Arnaud Desplechin mistura ficção, documentário e ensaio para revisitar a formação de Paul Dédalus e investigar por que o cinema continua ocupando um lugar tão particular na vida de quem assiste
Ir ao cinema pode ser uma experiência tão íntima que, em determinados momentos, um filme parece saber alguma coisa sobre quem está sentado diante da tela. É nesse território de lembranças, descobertas e obsessões que Arnaud Desplechincoloca “Loucos por Cinema!”, produção francesa que chega à plataforma de streaming da Reserva Imovision depois de passar por festivais como Cannes e Festival do Rio.
O cineasta retoma Paul Dédalus, personagem que funciona como seu alter ego, para reconstruir a formação de um espectador apaixonado por filmes. A trajetória começa na infância, quando o garoto descobre o cinema levado pela avó para assistir a “Fantômas”, e acompanha diferentes fases de sua vida até o momento em que a cinefilia deixa de ser apenas uma paixão e passa a interferir na maneira como ele compreende o mundo.
Paul é interpretado em diferentes idades por Louis Birman, Milo Machado-Graner, Sam Chemoul e Salif Cissé. Mathieu Amalric, presença recorrente na filmografia de Desplechin e intérprete de Paul Dédalus em “Como Eu Briguei (Por Minha Vida Sexual)”, aparece como o cineasta. A escolha reforça uma espécie de jogo de espelhos que acompanha o diretor há décadas.
A graça está justamente nessa mistura. “Loucos por Cinema!” se move entre a memória pessoal, a encenação ficcional, entrevistas, reflexão sobre a experiência de assistir a um filme e uma quantidade generosa de referências cinematográficas. Desplechin olha para a própria formação como cinéfilo e, ao fazer isso, acaba convidando o público a recuperar suas próprias primeiras sessões, os filmes descobertos por acaso, os personagens que permaneceram na lembrança e até aquelas obras que modificaram alguma coisa sem que fosse possível perceber imediatamente.
O diretor passeia por nomes e títulos fundamentais para a formação de seu olhar. “Os Incompreendidos”, de François Truffaut, “Gritos e Sussurros”, de Ingmar Bergman, “As Pequenas Margaridas”, de Věra Chytilová, e “Shoah”, de Claude Lanzmann, aparecem em uma coleção de referências que ajuda a desenhar a educação sentimental de Paul. A própria escolha de “Fantômas” como ponto de partida remete a uma lembrança de infância do cineasta. Desplechin quer entender por que as pessoas continuam indo ao cinema depois de mais de um século de imagens projetadas. Cannes definiu a produção como uma homenagem às salas de cinema, enquanto o próprio diretor explicou que reuniu memórias, ficção e investigação para criar uma espécie de percurso de formação de um espectador.
O problema aparece quando a paixão do diretor começa a pesar sobre a narrativa. As referências são tantas, e a vontade de discutir cinema é tão evidente, que determinadas passagens parecem destinadas principalmente a quem já domina o repertório apresentado. O filme ganha força quando transforma a cinefilia em memória compartilhada; perde um pouco dela quando se fecha em conversas e associações que exigem do público uma intimidade semelhante com a história do cinema.
Ainda assim, existe algo bastante simpático nessa imperfeição. Desplechin não tenta organizar sua paixão de maneira didática. Ele deixa que lembranças, cenas, ideias e personagens se encontrem, como acontece na própria memória de quem passa anos assistindo a filmes. Uma lembrança de Bergman pode levar a uma discussão filosófica; um cineclube escolar pode despertar uma paixão; uma sessão pode se transformar em acontecimento amoroso; um personagem de ficção pode carregar traços de quem o criou.
Com 88 minutos, “Loucos por Cinema!” tem o tamanho de uma lembrança que se recusa a terminar. A produção francesa foi apresentada na Sessão Especial de Cannes em 2024 e chegou aos cinemas brasileiros em março de 2025. O resultado é irregular, mas coerente com o próprio objeto. Afinal, a cinefilia também tem seus excessos. Há quem assista a um filme e siga para casa. Há quem passe dias pensando nele, procure entrevistas, leia sobre o diretor, descubra outro título, monte uma lista e volte à sala de cinema para rever aquilo que acabou de descobrir. Desplechin claramente pertence ao segundo grupo.
Ficha técnica
“Loucos por Cinema!” | “Spectateurs!” (título original) | “Espectadores!” (título em Portugal)
Gênero: drama, comédia e ficção documental. Duração: 88 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 15 de janeiro de 2025, na França. Idioma: francês. Direção e roteiro: Arnaud Desplechin. Elenco: Louis Birman, Dominique Païni, Clément Hervieu-Léger, Françoise Lebrun, Sandra Laugier, Olga Milshtein, Milo Machado-Graner, Margaux Mussano, Sam Chemoul, Marilou Poujardieu, Salomé Rose Stein, Micha Lescot, Shoshana Felman, Kent Jones, Salif Cissé e Mathieu Amalric. Cenas pós-créditos: não.Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.
Assine a Reserva Imovision, a maior plataforma de filmes independentes da América Latina A equipe do portal Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streamingReserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. Você pode assinar a plataforma de streaming Reserva Imovision neste link.
Documentário de Jean-Baptiste Péretié revisita a trajetória do criador e mostra como perfeccionismo, ambição e uma cidade construída do zero ajudaram a produzir uma obra-prima - e uma ruína financeira
Jacques Tati tinha um problema sério com limites. Para fazer cinema, precisava controlar o enquadramento, o movimento dos atores, o cenário, os ruídos e até aquilo que o espectador deveria descobrir sozinho. Em "Jacques Tati, Caído da Lua", documentário dirigido por Jean-Baptiste Péretié, essa obsessão aparece como uma das chaves para entender tanto a grandeza quanto a derrocada do cineasta francês. A produção estreia na plataforma de streamingBelas Artes À La Carte, e percorre a carreira de Tati por meio de imagens de arquivo, cenas de filmes, entrevistas e registros pouco conhecidos de seu processo criativo.
Com 60 minutos de duração, o documentário acompanha a trajetória do artista desde os primeiros trabalhos no music-hall até o sucesso internacional e o desastre financeiro provocado por "PlayTime". A narração é de Denis Podalydès, ator da Comédie-Française, e o elenco de imagens de arquivo reúne, entre outros, o próprio Tati e nomes como Marcel Amont, Brigitte Bardot, Olivia de Havilland e Charles de Gaulle.
O título original, "Jacques Tati, Tombé de la Lune", traduz a ideia de alguém que parece ter chegado de outro planeta para observar o mundo. A expressão combina perfeitamente com Monsieur Hulot, personagem que Tati transformou em uma espécie de alter ego: alto, desajeitado, educado, distraído e quase sempre deslocado diante das engenhocas, dos costumes e da velocidade do mundo moderno. A diferença é que Hulot tropeça nas situações enquanto Tati parecia arquitetar cada tropeço com régua, compasso e uma paciência quase criminosa.
Péretié recupera um aspecto essencial dessa filmografia: Tati fez da observação cotidiana uma forma particular de comédia. O diretor preferia Buster Keaton a Charlie Chaplin e chegou a criticar Chaplin por concentrar demais a comicidade no protagonista. Tati caminhou em outra direção, espalhando a gag pelo quadro e permitindo que personagens aparentemente secundários participassem da engrenagem humorística.
O som também ocupa lugar central. Tati pertence ao cinema falado, mas muitas vezes parece trabalhar como se estivesse reinventando o cinema mudo. Portas, motores, passos, máquinas, campainhas, copos, telefones e ruídos urbanos assumem funções que normalmente seriam entregues aos diálogos. A comicidade nasce tanto do que se vê quanto do que se escuta. Em seus filmes, uma porta pode ter personalidade e uma máquina pode parecer mais humana do que quem a opera.
Essa obsessão alcança uma escala quase delirante em "PlayTime". Para filmar a produção de 1967, Tati construiu uma enorme cidade cenográfica conhecida como Tativille, com prédios, escritórios, ruas e interiores concebidos para que o diretor pudesse organizar sua coreografia visual. O projeto consumiu anos de trabalho e extrapolou sucessivamente o orçamento. O resultado hoje é tratado como uma das grandes obras-primas do cinema, mas sua recepção inicial foi bem menos generosa. O fracasso comercial levou Tati a uma crise financeira que envolveu a liquidação de sua empresa e a perda do controle sobre seus filmes, já que ele praticamente apostou a própria vida em uma obra que o público da época não estava preparado para receber.
O cineasta chegou a hipotecar a casa e outros bens para sustentar a produção. O projeto, concebido com uma ambição monumental, acabou contribuindo para sua ruína. Décadas depois, a história tratou de devolver a "PlayTime" o lugar que Tati imaginava que merecia. O documentário também ajuda a reposicionar o cineasta diante da modernidade. Tati não tratava a tecnologia apenas como vilã. O que o interessava era o modo como os seres humanos se comportavam diante dela.
Esse olhar continua particularmente atual. A arquitetura padronizada, a obsessão pela eficiência, a proliferação de dispositivos e a dificuldade de estabelecer relações em meio a ambientes cada vez mais automatizados poderiam facilmente alimentar uma comédia contemporânea. Tati percebeu esse mundo quando ele ainda estava começando a tomar forma. Talvez por isso Monsieur Hulot continue parecendo perdido: o problema é que nós também estamos.
"Jacques Tati, Caído da Lua" funciona como uma porta de entrada para uma filmografia pequena em quantidade e enorme em influência. O documentário não precisa transformar Tati em santo da comédia para demonstrar sua importância. Basta acompanhar o homem que começou no music-hall, criou um dos personagens mais reconhecíveis do cinema, ganhou o Oscar por "Meu Tio", construiu uma cidade para realizar "PlayTime" e terminou pagando uma conta brutal por sua própria ambição. Tati morreu em 1982, aos 75 anos, mas sua obra continuou crescendo depois dele.
O melhor elogio que se pode fazer a "Jacques Tati, caído da Lua" talvez seja lembrar que o cineasta permanece difícil de encaixar. Ele é comediante, ator, roteirista, diretor, mímico e arquiteto de situações. É francês, mas seu humor atravessou fronteiras porque dependia pouco de idioma. É herdeiro de uma tradição burlesca, mas não cabe confortavelmente nela. E criou um personagem que parecia estar sempre alguns segundos atrasado em relação ao mundo, porque Tati estiva, na verdade, alguns anos à frente.
Ficha técnica
"Jacques Tati, caído da Lua" | "Jacques Tati, Tombé de la Lune" (título original) Gênero: documentário. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: a confirmar no lançamento brasileiro. Ano de produção: 2021. Data de lançamento: a confirmar para a estreia na Belas Artes à La Carte. Idioma: francês. Direção: Jean-Baptiste Péretié. Roteiro: Jean-Baptiste Péretié. Elenco: Jacques Tati, Denis Podalydès (narração), Marcel Amont, Brigitte Bardot, Olivia de Havilland, Charles de Gaulle, entre outros, em imagens de arquivo. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
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Existe uma tentação contemporânea de dividir o mundo entre vítimas perfeitas e culpados absolutos. Carla Madeira faz o movimento contrário em “Quando”, quarto e mais ambicioso romance dela, publicado pela Editora Record. Um livro que exige do leitor algo particularmente desagradável: examinar as próprias convicções. Em tempos de uma sociedade cada vez mais adoecida, em que um streamer aborda e ridiculariza um ator da TV Globo na saída do Rock in Rio por causa da roupa que ele vestia e depois justifica a atitude como entretenimento, o livro ganha uma incômoda atualidade.
A história gira em torno de Viridiana, costureira e mãe de Margarida, Valquíria e Tito. Ela vive cercada pelos pequenos rituais da família, pelos afetos domésticos e por uma espécie de fé na possibilidade de manter tudo no devido lugar. Até que uma tragédia desmonta a bolha em que vive. Depois de chamar a polícia e denunciar o próprio filho, passa a conviver com uma pergunta que nenhuma sentença judicial consegue resolver: o que fazer com o amor quando ele está do lado de alguém que fez alguma coisa imperdoável?
A partir dessa premissa, começa a se desenvolver uma história em que maternidade, culpa, violência, homofobia, preconceito e Justiça se confundem até o leitor perceber que talvez não exista personagem suficientemente inocente para ocupar o papel de juiz. O gesto de Viridiana é brutal porque é correto e, ao mesmo tempo, devastador. Ela denuncia Tito à polícia porque amar alguém não significa necessariamente protegê-lo das consequências de seus atos.
Denunciar ou proteger o próprio filho se transforma em uma pergunta moral sem uma resposta satisfatória. A escritora sabe colocar o dedo na ferida e escolhe um lugar particularmente dolorido: o ponto em que uma mãe descobre que amar um filho pode significar entregá-lo à Justiça. Carla Madeira chegou a um ponto raro na trajetória dela como escritora. Depois do impacto de “Tudo É Rio”, da estrutura de “Véspera” e da investigação íntima de “A Natureza da Mordida”, “Quando” confirma uma escritora interessada em testar até onde a literatura pode levar uma situação aparentemente doméstica.
Machado de Assis já havia colocado, no conto “Pai Contra Mãe”, a miséria humana diante de uma escolha em que o afeto e a sobrevivência se enfrentam. Carla Madeira parece inverter o espelho em “Quando”: a situação a mãe contra o filho e o conflito ganha uma camada ainda mais incômoda, porque Viridiana precisa escolher entre proteger quem ama e entregá-lo às consequências do que fez. “Quando” poderia ter sido escrito como uma história convencional sobre culpa, violência e reconciliação.
Carla Madeira prefere desmontar o relógio, embaralhar os pontos de vista e fazer o leitor pensar, já que o livro avança aos solavancos do tempo. Há horários, lembranças, conversas, capítulos chamados “Engramas”, mudanças de perspectiva e episódios que retornam como se a memória fosse uma casa em que ninguém tivesse encontrado ainda o interruptor. A estrutura reproduz a experiência de quem espera: o tempo passa, mas alguma coisa permanece no mesmo lugar.
Viridiana espera Tito durante horas, dias, meses, vinte anos. Carla Madeira entende que o tempo sabe envelhecer pessoas, mas definitivamente não consegue educar sentimentos. Alguns leitores podem estranhar o ritmo contemplativo, sobretudo quando a narrativa parece interromper a ação para permanecer algum tempo dentro de uma lembrança, de uma conversa ou de uma sensação. Essa escolha, porém, está profundamente ligada ao que o romance pretende investigar: a autora quer que o leitor permaneça dentro das consequências.
Também é particularmente feliz a decisão de não transformar Viridiana em uma santa de porcelana. Ela erra, julga, sente vergonha, arrepende-se, recorda episódios que preferia esquecer e tenta compreender as próprias covardias. Em determinado momento, a mulher que se julgava correta percebe que já havia escolhido não enxergar outras dores quando elas bateram à própria porta. A maternidade, então, ganha contornos menos confortáveis. Uma mãe também pode ser espectadora, cúmplice involuntária, mulher amedrontada, pessoa preconceituosa e alguém capaz de rever a própria história.
Tito, por sua vez, não é apenas o filho denunciado, também está representado pela ausência que reorganiza a família. A homofobia surge dentro desse mecanismo familiar em que os personagens orbitam. O preconceito aparece em casa, no constrangimento, na vergonha, na religião usada como argumento, no medo da opinião alheia e na tentativa de transformar a sexualidade de alguém em problema coletivo. O romance entende que a violência também pode morar numa frase dita à mesa de jantar.
Carla Madeira não trata a dor como uma obrigação de solenidade. Pessoas continuam com fome durante tragédias, brigam por coisas pequenas, fazem sexo, criam filhos, queimam carne, tomam decisões ruins, sentem desejo, falam besteira e riem quando deveriam chorar, afinal, a vida tem péssimo gosto para escolher momentos adequados. O livro também não transforma sofrimento em espetáculo. A autora conhece o apelo da tragédia, mas não parece interessada em entregar ao leitor o conforto de um melodrama convencional. Carla Madeira escreve sobre uma família, mas observa um país.
O Brasil dos anos 1980 aparece como cenário social de uma narrativa marcada por preconceitos que não ficaram confinados ao passado e ainda ecoam em 2026. Homofobia, violência doméstica e familiar, autoritarismo e a ideia de que educar um filho significa moldá-lo pela força aparecem como sintomas de uma sociedade que aprendeu a chamar brutalidade de correção. Dentro desse contexto, expõe-se a fantasia de que os monstros nascem prontos, mas a escritora se mostra interessada no processo contrário: em como uma pessoa se forma dentro de uma família, quando uma violência pode ser ensinada, reproduzida e naturalizada, em como uma criança pode aprender que humilhar alguém é uma forma aceitável de exercer poder.
“Quando” deixa de ser apenas um romance sobre uma família destruída e passa a ser uma história sobre aquilo que o tempo faz quando decide não curar ninguém. O relógio anda, as pessoas envelhecem, o mundo continua, mas determinadas coisas permanecem no lugar em que foram pausadas. O quarto romance de Carla Madeira confirma uma escritora que poderia facilmente repetir a fórmula que a transformou em fenômeno editorial, mas prefere complicá-la. Em vez de oferecer outra história devastadora apenas pela devastação, constrói uma narrativa sobre o que vem depois da tragédia. Compre o livro “Quando”, de Carla Madeira, neste link.
Drama de Pauline Loquès acompanha jovem que recebe uma notícia devastadora e ganha dois dias para reorganizar a própria vida antes de iniciar o tratamento
Depois de chegar aos cinemas brasileiros, "Nino" encontra uma nova janela de exibição na plataforma de streaming da Reserva Imovision, onde apresenta ao público brasileiro o primeiro filme de ficção de Pauline Loquès. No centro da história está Nino, interpretado por Théodore Pellerin, um jovem parisiense que descobre ter câncer na garganta quando deveria estar preocupado com assuntos bem menos dramáticos.
A partir do diagnóstico, os médicos dão ao rapaz duas tarefas antes do início do tratamento. O que poderia parecer apenas uma contagem regressiva médica ganha contornos de uma jornada pessoal pelas ruas de Paris, enquanto Nino tenta entender o que fazer com a notícia, como contar para a mãe e os amigos e, principalmente, como continuar vivendo diante de uma realidade que mudou de repente. A própria apresentação oficial do filme resume essas missões como uma oportunidade para o personagem se reconectar com o mundo e consigo mesmo.
A estrutura concentra a narrativa em poucos dias e transforma a capital francesa em parte essencial da experiência de Nino. A cidade aparece como espaço de encontros, lembranças, afetos e pequenas decisões, enquanto o protagonista tenta administrar o medo, a confusão e as relações que havia deixado pelo caminho. A comparação com "Cléo das 5 às 7", clássico de Agnès Varda, surge naturalmente pela maneira como o filme acompanha uma personagem diante da perspectiva de uma doença e usa a cidade como extensão de sua inquietação. A própria recepção ao filme também destacou essa relação entre deslocamento urbano, espera e descoberta pessoal.
Estreante na direção de ficção, Loquès também assina o roteiro, com colaboração de Maud Ameline. Antes de "Nino", a cineasta havia dirigido o documentário "La Vie d'une Jeune Fille", de 2018. O filme nasceu de um processo de desenvolvimento iniciado em 2020 e foi rodado em Paris no segundo semestre de 2024. Théodore Pellerin é o grande trunfo do elenco. A interpretação como Nino rendeu ao ator o Prêmio Fundação Louis Roederer de Revelação na Semana da Crítica do Festival de Cannes de 2025.
O reconhecimento não parou em Cannes. "Nino" venceu o César de Melhor Primeiro Filme e Pellerin levou o prêmio de Melhor Revelação Masculina na edição de 2026. A produção também passou pelo Festival Internacional de Toronto, na competição Platform, e acumulou prêmios em eventos como Deauville, Roma, Varsóvia e Namur. No elenco, Pellerin divide a cena com William Lebghil, Salomé Dewaels e Jeanne Balibar, além de participações de Camille Rutherford, Estelle Meyer, Victoire Du Bois e Mathieu Amalric.
A produção francesa chegou aos cinemas brasileiros em 7 de maio de 2026 e agora pode ser encontrada na Reserva Imovision. Com 96 minutos, o filme aposta na intimidade, no humor pontual e nos encontros fortuitos para construir uma história sobre juventude, amizade, família e a necessidade quase urgente de reaprender a olhar para a própria vida.
Ficha técnica "Nino" (título original)
Gênero: drama. Duração: 96 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 7 de maio de 2026 no Brasil; 9 de abril de 2026 em Portugal. Idioma: francês. Direção: Pauline Loquès. Roteiro: Pauline Loquès, com colaboração de Maud Ameline. Elenco: Théodore Pellerin, William Lebghil, Salomé Dewaels, Jeanne Balibar, Camille Rutherford, Estelle Meyer, Victoire Du Bois, Balthazar Billaud, Mathieu Amalric, Nahéma Ricci, Alexandre Desrousseaux e outros. Cenas pós-créditos: não.Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.
Assine a Reserva Imovision, a maior plataforma de filmes independentes da América Latina A equipe do portal Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streamingReserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. Você pode assinar a plataforma de streaming Reserva Imovision neste link.
Com dramaturgia de Fran Ferraretto e direção de Lavínia Pannunzio, espetáculo transforma traição, saúde mental, dinheiro e relações afetivas em uma experiência teatral afiada, divertida e incômoda. Foto: Julieta Bacchin
Fran Ferraretto já contou em entrevista que uma das personagens dos sonhos dela é Blanche DuBois, de "Um Bonde Chamado Desejo". Em "Adulto" - espetáculo que volta para quatro apresentações gratuitas no Itaú Cultural, em São Paulo, dias 17, 18, 19 e 20 de setembro, de quinta a sábado, às 20h00, e domingo, às 18h00 - ela parece ter criado e escrito para ela mesma a própria Blanche, em uma personagem que lhe caiu como uma luva.
Em comum com a personagem do clássico de Tennessee Williams está Sara, uma mulher cheia de contradições, desejos, fragilidades, força, culpa e uma capacidade desconcertante de continuar funcionando quando tudo ao redor já deveria ter desabado. Foi no Sesc Santos que assistimos à montagem, e fica difícil sair dela sem pensar nas próprias escolhas - inclusive naquelas em que grande parte do público prefere esquecer.
"Adulto" é daqueles espetáculos em que o espectador ri para, logo depois, perceber que está vendo graça em alguma coisa dolorosamente familiar. O texto de Fran Ferraretto tem essa habilidade, já que ela trata de assuntos espinhosos com leveza, inteligência e uma acidez que chega na hora certa. Não há necessidade de transformar os personagens em exemplos de comportamento ou em vilões de ocasião. Eles erram, mentem, desejam e se arrependem, mas também tentam justificar o injustificável.
A história acompanha dois casais de amigos envolvidos em uma crise que começa a revelar problemas antigos. João (Iuri Saraiva) e Sara (Fran Ferraretto) enfrentam uma crise conjugal, enquanto a chegada de Vitor (Sidney Santiago Kuanza) e Paula (Jennifer Souza) provoca novas discussões sobre amor, fidelidade, monogamia, maternidade, machismo, dinheiro e saúde mental. A dramaturgia ainda brinca com a própria construção da peça teatral, criando, de maneira mais do que genial, uma segunda camada em que uma das personagens escreve a ficção que o público está assistindo.
Fran sabe escrever personagens que estão longe de qualquer perfeição. Por isso é impossível não reconhecer alguma coisa de si em pelo menos algum desses personagens. O elenco está muito afiado e os atores conseguem ir do humor à intensidade em questão de segundos, sem que nenhuma mudança pareça calculada. Cada personagem possui uma personalidade muito própria, e o quarteto de atores encontra diferentes caminhos para mostrar força, fragilidade, arrogância, medo, culpa e revanchismo.
Iuri Saraiva, o nosso Johnny Deep brasileiro devido à versatilidade com que encara cada papel, começa com uma leveza despretensiosa e vai ganhando contornos cada vez mais complexos. É uma atuação que cresce diante do público e chega a um estado de perturbação bastante palatável, porque reconhecível. É aquele sujeito que poderia estar sentado ao lado de qualquer um, tomando uma cerveja e contando uma história que certamente teria outra versão se fosse narrada pela pessoa envolvida.
Sidney Santiago Kuanza tem uma presença que eleva qualquer montagem. Aqui, encontra um material à altura do próprio talento e constrói um personagem que sabe incomodar sem precisar forçar a mão. Jennifer Souza, por sua vez, é uma força da natureza. Pequena fisicamente, fica gigantesca quando entra em cena. O carisma é imediato, mas ela não depende dele: existe domínio de ritmo, precisão e uma capacidade impressionante de sustentar as mudanças da personagem.
Fran Ferraretto completa esse quarteto com uma atuação que confirma uma coisa que já se percebia em trabalhos anteriores: ela entende profundamente as mulheres que escreve. Depois de abordar o relacionamento abusivo para crianças em "A Minicostureira" e discutir desigualdade social no espetáculo infantil "Rua", a dramaturga encontra em "Adulto" um terreno mais complexo para falar sobre relações entre pessoas que deveriam saber melhor o que estão fazendo.
Além disso, Fran merece ser cada vez mais reconhecida como dramaturga. Existe uma inteligência rara no modo dela abordar temas delicados sem tratar o público como criança. Ela sabe onde colocar o dedo na ferida e, principalmente, quando tirá-lo. O resultado é um texto ácido, divertido e emocionalmente desconfortável na medida certa. A direção de Lavínia Pannunzio mantém o espetáculo em movimento e impede que a discussão sobre relacionamentos vire uma sucessão de discursos. A montagem lembra, em alguns momentos, a tensão do cinema em "Closer: Perto Demais", a atmosfera do recente drama "O Convite" e até a maneira como "Flores de Aço" transforma relações pessoais em matéria dramática. São referências que ajudam a localizar a peça, mas "Adulto" tem a própria mensagem.
No fundo, é um espetáculo sobre culpa, seja essa a de trair, a de permanecer, a de desejar, a de mentir, a de não saber amar e a de não conseguir fazer diferente. Também é sobre a tentativa de reparar aquilo que foi quebrado. Porque crescer, em qualquer idade, dói, já que continuar crescendo é uma das poucas obrigações que ninguém consegue terceirizar. A imagem do casaco amarelo, presente do início ao fim do espetáculo, resume isso de maneira especialmente bonita. Depois de ser lavado, ele passa a carregar o cheiro dela. É um detalhe simples, mas poderoso: aquilo que carregava a marca de outra pessoa volta a pertencer a quem o veste. "Adulto" afirma e reafirma que algumas coisas se consertam depois de quebradas. Outras mudam de forma. E algumas, depois de lavadas, finalmente voltam a ter o nosso próprio perfume.
Ficha técnica Espetáculo "Adulto" Texto e idealização: Fran Ferraretto. Direção: Lavínia Pannunzio. Elenco: Fran Ferraretto, Iuri Saraiva, Sidney Santiago Kuanza e Jennifer Souza. Desenho de luz: Gabriele Souza. Trilha sonora e operação de som: Rafael Thomazini. Cenário: Mira Andrade. Figurino: Anne Cerutti. Design gráfico: Murilo Thaveira. Fotos: Julieta Bacchin. Visagismo: Louise Helène. Operação de luz: Carol Dourado. Técnico de montagem: Diego França. Assessoria de imprensa: Canal Aberto – Márcia Marques, Daniele Valério e Carina Bordalo. Estratégia digital e social media: Fernanda Pilotto. Direção de produção: Paula Malfatti. Coordenação de produção: FATTO Realizações. Gestão administrativa: Mava Produções. Assessoria jurídica: José Otávio V. de S. Ferreira S.I. Advocacia. Apoio: Oficina de Atores Nilton Travesso e Salão Pier A.
Serviço Espetáculo "Adulto" no Itaú Cultural Dias 17, 18, 19 e 20 de setembro, de quinta a sábado, às 20h00, e domingo, às 18h00. Avenida Paulista, 149 - São Paulo. Apresentações gratuitas.
Romance de estreia de Thiago Sobral mergulha em violência familiar, desejo, fé, racismo, homofobia e culpa para construir uma história em que ninguém é completamente inocente
Poucas coisas são tão literárias quanto descobrir que o monstro da história pode ter sido vítima antes de virar monstro e que isso, definitivamente, não resolve o problema. Nessa história, há um pai morto, um filho tentando justificar o injustificável, um amor que poderia ter sido e uma cidade pequena onde todo mundo parece saber da vida alheia antes mesmo de a própria pessoa descobrir. É desse material inflamável que Thiago Sobral constrói "O Pai, a Faca e o Beijo", romance de estreia publicado pela Editora Patuá, que será lançado neste sábado, dia 5 de setembro, às 16h00, na Casa das Culturas de Santos. Domingo, dia 6 de setembro, às 14h00, o lançamento será na Bienal Internacional do Livro, no Estande K45 da Editora Pauá.
Ambientado em Cubatão, no litoral de São Paulo, o livro acompanha Santiago e Davi, o Pirueta, em uma relação marcada por desejo, rejeição, violência e uma quantidade considerável de coisas que poderiam ter sido resolvidas com uma conversa. Ex-seminarista franciscano e professor de Língua Portuguesa, Thiago Sobral leva para a ficção questões ligadas à fé, à moral, à família e às contradições humanas. O resultado é um romance seco, provocador e pouco interessado em oferecer ao leitor aquela sobremesa reconfortante chamada redenção.
O próprio autor explica que escreveu a história a partir da ideia freudiana de “matar o pai”, explorada em "Totem e Tabu", relacionando a morte do patriarca à busca de liberdade de Santiago. Depois do crime, porém, o personagem percebe que eliminar o pai não significa necessariamente eliminar aquilo que o pai deixou dentro dele. O romance também nasceu de uma provocação que Sobral ouviu em uma conversa, em 2022, quando alguém afirmou que, para o Brasil “ir para frente”, seria preciso “matar o seu pai”. A frase ficou rondando a cabeça do escritor até virar literatura. Em 2025, depois de retomar o projeto, ele pesquisou casos reais de parricídio e conceitos da psicanálise para dar corpo à narrativa. A seguir, dez motivos para colocar "O Pai, a Faca e o Beijo" na lista de próximas leituras. Compre o livro "O Pai, a Faca e o Beijo", de Thiago Sobral, neste link.
1. Romance transforma o conflito entre pai e filho em uma guerra psicológica Santiago e Severo não travam apenas uma disputa doméstica. O relacionamento entre os dois concentra violência, medo, desejo de aceitação e uma tentativa desesperada de romper com aquilo que o personagem entende como origem de todos os seus problemas. O resultado é uma relação familiar em que cada gesto parece carregar uma conta antiga. Santiago acredita que matar o pai poderá libertá-lo.
2. Um protagonista difícil de defender Santiago está longe de ser um "mocinho de estimação". Negro e homossexual, ele carrega o peso do racismo e da homofobia, mas também reproduz contra si e contra os outros parte da violência que sofreu. É homossexual e homofóbico, racista e vítima do racismo, desejante e repressivo, amoroso e cruel. Essa coleção de contradições torna o personagem incômodo e difícil de digerir.
3. O livro pergunta se violência sofrida pode justificar violência cometida Severo acredita estar protegendo o filho. As agressões são apresentadas por ele como uma forma de educação e de prevenção contra sofrimentos futuros. A mãe relativiza. Os irmãos reproduzem comportamentos. Santiago absorve tudo e, depois, despeja parte dessa brutalidade sobre Davi. Thiago Sobral transforma a violência em uma engrenagem familiar. Quem bate acredita corrigir. Quem se omite acredita evitar problemas. Quem sofre pode acabar repetindo o comportamento que aprendeu. A pergunta fica para o leitor: compreender a origem de uma violência significa perdoá-la?
4. Freud explica e entra na história de maneira indireta A ideia de “matar o pai” percorre o romance como metáfora de libertação. Thiago Sobral, mesmo que de maneira indireta, mergulhou em "Totem e Tabu", de Sigmund Freud, para construir a relação de Santiago com o pai morto e explorar a ideia de ruptura com a figura paterna. O detalhe mais interessante está na falha dessa libertação. Santiago mata o pai, mas não consegue matar aquilo que carrega dentro de si. A faca resolve uma parte do problema. O restante continua andando pela casa. Como resolver essa situação?
5. Cubatão, que já foi a cidade mais poluída do mundo, deixa de ser cenário e ganha personalidade Localizada no litoral de São Paulo, Cubatão já foi considerada a cidade mais poluída do mundo pela ONU na década de 1980 e ficou conhecida como "Vale da Morte". Na geografia apertada entre a Serra do Mar, rios, mangues e a área industrial, a atmosfera da narrativa é construída. Thiago Sobral relaciona o espaço físico da cidade ao comportamento dos personagens e à sensação de sufocamento experimentada por Santiago. A própria indústria, com calor e fuligem, reforça essa atmosfera. Cubatão também aparece como território do julgamento. Em lugar pequeno, uma vida privada pode durar pouco tempo antes de virar assunto público.
6. A experiência religiosa do autor aparece sem virar catecismo Thiago Sobral foi seminarista franciscano, e essa formação inevitavelmente deixa marcas na literatura. O romance trabalha com religião, fé, culpa e moralidade, mas não oferece respostas religiosas mastigadas. O padre Jorge, por exemplo, surge como personagem capaz de apresentar outra possibilidade de relação com a fé, enquanto a instituição religiosa aparece cercada pelas próprias limitações. No contexto do livro, a literatura não substitui a religião, mas pode abrir caminhos e possibilidades para o leitor.
7. Desejo, liberdade e um amor possível, desde que disposto O personagem Davi, o Pirueta, funciona como contraponto ao protagonista. Ligado à dança, à poesia e à expressão artística, ele carrega uma relação diferente com o próprio corpo, com o desejo e com a liberdade. Enquanto Santiago se debate contra aquilo que sente, Davi parece encontrar na arte uma forma de existir. A relação entre os dois, por isso, ganha uma dimensão que ultrapassa o romance amoroso convencional. O beijo do título não é apenas um gesto de afeto. Ele também representa tudo aquilo que Santiago deseja e, ao mesmo tempo, rejeita.
8. Livro aposta na oralidade e na voz própria dos personagens Thiago Sobral afirma que buscou reproduzir a oralidade típica de famílias cubatenses formadas por migrantes nordestinos, incluindo referências à própria história familiar. Os diálogos carregam insinuações, ironias, desconfianças e lacunas. Essa escolha aproxima o romance da vida cotidiana e evita personagens que parecem ter saído de um manual de literatura e desembarcado diretamente na página.
9. Machado de Assis aparece como influência sem virar fantasia de imitador A ironia e a recusa de absolver os personagens aproximam o romance "O Pai, a Faca e o Beijo" da tradição machadiana. A referência está no prazer de observar seres humanos cometendo erros enquanto encontram excelentes justificativas para continuar cometendo os mesmos erros. O resultado é uma narrativa que desconfia das versões oficiais de todos aos fatos que vivem, inclusive daquela contada pelo próprio protagonista.
10. Romance se recusa a entregar a catarse que o leitor espera "O Pai, a Faca e o Beijo" cria expectativas de reconciliação, redenção e libertação, mas não oferece nenhuma garantia de que isso vá acontecer. Thiago Sobral afirma que a literatura depende da cumplicidade do leitor e afirma que uma mesma narrativa pode produzir histórias diferentes a cada leitura. Diferentes leitores podem querer salvar Santiago, condená-lo, compreendê-lo ou simplesmente mandar todo mundo para terapia, uma alternativa que, infelizmente, não parece estar disponível no universo do livro.
Serviço | Lançamento de "O Pai, a Faca e o Beijo", de Thiago Sobral Casa das Culturas de Santos Sábado, dia 5 de setembro, às 16h00 Rua Sete de Setembro, 49 - Vila Nova / Santos
Bienal Internacional do Livro de São Paulo Domingo, dia 6 de setembro, às 14h00 Estande K45 da Editora Pauá
Documentário de Josafá Veloso parte de uma entrevista realizada em 2012 para revisitar a obra, as ideias e as inquietações de um dos maiores cineastas brasileiros
Eduardo Coutinho tinha talento para conversar e uma alergia saudável à pose de gênio. Em determinado momento de “Banquete Coutinho”, resume a própria existência com a secura bem-humorada de quem dispensava monumentos: “Eu fumo e faço uns filmes”. A frase parece pequena diante de uma filmografia que modificou a maneira de registrar pessoas comuns no cinema brasileiro. Talvez seja esse o charme. Coutinho sabia que uma câmera, uma cadeira e alguém disposto a contar a própria história podiam produzir terremotos.
Dirigido e roteirizado porJosafá Veloso, “Banquete Coutinho” chega à plataforma de streaming da Reserva Imovision, depois de percorrer festivais brasileiros e internacionais. Realizado a partir de um encontro filmado com Coutinho em 2012, dois anos antes da morte do cineasta, o documentário usa aquela conversa como espinha dorsal para passear por sua obra e por algumas obsessões que o acompanharam durante décadas: vida, morte, trabalho, cinema, ética, religião, relações de poder e o curioso território criado entre quem pergunta e quem aceita ser filmado.
A provocação que move Veloso é boa: teria Eduardo Coutinho passado a carreira inteira realizando, de algum modo, o mesmo filme? A pergunta conduz um percurso que alcança títulos fundamentais como “Cabra Marcado para Morrer”, “Santo Forte”, “Babilônia 2000”, “Edifício Master”, “O Fim e o Princípio” e “Jogo de Cena”. A montagem de Eugenio Puppo e Gustavo Vasconcelos aproxima trechos dessas obras da entrevista de 2012 e permite perceber uma espécie de parentesco entre personagens, métodos e preocupações espalhados pela filmografia. A fotografia do novo material é de Ticão Okada, enquanto Veloso assina também a música.
O próprio Coutinho ocupa o centro da cena, posição curiosa para alguém que construiu boa parte da carreira olhando para os outros. A inversão rende sabor ao filme. O homem que perguntava passa a responder, embora continue escapando das certezas, desconfiando das teorias muito arrumadinhas e tratando o cinema com aquela mistura peculiar de rigor, humor e desencanto. Pela tela passam suas ideias sobre o ofício e fragmentos de uma trajetória que começou longe da imagem consagrada do mestre documentarista.
Antes de “Cabra Marcado para Morrer” se tornar um marco, Coutinho experimentou a ficção, trabalhou como roteirista, integrou o “Globo Repórter” e passou anos construindo uma linguagem documental baseada no encontro, no conflito e na singularidade de cada pessoa diante da câmera. “Cabra Marcado para Morrer”, iniciado como ficção em 1964 e interrompido após o golpe militar, seria retomado anos depois sob outra forma, misturando o material antigo ao reencontro com seus participantes. Lançado em 1984, recebeu, entre outros prêmios, o Fipresci no Festival de Berlim e tornou-se peça central de sua carreira.
Veloso ainda recupera uma curiosidade quase arqueológica: “Le Téléphone”, curta de 1959 realizado por Coutinho durante seus estudos no Institut des Hautes Études Cinématographiques, o IDHEC, na França. Esse retorno às primeiras experiências ajuda a desmontar a impressão de que o cineasta nasceu pronto, barba branca, cigarro na mão e perguntas afiadas. Houve ficção, televisão, roteiros para outros diretores, tropeços, mudanças de rota e muito trabalho antes da fase que consolidaria títulos como “Santo Forte”, “Edifício Master” e “Jogo de Cena”.
“Banquete Coutinho” foi o primeiro filme dirigido por Josafá Veloso, historiador formado pela USP, mestre pela Universidade Federal Fluminense e com estudos de documentário na Escuela Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños, em Cuba. A estreia ocorreu em 2019, na abertura da oitava edição do Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba. Depois, o documentário passou pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Festival do Rio, Doclisboa, Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano, CineOP, Cinecipó e forumdoc.bh, entre outros eventos.
A força da proposta aparece quando Coutinho simplesmente fala. A ironia seca, a inteligência quase impaciente e a capacidade de desmontar solenidades continuam vivas na gravação. Veloso dispõe esse material ao lado dos filmes e deixa que uma obra converse com outra. O resultado também sugere algo delicioso: talvez a pergunta sobre Coutinho ter realizado repetidamente “o mesmo filme” diga bastante sobre a coerência de um artista que passou décadas interessado no ser humano quando ele deixa de caber no estereótipo. O título “Banquete Coutinho” cai bem. Há muita coisa na mesa: memória, política, ética, religião, fracasso, vaidade, morte, trabalho e cinema. No centro dela está um sujeito que preferia conversar com gente a fabricar estátuas de si próprio. Para alguém que dizia fumar e fazer uns filmes, Eduardo Coutinho deixou uma tremenda quantidade de assunto.
Ficha técnica “Banquete Coutinho” (título original) | “A Treat of Coutinho” (título internacional) Gênero: documentário. Duração: 74 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2019. Data de lançamento: 5 de junho de 2019, no Brasil. Idioma: português. Direção e roteiro: Josafá Veloso. Elenco: Eduardo Coutinho. Produção: Eugenio Puppo. Direção de fotografia: Ticão Okada. Montagem: Eugenio Puppo e Gustavo Vasconcelos. Música: Josafá Veloso. Produção: Heco Produções. Cenas pós-créditos: não.Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.
Assine a Reserva Imovision, a maior plataforma de filmes independentes da América Latina A equipe do portal Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streamingReserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. Você pode assinar a plataforma de streaming Reserva Imovision neste link.
Filme de Sophie Letourneur, destaque do Festival do Rio, acompanha viagem de uma família francesa pela Sardenha e chega ao Brasil pelo Belas Artes à La Carte
Destaque na programação do Festival do Rio 2025, "Aventura de Férias" chega ao Brasil pelo streaming Belas Artes À La Carte com uma proposta que parece simples até a família colocar o pé na estrada: passar as férias de verão na Sardenha. O problema é que férias em família raramente obedecem ao roteiro imaginado antes de fechar as malas. Dirigido por Sophie Letourneur, o filme acompanha Claudine, uma menina que está prestes a completar 11 anos e decide registrar as histórias da viagem enquanto percorre a ilha italiana de carro com a mãe, Sophie, o padrasto, Jean-Philippe, e o irmão caçula, Raoul, de três anos. Entre passeios, refeições, pequenas descobertas, discussões e as inevitáveis trapalhadas provocadas por uma criança que parece ter energia para abastecer uma cidade inteira, a viagem vai ganhando contornos muito menos turísticos.
Selecionado para a mostra Panorama Mundial do Festival do Rio, "Aventura de Férias" chamou atenção pela maneira como transforma o cotidiano familiar em matéria cinematográfica. O filme acompanha situações aparentemente banais e encontra nelas humor, desconforto, ternura e uma certa melancolia. A proposta está longe da comédia familiar convencional, aquela em que cada confusão precisa desembocar em uma lição edificante antes dos créditos finais. Nesse filme, a família pode discutir, perder a paciência, rir, irritar e continuar junta. Como acontece na vida real, para desespero de quem esperava uma viagem perfeitamente organizada.
A estrutura do filme tem uma particularidade saborosa: as conversas familiares são fundamentais para a construção da narrativa. Letourneur utiliza gravações realizadas durante viagens feitas em 2016 como matéria-prima para o projeto. Segundo informações divulgadas sobre a produção, ela registrou aquelas conversas sem saber exatamente, naquele momento, qual seria o destino do material. Anos depois, as gravações passaram a alimentar a escrita do filme.
O resultado cria uma curiosa mistura de ficção e experiência pessoal. As falas carregam uma naturalidade desconcertante, enquanto a encenação organiza aquilo que poderia parecer apenas um amontoado de lembranças de férias. A própria diretora já havia trabalhado com procedimento semelhante em "Voyages en Italie", de 2023, primeiro filme de uma trilogia dedicada aos relacionamentos e às viagens pela Itália. "A Aventura" é o segundo capítulo desse projeto.
E o título não é por acaso. "Aventura de Férias" faz uma referência direta a "L'Avventura", clássico de Michelangelo Antonioni lançado em 1960. A brincadeira já havia aparecido no filme anterior de Letourneur, "Voyages en Italie", uma alusão evidente a "Viagem à Itália", de Roberto Rossellini. O cinema italiano, portanto, está no retrovisor, embora a família de Letourneur esteja ocupada demais tentando sobreviver às férias para prestar muita atenção à cinefilia.
A comparação com Antonioni, porém, serve mais como provocação cinéfila do que como indicação de que os filmes tenham propostas semelhantes. O clássico de 1960 é uma obra fundamental do cinema moderno, enquanto a produção de Letourneur mergulha no cotidiano, nas relações familiares e na memória. A ligação está principalmente no título e no desejo de transformar uma viagem em uma experiência de observação.
"Aventura de Férias" também carrega uma trajetória internacional respeitável. O filme abriu a programação da ACID no Festival de Cannes 2025, uma das importantes seções paralelas dedicadas ao cinema independente. Depois, passou por outros festivais, entre eles o Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. A imprensa francesa destacou a combinação entre humor, intimidade e situações corriqueiras. O jornal "Le Monde" chamou atenção para a maneira como Letourneur transforma episódios triviais - refeições, passeios, praias, caprichos infantis e pequenas tensões - em material para refletir sobre a passagem do tempo e as transformações dentro de uma família.
Claudine observa tudo com a curiosidade de quem ainda está descobrindo os adultos e suas contradições. Ao registrar as conversas da família, ela transforma a viagem em memória antes mesmo de ela terminar. É como se a menina soubesse que aquelas pequenas confusões, que naquele momento parecem intermináveis, um dia serão as histórias que todos vão querer lembrar.
Com humor agridoce, uma dose generosa de desconforto e um olhar bastante particular para a vida cotidiana, Sophie Letourneur faz de "Aventura de Férias" uma viagem que interessa menos pelo destino turístico do que pelas pessoas dentro do carro. A Sardenha está lá, bonita como cartão-postal. A família, felizmente, trata de estragar um pouco a fotografia.
Ficha técnica
"Aventura de Férias" | "L'Aventura" (título original)
Gênero: comédia dramática. Duração: 1h40min. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 2 de julho de 2025, na França; 2 de julho de 2026, em Portugal. Idioma: francês. Direção: Sophie Letourneur. Roteiro: Sophie Letourneur e Laetitia Goffi. Elenco: Sophie Letourneur, Philippe Katerine, Bérénice Vernet e Esteban Melero. Fotografia: Jonathan Ricquebourg. Montagem: Sophie Letourneur. Música: Laure Arto e Carole Verner. Produção: Sophie Letourneur, Tristan Vaslot, Thomas Verhaeghe e Mathieu Verhaeghe. Produtoras: Tourne Films, Atelier de Production e Sacré Vendredi Productions. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
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Documentário de Chris Marker acompanha Akira Kurosawa durante a realização de “Ran” e revela o método obsessivo, a escala monumental e os bastidores de uma das produções mais ambiciosas da carreira do cineasta japonês; filme estreia no Belas Artes À La Carte
“Ran” significa “caos”, e o título de um filme nunca pareceu tão apropriado. Em 1985, enquanto Akira Kurosawa colocava em movimento uma das produções mais ambiciosas da carreira dele, Chris Marker estava por perto, observando. O resultado desse encontro é “A.K. Akira Kurosawa - Os Segredos de 'Ran'”, documentário francês que acompanha o cineasta japonês durante as filmagens de “Ran” e está no catálogo do streaming Belas Artes À La Carte, juntamente ao clássico dirigido por Kurosawa. A programação foi anunciada pelo Belas Artes como uma celebração especial da obra do diretor.
Marker, autor de filmes como “La Jetée” e “Sans Soleil”, não transforma o registro em um making of convencional, daqueles que explicam cada departamento da produção como se o espectador estivesse diante de um manual de instruções. O interesse está no homem que dirige, espera, observa, corrige e decide. O Festival de Cannes selecionou “A.K.” para a mostra Un Certain Regard em 1985, ano em que o documentário chegou ao festival.
O documentário acompanha Kurosawa no trabalho de construção de “Ran”, adaptação da tragédia "Rei Lear", de William Shakespeare,, transposta para o Japão feudal. O senhor feudal Hidetora decide dividir seus domínios entre os três filhos, Taro, Jiro e Saburo. Parece uma boa ideia até o momento em que os herdeiros percebem que dividir um reino é muito menos interessante do que tomar posse dele inteiro. É aí que a tragédia começa a ganhar espadas, cavalos, castelos, incêndios e uma quantidade considerável de problemas familiares. Kurosawa substitui as três filhas de Lear pelos três filhos de Hidetora e constrói uma narrativa em que poder, velhice, orgulho e violência se misturam em proporções pouco saudáveis.
“A.K.” observa esse processo de perto. Marker registra Kurosawa, a equipe do filme e os gigantescos preparativos de “Ran” sem transformar o diretor em uma espécie de celebridade entrevistada diante de uma câmera. A atenção recai sobre os gestos, as esperas, os ensaios, os deslocamentos dos figurantes e a maneira como o cineasta organiza uma produção de dimensões extraordinárias. O catálogo do Yamagata International Documentary Film Festival descreve o filme como um registro dos pequenos comportamentos de Kurosawa e da equipe dele, construído de maneira diferente de um making of convencional.
Kurosawa tinha 75 anos quando dirigiu “Ran” e já enfrentava sérios problemas de visão. Durante aproximadamente uma década, preparou o filme por meio de desenhos e storyboards, muitos deles pintados pelo próprio diretor. O material servia como referência para a equipe, que precisava compreender com precisão os enquadramentos, as cores, a posição dos personagens e os movimentos das cenas. A pesquisa reunida no arquivo confirma que os desenhos foram fundamentais para a preparação das filmagens. O documentário mostra essa obsessão em funcionamento.
Kurosawa podia passar horas esperando a combinação certa de luz, vento ou nuvens. Uma produção que reunia centenas de figurantes e cavalos dependia de uma logística quase militar, enquanto o diretor continuava perseguindo a imagem que tinha imaginado anos antes. O próprio material de pesquisa destaca o modo como Marker registra essas esperas e até uma cena preparada durante um dia inteiro que acabou descartada pelo diretor na montagem.
A dimensão de “Ran” ajuda a entender o tamanho da empreitada. O filme utilizou cerca de 1.400 figurantes e 200 cavalos, e o castelo destruído em uma das sequências mais famosas foi construído especialmente para a produção. A cena do incêndio não nasceu de uma maquete: Kurosawa mandou construir a fortaleza e colocou fogo nela para registrar a destruição. O resultado está entre as imagens mais impressionantes da filmografia do diretor.
O cuidado visual também aparece nos figurinos. Centenas de peças foram confeccionadas manualmente durante cerca de dois anos, trabalho que rendeu a Emi Wada o Oscar de Melhor Figurino em 1986. “Ran” recebeu ainda indicações ao Oscar de Melhor Diretor, Direção de Arte e Fotografia. As cores dos exércitos funcionam quase como personagens dentro da composição de Kurosawa. Amarelo, vermelho e azul ajudam o espectador a identificar as facções e remetem à tradição visual do teatro Nô. O cuidado cromático transforma as batalhas em grandes pinturas em movimento, mas a beleza nunca consegue esconder o desastre humano que acontece dentro delas.
Marker também encontra espaço para observar a relação entre o diretor e aquilo que está ao seu redor. “A.K.” não pretende explicar Kurosawa de maneira definitiva. O espectador percebe um cineasta meticuloso, econômico nas palavras e capaz de coordenar uma máquina gigantesca sem perder de vista a imagem que carrega na cabeça. A produção de “Ran” ainda foi marcada por uma tragédia pessoal. Yōko Yaguchi, esposa de Kurosawa por 39 anos, morreu durante as filmagens. Segundo o material reunido sobre o documentário, o diretor interrompeu a produção por apenas 24 horas e voltou ao trabalho no dia seguinte.
A escolha de Marker para registrar esse momento não poderia ser mais adequada. O cineasta francês também tinha uma relação muito particular com o documentário, trabalhando frequentemente na fronteira entre observação, ensaio e reflexão sobre a própria natureza da imagem. Em “A.K.”, ele encontra um personagem perfeito para esse método: um diretor que pensa cinema até quando parece simplesmente esperar.
A chegada ao Belas Artes À La Carte cria uma oportunidade particularmente boa para assistir aos dois filmes em sequência. Primeiro, “A.K.” mostra a engrenagem. Depois, “Ran” entrega o resultado dessa obsessão em forma de tragédia. É quase como acompanhar a construção de um castelo sabendo, desde o começo, que alguém vai colocar fogo nele.
Ficha técnica
“A.K. Akira Kurosawa – Os Segredos de 'Ran'” | “A.K.” (título original) | “A.K. (Akira Kurosawa)” (título em Portugal)
Gênero: documentário, história, biografia. Duração: 75 minutos. Classificação indicativa: livre. Ano de produção: 1985. Data de lançamento: 20 de maio de 1985, na França. Idioma: francês e japonês. Direção e roteiro: Chris Marker. Fotografia: Frans-Yves Marescot. Música: Tōru Takemitsu. Elenco: Akira Kurosawa, Tatsuya Nakadai, Ishirō Honda, entre outros. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
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Clássico de Akira Kurosawa transforma a tragédia de Shakespeare em um monumental drama de guerra sobre ambição, vingança e a ruína de uma família; filme chega ao Belas Artes À La Carte
Dividir um império entre três filhos parecia, para o senhor feudal Hidetora Ichimonji, uma maneira razoavelmente sensata de garantir a continuidade de seu legado. O problema é que ele se esqueceu de um detalhe bastante inconveniente: filhos também podem querer o trono inteiro. É desse pequeno erro de cálculo que Akira Kurosawaergue "Ran", um dos filmes mais grandiosos, ferozes e visualmente impressionantes da carreira dele, que chega ao streaming pela plataforma Belas Artes À La Carte.
Lançado em 1985, o filme japonês transforma "Rei Lear", de William Shakespeare, em uma tragédia ambientada no Japão feudal. Hidetora, interpretado por Tatsuya Nakadai, decide abandonar o comando de seus domínios e distribuir o poder entre Taro, Jiro e Saburo. O caçula, único dos três disposto a dizer ao pai aquilo que ele não quer ouvir, acaba banido. A partir daí, a promessa de união familiar se dissolve em traições, vinganças, mortes e batalhas.
O título "Ran" significa "caos", e Kurosawa leva a palavra a sério. A estrutura de Shakespeare permanece reconhecível, mas o diretor incorpora elementos da história japonesa, das lendas feudais e do teatro Nô para criar uma obra com identidade própria. A adaptação também troca as filhas de Lear pelos três filhos de Hidetora, deslocando a tragédia para uma sociedade marcada pela guerra, pela hierarquia e pela disputa territorial. A própria parábola das três flechas, associada ao senhor feudal Mori Motonari, serve como uma espécie de manual de família que ninguém no filme parece ter lido até o fim.
Kurosawa passou cerca de uma década preparando "Ran". Aos 75 anos, já com a visão bastante comprometida, desenhou centenas de pinturas e storyboards para planejar as cenas. O trabalho não era mero capricho de artista: as imagens serviram como mapas detalhados para a equipe durante a produção. O material revela a precisão com que o cineasta pensava cada enquadramento, cada deslocamento dos personagens e cada composição visual.
A produção também nasceu em escala gigantesca. O Festival de Cannes registra que a primeira versão imaginada por Kurosawa chegava a três horas e meia e acabou reduzida para cerca de duas horas e meia. O custo ficou em aproximadamente US$ 11 milhões, fazendo de "Ran" o trabalho mais caro da carreira do diretor. Centenas de figurinos foram produzidos especialmente para o filme, muitos deles durante anos de preparação.
O resultado é um filme em que a guerra raramente aparece como espetáculo glorioso. Kurosawa observa os exércitos à distância, deixa os corpos e as bandeiras ocuparem a paisagem e, em uma das sequências mais célebres, retira praticamente todos os efeitos sonoros da batalha para deixar a música de Tōru Takemitsu conduzir o horror. A estratégia torna a violência ainda mais desconfortável: os homens correm, os cavalos tombam, os castelos queimam e a música continua, como se o mundo tivesse decidido assistir à própria destruição.
Roger Ebert percebeu justamente essa força ao escrever sobre o filme em 1985. Para o crítico americano, a idade de Kurosawa parecia dialogar diretamente com a experiência de Hidetora, um homem que passou a vida acumulando poder e chega à velhice acreditando que ainda pode determinar o destino dos outros. Ebert também chamou atenção para os dez anos de preparação e para a dimensão excepcional da produção.
Anos depois, ao revisitar "Ran", Ebert foi ainda mais longe e relacionou o filme à própria trajetória de Kurosawa. Para ele, o cineasta havia colocado na história questões sobre envelhecimento, poder, decadência e a dificuldade de um homem que passou a vida inteira construindo algo perceber que já não consegue controlar o que virá depois. É uma leitura especialmente interessante porque Kurosawa tinha 75 anos quando dirigiu o filme, exatamente a idade de Hidetora.
Tatsuya Nakadai sustenta o centro dessa ruína com uma atuação marcada pela contenção. Seu Hidetora começa como um senhor poderoso, cercado por homens, cavalos e bandeiras, e termina vagando por uma paisagem devastada, desorientado diante das consequências de suas próprias decisões. Ao redor dele, Akira Terao e Jinpachi Nezu interpretam os filhos Taro e Jiro, enquanto Daisuke Ryū vive Saburo, o filho que paga caro por dizer a verdade.
Mieko Harada também merece atenção como Lady Kaede, uma das personagens mais perigosas da história. Movida pela vingança contra Hidetora e sua família, ela manipula os homens ao seu redor com uma frieza que transforma cada gesto em ameaça. A personagem acrescenta uma camada de crueldade particular à história e faz da disputa pelo poder um jogo ainda mais venenoso.
Visualmente, "Ran" permanece assombroso. Kurosawa utiliza grandes planos, paisagens abertas, cores cuidadosamente associadas aos diferentes exércitos e uma arquitetura monumental para transformar o Japão feudal em uma espécie de palco de proporções gigantescas. O diretor, que começou a carreira artística como pintor, compôs os enquadramentos com o rigor de quem sabia exatamente onde queria colocar cada figura.
O cuidado com os figurinos rendeu a Emi Wada o Oscar de Melhor Figurino em 1986. O filme ainda recebeu indicações ao Oscar de direção, fotografia e direção de arte. No BAFTA, conquistou os prêmios de Melhor Filme em Língua Estrangeira e Maquiagem. A produção também foi reconhecida por diversas associações de críticos nos Estados Unidos.
Em "Ran", Kurosawa não tenta suavizar Shakespeare. Pelo contrário: ele deixa a tragédia ganhar espadas, cavalos, canhões, castelos em chamas e uma quantidade pouco recomendável de problemas familiares. O resultado é uma obra monumental sobre um homem que acredita poder administrar o futuro depois de entregar o presente aos próprios filhos. A ironia é cruel. Hidetora passou décadas conquistando terras e destruindo adversários para construir um reino. Quando finalmente decide descansar, descobre que o poder tem memória curta e que seus herdeiros aprenderam muito bem as lições do pai.
A entrada do clássico na Belas Artes À La Carte acompanha a disponibilização de "Os segredos de Ran", documentário de Chris Marker que registra Kurosawa durante a preparação de sua produção mais ambiciosa. Quarenta e um anos depois de sua estreia, "Ran" continua sendo uma experiência cinematográfica de escala rara. A família pode até começar reunida em torno de uma boa intenção. O problema é quando alguém decide repartir o reino. A partir daí, Shakespeare já avisava: a conta costuma chegar.
Ficha técnica
"Ran" | "Ran" (título original) | "Ran - Os Senhores da Guerra" (título em Portugal). Gênero: drama, guerra e épico. Duração: 162 minutos. Classificação indicativa: 16 anos no Brasil. Ano de produção: 1985. Data de lançamento: 1º de junho de 1985. Idioma: japonês. Direção: Akira Kurosawa. Roteiro: Akira Kurosawa, Hideo Oguni e Masato Ide. Elenco: Tatsuya Nakadai, Akira Terao, Jinpachi Nezu, Daisuke Ryū, Mieko Harada, Yoshiko Miyazaki, Hisashi Igawa, Shinnosuke Ikehata, Masayuki Yui, Kazuo Katō, Hitoshi Ueki e Mansai Nomura. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
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Clássico de Henry Hathaway coloca Marilyn Monroe no centro de uma trama de desejo, adultério e assassinato e chega ao catálogo da plataforma Belas Artes À La Carte
Antes de se tornar uma das maiores estrelas de Hollywood, Marilyn Monroe precisou provar muito que poderia sustentar personagens além da imagem de loira sedutora que o cinema começava a construir para ela. Em “Torrentes de Paixão”, produção de 1953 dirigida por Henry Hathaway, a atriz encontrou uma oportunidade decisiva: Rose Loomis, uma mulher ardilosa que planeja assassinar o marido, George, vivido por Joseph Cotten, com a ajuda do amante. A produção chega ao streaming pela plataforma Belas Artes À La Carte, ampliando a circulação de um clássico que já percorreu festivais e recebeu reconhecimento internacional e, além disso, é um dos trabalhos fundamentais da fase inicial da carreira da loira.
O filme acompanha dois casais hospedados nas proximidades das Cataratas do Niágara. Rose e George vivem um casamento em ruínas, enquanto Polly e Ray Cutler, interpretados por Jean Peters e Max Showalter, estão em uma lua de mel tardia. O encontro entre os quatro transforma uma viagem aparentemente tranquila em uma história de ciúme, traição e morte. O roteiro de Charles Brackett, Richard L. Breen e Walter Reisch surgiu de uma ideia do produtor Charles Brackett, que queria uma produção ambientada nas Cataratas do Niágara. Reisch propôs transformar o cenário turístico associado a casais em lua de mel em palco para um mistério de assassinato. A escolha deu ao filme uma combinação pouco habitual de romance, suspense e film noir.
As Cataratas são tratadas como presença constante na história do filme. Henry Hathaway aproveita passarelas, túneis, torres, barcos e os próprios pontos turísticos da região para construir situações de perigo. A fotografia de Joe MacDonald também contribuiu para o caráter particular da produção. Em vez do preto e branco associado ao imaginário clássico do noir, “Torrentes de Paixão” aposta no Technicolor, explorando cores fortes, sombras e contrastes. O resultado aproxima a exuberância turística das cataratas da atmosfera de ameaça que domina o casamento dos Loomis.
Marilyn recebeu o maior destaque nos créditos de “Niagara”, decisão que ajudou a consolidar o status dela como estrela. Segundo a TCM, o papel de Rose Loomis foi ampliado depois que os executivos da Fox perceberam o potencial da atriz, transformando o que seria uma simples participação em uma personagem central. O filme também marcou a estreia dela como protagonista em uma produção colorida. Depois de renegociar o contrato com o estúdio, Monroe passou a exigir que seus filmes fossem realizados em cores.
Jean Peters chegou ao elenco depois da saída de Anne Baxter, inicialmente escolhida para viver Polly Cutler. A personagem de Peters havia sido concebida como uma das figuras centrais da história, mas a ascensão de Monroe fez com que “Torrentes de Paixão” se tornasse um veículo para a nova estrela da 20th Century-Fox. Joseph Cotten interpreta George, marido atormentado, ciumento e emocionalmente instável de Rose. A combinação entre a fragilidade do personagem e a frieza calculada da mulher produz o núcleo mais sombrio da trama. O próprio Hathaway teria preferido James Mason para o papel, mas o ator recusou a participação.
Entre as imagens mais conhecidas está a sequência em que Rose aparece com um vestido rosa e canta “Kiss”, música composta por Lionel Newman, com letra de Haven Gillespie, ambos sem crédito no filme, e interpretada por Monroe. A canção retorna como elemento narrativo na trama do assassinato planejado por Rose e seu amante. A produção também deixou uma marca fora do cinema. Uma fotografia promocional de Marilyn feita para “Niagara” serviu de base, quase uma década depois, para “Marilyn Diptych”, de Andy Warhol, uma das obras mais conhecidas do artista.
Com Marilyn Monroe no primeiro grande momento de protagonismo no cinema, Joseph Cotten como o marido consumido pelo ciúme e Jean Peters como a recém-casada que acaba envolvida na trama, “Torrentes de Paixão” permanece como um capítulo importante da transformação de Monroe em estrela. No fim das contas, é uma história de assassinato filmada diante de uma das paisagens naturais mais famosas do mundo... contada de maneira bastante atrativa.
Ficha técnica
“Torrentes de Paixão” | “Niagara” (título original)
Gênero: drama, suspense, filme noir. Duração: 1h32min. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 1953. Data de lançamento: fevereiro de 1953, nos Estados Unidos. Idioma: inglês. Direção: Henry Hathaway. Roteiro: Charles Brackett, Walter Reisch e Richard L. Breen. Elenco: Marilyn Monroe, Joseph Cotten, Jean Peters, Max Showalter, Denis O'Dea, Richard Allan, Don Wilson, Lurene Tuttle, Russell Collins e Will Wright. Distribuição no Brasil: 20th Century Fox. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
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Documentário de Massimiliano Camaiti acompanha a rotina das beneditinas do Mosteiro de Santa Cecília e a produção do pálio destinado ao papa; filme estreia no Brasil na plataforma Belas Artes À La Carte
Sim, “Agnus Dei” é todo “lindo”, para usar o adjetivo mais recorrente a este tipo de filme. O documentário de Massimiliano Camaiti observa, com olhar atento e paciente, uma tradição secular preservada pelas freiras beneditinas do Mosteiro de Santa Cecília, em Trastevere, no coração de Roma. Depois da passagem pela 8½ Festa do Cinema Italiano no Brasil, o documentário chega ao streamingBelas Artes À La Carte, ampliando a circulação de uma produção que já percorreu festivais e recebeu reconhecimento internacional.
Durante 73 minutos, a câmera acompanha dois cordeiros recém-nascidos que chegam ao convento e a rotina das religiosas responsáveis por cuidar deles até a tosquia, quando a lã será transformada em parte do pálio, vestimenta litúrgica destinada ao papa e aos arcebispos metropolitanos. A delicadeza das imagens, porém, não elimina uma questão incômoda. Tudo parece muito belamente fotografado e relaxante... se você não for um cordeiro.
Camaiti, que assina direção e roteiro, descobriu a tradição por acaso, ao passar diante da Basílica de Santa Cecília e encontrar dois cordeiros enfeitados com flores durante a cerimônia de bênção. A cena despertou sua curiosidade e acabou dando origem ao filme. Na primeira parte, “Agnus Dei” coloca o espectador diante de uma imagem difícil de ignorar: um filhote recém-nascido é separado da mãe e levado, junto de outro cordeiro, para o mosteiro. O balido da mãe, diante da separação, estabelece uma tensão que permanece ao longo da produção. Os dois pequenos animais chegam ao convento e passam a receber os cuidados de irmã Vincenza, que os alimenta com mamadeira, acompanha seu crescimento e os incorpora à rotina das monjas.
Os cordeiros são tratados com carinho, recebem cuidados veterinários e convivem com as religiosas, mas a finalidade de todo esse processo permanece evidente. A lã será utilizada na confecção do pálio. A pergunta sobre o sentido dessa tradição, portanto, fica para o espectador. Para quem enxerga a relação entre humanos e animais a partir de uma perspectiva vegana, “Agnus Dei” certamente pode provocar uma reação bastante diferente daquela sugerida pela beleza das imagens.
O pálio é uma faixa de lã branca ornamentada com cruzes negras que simboliza a relação entre o papa e os arcebispos metropolitanos. Segundo a tradição, os dois cordeiros são abençoados em janeiro, no período da festa de Santa Inês, e depois entregues às monjas de Santa Cecília. Após a tosquia, sua lã é utilizada na produção dos paramentos. Os animais são imobilizados, a lã é retirada e o filme encerra o ciclo sem explicar o destino posterior dos cordeiros. A tradição é associada a Roma desde a Antiguidade cristã e segue vinculada à solenidade dos santos Pedro e Paulo, em 29 de junho.
Camaiti evita entrevistas explicativas e narração em off. A opção é observar. O formato 4:3, os enquadramentos fixos e a fotografia de Ilya Sapeha contribuem para uma experiência visual que privilegia os espaços do mosteiro, os gestos das religiosas, os animais e a passagem das estações. O resultado chamou atenção no circuito de festivais. “Agnus Dei” foi apresentado na 82ª Mostra Internacional de Arte Cinematográfica de Veneza, dentro da seção Biennale College Cinema. Depois, recebeu o Prêmio Michel Mitrani de descoberta no FIPADOC, em Biarritz.
A produção também ganhou uma camada histórica inesperada durante as filmagens. Em 2025, enquanto o ritual era acompanhado por Camaiti, o papa Francisco adoeceu e morreu em abril daquele ano. A notícia chega ao mosteiro e interrompe por algumas horas a rotina das religiosas. Depois, a vida cotidiana retoma seu curso. A ocorrência transforma o filme em um registro involuntário de um momento específico da Igreja Católica e da transição entre dois pontificados.
Ficha técnica
“Agnus Dei” (título original) Gênero: documentário. Duração: 73 minutos. Classificação indicativa: 10 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 31 de agosto de 2025, na Itália. Idioma: italiano. Direção: Massimiliano Camaiti. Roteiro: Massimiliano Camaiti. Elenco: freiras beneditinas do Mosteiro de Santa Cecília em Trastevere. Distribuição no Brasil: Pandora Filmes. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
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