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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

.: “Grande Sertão: Veredas” revela as faces de Diadorim nas telas e no palco


De Bruna Lombardi a Luiza Lemmertz e Luisa Arraes, as intérpretes de Diadorim encontram maneiras distintas de representar uma das personagens mais complexas de João Guimarães Rosa

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Poucas personagens de “Grande Sertão: Veredas” carregam tantos segredos quanto Diadorim. Companheiro de jagunçagem, amigo de infância e grande amor de Riobaldo, ela atravessa praticamente toda a narrativa escondendo a própria identidade. Para quem lê o romance, a personagem já representa um desafio. Para quem precisa colocá-la em cena, a dificuldade ganha corpo, voz, gesto, figurino e olhar. Ao longo das adaptações da obra de João Guimarães Rosa, diferentes atrizes encontraram suas próprias maneiras de lidar com essa personagem.

Sônia Clara foi Diadorim no primeiro filme, lançado em 1965. Bruna Lombardi assumiu o papel na minissérie da TV Globo de 1985. Décadas depois, Luiza Lemmertz viveu a personagem na montagem teatral e no filme de Bia Lessa, enquanto Luisa Arraes interpretou a personagem no filme de Guel Arraes, lançado em 2024. São interpretações separadas por décadas, linguagens e propostas estéticas. Em comum, todas precisam enfrentar uma personagem cuja identidade permanece deliberadamente em suspensão durante boa parte da história.


Bruna Lombardi encontra Reinaldo
Em 1985, Bruna Lombardi  recebeu de Walter Avancini a tarefa de interpretar Diadorim na minissérie de 25 capítulos da TV Globo. Tony Ramos vivia Riobaldo, enquanto Tarcísio Meira e José Dumont interpretavam Hermógenes e Zé Bebelo. A produção foi gravada em locações do sertão mineiro e apostou em uma estrutura grandiosa para levar o romance à televisão. A personagem aparecia principalmente como Reinaldo, nome pelo qual era conhecida entre os jagunços. Diadorim era o nome pelo qual Riobaldo a conhecia, numa relação marcada pela amizade, pela cumplicidade e por um sentimento que o próprio narrador demorava a compreender.

A escolha de Bruna Lombardi também contrariava, de certa maneira, a imagem que a atriz tinha naquele momento. Em entrevista concedida anos depois, ela contou que ficou surpresa com o convite de Avancini e que não compreendia inicialmente o que o diretor havia enxergado nela para o papel. A experiência acabou sendo muito mais profunda do que uma composição de personagem. 

Bruna contou que a equipe viveu no sertão durante as gravações e que Avancini buscava um realismo intenso. Para a atriz, permanecer naquele ambiente, sem os confortos habituais, ajudou a compreender Diadorim e o universo de Rosa. Ela definiu aquela experiência como uma “grande viagem da alma”. O resultado entrou para a memória da televisão brasileira. A cena em que Riobaldo descobre a verdadeira identidade de Diadorim, depois da morte da personagem, permanece entre os momentos mais marcantes da minissérie.

Uma personagem que precisava esconder até o corpo
Interpretar Diadorim exige lidar com uma particularidade que vai além do figurino masculino. A personagem precisa convencer os outros personagens e, em boa medida, o próprio leitor, de que é um jagunço. Isso significa construir uma presença que não revele imediatamente o segredo guardado por ela. A questão ganha outra dimensão quando se considera a relação com Riobaldo. O afeto existe, mas não encontra uma forma simples de ser nomeado. 

Riobaldo sente desejo, admiração, amizade e amor por alguém que acredita ser um homem. Diadorim, por sua vez, também vive uma relação afetiva marcada por limites, códigos de honra e pela necessidade de manter a própria identidade escondida. Por isso, cada intérprete precisa trabalhar com aquilo que a personagem mostra e com aquilo que precisa esconder. Na televisão de 1985, essa tensão ganhou a dimensão de uma narrativa seriada. O público acompanhava durante 25 capítulos a convivência entre Riobaldo e Reinaldo/Diadorim até chegar à revelação final. No palco, a experiência seria outra.


Luiza Lemmertz encontra a Diadorim de Bia Lessa
Em 2017, Bia Lessa levou Guimarães Rosa ao teatro em uma montagem que misturava encenação, instalação, música e artes visuais. Caio Blat interpretava Riobaldo, enquanto Luiza Lemmertz  assumia Diadorim. Luisa Arraes também fazia parte do elenco. A montagem colocava os espectadores em arquibancadas e trabalhava com uma estrutura espacial que fazia do próprio ambiente parte da narrativa. A música de Egberto Gismonti e a cenografia colaboravam para construir uma experiência que não pretendia simplesmente reproduzir o sertão descrito no livro.

Nesse espaço, Luiza Lemmertz encontrou uma Diadorim que precisava existir diante do público sem depender dos recursos de uma produção televisiva. O gesto, a voz, o corpo e a relação com Riobaldo ganhavam outra importância. A experiência com a personagem, porém, não terminaria no palco. Em “O Diabo na Rua no Meio do Redemunho”, filme de Bia Lessa inspirado em “Grande Sertão: Veredas”, Luiza Lemmertz voltou a interpretar Diadorim. A montagem teatral também tem outra particularidade interessante: Luisa Arraes estava no mesmo elenco e, anos depois, interpretaria a personagem em uma adaptação diferente, desta vez no cinema, no “Grande Sertão” de Guel Arraes.

Luisa Arraes vive outra Diadorim
No filme “Grande Sertão”, dirigido por Guel Arraes e lançado em 2024, Luisa Arraes assumiu novamente a personagem. Só que o sertão de Guimarães Rosa já não estava ali da mesma maneira. A produção deslocou a história para uma comunidade periférica urbana, cercada por muros e atravessada por conflitos entre organizações criminosas e forças policiais. Riobaldo continuou sendo interpretado por Caio Blat, que também já havia vivido o personagem na montagem de Bia Lessa. Essa mudança de território altera também a maneira como Diadorim pode ser percebida.

A personagem continua ligada a Riobaldo por uma relação de amizade, desejo e amor. Continua sendo alguém cuja identidade é protegida por um segredo. Continua inserida em uma estrutura de violência e disputa de poder. O que muda é o mundo ao redor dela. Luisa Arraes, portanto, não recebeu apenas a tarefa de interpretar novamente uma personagem conhecida. Precisou encontrar Diadorim dentro de uma adaptação que alterava profundamente o espaço, o tempo e a organização da história.


A mesma atriz, duas experiências
A presença de Luisa Arraes em "O Diabo na Rua no Meio do Redemunho", de Bia Lessa, e em "Grande Sertão", de Guel Arraes, cria uma ponte curiosa entre duas leituras cinematográficas do universo de João Guimarães Rosa. No filme de Bia Lessa, a atriz interpreta Nhorinhá e também Riobaldo jovem, enquanto Luiza Lemmertz assume Diadorim e Caio Blat vive Riobaldo adulto.

Em "Grande Sertão", de Guel Arraes, Luisa Arraes ganha outro papel central: é Diadorim, novamente ao lado de Caio Blat, que interpreta Riobaldo. A mudança de personagem acompanha uma transformação radical na proposta de adaptação. O filme de Guel Arraes desloca a história para um Brasil urbano contemporâneo, no qual a guerra entre jagunços encontra correspondência na violência das grandes cidades.

As duas produções partem de "Grande Sertão: Veredas", mas seguem caminhos próprios. A partir de Bia Lessa, a relação com a obra de Rosa passa pela experiência cênica e pela construção visual de um universo particular. No longa-metragem de Guel Arraes, o romance ganha uma leitura cinematográfica contemporânea, com os conflitos de Riobaldo e Diadorim inseridos em outro território e em outra realidade brasileira. Para Luisa Arraes, o percurso ainda guarda uma particularidade: ela passa de Nhorinhá e do jovem Riobaldo a Diadorim, assumindo diferentes lugares dentro da mesma obra.


Diadorim não termina na revelação
O maior risco ao interpretar Diadorim seja reduzir a personagem ao segredo da identidade dela. A revelação final é fundamental para a narrativa, mas ela não explica sozinha quem é Diadorim. Antes disso, a personagem já demonstrou coragem, lealdade, habilidade para a guerra, capacidade de liderança, dureza e afeto. A identidade escondida interfere em sua trajetória, mas não esgota a personalidade dela, forjando uma complexidade que permite interpretações diferentes.

Na televisão, Bruna Lombardi construiu uma Diadorim marcada pela convivência prolongada com Riobaldo e pela dimensão épica da minissérie. No palco e no filme de Bia Lessa, Luiza Lemmertz encontrou uma personagem inserida numa experiência cênica de grande intensidade física. No filme de Guel Arraes, Luisa Arraes participou de uma releitura que deslocou o universo rosiano para outro Brasil. Nenhuma dessas Diadorins precisa apagar a anterior, já que cada uma pertence ao seu tempo.

Bruna Lombardi também escreveu sobre essa experiência
A relação de Bruna Lombardi com Diadorim não terminou quando as gravações de 1985 chegaram ao fim. Em “Diário do Grande Sertão”, publicado pela Autêntica, a atriz recuperou anotações feitas durante os bastidores da produção. O livro apresenta a experiência de filmar a minissérie, acompanhada de fotografias, desenhos e materiais que ajudam a reconstruir aquele período.

A publicação ganha importância especial dentro das comemorações dos 70 anos de “Grande Sertão: Veredas”
, porque permite olhar para a adaptação de 1985 também pelo ponto de vista de quem esteve dentro dela. Bruna não retorna apenas à personagem, mas também ao sertão, à equipe, às filmagens e à experiência de conviver diariamente com um universo que, até então, existia principalmente nas páginas de Guimarães Rosa. É uma espécie de segunda travessia: primeiro, a atriz atravessou o sertão para interpretar Diadorim; décadas depois, voltou àquela experiência pela memória e pela escrita.

Uma personagem que continua mudando
Diadorim sobrevive às adaptações porque não depende de uma única aparência. Sônia Clara, Bruna Lombardi, Luiza Lemmertz e Luisa Arraes encontraram diferentes caminhos para chegar à personagem. A cada nova versão, muda o cenário, muda a linguagem, muda a época e mudam as ferramentas disponíveis para representar aquele universo.

O que permanece é a personagem criada por Guimarães Rosa: alguém que escolheu viver sob uma identidade masculina para escapar do destino reservado às mulheres de seu tempo e que construiu com Riobaldo uma relação que desafia classificações simples. A própria apresentação da personagem na minissérie de 1985 a descrevia como uma mulher que se disfarçava de homem para escapar da condição feminina no sertão. Ela não se entrega inteira de uma vez: nem ao leitor, nem a Riobaldo, nem ao público que a vê no palco ou na tela. Setenta anos depois, ainda existem novas maneiras de olhar para ela.

.: De Ryûsuke Hamaguchi, “O Mal Não Existe” confronta natureza e ganância


Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza, drama japonês acompanha comunidade rural ameaçada pela instalação de um empreendimento de glamping e chega à Reserva Imovision

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Ryûsuke Hamaguchi troca a atmosfera urbana de seus trabalhos anteriores por uma comunidade rural japonesa em “O Mal Não Existe”, filme que chega ao streaming Reserva Imovision e coloca natureza, interesses econômicos e relações humanas em rota de colisão. Vencedor do Grande Prêmio do Júri, o Leão de Prata, no Festival de Veneza de 2023, o longa-metragem confirma a disposição do cineasta de seguir por caminhos bem diferentes depois do reconhecimento internacional de “Drive My Car”.

A história acompanha Takumi (Hitoshi Omika), pai de Hana (Ryo Nishikawa), uma menina de oito anos. Os dois vivem em Mizubiki, uma pequena vila cercada por florestas, onde o cotidiano segue um ritmo distante da pressa das grandes cidades. Takumi trabalha em diferentes serviços para os moradores e conhece profundamente a região, enquanto Hana circula pela mata e aprende com o pai a reconhecer árvores, animais e caminhos.

A rotina começa a sofrer pressão quando uma empresa apresenta aos moradores um projeto de glamping, modalidade que combina a experiência de acampamento com estrutura e conforto de hospedagem. A proposta pretende atrair visitantes interessados em uma temporada de contato com a natureza, mas esbarra em questões muito concretas: abastecimento de água, tratamento de esgoto, segurança e impacto sobre o ecossistema.

A reunião entre os representantes da empresa e os moradores é uma das passagens centrais do filme. Takahashi (Ryûji Kosaka) e Mayuzumi (Ayaka Shibutani) chegam à vila para apresentar o projeto e ouvir a comunidade, mas logo percebem que conhecem pouco sobre o lugar onde pretendem instalar o empreendimento. A conversa, conduzida com aparente cordialidade, ganha contornos cada vez mais incômodos à medida que os moradores apontam problemas que deveriam ter sido considerados antes da apresentação.

Hamaguchi não transforma os representantes da empresa em vilões simplórios. Depois da reunião, o roteiro acompanha Takahashi e Mayuzumi em momentos mais pessoais, especialmente durante uma viagem de carro, quando os dois falam sobre trabalho, relacionamentos e suas próprias insatisfações. A mudança de perspectiva ajuda a embaralhar a divisão entre bons e maus e dá ao conflito uma dimensão mais humana.

O diretor já havia demonstrado interesse por personagens que se revelam por meio das conversas, dos gestos e daquilo que deixam de dizer. Em “O Mal Não Existe”, porém, a natureza ocupa um espaço muito maior. A floresta aparece desde os primeiros minutos, acompanhada pela trilha de Eiko Ishibashi, e o filme dedica tempo ao cotidiano de Takumi, aos trabalhos manuais e aos caminhos percorridos por ele e pela filha.

A parceria entre Hamaguchi e Ishibashi começou antes do longa-metragem. A compositora, responsável pela trilha de “Drive My Car”, havia convidado o cineasta para criar imagens que acompanhassem uma apresentação musical ao vivo. O resultado foi “Gift”, projeto inicialmente concebido sem diálogos. Hamaguchi percebeu naquele material a possibilidade de desenvolver uma história e transformou a ideia em “O Mal Não Existe”.

A relação entre os dois projetos é fundamental para compreender a particularidade do filme. A música de Ishibashi não funciona simplesmente como acompanhamento das imagens: ela participa da construção do clima, alternando momentos de serenidade e inquietação. O próprio percurso visual também preserva algo da experiência contemplativa que estava na origem de “Gift”.

A escolha de Hitoshi Omika para interpretar Takumi tem uma história curiosa. Segundo Hamaguchi contou ao Los Angeles Times, o diretor conheceu o ator durante a busca por locações rurais para “Gift”. Omika dirigia o carro que levava Hamaguchi pelas regiões pesquisadas e acabou chamando a atenção do cineasta. Quando recebeu o convite para atuar, Omika inicialmente ficou surpreso.

Outro detalhe pouco convencional está no figurino. Omika usou as próprias roupas durante as filmagens. Hamaguchi também explicou que imaginou Takumi com uma personalidade mais próxima de personagens interpretados por Clint Eastwood ou Charles Bronson, mas percebeu que a suavidade do ator acrescentava outra camada ao protagonista. A produção foi construída a partir de uma pesquisa do diretor por diferentes vilas japonesas. Mizubiki é uma localidade fictícia, composta por características de vários lugares visitados por Hamaguchi durante o desenvolvimento do roteiro. A equipe também filmou em áreas próximas às fronteiras das províncias de Yamanashi e Nagano.

A ameaça representada pelo empreendimento não está limitada à chegada de turistas. O projeto evidencia uma maneira de enxergar a natureza como produto, algo que pode ser organizado, vendido e consumido. A comunidade, por sua vez, conhece o território de outra maneira: a água, a floresta e os animais fazem parte da própria sobrevivência dos moradores.

É  nessa diferença de percepção que Hamaguchi encontra o conflito central. A empresa quer acelerar o projeto para aproveitar subsídios ligados ao período da pandemia, enquanto os moradores observam consequências que não cabem em uma planilha financeira. A situação aproxima o filme de questões contemporâneas sobre desenvolvimento, turismo e exploração ambiental, sem abandonar o interesse do diretor pelo comportamento humano.

A narrativa reserva uma mudança radical para os minutos finais. Depois de acompanhar durante boa parte da projeção a rotina de Takumi, os moradores e o conflito provocado pelo empreendimento, o filme encaminha a história para uma situação de violência e ambiguidade. A conclusão pode causar estranhamento porque Hamaguchi não fecha todas as possibilidades de interpretação. A floresta, a presença de um cervo ferido, o desaparecimento de Hana e a reação de Takumi colocam em primeiro plano uma relação entre instinto, proteção e violência. O que parecia ser uma discussão sobre um empreendimento turístico ganha uma dimensão muito mais sombria.


Ficha técnica
“O Mal Não Existe” | “Aku wa sonzai shinai” (título original) | “O Mal Não Está Aqui” (título em Portugal)

Gênero: drama. Duração: 106 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2023. Data de lançamento no Brasil: 1º de outubro de 2026, na Reserva Imovision. Idioma: japonês. Direção: Ryûsuke Hamaguchi. Roteiro: Ryûsuke Hamaguchi e Eiko Ishibashi. Elenco: Hitoshi Omika, Ryo Nishikawa, Ryûji Kosaka, Ayaka Shibutani, Hazuki Kikuchi e Hiroyuki Miura. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: "O Libertino" recupera Johnny Depp em papel provocador e mostra decadência


Dirigido por Laurence Dunmore, drama de época acompanha o poeta John Wilmot, vivido por Depp, entre escândalos, sexo, literatura e uma paixão que muda o rumo de sua vida

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A Inglaterra da Restauração ganha contornos pouco comportados em "O Libertino", drama histórico dirigido por Laurence Dunmore que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte. Lançado originalmente em 2004, o filme coloca Johnny Depp na pele de John Wilmot, 2º Conde de Rochester, poeta, aristocrata e personagem célebre por transformar o desprezo pelas convenções sociais em uma espécie de método de vida. Na corte de Carlos II, Rochester circula entre bebida, mulheres, provocações e escritos que incomodam justamente por atingirem quem está acostumado a mandar. O rei, interpretado por John Malkovich, decide recorrer ao velho amigo quando precisa de uma peça capaz de impressionar a corte francesa. A encomenda, porém, encontra um homem muito mais interessado em seus próprios excessos do que em cumprir qualquer obrigação real.

A situação ganha outra dimensão quando Rochester conhece Elizabeth Barry, interpretada por Samantha Morton, uma atriz ainda pouco conhecida que ele decide preparar para os palcos. A relação entre os dois começa como uma espécie de parceria artística, mas rapidamente ganha contornos afetivos e sexuais. Enquanto Lizzie desenvolve uma presença cada vez mais forte como atriz, Rochester segue numa trajetória de autodestruição que cobra uma conta bastante alta.

O filme nasceu no teatro. O roteiro de Stephen Jeffreys é baseado na própria peça "The Libertine", escrita pelo dramaturgo inglês e anteriormente encenada pela Steppenwolf Theatre Company, de Chicago. John Malkovich já havia interpretado Rochester nos palcos e, na adaptação cinematográfica, passou para o outro lado da história ao assumir Carlos II. Além de atuar, o astro também aparece entre os produtores da produção.

Johnny Depp também não teria sido a primeira opção de Laurence Dunmore para o protagonista. A ideia inicial do diretor era contar com o próprio Malkovich como Rochester, antes de o ator assumir o papel do rei. A escolha acabou criando uma curiosa troca de posições entre a montagem teatral e o filme: Malkovich conhecia profundamente o personagem principal, enquanto Depp mergulhou no aristocrata libertino com uma composição que exigia tanto extravagância quanto degradação física.

A proposta visual de Dunmore também foge do acabamento elegante que costuma acompanhar dramas ambientados na aristocracia. O filme foi realizado quase todo com câmera na mão, recurso que aproxima o espectador da sujeira, da fumaça e da desordem daquela Londres. As tomadas panorâmicas do interior do teatro são algumas das exceções e funcionam como uma mudança calculada de perspectiva.

A fotografia de Alexander Melman segue a mesma lógica. Para iluminar determinadas cenas, a equipe criou estruturas com várias velas e uma superfície refletora, batizadas nos bastidores de "birthday cakes". A iluminação precisava produzir luz suficiente sem abandonar a aparência característica de um ambiente iluminado por velas. O resultado divide opiniões até hoje: enquanto alguns espectadores consideram a imagem propositalmente áspera e coerente com o universo de Rochester, outros enxergam excesso de granulação e pouca definição. 

A produção também guarda uma daquelas histórias que parecem ter sido inventadas por alguém com senso de humor peculiar. O orçamento registrou £6.890 em óleo vegetal utilizado para produzir fumaça e neblina. A planilha ainda contabilizou £3.672 gastos em 17 pênis artificiais inspirados no século XVII. É o tipo de informação que ajuda a imaginar a quantidade de trabalho necessária para recriar uma época em que o diretor claramente não pretendia esconder os excessos de seu personagem.

A vida de John Wilmot, por si só, já oferecia material suficiente para um filme bastante indigesto. Poeta satírico e figura conhecida pela conduta escandalosa, Rochester morreu aos 33 anos, vítima das consequências de uma vida marcada pelo abuso de álcool e pela sífilis. A reputação literária, contudo, cresceu depois de ele morrer, o que acrescenta uma ironia particularmente adequada ao personagem: o homem que tratava a própria existência como uma provocação acabou conquistando reconhecimento duradouro justamente por aquilo que escrevia.

"O Libertino" não tenta tornar Rochester agradável. O próprio personagem avisa o público logo no começo que não quer ser querido. A estratégia reaparece no encerramento, numa construção que aproxima o espectador diretamente do protagonista e reforça a origem teatral do material. Essa escolha foi bastante comentada nas avaliações do filme, com espectadores destacando a força da abertura e da atuação de Depp.

O elenco acompanha a aposta. Samantha Morton encontra em Elizabeth Barry uma personagem que cresce conforme aprende a dominar o palco e, sobretudo, a não se deixar reduzir às vontades de Rochester. Rosamund Pike interpreta Elizabeth Malet, esposa do protagonista, enquanto Tom Hollander vive o dramaturgo George Etherege. Richard Coyle, Rupert Friend, Kelly Reilly e Jack Davenport completam o elenco.

John Malkovich merece atenção especial. Existe algo de deliciosamente contraditório na escalação de um ator que já havia vivido Rochester no teatro para interpretar o monarca que tenta controlar os estragos provocados pelo amigo. Carlos II conhece os excessos do poeta, tolera muitos deles e, ao mesmo tempo, precisa impedir que Rochester leve suas provocações longe demais.

O resultado é um filme deliberadamente desconfortável, com humor ácido, sexo, doença, literatura e uma visão pouco decorativa da aristocracia inglesa. "O Libertino" chegou ao público cercado por opiniões divididas, especialmente em razão da fotografia carregada, do ritmo e da forte presença do texto teatral. Ainda assim, a atuação de Depp aparece como um dos pontos mais elogiados nas avaliações, ao lado do trabalho de Samantha Morton, John Malkovich e da recriação visual do período.


Ficha técnica:
"O Libertino" | "The Libertine" (título original)
Gênero: drama histórico, biografia. Duração: 114 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2004. Data de lançamento: 18 de novembro de 2005 no Reino Unido; no Brasil, 7 de julho de 2006. Idioma: inglês. Direção: Laurence Dunmore. Roteiro: Stephen Jeffreys. Elenco: Johnny Depp, Samantha Morton, John Malkovich, Rosamund Pike, Tom Hollander, Richard Coyle, Rupert Friend, Kelly Reilly, Jack Davenport, Francesca Annis, Paul Ritter, Stanley Townsend e Johnny Vegas. Distribuição no Brasil: a confirmar para o lançamento na plataforma Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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domingo, 4 de outubro de 2026

.: “Grande Sertão” é teatro, cinema e TV em diferentes versões de Rosa


Da primeira adaptação cinematográfica, em 1965, à minissérie de 1985 e às releituras contemporâneas de Bia Lessa e Guel Arraes, “Grande Sertão: Veredas” continua desafiando quem tenta levar Rosa para outras linguagens

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Adaptar “Grande Sertão: Veredas” nunca foi tarefa das mais tranquilas. Publicado em 1956, o romance de João Guimarães Rosa combina uma narrativa cheia de desvios, centenas de personagens, batalhas, deslocamentos pelo sertão, reflexões filosóficas, histórias de amor, violência, religiosidade e uma linguagem que inventa palavras enquanto conta a história de Riobaldo.

Ainda assim, o livro chegou ao cinema menos de uma década depois da primeira publicação. Em seguida, ganhou uma das mais ambiciosas adaptações da televisão brasileira, voltou ao teatro, inspirou experiências audiovisuais de diferentes formatos e, em 2024, chegou novamente aos cinemas pelas mãos de Guel Arraes. A mesma história passou por linguagens muito diferentes sem deixar de provocar novas leituras.


O primeiro encontro com o cinema
A primeira adaptação cinematográfica de “Grande Sertão: Veredas” chegou aos cinemas em 1965, apenas nove anos depois da publicação do romance. Dirigido por Geraldo Santos Pereira e Renato Santos Pereira, “Grande Sertão” levou Maurício do Valle ao papel de Riobaldo e Sônia Clara como Reinaldo/Diadorim. Jofre Soares interpretou Zé Bebelo, enquanto Milton Gonçalves e Zózimo Bulbul também estavam no elenco. A Cinemateca Brasileira registra o filme como uma adaptação do romance. Com aproximadamente uma hora e meia, o filme precisava condensar uma história monumental. 

A narrativa acompanha Riobaldo, Diadorim e a vingança contra Hermógenes, preservando o eixo de aventura e conflito entre os jagunços. O resultado pertence a um cinema brasileiro que também dialogava com os filmes de cangaço e com o imaginário do sertão que dominava parte da produção nacional naquele período. O romance, entretanto, já apresentava um desafio que continuaria acompanhando todas as versões seguintes: como transportar para imagens uma obra cuja força está tanto no que acontece quanto na maneira como Riobaldo conta o que aconteceu?


A minissérie "Grande Sertão: Veredas" pode ser vista no Globoplay em junho. Na imagem, em destaque entre a figuração, os atores Bruna Lombardi e Tony Ramos. Foto: Globo/ Divulgação

1985: a televisão encara o romance
Vinte anos depois, a televisão brasileira resolveu apostar em uma adaptação de proporções ainda maiores. Exibida pela TV Globo entre 18 de novembro e 20 de dezembro de 1985, “Grande Sertão: Veredas” teve 25 capítulos, com roteiro de Walter George Durst, colaboração de José Antonio de Souza e direção de Walter Avancini. Tony Ramos interpretou Riobaldo e Bruna Lombardi assumiu Diadorim, enquanto Tarcísio Meira viveu Hermógenes e José Dumont interpretou Zé Bebelo.

A produção foi inteiramente gravada em locações do sertão mineiro. A equipe se instalou em Paredão de Minas, distrito de Buritizeiro, e aproximadamente duas mil pessoas participaram das filmagens ao longo de 90 dias. O esforço de produção foi tão grande que até o maestro Júlio Medaglia, responsável pela trilha sonora, passou uma semana no local para conhecer aquele universo. 

Tony Ramos se preparou fisicamente para o papel, perdeu oito quilos e fez aulas de equitação, rastejamento militar e tiro. Bruna Lombardi também passou longos períodos a cavalo durante as gravações. A escolha de levar a equipe para o sertão não era apenas uma questão de cenário, já que a produção procurava construir fisicamente o mundo dos jagunços, das travessias e dos conflitos que Rosa havia criado na literatura.


Bruna Lombardi encontra Diadorim
A interpretação de Bruna Lombardi tornou-se uma das marcas da minissérie. A atriz contou posteriormente que inicialmente teve dúvidas sobre a própria capacidade em interpretar a personagem, especialmente porque era associada a papéis de perfil mais romântico. Walter Avancini, porém, acreditava que havia nela uma força adequada à personagem.

Na história, Bruna precisava viver Reinaldo, o jagunço conhecido como Diadorim, preservando para Riobaldo - e para o público - o segredo sobre sua identidade. O conflito afetivo entre os dois ocupava o centro da narrativa televisiva. A minissérie também teve uma dimensão histórica própria. O trabalho foi realizado em uma época em que a televisão brasileira ampliava o espaço destinado às adaptações literárias, e “Grande Sertão: Veredas” entrou nesse movimento com uma produção que apostou em locações reais e em uma grande estrutura de filmagem.


Bia Lessa leva Guimarães Rosa para o palco
Entre uma versão e outra no audiovisual, o romance ganhou uma importante releitura teatral pelas mãos de Bia Lessa. Em 2017, a diretora estreou no Sesc Consolação, em São Paulo, uma montagem de “Grande Sertão: Veredas” com Caio Blat como Riobaldo e Luiza Lemmertz como Diadorim. Luisa Arraes também integrava o elenco. A montagem tinha aproximadamente três horas, estrutura de arquibancadas e fones de ouvido para o público acompanhar diálogos e trilha sonora de Egberto Gismonti. Bia Lessa não tentou simplesmente reproduzir o sertão no palco. 

A encenação trabalhou com atores, animais, plantas e elementos da paisagem, criando uma espécie de ambiente humano em constante transformação. O cenário foi concebido por Paulo Mendes da Rocha, e a experiência aproximava teatro, instalação e artes visuais. A diretora já tinha uma relação anterior com o universo de Rosa. Em 2006, havia criado uma instalação sobre “Grande Sertão: Veredas” para a inauguração do Museu da Língua Portuguesa. Anos depois, levou novamente o romance ao palco, agora com uma estrutura que colocava o espectador dentro da experiência cênica. A montagem circulou por outras cidades e chegou ao Festival de Curitiba em 2018. O trabalho recebeu o prêmio APCA de melhor direção para Bia Lessa.


Em cena de “O Diabo na Rua, no Meio do Redemunho”, os atores Caio Blat e Luiza Lemmertz interpretam Riobaldo de Diadorim. Foto: divulgação

“O Diabo na Rua, no Meio do Redemunho”
A relação de Bia Lessa com o romance não terminou no teatro. Em 2018, a diretora filmou uma nova experiência com parte do mesmo elenco. O resultado, lançado posteriormente como “O Diabo na Rua, no Meio do Redemunho”, não procurou reproduzir o romance inteiro. A própria diretora preferiu definir o processo como uma “transcriação”, termo que indicava uma liberdade maior diante do texto original. Caio Blat, Luiza Lemmertz, Luisa Arraes e Leonardo Miggiorin estavam novamente ligados ao projeto. 

As filmagens foram realizadas em 17 dias, e o filme adotou outra relação com a narrativa de Guimarães Rosa, concentrando-se em questões e fragmentos que interessavam à diretora. Essa escolha revela uma possibilidade que as adaptações de “Grande Sertão: Veredas” apresentam com frequência: não tentar carregar as cerca de 600 páginas para uma tela ou um palco, mas encontrar dentro delas uma história, uma imagem, uma relação ou uma pergunta capaz de sobreviver em outra linguagem.


Guel Arraes troca o sertão pelas periferias
Em 2024, Guel Arraes levou “Grande Sertão” aos cinemas com Caio Blat como Riobaldo e Luisa Arraes como Diadorim. O roteiro foi escrito pelo próprio diretor em parceria com Jorge Furtado. O filme chegou ao circuito nacional em junho daquele ano. A mudança mais evidente está no espaço. Em vez do sertão mineiro e dos bandos de jagunços, a produção apresenta uma comunidade periférica urbana cercada por grandes muros e dominada por organizações criminosas. A guerra entre jagunços ganha outra configuração: policiais e grupos criminosos ocupam o espaço do conflito, enquanto a relação entre Riobaldo e Diadorim continua funcionando como eixo afetivo da história.

Guel Arraes não escondeu a dificuldade de trabalhar com o romance. Em entrevista à CNN, comparou a experiência à adaptação de “O Auto da Compadecida” e explicou que o texto de Guimarães Rosa apresentava uma estrutura muito mais complexa para o cinema. A operação é radical: tirar a história do sertão histórico e colocá-la em um território urbano contemporâneo. O resultado mantém nomes, relações e conflitos fundamentais, mas altera o ambiente em que eles acontecem. Riobaldo continua procurando entender o que sente por Diadorim. A guerra continua existindo. A violência continua organizando as relações de poder. A dúvida sobre o bem, o mal, a coragem, o medo e o desejo permanece.


Do cinema para a televisão outra vez
A história não terminou com a estreia nos cinemas. Em janeiro de 2025, “Grande Sertão” ganhou uma versão em quatro episódios exibida pela TV Globo. A minissérie foi construída a partir do filme de Guel Arraes e de seu roteiro com Jorge Furtado. A mudança de formato permitiu ampliar a experiência da narrativa. Caio Blat e Luisa Arraes permaneceram como Riobaldo e Diadorim, acompanhados por Rodrigo Lombardi como Joca Ramiro, Eduardo Sterblitch como Hermógenes, Luís Miranda como Zé Bebelo, Mariana Nunes como Otacília e Luellem de Castro como Nhorinhá.

Para Caio Blat, que já havia vivido Riobaldo no teatro de Bia Lessa, o personagem representava um retorno particularmente curioso. O ator passou por duas experiências muito diferentes com a mesma obra: primeiro, uma montagem teatral que colocava o público dentro de uma espécie de sertão imaginário; depois, uma produção audiovisual que transferia os conflitos para uma periferia urbana.


Quadrinhos, música e outras veredas
As adaptações não ficaram restritas ao cinema, à televisão e ao teatro. Em 2014, “Grande Sertão: Veredas” ganhou uma versão em quadrinhos com roteiro de Eloar Guazzelli e arte de Rodrigo Rosa. A graphic novel recebeu reconhecimento em premiações voltadas aos quadrinhos, mostrando que a obra também poderia ser reorganizada pela combinação entre desenho, enquadramento e texto.

Na música, o compositor argentino Rufo Herrera criou “Sertão Sertões”, cantata cênica baseada em textos do romance, apresentada em 2001 no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. A obra reuniu música, teatro, dança e elementos visuais para construir sua própria interpretação do universo rosiano.

Em 2008, a artista Rosângela Rennó criou “Febre do Sertão”, videoinstalação que colocou em diálogo imagens do filme de 1965 e da minissérie de 1985. Em vez de escolher uma adaptação, a obra fez as duas versões se encontrarem, criando um novo trabalho a partir das imagens produzidas por outros artistas.

Não existe uma única maneira de representar o sertão de Guimarães Rosa. O filme de 1965 apostou na aventura e no conflito dos jagunços. A televisão de 1985 construiu uma produção de grandes dimensões diretamente no sertão mineiro. Bia Lessa transformou o romance em experiência cênica, trabalhando com corpos, sons, imagens e espaço. Guel Arraes deslocou os personagens para uma periferia urbana e refez as relações de poder em outro território. São caminhos diferentes para uma mesma obra.

A melhor forma de pensar essas adaptações é perceber o que cada uma escolhe preservar. Algumas ficam mais próximas da trama. Outras se aproximam de personagens específicos. Há aquelas que preferem a atmosfera, uma pergunta ou uma imagem. O livro permanece como ponto de partida, mas cada linguagem precisa descobrir o próprio modo de contar essa história. Setenta anos depois da publicação, “Grande Sertão: Veredas” continua oferecendo material para novas interpretações porque seu sertão nunca coube inteiro em uma única imagem.


sexta-feira, 2 de outubro de 2026

.: Guimarães Rosa: as paisagens, viagens e lugares que entraram para a literatura


Da boiada conduzida em 1952 às veredas, rios, chapadas e cavernas que aparecem nos livros, João Guimarães Rosa transformou o sertão mineiro em um território literário que ultrapassa qualquer mapa

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. 

Antes de ser uma paisagem literária, o sertão foi, para João Guimarães Rosa, um lugar percorrido a cavalo, atravessado em meio a boiadas, observado de perto e registrado em cadernetas. A relação do escritor com o interior de Minas Gerais não se resumiu às lembranças da infância em Cordisburgo. O escritor voltou ao sertão, conversou com vaqueiros, anotou palavras, costumes, nomes de plantas e animais, ouviu histórias e deixou que aquela experiência se misturasse à imaginação.

É dessa matéria-prima que aparece boa parte da força de “Grande Sertão: Veredas”, publicado em 1956 e celebrado agora em uma edição especial da Commpanhia das Letras pelos 70 anos. O livro apresenta rios, veredas, chapadões, matas, povoados e caminhos, mas não oferece ao leitor um simples roteiro turístico. O sertão de Guimarães Rosa é reconhecível e, ao mesmo tempo, reinventado. Existem lugares reais, outros que ganharam novas formas e aqueles que pertencem sobretudo à geografia imaginária do romance.


A viagem que colocou Rosa no caminho da boiada
Em maio de 1952, quatro anos antes da publicação de “Grande Sertão: Veredas”, o escritor Guimarães Rosa acompanhou uma comitiva de vaqueiros que conduzia uma boiada pelo sertão mineiro. A viagem partiu da Fazenda Sirga, na região de Três Marias, e terminou nas proximidades de Araçaí. Durante dez dias, o escritor esteve em contato direto com os homens, os animais e os lugares que atravessavam o caminho.

Entre os vaqueiros estava Manuel Nardy, o Manuelzão, que se tornaria uma das figuras mais conhecidas associadas ao universo rosiano. Também estava João Henrique Ribeiro, o Zito, que atuava como guia, cozinheiro e vaqueiro e conversava longamente com o escritor durante o percurso. Décadas depois, Zito ainda guardava lembranças daquela viagem e contou à revista "Cult" detalhes do trajeto e da convivência com Rosa.

O escritor registrou a experiência em cadernetas que posteriormente ficaram conhecidas como “A Boiada”. A documentação dessa viagem reúne observações sobre a paisagem, a fauna, a flora, as pessoas e a vida cotidiana do sertão. Uma mostra organizada pelo Museu Casa Guimarães Rosa descreve esse material como uma espécie de inventário da natureza e da vida sociocultural do Cerrado mineiro da década de 1950.  Não se tratava, portanto, de um escritor passando rapidamente por uma paisagem em busca de inspiração, mas de alguém que estava interessado nos detalhes. O modo de falar de um vaqueiro, o comportamento dos animais, o nome de uma planta, uma festa, uma história contada à noite, o desenho de um caminho. Tudo podia acabar transformado em literatura.


De Três Marias a Araçaí
O percurso da boiada atravessou diferentes pontos do sertão mineiro. Pesquisas sobre “A Boiada” identificam passagens por municípios como Três Marias, Corinto, Morro da Garça, Curvelo, Cordisburgo e Araçaí. O caminho aparece nos registros de Guimarães Rosa como uma sucessão de fazendas, rios, veredas e encontros. A experiência também aproximou o escritor de uma cultura que ele conhecia desde a infância, mas que agora podia observar de dentro. 

Durante aqueles dias, precisava acompanhar o ritmo da comitiva, lidar com os deslocamentos, ouvir quem conhecia a região e prestar atenção a uma realidade que dificilmente caberia em descrições genéricas. Foi nesse contato que pessoas reais começaram a alimentar personagens e situações literárias. Manuelzão, por exemplo, seria transformado em personagem de “Uma Estória de Amor”, novela de “Corpo de Baile”. A viagem de 1952, por sua vez, deixou marcas na construção do universo de “Grande Sertão: Veredas”.


Quando a paisagem vira literatura
Quem procura localizar cada passagem de “Grande Sertão: Veredas” em um mapa corre o risco de encontrar uma obra diferente daquela que o escritor construiu. O romance está profundamente ligado ao sertão mineiro e aos Gerais, mas seus espaços foram reorganizados pela ficção. O Rio São Francisco e o Urucuia, por exemplo, pertencem à geografia brasileira. Já lugares como o Liso do Sussuarão ocupam uma zona mais complexa entre referência regional e criação literária.

O próprio Parque Nacional Grande Sertão Veredas ajuda a entender essa relação. Criado em 1989 e ampliado em 2004, o parque ocupa atualmente mais de 230 mil hectares entre Minas Gerais e Bahia e recebeu o nome em homenagem ao romance. O ICMBio destaca a importância ecológica e cultural da região, que reúne áreas de Cerrado, rios, veredas e diferentes ambientes associados ao universo descrito por Rosa.

Isso não significa que o escritor tenha percorrido todo o território posteriormente protegido pelo parque. Há, inclusive, pesquisas e levantamentos que observam que não há registro da passagem dele por determinadas áreas do parque. A homenagem está ligada à relação literária entre a região dos Gerais e o romance.


As veredas, os rios e os buritis
No universo de Guimarães Rosa, a paisagem nunca está simplesmente parada. A água corre, o gado atravessa, o vento mexe os buritis, os homens caminham e os personagens mudam de rumo. As veredas, particularmente, ocupam um lugar fundamental nessa geografia. São áreas úmidas do Cerrado, frequentemente associadas aos buritis e às nascentes, que aparecem de maneira recorrente na obra. O próprio nome do romance coloca essa paisagem no centro da experiência de leitura.

O Parque Nacional Grande Sertão Veredas conserva diferentes ambientes desse tipo e possui entre seus atrativos a Vereda do Santa Rita, o encontro dos rios Preto e Carinhanha, além de trilhas, cachoeiras e mirantes. É uma paisagem que também mudou desde o tempo de Rosa. Reportagem do "Globo Repórter" de 2023 mostrou pesquisas sobre o aquecimento da região e os impactos sobre as nascentes e veredas, além de registrar ameaças ambientais enfrentadas pelo Parque Nacional Grande Sertão Veredas. A literatura, nesse caso, acaba funcionando também como uma espécie de registro de uma paisagem em transformação. O sertão que Guimarães Rosa conheceu na década de 1950 continua existindo, mas não permanece intocado.


As cavernas também entram nessa geografia
O sertão rosiano não se resume aos campos abertos e às veredas. As cavernas também fazem parte dessa paisagem. Em 2023, uma equipe do "Globo Repórter" percorreu diferentes regiões relacionadas ao universo de “Grande Sertão: Veredas” e passou pelo Parque Nacional Cavernas do Peruaçu. A região reúne centenas de cavernas mapeadas, cânions e cursos d’água. Na narrativa televisiva sobre a obra, o espaço foi associado aos refúgios de Riobaldo e dos jagunços.

O contraste é interessante: de um lado, as veredas abertas, com água e buritis; de outro, as formações rochosas, as grutas e os cânions. No livro, o sertão comporta essas diferenças sem precisar escolher uma única aparência. É um território de contrastes, onde a paisagem pode mudar tanto quanto o homem que atravessa seus caminhos.


Morro da Garça e a memória de Guimarães Rosa
O Morro da Garça ocupa outro lugar importante nessa cartografia. O município mineiro aparece ligado à trajetória do escritor e às histórias do sertão que ele conheceu durante suas viagens. A região também preserva uma memória coletiva associada a Guimarães Rosa. Em reportagem sobre o segundo programa especial do "Globo Repórter", foi registrada a visita da equipe ao município, a presença da cultura sertaneja e da tradição cigana e a Festa da Lavoura.

A ideia de preservar essa memória vai além dos livros. A proposta de criação de um Museu de Território apresentada na reportagem pretendia permitir que o percurso relacionado à viagem de Rosa pudesse ser conhecido também como experiência cultural, aproximando paisagem, memória, comunidade e literatura. Há algo particularmente bonito nisso: os lugares que ajudaram a alimentar uma obra literária passam a guardar, décadas depois, a memória do próprio escritor que os percorreu.


Manuelzão, o homem que virou personagem
Entre tantos nomes encontrados por Guimarães Rosa durante suas viagens, Manuelzão ganhou uma vida literária especialmente duradoura. Manoel Nardy era capataz da Fazenda Sirga e conduziu a boiada acompanhada pelo escritor em 1952. A fazenda onde viveu, segundo reportagem do "Globo Repórter", passou a abrigar o Museu do Manuelzão, dedicado à preservação dessa memória.

A passagem do homem real para o personagem literário revela como funcionava o olhar de Guimarães Rosa. Ele recolhia pessoas, vozes, histórias e modos de vida, mas não os transportava intactos para a página, pois os recriava. Por isso, conhecer os caminhos percorridos pelo escritor ajuda a compreender “Grande Sertão: Veredas”, mas não encerra o romance. O livro começa onde a geografia real já não consegue dar conta de tudo.


Um sertão que continua se movendo
Setenta anos depois da publicação, os caminhos de “Grande Sertão: Veredas” continuam despertando interesse porque a paisagem de Rosa nunca foi apenas cenário. Rios, veredas, chapadas, cavernas, fazendas e estradas participam da narrativa tanto quanto os jagunços. O espaço interfere nas decisões, cria obstáculos, aproxima pessoas, separa grupos e acompanha as mudanças de Riobaldo. A geografia do romance está sempre em movimento porque quem atravessa o sertão também se modifica. “o sertão é do tamanho do mundo”, frase tantas vezes associada ao universo do livro, continua funcionando tão bem como chave de leitura. O sertão de Guimarães Rosa cabe em Minas Gerais, mas não termina lá. A viagem de 1952 teve começo, percurso e destino. A viagem literária, essa, continua.


quarta-feira, 30 de setembro de 2026

.: “Grande Sertão” mobiliza personagens que atravessam amor, guerra e destino


Riobaldo, Diadorim, Joca Ramiro, Hermógenes, Zé Bebelo e outros jagunços formam uma galeria de personagens que transforma o sertão de João Guimarães Rosa em território de conflitos, afetos e escolhas

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. 

Se o sertão de João Guimarães Rosa ganhou dimensões que ultrapassam a geografia, os personagens também são bem mais complexos do que parecem. Em “Grande Sertão: Veredas” , publicado em 1956 e relançado em edição especial pela Companhia das Letras, Riobaldo narra as próprias lembranças a partir da velhice e retorna aos anos em que viveu entre jagunços, disputas, perseguições, mortes, amizades e amores. No centro dessa memória está Diadorim, personagem que acompanha Riobaldo durante boa parte da narrativa e cuja presença reorganiza o modo como ele percebe o mundo. 

Ao redor dos dois aparecem chefes de bando, companheiros de armas, inimigos e mulheres que participam de diferentes momentos da trajetória do narrador. A lista é extensa. Alguns personagens permanecem durante longos trechos da narrativa; outros entram em cena para alterar o rumo da história. Juntos, eles ajudam a construir um romance em que a aventura sertaneja convive com questões sobre identidade, desejo, violência, fé, lealdade e destino.


Riobaldo conta a própria história
Riobaldo é protagonista e narrador de “Grande Sertão: Veredas”. Quando começa a contar sua história, já é um ex-jagunço e fazendeiro. O que o leitor acompanha, portanto, não acontece no presente da narrativa, mas retorna à memória de um homem que tenta compreender acontecimentos da juventude. Antes de entrar definitivamente para a jagunçagem, Riobaldo foi professor de Zé Bebelo. Depois, aproximou-se do grupo de Joca Ramiro e passou a viver a rotina de combates e deslocamentos pelo sertão.

Entre os jagunços, recebeu o apelido de Tatarana, associado à habilidade dele com armas. Mais tarde, depois do episódio das Veredas-Mortas e do suposto pacto com o Diabo, assume a liderança do grupo e passa a ser chamado de Urutu-Branco. Essa transformação ajuda a entender uma das características mais interessantes do personagem: Riobaldo está sempre tentando descobrir quem é. Ele narra os acontecimentos, mas também questiona as próprias decisões, as crenças e aquilo que acredita ter vivido. É um personagem que age e, ao mesmo tempo, pensa sobre a própria ação. A aventura, na voz dele, nunca aparece separada da dúvida.


Diadorim guarda o segredo do romance
Diadorim chega à narrativa primeiro como Reinaldo. Para Riobaldo, é o companheiro de jagunçagem por quem desenvolve uma ligação que se torna cada vez mais intensa. A personagem é filha de Joca Ramiro e integra o bando do pai. É também quem aproxima Riobaldo daquele universo. O vínculo entre os dois é uma das grandes forças do romance. Riobaldo sente amizade, admiração, desejo, ciúme e inquietação diante de Diadorim, enquanto a personagem mantém uma postura determinada diante da guerra e da vingança pela morte do pai.

A revelação sobre a identidade dela, depois da morte, reorganiza retrospectivamente muitos dos sentimentos e acontecimentos narrados por Riobaldo. A própria memória do protagonista passa a ser atravessada pela descoberta. A personagem continua provocando interpretações diferentes sete décadas depois da publicação. Um estudo publicado pela PUC Minas em 2025, por exemplo, analisa Diadorim a partir de questões relacionadas à imagem, ao luto, à melancolia e aos estudos de gênero, destacando a força da indeterminação da personagem. É essa abertura que impede Diadorim de ser reduzida a uma única definição. Ela participa da guerra, da amizade e da busca por vingança, mas também concentra as contradições mais profundas da experiência de Riobaldo.


Joca Ramiro representa a liderança
Joca Ramiro é o grande chefe do grupo de jagunços e pai de Diadorim. Na percepção de Riobaldo, aparece como uma figura admirada e respeitada, alguém capaz de exercer autoridade sobre homens acostumados à violência e à vida errante. A morte dele, provocada pela traição de Hermógenes e Ricardão, altera o curso da narrativa. O assassinato dá origem à busca por vingança e reorganiza as alianças entre os jagunços. A partir desse momento, a história ganha uma dimensão ainda mais marcada pela perseguição. A vingança deixa de ser apenas uma questão pessoal e passa a movimentar diferentes personagens e grupos.


Hermógenes encarna a ameaça
Se Joca Ramiro representa uma liderança admirada, Hermógenes ocupa o lado oposto dessa relação de confiança. Subchefe do grupo, ele participa da conspiração que resulta na morte de Joca Ramiro ao lado de Ricardão. A figura de Hermógenes está ligada, ao longo da narrativa, à violência e à suspeita de um pacto com o Diabo. Riobaldo vê nele uma presença especialmente perturbadora, o que contribui para a associação entre o personagem e a discussão central do romance sobre a existência ou não do demônio. Hermógenes não funciona apenas como adversário de Riobaldo. Ele é uma ameaça que permite ao narrador voltar constantemente à pergunta que atravessa o livro: onde termina a vontade humana e começa aquilo que não se consegue explicar?


Zé Bebelo coloca o sertão em disputa
Zé Bebelo apresenta outra espécie de liderança. Ele pretende combater a jagunçagem e pacificar o sertão, além de alimentar ambições políticas. A relação dele com Riobaldo começa antes da entrada definitiva do narrador na vida dos jagunços: Riobaldo chega a ser professor dele, ensinando-lhe “letras e números”. A relação entre os dois, porém, não permanece restrita à sala de aula. Zé Bebelo também se torna uma espécie de mestre de Riobaldo na experiência concreta do sertão.

Mais tarde, depois da morte de Joca Ramiro e da atuação de Medeiro Vaz na busca pelos responsáveis, Zé Bebelo volta a ocupar posição central na organização dos jagunços. O personagem amplia a discussão sobre poder no romance. Ele transita entre o discurso de combate à jagunçagem e a própria lógica dos grupos armados, aproximando mundos que, à primeira vista, poderiam parecer separados.


Medeiro Vaz, Otacília e Nhorinhá ampliam o caminho de Riobaldo
Medeiro Vaz assume a liderança dos jagunços depois da morte de Joca Ramiro e conduz a perseguição a Hermógenes e Ricardão. É lembrado pelo respeito que desperta entre os homens do bando. Depois da morte dele, Zé Bebelo assume a chefia. As mulheres também ocupam lugares diferentes na trajetória de Riobaldo. Otacília é uma das pessoas por quem ele se apaixona e, posteriormente, torna-se sua esposa. Nhorinhá aparece ligada ao desejo e a outra dimensão da experiência amorosa do protagonista.

Essa multiplicidade importa porque Diadorim não existe isoladamente na vida afetiva de Riobaldo. O narrador experimenta diferentes formas de relação e, ao compará-las, revela as próprias contradições. As mulheres, os amigos, os chefes e os inimigos ajudam a formar um retrato fragmentado de um homem que passa a vida tentando compreender as próprias escolhas.


Quelemém escuta o homem que ficou
Quando Riobaldo conta sua história, existe um interlocutor atento do outro lado. É o compadre Quelemém de Góis, amigo e confidente do narrador. A presença de Quelemém é fundamental porque “Grande Sertão: Veredas”  não apresenta simplesmente uma sequência de aventuras. Riobaldo está contando, refletindo, voltando atrás, levantando dúvidas e procurando algum sentido para aquilo que viveu.

A narrativa, assim, transforma os personagens do passado em parte de uma investigação feita muitos anos depois. Riobaldo fala de Diadorim, Hermógenes, Joca Ramiro, Zé Bebelo e dos outros jagunços, mas está falando também de si mesmo. Pedro Süssekind, que colocou Guimarães Rosa em diálogo com Homero e Shakespeare no livro “O Mar, o Rio e a Tempestade: sobre Homero, Rosa e Shakespeare”, chama atenção para essa dimensão filosófica de Riobaldo. Para o pesquisador, o personagem está “à altura de Hamlet” quando se considera a capacidade dele em pensar e questionar a própria experiência.

É uma das razões pelas quais os personagens de “Grande Sertão: Veredas” continuam provocando leitores. Eles participam de uma história de jagunços, mas as perguntas não ficaram presas ao sertão de 1956. Riobaldo continua tentando entender Diadorim. Diadorim continua desafiando as certezas de Riobaldo. Hermógenes continua associado à dúvida sobre o mal. Joca Ramiro permanece como referência de autoridade. Zé Bebelo mistura guerra, política e ambição. E, ao redor deles, uma multidão de personagens ajuda a fazer do romance de João Guimarães Rosa uma narrativa tão vasta quanto o território em que foi ambientada.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

.: João Guimarães Rosa, o escritor que inventou um sertão universal


Da infância em Cordisburgo à medicina, da diplomacia na Europa às viagens pelo interior de Minas, a trajetória de Guimarães Rosa reúne experiências que alimentaram uma das obras mais singulares da literatura brasileira

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. 

Antes de ser o autor de “Grande Sertão: Veredas”, João Guimarães Rosa foi muitas coisas. Nasceu em Cordisburgo, no interior de Minas Gerais, estudou medicina, trabalhou como médico em cidades pequenas, tornou-se diplomata, aprendeu diferentes idiomas, viveu na Europa e acompanhou de perto acontecimentos políticos que atravessaram o século XX. No meio desse percurso, continuou recolhendo histórias, palavras, costumes e modos de falar.

Setenta anos depois da publicação de “Grande Sertão: Veredas”, romance mais conhecido dele que volta em edição especial pela Companhia das Letras, olhar para essa trajetória ajuda a compreender por que o sertão de Guimarães Rosa não cabe somente em um mapa de Minas Gerais. A paisagem concreta está lá, com rios, veredas, animais, vaqueiros, jagunços e pequenas comunidades. Ao mesmo tempo, o escritor encontrou naquele universo matéria para falar sobre escolhas, medo, desejo, amizade, violência, fé, coragem e dúvidas que acompanham Riobaldo durante toda a narrativa.


Um menino entre histórias e palavras
Nascido em 27 de junho de 1908, em Cordisburgo, João Guimarães Rosa era o primeiro dos sete filhos de Florduardo Pinto Rosa e Francisca Guimarães Rosa. O pai mantinha uma venda próxima à estação ferroviária, ponto de passagem de tropeiros, viajantes, comerciantes e moradores da região. O menino cresceu cercado por histórias que chegavam com essas pessoas. O contato com vaqueiros, tropeiros, caçadores e viajantes alimentou uma atenção especial para a fala e para as narrativas populares, algo que décadas depois apareceria de maneira radicalmente elaborada na literatura dele.

A relação com os idiomas também começou cedo. Guimarães Rosa aprendeu francês de forma autodidata antes dos sete anos e posteriormente estudou holandês e alemão. Ainda jovem, mudou-se para Belo Horizonte para morar com o avô materno. A facilidade com línguas se tornaria uma das marcas da trajetória dele, que não tratava o idioma apenas como instrumento de comunicação. Na literatura escrita por ele, palavras regionais, arcaísmos, neologismos e diferentes registros da fala convivem em uma escrita que exige do leitor atenção para o som, o ritmo e o significado.


O médico que conheceu o interior
Entre 1925 e 1930, João Guimarães Rosa estudou medicina na Universidade de Minas Gerais. Entre seus contemporâneos estavam Pedro Nava e Juscelino Kubitschek. Formado, começou a trabalhar como médico em Itaguara, onde atendia moradores da região e fazia visitas pelo interior a cavalo. A experiência foi decisiva para o contato direto com um universo rural que mais tarde seria reelaborado em sua ficção. O médico precisava conhecer pessoas, ouvir relatos, observar doenças, costumes, crenças e maneiras de viver. O escritor, anos depois, faria algo parecido com a linguagem.

Em 1930, Rosa casou-se com Lygia Cabral Penna, com quem teve duas filhas, Vilma e Agnes. A medicina, porém, não permaneceu como profissão principal. Depois de experiências durante a Revolução Constitucionalista de 1932 e de um período como médico da Força Pública, Rosa decidiu prestar o concurso para a carreira diplomática. A mudança de rumo levaria o futuro autor de “Grande Sertão: Veredas” para longe de Minas Gerais.


Entre o sertão e o mundo
A diplomacia ampliou o território de João Guimarães Rosa. Em 1938, já separado de Lygia, Rosa seguiu para Hamburgo como cônsul-adjunto do Brasil. Foi na Alemanha que conheceu Aracy Moebius de Carvalho, conhecida como o Anjo de Hamburgo, funcionária do consulado que se tornaria sua segunda esposa. A relação dos dois atravessaria as décadas seguintes e acompanharia uma das fases mais importantes da trajetória literária do escritor.

Durante a permanência na Alemanha, os dois participaram da emissão de vistos para pessoas perseguidas pelo regime nazista, contrariando restrições impostas pelo governo brasileiro da época. A experiência europeia colocou o escritor em contato com outra realidade histórica, distante geograficamente do sertão mineiro, mas igualmente marcada por conflitos humanos e políticos.

A carreira diplomática ainda o levaria a outros países e ampliaria o contato dele com culturas, línguas e tradições literárias. Essa circulação ajuda a entender uma característica importante da obra roseana: embora profundamente ligada ao interior brasileiro, a literatura de Rosa nunca se limita a uma representação regional. Em entrevista ao portal Resenhando.com, o professor e pesquisador Pedro Süssekind chamou atenção para essa dimensão. Ao comentar “Grande Sertão: Veredas”, afirmou que considerar Rosa simplesmente um “homem do sertão” poderia reduzir a obra dele. Para ele, o próprio escritor reconhecia essa ligação, mas acrescentava que ela era essencial, e não apenas biográfica.


“O sertão é do tamanho do mundo”
A frase, dita por Riobaldo no romance “Grande Sertão: Veredas”, acabou se tornando uma das chaves possíveis para compreender a dimensão da obra. Em 1952, Rosa fez uma das viagens mais importantes para a construção do livro. Durante dez dias, acompanhou oito vaqueiros em uma travessia pelo sertão de Minas Gerais, conduzindo cerca de 180 cabeças de gado até Araçaí. A viagem foi registrada em cadernos que posteriormente serviriam de material para “Corpo de Baile” e “Grande Sertão: Veredas”. O escritor anotava palavras, expressões, nomes de lugares, comportamentos, histórias e detalhes do cotidiano. 

A experiência reforçou uma relação que já vinha desde a infância: observar o sertão diretamente para depois reinventá-lo pela literatura não era um simples registro documental. Guimarães Rosa recolhia elementos concretos e os transformava por meio da linguagem, misturando experiência, memória, invenção e reflexão. O sertão reconhecível permanece no texto, mas passa a carregar outras dimensões. É por isso que Riobaldo pode falar de jagunçagem, batalhas, rios, fazendas e veredas enquanto pensa sobre Deus, o amor, a morte, o destino e a possibilidade de fazer escolhas.


1956: o ano de “Grande Sertão: Veredas”
O ano de 1956 foi particularmente movimentado para Rosa. “Corpo de Baile” começou a ser vendido em fevereiro. Meses depois, o escritor entregou à Editora José Olympio os manuscritos de “Grande Sertão: Veredas”. O romance chegou às livrarias em julho e rapidamente provocou forte repercussão crítica. A obra permaneceu durante meses entre os livros mais vendidos, ao mesmo tempo em que despertava debates sobre a estrutura, a linguagem e a maneira como o livro reinventava a tradição do romance brasileiro.

Guimarães Rosa já havia publicado “Sagarana”, em 1946, livro que recebera elogios de nomes como Paulo Rónai, Sérgio Milliet, José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Antonio Candido. Com “Grande Sertão: Veredas”, porém, alcançaria uma dimensão ainda maior. A trajetória posterior também ganhou um capítulo importante quando foi eleito, por unanimidade, para a Academia Brasileira de Letras em 1963. Ele adiou a posse durante anos e só assumiu a cadeira em 16 de novembro de 1967. Três dias depois, morreu, aos 59 anos, vítima de um ataque cardíaco.


Um escritor que deixou o livro aberto
A morte de João Guimarães Rosa ocorreu pouco depois da entrada dele na Academia, mas “Grande Sertão: Veredas” continuou a produzir novas leituras, adaptações e interpretações. Setenta anos depois da publicação, a obra permanece cercada por pesquisadores, escritores, artistas e leitores que encontram nela questões diferentes.

Pedro Süssekind, autor de “O Mar, o Rio e a Tempestade: sobre Homero, Rosa e Shakespeare”, defende que um clássico precisa continuar sendo lido como literatura viva, e não tratado como peça de museu. Para ele, cada nova leitura pode recolocar o romance em circulação e permitir que leitores de diferentes épocas encontrem outras possibilidades na narrativa.

Essa perspectiva ajuda a compreender por que a biografia de Guimarães Rosa interessa tanto quando se fala de “Grande Sertão: Veredas”. O livro reúne o menino que escutava histórias em Cordisburgo, o médico que percorreu o interior, o diplomata que viveu na Europa, o estudioso de idiomas e o escritor que voltou ao sertão para registrar em cadernos aquilo que depois seria transformado pela ficção.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

.: "Grande Sertão: Veredas" completa 70 anos e abre novos horizontes


Edição especial da Companhia das Letras revisita o romance de João Guimarães Rosa com material inédito e reafirma a vitalidade de um livro que atravessou gerações, leitores, linguagens e diferentes formas de interpretação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. 

Setenta anos depois de chegar às livrarias, “Grande Sertão: Veredas” continua encontrando novos caminhos para chegar aos leitores. O romance de João Guimarães Rosa, publicado originalmente em 1956, ganhou em 2026 uma edição especial pela Companhia das Letras, que recupera parte da história editorial do livro e acrescenta novos olhares a uma obra que permanece aberta a interpretações, releituras e descobertas. A comemoração vem acompanhada de um novo projeto gráfico, capa criada a partir de uma obra da artista mineira Sonia Gomes e um ensaio inédito do pesquisador Érico Melo sobre o percurso dos rascunhos até a forma final do romance. 

O volume também reúne depoimentos de escritores, artistas, críticos e leitores contemporâneos influenciados pela literatura de Rosa, entre eles Mia Couto, Alison Entrekin, Caetano W. Galindo, Eduardo Giannetti, Milton Hatoum, Bia Lessa, Ana Martins Marques, Geovani Martins, Amara Moira, Silviano Santiago, Heloisa Murgel Starling e Itamar Vieira Junior. A escolha dos nomes já indica uma das características mais interessantes da permanência de “Grande Sertão: Veredas”: o livro não pertence a uma única geração, escola literária ou maneira de ler, já que continua provocando escritores com experiências muito diferentes, pesquisadores, artistas e leitores que chegam ao romance décadas depois da primeira edição.

Pedro Süssekind, professor titular da Universidade Federal Fluminense e autor de “O Mar, o Rio e a Tempestade: sobre Homero, Rosa e Shakespeare”, resume uma das razões dessa permanência ao lembrar uma formulação de Italo Calvino: um clássico é um livro que nunca terminou de dizer o que tinha para dizer. Em entrevista ao portal Resenhando.com, Süssekind também rejeitou a ideia de que “Grande Sertão: Veredas” deva ser tratado como peça de museu ou como um livro reservado aos especialistas. Para ele, cada nova leitura tira o romance do pedestal e o coloca novamente em movimento. “Um livro fechado não tem vida, um livro já entendido não precisa ser relido”, afirmou. É uma chave interessante para entrar nos 70 anos do romance. Afinal, “Grande Sertão: Veredas” atravessou sete décadas porque nunca se deixou encerrar por uma única explicação.


Um mundo que cabe no sertão
João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 1908. Médico, diplomata e escritor, teve uma trajetória que passou por diferentes territórios antes de desembocar na literatura que o consagraria. Publicou “Sagarana” em 1946, depois de uma primeira experiência literária com “Magma”, e nos anos seguintes construiu uma obra marcada pela invenção linguística, pela oralidade, pela observação do sertão e por uma relação muito particular entre realidade e imaginação.

Em 1952, quatro anos antes da publicação de “Grande Sertão: Veredas”, Rosa percorreu durante dez dias o sertão mineiro acompanhando uma comitiva de vaqueiros. A viagem começou em Cordisburgo e atravessou parte da região do rio São Francisco. Ele registrou a experiência em cadernetas, anotando palavras, paisagens, histórias, nomes, costumes e situações que mais tarde alimentariam a produção literária dele.

O sertão que aparece no romance, portanto, não é apenas uma imaginação distante diante de um mapa. Há nesse lugar uma atmostera que carrega uma experiência concreta de deslocamento, escuta e observação. Ao mesmo tempo, a literatura de Guimarães faz esse território ultrapassar os próprios limites geográficos, o sertão dele é o mundo inteiro. Em entrevista ao portal Resenhando.com, Pedro Süssekind lembra uma das frases mais conhecidas de Riobaldo: “o sertão é do tamanho do mundo”. Para o pesquisador, o sertão roseano não deve ser compreendido apenas como uma região determinada, mas como uma dimensão existencial.

Essa perspectiva ajuda a explicar porque o romance continua encontrando leitores muito além de Minas Gerais. O sertão do autor tem jagunços, rios, veredas, fazendas, guerras e travessias, mas também carrega questões que não ficam presas à geografia: amor, amizade, violência, medo, desejo, morte, fé, culpa, escolhas e a tentativa de compreender o próprio lugar no mundo. Riobaldo narra a trajetória dele como quem tenta reorganizar a própria memória enquanto conta. Diadorim ocupa o centro de uma relação que desafia as certezas do narrador. Os jagunços formam uma espécie de sociedade em movimento, marcada por alianças, conflitos, códigos de honra e disputas. E o sertão, longe de funcionar apenas como cenário, participa da construção dessa experiência.


Uma língua que inventa caminhos
Parte da força de “Grande Sertão: Veredas” está na linguagem. Rosa recolhe expressões populares, regionalismos, palavras arcaicas, construções inesperadas e invenções próprias para produzir uma narrativa que parece nascer da fala de Riobaldo e, ao mesmo tempo, ultrapassá-la. É nesse ponto que o romance pode intimidar quem ainda não o leu. O livro ganhou uma reputação de obra difícil, erudita e até mesmo inacessível. Pedro Süssekind contesta essa distância entre o clássico e o leitor comum. Para ele, a crítica e a pesquisa podem oferecer caminhos de aproximação, desde que não substituam a experiência da leitura.

A questão também aparece no projeto comemorativo de 70 anos. Ao lado da nova edição da Companhia das Letras, a celebração inclui o audiolivro narrado por Caio Blat, com trilha sonora e participações de viola de Ivan Vilela. Em agosto, a editora programou um ciclo de debates em parceria com o Museu da Língua Portuguesa, além de outras ações relacionadas ao aniversário da publicação. A literatura, nesse caso, ganha novas vozes e formatos sem deixar de ser o que é.


O livro que virou muitas obras
Ao longo das décadas, “Grande Sertão: Veredas” saiu das páginas do romance e encontrou outras linguagens. Teatro, televisão, cinema, ensaios, estudos acadêmicos, livros de memória e releituras literárias ajudaram a construir uma espécie de cartografia paralela da obra. Antes mesmo da atual comemoração dos 70 anos, o romance já havia voltado diversas vezes ao centro da programação cultural brasileira.

Em 1985, a TV Globo exibiu a minissérie “Grande Sertão: Veredas”, com Tony Ramos como Riobaldo e Bruna Lombardi como Diadorim. Décadas depois, Bruna Lombardi recuperaria a experiência em “Diário do Grande Sertão”, livro originalmente publicado a partir dos registros feitos durante as gravações e relançado em 2026 pela Autêntica como parte das comemorações dos 70 anos.

A relação entre literatura e audiovisual ganhou outra versão com “Grande Sertão”, dirigido por Guel Arraes e roteirizado por Arraes e Jorge Furtado. A adaptação deslocou a narrativa para uma periferia urbana dominada por organizações criminosas, mantendo no centro personagens, conflitos e relações inspirados no romance de Rosa. Também houve o teatro de Bia Lessa, estudos críticos, oficinas, programas especiais de televisão e expedições pelo sertão mineiro. Em 2023, o “Globo Repórter” refez parte dos caminhos percorridos por Rosa e visitou lugares relacionados ao universo que alimentou a criação do livro. Cada uma dessas experiências acrescenta uma camada à história de “Grande Sertão: Veredas”.


Setenta anos de um livro ainda em movimento
A nova edição da Companhia das Letras chega em um momento em que o romance continua sendo lido, estudado, adaptado e discutido. O aniversário redondo oferece a oportunidade de voltar ao livro, mas também de observar tudo aquilo que se construiu ao redor dele. Há uma cronologia de vida e obra, há os cadernos da viagem pelo sertão, há os manuscritos, as diferentes edições, os estudos críticos, as adaptações, os leitores que se tornaram escritores e os escritores que continuam encontrando Rosa pelo caminho.

Em “Grande Sertão: Veredas”, Riobaldo passa boa parte da narrativa tentando compreender aquilo que viveu. Setenta anos depois, o próprio romance continua produzindo esse efeito em quem se aproxima dele: cada leitura reorganiza o que parecia conhecido e abre uma nova passagem. Talvez seja essa uma das melhores maneiras de celebrar o aniversário de uma obra como essa. Não transformá-la em monumento, mas voltar a atravessá-la nos 70 anos de um livro que continua encontrando leitores, personagens, paisagens, intérpretes e novas formas de existir.

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