o espectador é arremessado em uma narrativa fragmentada, incômoda e esteticamente provocativa. 

Exibido na prestigiada seção Un Certain Regard do Festival de Cannes, o longa-metragem impactou a Riviera Francesa, de onde saiu consagrado por uma arrebatadora ovação de pé com mais de seis minutos de aplausos contínuos. É um cartão de visitas cinematográfico que posiciona Stewart não mais como a estrela infantojuvenil da saga "Crepúsculo" ou a atriz cultuada da atualidade, mas como uma realizadora destemida.

A trama esmiúça a trajetória sinuosa de Lidia, interpretada com uma entrega física e psicológica devastadora por Imogen Poots. Desde a juventude, a protagonista busca na natação e na literatura os únicos refúgios possíveis contra um ambiente doméstico asfixiante, dominado pelos abusos físicos e sexuais sistemáticos perpetrados pelo próprio pai, Mike, papel defendido pelo ator Michael Epp, sob o olhar tragicamente omisso de uma mãe alcoólatra. 

Quando a piscina deixa de ser um santuário e as aspirações olímpicas desmoronam, Lidia mergulha em uma espiral destrutiva de excessos, drogas, relacionamentos voláteis e perdas irreparáveis, incluindo o trauma de um parto natimorto. A redenção não surge por meio de milagres sentimentais, mas pela fricção com a arte, impulsionada pelo convívio acadêmico com o escritor Ken Kesey, interpretado pelo veterano Jim Belushi, e por experiências terapêuticas heterodoxas ligadas ao universo do BDSM.

A imprensa internacional especializada rapidamente rotulou a produção como um dos grandes acontecimentos cinematográficos recentes. Críticos da revista Variety elogiaram a paixão poética com que a jornada de abuso e redenção é conduzida, enquanto periódicos independentes destacaram a recusa deliberada do roteiro em enquadrar a protagonista no estereótipo limitante da vítima idealizada. 

Para alcançar essa atmosfera de intimidade documental, Stewart e o diretor de fotografia Corey C. Waters tomaram a decisão artística de rodar o filme inteiramente em película de 16mm, utilizando a proporção de tela 1,66:1. Essa escolha técnica confere às imagens uma textura granulada, orgânica e nostálgica, perfeitamente alinhada à névoa das memórias fragmentadas da escritora. O longa arrebatou prêmios importantes nos festivais de Deauville e Savannah, além de render a Kristen Stewart o Prêmio Maverick no IndieWire Honors, consolidando sua transição triunfal para os bastidores da sétima arte.


Ficha técnica
“A Cronologia da Água” | “The Chronology of Water” (título original)
Gênero: drama psicológico, biográfico. Duração: 128 minutos. Classificação indicativa: não recomendado para menores de 18 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: inglês. Direção: Kristen Stewart. Roteiro: Kristen Stewart e Andy Mingo (baseado no livro de memórias de Lidia Yuknavitch). Elenco: Imogen Poots, Thora Birch, Susannah Flood, Tom Sturridge, Kim Gordon, Michael Epp, Earl Cave, Esmé Creed-Miles, Jim Belushi, Charlie Carrick. Cenas pós-créditos: não.


Cine Arte Posto 4
Av. Vicente de Carvalho, sem número - Gonzaga - Santos/SP (Posto 4, ao lado do Canal 3)
Em cartaz até dia 10 de junho
Sessões (horário especial): 15h00, 17h30 e 20h00
Funcionamento: terça a domingo (fechado às segundas-feiras)
Ingressos a R$ 3,00 (inteira) e R$ 1,50 (meia-entrada). Pagamento somente em dinheiro, temporariamente.
Telefone: (13) 3286-0297 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

.: "Delicatessen" é banquete surrealista de Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O cinema francês sempre carregou a fama de flertar com o existencialismo e a filosofia profunda, muitas vezes esquecendo o poder do puro absurdo. Quando estreou nos cinemas franceses, em abril de 1991, "Delicatessen", que agora volta em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, implodiu essa solenidade europeia com a precisão de um cutelo bem afiado. Dirigido pela dupla estreante Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro, o longa-metragem injetou um humor revigorante e uma estética visual arrebatadora no cenário internacional, conquistando rapidamente o status de cult definitivo. 

Sob a assinatura estética inspirada na fotografia monocromática de Brassaï e no lirismo caótico de Terry Gilliam - que inclusive apadrinhou o lançamento da obra na América do Norte -, o filme transforma a escassez absoluta em uma experiência cinematográfica de fartura sensorial. A trama se estabelece em um edifício dilapidado, imerso em uma França pós-apocalíptica de tons amarelados e cinzentos, onde a comida se tornou o bem mais precioso e os grãos de cereais funcionam como moeda de troca oficial. 

No térreo desse microcosmo social, opera um açougue comandado por Clapet, um senhorio brutal interpretado com maestria sádica por Jean-Claude Dreyfus. Para manter o negócio abastecido e os inquilinos devidamente alimentados, Clapet adota uma estratégia de recrutamento peculiar: publica anúncios de emprego para atrair trabalhadores desavisados, que logo se transformam na matéria-prima das iguarias vendidas no balcão. O equilíbrio dessa engrenagem macabra é colocado à prova quando Louison, um ex-palhaço de circo desempregado vivido pelo expressivo Dominique Pinon, aceita a vaga de zelador e desperta o afeto de Julie, a doce filha do açougueiro, interpretada por Marie-Laure Dougnac.

Os bastidores da produção revelam que o cerne desta sátira canibal nasceu de vivências bastante cotidianas e curiosas do próprio Jean-Pierre Jeunet. Em 1988, durante as férias nos Estados Unidos, o cineasta se deparou com uma culinária de hotel tão insossa e peculiar que brincou com a ideia de que os pratos seriam feitos de carne humana. O estalo definitivo, contudo, ocorreu quando morava no andar superior de um açougue em Paris; todas as manhãs, por volta das sete horas, o som rítmico do cutelo batendo contra o balcão ecoava em seu quarto, inspirando a criação do ritmado e claustrofóbico universo do prédio. 

Toda essa bagagem cultural e o amor por referências que vão da melancolia fotográfica de Robert Doisneau às peripécias físicas de Buster Keaton e Tex Avery foram condensados em sequências antológicas, como a sinfonia cômica que une o ranger das molas de uma cama a uma colagem de sons cotidianos do edifício. Embora uma parcela da crítica norte-americana da época tenha demonstrado certa resistência ao clímax cataclísmico e molhado do terceiro ato, o consenso crítico foi amplamente favorável, rendendo ao filme uma aceitação duradoura de 90% no agregador Rotten Tomatoes.

Para além do entretenimento excêntrico, analistas contemporâneos enxergam na obra uma alegoria ácida sobre o movimento de resistência na Europa ocupada e as dinâmicas de sobrevivência social. A consagração na temporada de premiações confirmou o talento da dupla de realizadores: "Delicatessen" arrebatou quatro prêmios César - incluindo Melhor Estreia e Melhor Roteiro Original, escrito em parceria com Gilles Adrien -, além do prêmio de Melhor Direção no Festival de Sitges e o prestigiado Prêmio de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Tóquio. É uma iguaria cinematográfica indispensável que abriu as portas do mundo para que Jeunet, dez anos mais tarde, fizesse história com o solar "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain".


Ficha técnica
“Delicatessen”
Gênero: comédia, ficção científica, fantasia. Duração: 99 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: francês. Direção: Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro. Roteiro: Gilles Adrien, Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro. Elenco: Dominique Pinon, Marie-Laure Dougnac, Jean-Claude Dreyfus, Karin Viard, Ticky Holgado, Rufus, Howard Vernon, Chick Ortega. Distribuição no Brasil: Flashstar Home Video / Continental Home Vídeo (lançamentos históricos em home video). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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.: O fantasma da autocrítica ganha voz e traço em "Todo Mundo Ama Jeanne"


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O cinema francês sempre teve uma aptidão singular para extrair graça do desespero, e a diretora Céline Devaux abraça essa tradição com uma ousadia visual refrescante. Em cartaz estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision, a comédia "Todo Mundo Ama Jeanne" equilibra as dores do luto e do fracasso financeiro sob uma ótica inesperadamente leve. O longa-metragem acompanha Jeanne, interpretada por Blanche Gardin, uma empresária do ramo ecológico que vê seu projeto revolucionário de despoluição marinha afundar sob os olhares do público. Falida, cheia de dívidas e assombrada pelo recente suicídio da mãe, ela se vê obrigada a viajar para Lisboa com o objetivo de vender o apartamento da família.

A viagem ganha contornos de humor absurdo logo no aeroporto, quando Jeanne é abordada por Jean, papel de Laurent Lafitte. O sujeito é um antigo colega de escola de quem ela não guarda a menor lembrança, mas que se revela uma figura inconveniente, invasiva e dotada de uma excentricidade irresistível. Em solo português, a protagonista ainda precisa lidar com a reaparição de um antigo namorado, vivido por Nuno Lopes, enquanto tenta encontrar forças para arrumar o imóvel repleto de memórias dolorosas. A grande sacada da diretora, que estreia longas-metragens com esse filme, é dar vida aos pensamentos intrusivos de Jeanne por meio de pequenas inserções em animação. Um fantasminha cabeludo, desenhado e dublado pela própria cineasta, surge na tela para verbalizar as inseguranças e as autocríticas mais cruéis da personagem.

A inspiração para o roteiro nasceu de observações reais de Céline Devaux durante suas viagens a Portugal em meados de 2010, no auge da crise econômica europeia, quando viu amigos se desfazendo de patrimônios devido à inflação sufocante. A diretora revelou à imprensa que decidiu colocar na tela os seus maiores temores em relação ao futuro do planeta e ao luto, transformando temas densos em algo deliberadamente estranho e divertido. Outro ponto que chama a atenção na estrutura narrativa é a inversão do clássico arquétipo cinematográfico conhecido como Manic Pixie Dream Girl - aquela personagem feminina excêntrica que surge apenas para salvar o protagonista masculino de sua apatia. Laurent Lafitte assume esse papel de agente do caos terapêutico, usando a falta de noção para empurrar Jeanne de volta à vida.

Exibido originalmente na prestigiada Semana da Crítica do Festival de Cannes, o filme chama a atenção pela inventividade, embora divida opiniões quanto ao ritmo. Para parte da crítica especializada, o contraste entre o marasmo apático da atuação de Blanche Gardin e a vivacidade das animações cria um desequilíbrio na tela, fazendo com que o longa por vezes flerte com a superfície dos problemas que propõe debater. Ainda assim, a produção se destaca como um exercício criativo de empatia, no qual os coadjuvantes de peso, como a veterana atriz suíça Marthe Keller no papel da mãe falecida, garantem sustentação a uma comédia dramática que passa longe de ser convencional.


Ficha Técnica
“Todo Mundo Ama Jeanne” | "Tout le Monde Aime Jeanne" (título original) | "Toda a gente gosta de Jeanne" (em Portugal)
Gênero: comédia, drama, romance. Duração: 95 minutos.Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 14 anos Ano de produção: 2022 (lançamento no Brasil em 2024). Idioma: francês (com trechos em português). Direção e roteiro: Céline Devaux. Elenco: Blanche Gardin, Laurent Lafitte, Nuno Lopes, Marthe Keller, Maxence Tual. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não.

 nesta quinta-feira, dia 21 de maio, como uma obra rara que ultrapassa o objeto imediato - a gastronomia - para tocar em algo mais profundo: a ética do trabalho, a obsessão pela excelência e o peso silencioso da herança. Dirigido e roteirizado por David Gelb, o filme acompanha o cotidiano de Jiro Ono, mestre octogenário que transformou um balcão de dez lugares escondido em uma estação de metrô de Tóquio em um dos restaurantes mais reverenciados do mundo, agraciado com três estrelas do guia Michelin.


Gelb inicialmente concebeu o projeto como um panorama mais amplo sobre diferentes sushimen, algo que ele próprio definiu como um “Planeta Sushi”, em referência à estética grandiosa das produções da BBC. O encontro com Jiro, no entanto, deslocou o eixo do filme: não havia mais interesse em diversidade de estilos, mas na singularidade de um homem que, aos 85 anos, ainda repetia os mesmos gestos com a precisão de quem persegue um ideal inalcançável. 

A decisão deu ao documentário uma espinha narrativa mais íntima, centrada também na relação com o filho mais velho, Yoshikazu, destinado a herdar não apenas o restaurante Sukiyabashi Jiro, mas o fardo de corresponder a um padrão quase inatingível. O filme constrói sua força na repetição - tanto temática quanto estética. A trilha sonora, que inclui composições de Philip Glass, Tchaikovsky e Max Richter, ecoa a rotina do protagonista: ciclos que se reiteram, mas nunca são idênticos. Há, nisso, uma espécie de metáfora sonora para o próprio conceito de aperfeiçoamento contínuo que orienta Jiro. 

A câmera de Gelb, por sua vez, privilegia closes e movimentos lentos, quase reverenciais, que transformam o preparo do sushi em um ritual de minúcias. Não se trata apenas de comida, mas de um processo que começa na escolha rigorosa dos fornecedores - muitos dos quais se orgulham de servir exclusivamente ao restaurante - e culmina em um gesto aparentemente simples: servir.

Entre as curiosidades reveladas, uma chama atenção pela precisão quase científica do método: o sushi ideal deve equilibrar temperaturas distintas - o arroz ligeiramente aquecido à temperatura corporal e o peixe em temperatura ambiente. Pequenos detalhes como esse ajudam a compreender por que a excelência, aqui, não é um discurso, mas uma prática obsessiva. O próprio Jiro sintetiza essa filosofia em uma frase que atravessa o filme: “Eu faço a mesma coisa repetidamente, melhorando pouco a pouco”

A recepção crítica internacional confirma o impacto da obra. Com 99% de aprovação no Rotten Tomatoes e avaliações majoritariamente favoráveis no Metacritic, o documentário foi celebrado não apenas como um retrato gastronômico, mas como uma reflexão sobre disciplina e propósito. O crítico Roger Ebert, em uma de suas últimas análises marcantes, descreveu o filme como um estudo quase enigmático de um homem cuja vida parece inteiramente consumida por sua arte - uma devoção que levanta questões incômodas sobre sacrifício, realização e limites pessoais.

Exibido inicialmente no Festival de Tribeca em 2011, “Jiro Sonha com Sushi” também encontrou um público mais amplo ao ser disponibilizado em plataformas de streaming, consolidando-se como um dos documentários gastronômicos mais influentes da última década. Ainda que se passe em um espaço minúsculo - um restaurante sem luxo aparente e com poucos assentos --, o filme expande as fronteiras para discutir algo universal: o que significa dedicar uma vida inteira a fazer uma única coisa, e fazê-la melhor do que qualquer outro.


Ficha técnica
“O Sushi dos Sonhos de Jiro” | “Jiro Dreams of Sushi” (título original)
Gênero: Documentário. Duração: 82 min. Classificação indicativa: Livre. Ano de produção: 2011. Idioma: Japonês. Direção: David Gelb. Roteiro: David Gelb. Elenco: Jiro Ono, Yoshikazu Ono, Masuhiro Yamamoto. Distribuição no Brasil: (varia por relançamento/exibição). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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domingo, 31 de maio de 2026

.: Milla Fernandez desconstrói a própria experiência para questionar limites


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.comFoto: divulgação

Era época da pandemia da covid-19 e pouco antes de o mundo recolher as certezas em salas trancadas e telas acesas, Milla Fernandez descobriu que a sobrevivência material exigia dela uma coreografia inédita. O sustento de uma estrutura familiar inteira dependeu, por meses, do avanço de moedas virtuais em salas de transmissão erótica. 

Sem o verniz da condescendência ou o drama da autocomiseração, estavam postos o corpo, o dinheiro, a webcam e o cansaço de uma jovem atriz que, farta de esperar por testes para novos trabalhos, resolveu precificar os próprios limites diante de estranhos. Do fundo do poço sanitário que a crise de 2020 cavou na cultura, ela emergiu com o texto de "TIP (Antes Que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo"), monólogo que tem neste domingo , dia 31 de maio, a última apresentação em São Paulo, no Teatro YouTube, após uma passagem incômoda e premiada pelos palcos cariocas. 

Sob a direção precisa e rigorosa de Rodrigo Portella - que limpa a cena de fetiches óbvios para deixar apenas os tapetes vermelhos do sucesso e a crueza da caixa cênica - a atriz faz uma devassa sobre o quanto a sociedade da imagem cobra para manter de pé as ilusões diárias e as perdidas. 


Resenhando.com - No espetáculo "TIP", o gesto de "se atirar no fogo" parece uma estratégia: até que ponto essa exposição radical é controle, e não descontrole, da própria narrativa?
Milla Fernandez - Essa peça nasce de um segredo que pensei que guardaria a vida toda. Contá-lo com as minhas próprias palavras ainda é uma tentativa de controle, mas de outra natureza. Antes eu achava que controlar era prever o resultado e qualquer erro de cálculo era considerado um fracasso. Hoje, “me atirar no fogo” é aceitar que não posso adivinhar a reação das pessoas, só posso decidir não me paralisar diante dela. Ainda existe uma tentativa de controle nisso, mas menos como defesa e mais como a necessidade de colocar no mundo uma versão de mim que não caiba só no olhar do outro. Talvez, daqui a cinco anos, eu mesma mude de ideia sobre a versão que contei. E, estranhamente, aceitar essa instabilidade me libertou mais do que qualquer certeza.


Resenhando.com - Você transforma a lógica da gorjeta ("tip", em inglês) em dramaturgia. O aplauso, no teatro, também pode ser lido como uma moeda? 
Milla Fernandez - Eu não vejo exatamente o aplauso como moeda. Ele pertence a um campo muito mais contraditório: pode ser um encontro genuíno com a obra ou apenas um reflexo social quase automático. A pergunta que fica pra mim é: por que algumas trocas são legitimadas e outras são imediatamente moralizadas? Quem decide o que é nobre e o que é degradante?


Resenhando.com - O que muda quando o desejo do público deixa de ser simbólico e passa a ser literalmente pago?
Milla Fernandez - A experiência de camgirl me fez perceber que desejo, projeção, validação e fantasia existem em muitos tipos de relação entre público e performer, inclusive no teatro. Não da mesma maneira, obviamente. Mas também não tão separados quanto gostamos de imaginar. O dinheiro não cria a objetificação, às vezes ele só impede que certas idealizações permaneçam intactas. E talvez o desconforto venha menos da transação em si e mais do fim da fantasia.


Resenhando.com - Há um momento em que a atriz diz ter aprendido a "respirar debaixo d'água". Esse aprendizado vem antes ou depois de aceitar que talvez não exista superfície para voltar?
Milla Fernandez - Sempre existiu superfície. Acho que o que mudou foi eu parar de acreditar que a superfície era o destino. Por muito tempo, "respirar debaixo d'água" era uma habilidade emergencial, algo que eu fazia enquanto esperava voltar ao normal. Mas fui percebendo que atrofiei minha criatividade tentando me encaixar num molde que nem eu mesma havia escolhido conscientemente, o molde da carreira correta, da progressão esperada, da atriz que espera ser escolhida. O aprendizado de respirar lá embaixo veio quando parei de tratar a submersão como acidente e comecei a tratá-la como território. A superfície não desapareceu, eu é que deixei de precisar dela para existir.


Resenhando.com - Seu trabalho tensiona a fronteira entre autonomia e exploração. Existe um ponto em que essa distinção deixa de fazer sentido, ou ela precisa existir para que a obra se sustente?
Milla Fernandez - Essa tensão precisa existir, não só para que a obra se sustente, mas porque ela é real. Se eu dissesse que fui "livre", estaria mentindo. Se dissesse que fui "explorada", estaria simplificando. A verdade é que as duas coisas habitam o mesmo gesto. O que "TIP" tenta fazer não é resolver essa contradição, é recusar-se a dissolvê-la ou ignorá-la por conforto. Talvez autonomia seja isso: saber que estamos dentro da armadilha e ainda assim tentar decidir como atravessá-la. Acredito que parar de se perguntar é o começo de qualquer forma de violência.


Resenhando.com - O espetáculo parece desmontar a ideia de vocação artística como destino. Depois de tudo, ainda faz sentido falar em "amor à arte" ou as pessoas estão sempre falando, no fundo, de sobrevivência?
Milla Fernandez - Falar em amor à arte sem falar em sobrevivência é um privilégio que muita gente não tem e que o mercado usa para manter artistas em condição de gratidão permanente. “Amor à arte” é uma frase linda, mas muitas vezes usada para romantizar precariedade. Eu ainda acredito no amor, mas desconfio quando ele é exigido como prova de resistência. No fundo, arte e sobrevivência estão muito misturadas. Às vezes a gente cria porque ama; às vezes porque precisa; às vezes porque não sabe mais existir sem transformar a dor em alguma coisa.


Resenhando.com - Em cena, você revisita experiências potencialmente traumáticas com humor ácido. O riso é um mecanismo de defesa, de ataque ou de sedução para o público?
Milla Fernandez - O riso é tudo isso. Defesa, ataque e sedução. Ele protege porque cria distância da ferida, ataca porque desmonta o lugar da vitimização e seduz porque aproxima o público antes de empurrá-lo para um lugar desconfortável. Quando a plateia ri de uma situação constrangedora, ela se surpreende ao se perceber cúmplice. É aí que o espetáculo acontece de verdade, nesse instante em que o riso revela mais do espectador do que da personagem.


Resenhando.com - Ao trazer a família para dentro da narrativa - ainda que ficcionalizada - você desloca o eixo da exposição: o que é mais arriscado, falar de sexo ou falar de afeto?
Milla Fernandez - O sexo nunca esteve separado de afeto, carência ou vulnerabilidade na peça. Então não vejo essas coisas como opostas. O que muda quando a família entra em cena é que a exposição deixa de ser inteiramente administrável. Porque já não envolve só a minha versão sobre mim mesma. Mas o teatro também oferece uma espécie de deslocamento. Nada em cena é exatamente documento, nem totalmente invenção. A ficção não elimina completamente o risco, mas torna possível atravessá-lo.


Resenhando.com - Dirigida por Rodrigo Portella, a peça assume um minimalismo que escancara o próprio teatro. O que sobra quando se retira quase tudo?
Milla Fernandez - O minimalismo não dá chance pra esconderijos, ele obriga a cena a revelar suas “mentiras”, seus “truques”. Rodrigo tem por hábito, nos seus trabalhos, assumir a ficção como experiência compartilhada. Quando ele propõe tirar quase tudo, é uma escolha que reforça o pacto entre atriz e público. Um pacto que fala mais sobre a honestidade de construirmos uma realidade juntos do que de revelar uma grande e única verdade. Ele é um diretor que, antes de qualquer coisa, convoca o imaginário do espectador e aposta no poder do encontro.


Resenhando.com - Você afirma ter deixado de esperar ser escolhida. Esse gesto de autoria é libertador ou inaugura uma nova forma de solidão dentro do mercado artístico?
Milla Fernandez - É libertador e solitário. Durante muito tempo eu esperei ser escolhida pelo olhar do outro. Assumir autoria interrompe essa lógica, mas também revela que independência artística nunca é absoluta. É uma troca de vulnerabilidades: antes, a fragilidade estava em esperar permissão. Agora, está em sustentar a própria voz mesmo quando ela incomoda ou não encontra acolhimento imediato.


Resenhando.com - Se "TIP" é, no fim, uma pergunta que você se faz todos os dias, qual é a única resposta que você torce para nunca encontrar?
Milla Fernandez - Que teria sido melhor ficar calada. Mas essa preocupação eu não tenho. A partir de "TIP", a única coisa que eu vou conhecer é a vida pós-fogueira.


Ficha técnica
Espetáculo “TIP (Antes Que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo)”
Dramaturgia e performance: Milla Fernandez
Direção: Rodrigo Portella
Direção musical: Federico Puppi
Trilha sonora original: Leonardo Bandeira (bateria) e Federico Puppi
Figurino: Karen Brusttolin
Cenário e luz: Rodrigo Portella
Colaboração: Georgina Vila Bruch
Vídeo design: Plinio Hit
Visagismo: Neandro Ferreira
Fotos: Ale Catan
Identidade Visual: José Mancini e Diego Navarro
Mídias Sociais e Gestão de Tráfego: Nathália Alves
Captação de apoio: RumoToloá
Produção: Ártemis e Virgínia Bravo (Ártemis Produções Artísticas)
Realização: Mil Atividades Artísticas
Assessoria de imprensa: JSPontes Comunicação - João Pontes e Stella Stephany


Serviço
Espetáculo “TIP (Antes Que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo)”
Temporada até este domingo, dia 31 de maio
Teatro YouTube (antigo Eva Herz) - Av. Paulista, 2073/3º and, Conjunto Nacional, Bela Vista / SP (estacionamento no local)
Sexta-feira e sábado, às 20h00; domingo, às 17h00. Ingressos: R$120,00 e R$60,00 (meia) em https://www.eventim.com.br/artist/teatro-youtube/tip-antes-que-me-queimem-eu-mesma-me-atiro-no-fogo-4076460/ ou na bilheteria de segundas 13h00 às 21h00 / Capacidade: 166 espectadores / Duração: 90 minutos. Gênero: autoficção. Classificação: 18 anos. Acessibilidade teatro: sim / Temporada: até 31 de maio

quarta-feira, 27 de maio de 2026

.: "Delírio de Loucura" coloca veneno na receita da família perfeita


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O cinema clássico norte-americano sempre encontrou maneiras elegantes de implodir a fachada hipócrita do comercial de margarina que ilustrava o "American Way of Life" na era Eisenhower. Mas poucos diretores ousaram tanto, e de forma tão visceral, quanto Nicholas Ray. Em "Delírio de Loucura", em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carteo cineasta pega a obsessão da classe média suburbana pelo sucesso e pela estabilidade e a injeta com uma dose cavalar de cortisona, transformando o sonho americano em um autêntico filme de terror doméstico.

Baseado no artigo jornalístico "Ten Feet Tall", publicado por Berton Roueché na revista The New Yorker em 1955, o roteiro de Cyril Hume e Richard Maibaum (com colaboração não-creditada do mestre do teatro Clifford Odets) acompanha o drama de Ed Avery. Interpretado com uma intensidade assustadora por James Mason, que também  produziu o longa-metragem, Avery é o epítome do cidadão exemplar: professor primário dedicado que, para fechar as contas do mês e mimar a esposa, trabalha secretamente como despachante de táxi. Quando crises terríveis revelam uma poliarterite nodosa, uma rara e letal inflamação das artérias, a medicina lhe oferece a salvação através de um hormônio experimental. O milagre da cura, contudo, cobra um preço alto demais quando o protagonista passa a abusar das doses e mergulha em uma psicose megalomaníaca.

O que se segue é uma das descrições mais perturbadoras da masculinidade tóxica e do totalitarismo familiar já registradas pelo CinemaScope. Ray sabota os espaços claustrofóbicos da residência dos Avery utilizando as cores e as lentes largas, geralmente reservadas para grandes faroestes, para sufocar o espectador. James Mason entrega uma atuação cirúrgica, transitando do pai amoroso ao tirano bíblico que evoca o sacrifício de Isaac para justificar um plano de homicídio seguido de suicídio. Ao seu lado, Barbara Rush brilha no papel da esposa impotente diante da heresia médica, e Walter Matthau, ainda longe de seus papéis cômicos consagrados, entrega uma performance sóbria como o amigo e a voz da razão que tenta conter a tragédia.

Curiosamente, os bastidores de "Delírio de Loucura" guardam uma pérola da Hollywood clássica. Marilyn Monroe, grande amiga de Nicholas Ray, estava filmando "Nunca Fui Santa" no estúdio vizinho e chegou a gravar uma participação especialíssima como enfermeira. Infelizmente para os cinéfilos, a cena foi totalmente cortada na sala de montagem devido a entraves contratuais rígidos entre a estrela e a Fox.

O filme também enfrentou forte resistência da indústria farmacêutica. Gigantes como a Merck, nos Estados Unidos, e a Glaxo, no Reino Unido, manifestaram séria preocupação de que a fúria psicótica de Ed Avery gerasse pânico na população e boicote ao uso legítimo da cortisona. O temor corporativo, aliado à rejeição do público americano da época, que considerou a obra sombria e melodramática demais, resultou em um retumbante fracasso de bilheteria. O crítico Bosley Crowther, do The New York Times, chegou a rotular o filme como "tedioso".

O tempo, no entanto, é o senhor da razão e o melhor curador da arte. Foram os críticos franceses da Cahiers du Cinéma os primeiros a resgatar o valor da obra. François Truffaut teceu loas à precisão de Mason e à beleza visual da produção, enquanto Jean-Luc Godard colocou o longa na seleta lista dos dez melhores filmes sonoros americanos da história. Décadas mais tarde, a crítica contemporânea reconhece "Delírio de Loucura" não apenas como um alerta médico, mas como uma brilhante e atemporal acusação contra o conformismo, a pressão econômica sobre os professores e as rachaduras ocultas na estrutura da família tradicional. Uma obra-prima violenta, lírica e desesperada que ecoa até os dias de hoje.


Ficha Técnica:
“Delírio de Loucura” | "Bigger Than Life" (título original) | "Atrás do Espelho" (título em Portugal)
Gênero: drama / melodrama / drama psicológico. Duração: 95 minutos (1h 35min). Classificação indicativa: 14 anos (Recomendado/Approved na época). Ano de produção: 1956. Idioma: inglês. Direção: Nicholas Ray. Roteiro: Cyril Hume e Richard Maibaum (baseado no artigo "Ten Feet Tall" de Berton Roueché). Elenco: James Mason, Barbara Rush, Walter Matthau, Christopher Olsen, Robert F. Simon, Roland Winters, Rusty Lane. Distribuição no Brasil: 20th Century Fox (20th Century Studios). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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terça-feira, 26 de maio de 2026

.: Hugo Bonemer: Ripley no teatro, ator reflete sobre identidade e obsessão

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.comFoto: divulgação

O talentoso Hugo Bonemer poderia ser apenas um jogo de palavras, uma referência ao romance de Patricia Highsmith, mas vira chave de leitura quando o espetáculo "O Talentoso Ripley", em cartaz no Teatro Laura Alvim, no Rio de Janeiro, até dia 31 de maio, aposta no fascínio ambíguo de personagens que orbitam o desejo de ser outro. Inspirado no universo do clássico literário criado em 1955, a peça teatral dialoga com a tradição do thriller psicológico que consagrou o personagem Tom Ripley - figura que atravessou décadas, adaptações e formatos, do cinema europeu de René Clément ao olhar sofisticado de Anthony Minghella na versão de 1999.

O espetáculo tem como base a adaptação em 1999 da escritora e roteirista Phyllis Nagy. Na nova abordagem, Hugo Bonemer assume o papel que flerta com essa herança e desafia todos os intérpretes que já passaram por ele. O ator, conhecido por transitar entre televisão, teatro musical e dublagem, constrói um protagonista que vive na fronteira entre admiração e apropriação - um território dramático que o próprio Bonemer já descreveu como um espaço de “empatia perigosa”. A atuação sustenta o eixo central de uma história que se organiza a partir do desconforto da inquietação prolongada de reconhecer traços humanos em figuras moralmente instáveis.

Interpretando, dirigindo e produzindo a peça na pele de um dos protagonistas mais fascinantes da literatura do século XX, Hugo Bonemer revisita um clássico e propõe um jogo contemporâneo de máscaras. Ao assumir esse risco, em entrevista exclusiva para o portal Resenhando.com, ele transforma o trocadilho inicial em provocação: até onde vai o talento de quem interpreta - e de quem assiste - sem se deixar capturar pelo abismo que observa?

Resenhando.com - Ripley atravessa a fronteira entre admiração e obsessão com rapidez brutal. Hoje, o que o assusta mais: quem se reconhece nele ou quem se encanta por ele?
Hugo Bonemer - Não me assusto com os dois cenários, acho eles naturais e previsíveis, já que um psicopata sedutor consegue o que quer fazendo as pessoas se sentirem exatamente assim: íntimas e familiares. Me assusta que nada disso faça a gente aprender a perceber até que seja tarde demais.


Resenhando.com - Você diz que interpretar Ripley exige visitar lugares desconfortáveis — em que momento esse desconforto deixa de ser ferramenta de criação e começa a ameaçar quem você é fora do palco?
Hugo Bonemer Eu somatizo muito e pra isso tenho feito, além do processo terapêutico de anos, muito cuidado holístico e de massagem com o terapeuta holístico Julius Mac, que tem vindo de Buzios fazer um tratamento físico comigo. É como tenho conseguido manter o corpo e a mente sãos.


Resenhando.com - Ripley é um mestre em desejar a vida do outro. Em algum momento da sua trajetória, você já desejou ser alguém a ponto de quase apagar quem você era?
Hugo Bonemer Muitas vezes! Até chegar num ponto de me amar de verdade eu vivia desejando a vida dos outros. Seja por ser um discípulo intelectual de alguém, seja para ser amado por alguém, ou por conviver com algum daqueles ícones de beleza inalcançável. Não sei se todo mundo passa por isso, mas eu já não me lembro quando foi que deixei de ser assim. Só sei que tem muitos anos que amo existir como eu sou, aperfeiçoar quem eu sou, sem precisar viver na sombra de ninguém.


Resenhando.com - A peça aposta em suspense e terror, gêneros pouco explorados no teatro brasileiro. O que mais o interessa: provocar medo no público ou fazer com que ele reconheça a si mesmo nesse medo?
Hugo Bonemer O terror que se dispõe a provocar medo não causa medo em ninguém. É pelo reconhecimento de si mesmo na trama que a vulnerabilidade aparece. A partir daí, é só uma brincadeira em conjunto. Um susto aqui, um outro ali… tudo nesse acordo silencioso entre artista e espectador.


Resenhando.com - Você acumula funções de ator, diretor, produtor e cenógrafo. Esse controle todo é uma necessidade artística ou uma forma de garantir que nada escape da sua própria narrativa?
Hugo Bonemer Começou como necessidade de produção. Eu tinha um orçamento. Aos poucos fui gostando, confesso, e faria novamente. Exceto as redes sociais, essa parte eu faço, mas detesto.


Resenhando.com - Há uma tradição de “humanizar monstros” na arte contemporânea. Até que ponto compreender Ripley não corre o risco de absolvê-lo e, por tabela, absolver violências muito reais?
Hugo Bonemer Monstros não são humanizados para serem entendidos e acolhidos, mas para serem identificados em nós mesmos. Quando ele é só monstro, ele é externo, vive fora, não é problema nosso. Mas quando você vê uma relação familiar conturbada, um trauma, você se pergunta onde que você não decidiu seguir aquele caminho amoral, e onde o personagem se perdeu na curva. E é aí que a maturidade acontece. O risco que eu às vezes me questiono é o de dar palco para figuras reais, que cometem crimes e ganham dramaturgia e holofotes. Não sei se é um problema, mas li que os psicopatas adoram isso. O Tom Ripley não é uma pessoa real que vai se envaidecer por ter sua história contada.


Resenhando.com - Você fala em “empatia perigosa”. Já houve algum momento em que essa empatia te fez justificar algo que, racionalmente, você condena?
Hugo Bonemer Muitas vezes, a empatia perigosa no caso do Ripley vem quando você percebe que ele está quebrado e tenta gostar dele mesmo ele dizendo na sua cara que vai te fazer mal. Como aquela história do escorpião que pede para o coelho uma carona no barco jurando que não vai avançar, avança e pede desculpas dizendo “é a minha natureza”. O psicopata é assim, e quando ele aparece na nossa vida, faz de tudo para você achar que é um brinquedo quebrado, e que só você é capaz de consertar.


Resenhando.com - A montagem parte de um texto que nunca havia sido encenado em português. O que se ganha e o que se perde quando uma história tão marcada por outros contextos culturais ganha sotaque brasileiro?
Hugo Bonemer Só se ganha. Tirei todos os anglicismos e cortei quase uma hora de peça transformando texto em símbolo. Acredito que quando temos uma dramaturgia mais perto da gente conseguimos dialogar mais a fundo com o que acontece agora.


Resenhando.com - O sucesso da peça foi, nas suas palavras, inesperado. Existe algo de Ripley nesse espanto — alguém que, no fundo, não acredita que merece o lugar que ocupa?
Hugo Bonemer Tem algo voltado mais sobre planilha de custos mesmo haha. Eu não investi em marketing e a peça lotou. Eu faço com tanto amor que acredito que nós merecemos a casa lotada, mas já acreditei em outros projetos que não tiveram o mesmo sucesso. Por isso inesperado.


Resenhando.com - Curiosamente, você chega a esse momento da carreira aos 37 anos interpretando um personagem criado em 1955. Se a arte é uma forma de driblar o tempo, que tipo de permanência você busca: ser lembrado ou ser compreendido?
Hugo Bonemer Obrigado pelos 37, eu faço 39 em junho. Eu não busco permanência, mas sim sentido. Crio sentido pra mim todo dia, toda hora, por meio da criatividade. Como, e se eu for lembrado com permanência, vai ser uma decisão nem de quem convive comigo, mas de quem está provavelmente nascendo agora. É impossível de controlar.


Serviço
Espetáculo "O Talentoso Ripley"
Teatro Laura Alvim -Av. Vieira Souto, 176 - Ipanema, Rio de Janeiro - RJ
Temporada: até dia 31 de maio
Sextas e sábados, às 20h00, e domingos, às 19h00
Lotação: 190 lugares
Classificação: 18 anos
Duração: 1h50min
Direção: Hugo Bonemer
Co-direção: Kamilla Rufino
Elenco: Francisco Paz (Richard Greenleaf), João Fernandes (Marc e Freddie), Cassio Pandolfh (Herbert Greenleaf e Tenente Roverini), Laura Gabriela (Emily Greenleaf e Tia Dottie) e Tom Nader (Red, Fausto e Silvio).
Gênero: suspense/terror
Ingressos: a partir de R$ 35,00

.: Porque "Todas as Manhãs do Mundo" desbancou Michael Jackson e Madonna


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

A reconstituição histórica no cinema frequentemente se perde em excessos visuais, mas há obras que abraçam a grandiosidade no recolhimento e na precisão. É esse o triunfo que o público testemunha com a estreia de "Todas as Manhãs do Mundo" na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, uma obra-prima de 1991 dirigida por Alain Corneau. É um drama de época refinado, focado na música, na perda e na complexa transmissão de conhecimento entre duas gerações de artistas no século XVII, sob o reinado de Luís XIV.

O roteiro, escrito a quatro mãos pelo próprio diretor e pelo autor Pascal Quignard - adaptando o romance homônimo lançado no mesmo ano -, acompanha a trajetória do renomado músico Marin Marais. Na maturidade, o personagem é interpretado com o vigor habitual de Gérard Depardieu, que acumula a função de narrador da própria juventude. Filho do ator na vida real, Guillaume Depardieu, assume o papel do jovem Marais com uma entrega impressionante. 

O centro da narrativa está na busca do rapaz pelo aprendizado com o recluso e jansenista Monsieur de Sainte-Colombe, vivido magistralmente por Jean-Pierre Marielle, um mestre que se isolou do mundo e da corte após a morte da esposa para se dedicar apenas às filhas e à arte. O elenco principal se completa com Anne Brochet na pele de Madeleine, a filha mais velha do tutor, que se apaixona por Marais. Curiosamente, a crítica internacional destacou na época que esta foi a segunda vez consecutiva que Brochet e Gérard Depardieu viveram um par romântico nas telas, repetindo a química já testada no aclamado "Cyrano de Bergerac".

Além das intrigas amorosas e as desilusões que culminam em tragédia, o verdadeiro coração do longa-metragem reside na música barroca, executada na emblemática viola da gamba pelas mãos virtuosas de Jordi Savall. A trilha sonora não apenas dita o tom melancólico e poético da produção, mas também estabeleceu um fenômeno comercial sem precedentes no mercado fonográfico global. Em uma das maiores surpresas da indústria cultural da década de 1990, o álbum com as composições barrocas do filme superou as vendas de "Dangerous", de Michael Jackson, na França, e ultrapassou os números da popstar Madonna, que lançava o álbum "Erotica". Um feito histórico para a música erudita.

A consagração do filme não se limitou ao sucesso comercial da trilha sonora. "Todas as Manhãs do Mundo" foi o grande vencedor da 17ª edição do Prêmio César em 1992, faturando sete estatuetas, incluindo as de Melhor Filme, Melhor Diretor para Alain Corneau, Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Brochet e Melhor Música para Jordi Savall. Além disso, o diretor conquistou o prestigiado Urso de Prata no Festival Internacional de Cinema de Berlim e a obra garantiu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 1993. O título poético faz referência a uma das falas mais dolorosas de Marais ao constatar a finitude da vida e o peso dos erros passados: todas as manhãs do mundo nunca mais voltam. É um cinema rigoroso, esteticamente impecável e que merece ser absorvido por quem o assiste.


Ficha técnica
“Todas as Manhãs do Mundo” | “Tous les Matins du Monde” (título original)
Gênero: drama. Duração: 115 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: francês. Direção: Alain Corneau. Roteiro: Pascal Quignard e Alain Corneau. Elenco: Jean-Pierre Marielle, Gérard Depardieu, Anne Brochet, Guillaume Depardieu, Carole Richert, Michel Bouquet, Jean-Claude Dreyfus, Yves Gasc, Yves Lambrecht, Jean-Marie Poirier e Myriam Boyer.
Distribuição no Brasil: BAC Films. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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segunda-feira, 25 de maio de 2026

.: Filme expõe bastidores de descoberta que sacodiu o mercado de arte


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O documentário “O Caravaggio Perdido” chega à plataforma de streaming Belas Artes À La Carte  transformando uma história real do mercado de arte em narrativa de suspense, conduzida com rigor documental e ritmo de thriller. Dirigido por Álvaro Longoria, o filme acompanha, em tempo quase real, a redescoberta de uma pintura atribuída ao mestre barroco Michelangelo Merisi da Caravaggio, encontrada por acaso em um apartamento em Madri. O que parecia uma peça sem grande valor, prestes a ser leiloada por 1.500 euros, revela-se um possível tesouro artístico avaliado em dezenas de milhões, desencadeando uma corrida internacional entre especialistas, colecionadores e marchands.

Longoria, que também assina o roteiro, constrói o documentário a partir de acesso privilegiado aos bastidores dessa disputa. Ao longo de três anos e meio de filmagens, a câmera dele registra negociações sigilosas, tensões acadêmicas e interesses financeiros que orbitam o universo da arte. Participam desse jogo figuras como Maria Cristina Terzaghi, Jorge Coll e Filippo Benappi, que aparecem como personagens centrais de uma engrenagem movida por prestígio, dinheiro e obsessão. O diretor transforma mais de uma centena de horas de material bruto em uma montagem dinâmica, marcada por reviravoltas que, segundo ele próprio, alteravam continuamente o rumo da narrativa.

A obra em questão, o “Ecce Homo”, remonta ao início do século XVII, período em que Caravaggio vivia sob a sombra de acusações criminais e produzia algumas de suas telas mais intensas. O documentário resgata esse contexto histórico enquanto acompanha o processo de autenticação da pintura, colocando em evidência a fragilidade e a velocidade com que o mercado valida ou contesta atribuições dessa magnitude. A fotografia aposta em contrastes de luz e sombra que dialogam diretamente com o estilo do pintor italiano, enquanto a trilha sonora acentua o clima de tensão crescente.

Além de reconstituir a trajetória de uma obra, “O Caravaggio Perdido” expõe um sistema pouco transparente, em que interesses culturais e comerciais se entrelaçam. A pintura, hoje restaurada e reconhecida como autêntica, foi adquirida por cerca de 30 milhões de euros e encontra-se atualmente no Museu do Prado, em Madri. O desfecho reforça a percepção de que, no universo da arte, a descoberta de um “sleeper” pode reconfigurar fortunas e narrativas históricas em questão de dias.

Com indicação ao Prêmio Goya de Melhor Documentário, o filme confirma a habilidade de Longoria em capturar o inesperado e transformá-lo em cinema. Ao acompanhar uma história em constante mutação, o diretor oferece ao espectador uma reflexão sobre o valor simbólico e financeiro da arte em um mundo movido por cifras e consagrações tardias.


Ficha técnica
“O Caravaggio Perdido” | “The Sleeper” (título original) | “The Sleeper - O Caravaggio Perdido” (título em Portugal)
Gênero: documentário, suspense. Duração: 78 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: espanhol e italiano. Direção e roteiro: Álvaro Longoria. Elenco: Maria Cristina Terzaghi, Jorge Coll, Filippo Benappi. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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quinta-feira, 21 de maio de 2026

.: Vencedor em Berlim, drama revela como progresso redesenha as relações


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Vencedor do Urso de Prata de Melhor Direção no Festival de Berlim, o filme “Living the Land” chega ao Brasil em estreia exclusiva na plataforma de streaming Reserva Imovision, nesta sexta-feira, dia 22 de maio, interessado em preservar gestos e modos de vida prestes a desaparecer. Dirigido e roteirizado pelo chinês Huo Meng, o longa-metragem mergulha na China rural de 1991 para observar, com rigor quase etnográfico, o impacto das transformações socioeconômicas sobre uma comunidade agrícola.

A trama acompanha Chuang (interpretado por Shang Wang), um menino de dez anos que permanece na aldeia enquanto parte da família migra para os centros urbanos. Ao redor dele, o vilarejo de Bawangtai se reorganiza diante da modernização que chega em ondas: tecnologia, industrialização e novas formas de trabalho começam a redesenhar a paisagem humana e simbólica. No elenco, destacam-se ainda Chuwen Zhang e Zhang Yanrong, que ajudam a compor um mosaico geracional em que tradição e ruptura coexistem em tensão permanente.

Huo Meng, que já havia chamado atenção com seu longa de estreia “Crossing the Border - Zhaoguan”, aprofunda aqui um cinema de observação, marcado pelo uso de não-atores e por uma encenação que dilui as fronteiras entre ficção e documentário. A câmera de Guo Daming percorre os espaços com discrição e horizontalidade, como se recusasse qualquer hierarquia dramática: tudo importa, o plantio, o luto, o casamento, o trabalho coletivo. 

A produção teve estreia mundial na competição oficial do Festival Internacional de Cinema de Berlim de 2025, onde rendeu a Huo Meng o Urso de Prata de Melhor Direção, reconhecimento que consolidou o filme no circuito internacional. Desde então, “Living the Land” vem acumulando recepção crítica amplamente positiva, com 100% de aprovação no Rotten Tomatoes e elogios de veículos como The Hollywood Reporter, que destacou a precisão visual da obra, e Screen Daily, que a classificou como “imersiva e ambiciosa”.

Há também um componente autobiográfico que fica evidente o projeto. O diretor afirmou que buscava retratar o choque entre políticas coletivistas e tradições milenares, além de evidenciar as pressões - sobretudo em relação às mulheres - em um contexto de transição abrupta. Esse olhar se materializa em personagens como Xiuying, cuja trajetória evidencia o peso das estruturas familiares e sociais. Sem concessões ao ritmo acelerado do cinema comercial, “Living the Land” aposta na duração - são mais de duas horas - como estratégia de imersão. 


Ficha técnica
“Living the Land” | “Sheng Xi Zhi Di” (título original) | “Vivendo a Terra” (título em Portugal)
Gênero: Drama. Duração: 2h15. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: mandarim. Direção: Huo Meng. Roteiro: Huo Meng. Elenco: Shang Wang, Chuwen Zhang, Zhang Yanrong. Distribuição no Brasil: Autoral Filmes. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.

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