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domingo, 26 de julho de 2026

.: Entrevista: Thiago Sobral, o homem que ousou matar o pai na ficção


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

No romance de estreia "O Pai, a Faca e o Beijo", escrito por Thiago Sobral, a conversa começa depois do que não tem volta: um filho diante do corpo do pai, tentando organizar a própria versão enquanto empurra todo o resto para fora do quadro. Não há espaço para testemunha, só para a fala que é despejada ali. A cidade observa de perto, como sempre, e o silêncio pesa mais do que qualquer grito.

O romance lançado pela Editora Patuá avança em cima de cortes secos, pistas falsas, desvios  e o leitor fica ali, insistindo, mesmo quando já entendeu o terreno em que está pisando. Ex-seminarista, professor, escritor estreante pela Patuá, o autor prefere o atrito à acomodação. Nesta entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, ele fala de desconfiança, linguagem, fé sem amparo e personagens que não buscam aprovação dos leitores, o que torna tudo mais interessante. Compre o livro "O Pai, a Faca e o Beijo", escrito por Thiago Sobral, neste link.


Resenhando.com - Seu romance parece sabotar o leitor o tempo todo: quando ele pensa que encontrou um afeto, ou quando espera redenção, você oferece outra coisa. Escrever, para você, é um gesto de desconfiança?
Thiago Sobral - Acredito, em partes, que sim. Desconfiança das verdades estabelecidas, das certezas inquebrantáveis. No caso de “O Pai, a Faca e o Beijo”, o leitor talvez pense que, por tratar da relação entre pai e filho, encontre alguma esperança ou possibilidade de redenção, como em tantas outras histórias que se constroem em torno disso, como a parábola do Filho Pródigo, por exemplo. Mas, na história de Santiago e Severo, temos um filho que sofreu muito com as várias violências praticadas pelo pai. Por conta disso, ele não consegue mais olhar para o lado, dialogar com as diferenças e que, por isso, busca, de todas as formas, justificar o parricídio que acabou de cometer. Nessa tentativa, ele conta a sua versão dos fatos. Versão essa que não deixa espaço para a interferência das outras personagens. Todas as possibilidades de construir um novo olhar, de se abrir a novos sentimentos e experimentar novos afetos são sumariamente ignoradas. A pergunta que surge é: Santiago age assim porque é fruto de tudo isso, ou porque escolhe se fechar a qualquer possibilidade de agir e ser diferente?


Resenhando.com - Santiago é um personagem que concentra contradições quase insuportáveis, já que encarna aquilo que combate. Em algum momento você temeu que ele se tornasse tão intragável a ponto de o público não torcer por ele?
Thiago Sobral - Eu quis construir um personagem que, de cara, fosse identificado como vítima e que, ao longo da história, oferecesse elementos capazes de justificar o seu crime e assim ganhasse a confiança do leitor. Justamente por isso, penso que, por mais que sinta vontade de abandoná-lo em seu próprio ódio e condená-lo pelo seu ato, o leitor ainda torce por ele, deseja que supere tudo aquilo e encontre o seu caminho. As possibilidades existem, alguns personagens tentam fazê-lo enxerga-las. E é por isso que o leitor, talvez, deseje, até o final, que tudo acabe bem.


Resenhando.com - No seu livro, a violência aparece como forma de cuidado, omissão e até desejo. Você diria que a forma mais cruel de agressão é aquela que consegue se disfarçar de amor?
Thiago Sobral - Ah, sem dúvida. Quase sempre, nas relações humanas das quais se espera o cuidado, a violência é justificada por quem a pratica. As surras, as palavras pesadas, as ofensas, os puxões de orelha são sempre dados na tentativa de se evitar que algo ruim aconteça. No caso do Severo, ele esperava livrar o filho de certos sofrimentos e, principalmente, de julgamentos morais. Ioiô, a mãe, tenta convencer o filho de que aquele é o jeito do pai e que, uma hora ele vai mudar. Os irmãos homens de Santiago reproduzem aquilo que veem em seu dia a dia. E o próprio Santi reproduz essa violência com seu amigo Davi, seja no ato sexual em si, seja com as palavras que dirige a ele em cada tentativa de afeto recebido. No fim, a violência aparece como parte natural da vida daquela família e como substituta do diálogo, que nunca acontece por completo, porque não são capazes de se abrir à experiência com o outro, ao universo do próximo. Cada um se fecha em suas próprias verdades. E quando não se dialoga, o que resta é a tentativa de impor ao outro as suas próprias convicções; e, por não haver palavra trocada, restam puxões de cabelo, tapas, socos e xingamentos.


Resenhando.com - Severo, o pai opressor, parece agir movido por uma lógica interna que, para ele, faz sentido. O que mais interessava a você ao construí-lo: denunciar a violência ou revelar o quanto ela pode ser racionalizada por quem a pratica?
Thiago Sobral - Na cabeça do Severo, aquela era a melhor forma de educar o filho. Não eram atitudes inconscientes ou impulsivas. Ele queria livrar Santiago de coisas que ele mesmo julgava conhecer bem. E é muito comum nos depararmos com pessoas que pensam assim. Em minha trajetória como professor, já me deparei com pais que pensam e agem dessa forma. Quantas e quantas vezes não já ouvimos a frase: “Isso é falta de surra!”? Ou “Dou uns tapas que aí vira homem rapidinho!”? Então, a violência, nesses casos, é racionalizada, revela-se como um método e é quase institucionalizada. Quanta polêmica não foi feita na época em que se debateu a “Lei da Palmada”? Muita gente pensa que é um direito dos pais corrigirem os filhos com violência, quando julgarem necessário. Tivemos um caso recente no Paraná, de um pai que chutou a filha de três anos. Então, além de denunciar a violência sofrida por muitos filhos, eu quis, sobretudo, mostrar que ela não é mero fruto do acaso. Antes, faz parte de uma estrutura, de um arranjo social muito antigo e que está aos poucos sendo questionado e combatido. Mas ainda é preciso que se faça muito mais nesse campo. Para tornar a reflexão ainda mais complexa, o livro quer propor mais uma reflexão: as violências sofridas por Santiago justificam o crime que ele cometeu?
 

Resenhando.com - A cidade de Cubatão não aparece apenas como cenário, mas como uma espécie de personagem que vigia, regula e rotula. Até que ponto a geografia, na sua escrita, é responsável pelo fracasso das relações?
Thiago Sobral - O espaço que se habita sempre exerce alguma influência sobre nós. O Determinismo, de Hippolyte Taine, ofereceu algumas ferramentas aos escritores naturalistas e estas exercem alguma influência sobre a minha literatura, embora não haja, de minha parte, uma adesão plena a esse pensamento. Mas todo cubatense compartilha, de alguma forma, um instinto bisbilhoteiro e comentador dos fatos cotidianos. Nossa geografia, espremida pela Serra do Mar, e bairros entrecortados por rios e mangues, nos aglutina de tal maneira, que, muitas vezes, temos a sensação de conhecer e saber alguma coisa sobre todo mundo. Além disso, temos as fábricas que ocupam parte significativa desse território, lançam muita fuligem no ar e esquentam a atmosfera, de modo que tudo parece sempre muito abafado. Morar em Cubatão é sufocante em boa parte do ano. E boa parte da vida, dos desejos e da personalidade de Santiago é também sufocada por ele em mesmo e pela vizinhança. Talvez por isso, a despeito da riqueza que a cidade arrecada com os impostos, seja, ainda hoje, um lugar que precisa se desenvolver e superar alguns fracassos do passado que insistem em nos marcar até os dias atuais.
 

Resenhando.com - Sua experiência como ex-seminarista aparece, de alguma maneira, no romance. Mas a fé que aparece ali não dá o conforto que as pessoas esperam de um ex-religioso. A literatura, para você, substitui a religião ou continua sendo uma forma de oração, ainda que sem resposta?
Thiago Sobral - Vejo a religião como uma institucionalização da fé. Por isso, não. A literatura não substitui a religião, embora muitos a coloquem num altar sacrossanto inalcançável. Gostei dessa ideia de ser uma forma de oração, sobretudo porque me faz pensar na experiência que orar proporciona ao que crê. É um ato de elevar o pensamento, vocalizar sentimentos e expressar desejos. A oração é a via-expressa utilizada por aquele que crê para se aproximar do Mistério Absoluto, do Totalmente Outro. Justamente por isso, nela não se encontra certeza, apenas se confia. A literatura também não nos dá certezas, antes, apresenta-nos caminhos, mostra possibilidades e, inclusive, nos permite viver aquilo que não cabe em uma única existência, podendo nos dar um gostinho de vida eterna. No livro, a religião surge como forma de opressão e de aprisionamento. Ainda que o personagem padre Jorge tente mostrar uma outra religião, aquela que se mantém fiel à “Inspiração da Boa Nova”, a que se sobrepõe é a “Instituição” religiosa. Essa coloca algemas no sacerdote, um peso sobre Severo e uma falsa convicção em Santiago. O que surge como outra possibilidade é o espírito artístico de Davi, o Pirueta, que, com sua dança e seus versos, nos deixa uma carta que se mostra quase como uma litania a Santi e um louvor ao amor e à vida.


Resenhando.com - Há ecos claros de Machado de Assis na sua ironia e no modo como você recusa absolver seus personagens. O que interessa mais a você nos diálogos que você escreve e nas tramas que constrói?
Thiago Sobral - Ao construir um personagem, é fundamental que ele tenha voz própria e que essa voz revele muito mais do que as palavras que ele diz. “O Pai, a Faca e o Beijo” é um livro que se constrói pelo que não é dito, mas que está ali; por aquilo que poderia ter sido, mas não foi. Assim, os diálogos pretendem revelar as intenções e a psicologia de cada personagem. Também busquei retratar a oralidade típica de muitas famílias cubatenses, que são formadas por migrantes nordestinos, como ocorre com a minha própria família. Para além disso, há lacunas frequentes nos diálogos entre Severo e Santiago, há insinuações, desconfianças, covardias e ironias que vão permeando as palavras ditas e não ditas. Os capítulos em que Santiago conversa diretamente com o cadáver do pai são carregados de sinceridade, ainda que esta seja calcada numa certa ilusão. Ao longo de praticamente toda a história, a forma como as falas do pai é apresentada traz quase que uma chave de leitura para todo o romance, mas que deixo para o leitor interpretar e decidir.


Resenhando.com - Em vários momentos, o leitor se vê torcendo pelo impossível, numa espécie de tentativa de salvar alguém que não está disposto a ser salvo. Você acredita que a literatura ainda pode operar algum tipo de redenção ou isso já é uma ilusão que o seu livro desmonta?
Thiago Sobral - A literatura, por si só, não opera nada. Ao mesmo tempo, a literatura pode tudo, desde que o leitor se coloque como cúmplice do que lê. Uma história só funciona realmente quando um pacto tácito e secreto é selado entre o narrador e o leitor. Feito isso, uma nova história nasce a cada leitura que se conclui de uma mesma narrativa. E é justamente essa nova história que pode operar tudo, seja uma redenção ou uma condenação. Meu livro pode levar a crer que não há redenção, mas isso ocorre por que as chances foram esgotadas, ou por que aquele que poderia redimir se recusou a olhar para os lados e enxergar outras possibilidades? Por fim, resta-nos pensar em quantas vezes não somos nós mesmos os culpados pelos fracassos e assassinatos metafóricos que cometemos ao longo da vida.


Resenhando.com - A ideia freudiana de “matar o pai” aparece como um gesto simbólico de liberdade. No seu romance, essa ruptura parece sempre incompleta. Existe liberdade possível sem destruição total?
Thiago Sobral - Essa é uma questão interessante, porque ela alcança o cerne do romance. Para escrever essa história, mergulhei no pensamento de Freud a partir dos escritos de “Totem e Tabu”. Essa ideia de matar o pai tirano para ocupar o seu lugar e assim gozar da liberdade e dos privilégios que tal posição lhe daria aparece frequentemente na conversa de Santiago com o pai defunto. Santi acredita piamente que todos os seus problemas decorrem de sua relação com o pai: o medo de que ele tenha certeza de sua orientação sexual, as surras que levou na infância e adolescência, a pele negra que ele tanto odeia e da qual se envergonha. Tudo isso forma a “herança maldita” à qual ele se refere ao longo da história e que alimenta seu discurso de ódio e preconceito contra os irmãos e contra si mesmo e que, inconscientemente, recai sobre Davi. Apesar de tudo isso, ele vai levando a vida, até que uma descoberta torna tudo insuportável para ele. É nesse momento em que seu complexo de Édipo invertido não superado se torna latente que ele passa a acreditar que o assassinato do pai será a via para a sua libertação. Porém, ao cometer o crime, se dá conta de que as coisas não são bem assim e tenta se convencer do contrário. No fim, ele destrói muita coisa, mas não destrói o principal, que está dentro de si mesmo. Por fim, não sei se é preciso destruição total para se alcançar a liberdade. Sei apenas que precisamos soltar a mão de certas coisas para que possamos ser aquilo que a nossa natureza pede de nós mesmos.
 

Resenhando.com - “O Pai, a Faca e o Beijo” termina sem oferecer catarse. Em um mercado editorial que muitas vezes aposta no conforto, você escolheu o incômodo. Escrever hoje é, para você, também uma forma de contrariar expectativas, um ato de indisciplina?
Thiago Sobral - Escrever exige, antes de tudo, constância e disciplina. Penso que justamente isso, constância e disciplina, seja uma forma eficaz de contrariar expectativas e fugir da “disciplina” adotada por muitos e, portanto uma “indisciplina” contemporânea. Esse paradoxo, acredito, perpassa o dia a dia de todo escritor, porque precisamos, muitas vezes, nos refugiarmos numa outra lógica, fora do tempo e do espaço que se constroem hoje. É como se a matéria de nossa dedicação (a palavra) precise ser buscada em lugares pouco frequentados. Não quero com isso dizer que o ofício do escritor seja algo elevado, superior. Muito pelo contrário. A palavra está na “vida ao rés do chão”, como disse o mestre Antônio Candido. Embora ele tenha usado essa expressão para se referir à crônica, penso que todo escritor precisa sentir a poeira da terra, “lamber o chão” para penetrar surdamente no reino das palavras e trazer à vida uma nova história. E isso é encarado como algo natural, ossos do ofício, pois não há nada de extraordinário na literatura. Ao mesmo tempo, ela é uma ação sublime capaz de dar ao leitor novas lentes para ver e decifrar o mundo.

sábado, 25 de julho de 2026

.: Clássico “O Ferroviário” reencontra o público no Belas Artes à La Carte


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“O Ferroviário” chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte e recoloca em circulação um dos títulos mais marcantes da filmografia de Pietro Germi. Lançado em 1956, em plena ressaca do pós-guerra italiano, o filme acompanha a derrocada íntima de Andrea Marcocci, maquinista respeitado que vê sua estabilidade ruir após um episódio traumático nos trilhos. A narrativa, conduzida pelo olhar do filho caçula, Sandro, observa de perto o desgaste de um homem que perde o chão no trabalho e em casa.

Germi dirige e interpreta o protagonista, gesto ainda incomum no cinema italiano da época. Ao lado de Luisa Della Noce e Sylva Koscina, ele constrói um retrato familiar áspero, atravessado por tensões econômicas, orgulho ferido e vínculos que se desgastam sob pressão. A escolha de um narrador infantil intensifica o impacto dramático: o que se vê não é apenas a queda de um pai, mas a formação de um olhar que tenta compreender o mundo adulto.

Embora dialogue com o neorrealismo, sobretudo na atenção à classe trabalhadora e aos ambientes reais, “O Ferroviário” assume um tom melodramático que o afasta do rigor seco de nomes como De Sica e Rossellini. As cenas filmadas em ferrovias italianas, com apoio de companhias do setor, reforçam a materialidade do cotidiano ferroviário, algo bastante elogiado à época. O filme concorreu à Palma de Ouro em Cannes e teve forte recepção popular, consolidando Germi como um dos diretores centrais do período, antes de migrar para as comédias mordazes que marcariam sua carreira nos anos 1960, como “Divórcio à Italiana”.

A história avança entre conflitos domésticos - o filho desempregado, a filha que engravida cedo, a relação delicada com a esposa - e a lenta corrosão de Andrea, que, afastado do trabalho, mergulha na bebida e na irritação constante. Ainda assim, o filme não se limita à ruína: há espaço para gestos de reconciliação, sobretudo na relação com Sandro, que observa, sofre e, por fim, reage.


Ficha técnica
“O Ferroviário” | “Il Ferroviere” (título original) 

Gênero: drama. Duração: 116 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 1956. Idioma: Italiano. Direção: Pietro Germi. Roteiro: Pietro Germi, Alfredo Giannetti. Elenco: Pietro Germi, Luisa Della Noce, Sylva Koscina, Saro Urzì, Carlo Giuffrè, Renato Speziali, Edoardo Nevola.
Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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sexta-feira, 24 de julho de 2026

.: "Crimes do Coração" reúne estrelas e transforma reencontro familiar


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Três irmãs, um tiro e um passado que não se comporta de jeito nenhum: “Crimes do Coração” chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte com a energia imprevisível de um encontro familiar que começa mal e termina pior - ou melhor, dependendo do humor de quem assiste. Dirigido por Bruce Beresford e baseado na peça vencedora do Pulitzer de Beth Henley, que assina o roteiro, o filme equilibra ironia e dor com precisão, sem perder o gosto por personagens que falam demais quando deveriam se calar e riem quando o mundo desaba.

A história parte de um gesto extremo: Babe (Sissy Spacek) atira no próprio marido e volta para a casa das irmãs, no Mississippi. Lá, reencontra Lenny (Diane Keaton), que vive à sombra de frustrações silenciosas, e Meg (Jessica Lange), uma aspirante a cantora que retorna de Hollywood carregando derrotas mal resolvidas. Entre confissões atravessadas, memórias incômodas e episódios que beiram o absurdo, o trio expõe as feridas de uma família marcada por tragédias antigas - incluindo o suicídio da mãe, um evento que ainda reverbera nas três. 

Keaton, Lange e Spacek evitam qualquer disputa de protagonismo e constroem uma dinâmica de cumplicidade que sustenta o filme até nos momentos mais irregulares. Spacek venceu o Globo de Ouro e recebeu indicação ao Oscar, repetindo o feito de Tess Harper, indicada como coadjuvante. O roteiro também entrou na disputa da Academia, reforçando a força do texto original de Henley. Nos bastidores, a produção reuniu três atrizes em fases distintas da carreira, o que contribuiu para a tensão criativa em cena. Jessica Lange já era um nome consolidado, Diane Keaton buscava novos rumos após colaborações marcantes nos anos 1970, e Spacek vinha de uma sequência de papéis intensos. O resultado aparece na tela: um jogo de forças que nunca se acomoda. 

Durante as filmagens, Lange estava grávida, o que exigiu ajustes discretos na encenação. Lançado em 1986, o filme teve recepção crítica favorável, ainda que dividida quanto ao tom, que oscila entre a comédia ácida e o melodrama familiar. Há ecos do gótico sulista e de autores como Tennessee Williams, mas com um enquadramento feminino que desloca o eixo das histórias tradicionais. 


Ficha técnica
“Crimes do Coração” | “Crimes of the Heart” (título original)
Gênero: comédia dramática. Duração: 1h45. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1986. Idioma: inglês. Direção: Bruce Beresford. Roteiro: Beth Henley. Elenco: Diane Keaton, Jessica Lange, Sissy Spacek, Sam Shepard, Tess Harper. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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.: Curta-metragem “Beijo de Sal” expõe amizade e implode certezas masculinas


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Beijo de Sal”, curta-metragem dirigido por Fellipe Barbosa, estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision como parte da coleção “Pequenas Jornadas - Curtas-Metragens”, que reúne histórias breves e contundentes. Lançado originalmente em 2005, o filme circulou por festivais relevantes - venceu o Curta Cinema (Rio, 2006) e marcou presença em Gramado, Sundance e Clermont-Ferrand -, consolidando o nome do diretor ainda no início da carreira.

Ambientado em uma ilha isolada na Costa Verde do Rio de Janeiro, o filme acompanha Rogério (Rogério Trindade), um quarentão hedonista que vive entre festas e excessos. A rotina muda quando ele recebe o amigo Paulo (Domingos Alcântara), agora comprometido, acompanhado da nova parceira. O encontro, que deveria ser uma celebração de velhos tempos, vira campo de disputa. Rogério tenta resgatar o amigo para uma vida que já não cabe mais, enquanto a presença feminina tensiona uma relação marcada por dependência, ciúme e disputas de território.

O roteiro, assinado pelo próprio Fellipe Barbosa, investe em diálogos diretos e situações que flertam com o desconforto. A dinâmica entre os personagens escancara ambiguidades afetivas, sugerindo camadas que ultrapassam a amizade convencional. Em entrevistas à época, o diretor comentou que relações muito próximas podem carregar zonas de ambiguidade emocional, leitura que o filme sustenta sem didatismo. No elenco, além de Rogério Trindade e Domingos Alcântara, aparecem Suzana Pires, Pollyanna Simões, Mônica Bresser, Juliana Gonçalves, Eduardo Dargains e Bruno Mendes. O conjunto sustenta a atmosfera crua da narrativa, que não suaviza conflitos, nem busca conciliação.

A recepção crítica foi marcada por reações divididas. Parte do público destacou a ousadia temática e a execução técnica, enquanto outros apontaram incômodo com determinadas escolhas visuais - especialmente na cena final, pensada pelo diretor como metáfora de marcação de território. Ainda assim, o filme ganhou fôlego em revisões posteriores, sendo reconhecido pela construção de personagens e pela coragem em tratar de masculinidade, posse e desejo sem fazer nenhuma concessão. Com menos de 20 minutos, “Beijo de Sal” entrega um recorte intenso sobre amizade e transformação. 


“Beijo de Sal”
Gênero: drama, curta-metragem. Duração: 19 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2005. Idioma: português. Direção e roteiro: Fellipe Barbosa. Elenco: Rogério Trindade, Domingos Alcântara, Suzana Pires, Pollyanna Simões, Mônica Bresser, Juliana Gonçalves, Eduardo Dargains, Bruno Mendes. Distribuição no Brasil: Reserva Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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quinta-feira, 23 de julho de 2026

.: “Jogo da Morte”: filme inacabado de Bruce Lee revela bastidores incômodos


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Jogo da Morte” chega à plataforma de streaming Reserva Imovision carregando um peso que poucos filmes sustentam: a ausência do próprio protagonista. Lançado em 1978, cinco anos após a morte de Bruce Lee, o longa-metragem dirigido por Robert Clouse foi remontado a partir de material incompleto, dublês e decisões que ainda hoje dividem fãs e críticos. Na trama, Billy Lo (Bruce Lee), astro do cinema de artes marciais, recusa a proteção - e o controle - de uma organização criminosa. A resposta vem em forma de atentados. Para sobreviver, ele simula a própria morte e retorna às sombras, disposto a desmontar o esquema por dentro. O enredo do filme, cujo título original é “Game of Death” e em Portugal se chama “O Último Combate de Bruce Lee”, vai direto ao ponto e serve de trilho para sequências de luta que alternam vigor e improviso técnico.

A produção carrega marcas visíveis de uma produção conturbada. Lee havia iniciado o projeto em 1972, com uma ideia mais ambiciosa: um percurso filosófico e físico por uma torre, enfrentando adversários em cada nível - conceito que ficou célebre na sequência final. Com a morte repentina do ator, vítima de edema cerebral em 1973, o projeto foi interrompido. Coube a Clouse - que já havia dirigido o astro em “Operação Dragão” - finalizar o material com um novo roteiro, incorporando dublês, cenas de arquivo e até imagens reais do funeral de Lee.

Essa costura irregular aparece em cena. Em vários momentos, o rosto do protagonista é ocultado ou recriado de forma rudimentar, enquanto o corpo pertence a outro intérprete. Ainda assim, quando Lee de fato surge - especialmente no confronto com o gigante Kareem Abdul-Jabbar - o filme ganha outra atmosfera. São minutos que lembram por que o nome dele marcou a história do cinema. 

Entre as curiosidades que cercam a produção, destaca-se o uso de mais de 30 minutos de material original filmado por Lee, além da participação de nomes próximos ao ator, como Dan Inosanto, seu colaborador nas coreografias. O icônico macacão amarelo com listras pretas, criado para o filme, se tornaria referência pop replicada em obras posteriores. Também chama atenção o fato de a versão final ter abandonado quase completamente a proposta filosófica original do artista, substituída por uma narrativa de vingança mais convencional. Há cortes bruscos, soluções apressadas e escolhas discutíveis. Ainda assim, resiste como documento de um projeto interrompido e de um artista que não chegou ao fim do próprio filme.


Ficha técnica
“Jogo da Morte” | “Game of Death” (título original) | “O Último Combate de Bruce Lee” (título em Portugal)
Gênero: ação / artes marciais. Duração: 94 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1978. Idioma: inglês e cantonês. Direção e roteiro: Robert Clouse, Bruce Lee. Elenco: Bruce Lee, Colleen Camp, Robert Wall, Gig Young, Dean Jagger, Kareem Abdul-Jabbar. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: “Caçador de Assassinos”, o filme que antecipa Hannibal Lecter, retorna


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O suspense “Caçador de Assassinos” chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte  com o peso de um clássico que demorou a ser reconhecido. Dirigido e roteirizado por Michael Mann, o longa-metragem de 1986 - originalmente “Manhunter” e exibido em Portugal como “Caçada ao Amanhecer” - antecipa em anos a febre em torno de Hannibal Lecter ao adaptar “Dragão Vermelho”, romance de Thomas Harris.

Na trama, Will Graham (William Petersen) é um ex-agente do FBI que volta à ativa para caçar um serial killer conhecido como “Fada do Dente”. O retorno cobra caro: para entender o criminoso, Graham se aproxima perigosamente de sua lógica, enquanto revisita o trauma de ter capturado - e quase sido destruído por - o psiquiatra canibal Hannibal Lecktor, aqui vivido por Brian Cox em registro contido, distante do espetáculo que viria depois com Anthony Hopkins. Ao lado de Petersen, o elenco reúne Kim Greist, Joan Allen e Dennis Farina, com Tom Noonan compondo um assassino perturbador sem recorrer a caricaturas.

Filmado com rigor estético e obsessão por luzes frias, arquitetura limpa e trilha eletrônica, o filme cristaliza a assinatura visual de Mann nos anos 1980. A fotografia investe em azuis e neons para espelhar o estado mental dos personagens, enquanto o ritmo aposta na construção de tensão. A recepção inicial foi morna e o desempenho comercial, aquém do esperado - arrecadou cerca de US$ 8,6 milhões nos Estados Unidos -, mas o tempo reposicionou o filme: hoje, ocupa o posto de cult e é frequentemente citado como um dos thrillers mais influentes do período.

Há detalhes de bastidores que ampliam a experiência. Tom Noonan evitava contato com o restante do elenco para preservar o desconforto em cena, decisão apoiada por Mann. Joan Allen passou por treinamento com pessoas cegas para construir Reba com precisão. E a mudança de “Lecter” para “Lecktor” no filme buscou evitar associação com um título anterior pouco conhecido. Curiosamente, a produção também trocou o nome do livro na tela, “Dragão Vermelho”, após o fracasso de “O Ano do Dragão”, temendo rejeição do público ao termo. Décadas depois, “Caçador de Assassinos” permanece como um estudo seco sobre obsessão e método, mais interessado na mente do investigador do que no espetáculo do monstro. 


Ficha técnica
“Caçador de Assassinos” | “Manhunter” (título original) | “Caçada ao Amanhecer” (título em Portugal)
Gênero: policial, suspense. Duração: 1h58. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1986. Data de lançamento: 15 de agosto de 1986 (EUA). Idioma: Inglês. Direção: Michael Mann. Roteiro: Michael Mann (baseado em “Dragão Vermelho”, de Thomas Harris). Elenco: William Petersen, Kim Greist, Joan Allen, Brian Cox, Dennis Farina, Tom Noonan, Stephen Lang. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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segunda-feira, 20 de julho de 2026

.: Filme “Judas” encara a religião e reabre feridas históricas em Jerusalém


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Judas” estreia plataforma de streaming Belas Artes À La Carte  e mergulha em debates que passam pela fé, política e desejo sem perder o pulso dramático. Dirigido por Dan Wolman, veterano do cinema israelense, o longa-metragem adapta o romance homônimo de Amos Oz, lançado em mais de 30 países e frequentemente lembrado em apostas para o Prêmio Nobel de Literatura. A narrativa se passa em Jerusalém, no inverno de 1959, quando a cidade ainda carregava as marcas recentes da divisão pós-1948.

No centro da história está Shmuel Ash (Yuval Livni), um estudante que abandona a universidade após o colapso financeiro do pai e aceita trabalhar como acompanhante de Gershom Wald (Doron Tavori), um intelectual idoso, debilitado e ávido por conversa. A rotina da casa gira em torno de longas discussões sobre religião e história, especialmente a figura de Jesus e o papel de Judas Iscariotes - tema da tese inacabada de Shmuel. É nesse ambiente carregado de ideias que surge Atalia (Einav Markel), nora viúva de Wald, presença enigmática que desloca o jovem protagonista para um território afetivo tão instável quanto as convicções dele.

A adaptação de um livro conhecido pela densidade filosófica exigiu escolhas radicais de roteiro. Shoshi Wolman opta por preservar o embate verbal como motor dramático, sustentando a tensão em diálogos que questionam versões consolidadas da história. A hipótese de Shmuel - a de que Judas teria sido o mais fiel dos apóstolos - amplia o olhar ao tocar nas origens do conflito judaico-árabe e nas raízes do antissemitismo, sem transformar o debate em discurso didático.

Dan Wolman realizou “Judas” já octogenário, reafirmando uma carreira de décadas e festivais como Cannes, Veneza e Berlim. O filme foi selecionado para eventos como o Festival Internacional de Cinema de Haifa e o Festival de Cinema Judaico de Paris, consolidando sua circulação internacional. Há também um gesto de retorno: décadas antes, o diretor já havia levado ao cinema outra obra de Amos Oz, “Meu Michael”, reforçando um diálogo persistente com o escritor. O resultado é um drama que prefere o confronto de ideias à ação física, sem abrir mão de intensidade.


Ficha técnica
“Judas” | “Judas” (título original)
Gênero: drama. Duração: 84 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2022. Idioma: hebraico. Direção: Dan Wolman. Roteiro: Shoshi Wolman, baseado no romance de Amos Oz. Elenco: Yuval Livni, Doron Tavori, Einav Markel. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

.: Filme “Camille Claudel” escancara o preço da genialidade feminina


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

 “Camille Claudel” estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte e recoloca em circulação um dos retratos mais intensos já feitos sobre a criação artística e seus abismos. Dirigido por Bruno Nuytten, que até então era reconhecido sobretudo como diretor de fotografia, o longa-metragem de 1988 transforma a trajetória da escultora francesa em um estudo visual e emocional de grande fôlego.

No centro da narrativa está Isabelle Adjani, em uma atuação que atravessa fases distintas da vida da personagem com vigor e precisão. A Camille Claudel interpretada por ela surge jovem, obstinada e inquieta, ganha força ao se afirmar como artista e, aos poucos, começa a se desorganizar diante de perdas, frustrações e isolamento. O desempenho rendeu a ela o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim e uma indicação ao Oscar, consolidando o trabalho como um dos pontos altos de sua carreira.

Ao lado dela, Gérard Depardieu interpreta Auguste Rodin com uma presença que oscila entre o mentor generoso e o homem incapaz de romper com suas próprias contradições. A relação entre os dois sustenta o eixo dramático do filme, misturando admiração artística, desejo, disputa e ressentimento. O elenco ainda reúne nomes como Laurent Grévill, Alain Cuny e Madeleine Robinson, compondo um ambiente familiar e social que pressiona e delimita os caminhos da protagonista.

O roteiro, assinado por Nuytten e Marilyn Goldin, parte da biografia escrita por Reine-Marie Paris, sobrinha-neta de Camille, e se mantém atento aos detalhes históricos. A reconstrução da Paris do final do século XIX aparece com rigor, tanto nos cenários quanto nos figurinos e na ambientação dos ateliês, onde o gesto artístico ganha dimensão quase física. A fotografia de Pierre Lhomme acompanha essa proposta com enquadramentos que lembram esculturas, valorizando textura, luz e volume.

Há ainda curiosidades que ampliam o alcance da obra. Isabelle Adjani já havia interpretado outra figura marcada por sofrimento psíquico em “A História de Adèle H.”, o que estabelece um curioso paralelo em sua filmografia. O filme também inclui uma cena que menciona a morte de Victor Hugo, conectando a narrativa a um momento histórico específico. Outro detalhe envolve Alain Cuny, que interpreta o pai da protagonista e, fora das telas, teve contato real com Paul Claudel, irmão da escultora.

“Camille Claudel” também acumulou reconhecimento em premiações importantes. Além das indicações ao Oscar, conquistou diversos prêmios César, incluindo Melhor Filme, Melhor Atriz, fotografia, trilha sonora e direção de arte. A trilha assinada por Gabriel Yared reforça a atmosfera dramática, enquanto a duração extensa - cerca de 175 minutos - permite acompanhar a transformação da personagem com tempo e densidade. A chegada do longa ao catálogo do Belas Artes à La Carte amplia o acesso a uma obra que segue atual ao discutir autoria, reconhecimento e o lugar da mulher em um meio historicamente dominado por homens.


Ficha técnica
"Os Anarquistas" | "The Anarchists" (título original)
Gênero: drama, ação. Duração: 100 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2000. Data de lançamento: 29 de abril de 2000. Idioma: coreano. Direção: Yu Young-sik. Roteiro: Park Chan-wook, Lee Moo-young, Bangnidamae. Elenco: Jang Dong-gun, Kim Sang-jung, Jeong Jun-ho, Lee Beom-soo, Kim In-kwon, Ye Ji-won. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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domingo, 12 de julho de 2026

.: “Mãe D’Água”: documentário revela ritual inédito e tensiona fronteiras


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Mãe D’Água”, novo documentário dirigido por Karim A. Soumaïla, estreia na estreia plataforma de streaming Reserva Imovision com um mergulho sensível e rigoroso em práticas espirituais e na memória viva do povo Kariri-Xocó. A produção acompanha o próprio cineasta franco-africano em uma jornada de iniciação ao ritual da jurema, conduzida dentro da aldeia, em Alagoas, território historicamente marcado por disputas e resistência cultural.

A presença de Soumaïla no ritual carrega um peso simbólico: pela primeira vez na história recente, a comunidade autoriza a participação de um estrangeiro nesse processo, tradicionalmente restrito. A decisão amplia o alcance do filme e transforma a experiência em registro raro, que articula pertencimento, escuta e responsabilidade. O diretor não se coloca como observador distante; assume o risco da vivência e incorpora ao filme as tensões desse encontro.

Ao longo de 53 minutos, “Mãe D’Água” constrói um percurso que cruza espiritualidade, identidade e política. A narrativa percorre histórias de luta pela terra, evidencia vínculos entre povos indígenas e afrodescendentes e recupera memórias que permanecem fora dos arquivos oficiais. A jurema, elemento central do ritual, aparece não apenas como prática religiosa, mas como elo entre gerações e forma de preservação de saberes ancestrais.

Karim A. Soumaïla, conhecido por trabalhos que investigam deslocamentos culturais e identitários, mantém aqui uma abordagem direta, com imagens que privilegiam o tempo do ritual e a escuta dos participantes. O documentário evita didatismos e aposta na experiência como forma de aproximação, convidando o espectador a acompanhar um processo que altera a percepção do próprio realizador sobre o Brasil e sobre si.

Produzido no Brasil, o filme dialoga com debates contemporâneos sobre território, ancestralidade e reconhecimento, ampliando o olhar para comunidades que seguem defendendo seus modos de vida diante de pressões externas. A estreia na Reserva Imovision reforça o espaço do documentário como instrumento de circulação dessas narrativas.

Ficha técnica
“Mãe D’Água” 
Gênero: documentário. Duração: 53 minutos. Classificação indicativa: 10 anos. Ano de produção: 2026. Idioma: português. Direção e roteiro: Karim A. Soumaïla. Elenco: Povo Kariri-Xocó e Karim A. Soumaïla. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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A equipe do Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. 
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.: “O Rei e Eu” desembarca no streaming e reacende o fascínio dos musicais


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“O Rei e Eu” chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte resgatando um dos musicais mais celebrados de Hollywood. Lançado em 1956, o filme dirigido por Walter Lang adapta para o cinema o sucesso da Broadway assinado por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II, com roteiro de Ernest Lehman. No elenco, Yul Brynner, Deborah Kerr e Rita Moreno conduzem uma narrativa que combina romance, embate cultural e espetáculo visual.

Ambientada no antigo Sião, a trama acompanha a professora britânica Anna Leonowens (Deborah Kerr), contratada para educar os filhos do rei Mongkut (Yul Brynner). O encontro entre os dois personagens se transforma em um jogo de forças marcado por diferenças de visão de mundo, protocolos rígidos e uma curiosidade crescente. Entre lições, rituais e tensões políticas, o vínculo que se estabelece evita simplificações e ganha densidade ao longo da narrativa.

O longa-metragem conquistou cinco Oscars, incluindo Melhor Ator para Yul Brynner, que superou nomes como James Dean e Kirk Douglas. A atuação consolidou o ator como a face definitiva do rei Mongkut, papel que ele interpretou milhares de vezes também nos palcos ao longo da vida. Deborah Kerr, por sua vez, teve suas canções dubladas por Marni Nixon, voz recorrente em grandes musicais da época, como “West Side Story” e “My Fair Lady”.

A produção também guarda episódios curiosos. Cogitou-se Marlon Brando para o papel do rei, enquanto Maureen O’Hara chegou a ser considerada para viver Anna. A escolha de Deborah Kerr partiu do próprio Brynner. Durante as filmagens, os figurinos pesados - alguns com mais de 15 quilos - exigiram esforço físico considerável da atriz. Já a famosa sequência ao som de “Shall We Dance?” demandou ensaios rigorosos para equilibrar elegância e tensão dramática.

Apesar do reconhecimento internacional e do sucesso de público, “O Rei e Eu” enfrentou resistência na Tailândia, onde foi proibido por ser considerado desrespeitoso à figura histórica do rei Mongkut. Ainda assim, o filme se mantém como referência estética e narrativa dentro do gênero musical, ocupando posição de destaque em listas do American Film Institute. A chegada ao streaming oferece uma nova oportunidade para revisitar um clássico que reúne cenários grandiosos, figurinos marcantes e uma história construída sobre choque cultural, poder e transformação.


Ficha técnica
“O Rei e Eu” | (“The King and I” (Título original)
Gênero: musical, romance. Duração: 133 minutos. Classificação indicativa: livre. Ano de produção: 1956. Data de lançamento: 28 de junho de 1956. Idioma: inglês. Direção: Walter Lang. Roteiro: Ernest Lehman. Elenco: Yul Brynner, Deborah Kerr, Rita Moreno, Martin Benson, Rex Thompson. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sábado, 11 de julho de 2026

.: Crítica: “Mamma Mia!", musical aposta no feminino e sai vitorioso no palco


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

Sucesso retumbante no Rio de Janeiro e agora em São Paulo, o musical “Mamma Mia!” cumpre exatamente o que promete: divertir, emocionar e colocar uma plateia inteira para cantar. Em cartaz até este dia 9 de agosto no BTG Pactual Hall, em São Paulo, a temporada do musical criado a partir dos sucessos do grupo ABBA reafirma a força popular com uma montagem eficiente, vibrante e consciente do próprio impacto. Dirigido por Charles Möeller, com versão brasileira e supervisão musical de Claudio Botelho, o espetáculo aposta em uma encenação ágil, colorida e afinada com o gosto do público.

A história é clássica: em uma ilha grega, Sophie, prestes a se casar, convida três antigos amores da mãe, Donna, na tentativa de descobrir quem é o pai dela. O enredo, que mistura romance e comédia, serve de base para uma sequência de hits que o público reconhece nos primeiros acordes - “Dancing Queen”, “Mamma Mia”, “The Winner Takes It All”, “Money, Money, Money”. O que faz a montagem ser inesquecível, no entanto, está no elenco. 

Giovanna Rangel, que interpreta Sophie, domina a cena com muito carisma. A presença dela é leve, segura e magnética, dessas que organizam o espetáculo ao redor sem esforço. Ao lado dela, Sérgio Menezes, no papel de Sam Carmichael, constrói uma relação convincente, com química e momentos que sustentam o envolvimento emocional da plateia com a história dos dois personagens. Claudia Netto assume a protagonista Donna com experiência e firmeza, enquanto Totia Meireles circula com naturalidade e precisão, encontrando o humor certo em cada entrada. 

Gottsha, por sua vez, impõe respeito desde a primeira nota: o vozeirão da artista não passa despercebido e funciona como um selo de qualidade dos espetáculos em que participa. Entre os papéis masculinos de destaque, Claudio Galvan, como Harry Bright, surge como uma surpresa valiosa. Famoso pelas dublagens, ele ostenta uma presença cênica forte, domínio vocal e timing que eleva todas as cenas em que participa. É um prazer vê-lo no palco. A interpretação de Renato Rabelo, no papel Bill Austin, aposta na suavidade, que agrada sem esforço. Figura conhecida nos lares brasileiros, pelas produções que participou ou pelo podcast que apresenta, a presença dele é algo que torna tudo ainda mais aconchegante para a plateia.

Com mais de 20 artistas em cena, o conjunto funciona bem e garante números musicais que mantêm o ritmo elevado. A direção aposta na comunicação direta com o público, sem rodeios, e acerta ao não complicar o que já nasce promissor: canções conhecidas, personagens carismáticos e uma história que flerta com o absurdo sem perder a afetuosidade. 

Há ainda um aspecto que se destaca: a leitura do espetáculo como um elogio à autonomia feminina. Donna se basta sozinha, Sophie questiona o próprio destino, as amigas exalando liberdade. O texto, escrito na década de 1990, encontra eco imediato em plateias atuais, que respondem com entusiasmo. “Mamma Mia!” não tenta reinventar o musical e nem precisa. A montagem brasileira é executada com competência, apostando no talento do elenco e na força de um repertório que atravessa gerações. O resultado é um espetáculo leve, afiado e irresistivelmente comunicativo. 

Na reta final de temporada, a produção se confirma como uma escolha certeira para quem quer sair do teatro com um refrão na cabeça e a sensação de que o palco ainda sabe reunir gente em torno de algo simples e bem feito. “Mamma Mia!” acerta ao apresentar personagens que erram, confundem, metem os pés pelas mãos e, ainda assim, encontram um caminho possível. É dessa matéria imperfeita, cheia de tropeços e recomeços, que o espetáculo extrai a força de reconhecer, no riso e na música, a humanidade de quem insiste em seguir em frente.


Ficha técnica
"Mamma Mia - O Musical" 
Um espetáculo de Charles Möeller & Claudio Botelho
Uma superprodução Aventura
Direção, cenário e figurinos: Charles Möeller
Versão brasileira e supervisão musical: Claudio Botelho
Direção musical: Marcelo Castro
Coreografia/Diretora residente (SP): Mariana Barros
Desenho de luz: Vinícius Zampieri
Desenho de som: André Breda
Coordenação artística: Tina Salles
Direção de produção: Bianca Caruso
Direção artística e produção geral: Aniela Jordan
Direção de negócios e marketing: Luiz Calainho
Elenco: Claudia Netto (Donna Sheridan), Totia Meireles (Tanya), Gottsha (Rosie), Sérgio Menezes (Sam Carmichael), Claudio Galvan (Harry Bright), Renato Rabelo (Bill Austin) Giovanna Rangel (Sophie Sheridan), Eduardo Borelli (Sky), Tabatha Almeida (Ali), Mari Marques (Lisa), Vicenthe Delgado (Pimenta), Murilo Armacollo (Eddie), Ju Romano (Grega), Talita Silveira (Grega), Leo Wagner (Grego/Padre Alexandrios), Vinicius Cafer (Grego), Lorena Fraga (Grega), Bruno Kimura (Grego), Guilherme Lopes (Grego), Thiago Garça (Grego), Hugo Lopes (Grego), Isabela Yunes (Grega), Yas Fiorelo (Grega), Bruna Lemberg (Swing), Henrique Reinesch (Swing).


Serviço
Espetáculo "Mamma Mia! - O Musical"
Temporada 2026 no BTG Pactual Hall
Até dia a 9 de agosto
Sextas-feiras, às 20h00. Sábados, às 16h00 e 20h00. Domingos, às 15h00.
Ingressos (1º lote): de R$ 50,00 (balcão) a R$ 300,00 (Plateia VIP)
Classificação indicativa: 12 anos

.: “Acerto de Contas” confronta ética e paixão nas ruas de Nova Orleans


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Acerto de Contas” chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte como um dos títulos mais sedutores do cinema policial dos anos 1980. Dirigido por Jim McBride e escrito por Daniel Petrie Jr., o longa-metragem - cujo título original é “The Big Easy” e que, em Portugal, recebeu o nome de “Nas Teias da Máfia” - aposta na mistura de investigação criminal com tensão romântica, ambientada em uma Nova Orleans pulsante.

Na trama, Dennis Quaid vive o detetive Remy McSwain, um policial carismático que navega com naturalidade por práticas pouco ortodoxas dentro da corporação. A rotina dele muda quando passa a investigar uma série de assassinatos ligados à própria polícia. É nesse cenário que surge Anne Osborne, promotora interpretada por Ellen Barkin, enviada para enfrentar a corrupção. O envolvimento entre os dois cresce na mesma proporção em que o caso se complica, colocando ética, desejo e poder em rota de colisão.

O elenco ainda reúne nomes como John Goodman e Ned Beatty, que ajudam a dar corpo a esse retrato de uma instituição corroída por interesses paralelos. A química entre Quaid e Barkin se tornou um dos pontos mais comentados à época do lançamento, com ambos os atores apontando o filme como um dos favoritos de suas carreiras.

Filmado integralmente em Nova Orleans, o longa incorpora com força a identidade local, da música zydeco às paisagens urbanas e ao sotaque cajun que marca a performance de Quaid. A cidade não serve apenas de cenário, mas dita o ritmo e o humor da narrativa, contribuindo para que o filme seja lembrado como uma das representações mais autênticas da região no cinema mainstream daquela década.

Outro dado curioso envolve o desenvolvimento do roteiro, que inicialmente se passaria em Chicago e tinha outro título. A mudança para Nova Orleans redefiniu o projeto e ajudou a consolidar o tom híbrido entre policial e romance. O próprio diretor voltaria a trabalhar com Dennis Quaid em “A Fera do Rock” (1989), explorando um registro completamente diferente.

Lançado em meio à renovação do cinema noir, “Acerto de Contas” acabou associado ao movimento neo-noir dos anos 1980, ainda que opte por uma abordagem mais leve, sem abrir mão das zonas cinzentas de seus personagens. Entre investigações, jogos de poder e relações atravessadas por interesse, o filme constrói um retrato envolvente de uma cidade em que charme e corrupção caminham lado a lado.


Ficha técnica
“Acerto de Contas” | “The Big Easy” (título original) | “Nas Teias da Máfia” (título em Portugal)
Gênero: policial, romance, drama. Duração: 1h42m. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1986. Data de lançamento: 21 de agosto de 1987 (EUA). Idioma: inglês. Direção: Jim McBride. Roteiro: Daniel Petrie Jr. Elenco: Dennis Quaid, Ellen Barkin, John Goodman, Ned Beatty, Grace Zabriskie. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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terça-feira, 7 de julho de 2026

.: "O Solitário" revisita o auge físico e dramático de Belmondo


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Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

"O Solitário" chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte  resgatando um tipo de cinema policial que fez escola na França dos anos 1980, com ação direta, ruas de Paris como cenário e um protagonista que carrega o peso da própria obstinação. Dirigido por Jacques Deray, o longa-metragem marca mais um encontro do cineasta com Jean-Paul Belmondo, parceria que ajudou a consolidar uma vertente popular e musculosa do thriller europeu.

Na trama, Belmondo interpreta Stan Jalard, policial que vê a vida virar do avesso após a execução de um colega durante uma operação. A partir daí, o que se desenha é uma caçada persistente ao responsável pelo crime, o bandido Charly Schneider (Jean-Pierre Malo), que reaparece anos depois, reacendendo uma busca atravessada por violência, corrupção e desgaste emocional. Michel Beaune completa o elenco principal como o comissário Pezzoli, figura que tensiona ainda mais o ambiente policial.

Com roteiro assinado por Jacques Deray, Simon Michaël e Alphonse Boudard, o filme aposta em uma narrativa linear, sustentada pelo carisma físico de Belmondo e por sequências de ação que dispensam dublês sempre que possível. À época das filmagens, o ator já se aproximava dos 55 anos e mantinha a tradição de realizar suas próprias cenas de risco, o que reforçava sua imagem de herói durão e indomável, uma assinatura que o público reconhecia de imediato.

"O Solitário" também evidencia uma mudança de tom na carreira do ator. Longe da leveza irreverente que marcou sua fase na nouvelle vague, Belmondo surge mais rígido, marcado pelo cansaço e por uma solidão que contamina cada decisão do personagem. Essa transição ajuda a entender por que o filme, mesmo com ambição comercial, carrega um subtexto mais amargo, refletindo um policial que já não acredita tanto nas regras que deveria defender.

Curiosamente, a produção chegou a ser comercializada em alguns países como uma espécie de continuação de "O Profissional" (1981), estratégia de mercado que não encontra respaldo na história. Na França, o desempenho nas bilheteiras ficou abaixo do esperado, indicando um certo desgaste desse tipo de narrativa policial naquele momento. Ainda assim, o longa permanece como registro de uma fase em que Belmondo dominava o cinema de ação europeu com presença e energia raras. Com duração enxuta e ritmo constante, "O Solitário" encontra força no embate entre um homem e aquilo que o mantém em movimento: a necessidade de fazer justiça, mesmo quando tudo ao redor parece já ter perdido o sentido.

Ficha técnica
“O Solitário” | "Le Solitaire" (título original)
Gênero: policial, ação. Duração: 100 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1987. Data de lançamento: 18 de março de 1987 (França). Idioma: francês. Direção: Jacques Deray. Roteiro: Jacques Deray, Simon Michaël, Alphonse Boudard. Elenco: Jean-Paul Belmondo, Jean-Pierre Malo, Michel Beaune. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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segunda-feira, 6 de julho de 2026

.: Quintas de luta e cinema: a coleção Bruce Lee em foco na Reserva Imovision


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Toda quinta-feira, o público tem encontro marcado com um verdadeiro ritual cinematográfico: a revisitação de um clássico essencial da Coleção Bruce Lee. A programação, em cartaz na plataforma de streaming Reserva Imovision, abre com "O Dragão Chinês" e percorre uma sequência de títulos que não apenas marcaram época, mas ajudaram a redefinir o cinema de ação no mundo, como "A Fúria do Dragão", "O Voo do Dragão" - dirigido pelo próprio Bruce Lee - e os eletrizantes "Jogo da Morte" I e II. A estreia no streaming é uma oportunidade rara de acompanhar, em ordem, a construção de um mito e a consolidação de uma linguagem que influenciaria gerações.

Mas a experiência não se limita à força física ou à precisão coreográfica. Há também um componente sensorial que amplia o impacto dessas obras. Em "O Dragão Chinês", por exemplo, uma curiosidade que atravessa décadas chama a atenção dos mais atentos: em algumas versões do filme, é possível identificar trechos de músicas da banda Pink Floyd inseridos de forma não creditada na trilha sonora. Um detalhe quase clandestino, que revela tanto sobre práticas da época quanto sobre o diálogo inesperado entre culturas e que adiciona uma camada ainda mais fascinante à experiência.

Testemunhar "O Dragão Chinês", filme que abre a Mostra na Reserva Imovision, é assistir ao nascimento de uma lenda. Dirigido por Wei Lo e Chia-Hsiang Wu, o longa-metragem apresenta ao mundo a presença magnética de Bruce Lee em sua primeira grande atuação como protagonista. Na trama, Cheng é um jovem que tenta honrar um juramento de não violência, até ser empurrado ao limite ao descobrir uma rede criminosa infiltrada em uma fábrica de gelo na Tailândia. O que se segue é uma explosão de intensidade: golpes secos, movimentos milimetricamente coreografados e uma energia crua que atravessa a tela. Ali, mais do que um filme, nasce um novo código para o cinema de ação — direto, visceral e absolutamente inesquecível. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.

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.: "Os Anarquistas" resgata fúria política e expõe dilemas de uma geração


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Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

"Os Anarquistas" chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte para ajudar a entender de onde veio parte da força do cinema sul-coreano que, anos depois, conquistaria o mundo. Dirigido por Yu Young-sik e com roteiro assinado por Park Chan-wook, o longa-metragem lançado no ano 2000 mergulha na Xangai dos anos 1920 para acompanhar um grupo de jovens coreanos dispostos a tudo contra a ocupação japonesa.

A narrativa se constrói a partir do olhar de Sang-gu, o mais jovem entre os revolucionários, que relembra sua entrada na célula anarquista e o aprendizado brutal de uma militância feita de atentados, assaltos e perdas sucessivas. Interpretado por Kim In-kwon, o personagem funciona como ponte entre o espectador e um grupo vivido por nomes que se tornariam gigantes do cinema asiático, como Jang Dong-gun, Kim Sang-jung e Jeong Jun-ho.

Há um cuidado visual que chama atenção já de início: a fotografia aposta em sombras densas, fumaça e uma iluminação que flerta com o expressionismo, enquanto as sequências de ação evocam o cinema de Hong Kong e o chamado “heroic bloodshed”, um subgênero do cinema de ação surgido em Hong Kong nos anos 1980, marcado por violência estilizada aliada a forte carga dramática. Popularizado por diretores como John Woo, traz protagonistas geralmente anti-heróis envolvidos em conflitos morais, com histórias que valorizam lealdade, amizade e sacrifício. As cenas de ação são coreografadas, com câmera lenta e tiroteios intensos, enquanto a narrativa costuma conduzir a desfechos trágicos ou melancólicos. A encenação acompanha o desgaste emocional dos personagens, que veem seus ideais se chocarem com a realidade de uma luta sem garantias.

"Os Anarquistas" também carrega um peso histórico relevante. Inspirado, ainda que livremente, em movimentos de resistência coreanos durante o domínio japonês, o filme foi a primeira coprodução entre Coreia do Sul e China, com filmagens realizadas em locações de Xangai e arredores. A reconstrução de época evita o artificial e aposta em cenários amplos e figurinos detalhados, resultado de uma colaboração com equipes locais experientes.

Lançado antes da explosão global do cinema coreano, o longa-metragem acabou ganhando outra dimensão com o passar dos anos. Revisto hoje, funciona como registro de uma geração de artistas que redefiniria a indústria, além de revelar um Park Chan-wook ainda em processo de afirmação como roteirista, pouco antes de dirigir títulos que se tornariam cultuados mundialmente. A luta política se mistura à amizade, à desconfiança e ao desgaste de quem passa a viver no limite. A trajetória do grupo aponta para um destino inevitável, conduzido por escolhas que cobram um preço alto demais.


Ficha técnica
"Os Anarquistas" | "The Anarchists" (título original)
Gênero: drama, ação. Duração: 100 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2000. Data de lançamento: 29 de abril de 2000. Idioma: coreano. Direção: Yu Young-sik. Roteiro: Park Chan-wook, Lee Moo-young, Bangnidamae. Elenco: Jang Dong-gun, Kim Sang-jung, Jeong Jun-ho, Lee Beom-soo, Kim In-kwon, Ye Ji-won. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sábado, 4 de julho de 2026

.: Filme italiano “A Vida À Parte” constrói retrato íntimo sobre exclusão e afeto


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“A Vida À Parte” estreia plataforma de streaming Reserva Imovision  e traz de volta o olhar sensível de Marco Tullio Giordana para os conflitos íntimos que acontecem nas relações familiares. Conhecido por títulos como “A Melhor Juventude”, o diretor italiano aposta novamente em uma história que se expande no tempo para observar, com precisão, as marcas visíveis e invisíveis que moldam os personagens dele.

Ambientado na Itália dos anos 1980, o filme acompanha o nascimento de Rebecca (Beatrice Barison), filha de uma família rica e socialmente respeitada. A chegada da menina, marcada por uma extensa mancha vermelha no rosto, altera o equilíbrio da casa e expõe problemáticas que já existiam. A mãe, Maria (Valentina Bellè), vê as expectativas dela perante a filha ruírem, enquanto a relação com a cunhada Erminia (Sonia Bergamasco), pianista consagrada, ganha contornos cada vez mais tensos.

O roteiro, assinado por Marco Tullio Giordana, Marco Bellocchio e Gloria Malatesta, adapta o romance homônimo de Mariapia Veladiano e percorre cerca de duas décadas da vida da família Macola. Ao longo desse período, o filme alterna pontos de vista e desloca o protagonismo, primeiro centrado na mãe e depois na própria Rebecca, que cresce enfrentando rejeições, constrangimentos e uma constante sensação de inadequação.

A música surge como eixo de reconstrução. É por meio dela que Rebecca encontra alguma forma de pertencimento, em contraste com o ambiente doméstico rígido e marcado por expectativas sociais. Um detalhe curioso reforça essa dimensão: as atrizes Beatrice Barison, Sonia Bergamasco, Sara Ciocca e Viola Basso executam as peças ao piano em cena, sem dublês, o que confere autenticidade às sequências musicais.

Selecionado para o Festival de Locarno, o filme foi exibido fora de competição. Com fotografia de Roberto Forza e trilha assinada por Dario Marianelli, o longa-metragem constrói um ambiente visual elegante, em contraste com o desconforto que se instala dentro da casa. A direção de Giordana opta por um ritmo paciente, permitindo que os conflitos se revelem em gestos e olhares para discutir padrões de beleza, pertencimento e as pressões exercidas dentro do núcleo familiar.

Ficha técnica
“A Vida À Parte” | “La Vita Accanto” (título original) | “A Vida À Parte” (título em Portugal).

Gênero: drama. Duração: 114 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 8 de junho de 2026 (Brasil). Idioma: Italiano. Direção: Marco Tullio Giordana. Roteiro: Marco Tullio Giordana, Marco Bellocchio, Gloria Malatesta. Elenco: Beatrice Barison, Sonia Bergamasco, Paolo Pierobon, Valentina Bellè. Distribuição no Brasil: Imovision / Reserva Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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