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domingo, 31 de maio de 2026

.: Milla Fernandez desconstrói a própria experiência para questionar limites


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.comFoto: divulgação

Era época da pandemia da covid-19 e pouco antes de o mundo recolher as certezas em salas trancadas e telas acesas, Milla Fernandez descobriu que a sobrevivência material exigia dela uma coreografia inédita. O sustento de uma estrutura familiar inteira dependeu, por meses, do avanço de moedas virtuais em salas de transmissão erótica. 

Sem o verniz da condescendência ou o drama da autocomiseração, estavam postos o corpo, o dinheiro, a webcam e o cansaço de uma jovem atriz que, farta de esperar por testes para novos trabalhos, resolveu precificar os próprios limites diante de estranhos. Do fundo do poço sanitário que a crise de 2020 cavou na cultura, ela emergiu com o texto de "TIP (Antes Que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo"), monólogo que tem neste domingo , dia 31 de maio, a última apresentação em São Paulo, no Teatro YouTube, após uma passagem incômoda e premiada pelos palcos cariocas. 

Sob a direção precisa e rigorosa de Rodrigo Portella - que limpa a cena de fetiches óbvios para deixar apenas os tapetes vermelhos do sucesso e a crueza da caixa cênica - a atriz faz uma devassa sobre o quanto a sociedade da imagem cobra para manter de pé as ilusões diárias e as perdidas. 


Resenhando.com - No espetáculo "TIP", o gesto de "se atirar no fogo" parece uma estratégia: até que ponto essa exposição radical é controle, e não descontrole, da própria narrativa?
Milla Fernandez - Essa peça nasce de um segredo que pensei que guardaria a vida toda. Contá-lo com as minhas próprias palavras ainda é uma tentativa de controle, mas de outra natureza. Antes eu achava que controlar era prever o resultado e qualquer erro de cálculo era considerado um fracasso. Hoje, “me atirar no fogo” é aceitar que não posso adivinhar a reação das pessoas, só posso decidir não me paralisar diante dela. Ainda existe uma tentativa de controle nisso, mas menos como defesa e mais como a necessidade de colocar no mundo uma versão de mim que não caiba só no olhar do outro. Talvez, daqui a cinco anos, eu mesma mude de ideia sobre a versão que contei. E, estranhamente, aceitar essa instabilidade me libertou mais do que qualquer certeza.


Resenhando.com - Você transforma a lógica da gorjeta ("tip", em inglês) em dramaturgia. O aplauso, no teatro, também pode ser lido como uma moeda? 
Milla Fernandez - Eu não vejo exatamente o aplauso como moeda. Ele pertence a um campo muito mais contraditório: pode ser um encontro genuíno com a obra ou apenas um reflexo social quase automático. A pergunta que fica pra mim é: por que algumas trocas são legitimadas e outras são imediatamente moralizadas? Quem decide o que é nobre e o que é degradante?


Resenhando.com - O que muda quando o desejo do público deixa de ser simbólico e passa a ser literalmente pago?
Milla Fernandez - A experiência de camgirl me fez perceber que desejo, projeção, validação e fantasia existem em muitos tipos de relação entre público e performer, inclusive no teatro. Não da mesma maneira, obviamente. Mas também não tão separados quanto gostamos de imaginar. O dinheiro não cria a objetificação, às vezes ele só impede que certas idealizações permaneçam intactas. E talvez o desconforto venha menos da transação em si e mais do fim da fantasia.


Resenhando.com - Há um momento em que a atriz diz ter aprendido a "respirar debaixo d'água". Esse aprendizado vem antes ou depois de aceitar que talvez não exista superfície para voltar?
Milla Fernandez - Sempre existiu superfície. Acho que o que mudou foi eu parar de acreditar que a superfície era o destino. Por muito tempo, "respirar debaixo d'água" era uma habilidade emergencial, algo que eu fazia enquanto esperava voltar ao normal. Mas fui percebendo que atrofiei minha criatividade tentando me encaixar num molde que nem eu mesma havia escolhido conscientemente, o molde da carreira correta, da progressão esperada, da atriz que espera ser escolhida. O aprendizado de respirar lá embaixo veio quando parei de tratar a submersão como acidente e comecei a tratá-la como território. A superfície não desapareceu, eu é que deixei de precisar dela para existir.


Resenhando.com - Seu trabalho tensiona a fronteira entre autonomia e exploração. Existe um ponto em que essa distinção deixa de fazer sentido, ou ela precisa existir para que a obra se sustente?
Milla Fernandez - Essa tensão precisa existir, não só para que a obra se sustente, mas porque ela é real. Se eu dissesse que fui "livre", estaria mentindo. Se dissesse que fui "explorada", estaria simplificando. A verdade é que as duas coisas habitam o mesmo gesto. O que "TIP" tenta fazer não é resolver essa contradição, é recusar-se a dissolvê-la ou ignorá-la por conforto. Talvez autonomia seja isso: saber que estamos dentro da armadilha e ainda assim tentar decidir como atravessá-la. Acredito que parar de se perguntar é o começo de qualquer forma de violência.


Resenhando.com - O espetáculo parece desmontar a ideia de vocação artística como destino. Depois de tudo, ainda faz sentido falar em "amor à arte" ou as pessoas estão sempre falando, no fundo, de sobrevivência?
Milla Fernandez - Falar em amor à arte sem falar em sobrevivência é um privilégio que muita gente não tem e que o mercado usa para manter artistas em condição de gratidão permanente. “Amor à arte” é uma frase linda, mas muitas vezes usada para romantizar precariedade. Eu ainda acredito no amor, mas desconfio quando ele é exigido como prova de resistência. No fundo, arte e sobrevivência estão muito misturadas. Às vezes a gente cria porque ama; às vezes porque precisa; às vezes porque não sabe mais existir sem transformar a dor em alguma coisa.


Resenhando.com - Em cena, você revisita experiências potencialmente traumáticas com humor ácido. O riso é um mecanismo de defesa, de ataque ou de sedução para o público?
Milla Fernandez - O riso é tudo isso. Defesa, ataque e sedução. Ele protege porque cria distância da ferida, ataca porque desmonta o lugar da vitimização e seduz porque aproxima o público antes de empurrá-lo para um lugar desconfortável. Quando a plateia ri de uma situação constrangedora, ela se surpreende ao se perceber cúmplice. É aí que o espetáculo acontece de verdade, nesse instante em que o riso revela mais do espectador do que da personagem.


Resenhando.com - Ao trazer a família para dentro da narrativa - ainda que ficcionalizada - você desloca o eixo da exposição: o que é mais arriscado, falar de sexo ou falar de afeto?
Milla Fernandez - O sexo nunca esteve separado de afeto, carência ou vulnerabilidade na peça. Então não vejo essas coisas como opostas. O que muda quando a família entra em cena é que a exposição deixa de ser inteiramente administrável. Porque já não envolve só a minha versão sobre mim mesma. Mas o teatro também oferece uma espécie de deslocamento. Nada em cena é exatamente documento, nem totalmente invenção. A ficção não elimina completamente o risco, mas torna possível atravessá-lo.


Resenhando.com - Dirigida por Rodrigo Portella, a peça assume um minimalismo que escancara o próprio teatro. O que sobra quando se retira quase tudo?
Milla Fernandez - O minimalismo não dá chance pra esconderijos, ele obriga a cena a revelar suas “mentiras”, seus “truques”. Rodrigo tem por hábito, nos seus trabalhos, assumir a ficção como experiência compartilhada. Quando ele propõe tirar quase tudo, é uma escolha que reforça o pacto entre atriz e público. Um pacto que fala mais sobre a honestidade de construirmos uma realidade juntos do que de revelar uma grande e única verdade. Ele é um diretor que, antes de qualquer coisa, convoca o imaginário do espectador e aposta no poder do encontro.


Resenhando.com - Você afirma ter deixado de esperar ser escolhida. Esse gesto de autoria é libertador ou inaugura uma nova forma de solidão dentro do mercado artístico?
Milla Fernandez - É libertador e solitário. Durante muito tempo eu esperei ser escolhida pelo olhar do outro. Assumir autoria interrompe essa lógica, mas também revela que independência artística nunca é absoluta. É uma troca de vulnerabilidades: antes, a fragilidade estava em esperar permissão. Agora, está em sustentar a própria voz mesmo quando ela incomoda ou não encontra acolhimento imediato.


Resenhando.com - Se "TIP" é, no fim, uma pergunta que você se faz todos os dias, qual é a única resposta que você torce para nunca encontrar?
Milla Fernandez - Que teria sido melhor ficar calada. Mas essa preocupação eu não tenho. A partir de "TIP", a única coisa que eu vou conhecer é a vida pós-fogueira.


Ficha técnica
Espetáculo “TIP (Antes Que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo)”
Dramaturgia e performance: Milla Fernandez
Direção: Rodrigo Portella
Direção musical: Federico Puppi
Trilha sonora original: Leonardo Bandeira (bateria) e Federico Puppi
Figurino: Karen Brusttolin
Cenário e luz: Rodrigo Portella
Colaboração: Georgina Vila Bruch
Vídeo design: Plinio Hit
Visagismo: Neandro Ferreira
Fotos: Ale Catan
Identidade Visual: José Mancini e Diego Navarro
Mídias Sociais e Gestão de Tráfego: Nathália Alves
Captação de apoio: RumoToloá
Produção: Ártemis e Virgínia Bravo (Ártemis Produções Artísticas)
Realização: Mil Atividades Artísticas
Assessoria de imprensa: JSPontes Comunicação - João Pontes e Stella Stephany


Serviço
Espetáculo “TIP (Antes Que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo)”
Temporada até este domingo, dia 31 de maio
Teatro YouTube (antigo Eva Herz) - Av. Paulista, 2073/3º and, Conjunto Nacional, Bela Vista / SP (estacionamento no local)
Sexta-feira e sábado, às 20h00; domingo, às 17h00. Ingressos: R$120,00 e R$60,00 (meia) em https://www.eventim.com.br/artist/teatro-youtube/tip-antes-que-me-queimem-eu-mesma-me-atiro-no-fogo-4076460/ ou na bilheteria de segundas 13h00 às 21h00 / Capacidade: 166 espectadores / Duração: 90 minutos. Gênero: autoficção. Classificação: 18 anos. Acessibilidade teatro: sim / Temporada: até 31 de maio

quarta-feira, 27 de maio de 2026

.: "Delírio de Loucura" coloca veneno na receita da família perfeita


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O cinema clássico norte-americano sempre encontrou maneiras elegantes de implodir a fachada hipócrita do comercial de margarina que ilustrava o "American Way of Life" na era Eisenhower. Mas poucos diretores ousaram tanto, e de forma tão visceral, quanto Nicholas Ray. Em "Delírio de Loucura", em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carteo cineasta pega a obsessão da classe média suburbana pelo sucesso e pela estabilidade e a injeta com uma dose cavalar de cortisona, transformando o sonho americano em um autêntico filme de terror doméstico.

Baseado no artigo jornalístico "Ten Feet Tall", publicado por Berton Roueché na revista The New Yorker em 1955, o roteiro de Cyril Hume e Richard Maibaum (com colaboração não-creditada do mestre do teatro Clifford Odets) acompanha o drama de Ed Avery. Interpretado com uma intensidade assustadora por James Mason, que também  produziu o longa-metragem, Avery é o epítome do cidadão exemplar: professor primário dedicado que, para fechar as contas do mês e mimar a esposa, trabalha secretamente como despachante de táxi. Quando crises terríveis revelam uma poliarterite nodosa, uma rara e letal inflamação das artérias, a medicina lhe oferece a salvação através de um hormônio experimental. O milagre da cura, contudo, cobra um preço alto demais quando o protagonista passa a abusar das doses e mergulha em uma psicose megalomaníaca.

O que se segue é uma das descrições mais perturbadoras da masculinidade tóxica e do totalitarismo familiar já registradas pelo CinemaScope. Ray sabota os espaços claustrofóbicos da residência dos Avery utilizando as cores e as lentes largas, geralmente reservadas para grandes faroestes, para sufocar o espectador. James Mason entrega uma atuação cirúrgica, transitando do pai amoroso ao tirano bíblico que evoca o sacrifício de Isaac para justificar um plano de homicídio seguido de suicídio. Ao seu lado, Barbara Rush brilha no papel da esposa impotente diante da heresia médica, e Walter Matthau, ainda longe de seus papéis cômicos consagrados, entrega uma performance sóbria como o amigo e a voz da razão que tenta conter a tragédia.

Curiosamente, os bastidores de "Delírio de Loucura" guardam uma pérola da Hollywood clássica. Marilyn Monroe, grande amiga de Nicholas Ray, estava filmando "Nunca Fui Santa" no estúdio vizinho e chegou a gravar uma participação especialíssima como enfermeira. Infelizmente para os cinéfilos, a cena foi totalmente cortada na sala de montagem devido a entraves contratuais rígidos entre a estrela e a Fox.

O filme também enfrentou forte resistência da indústria farmacêutica. Gigantes como a Merck, nos Estados Unidos, e a Glaxo, no Reino Unido, manifestaram séria preocupação de que a fúria psicótica de Ed Avery gerasse pânico na população e boicote ao uso legítimo da cortisona. O temor corporativo, aliado à rejeição do público americano da época, que considerou a obra sombria e melodramática demais, resultou em um retumbante fracasso de bilheteria. O crítico Bosley Crowther, do The New York Times, chegou a rotular o filme como "tedioso".

O tempo, no entanto, é o senhor da razão e o melhor curador da arte. Foram os críticos franceses da Cahiers du Cinéma os primeiros a resgatar o valor da obra. François Truffaut teceu loas à precisão de Mason e à beleza visual da produção, enquanto Jean-Luc Godard colocou o longa na seleta lista dos dez melhores filmes sonoros americanos da história. Décadas mais tarde, a crítica contemporânea reconhece "Delírio de Loucura" não apenas como um alerta médico, mas como uma brilhante e atemporal acusação contra o conformismo, a pressão econômica sobre os professores e as rachaduras ocultas na estrutura da família tradicional. Uma obra-prima violenta, lírica e desesperada que ecoa até os dias de hoje.


Ficha Técnica:
“Delírio de Loucura” | "Bigger Than Life" (título original) | "Atrás do Espelho" (título em Portugal)
Gênero: drama / melodrama / drama psicológico. Duração: 95 minutos (1h 35min). Classificação indicativa: 14 anos (Recomendado/Approved na época). Ano de produção: 1956. Idioma: inglês. Direção: Nicholas Ray. Roteiro: Cyril Hume e Richard Maibaum (baseado no artigo "Ten Feet Tall" de Berton Roueché). Elenco: James Mason, Barbara Rush, Walter Matthau, Christopher Olsen, Robert F. Simon, Roland Winters, Rusty Lane. Distribuição no Brasil: 20th Century Fox (20th Century Studios). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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terça-feira, 26 de maio de 2026

.: Hugo Bonemer: Ripley no teatro, ator reflete sobre identidade e obsessão

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.comFoto: divulgação

O talentoso Hugo Bonemer poderia ser apenas um jogo de palavras, uma referência ao romance de Patricia Highsmith, mas vira chave de leitura quando o espetáculo "O Talentoso Ripley", em cartaz no Teatro Laura Alvim, no Rio de Janeiro, até dia 31 de maio, aposta no fascínio ambíguo de personagens que orbitam o desejo de ser outro. Inspirado no universo do clássico literário criado em 1955, a peça teatral dialoga com a tradição do thriller psicológico que consagrou o personagem Tom Ripley - figura que atravessou décadas, adaptações e formatos, do cinema europeu de René Clément ao olhar sofisticado de Anthony Minghella na versão de 1999.

O espetáculo tem como base a adaptação em 1999 da escritora e roteirista Phyllis Nagy. Na nova abordagem, Hugo Bonemer assume o papel que flerta com essa herança e desafia todos os intérpretes que já passaram por ele. O ator, conhecido por transitar entre televisão, teatro musical e dublagem, constrói um protagonista que vive na fronteira entre admiração e apropriação - um território dramático que o próprio Bonemer já descreveu como um espaço de “empatia perigosa”. A atuação sustenta o eixo central de uma história que se organiza a partir do desconforto da inquietação prolongada de reconhecer traços humanos em figuras moralmente instáveis.

Interpretando, dirigindo e produzindo a peça na pele de um dos protagonistas mais fascinantes da literatura do século XX, Hugo Bonemer revisita um clássico e propõe um jogo contemporâneo de máscaras. Ao assumir esse risco, em entrevista exclusiva para o portal Resenhando.com, ele transforma o trocadilho inicial em provocação: até onde vai o talento de quem interpreta - e de quem assiste - sem se deixar capturar pelo abismo que observa?

Resenhando.com - Ripley atravessa a fronteira entre admiração e obsessão com rapidez brutal. Hoje, o que o assusta mais: quem se reconhece nele ou quem se encanta por ele?
Hugo Bonemer - Não me assusto com os dois cenários, acho eles naturais e previsíveis, já que um psicopata sedutor consegue o que quer fazendo as pessoas se sentirem exatamente assim: íntimas e familiares. Me assusta que nada disso faça a gente aprender a perceber até que seja tarde demais.


Resenhando.com - Você diz que interpretar Ripley exige visitar lugares desconfortáveis — em que momento esse desconforto deixa de ser ferramenta de criação e começa a ameaçar quem você é fora do palco?
Hugo Bonemer Eu somatizo muito e pra isso tenho feito, além do processo terapêutico de anos, muito cuidado holístico e de massagem com o terapeuta holístico Julius Mac, que tem vindo de Buzios fazer um tratamento físico comigo. É como tenho conseguido manter o corpo e a mente sãos.


Resenhando.com - Ripley é um mestre em desejar a vida do outro. Em algum momento da sua trajetória, você já desejou ser alguém a ponto de quase apagar quem você era?
Hugo Bonemer Muitas vezes! Até chegar num ponto de me amar de verdade eu vivia desejando a vida dos outros. Seja por ser um discípulo intelectual de alguém, seja para ser amado por alguém, ou por conviver com algum daqueles ícones de beleza inalcançável. Não sei se todo mundo passa por isso, mas eu já não me lembro quando foi que deixei de ser assim. Só sei que tem muitos anos que amo existir como eu sou, aperfeiçoar quem eu sou, sem precisar viver na sombra de ninguém.


Resenhando.com - A peça aposta em suspense e terror, gêneros pouco explorados no teatro brasileiro. O que mais o interessa: provocar medo no público ou fazer com que ele reconheça a si mesmo nesse medo?
Hugo Bonemer O terror que se dispõe a provocar medo não causa medo em ninguém. É pelo reconhecimento de si mesmo na trama que a vulnerabilidade aparece. A partir daí, é só uma brincadeira em conjunto. Um susto aqui, um outro ali… tudo nesse acordo silencioso entre artista e espectador.


Resenhando.com - Você acumula funções de ator, diretor, produtor e cenógrafo. Esse controle todo é uma necessidade artística ou uma forma de garantir que nada escape da sua própria narrativa?
Hugo Bonemer Começou como necessidade de produção. Eu tinha um orçamento. Aos poucos fui gostando, confesso, e faria novamente. Exceto as redes sociais, essa parte eu faço, mas detesto.


Resenhando.com - Há uma tradição de “humanizar monstros” na arte contemporânea. Até que ponto compreender Ripley não corre o risco de absolvê-lo e, por tabela, absolver violências muito reais?
Hugo Bonemer Monstros não são humanizados para serem entendidos e acolhidos, mas para serem identificados em nós mesmos. Quando ele é só monstro, ele é externo, vive fora, não é problema nosso. Mas quando você vê uma relação familiar conturbada, um trauma, você se pergunta onde que você não decidiu seguir aquele caminho amoral, e onde o personagem se perdeu na curva. E é aí que a maturidade acontece. O risco que eu às vezes me questiono é o de dar palco para figuras reais, que cometem crimes e ganham dramaturgia e holofotes. Não sei se é um problema, mas li que os psicopatas adoram isso. O Tom Ripley não é uma pessoa real que vai se envaidecer por ter sua história contada.


Resenhando.com - Você fala em “empatia perigosa”. Já houve algum momento em que essa empatia te fez justificar algo que, racionalmente, você condena?
Hugo Bonemer Muitas vezes, a empatia perigosa no caso do Ripley vem quando você percebe que ele está quebrado e tenta gostar dele mesmo ele dizendo na sua cara que vai te fazer mal. Como aquela história do escorpião que pede para o coelho uma carona no barco jurando que não vai avançar, avança e pede desculpas dizendo “é a minha natureza”. O psicopata é assim, e quando ele aparece na nossa vida, faz de tudo para você achar que é um brinquedo quebrado, e que só você é capaz de consertar.


Resenhando.com - A montagem parte de um texto que nunca havia sido encenado em português. O que se ganha e o que se perde quando uma história tão marcada por outros contextos culturais ganha sotaque brasileiro?
Hugo Bonemer Só se ganha. Tirei todos os anglicismos e cortei quase uma hora de peça transformando texto em símbolo. Acredito que quando temos uma dramaturgia mais perto da gente conseguimos dialogar mais a fundo com o que acontece agora.


Resenhando.com - O sucesso da peça foi, nas suas palavras, inesperado. Existe algo de Ripley nesse espanto — alguém que, no fundo, não acredita que merece o lugar que ocupa?
Hugo Bonemer Tem algo voltado mais sobre planilha de custos mesmo haha. Eu não investi em marketing e a peça lotou. Eu faço com tanto amor que acredito que nós merecemos a casa lotada, mas já acreditei em outros projetos que não tiveram o mesmo sucesso. Por isso inesperado.


Resenhando.com - Curiosamente, você chega a esse momento da carreira aos 37 anos interpretando um personagem criado em 1955. Se a arte é uma forma de driblar o tempo, que tipo de permanência você busca: ser lembrado ou ser compreendido?
Hugo Bonemer Obrigado pelos 37, eu faço 39 em junho. Eu não busco permanência, mas sim sentido. Crio sentido pra mim todo dia, toda hora, por meio da criatividade. Como, e se eu for lembrado com permanência, vai ser uma decisão nem de quem convive comigo, mas de quem está provavelmente nascendo agora. É impossível de controlar.


Serviço
Espetáculo "O Talentoso Ripley"
Teatro Laura Alvim -Av. Vieira Souto, 176 - Ipanema, Rio de Janeiro - RJ
Temporada: até dia 31 de maio
Sextas e sábados, às 20h00, e domingos, às 19h00
Lotação: 190 lugares
Classificação: 18 anos
Duração: 1h50min
Direção: Hugo Bonemer
Co-direção: Kamilla Rufino
Elenco: Francisco Paz (Richard Greenleaf), João Fernandes (Marc e Freddie), Cassio Pandolfh (Herbert Greenleaf e Tenente Roverini), Laura Gabriela (Emily Greenleaf e Tia Dottie) e Tom Nader (Red, Fausto e Silvio).
Gênero: suspense/terror
Ingressos: a partir de R$ 35,00

.: Porque "Todas as Manhãs do Mundo" desbancou Michael Jackson e Madonna


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

A reconstituição histórica no cinema frequentemente se perde em excessos visuais, mas há obras que abraçam a grandiosidade no recolhimento e na precisão. É esse o triunfo que o público testemunha com a estreia de "Todas as Manhãs do Mundo" na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, uma obra-prima de 1991 dirigida por Alain Corneau. É um drama de época refinado, focado na música, na perda e na complexa transmissão de conhecimento entre duas gerações de artistas no século XVII, sob o reinado de Luís XIV.

O roteiro, escrito a quatro mãos pelo próprio diretor e pelo autor Pascal Quignard - adaptando o romance homônimo lançado no mesmo ano -, acompanha a trajetória do renomado músico Marin Marais. Na maturidade, o personagem é interpretado com o vigor habitual de Gérard Depardieu, que acumula a função de narrador da própria juventude. Filho do ator na vida real, Guillaume Depardieu, assume o papel do jovem Marais com uma entrega impressionante. 

O centro da narrativa está na busca do rapaz pelo aprendizado com o recluso e jansenista Monsieur de Sainte-Colombe, vivido magistralmente por Jean-Pierre Marielle, um mestre que se isolou do mundo e da corte após a morte da esposa para se dedicar apenas às filhas e à arte. O elenco principal se completa com Anne Brochet na pele de Madeleine, a filha mais velha do tutor, que se apaixona por Marais. Curiosamente, a crítica internacional destacou na época que esta foi a segunda vez consecutiva que Brochet e Gérard Depardieu viveram um par romântico nas telas, repetindo a química já testada no aclamado "Cyrano de Bergerac".

Além das intrigas amorosas e as desilusões que culminam em tragédia, o verdadeiro coração do longa-metragem reside na música barroca, executada na emblemática viola da gamba pelas mãos virtuosas de Jordi Savall. A trilha sonora não apenas dita o tom melancólico e poético da produção, mas também estabeleceu um fenômeno comercial sem precedentes no mercado fonográfico global. Em uma das maiores surpresas da indústria cultural da década de 1990, o álbum com as composições barrocas do filme superou as vendas de "Dangerous", de Michael Jackson, na França, e ultrapassou os números da popstar Madonna, que lançava o álbum "Erotica". Um feito histórico para a música erudita.

A consagração do filme não se limitou ao sucesso comercial da trilha sonora. "Todas as Manhãs do Mundo" foi o grande vencedor da 17ª edição do Prêmio César em 1992, faturando sete estatuetas, incluindo as de Melhor Filme, Melhor Diretor para Alain Corneau, Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Brochet e Melhor Música para Jordi Savall. Além disso, o diretor conquistou o prestigiado Urso de Prata no Festival Internacional de Cinema de Berlim e a obra garantiu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 1993. O título poético faz referência a uma das falas mais dolorosas de Marais ao constatar a finitude da vida e o peso dos erros passados: todas as manhãs do mundo nunca mais voltam. É um cinema rigoroso, esteticamente impecável e que merece ser absorvido por quem o assiste.


Ficha técnica
“Todas as Manhãs do Mundo” | “Tous les Matins du Monde” (título original)
Gênero: drama. Duração: 115 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: francês. Direção: Alain Corneau. Roteiro: Pascal Quignard e Alain Corneau. Elenco: Jean-Pierre Marielle, Gérard Depardieu, Anne Brochet, Guillaume Depardieu, Carole Richert, Michel Bouquet, Jean-Claude Dreyfus, Yves Gasc, Yves Lambrecht, Jean-Marie Poirier e Myriam Boyer.
Distribuição no Brasil: BAC Films. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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segunda-feira, 25 de maio de 2026

.: Filme expõe bastidores de descoberta que sacodiu o mercado de arte


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O documentário “O Caravaggio Perdido” chega à plataforma de streaming Belas Artes À La Carte  transformando uma história real do mercado de arte em narrativa de suspense, conduzida com rigor documental e ritmo de thriller. Dirigido por Álvaro Longoria, o filme acompanha, em tempo quase real, a redescoberta de uma pintura atribuída ao mestre barroco Michelangelo Merisi da Caravaggio, encontrada por acaso em um apartamento em Madri. O que parecia uma peça sem grande valor, prestes a ser leiloada por 1.500 euros, revela-se um possível tesouro artístico avaliado em dezenas de milhões, desencadeando uma corrida internacional entre especialistas, colecionadores e marchands.

Longoria, que também assina o roteiro, constrói o documentário a partir de acesso privilegiado aos bastidores dessa disputa. Ao longo de três anos e meio de filmagens, a câmera dele registra negociações sigilosas, tensões acadêmicas e interesses financeiros que orbitam o universo da arte. Participam desse jogo figuras como Maria Cristina Terzaghi, Jorge Coll e Filippo Benappi, que aparecem como personagens centrais de uma engrenagem movida por prestígio, dinheiro e obsessão. O diretor transforma mais de uma centena de horas de material bruto em uma montagem dinâmica, marcada por reviravoltas que, segundo ele próprio, alteravam continuamente o rumo da narrativa.

A obra em questão, o “Ecce Homo”, remonta ao início do século XVII, período em que Caravaggio vivia sob a sombra de acusações criminais e produzia algumas de suas telas mais intensas. O documentário resgata esse contexto histórico enquanto acompanha o processo de autenticação da pintura, colocando em evidência a fragilidade e a velocidade com que o mercado valida ou contesta atribuições dessa magnitude. A fotografia aposta em contrastes de luz e sombra que dialogam diretamente com o estilo do pintor italiano, enquanto a trilha sonora acentua o clima de tensão crescente.

Além de reconstituir a trajetória de uma obra, “O Caravaggio Perdido” expõe um sistema pouco transparente, em que interesses culturais e comerciais se entrelaçam. A pintura, hoje restaurada e reconhecida como autêntica, foi adquirida por cerca de 30 milhões de euros e encontra-se atualmente no Museu do Prado, em Madri. O desfecho reforça a percepção de que, no universo da arte, a descoberta de um “sleeper” pode reconfigurar fortunas e narrativas históricas em questão de dias.

Com indicação ao Prêmio Goya de Melhor Documentário, o filme confirma a habilidade de Longoria em capturar o inesperado e transformá-lo em cinema. Ao acompanhar uma história em constante mutação, o diretor oferece ao espectador uma reflexão sobre o valor simbólico e financeiro da arte em um mundo movido por cifras e consagrações tardias.


Ficha técnica
“O Caravaggio Perdido” | “The Sleeper” (título original) | “The Sleeper - O Caravaggio Perdido” (título em Portugal)
Gênero: documentário, suspense. Duração: 78 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: espanhol e italiano. Direção e roteiro: Álvaro Longoria. Elenco: Maria Cristina Terzaghi, Jorge Coll, Filippo Benappi. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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quinta-feira, 21 de maio de 2026

.: Vencedor em Berlim, drama revela como progresso redesenha as relações


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Vencedor do Urso de Prata de Melhor Direção no Festival de Berlim, o filme “Living the Land” chega ao Brasil em estreia exclusiva na plataforma de streaming Reserva Imovision, nesta sexta-feira, dia 22 de maio, interessado em preservar gestos e modos de vida prestes a desaparecer. Dirigido e roteirizado pelo chinês Huo Meng, o longa-metragem mergulha na China rural de 1991 para observar, com rigor quase etnográfico, o impacto das transformações socioeconômicas sobre uma comunidade agrícola.

A trama acompanha Chuang (interpretado por Shang Wang), um menino de dez anos que permanece na aldeia enquanto parte da família migra para os centros urbanos. Ao redor dele, o vilarejo de Bawangtai se reorganiza diante da modernização que chega em ondas: tecnologia, industrialização e novas formas de trabalho começam a redesenhar a paisagem humana e simbólica. No elenco, destacam-se ainda Chuwen Zhang e Zhang Yanrong, que ajudam a compor um mosaico geracional em que tradição e ruptura coexistem em tensão permanente.

Huo Meng, que já havia chamado atenção com seu longa de estreia “Crossing the Border - Zhaoguan”, aprofunda aqui um cinema de observação, marcado pelo uso de não-atores e por uma encenação que dilui as fronteiras entre ficção e documentário. A câmera de Guo Daming percorre os espaços com discrição e horizontalidade, como se recusasse qualquer hierarquia dramática: tudo importa, o plantio, o luto, o casamento, o trabalho coletivo. 

A produção teve estreia mundial na competição oficial do Festival Internacional de Cinema de Berlim de 2025, onde rendeu a Huo Meng o Urso de Prata de Melhor Direção, reconhecimento que consolidou o filme no circuito internacional. Desde então, “Living the Land” vem acumulando recepção crítica amplamente positiva, com 100% de aprovação no Rotten Tomatoes e elogios de veículos como The Hollywood Reporter, que destacou a precisão visual da obra, e Screen Daily, que a classificou como “imersiva e ambiciosa”.

Há também um componente autobiográfico que fica evidente o projeto. O diretor afirmou que buscava retratar o choque entre políticas coletivistas e tradições milenares, além de evidenciar as pressões - sobretudo em relação às mulheres - em um contexto de transição abrupta. Esse olhar se materializa em personagens como Xiuying, cuja trajetória evidencia o peso das estruturas familiares e sociais. Sem concessões ao ritmo acelerado do cinema comercial, “Living the Land” aposta na duração - são mais de duas horas - como estratégia de imersão. 


Ficha técnica
“Living the Land” | “Sheng Xi Zhi Di” (título original) | “Vivendo a Terra” (título em Portugal)
Gênero: Drama. Duração: 2h15. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: mandarim. Direção: Huo Meng. Roteiro: Huo Meng. Elenco: Shang Wang, Chuwen Zhang, Zhang Yanrong. Distribuição no Brasil: Autoral Filmes. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.

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terça-feira, 19 de maio de 2026

.: “O Sushi dos Sonhos de Jiro” revela como obsessão constrói um mestre


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O documentário “O Sushi dos Sonhos de Jiro” estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision, nesta quinta-feira, dia 21 de maio, como uma obra rara que ultrapassa o objeto imediato - a gastronomia - para tocar em algo mais profundo: a ética do trabalho, a obsessão pela excelência e o peso silencioso da herança. Dirigido e roteirizado por David Gelb, o filme acompanha o cotidiano de Jiro Ono, mestre octogenário que transformou um balcão de dez lugares escondido em uma estação de metrô de Tóquio em um dos restaurantes mais reverenciados do mundo, agraciado com três estrelas do guia Michelin.

Gelb inicialmente concebeu o projeto como um panorama mais amplo sobre diferentes sushimen, algo que ele próprio definiu como um “Planeta Sushi”, em referência à estética grandiosa das produções da BBC. O encontro com Jiro, no entanto, deslocou o eixo do filme: não havia mais interesse em diversidade de estilos, mas na singularidade de um homem que, aos 85 anos, ainda repetia os mesmos gestos com a precisão de quem persegue um ideal inalcançável. 

A decisão deu ao documentário uma espinha narrativa mais íntima, centrada também na relação com o filho mais velho, Yoshikazu, destinado a herdar não apenas o restaurante Sukiyabashi Jiro, mas o fardo de corresponder a um padrão quase inatingível. O filme constrói sua força na repetição - tanto temática quanto estética. A trilha sonora, que inclui composições de Philip Glass, Tchaikovsky e Max Richter, ecoa a rotina do protagonista: ciclos que se reiteram, mas nunca são idênticos. Há, nisso, uma espécie de metáfora sonora para o próprio conceito de aperfeiçoamento contínuo que orienta Jiro. 

A câmera de Gelb, por sua vez, privilegia closes e movimentos lentos, quase reverenciais, que transformam o preparo do sushi em um ritual de minúcias. Não se trata apenas de comida, mas de um processo que começa na escolha rigorosa dos fornecedores - muitos dos quais se orgulham de servir exclusivamente ao restaurante - e culmina em um gesto aparentemente simples: servir.

Entre as curiosidades reveladas, uma chama atenção pela precisão quase científica do método: o sushi ideal deve equilibrar temperaturas distintas - o arroz ligeiramente aquecido à temperatura corporal e o peixe em temperatura ambiente. Pequenos detalhes como esse ajudam a compreender por que a excelência, aqui, não é um discurso, mas uma prática obsessiva. O próprio Jiro sintetiza essa filosofia em uma frase que atravessa o filme: “Eu faço a mesma coisa repetidamente, melhorando pouco a pouco”

A recepção crítica internacional confirma o impacto da obra. Com 99% de aprovação no Rotten Tomatoes e avaliações majoritariamente favoráveis no Metacritic, o documentário foi celebrado não apenas como um retrato gastronômico, mas como uma reflexão sobre disciplina e propósito. O crítico Roger Ebert, em uma de suas últimas análises marcantes, descreveu o filme como um estudo quase enigmático de um homem cuja vida parece inteiramente consumida por sua arte - uma devoção que levanta questões incômodas sobre sacrifício, realização e limites pessoais.

Exibido inicialmente no Festival de Tribeca em 2011, “Jiro Sonha com Sushi” também encontrou um público mais amplo ao ser disponibilizado em plataformas de streaming, consolidando-se como um dos documentários gastronômicos mais influentes da última década. Ainda que se passe em um espaço minúsculo - um restaurante sem luxo aparente e com poucos assentos --, o filme expande as fronteiras para discutir algo universal: o que significa dedicar uma vida inteira a fazer uma única coisa, e fazê-la melhor do que qualquer outro.


Ficha técnica
“O Sushi dos Sonhos de Jiro” | “Jiro Dreams of Sushi” (título original)
Gênero: Documentário. Duração: 82 min. Classificação indicativa: Livre. Ano de produção: 2011. Idioma: Japonês. Direção: David Gelb. Roteiro: David Gelb. Elenco: Jiro Ono, Yoshikazu Ono, Masuhiro Yamamoto. Distribuição no Brasil: (varia por relançamento/exibição). Cenas pós-créditos: não.


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.: Filme de encerramento em Veneza, “O Jardim Americano” aposta no suspense


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

“O Jardim Americano” chega à plataforma de streaming Belas Artes À La Carte  como mais um capítulo da longa e inquieta trajetória do cineasta italiano Pupi Avati que, aos quase 90 anos, insiste em revisitar fantasmas, sejam eles pessoais, estéticos e narrativos. Exibido como filme de encerramento do 81º Festival de Veneza, em setembro de 2024, o longa-metragem reafirma o fôlego de um autor que atravessa décadas sem abdicar das próprias obsessões: a memória, o desejo e aquilo que escapa à lógica.

Baseado em romance homônimo escrito pelo próprio Avati, o filme tem roteiro assinado por ele em parceria com o filho, Tommaso Avati, o que reforça o caráter íntimo e autoral do projeto. A trama acompanha um jovem escritor - interpretado por Filippo Scotti - que, entre lembranças fragmentadas e projeções quase delirantes, se vê atravessado por uma paixão súbita e por um desaparecimento que conecta Itália e Estados Unidos. O que começa como uma história de amor à primeira vista logo se converte em uma investigação sinuosa, marcada pelo silêncio, pela ausência e por uma crescente sensação de deslocamento.

A narrativa se ancora em um tempo difuso, que transita entre o passado da guerra e um presente igualmente instável, enquanto o protagonista tenta reconstruir os rastros de uma enfermeira americana por quem se apaixonou. Ao chegar aos Estados Unidos, ele encontra não apenas o vazio deixado por essa mulher, mas também um cenário que desmente as próprias expectativas: um interior americano árido, distante do imaginário idealizado. Esse estranhamento funciona como motor dramático para o retorno à Itália e para o mergulho em uma trama que envolve crimes, julgamentos e figuras ambíguas.

Se o roteiro aposta em digressões e nem sempre sustenta a tensão prometida, a força do filme está em na atmosfera dele. A fotografia em preto e branco de alto contraste, assinada por Cesare Bastelli, confere à obra um verniz gótico que remete aos trabalhos mais sombrios de Avati, especialmente aqueles que dialogam com o suspense psicológico e o horror. A direção de arte acompanha essa proposta, criando imagens que parecem suspensas entre o sonho e a decomposição, como se cada cenário carregasse o peso de uma lembrança mal resolvida.

Conhecido por pela versatilidade, Avati revisita um território inquietante. Há um esforço evidente em explorar a mente do protagonista, recorrendo a imagens oníricas e a uma narrativa que flerta com o surreal. No centro dessa engrenagem está Filippo Scotti, que sustenta o filme com uma atuação sensível e contida. O ator, já conhecido por “A Mão de Deus”, encontra no filme um papel que exige presença constante. Ao seu redor, nomes como Rita Tushingham, Roberto De Francesco e Chiara Caselli compõem um elenco que reforça o caráter melancólico da obra.


Ficha técnica
“O Jardim Americano” | “L’orto Americano” (título original) 
Gênero: romance, mistério. Duração: 107 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2024. Idioma: Italiano e inglês. Direção: Pupi Avati. Roteiro: Pupi Avati, Tommaso Avati. Elenco: Filippo Scotti, Roberto De Francesco, Rita Tushingham, Armando De Ceccon, Chiara Caselli.Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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segunda-feira, 18 de maio de 2026

.: Clássico, "Trapézio" transforma o amor em risco mortal no alto do picadeiro


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, o drama “Trapézio” é um clássico de apelo popular que equilibra espetáculo e melodrama sob o risco constante da queda. Dirigido por Carol Reed, cineasta consagrado por “O Terceiro Homem”, o longa-metragem é baseado no romance “The Killing Frost”, de Max Catto, com roteiro assinado por James R. Webb e adaptação de Liam O’Brien. No centro da narrativa, Burt Lancaster interpreta Mike Ribble, um trapezista marcado por um acidente que interrompeu sua carreira no auge. A entrada de Tino Orsini (Tony Curtis), jovem ambicioso disposto a aprender o perigoso triplo mortal, reativa não só o talento, mas também as feridas do veterano. A equação se complica com a chegada de Lola (Gina Lollobrigida).

No romance original, as relações entre os personagens sugerem camadas de desejo e conflito que o cinema dos anos 1950 não poderia explicitar. O filme suaviza essas tensões, mas não as elimina por completo. Elas permanecem ali, insinuadas, como um movimento interrompido no ar. O filme se ancora em uma estrutura aparentemente simples - o triângulo amoroso - para tensionar temas mais espinhosos, como ambição, vaidade e traição. Para além da superfície romântica, há uma disputa silenciosa por protagonismo, reconhecimento e sobrevivência em um ambiente onde o erro custa caro. 

A produção foi filmada majoritariamente no Cirque d’Hiver, em Paris, o que confere autenticidade às sequências circenses. Lancaster, que antes da carreira no cinema havia sido acrobata, realizou boa parte das próprias cenas, insistência que resultou, inclusive, em uma lesão nas costas durante as filmagens, atrasando a produção. Ainda assim, o ator manteve-se envolvido nas sequências mais exigentes, reforçando a dimensão quase obsessiva de seu personagem.

Visualmente, “Trapézio” explora o contraste entre o brilho do espetáculo e a precariedade dos bastidores. A fotografia de Robert Krasker - colaborador de Reed em “O Terceiro Homem” - aposta em enquadramentos vertiginosos que simulam a perspectiva do próprio trapezista: olhar para baixo nunca foi tão desconfortável. O uso do Technicolor intensifica esse jogo entre fascínio e perigo, transformando o picadeiro em palco de ilusões e conflitos.

Recebido com entusiasmo pelo público da época, o filme figurou entre as maiores bilheterias de 1956 nos Estados Unidos e teve desempenho expressivo também no Reino Unido. A crítica, por outro lado, dividiu-se. Enquanto vozes como a da revista The New Yorker destacaram a energia da direção e o magnetismo de Lancaster e Lollobrigida, o The New York Times, em texto de Bosley Crowther, considerou a trama previsível e os diálogos pouco inspirados. 


Ficha técnica
“Trapézio” | "Trapeze" (título original) 
Gênero: drama, romance. Duração: 1h45. Classificação indicativa: livre (à época, equivalente ao selo Approved). Ano de produção: 1956. Idioma: inglês, italiano. Direção: Carol Reed. Roteiro: James R. Webb, Liam O’Brien (baseado em obra de Max Catto). Elenco: Burt Lancaster, Tony Curtis, Gina Lollobrigida, Katy Jurado, Thomas Gomez. Distribuição no Brasil: não especificada. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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sábado, 16 de maio de 2026

.: As revelações de Marisol Marcondes, estrela do musical “Flashdance”


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.comFoto: divulgação

Há uma geração inteira de atrizes do teatro musical brasileiro que cresceu sendo treinada para a perfeição técnica. Marisol Marcondes parece interessada em outra camada: profundidade. Ela fala de palco como quem conhece as dores e as delícias de permanecer em cena, não existe verniz nessa relação. Aos 14 anos de teatro musical, depois de passar por montagens que vão de “Cabaret” a “Billy Elliot”, de “A Família Addams” a “Se Essa Lua Fosse Minha”, ela chega ao centro de “Flashdance” sem ansiedade. Nascida exatos 29 anos da estreia de "Nasce Uma Estrela" com Lady Gaga no cinema, ela é uma artista em ascensão e sabe brilhar.

No Teatro Claro Mais SP, diante de uma personagem que atravessa jornadas duplas, contas, desejo e exaustão, Marisol apresenta menos uma heroína pop dos anos 1980 do que uma mulher acostumada a negociar sonhos com boletos vencidos. A Alex Owens dela dança e sobrevive, é uma protagonista real. Talvez venha daí a impressão de perigo que ela carrega no palco, mesmo nos momentos de maior controle vocal. Nada soa excessivamente calculado diante da inteligência de cena, escuta, senso de conjunto que ela oferece. 

Não por acaso, ela passou por produções dirigidas por nomes como Miguel Falabella, dividiu montagens com Vanessa da Mata, Marisa Orth, Daniel Boaventura, Ícaro Silva e Dan Stulbach, sem perder uma característica rara em artistas acostumados a grandes produções: a própria identidade. Fora do palco, a conversa muda de ritmo sem perder densidade. Marisol cita Conceição Evaristo, Whitney Houston, Clarissa Pinkola Estés, Lin-Manuel Miranda e Chiquinha Gonzaga com a mesma naturalidade de quem fala sobre soltar pipa, praia, café com leite ou jogar videogame. 

Entre uma resposta e outra, aparecem política, espiritualidade, precarização da arte, democracia, afeto e a recusa em transformar cinismo em maturidade. No retorno da coluna #ResenhaRápida, com exclusividade ao portal Resenhando.com, a atriz fala sobre corpo em exposição, musical popular sem superficialidade, mulheres que ocupam espaços e o tipo de paixão que ainda faz alguém escolher o teatro todos os dias, mesmo sabendo exatamente o preço disso.

#ResenhaRápida com Marisol Marcondes

Nome completo: Marisol Marcondes Ferraz Prado. 
Apelidos: Sol, Solzinha, Sea&Sun e muitos outros.
Data de nascimento: exatos 29 anos antes do filme "Nasce Uma Estrela" (com a Lady Gaga) estrear aqui no Brasil (risos).
Altura: 1,61m.
Número do sapato: 35.
Qualidade: lealdade.
Defeito: vários.
Signo: Libra.
Ascendente: Aquário.
Uma mania: me hidratar de todo jeito o tempo todo.
Religião: bom pra quem sabe usar. A minha se chama Amor.
Time: seleções brasileiras de vôlei.
Amor: o que eu mais amo dar.
Sexo: conexão .
Mulher bonita: a que se ama.
Homem bonito: o que respeita.
Família é: quem pode contar comigo e que eu também posso contar.
Ídolo: tenho não.
Inspiração: a Babynha, vulgo minha mãe.
Arte é: pra incomodar os acomodados e acalentar os inconformados.
Brasil: é onde eu pretendo permanecer.
Fé: é o que nos move 24 horas por dia.
Deus é: um mistério, mas o encontrei duas vezes no mar.
Política é: perigosa se manipulada por egoístas sobre um povo ingenuamente apaixonado.
Personalidade histórica favorita: Chiquinha Gonzaga.
Hobby: jogar joguinhos, soltar pipa, ir a parques, rir com quem eu amo...
Lugar: praia. Mas não é onde, é com quem...
O que não pode faltar na geladeira: energia elétrica.
Prato predileto: cheio de comida.
Sobremesa: papo de anjo, ambrosia e brigadeiro.
Fruta: manga.
Bebida favorita: café com leite.
Cor favorita: magenta.
Medo de: tanta coisa.
Uma peça de teatro: "Se Essa Lua Fosse Minha".
Um show: que me faça dançar e esquecer um pouquinho do mundo.
Uma atriz: Viola Davis.
Um ator: Aílton Graça.
Uma cantora: Whitney Houston.
Um cantor: Michael Jackson.
Uma escritora: Conceição Evaristo.
Um escritor: Vitor Rocha.
Um filme: "Pecadores". 
Um livro: "Ciranda das Mulheres Sábias", de Clarissa Pinkola Estés.
Uma música: "Caçador de Mim", de Milton Nascimento.
Um disco: "Holy Land", Angra.
Um personagem: Bella Baxter ("Pobres Criaturas").
Uma novela: "Hoje É Dia de Maria" era série, né? 
Uma série: "This Is Us".
Um programa de TV: "Altas Horas".
Uma saudade: infelizmente sei que vai apertar.
Algo que me irrita: ver alguém mentindo na minha frente.
Algo que me deixa feliz é: ver quem eu amo se realizando.
Uma lembrança querida: de uma festinha surpresa que fizeram pra mim no quarto de uma amiga, na minha adolescência.
Um arrependimento: grazadeusa nenhum.
Quem levaria para uma ilha deserta? A Tempestade (Marvel) pra gente trocar ideia, tomar um sol, e eu me segurar nela e a gente sair de lá e ir pra onde quiser em segundos.
Se pudesse ressuscitar qualquer pessoa do mundo, seria... Ella Fitzgerald pra conversar com ela e ouvi-la cantar ao vivo.
Se pudesse fazer uma pergunta a qualquer pessoa do mundo, seria Perguntaria pro Lin Manuel Miranda como é que faz pra ser um gênio. 
Não abro mão de: compartilhar coisas que gosto.
Um talento oculto (aquilo que poucas pessoas sabem que você faz bem): ah, acho que só elas saberão dizer...
Você tem fome de quê? Atrações e aulas artísticas acessíveis.
Você tem nojo de quê? De quem ganha dinheiro em cima da miséria e da fé alheia.
Se tivesse que ser um bicho, seria: uma águia.
Um sonho: ter uma vida confortável e dar conforto pra quem eu amo trabalhando em várias frentes artísticas.
O que me tira do sério: injustiça.
Democracia é: uma luta constante.
Ser mulher, hoje, é: uma honra.
O que seria se não fosse atriz: psicanalista.
Ser atriz é: uma responsabilidade deliciosamente agridoce.
Cinema em uma palavra: transcendental.
Teatro em uma palavra: coliseu.
Televisão em uma palavra: espelho.
Alex Owens em uma palavra: paixão.
"Flashdance" em uma palavra: entrega.
Frase favorita: "Quando uma pessoa vive de verdade, todas as outras também vivem" (Clarissa Pinkola Estés).
Palavra favorita: oxe.
Marisol Marcondes por Marisol Marcondes: uma alma paciente que ri dos capotes da vida e não sabe desistir.


Serviço
"Flashdance, o Musical"

Temporada: até dia 31 de maio de 2026
Às quintas e sextas-feiras, às 20h00; aos sábados, às 16h30 e às 20h30; e aos domingos, às 15h30 e às 19h30.
Teatro Claro Mais SP - Shopping Vila Olímpia - Olimpíadas, 360, 5º Piso - Vila Olímpia, São Paulo - SP, 04551-000
Ingressos: de R$ 25,00 a R$ 250,00
Vendas on-line em https://uhuu.com/evento/sp/sao-paulo/flashdance-15824
Bilheteria: de segunda a sábado, das 10h00 às 22h00; e aos domingos e feriados, das 12h00 às 20h00
*Clientes Claro Clube têm 50% de desconto em até quatro ingressos
Classificação: 18 anos
Duração: 120 minutos
Capacidade: 801 lugares
Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida

sexta-feira, 15 de maio de 2026

.: "Romeu e Julieta" moderno, "Salem" estreia na Reserva Imovision


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Cinco anos depois de incendiar a Croisette com "Shéhérazade", o diretor francês de origem armênia Jean-Bernard Marlin retornou ao Festival de Cannes com "Salem", exibido na mostra Un Certain Regard, ampliando o seu território estético e temático, filme que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision. Se antes o cineasta mergulhava no naturalismo quase documental das periferias de Marselha, agora ele tensiona essa mesma realidade com uma camada de misticismo que desloca o filme para uma zona híbrida entre o real e o sobrenatural.

A trama acompanha Djibril, um jovem ligado a uma gangue que tenta sobreviver às rivalidades históricas entre bairros marginalizados da cidade. A narrativa se estrutura, inicialmente, como uma tragédia amorosa de contornos shakespearianos - uma evocação direta de "Romeu e Julieta" - ao colocar em cena o romance entre o protagonista, de origem comoriana, e Camilla, uma jovem cigana. O conflito entre comunidades organiza o destino dos personagens com a inevitabilidade típica das grandes tragédias. Marlin, assumidamente fascinado por Shakespeare, constrói esse primeiro ato com precisão clássica, ainda que inserido em um ambiente urbano degradado, de terrenos baldios e edifícios semiabandonados, que funcionam como extensão simbólica do abandono social e afetivo.

O que distingue "Salem" de seu antecessor, no entanto, é a virada narrativa que transforma o filme em uma experiência sensorial e espiritual. Após um evento traumático e uma passagem pela prisão - elemento recorrente na filmografia do diretor - Djibril passa a acreditar que é capaz de ouvir espíritos e interpretar sinais divinos, assumindo uma dimensão quase messiânica. A ideia de uma maldição, proferida por um rival em seus últimos suspiros, atravessa o enredo e reorganiza a lógica do filme, que passa a operar sob o signo da dúvida: trata-se de delírio, fé ou herança invisível transmitida entre gerações?

Marlin, que coassina o roteiro com Jeanne Aptekman e Agnès Feuvre, trabalha com um elenco majoritariamente composto por atores não-profissionais - Oumar Moindjie, Dalil Abdourahim e Wallenn El Gharbaoui - escolhidos após um processo de casting que durou cerca de dez meses. A aposta no frescor e na vivência desses intérpretes reforça a dimensão orgânica da narrativa, ainda que, em alguns momentos, o filme opte por uma estilização que suaviza a brutalidade vista em "Shéhérazade". Há, aqui, uma ambição estética mais evidente: a câmera frequentemente estática, os momentos oníricos e a trilha que flerta com o hipnótico indicam um diretor interessado em expandir sua linguagem.

Curiosamente, o próprio título "Salem" carrega ambiguidades que dialogam com o filme: em árabe, pode significar “paz”, mas também funciona como saudação cotidiana, algo entre o “olá” e o “bom-dia”. Essa polissemia ecoa na narrativa, que oscila entre o desejo de reconciliação e a permanência do conflito. A Marselha retratada por Marlin segue sendo um território de fronteiras invisíveis, onde identidades se chocam e se reinventam, e onde a herança cultural - seja ela religiosa, étnica ou simbólica - molda destinos.


Ficha técnica
“Salem”
Gênero: drama / fantasia.Duração: 103 minutos (aprox.). Classificação indicativa: 16 anos (estimada)
Ano de produção: 2023. Idioma: francês. Direção: Jean-Bernard Marlin. Roteiro: Jean-Bernard Marlin, Jeanne Aptekman, Agnès Feuvre. Elenco: Oumar Moindjie, Dalil Abdourahim, Wallenn El Gharbaoui Distribuição no Brasil: Circuito de arte / independente. Cenas pós-créditos: não.


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quarta-feira, 13 de maio de 2026

.: Drama de casal que incendiou cinema francês estreia na Reserva Imovision


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. Foto: David Koskas/Autoral Filmes

Destaque na programação do Festival de Cinema Francês do Brasil do ano passado, o drama “Eu, Que Te Amei” (“Moi qui t’aimais”) estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision, nesta quinta-feira, dia 14 de maio. Dirigido por Diane Kurys, o longa-metragem revisita a intensa e muitas vezes conturbada história de um dos casais mais emblemáticos da cultura francesa: Yves Montand e Simone Signoret. Ele, astro de alcance internacional; ela, uma das maiores intérpretes do cinema europeu. Interpretados por Roschdy Zem e Marina Foïs, Montand e Signoret voltam à vida em performances que capturam o brilho, as fraturas, a lealdade e os conflitos que marcaram décadas de parceria, incluindo a célebre e dolorosa traição de Montand com Marilyn Monroe.

Apresentado na seção Cannes Classics do Festival de Cannes 2025, o filme marca o retorno de Diane Kurys ao evento após quase quatro décadas - a última participação na mostra havia ocorrido em 1987. O roteiro, assinado por Kurys ao lado de Martine Moriconi e Sacha Sperling, levou cerca de cinco anos de investigação, mergulhando em arquivos, memórias e registros históricos. Produzido pela New Light Films, o título chega ao Brasil pela distribuidora Autoral Filmes, acompanhando a nova fase do festival no país.

No centro da narrativa está o retrato de um amor real, movido por cumplicidade e desgaste, entre duas figuras que ajudaram a moldar o imaginário do cinema francês. Simone Signoret foi a primeira atriz da França a conquistar o Oscar de Melhor Atriz, por “Almas em Leilão”, em 1960. Casada com Montand entre 1951 e 1985, ela enfrentou escândalos e turbulências sem assumir o papel de vítima - e ambos, apesar dos abalos, sempre se reconheceram como parte fundamental um do outro. 

Ficha técnica do filme
“Eu, Que Te Amei” | “Moi qui t’aimais” (título original)
Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: francês. Direção: Diane Kurys. Roteiro: Diane Kurys, Martine Moriconi e Sacha Sperling. Elenco: Roschdy Zem (Yves Montand), Marina Foïs (Simone Signoret), Thierry de Peretti, entre outros. Distribuição no Brasil: Autoral Filmes. Duração: 1h58m. Cenas pós-créditos: não. 

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terça-feira, 12 de maio de 2026

.: Cinco curiosidades mostram que “O Diabo Veste Prada 2” está mais afiado


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

Se tem um salto alto que atravessa décadas sem perder o equilíbrio, ele atende pelo nome de "O Diabo Veste Prada". E agora, quase 20 anos depois, ele volta a ecoar pelos corredores - ainda mais largos - da Runway. Com Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci de volta ao jogo, "O Diabo Veste Prada 2", em cartaz nos cinemas, entrega mais do que figurinos impecáveis: aquele prazer quase culposo de revisitar um clássico que nunca saiu de moda - só estava aguardando a estação certa para reaparecer. A seguir, listamos cinco curiosidades que fazem essa sequência parecer menos um retorno e mais um reencontro com velhos conhecidos - daqueles que a gente jura que superou, mas continua stalkeando com carinho.

1. A sequência que ninguém quis... até querer muito
Diferente de tantas continuações que nascem por insistência de bilheteria, aqui o impulso foi outro: recusa. Logo após o sucesso de 2006, a equipe preferiu deixar a história em paz, intacta, como um bom vestido que não precisa de ajustes. Foi o tempo que mudou tudo. Duas décadas depois, com o jornalismo impresso em crise e o mundo digital ditando novas regras, a pergunta deixou de ser “por que voltar?” e passou a ser “como elas sobreviveram a isso?”. E, convenhamos, imaginar Miranda Priestly lidando com algoritmos já vale o ingresso.


2. A melhor cena (segundo Anne Hathaway) não tem Anne Hathaway
Nem sempre o auge de uma experiência é protagonizado por quem conta a história. A própria Anne Hathaway confessa que sua cena favorita envolve apenas - “apenas” - Meryl Streep desfilando como Miranda Priestly na Galleria Vittorio Emanuele II. A atriz pediu para assistir à gravação como quem invade discretamente um desfile privado e saiu de lá com a certeza de ter presenciado um daqueles momentos raros em que cinema, cenário e presença se alinham sem esforço. Não é pouca coisa.


3. Figurino: mais é mais (e muito mais)
Se no primeiro filme a moda já era personagem, aqui ela assume o protagonismo sem pedir licença. A figurinista Molly Rogers apostou em uma estética que mistura tempo e trajetória: Andy Sachs agora veste a experiência, combinando peças novas com achados vintage, enquanto Miranda permanece… Miranda. No placar final: mais de 45 looks para Hathaway e quase 30 para Streep - alguns criados exclusivamente para o filme. Porque, afinal, ninguém entra na Runway repetindo roupa. Nem depois de 20 anos.


4. Quando o figurino vem da farmácia
Há um certo prazer em descobrir que, por trás de toda sofisticação, existe acaso e até improviso. Em meio à busca por acessórios à altura de Miranda, quem resolveu o impasse foi a própria Meryl Streep, surgindo com um par de brincos de argola comprado… numa farmácia. Perfeitos. Discretos, mas não demais. Elegantes, mas sem competir com a peruca icônica. O detalhe? Era o único par. E a equipe passou as filmagens tratando aquelas argolas como se fossem joias da coroa.


5. Um escritório à altura do ego (e da história)
Se o mundo cresceu, a Runway não ficaria para trás. O novo escritório de Miranda Priestly foi reconstruído do zero e multiplicado por oito. Inspirado em redações reais como a da "Vogue", o espaço aposta em mesas longas e uma atmosfera que mistura imponência e tensão. É o tipo de lugar onde uma frase sussurrada pode soar mais ameaçadora que um grito. No fim das contas, "O Diabo Veste Prada 2" parece entender algo essencial: certos universos não envelhecem - só acumulam camadas. E, entre crises editoriais, figurinos impecáveis e silêncios cortantes, talvez a pergunta mais interessante não seja o que mudou, mas o que continua exatamente igual.

"O Diabo Veste Prada 2" - Trailer legendado


domingo, 10 de maio de 2026

.: Mariana Salomão Carrara fala sobre linguagem, Justiça e desconforto


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com. Foto: Instagram da escritora

O processo começa como tantos outros: um prazo estourado, uma cobrança formal, a necessidade de responder a instâncias superiores. Mas, no caso de "Cláudia Vera Feliz Natal", novo romance de Mariana Salomão Carrara publicada pela Editora Todavia, a resposta não se limita ao que se espera de um juiz. O que deveria caber em linhas técnicas se alonga, hesita, é contaminado por memórias, desconfortos, e uma intimidade que não costuma despachar nada. Aos poucos, a defesa vira outra coisa.

Autora dos premiados romances "Não Fossem as Sílabas do Sábado" e " Árvore Mais Sozinha do Mundo", Mariana Salomão Carrara desta vez parte de um ambiente em que cada palavra carrega peso institucional para acompanhar um personagem que já não consegue sustentar a distância entre a função e a vida. As comarcas se sucedem, os vínculos rareiam, e o que se acumula não é só trabalho. Há um cansaço difícil de nomear, uma espécie de desencontro persistente com os outros, com o lugar, consigo próprio.

Sem recorrer a qualquer ideia de bastidor pitoresco, o livro circula por situações em que o cotidiano do Judiciário se aproxima do absurdo. E é nesse deslocamento que a narrativa encontra ritmo: quando o protocolo continua de pé, mas já não dá conta.

Nesta entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, a escritora comenta o humor que atravessa o texto, a solidão que não se resolve com autoridade e o que acontece quando a linguagem, mesmo treinada para decidir, começa a falhar. Compre "Cláudia Vera Feliz Natal", o novo romance de Mariana Salomão Carrara,  neste link.

Resenhando.com - Em "Cláudia Vera Feliz Natal", você transforma um documento burocrático em matéria literária. Em que momento a linguagem jurídica deixou de ser apenas forma e passou a ser, para você, também personagem?
Mariana Salomão Carrara - Desde o início minha ideia foi trazer humor a partir do ruído entre a formalidade dos vernáculos ou construções do narrador e o jorro emocional que se inicia a partir da acusação de que se defende. Conforme os dias passam e ele segue redigindo o documento, mais ele se confessa e revela sua intimidade e grandes angústias pessoais e profissionais ao órgão corregedor, o que chega a relaxar a linguagem, mas sem perder sua referência às liturgias jurídicas. O próprio narrador satiriza o “juridiquês” mais clichê, replicando os jargões costumeiros das peças advocatícias para narrar o modo como se referem a ele. Então se pode dizer que toda essa linguagem é também personagem desse livro. É dobrada e flexibilizada conforme a emoção do narrador, e quando a lei não dá conta de promover Justiça, a linguagem jurídica está lá para escancarar a ironia do seu encastelamento.

Resenhando.com - Seu jovem juiz tenta justificar a própria lentidão, mas parece, no fundo, incapaz de dar conta do que vive. Escrever esse romance foi, de algum modo, investigar o fracasso da linguagem como ferramenta de controle?
Mariana Salomão Carrara - Não sei se a linguagem de fato fracassa como ferramenta de controle. A linguagem jurídica é autorreferente e deixa o leigo alijado do saber que ela expõe. Faz com que o cidadão não compreenda, por exemplo, a sua sentença. Há inclusive uma cena em que o réu questiona, por uma frase que consta de sua condenação, se será “lançado ao rol dos culpados”. Embora muitas vezes automatizada e apartada da vida prática, essa linguagem não necessariamente falha em controlar, mas pode falhar em promover a justiça.  

Resenhando.com - Há um humor incômodo que atravessa o livro, uma espécie de riso que denuncia e constrange. O que a interessa mais: expor o ridículo do sistema ou revelar a fragilidade humana por trás dele?
Mariana Salomão Carrara - Não é possível separar as duas coisas, a sensação de ridículo que acompanha o livro ao mesmo tempo expõe as debilidades do sistema e a fragilidade humana, não somente dos atores da justiça, às vezes perdidos em seus rituais, ou impotentes diante da falha da própria nação em garantir direitos, mas também a fragilidade do cidadão que tem a sua vida decidida num processo.

Resenhando.com - No romance "A Árvore Mais Sozinha do Mundo", você constrói a narrativa a partir de objetos que observam. Já no novo romance, temos um sujeito que tenta se explicar. O que muda quando a narração deixa de observar e passa a se defender?
Mariana Salomão Carrara - Na "Árvore Mais Sozinha do Mundo", os objetos narram o que observam, mas também e principalmente o que sentem a partir disso, o que sentem sobre a família e a dor que supõem nos humanos. Nisso, também se defendem ou se culpam por seus defeitos – a toxidade da árvore, a inadequação da roupa de segurança, o a incapacidade da caminhonete rural de correr o suficiente para a urgência do parto. Defender-se e culpar-se são elementos da narração em primeira pessoa, e neste novo livro ganham também a dimensão jurídica da defesa e da culpa, com suas implicações. E é o susto de ter que se defender formalmente de algo que era na verdade um bom exercício do seu ofício que dá o gatilho para toda o relato e digressões sobre a carreira, o ato decisório e a imensa solidão do narrador.

Resenhando.com - O juiz de "Cláudia Vera Feliz Natal" tem poder sobre o destino alheio, mas não consegue sustentar vínculos pessoais. A solidão, no seu livro, é uma consequência do cargo ou uma condição anterior a ele?
Mariana Salomão Carrara - O narrador traz em si algumas dificuldades de vínculo e intimidade que podemos atribuir genericamente aos homens e, também, aos profissionais do Direito, estes perdidos entre os tratamentos formais, disputas de poder e tradições consagradas. Mas também é um sujeito peculiar, que tem muito boas intenções, mas dificuldade de alcançar propriamente o outro, vincular-se inteiramente aos novos personagens da sua vida – e não parece ter deixado muitas pessoas para trás, em São Paulo. Sua solidão é involuntária, agravada pelo deslocamento e pela sensação de ser um estrangeiro nas pequenas comarcas, mas sua inabilidade social e íntima é bastante particular sua. Tem alguma dificuldade em se conectar com as próprias emoções e faz o que pode para compreender a dos outros.

Resenhando.com - Você revisita pequenas comarcas do interior do Mato Grosso, mas evita qualquer exotização. Como equilibrar o olhar crítico sem transformar esses espaços em caricatura, algo que o próprio livro parece ironizar?
Mariana Salomão Carrara - Eu gostei da ideia de que a escolha das comarcas do livro tenha sido fruto do acaso, assim como a trajetória do narrador e de tantos profissionais aprovados em concursos em diversos estados, lotados na cidade que calhou no momento da aprovação. Eu quis descobrir junto com o juiz como seria a vida dali em diante. Um colega defensor passou a me contar em detalhes sua experiência, trazendo não só pequenos ou grandes casos e relatos do dia-a-dia profissional, mas principalmente sua sensação ao viver o deslocamento geográfico, começar uma carreira longe de sua cidade, deixar uma grande metrópole para fazer parte do sistema de justiça de uma comarca pequena, em que os atores do judiciário acabam sendo figuras conhecidas pela população, com certa notoriedade e ao mesmo tempo em perene estranhamento alienígena, com suas roupas e vernáculos solenes, e completa falta de vínculos e raízes naquele estado. Coletei depoimentos de pessoas que atuaram na burocracia de fóruns de cidades pequenas de todo o Brasil, bem como juízes, promotores, procuradores e defensores que passaram por comarcas muito pequenas ao longo de suas carreiras, inclusive, mas não somente, no Mato Grosso. A ideia foi partir dessas três cidades, com a peculiaridade de seus nomes, mas para representar algo que vai além de especificidades locais, e abordar uma realidade nacional, existente em interiores de muitos estados brasileiros, e focar na experiência desses agentes da Justiça deslocados de seus universos para lugares distantes de suas casas e com características difíceis de apreender rapidamente na atuação profissional. Então, não se trata, diferentemente do "Árvore Mais Sozinha do Mundo", de um retrato da vida naquelas cidades, mas do olhar solitário desse juiz, que acaba isolado também por alguma empáfia, própria talvez do status e da relação das capitais com as áreas ditas provincianas. O olhar crítico não recai especificamente sobre as cidades nomeadas, mas sobre o sistema jurídico em comarcas pequenas, desigualdades sociais e injustiças regionais e nacionais, sendo que a visão mais caricatural é a do olhar do narrador, que precisa de todo esse percurso narrando sua trajetória nessa peça de defesa para construir uma nova relação com o seu entorno.

Resenhando.com - Há uma recorrência de personagens femininas fortes e tensionadas em sua obra, enquanto aqui o foco recai sobre um homem em crise. O que a interessou nesse deslocamento de perspectiva?
Mariana Salomão Carrara - Embora seja narrado por um homem, é também uma outra forma de falar das mulheres. O olhar dele sobre o seu relacionamento é uma forma de imaginarmos o que na verdade ela poderia estar vivenciando com ele. Os casos jurídicos, principalmente o caso que o levou à total indecisão, é sobre maternidade e vínculos entre mulheres, e ele vem a partir da debilidade do juiz da própria letra da lei para compreender a situação. Então, o deslocamento de perspectiva traz novo ângulo para os mesmos temas, e traz também a possibiidade de passear pela amizade masculina, a dificuldade de intimidade entre amigos homens, e a solidão de um homem que quer ser uma boa pessoa, já sabe os caminhos éticos inclusive para o feminismo, mas se perde totalmente ao colocá-los em prática nas relações pessoais.

Resenhando.com - Sua escrita é frequentemente descrita como inventiva, mas também profundamente ancorada no real. Até que ponto a experimentação formal, para você, é um risco, e até que ponto é uma necessidade ética?
Mariana Salomão Carrara - Só consigo escrever escrevendo, ou seja, não sou capaz de desenhar em abstrato um enredo, uma frase, um planejamento de linguagem. Então, a inventividade vai me surpreender no ato da escrita, e conduzirá, a partir das palavras, o estilo da obra e a voz narrativa. Então, posso dizer que não há cálculo possível para mim, se haverá experimentações, riscos, reiterações. O que posso dizer é que, como leitora, o que me agrada é que o conteúdo traga uma visão de mundo interessante, e chegue elevado por um profundo prazer estético, que normalmente está ligado à habilidade com a linguagem, seja inventiva ou somente muito bem articulada literariamente. 


Resenhando.com - Depois de conquistar reconhecimento com obras como "A Árvore Mais Sozinha do Mundo", o que ainda a desestabiliza na escrita? Em outras palavras: o que você ainda não sabe fazer e, talvez, escreva justamente para descobrir?
Mariana Salomão Carrara - O que a vida de escritora mais me revela é o poder da literatura e a força dos leitores sobre o livro. Descubro com os leitores mais lados do que eu mesma escrevi.

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