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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

.: “Banquete Coutinho” devolve a palavra a Eduardo Coutinho e serve cinema puro


Documentário de Josafá Veloso parte de uma entrevista realizada em 2012 para revisitar a obra, as ideias e as inquietações de um dos maiores cineastas brasileiros

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Eduardo Coutinho tinha talento para conversar e uma alergia saudável à pose de gênio. Em determinado momento de “Banquete Coutinho”, resume a própria existência com a secura bem-humorada de quem dispensava monumentos: “Eu fumo e faço uns filmes”. A frase parece pequena diante de uma filmografia que modificou a maneira de registrar pessoas comuns no cinema brasileiro. Talvez seja esse o charme. Coutinho sabia que uma câmera, uma cadeira e alguém disposto a contar a própria história podiam produzir terremotos.

Dirigido e roteirizado por Josafá Veloso, “Banquete Coutinho” chega à plataforma de streaming da Reserva Imovision, depois de percorrer festivais brasileiros e internacionais. Realizado a partir de um encontro filmado com Coutinho em 2012, dois anos antes da morte do cineasta, o documentário usa aquela conversa como espinha dorsal para passear por sua obra e por algumas obsessões que o acompanharam durante décadas: vida, morte, trabalho, cinema, ética, religião, relações de poder e o curioso território criado entre quem pergunta e quem aceita ser filmado. 

A provocação que move Veloso é boa: teria Eduardo Coutinho passado a carreira inteira realizando, de algum modo, o mesmo filme? A pergunta conduz um percurso que alcança títulos fundamentais como “Cabra Marcado para Morrer”, “Santo Forte”, “Babilônia 2000”, “Edifício Master”, “O Fim e o Princípio” e “Jogo de Cena”. A montagem de Eugenio Puppo e Gustavo Vasconcelos aproxima trechos dessas obras da entrevista de 2012 e permite perceber uma espécie de parentesco entre personagens, métodos e preocupações espalhados pela filmografia. A fotografia do novo material é de Ticão Okada, enquanto Veloso assina também a música.

O próprio Coutinho ocupa o centro da cena, posição curiosa para alguém que construiu boa parte da carreira olhando para os outros. A inversão rende sabor ao filme. O homem que perguntava passa a responder, embora continue escapando das certezas, desconfiando das teorias muito arrumadinhas e tratando o cinema com aquela mistura peculiar de rigor, humor e desencanto. Pela tela passam suas ideias sobre o ofício e fragmentos de uma trajetória que começou longe da imagem consagrada do mestre documentarista.

Antes de “Cabra Marcado para Morrer” se tornar um marco, Coutinho experimentou a ficção, trabalhou como roteirista, integrou o “Globo Repórter” e passou anos construindo uma linguagem documental baseada no encontro, no conflito e na singularidade de cada pessoa diante da câmera. “Cabra Marcado para Morrer”, iniciado como ficção em 1964 e interrompido após o golpe militar, seria retomado anos depois sob outra forma, misturando o material antigo ao reencontro com seus participantes. Lançado em 1984, recebeu, entre outros prêmios, o Fipresci no Festival de Berlim e tornou-se peça central de sua carreira.

Veloso ainda recupera uma curiosidade quase arqueológica: “Le Téléphone”, curta de 1959 realizado por Coutinho durante seus estudos no Institut des Hautes Études Cinématographiques, o IDHEC, na França. Esse retorno às primeiras experiências ajuda a desmontar a impressão de que o cineasta nasceu pronto, barba branca, cigarro na mão e perguntas afiadas. Houve ficção, televisão, roteiros para outros diretores, tropeços, mudanças de rota e muito trabalho antes da fase que consolidaria títulos como “Santo Forte”, “Edifício Master” e “Jogo de Cena”.

“Banquete Coutinho” foi o primeiro filme dirigido por Josafá Veloso, historiador formado pela USP, mestre pela Universidade Federal Fluminense e com estudos de documentário na Escuela Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños, em Cuba. A estreia ocorreu em 2019, na abertura da oitava edição do Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba. Depois, o documentário passou pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Festival do Rio, Doclisboa, Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano, CineOP, Cinecipó e forumdoc.bh, entre outros eventos.

A força da proposta aparece quando Coutinho simplesmente fala. A ironia seca, a inteligência quase impaciente e a capacidade de desmontar solenidades continuam vivas na gravação. Veloso dispõe esse material ao lado dos filmes e deixa que uma obra converse com outra. O resultado também sugere algo delicioso: talvez a pergunta sobre Coutinho ter realizado repetidamente “o mesmo filme” diga bastante sobre a coerência de um artista que passou décadas interessado no ser humano quando ele deixa de caber no estereótipo. O título “Banquete Coutinho” cai bem. Há muita coisa na mesa: memória, política, ética, religião, fracasso, vaidade, morte, trabalho e cinema. No centro dela está um sujeito que preferia conversar com gente a fabricar estátuas de si próprio. Para alguém que dizia fumar e fazer uns filmes, Eduardo Coutinho deixou uma tremenda quantidade de assunto.


Ficha técnica
“Banquete Coutinho” (título original) | “A Treat of Coutinho” (título internacional)
Gênero: documentário. Duração: 74 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2019. Data de lançamento: 5 de junho de 2019, no Brasil. Idioma: português. Direção e roteiro: Josafá Veloso. Elenco: Eduardo Coutinho. Produção: Eugenio Puppo. Direção de fotografia: Ticão Okada. Montagem: Eugenio Puppo e Gustavo Vasconcelos. Música: Josafá Veloso. Produção: Heco Produções. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: "Aventura de Férias" embaralha férias, memória e família sob o sol da Sardenha


Filme de Sophie Letourneur, destaque do Festival do Rio, acompanha viagem de uma família francesa pela Sardenha e chega ao Brasil pelo Belas Artes à La Carte

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Destaque na programação do Festival do Rio 2025, "Aventura de Férias" chega ao Brasil pelo streaming Belas Artes À La Carte com uma proposta que parece simples até a família colocar o pé na estrada: passar as férias de verão na Sardenha. O problema é que férias em família raramente obedecem ao roteiro imaginado antes de fechar as malas. Dirigido por Sophie Letourneur, o filme acompanha Claudine, uma menina que está prestes a completar 11 anos e decide registrar as histórias da viagem enquanto percorre a ilha italiana de carro com a mãe, Sophie, o padrasto, Jean-Philippe, e o irmão caçula, Raoul, de três anos. Entre passeios, refeições, pequenas descobertas, discussões e as inevitáveis trapalhadas provocadas por uma criança que parece ter energia para abastecer uma cidade inteira, a viagem vai ganhando contornos muito menos turísticos.

Selecionado para a mostra Panorama Mundial do Festival do Rio, "Aventura de Férias" chamou atenção pela maneira como transforma o cotidiano familiar em matéria cinematográfica. O filme acompanha situações aparentemente banais e encontra nelas humor, desconforto, ternura e uma certa melancolia. A proposta está longe da comédia familiar convencional, aquela em que cada confusão precisa desembocar em uma lição edificante antes dos créditos finais. Nesse filme, a família pode discutir, perder a paciência, rir, irritar e continuar junta. Como acontece na vida real, para desespero de quem esperava uma viagem perfeitamente organizada.

A estrutura do filme tem uma particularidade saborosa: as conversas familiares são fundamentais para a construção da narrativa. Letourneur utiliza gravações realizadas durante viagens feitas em 2016 como matéria-prima para o projeto. Segundo informações divulgadas sobre a produção, ela registrou aquelas conversas sem saber exatamente, naquele momento, qual seria o destino do material. Anos depois, as gravações passaram a alimentar a escrita do filme.

O resultado cria uma curiosa mistura de ficção e experiência pessoal. As falas carregam uma naturalidade desconcertante, enquanto a encenação organiza aquilo que poderia parecer apenas um amontoado de lembranças de férias. A própria diretora já havia trabalhado com procedimento semelhante em "Voyages en Italie", de 2023, primeiro filme de uma trilogia dedicada aos relacionamentos e às viagens pela Itália. "A Aventura" é o segundo capítulo desse projeto.

E o título não é por acaso. "Aventura de Férias" faz uma referência direta a "L'Avventura", clássico de Michelangelo Antonioni lançado em 1960. A brincadeira já havia aparecido no filme anterior de Letourneur, "Voyages en Italie", uma alusão evidente a "Viagem à Itália", de Roberto Rossellini. O cinema italiano, portanto, está no retrovisor, embora a família de Letourneur esteja ocupada demais tentando sobreviver às férias para prestar muita atenção à cinefilia.

A comparação com Antonioni, porém, serve mais como provocação cinéfila do que como indicação de que os filmes tenham propostas semelhantes. O clássico de 1960 é uma obra fundamental do cinema moderno, enquanto a produção de Letourneur mergulha no cotidiano, nas relações familiares e na memória. A ligação está principalmente no título e no desejo de transformar uma viagem em uma experiência de observação.

"Aventura de Férias" também carrega uma trajetória internacional respeitável. O filme abriu a programação da ACID no Festival de Cannes 2025, uma das importantes seções paralelas dedicadas ao cinema independente. Depois, passou por outros festivais, entre eles o Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. A imprensa francesa destacou a combinação entre humor, intimidade e situações corriqueiras. O jornal "Le Monde" chamou atenção para a maneira como Letourneur transforma episódios triviais - refeições, passeios, praias, caprichos infantis e pequenas tensões - em material para refletir sobre a passagem do tempo e as transformações dentro de uma família.

Claudine observa tudo com a curiosidade de quem ainda está descobrindo os adultos e suas contradições. Ao registrar as conversas da família, ela transforma a viagem em memória antes mesmo de ela terminar. É como se a menina soubesse que aquelas pequenas confusões, que naquele momento parecem intermináveis, um dia serão as histórias que todos vão querer lembrar.

Com humor agridoce, uma dose generosa de desconforto e um olhar bastante particular para a vida cotidiana, Sophie Letourneur faz de "Aventura de Férias" uma viagem que interessa menos pelo destino turístico do que pelas pessoas dentro do carro. A Sardenha está lá, bonita como cartão-postal. A família, felizmente, trata de estragar um pouco a fotografia.


Ficha técnica
"Aventura de Férias" | "L'Aventura" (título original)
Gênero: comédia dramática. Duração: 1h40min. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 2 de julho de 2025, na França; 2 de julho de 2026, em Portugal. Idioma: francês. Direção: Sophie Letourneur. Roteiro: Sophie Letourneur e Laetitia Goffi. Elenco: Sophie Letourneur, Philippe Katerine, Bérénice Vernet e Esteban Melero. Fotografia: Jonathan Ricquebourg. Montagem: Sophie Letourneur. Música: Laure Arto e Carole Verner. Produção: Sophie Letourneur, Tristan Vaslot, Thomas Verhaeghe e Mathieu Verhaeghe. Produtoras: Tourne Films, Atelier de Production e Sacré Vendredi Productions. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

domingo, 30 de agosto de 2026

.: Chris Marker mostra como Kurosawa construiu “Ran” em documentário


Documentário de Chris Marker acompanha Akira Kurosawa durante a realização de “Ran” e revela o método obsessivo, a escala monumental e os bastidores de uma das produções mais ambiciosas da carreira do cineasta japonês; filme estreia no Belas Artes À La Carte

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Ran” significa “caos”, e o título de um filme nunca pareceu tão apropriado. Em 1985, enquanto Akira Kurosawa colocava em movimento uma das produções mais ambiciosas da carreira dele, Chris Marker estava por perto, observando. O resultado desse encontro é “A.K. Akira Kurosawa - Os Segredos de 'Ran'”, documentário francês que acompanha o cineasta japonês durante as filmagens de “Ran” e está no catálogo do streaming Belas Artes À La Carte, juntamente ao clássico dirigido por Kurosawa. A programação foi anunciada pelo Belas Artes como uma celebração especial da obra do diretor.

Marker, autor de filmes como “La Jetée” e “Sans Soleil”, não transforma o registro em um making of convencional, daqueles que explicam cada departamento da produção como se o espectador estivesse diante de um manual de instruções. O interesse está no homem que dirige, espera, observa, corrige e decide. O Festival de Cannes selecionou “A.K.” para a mostra Un Certain Regard em 1985, ano em que o documentário chegou ao festival.

O documentário acompanha Kurosawa no trabalho de construção de “Ran”, adaptação da tragédia "Rei Lear", de William Shakespeare,, transposta para o Japão feudal. O senhor feudal Hidetora decide dividir seus domínios entre os três filhos, Taro, Jiro e Saburo. Parece uma boa ideia até o momento em que os herdeiros percebem que dividir um reino é muito menos interessante do que tomar posse dele inteiro. É aí que a tragédia começa a ganhar espadas, cavalos, castelos, incêndios e uma quantidade considerável de problemas familiares. Kurosawa substitui as três filhas de Lear pelos três filhos de Hidetora e constrói uma narrativa em que poder, velhice, orgulho e violência se misturam em proporções pouco saudáveis.

“A.K.” observa esse processo de perto. Marker registra Kurosawa, a equipe do filme e os gigantescos preparativos de “Ran” sem transformar o diretor em uma espécie de celebridade entrevistada diante de uma câmera. A atenção recai sobre os gestos, as esperas, os ensaios, os deslocamentos dos figurantes e a maneira como o cineasta organiza uma produção de dimensões extraordinárias. O catálogo do Yamagata International Documentary Film Festival descreve o filme como um registro dos pequenos comportamentos de Kurosawa e da equipe dele, construído de maneira diferente de um making of convencional.

Kurosawa tinha 75 anos quando dirigiu “Ran” e já enfrentava sérios problemas de visão. Durante aproximadamente uma década, preparou o filme por meio de desenhos e storyboards, muitos deles pintados pelo próprio diretor. O material servia como referência para a equipe, que precisava compreender com precisão os enquadramentos, as cores, a posição dos personagens e os movimentos das cenas. A pesquisa reunida no arquivo confirma que os desenhos foram fundamentais para a preparação das filmagens. O documentário mostra essa obsessão em funcionamento. 

Kurosawa podia passar horas esperando a combinação certa de luz, vento ou nuvens. Uma produção que reunia centenas de figurantes e cavalos dependia de uma logística quase militar, enquanto o diretor continuava perseguindo a imagem que tinha imaginado anos antes. O próprio material de pesquisa destaca o modo como Marker registra essas esperas e até uma cena preparada durante um dia inteiro que acabou descartada pelo diretor na montagem.

A dimensão de “Ran” ajuda a entender o tamanho da empreitada. O filme utilizou cerca de 1.400 figurantes e 200 cavalos, e o castelo destruído em uma das sequências mais famosas foi construído especialmente para a produção. A cena do incêndio não nasceu de uma maquete: Kurosawa mandou construir a fortaleza e colocou fogo nela para registrar a destruição. O resultado está entre as imagens mais impressionantes da filmografia do diretor.

O cuidado visual também aparece nos figurinos. Centenas de peças foram confeccionadas manualmente durante cerca de dois anos, trabalho que rendeu a Emi Wada o Oscar de Melhor Figurino em 1986. “Ran” recebeu ainda indicações ao Oscar de Melhor Diretor, Direção de Arte e Fotografia. As cores dos exércitos funcionam quase como personagens dentro da composição de Kurosawa. Amarelo, vermelho e azul ajudam o espectador a identificar as facções e remetem à tradição visual do teatro Nô. O cuidado cromático transforma as batalhas em grandes pinturas em movimento, mas a beleza nunca consegue esconder o desastre humano que acontece dentro delas.

Marker também encontra espaço para observar a relação entre o diretor e aquilo que está ao seu redor. “A.K.” não pretende explicar Kurosawa de maneira definitiva. O espectador percebe um cineasta meticuloso, econômico nas palavras e capaz de coordenar uma máquina gigantesca sem perder de vista a imagem que carrega na cabeça. A produção de “Ran” ainda foi marcada por uma tragédia pessoal. Yōko Yaguchi, esposa de Kurosawa por 39 anos, morreu durante as filmagens. Segundo o material reunido sobre o documentário, o diretor interrompeu a produção por apenas 24 horas e voltou ao trabalho no dia seguinte.

A escolha de Marker para registrar esse momento não poderia ser mais adequada. O cineasta francês também tinha uma relação muito particular com o documentário, trabalhando frequentemente na fronteira entre observação, ensaio e reflexão sobre a própria natureza da imagem. Em “A.K.”, ele encontra um personagem perfeito para esse método: um diretor que pensa cinema até quando parece simplesmente esperar.

A chegada ao Belas Artes À La Carte cria uma oportunidade particularmente boa para assistir aos dois filmes em sequência. Primeiro, “A.K.” mostra a engrenagem. Depois, “Ran” entrega o resultado dessa obsessão em forma de tragédia. É quase como acompanhar a construção de um castelo sabendo, desde o começo, que alguém vai colocar fogo nele.


Ficha técnica
“A.K. Akira Kurosawa – Os Segredos de 'Ran'” | “A.K.” (título original) | “A.K. (Akira Kurosawa)” (título em Portugal)
Gênero: documentário, história, biografia. Duração: 75 minutos. Classificação indicativa: livre. Ano de produção: 1985. Data de lançamento: 20 de maio de 1985, na França. Idioma: francês e japonês. Direção e roteiro: Chris Marker. Fotografia: Frans-Yves Marescot. Música: Tōru Takemitsu. Elenco: Akira Kurosawa, Tatsuya Nakadai, Ishirō Honda, entre outros. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: "Ran" coloca o poder em guerra e faz Kurosawa incendiar "Rei Lear"


Clássico de Akira Kurosawa transforma a tragédia de Shakespeare em um monumental drama de guerra sobre ambição, vingança e a ruína de uma família; filme chega ao Belas Artes À La Carte

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Dividir um império entre três filhos parecia, para o senhor feudal Hidetora Ichimonji, uma maneira razoavelmente sensata de garantir a continuidade de seu legado. O problema é que ele se esqueceu de um detalhe bastante inconveniente: filhos também podem querer o trono inteiro. É desse pequeno erro de cálculo que Akira Kurosawa ergue "Ran", um dos filmes mais grandiosos, ferozes e visualmente impressionantes da carreira dele, que chega ao streaming pela plataforma Belas Artes À La Carte.

Lançado em 1985, o filme japonês transforma "Rei Lear", de William Shakespeare, em uma tragédia ambientada no Japão feudal. Hidetora, interpretado por Tatsuya Nakadai, decide abandonar o comando de seus domínios e distribuir o poder entre Taro, Jiro e Saburo. O caçula, único dos três disposto a dizer ao pai aquilo que ele não quer ouvir, acaba banido. A partir daí, a promessa de união familiar se dissolve em traições, vinganças, mortes e batalhas.

O título "Ran" significa "caos", e Kurosawa leva a palavra a sério. A estrutura de Shakespeare permanece reconhecível, mas o diretor incorpora elementos da história japonesa, das lendas feudais e do teatro Nô para criar uma obra com identidade própria. A adaptação também troca as filhas de Lear pelos três filhos de Hidetora, deslocando a tragédia para uma sociedade marcada pela guerra, pela hierarquia e pela disputa territorial. A própria parábola das três flechas, associada ao senhor feudal Mori Motonari, serve como uma espécie de manual de família que ninguém no filme parece ter lido até o fim.

Kurosawa passou cerca de uma década preparando "Ran". Aos 75 anos, já com a visão bastante comprometida, desenhou centenas de pinturas e storyboards para planejar as cenas. O trabalho não era mero capricho de artista: as imagens serviram como mapas detalhados para a equipe durante a produção. O material revela a precisão com que o cineasta pensava cada enquadramento, cada deslocamento dos personagens e cada composição visual.

A produção também nasceu em escala gigantesca. O Festival de Cannes registra que a primeira versão imaginada por Kurosawa chegava a três horas e meia e acabou reduzida para cerca de duas horas e meia. O custo ficou em aproximadamente US$ 11 milhões, fazendo de "Ran" o trabalho mais caro da carreira do diretor. Centenas de figurinos foram produzidos especialmente para o filme, muitos deles durante anos de preparação.

O resultado é um filme em que a guerra raramente aparece como espetáculo glorioso. Kurosawa observa os exércitos à distância, deixa os corpos e as bandeiras ocuparem a paisagem e, em uma das sequências mais célebres, retira praticamente todos os efeitos sonoros da batalha para deixar a música de Tōru Takemitsu conduzir o horror. A estratégia torna a violência ainda mais desconfortável: os homens correm, os cavalos tombam, os castelos queimam e a música continua, como se o mundo tivesse decidido assistir à própria destruição.

Roger Ebert percebeu justamente essa força ao escrever sobre o filme em 1985. Para o crítico americano, a idade de Kurosawa parecia dialogar diretamente com a experiência de Hidetora, um homem que passou a vida acumulando poder e chega à velhice acreditando que ainda pode determinar o destino dos outros. Ebert também chamou atenção para os dez anos de preparação e para a dimensão excepcional da produção.

Anos depois, ao revisitar "Ran", Ebert foi ainda mais longe e relacionou o filme à própria trajetória de Kurosawa. Para ele, o cineasta havia colocado na história questões sobre envelhecimento, poder, decadência e a dificuldade de um homem que passou a vida inteira construindo algo perceber que já não consegue controlar o que virá depois. É uma leitura especialmente interessante porque Kurosawa tinha 75 anos quando dirigiu o filme, exatamente a idade de Hidetora.

Tatsuya Nakadai sustenta o centro dessa ruína com uma atuação marcada pela contenção. Seu Hidetora começa como um senhor poderoso, cercado por homens, cavalos e bandeiras, e termina vagando por uma paisagem devastada, desorientado diante das consequências de suas próprias decisões. Ao redor dele, Akira Terao e Jinpachi Nezu interpretam os filhos Taro e Jiro, enquanto Daisuke Ryū vive Saburo, o filho que paga caro por dizer a verdade.

Mieko Harada também merece atenção como Lady Kaede, uma das personagens mais perigosas da história. Movida pela vingança contra Hidetora e sua família, ela manipula os homens ao seu redor com uma frieza que transforma cada gesto em ameaça. A personagem acrescenta uma camada de crueldade particular à história e faz da disputa pelo poder um jogo ainda mais venenoso.

Visualmente, "Ran" permanece assombroso. Kurosawa utiliza grandes planos, paisagens abertas, cores cuidadosamente associadas aos diferentes exércitos e uma arquitetura monumental para transformar o Japão feudal em uma espécie de palco de proporções gigantescas. O diretor, que começou a carreira artística como pintor, compôs os enquadramentos com o rigor de quem sabia exatamente onde queria colocar cada figura.

O cuidado com os figurinos rendeu a Emi Wada o Oscar de Melhor Figurino em 1986. O filme ainda recebeu indicações ao Oscar de direção, fotografia e direção de arte. No BAFTA, conquistou os prêmios de Melhor Filme em Língua Estrangeira e Maquiagem. A produção também foi reconhecida por diversas associações de críticos nos Estados Unidos.

Em "Ran", Kurosawa não tenta suavizar Shakespeare. Pelo contrário: ele deixa a tragédia ganhar espadas, cavalos, canhões, castelos em chamas e uma quantidade pouco recomendável de problemas familiares. O resultado é uma obra monumental sobre um homem que acredita poder administrar o futuro depois de entregar o presente aos próprios filhos. A ironia é cruel. Hidetora passou décadas conquistando terras e destruindo adversários para construir um reino. Quando finalmente decide descansar, descobre que o poder tem memória curta e que seus herdeiros aprenderam muito bem as lições do pai. 

A entrada do clássico na Belas Artes À La Carte acompanha a disponibilização de "Os segredos de Ran", documentário de Chris Marker que registra Kurosawa durante a preparação de sua produção mais ambiciosa. Quarenta e um anos depois de sua estreia, "Ran" continua sendo uma experiência cinematográfica de escala rara. A família pode até começar reunida em torno de uma boa intenção. O problema é quando alguém decide repartir o reino. A partir daí, Shakespeare já avisava: a conta costuma chegar.

Ficha técnica
"Ran" | "Ran" (título original) | "Ran - Os Senhores da Guerra" (título em Portugal).
Gênero: drama, guerra e épico. Duração: 162 minutos. Classificação indicativa: 16 anos no Brasil. Ano de produção: 1985. Data de lançamento: 1º de junho de 1985. Idioma: japonês. Direção: Akira Kurosawa. Roteiro: Akira Kurosawa, Hideo Oguni e Masato Ide. Elenco: Tatsuya Nakadai, Akira Terao, Jinpachi Nezu, Daisuke Ryū, Mieko Harada, Yoshiko Miyazaki, Hisashi Igawa, Shinnosuke Ikehata, Masayuki Yui, Kazuo Katō, Hitoshi Ueki e Mansai Nomura. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

.: “Torrentes de Paixão” traz à tona a 1ª protagonista de Marilyn Monroe


Clássico de Henry Hathaway coloca Marilyn Monroe no centro de uma trama de desejo, adultério e assassinato e chega ao catálogo da plataforma Belas Artes À La Carte

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Antes de se tornar uma das maiores estrelas de Hollywood, Marilyn Monroe precisou provar muito que poderia sustentar personagens além da imagem de loira sedutora que o cinema começava a construir para ela. Em “Torrentes de Paixão”, produção de 1953 dirigida por Henry Hathaway, a atriz encontrou uma oportunidade decisiva: Rose Loomis, uma mulher ardilosa que planeja assassinar o marido, George, vivido por Joseph Cotten, com a ajuda do amante. A produção chega ao streaming pela plataforma Belas Artes À La Carte, ampliando a circulação de um clássico que já percorreu festivais e recebeu reconhecimento internacional e, além disso, é um dos trabalhos fundamentais da fase inicial da carreira da loira. 

O filme acompanha dois casais hospedados nas proximidades das Cataratas do Niágara. Rose e George vivem um casamento em ruínas, enquanto Polly e Ray Cutler, interpretados por Jean Peters e Max Showalter, estão em uma lua de mel tardia. O encontro entre os quatro transforma uma viagem aparentemente tranquila em uma história de ciúme, traição e morte. O roteiro de Charles Brackett, Richard L. Breen e Walter Reisch surgiu de uma ideia do produtor Charles Brackett, que queria uma produção ambientada nas Cataratas do Niágara. Reisch propôs transformar o cenário turístico associado a casais em lua de mel em palco para um mistério de assassinato. A escolha deu ao filme uma combinação pouco habitual de romance, suspense e film noir.

As Cataratas são tratadas como presença constante na história do filme. Henry Hathaway aproveita passarelas, túneis, torres, barcos e os próprios pontos turísticos da região para construir situações de perigo. A fotografia de Joe MacDonald também contribuiu para o caráter particular da produção. Em vez do preto e branco associado ao imaginário clássico do noir, “Torrentes de Paixão” aposta no Technicolor, explorando cores fortes, sombras e contrastes. O resultado aproxima a exuberância turística das cataratas da atmosfera de ameaça que domina o casamento dos Loomis. 

Marilyn recebeu o maior destaque nos créditos de “Niagara”, decisão que ajudou a consolidar o status dela como estrela. Segundo a TCM, o papel de Rose Loomis foi ampliado depois que os executivos da Fox perceberam o potencial da atriz, transformando o que seria uma simples participação em uma personagem central. O filme também marcou a estreia dela como protagonista em uma produção colorida. Depois de renegociar o contrato com o estúdio, Monroe passou a exigir que seus filmes fossem realizados em cores.

Jean Peters chegou ao elenco depois da saída de Anne Baxter, inicialmente escolhida para viver Polly Cutler. A personagem de Peters havia sido concebida como uma das figuras centrais da história, mas a ascensão de Monroe fez com que “Torrentes de Paixão” se tornasse um veículo para a nova estrela da 20th Century-Fox. Joseph Cotten interpreta George, marido atormentado, ciumento e emocionalmente instável de Rose. A combinação entre a fragilidade do personagem e a frieza calculada da mulher produz o núcleo mais sombrio da trama. O próprio Hathaway teria preferido James Mason para o papel, mas o ator recusou a participação.

Entre as imagens mais conhecidas está a sequência em que Rose aparece com um vestido rosa e canta “Kiss”, música composta por Lionel Newman, com letra de Haven Gillespie, ambos sem crédito no filme, e interpretada por Monroe. A canção retorna como elemento narrativo na trama do assassinato planejado por Rose e seu amante. A produção também deixou uma marca fora do cinema. Uma fotografia promocional de Marilyn feita para “Niagara” serviu de base, quase uma década depois, para “Marilyn Diptych”, de Andy Warhol, uma das obras mais conhecidas do artista. 

Com Marilyn Monroe no primeiro grande momento de protagonismo no cinema, Joseph Cotten como o marido consumido pelo ciúme e Jean Peters como a recém-casada que acaba envolvida na trama, “Torrentes de Paixão” permanece como um capítulo importante da transformação de Monroe em estrela. No fim das contas, é uma história de assassinato filmada diante de uma das paisagens naturais mais famosas do mundo... contada de maneira bastante atrativa.


Ficha técnica
“Torrentes de Paixão” | “Niagara” (título original)
Gênero: drama, suspense, filme noir. Duração: 1h32min. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 1953. Data de lançamento: fevereiro de 1953, nos Estados Unidos. Idioma: inglês. Direção: Henry Hathaway. Roteiro: Charles Brackett, Walter Reisch e Richard L. Breen. Elenco: Marilyn Monroe, Joseph Cotten, Jean Peters, Max Showalter, Denis O'Dea, Richard Allan, Don Wilson, Lurene Tuttle, Russell Collins e Will Wright. Distribuição no Brasil: 20th Century Fox. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

.: “Agnus Dei” acompanha cordeiros e freiras em tradição secular em Roma


Documentário de Massimiliano Camaiti acompanha a rotina das beneditinas do Mosteiro de Santa Cecília e a produção do pálio destinado ao papa; filme estreia no Brasil na plataforma Belas Artes À La Carte

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Sim, “Agnus Dei” é todo “lindo”, para usar o adjetivo mais recorrente a este tipo de filme. O documentário de Massimiliano Camaiti observa, com olhar atento e paciente, uma tradição secular preservada pelas freiras beneditinas do Mosteiro de Santa Cecília, em Trastevere, no coração de Roma. Depois da passagem pela 8½ Festa do Cinema Italiano no Brasil, o documentário chega ao streaming Belas Artes À La Carte, ampliando a circulação de uma produção que já percorreu festivais e recebeu reconhecimento internacional.

Durante 73 minutos, a câmera acompanha dois cordeiros recém-nascidos que chegam ao convento e a rotina das religiosas responsáveis por cuidar deles até a tosquia, quando a lã será transformada em parte do pálio, vestimenta litúrgica destinada ao papa e aos arcebispos metropolitanos. A delicadeza das imagens, porém, não elimina uma questão incômoda. Tudo parece muito belamente fotografado e relaxante... se você não for um cordeiro.

Camaiti, que assina direção e roteiro, descobriu a tradição por acaso, ao passar diante da Basílica de Santa Cecília e encontrar dois cordeiros enfeitados com flores durante a cerimônia de bênção. A cena despertou sua curiosidade e acabou dando origem ao filme. Na primeira parte, “Agnus Dei” coloca o espectador diante de uma imagem difícil de ignorar: um filhote recém-nascido é separado da mãe e levado, junto de outro cordeiro, para o mosteiro. O balido da mãe, diante da separação, estabelece uma tensão que permanece ao longo da produção. Os dois pequenos animais chegam ao convento e passam a receber os cuidados de irmã Vincenza, que os alimenta com mamadeira, acompanha seu crescimento e os incorpora à rotina das monjas.

Os cordeiros são tratados com carinho, recebem cuidados veterinários e convivem com as religiosas, mas a finalidade de todo esse processo permanece evidente. A lã será utilizada na confecção do pálio. A pergunta sobre o sentido dessa tradição, portanto, fica para o espectador. Para quem enxerga a relação entre humanos e animais a partir de uma perspectiva vegana, “Agnus Dei” certamente pode provocar uma reação bastante diferente daquela sugerida pela beleza das imagens.

O pálio é uma faixa de lã branca ornamentada com cruzes negras que simboliza a relação entre o papa e os arcebispos metropolitanos. Segundo a tradição, os dois cordeiros são abençoados em janeiro, no período da festa de Santa Inês, e depois entregues às monjas de Santa Cecília. Após a tosquia, sua lã é utilizada na produção dos paramentos. Os animais são imobilizados, a lã é retirada e o filme encerra o ciclo sem explicar o destino posterior dos cordeiros. A tradição é associada a Roma desde a Antiguidade cristã e segue vinculada à solenidade dos santos Pedro e Paulo, em 29 de junho.

Camaiti evita entrevistas explicativas e narração em off. A opção é observar. O formato 4:3, os enquadramentos fixos e a fotografia de Ilya Sapeha contribuem para uma experiência visual que privilegia os espaços do mosteiro, os gestos das religiosas, os animais e a passagem das estações. O resultado chamou atenção no circuito de festivais. “Agnus Dei” foi apresentado na 82ª Mostra Internacional de Arte Cinematográfica de Veneza, dentro da seção Biennale College Cinema. Depois, recebeu o Prêmio Michel Mitrani de descoberta no FIPADOC, em Biarritz.

A produção também ganhou uma camada histórica inesperada durante as filmagens. Em 2025, enquanto o ritual era acompanhado por Camaiti, o papa Francisco adoeceu e morreu em abril daquele ano. A notícia chega ao mosteiro e interrompe por algumas horas a rotina das religiosas. Depois, a vida cotidiana retoma seu curso. A ocorrência transforma o filme em um registro involuntário de um momento específico da Igreja Católica e da transição entre dois pontificados.


Ficha técnica
“Agnus Dei” (título original)
Gênero: documentário. Duração: 73 minutos. Classificação indicativa: 10 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 31 de agosto de 2025, na Itália. Idioma: italiano. Direção: Massimiliano Camaiti. Roteiro: Massimiliano Camaiti. Elenco: freiras beneditinas do Mosteiro de Santa Cecília em Trastevere. Distribuição no Brasil: Pandora Filmes. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: "A Praga" estreia na Reserva Imovision como último horror inédito de Mojica

Considerado perdido por décadas e restaurado a partir de negativos encontrados no antigo escritório do cineasta, recupera um dos projetos mais singulares de José Mojica Marins

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Em maio de 2012, José Mojica Marins esteve em Curitiba para a estreia de um espetáculo inspirado na própria trajetória. Ao terminar a apresentação, diante da plateia, anunciou em alto e bom som: “'A Praga' vem aí!”. A promessa levaria mais de uma década para se concretizar. Mojica morreu em fevereiro de 2020, sem ver concluído o projeto que acompanhou durante tantos anos. Agora, "A Praga", último filme inédito dele como diretor, chega ao catálogo da Reserva Imovisiona maior plataforma de filmes independentes da América Latina, mais de quatro décadas depois das primeiras filmagens.

Na trama, Marina (Sílvia Gless) e Juvenal (Felipe Von Rhein) passeiam pelo campo e param diante da casa de uma senhora idosa para tirar fotografias. A brincadeira não termina bem. A mulher, interpretada por Wanda Kosmo, revela sua verdadeira identidade: é uma bruxa. Ao ser provocada, ela lança uma maldição sobre Juvenal. A transformação começa de maneira quase silenciosa, com pesadelos e mudanças de comportamento, mas rapidamente assume contornos cada vez mais perturbadores.

Uma ferida surge no corpo dele e passa a exigir carne crua para ser alimentada. O horror começa na deterioração física e psicológica do personagem. Juvenal perde gradualmente o domínio sobre o próprio corpo e tenta entender a origem daquela fome monstruosa. A punição sobrenatural transforma uma atitude aparentemente banal em um pesadelo que cresce até se tornar uma ameaça.



Uma praga que atravessou décadas, mudou de formato e quase desapareceu para sempre
A história por trás da produção poderia facilmente pertencer a um dos pesadelos criados pelo próprio Zé do Caixão. A ideia surgiu ainda nos anos 1960, quando "A Praga" foi concebido como um episódio de "Além, Muito Além do Além", programa de histórias macabras exibido pela TV Bandeirantes entre 1967 e 1968. O roteiro foi escrito por Rubens Francisco Lucchetti, um dos principais parceiros de Mojica na construção de seu universo fantástico. As gravações do programa, porém, desapareceram. O material da emissora foi perdido, mas a história ganhou uma nova vida em 1969, quando foi adaptada para os quadrinhos na revista "O Estranho Mundo de Zé do Caixão".

Mais de uma década depois, Mojica decidiu retomar a ideia. Em 1980, começou a filmar "A Praga" em Super-8. O dinheiro terminou antes que o projeto pudesse ser concluído e os negativos ficaram esquecidos durante anos. O material só seria reencontrado em 2007, quando o produtor Eugenio Puppo pesquisava o acervo de Mojica para uma retrospectiva. Os rolos estavam guardados no antigo escritório do cineasta, em São Paulo - dentro de um saco de lixo.

O reencontro com os negativos, no entanto, estava longe de significar o fim da jornada. As imagens não possuíam o registro sonoro necessário para recuperar os diálogos originais. A solução foi recorrer à leitura labial, realizada por Lakshmi Lobato, para reconstruir as falas e viabilizar uma nova dublagem. Débora Muniz assumiu a voz de Sílvia Gless, Eucir de Souza dublou Felipe Von Rhein e Luah Guimarãez emprestou a voz a Wanda Kosmo. O processo de restauração incluiu ainda correção de cores, tratamento de imagem, remasterização sonora, trilha musical e efeitos especiais.

Depois de anos de trabalho, a versão definitiva foi apresentada pela primeira vez no Festival de Cinema de Sitges, na Espanha, em outubro de 2021. A restauração preservou as características visuais do material encontrado, incluindo grãos, desgastes e outras marcas deixadas pelo tempo. A intenção foi recuperar o filme sem apagar a aparência de uma produção realizada em 1980.

Wanda Kosmo é uma das presenças mais marcantes da produção. Como a bruxa, a atriz e diretora concentra boa parte da atmosfera inquietante do filme. Felipe Von Rhein acompanha a degradação de Juvenal, enquanto Sílvia Gless interpreta Marina, testemunha próxima da transformação do companheiro. José Mojica Marins também aparece diante da câmera, mas não como protagonista. Zé do Caixão surge como anfitrião e narrador, conduzindo o espectador pela história. A escolha recupera uma característica de "O Estranho Mundo de Zé do Caixão", de 1968, também realizado em parceria com Lucchetti.


O filme que sobreviveu ao próprio criador e ganhou uma última chance de chegar ao público
O curta-metragem documental "A Última Praga de Mojica", de 17 minutos, acompanha o filme e ajuda a reconstituir essa trajetória improvável. Dirigido por Cédric Fanti, Eugenio Puppo, Matheus Sundfeld e Pedro Junqueira, reúne imagens de bastidores, depoimentos, registros das filmagens originais e reproduções da história em quadrinhos que esteve na origem do projeto. Depois da estreia em Sitges, a produção passou por eventos como Fantasporto e Festival do Rio, entre outros festivais dedicados ao cinema de gênero. 

O percurso de "A Praga" é tão extraordinário quanto o próprio filme. Nasceu para a televisão, ganhou os quadrinhos, foi retomado por Mojica em Super-8, ficou inacabado, desapareceu durante décadas e acabou reencontrado entre materiais guardados em um saco de lixo. Sobreviveu ao abandono e chegou ao público quando seu próprio criador já não estava mais aqui para vê-lo.

Mojica não chegou a assistir à chegada de "A Praga" ao público. O filme, porém, preserva elementos que atravessaram sua carreira: o sobrenatural, o grotesco, a provocação e uma certa disposição para transformar o cotidiano em pesadelo. Agora, disponível na Reserva Imovision, "A Praga" finalmente cumpre a promessa feita por Mojica em Curitiba. Mais de quatro décadas depois das primeiras filmagens, a praga saiu das sombras.

Ficha técnica
"A Praga" (Título original) | "A Peste" (Título em Portugal) | "The Plague" (Título no exterior)
Gênero: terror. Duração: aproximadamente 51 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2021, a partir do material filmado originalmente em 1980. Data de lançamento: 2021, com estreia da versão definitiva no Festival de Cinema de Sitges; lançamento comercial brasileiro em 2023. Idioma: português. Direção: José Mojica Marins. Roteiro: Rubens F. Lucchetti. Elenco: Felipe Von Rhein, Sílvia Gless, Wanda Kosmo e José Mojica Marins. Distribuição no Brasil: Elo Studios. Streaming: Reserva Imovision. Cenas pós-créditos: não.Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

.: “O Filme de Oki” embaralha tempos e desejos no cinema de Hong Sang-soo


Filme de Hong Sang-soo, lançado originalmente em 2010, acompanha uma estudante de cinema dividida entre um professor e um jovem realizador e transforma diferentes pontos de vista em matéria-prima

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O cinema de Hong Sang-soo costuma encontrar grandes confusões em situações aparentemente banais. Em “O Filme de Oki”, que chega ao streaming Belas Artes À La Carte, o diretor sul-coreano acompanha uma estudante de cinema envolvida com dois homens e reorganiza a história em quatro capítulos, cada um acrescentando uma perspectiva diferente ao mesmo relacionamento. O filme acompanha Oki, interpretada por Jung Yu-mi, uma estudante de cinema que se aproxima de Jingu, vivido por Lee Sun-kyun, um jovem realizador e ex-aluno da universidade, e do professor Song, papel de Moon Sung-keun. O triângulo amoroso ganha contornos particulares porque os personagens pertencem ao mesmo ambiente: o cinema. As relações pessoais, as frustrações profissionais e as próprias tentativas de compreender o que aconteceu acabam se misturando.

A estrutura é um dos principais atrativos da produção. Os quatro segmentos podem ser vistos como episódios independentes, mas, juntos, reorganizam acontecimentos, tempos e perspectivas. O primeiro acompanha Jingu em um momento de crise; os capítulos seguintes recuam e apresentam situações anteriores; no último, Oki assume a posição de autora e transforma suas experiências em filme. A mudança de ponto de vista altera a percepção sobre os mesmos personagens e acontecimentos. A própria imprensa especializada chamou atenção para essa construção: o “New York Times” classificou o trabalho como uma realização de narrativa engenhosa, próxima de uma reunião de contos literários.

A relação entre cinema e vida é ainda mais evidente porque os protagonistas vivem dentro do universo cinematográfico. Jingu tenta se afirmar como realizador, enquanto Oki também experimenta a posição de cineasta. O filme dentro do filme funciona como uma espécie de espelho, colocando em dúvida até que ponto uma lembrança reproduz o que aconteceu ou reorganiza os fatos segundo quem os recorda. Hong Sang-soo trabalha com economia visual e situações cotidianas, apostando em conversas, encontros, refeições, caminhadas e bebedeiras para revelar inseguranças e vaidades. 

A produção também ocupa um lugar particular na filmografia do diretor. “O Filme de Oki” foi selecionado para os festivais de Veneza, Toronto e Nova York em 2010, ampliando a circulação internacional de uma obra que já apresentava algumas das características recorrentes do cinema de Hong: relações amorosas complicadas, personagens ligados à produção cinematográfica, consumo excessivo de álcool e uma narrativa que deixa o espectador montar as peças.

Outro detalhe interessante está no elenco. Lee Sun-kyun, que interpreta Jingu, alcançaria projeção mundial anos depois como parte do elenco de “Parasita”, de Bong Joon-ho. Sua parceria com Hong Sang-soo, porém, já fazia parte de sua trajetória no cinema sul-coreano. Jung Yu-mi e Moon Sung-keun completam o trio central de uma produção que depende bastante das pequenas diferenças de interpretação entre uma versão e outra da mesma história.

O último segmento, que dá nome ao filme, desloca o centro da narrativa para Oki. Ela refaz cinematograficamente dois passeios pelo mesmo lugar com os dois homens e compara as experiências. O procedimento transforma o romance em uma espécie de exercício de memória: as pessoas podem ser as mesmas, os caminhos podem ser parecidos, mas a percepção muda conforme quem observa.

A escolha de “Pomp and Circumstance”, de Edward Elgar, especialmente da célebre “Marcha nº 1 em Ré maior, Op. 39”, acrescenta uma camada de ironia à produção. Tradicionalmente associada a cerimônias acadêmicas e formaturas, a música acompanha uma história ambientada no ambiente universitário, em que os personagens discutem arte, talento, carreira e fracasso enquanto enfrentam relações pessoais bem menos solenes. É uma oportunidade de conhecer uma fase particularmente inventiva da carreira de Hong Sang-soo. O filme pode provocar estranhamento por não entregar uma cronologia convencional. Em compensação, oferece ao espectador o prazer de desconfiar das próprias certezas e rever mentalmente aquilo que acabou de assistir. 


Ficha técnica
“O Filme de Oki” | “Oki's Movie” (título original)
Gênero: drama/comédia. Duração: 80 minutos. Classificação indicativa: 14 anos no Brasil; M/12 em Portugal. Ano de produção: 2010. Data de lançamento original: 16 de setembro de 2010. Idioma: coreano. Direção: Hong Sang-soo. Roteiro: Hong Sang-soo. Elenco: Lee Sun-kyun, Jung Yu-mi, Moon Sung-keun, Seo Young-hwa, Baek Jeong-rim, Lee Chae-eun e Um Tae-goo. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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terça-feira, 18 de agosto de 2026

.: Com Marlon Brando, "Sua Excelência, o Embaixador" expõe erros da diplomacia


Drama político de George Englund, lançado em 1963, chega ao Belas Artes à La Carte e recupera uma história sobre poder, nacionalismo e arrogância diplomática

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O ator Marlon Brando assume o papel de um diplomata americano em "Sua Excelência, o Embaixador", filme de 1963 que chega ao streaming Belas Artes À La Carte e soa absolutamente atual diante das circunstâncias em que o Brasil vem enfrentando diante dos Estados Unidos. Dirigido por George Englund, o filme coloca o astro no centro de uma trama política ambientada em Sarkhan, país fictício do Sudeste Asiático marcado por conflitos internos, disputa ideológica e crescente tensão com os Estados Unidos. 

O roteiro é de Stewart Stern e adapta o romance homônimo publicado em 1958 por William J. Lederer e Eugene Burdick. O livro tornou-se um fenômeno editorial nos Estados Unidos e entrou no debate político da Guerra Fria ao questionar a atuação diplomática americana no sudeste asiático. O impacto da obra literária foi tão grande que John F. Kennedy demonstrou interesse pelo livro e chegou a enviar exemplares a senadores americanos, segundo registros históricos. A criação do Corpo da Paz durante seu governo também costuma ser relacionada ao ambiente político provocado pelo sucesso da publicação.

No elenco, Brando interpreta Harrison MacWhite, enquanto Eiji Okada vive Deong, líder oposicionista local, que já havia alcançado reconhecimento internacional por "Hiroshima, Meu Amor", de Alain Resnais, lançado em 1959. Também fazem parte do filme os atores Sandra Church, Pat Hingle, Arthur Hill, Jocelyn Brando, Reiko Sato e Kukrit Pramoj completam o elenco principal. A história gira em torno de Harrison Carter MacWhite, um intelectual experiente que sobrevive a uma tumultuada sabatina no Senado americano antes de ser nomeado embaixador. Ao chegar a Sarkhan, encontra uma realidade bem diferente daquela imaginada em Washington.

A população local reage à presença americana, enquanto o país enfrenta uma guerra civil iminente. Para MacWhite, porém, o cenário parece se resumir ao confronto entre Estados Unidos e comunismo. A dificuldade do personagem está em compreender que o sentimento contrário aos americanos também pode representar uma luta por autonomia e identidade nacional. A partir daí, suas decisões provocam consequências cada vez mais graves e colocam em xeque a maneira como Washington enxerga seus aliados e adversários.

A adaptação cinematográfica surgiu de uma experiência do próprio diretor do filme no sudeste asiático. Segundo o catálogo do American Film Institute, Englund e Brando viajaram juntos pela região em um programa de assistência técnica das Nações Unidas. A experiência despertou no diretor o interesse em realizar uma produção sobre a área e acabou levando-o ao romance de Lederer e Burdick. Outro detalhe curioso está em Kukrit Pramoj. Político e intelectual tailandês, ele participou da produção como consultor cultural e interpreta o primeiro-ministro de Sarkhan. Anos depois, em 1975, Pramoj se tornaria primeiro-ministro da Tailândia. O filme ainda teve cenas realizadas em Bangkok, inclusive na Universidade Chulalongkorn.

Sarkhan, a nação inventada pela história, funciona como uma composição de diferentes realidades do sudeste asiático. A escolha permitiu que os autores discutissem a política externa americana sem transformar a trama em um retrato direto de um único país. O próprio filme acompanha o choque entre projetos de desenvolvimento, interesses geopolíticos e as demandas da população local. Na época do lançamento, a recepção foi dividida. O jornal The New York Times reconheceu a força da atuação de Brando e apontou a complexidade do diplomata interpretado pelo ator, embora tenha criticado o rumo que o roteiro toma depois de um início promissor. O filme também teve desempenho modesto nas bilheterias e não recebeu indicação ao Oscar.

No Brasil, o filme foi originalmente lançado como "Quando Irmãos se Defrontam", título registrado em documentos cinematográficos brasileiros da época.  Não deixa de ser um capítulo curioso da filmografia de Brando: um filme político no qual o ator deixa de lado personagens explosivos para interpretar um homem convencido de que conhece a realidade de um país estrangeiro até descobrir que está errado. Com duas horas de duração, "Sua Excelência, o Embaixador" preserva o interesse de uma produção que olha para a política externa americana em plena Guerra Fria e mostra que o modus operandi norte-americano continua o mesmo. 

Ficha técnica
"Sua Excelência, o Embaixador" | "The Ugly American" (título original)
Gênero: drama, thriller político e aventura. Duração: 120 minutos. Classificação indicativa: 14 anos no lançamento brasileiro de 1963. Ano de produção: 1963. Data de lançamento: 2 de abril de 1963 nos Estados Unidos. Idioma: inglês. Direção: George Englund. Roteiro: Stewart Stern, baseado no romance de William J. Lederer e Eugene Burdick. Elenco: Marlon Brando, Eiji Okada, Sandra Church, Pat Hingle, Arthur Hill, Jocelyn Brando, Kukrit Pramoj, Judson Pratt, Reiko Sato, George Shibata, Judson Laire, Philip Ober, Yee Tak Yip, Carl Benton Reid, Simon Scott e Frances Helm. Distribuição no Brasil: Universal. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

.: "Perigo Diabolik" esquece a moralidade clássica e abraça a psicodelia


O mestre das HQs italianas ganha vida na obra-prima psicodélica de Mario Bava, com trilha inesquecível de Ennio Morricone e o charme imortal do crime em Technicolor. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Se o cinema dos anos 1960 teve uma cara e uma atitude, ela passa inevitavelmente pelas lentes psicodélicas de Mario Bava em "Perigo: Diabolik". O longa, que acaba de desembarcar no catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, é o tipo de produção que não apenas envelheceu como um bom vinho, mas ganhou um contorno quase mítico com o passar das décadas. Trata-se da adaptação definitiva dos fumetti neri, os quadrinhos adultos que abalaram as estruturas da Itália conservadora na década de 1960, idealizados pelas irmãs Angela e Luciana Giussani.

Na trama, Diabolik (John Phillip Law) é um mestre dos disfarces e assaltante sem vestígios de escrúpulos morais que, ao lado da sua estonteante companheira Eva Kant (Marisa Mell), transforma o crime em um verdadeiro espetáculo estético. O roteiro, assinado por uma equipe de peso que inclui o próprio Bava, Dino Maiuri, Brian Degas e Tudor Gates, gira em torno das tentativas cada vez mais desesperadas do inspetor Ginko (Michel Piccoli) em encurralar a dupla. Mas o anti-herói está sempre três passos à frente, seja zombando de ministros com gás do riso ou arquitetando o roubo de uma barra de ouro de vinte toneladas.

A história dos bastidores é um show à parte. O lendário produtor Dino De Laurentiis entregou o projeto a Bava após demitir a equipe anterior. Consta que De Laurentiis colocou à disposição um orçamento pomposo para os padrões italianos, mas Bava, mestre absoluto do improviso e dos efeitos práticos, usou apenas uma fração do dinheiro. O cineasta fez milagres com truques de lente, pedaços de vidro pintados e cenários fotográficos, criando uma caverna futurista e aparatos tecnológicos que parecem custar milhões. John Phillip Law assumiu o papel principal meio por acaso, aproveitando as brechas na agenda de "Barbarella" - outra grande produção de De Laurentiis -, enquanto Marisa Mell entrou no set para substituir ninguém menos que Catherine Deneuve, dispensada após se recusar a rodar cenas de nudez e não se alinhar com a visão do diretor.

A cereja do bolo é a trilha sonora do mestre Ennio Morricone. O compositor entregou uma das suas criações mais inspiradas, uma mistura alucinante de jazz, rock psicodélico, órgãos orgiásticos e guitarras com efeito wah-wah que ditam a energia cinética do filme. Curiosamente, o longa-metragem dividiu a crítica em sua estreia em 1968 e teve uma bilheteria modesta na Itália, o que fez Bava recusar veementemente a ideia de uma sequência. O tempo, contudo, fez justiça. O visual arrebatador influenciou de Roman Coppola a videoclipes dos Beastie Boys, tornando a fita uma referência obrigatória do cinema pop. "Perigo: Diabolik" é puro entretenimento visceral, um banquete visual debochado que captura como poucos o espírito rebelde de uma época.


Ficha técnica
"Perigo: Diabolik" | "Diabolik" (título original)
Gênero: ação / crime / policial. Duração: 105 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1968. Data de lançamento: 24 de janeiro de 1968. Idioma: italiano / francês. Direção: Mario Bava. Roteiro: Dino Maiuri, Brian Degas, Tudor Gates e Mario Bava (baseado em história de Angela Giussani, Luciana Giussani, Dino Maiuri e Adriano Baracco). Elenco: John Phillip Law, Marisa Mell, Michel Piccoli, Adolfo Celi, Claudio Gora, Mario Donen, Renzo Palmer, Caterina Boratto, Lucia Modugno, Annie Gorassini, Carlo Croccolo, Lidia Biondi, Andrea Bosic, Federico Boido, Tiberio Mitri, Terry-Thomas. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: Curta “Encanto Quebrado” lança feitiço amoroso e transforma vizinho idiota


Curta de Luan Filippo combina horror e humor ao acompanhar uma bruxa que se arrepende do próprio feitiço quando descobre quem é o homem por quem se apaixonou. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O amor pode até ser mágico, mas conviver com a pessoa errada pode transformar qualquer encantamento em uma grande roubada. É justamente dessa situação que parte “Encanto Quebrado”, curta-metragem escrito e dirigido por Luan Filippo, que segue em cartaz na plataforma de streaming Reserva Imovision como parte da coleção “Pequenas Jornadas - Curtas-Metragens”. A produção reúne Victória Brusco, Felipe de Carolis e Gilda Nomacce em uma história que mistura horror, fantasia e humor para brincar com uma velha obsessão romântica: encontrar alguém especial e descobrir, tarde demais, que talvez fosse melhor ter ficado sozinho.

Na trama, uma bruxa do século XXI decide lançar um feitiço de amor para o vizinho. O problema aparece quando o encantamento funciona e ela percebe que o sujeito por quem se apaixonou é, simplesmente, um idiota. Arrependida, tenta desfazer a magia, mas existe uma complicação nada conveniente: o feitiço é irreversível. A premissa dá ao curta uma leitura divertida sobre desejo, paixão e escolhas ruins, colocando uma personagem acostumada ao sobrenatural diante de uma situação bastante humana. A graça está justamente no desespero de alguém que conhece magia suficiente para criar o próprio problema, mas não encontra uma saída para consertá-lo.

“Encanto Quebrado” tem uma trajetória ligada ao cinema fantástico. O filme integrou a programação do 16º Cinefantasy – Festival Internacional de Cinema Fantástico, na Mostra Brasil Fantástico, ao lado de produções nacionais que exploram horror, fantasia, ficção científica e outras vertentes do gênero. O catálogo do festival registra a obra com 16 minutos e 45 segundos de duração e classifica a produção como ficção e horror.

A produção também aparece internacionalmente com o título original “Bitchcraft”, trocadilho que combina a ideia de bruxaria com uma expressão de forte carga irônica. O curta foi identificado em materiais do Cinefantasy com esse título, enquanto a produção brasileira mantém “Encanto Quebrado” como título nacional.

A relação do filme com a Imovision também é curiosa. Segundo Victória Brusco, que protagoniza a produção, “Encanto Quebrado” foi a primeira produção oficial da distribuidora e teve sua estreia no Festival de Cinema Internacional Fantaspoa, em 2024. A atriz também passou a apresentar conteúdos da Imovision relacionados aos filmes distribuídos pela empresa. O curta-metragem foi produzido pela Chá Cinematográfico e tem Luan Filippo na direção e no roteiro. A ficha técnica divulgada pelo Cinefantasy confirma ainda Victória Brusco, Felipe de Carolis e Gilda Nomacce no elenco. Uma opção rápida para quem gosta de histórias fantásticas com humor ácido e personagens que descobrem, da pior maneira possível, que mexer com magia pode trazer consequências bem inconvenientes.


Ficha técnica
“Encanto Quebrado” (título original)
Gênero: ficção/horror. Duração: 16min45s. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 11 de abril de 2024, no Brasil. Idioma: português. Direção: Luan Filippo. Roteiro: Luan Filippo. Elenco: Victória Brusco, Felipe de Carolis e Gilda Nomacce. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não informadas. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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domingo, 16 de agosto de 2026

.: Carla Madeira lança “Quando”, livro sobre laços que sobrevivem ao tempo


A escritora Carla Madeira volta às livrarias com “Quando”, quarto romance dela, publicado pela Editora Record. Depois do sucesso de "Tudo É Rio", "Véspera" e "A Natureza da Mordida", a autora mergulha novamente nas complexidades das relações humanas, desta vez tendo como pano de fundo o Brasil dos anos 1980. A trama acompanha Viridiana, mãe de Margarida, Valquíria e Tito, que se vê diante de uma situação extrema: após um acontecimento trágico, decide denunciar o próprio filho à polícia. A escolha provoca uma ruptura profunda na família e desencadeia consequências que atravessam duas décadas.

Vinte anos depois, o afastamento entre os personagens ganha a possibilidade de ser revisitado. Nesse reencontro com o passado, Carla Madeira conduz uma narrativa marcada por questões como maternidade, homofobia, violência, culpa, justiça, perdão e a permanência dos afetos mesmo diante de experiências capazes de transformar uma família. A obra conta com texto de orelha assinado por Rita von Hunty, que destaca a capacidade do romance de observar tanto as relações particulares quanto as estruturas sociais que atravessam a vida brasileira. O projeto gráfico da capa é assinado pelo premiado Leonardo Iaccarino, a partir da pintura "Apprehensive", de Rebecca Aldernet.

Escrito ao longo de quase quatro anos, "Quando" mantém uma das principais características da literatura de Carla Madeira: a combinação entre intensidade emocional, densidade psicológica e linguagem cuidadosamente trabalhada. O romance coloca seus personagens diante de dilemas morais complexos, evitando respostas definitivas e deixando em aberto questões sobre até onde pode chegar a justiça e o que significa, afinal, perdoar. Compre o livro "Quando", de Carla Madeira, neste link.


Sobre Carla Madeira
Nascida em Belo Horizonte, em 1964, Carla Madeira iniciou a trajetória acadêmica na Matemática, mas posteriormente se formou em Jornalismo e Publicidade. Atuou como professora de redação publicitária na Universidade Federal de Minas Gerais e trabalhou como sócia e diretora de criação da agência Lápis Raro. Pela Editora Record, publicou "Tudo É Rio", "A Natureza da Mordida" e "Véspera". Somados, os três romances já ultrapassaram a marca de 1 milhão de exemplares vendidos, consolidando a escritora entre os grandes fenômenos recentes da literatura brasileira.

As obras também avançam para outras linguagens. "Véspera" tem adaptação prevista para série da HBO Max, sob direção-geral de Joana Jabace, com Bruna Marquezine, Gabriel Leone e Camila Márdila no elenco. Já "Tudo É Rio" está sendo levado ao cinema pela Boutique Filmes, com estreia prevista para 2027. O romance também foi escolhido como Livro do Ano de 2023, na categoria de ficção lusófona, pelo Prêmio Livreiros Bertrand, em Portugal. Compre os livros de Carla Madeira neste link.

.: " João, Joãozinho, Joãozito" transforma infância de Guimarães Rosa em musical


"João, Joãozinho, Joãozito" estreia em 29 de agosto e revisita os primeiros anos de Guimarães Rosa em uma montagem que mistura literatura, música, bonecos e cultura popular brasileira. Foto: Alê Catan

A criança curiosa que descobria o mundo entre livros, animais, histórias e brincadeiras ganhou um novo lugar na cena paulistana. "João, Joãozinho, Joãozito", musical inédito inspirado no livro "João Joãozinho, Joãozito - O Menino Encantado", de Claudio Fragata, estreia em 29 de agosto no Teatro do Sesi-SP, no Centro Cultural Fiesp. Com direção artística, texto e adaptação de Marcio Araújo, a montagem acompanha os primeiros anos de João Guimarães Rosa (1908-1967), antes de o menino de Cordisburgo se tornar um dos nomes fundamentais da literatura brasileira.

A temporada segue até 13 de dezembro de 2026, com sessões às quintas e sextas, às 11h00, e aos sábados e domingos, às 15h. Aos fins de semana, todas as apresentações contam com interpretação em Libras e audiodescrição. A produção foi idealizada por Daniel Palmeira e nasceu de sete anos de pesquisa dedicados a construir uma linguagem capaz de aproximar o universo de Guimarães Rosa do público infantil. 

A história parte da infância do escritor em Minas Gerais e acompanha sua trajetória desde o nascimento até a mudança para Belo Horizonte. Livros, bichos, natureza, línguas, brincadeiras e as histórias que circulavam em sua cidade natal formam o território de descobertas do pequeno João. A montagem transforma essas experiências em uma aventura musical sobre curiosidade, imaginação e conhecimento.

A relação entre o menino e o futuro escritor também aparece na dramaturgia por meio de referências ao universo literário de Rosa. Elementos associados a "Grande Sertão: Veredas" e um amigo imaginário inspirado em Miguilim entram na narrativa como pistas para quem já conhece a obra do autor e como primeiras portas de entrada para crianças que ainda vão descobrir sua literatura.

Um dos aspectos mais interessantes da encenação está na maneira como João é construído em cena. Os nove integrantes do elenco se alternam na interpretação do protagonista, fazendo com que a figura do menino passe de um corpo a outro. A escolha amplia a ideia de que a infância pertence a todos e transforma o próprio personagem em uma construção coletiva.

“Queremos que toda criança se veja no palco, que possa imaginar que também pode ser cientista, médica, escritora, viajar pelo mundo ou aprender outras línguas. Independentemente de onde venha, ela precisa acreditar que seu futuro também lhe pertence”, afirma Marcio Araújo. A gravata-borboleta, elemento associado à imagem pública de Guimarães Rosa, também ganha função cênica. Ao circular entre os artistas como laço, presilha ou gravata, o objeto funciona como elo entre as diferentes interpretações de João e reforça a ideia de identidade compartilhada. Compre o livro "João Joãozinho, Joãozito - O Menino Encantado", de Claudio Fragata, neste link.

Música que vem da cultura popular
A trilha sonora original, assinada por Tato Fischer e Marcio Araújo, reúne nove canções e mergulha em manifestações tradicionais brasileiras. Folia de Reis, cururu, catira, cantos populares, viola caipira e sanfona ajudam a criar o ambiente sonoro da montagem. A direção musical e os arranjos são de Dagoberto Feliz. A música acompanha a trajetória do personagem e estabelece uma ponte entre as experiências da infância e as tradições culturais que atravessam o interior brasileiro.

No aspecto visual, a montagem aposta em bonecos artesanais, brinquedos antigos e objetos associados à infância do interior do país, especialmente de Minas Gerais. O cenário criado por Bruno Anselmo é formado por estruturas que mudam de função ao longo da apresentação, deixando espaço para que a imaginação do público complete as imagens.

Os figurinos de Clau Carmo seguem a mesma lógica e buscam referências em colchas de retalhos e brinquedos artesanais, criando uma atmosfera de memória e afetividade. Ao todo, são 19 bonecos criados por Jésus Sêda, conhecido também pelo trabalho em "Castelo Rá-Tim-Bum". Em cena, os nove artistas acumulam funções: atuam, cantam, tocam instrumentos, dançam e manipulam bonecos. Integram o elenco Beatriz Amado, Conrado Caputo, Daniel Aureliano, Elix, João Paulo Bienermann, Neusa de Souza, Rita Almeida, Thiago Claro França e Thiago Mota.

Para Tais Lara, diretora do Centro Cultural Fiesp, a montagem aproxima crianças e famílias da trajetória de Guimarães Rosa ao mesmo tempo em que amplia o contato do público com a literatura brasileira. A proposta está alinhada ao compromisso do Sesi-SP com a oferta gratuita de programação cultural e com a formação de novos públicos.

Uma infância antes do escritor
"João, Joãozinho, Joãozito"
olha para Guimarães Rosa antes do reconhecimento, dos livros consagrados e da carreira diplomática. É o menino que observa, pergunta, coleciona descobertas e encontra nos livros uma forma de ampliar o mundo ao redor. A montagem utiliza essa perspectiva para apresentar a infância como um período decisivo na formação do artista. A curiosidade do personagem, sua relação com a natureza e o contato com diferentes linguagens aparecem como elementos que ajudam a compreender o escritor que surgiria anos depois.

A proposta também encontra na cultura popular uma maneira de aproximar o universo roseano das crianças. Em vez de apresentar Guimarães Rosa como uma figura distante da literatura, o espetáculo recupera o menino que existiu antes do autor de Grande Sertão: Veredas e transforma suas primeiras experiências em matéria de teatro.


Ficha técnica
Peça teatral "João, Joãozinho, Joãozito", a partir do livro de Claudio Fragata

Texto e adaptação: Marcio Araújo
Direção artística: Marcio Araújo
Músicas compostas: Tato Fischer/Marcio Araújo
Direção musical/arranjos: Dagoberto Feliz
Assistente de direção: Adriana Salcedo
Elenco/músicos: Rita Almeida, João Paulo Bienermann, Daniel Aureliano, Neusa de Souza, Elix, Conrado Caputo, Beatriz Amado, Thiago Claro França e Thiago Mota
Paisagista sonoro: Marcelino Ziggy
Desenho de som: Labsom – Kleber Marques, Juma e Marcelino Ziggy
Microfonista: Juma (Juliana Maria)
Técnico de som: Kleber Marques
Iluminador/desenho de luz: Guilherme Bonfanti
Operador de luz: Felipe Bonfante
Cenografia: Bruno Anselmo
Cenotécnico: Reserva Cênica
Design: Leandro Madeiros
Figurino: Clau Carmo
Costureira/modelista: Salomé Abdala
Aderecista: Nilton Araújo
Bonequeiro: Jésus Sêda
Visagista: Jonathan Faria
Projeto gráfico: André Kitagawa
Fotógrafo: Ale Catan
Assistente de fotografia: Rafael Sá
Vídeos: Sucata Filmes – Vinícius Faé
Preparação corporal: João Paulo Bienermann
Preparação de manipulação de bonecos: Eduardo Alve
Direção de palco: Marco Loureiro
Maquinista: Atila Quirino (Chin)
Contrarregra: Arthur Gerizani
Camareira: Cris Quirino
Assessoria de imprensa: Canal Aberto Comunicação
Mídias sociais: Tatiana Machado
Intérprete de Libras: Fabiano Campos
Áudio-descrição: Ver com Palavras
Produção executiva: William Gibson
Direção de produção: Daniel Palmeira
Coordenação financeira: Cleo Chaves
Assessoria contábil: DW Gonzalez Contábil
Assessoria jurídica: Marcelo Mayer
Coordenação geral/produção: Penta Querobin Produções


Serviço
Peça teatral "João, Joãozinho, Joãozito"
Temporada: 29 de agosto a 13 de dezembro de 2026
Sessões: quintas e sextas, às 11h; sábados e domingos, às 15h
Atenção: Libras e audiodescrição em todos os sábados e domingos da temporada
Local: Centro Cultural Fiesp - Teatro Sesi-SP | Av. Paulista, 1.313, em frente à estação Trianon-Masp do Metrô
Ingressos: gratuitos, com reservas pelo site www.sesisp.org.br/eventos
Classificação indicativa: livre, indicado para todas as idades

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