Mostrando postagens com marcador Helder Miranda. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Helder Miranda. Mostrar todas as postagens

domingo, 15 de fevereiro de 2026

.: Renato Amado enfrenta a finitude e expõe contradições em “Nonada”


Em entrevista para o portal Resenhando.com, o autor carioca fala sobre melancolia, machismo estrutural, erotização da ausência e o salto no escuro que o levou da carreira jurídica à literatura. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com

Em um mundo hiperconectado e afetivamente exausto, Renato Amado escolheu ampliar as distâncias para falar de proximidade. Em "Nonada", publicado pela Editora Cajuína, segundo romance assinado por ele, o escritor carioca imagina uma Terra plana e mil vezes maior que a nossa para narrar a crise silenciosa de Galeano - motorista de aplicativo, ex-praticante de wingsuit e homem marcado por melancolia, desejo e contradições.

Entre telescópios que substituem o toque, diálogos de Uber que revelam microviolências cotidianas e um machismo que opera quase sem ruído, o romance combina ficção científica, existencialismo e crítica social. Mais do que contar uma história de amor à distância, Amado investiga o medo da morte, a dificuldade de sustentar vínculos profundos e a tentação permanente de adiar o desespero com doses de intensidade. Nesta entrevista exclusiva para o portal Resenhando.com, ele fala sobre o vazio como gesto político, a literatura como adiamento e exercício de aceitação, e o risco de viver quando já se sabe o desfecho da batalha. Compre o livro "Nonada", de Renato Amado, neste link.

Resenhando.com - Galeano observa o mundo à distância, mas evita o contato pleno. Em que medida "Nonada" sugere que o homem contemporâneo prefere o risco da imaginação ao perigo real do encontro?
Renato Amado - Galeano é deslocado em relação à realidade imediata, mas se conecta com uma mulher de outro canto do planeta. Do mesmo modo, por meio de telas damos preferência a ausentes e nos afastamos dos que estão à nossa volta. Parece que a presença assusta. Quanto mais instâncias de mediação, mais protegidos nos sentimos. E mais eficaz do que a distância, só o anonimato.


Resenhando.com - ⁠A Terra plana e descomunal do romance amplia distâncias físicas para falar de abismos emocionais. Essa distopia nasce mais do medo da tecnologia ou da incapacidade humana de sustentar vínculos profundos?
Renato Amado - 
Sem dúvida da dificuldade em sustentar vínculos profundos. A mulher do outro lado do oceano é uma fantasia: a voz não chega, o idioma é outro. Eles estabelecem traços de linguagem que permitem alguma comunicação, mas uma comunicação incompleta, com espaço para vazios preenchidos pela fantasia. Já as pessoas próximas se apresentam com seus defeitos, manias, irracionalidades, teimosias. Não é fácil se conectar em um nível mais profundo com seres tão imperfeitos. Além disso, todos carregamos abismos inomináveis que o outro não alcança, o que gera solidão. No fim das contas, somos sós em nossos universos internos, acessíveis ao outro apenas por brotamentos pontuais na fala, nos gestos, nas expressões.


Resenhando.com - Galeano não é apresentado como vilão, mas como produto de um machismo estrutural “inconsciente”. Até que ponto humanizar esse homem é um gesto crítico e até que ponto pode ser lido como complacência?
Renato Amado - 
O romance não adota um tom panfletário nem subestima a inteligência do leitor. A literatura nos dá uma oportunidade que não existe fora dela: de entrarmos na cabeça do outro. Isso amplia nossa compreensão do humano. A literatura que me interessa, portanto, humaniza qualquer tipo de personagem, pois a desumanização é necessariamente uma simplificação. E humanizar não é justificar, mas compreender processos. Galeano é um homem comum, atravessado pelo machismo estrutural como praticamente todos nós. Desumanizá-lo seria desumanizar a todos. Ele funciona como espelho: reconhecemos nele traços nossos. Ao criticar o machismo estrutural, o livro acaba por criticar também o leitor e o autor.


Resenhando.com - ⁠O telescópio permite ver, mas não tocar. Em tempos de redes sociais, aplicativos e amores espectrais, você diria que estamos vivendo uma erotização da ausência?
Renato Amado - 
O que se apresenta parece não ter mistério: está ali, na nossa frente, é aquilo e pronto. Acostumamo-nos a não perscrutar mais profundamente. Já o que está ausente é promessa, fantasia, possibilidade. Sem precisar caçar para sobreviver, o ser humano moderno - ao menos aquele incluído nos confortos da modernidade – tornou-se um grande entediado. Será que, da tela que despeja bits e bytes em todas as suas variações, não virá algo mais interessante do que a melancolia que nos cerca? Essa expectativa pelo novo e pelo surpreendente a qualquer instante na palma da mão é, sim, uma erotização da ausência. Deseja-se menos o que existe do que o que ainda não se mostrou. O presente tornou-se quase sempre insuficiente.


Resenhando.com - ⁠Os diálogos no Uber expõem um Brasil saturado de preconceitos e microviolências. Galeano escuta muito, reage pouco. O silêncio dele é forma de resistência ou mais um sintoma de acomodação masculina?
Renato Amado - 
É fruto de melancolia, de falta de energia, de desistência. Mas é também uma forma de dar voz ao leitor. A literatura deixa espaço e o leitor o ocupa. O silêncio é uma convocação.


Resenhando.com - ⁠"Nonada" é um romance curto, rarefeito, cheio de vazios. Você escreveu pensando no silêncio como escolha estética ou como limite ético diante do que não pode, ou não deve, ser explicado?
Renato Amado - 
Não deve ser explicado por escolha estética. Obras que explicam subestimam o leitor. Obras que apenas sugerem requerem sua intervenção. É nesse momento, quando o leitor precisa completar o texto, que a experiência se torna realmente marcante. Informações mastigadas podem até parecer interessantes, mas costumam se dissipar rapidamente. Já os fragmentos que tocam a emoção e exigem elaboração produzem uma experiência mais duradoura e, se intensos o bastante, passam a integrar a própria constituição psíquica de quem lê.


Resenhando.com - Há algo de paradoxal em um ex-atleta radical, habituado ao risco extremo, tornar-se um homem paralisado diante da vida afetiva. O medo da morte é menor que o medo da intimidade? 
Renato Amado - Por paradoxal que possa parecer, é por medo da morte que Galeano se tornou praticante de esportes radicais. Galeano via a morte como inimiga (só há inimigo quando há temor; não existe inimizade na indiferença) e queria mostrar que poderia vencê-la, ainda que provisoriamente. Uma forma de fazê-lo não era apenas se arriscar, mas viver intensamente: no absoluto do momento, a morte não existe. Mas ele quase foi derrotado, ao sofrer um grave acidente, e a ilusão se rompeu. A morte mostrou-se, “estou aqui, te pego a qualquer hora!”. E Galeano passou a se debater ininterruptamente com a finitude. É uma briga perdida. Se habitamos uma batalha cujo resultado desfavorável já conhecemos, e que perdurará por toda a vida, a consequência é a melancolia. Como se entregar a uma relação afetiva estando tomado pela melancolia? Se a morte cobre e esvazia tudo, nada tem sentido ou beleza. Nada conecta. Ao menos até Galeano ver, através de um telescópio, aquele olho do outro lado do planeta.


Resenhando.com - ⁠Ao trocar uma carreira estável no Direito por uma vida dedicada à literatura, você também realizou um salto no escuro. Que partes de Galeano dialogam, ainda que indiretamente, com essa decisão?

Renato Amado - Assim como Galeano tentava enganar a morte pela intensidade praticando wingsuit, eu tentei fazer o mesmo, buscando outras intensidades. A carreira no Direito não me dava vida, me dava salário. Precisei saltar no escuro, buscar a vida a 100% para enganar a morte.


Resenhando.com - ⁠O título "Nonada" sugere o “quase nada”, o resto, o intervalo. Em um mundo obcecado por performance, produtividade e respostas rápidas, escrever sobre o vazio é um gesto político?

Renato Amado - Existir e escrever, o que seja, é um gesto político, pois implica propor um modo de estar no mundo. Nesse sentido, Nonada se insere em uma das vocações mais recorrentes da arte: não oferecer respostas, mas abrir questões, sugerir possibilidades. Em um contexto obcecado por performance e produtividade, sustentar o vazio, a pausa e o intervalo, torna-se, por si só, uma forma de resistência.


Resenhando.com - ⁠Você afirma que a melhor saída diante da finitude é a aceitação. A literatura, para você, é um caminho real para essa aceitação ou apenas uma forma mais sofisticada de adiar o desespero?
Renato Amado - Faço muitas coisas para adiar o desespero. São as tais ações que buscam intensidade, que nos permitem esquecer a nossa condição por instantes, viver inteiros. Não vejo isso como algo negativo: talvez a melhor estratégia seja justamente adiar o desespero a tal ponto que a morte chegue antes de termos tido tempo para nos desesperar. Quanto à aceitação, ela é difícil, muito difícil, mas também é um caminho. A literatura pode ser ambas as coisas: adiamento e exercício de aceitação. Em Nonada, ao escrever o percurso de Galeano, que se constitui como um ser humano mais íntegro à medida que caminha em direção a uma aceitação ao menos parcial, eu buscava fazer o mesmo. Escrevi este livro para lidar com meus fantasmas, equilibrar-me. O caminho de Galeano é o meu caminho.

.: “A Baleia” desmonta o discurso fácil sobre compaixão e volta a ser o que era


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com. Foto: Ale Catan

O filme "A Baleia", dirigido por Darren Aronofsky, já era bom e foi injustamente patrulhado por uma crítica que parece ter alergia a qualquer obra que não venha embalada no manual do “politicamente correto performático”. Mas, no palco do Teatro Sabesp Frei Caneca até dia 1º de março, sob a direção de Luís Artur Nunes, o texto de Samuel D. Hunter respira melhor e parece ainda mais incômodo. Talvez porque o teatro não permita fuga: não há corte de câmera, não há trilha que manipule a lágrima: há somente atores diante do abismo e uma história a ser contada.

No papel que foi de Brendan Fraser no cinema, Emílio de Mello entrega algo que não se ensaia: doçura. O Charlie interpretado por ele não é um mártir e muito menos um monstro. É um homem que falhou tentando amar e que agora tenta amar falhando menos. No clássico "Moby Dick", escrito por Herman Melville, o capitão Ahab persegue a baleia como se quisesse matar o que não compreende. Em "A Baleia", Charlie é perseguido pelas escolhas que fez, como se fosse o Ahab de si mesmo. É apenas um homem que não se cansa de pedir desculpas e, quanto mais faz isso, mais revela a brutalidade da própria culpa.

O mar está para o espetáculo o tempo todo, seja como personagem, seja como pano de fundo: no som constante, na água como metáfora de limpeza, no dilúvio íntimo que sempre ameaça transbordar. E, inevitavelmente, nos amores líquidos apontados por Zygmunt Bauman como relações que escorrem pelos dedos antes que se aprenda a segurá-las.

O elenco atua com precisão. Luisa Thiré constrói uma amiga sobrecarregada, dividida entre o colo e o cansaço. A atuação dela é estupenda do início ao fim. Ela cuida, mas é enérgica; protege, mas explode; ama, mas está exausta da situação em que está inserida. Já Gabriela Freire, no papel da filha, tem a coragem de ser detestável enquanto personagem. A Ellie interpretada por ela oscila entre maturidade precoce e vulnerabilidade mal cicatrizada. Sádica, ela se vinga do pai com uma crueldade que nasceu do abandono, em uma vilania que não é gratuita. O jovem missionário vivido por Eduardo Speroni também se destaca. O traço dele é a hipocrisia que costuma se travestir de fé. A peça ainda presenteia o público com a participação especial de Alice Borges em uma cena decisiva.

A gordofobia e a homofobia coexistem em "A Baleia", mas o que se debate em cena é algo mais desconfortável do que essas temáticas: arrependimento e abandono. Com diálogos cortantes, é uma peça sobre o mal que se rebate com o bem, e erros que resultam em pequenas redenções, enquanto o caos acontece na vida que segue. No palco, "A Baleia" deixa de ser apenas a sombra de uma boa adaptação cinematográfica e volta a ser o que sempre foi: teatro em estado de graça.

Ficha técnica
Espetáculo "A Baleia". Texto: Samuel D. Hunter. Tradução e Direção: Luís Artur Nunes. Elenco: Luisa Thiré, Gabriela Freire e Eduardo Speroni. Participação especial: Alice Borges. Coordenação Artística: Felipe Heráclito Lima. Cenário: Bia Junqueira. Figurino: Carlos Alberto Nunes. Iluminação: Maneco Quinderé. Trilha Sonora: Federico Puppi. Visagismo:  Mona Magalhaes. Preparação Corporal: Jacyan Castilho. Preparação Vocal: Jane Celeste. Desenho Gráfico: Cadão. Fotografia: Ale Catan. Mídia Social: Lab Cultural. Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes. Direção de Produção: Alessandra Reis. Coordenação de Produção: Wesley Cardozo. Produção Executiva: Cristina Leite. Lei de Incentivo: Natália Simonete. Produtores Associados: Alessandra Reis e Felipe Heráclito Lima.

Serviço:
Teatro Sabesp Frei Caneca
Temporada: 23 de janeiro até 1º de março 2026
Horário: Sextas e sábados às 20h e domingo às 19h.

Ingressos
Plateia Baixa – R$ 160 (inteira) / R$ 80 (meia-entrada)
Plateia – R$ 140 (inteira) / R$ 70 (meia-entrada)
Plateia Alta – R$ 120 (inteira) / R$ 60 (meia-entrada)
Plateia Popular – R$ 50 (inteira) / R$ 25 (meia-entrada)
Desconto Caixa Residencial: clientes CAIXA Residencial têm 50% de desconto na compra de até dois (2) ingressos. 
Desconto: Para clientes Caixa Residencial e Vivo Valoriza
Bilheteria: https://uhuu.com

Duração: 100 minutos.
Classificação: 14 anos. Menores de 18 anos, somente poderão entrar acompanhados dos pais ou responsáveis e crianças até 24 meses de idade que ficarem no colo dos pais, não pagam.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

.: Alexandre Lino expõe conflitos familiares e desafia rótulos em “A Miss”


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com. Foto: divulgação

Aos poucos, Alexandre Lino construiu uma trajetória marcada pela recusa ao óbvio. Ator de presença discreta, mas de escolhas contundentes, ele passa pelo teatro, pelo cinema e pela televisão interrogando papéis, estereótipos e expectativas - sobretudo aquelas projetadas sobre corpos, sotaques e origens. No filme "A Miss", em breve em cartaz na Rede Cineflix e em cinemas de todo o Brasil, ele dá vida a Athena, personagem marcado por angústias, disputas familiares e ambiguidades morais, reafirmando a vocação dele em dar vida a personagens que incomodam mais do que confortam. Nesta entrevista exclusiva para o portal Resenhando.com, o ator reflete sobre protagonismo tardio, humor como linguagem política, identidade nordestina, processos criativos e a responsabilidade ética de existir em cena sem se render à caricatura.


Resenhando.com - Athena, seu personagem em "A Miss", ajuda a subverter uma tradição familiar baseada em concursos de beleza. Em que momento da sua vida você também precisou “trapacear o roteiro” que o mundo tinha escrito para você?
Alexandre Lino - Subverti o roteiro quando cheguei ao Rio e me pediram para “neutralizar” meu sotaque nordestino para disputar testes e me enquadrar. Naquele momento, era uma exigência comum do mercado e eu precisava trabalhar, mas isso nunca apagou quem eu sou, mesmo tendo me submetido a essa imposição. Hoje vejo esse padrão sendo revisto e fico feliz em perceber como "A Miss" dialoga com essa quebra de expectativas e com a coragem de existir fora das molduras impostas.


Resenhando.com - Você passou décadas sendo um ator essencial, mas muitas vezes coadjuvante no audiovisual. O sucesso tardio no cinema muda o ego ou apenas confirma uma espera que sempre fez sentido para você?
Alexandre Lino - O cinema não inflou minha vaidade, mas tem confirmado uma trajetória construída degrau a degrau. Meu reconhecimento começou no teatro, onde alcancei protagonismos mais rapidamente, e o audiovisual veio depois como consequência dessa maturidade artística. "A Miss" chega como a coroação de uma carreira forjada nos palcos, sem alterar meu modo de encarar a profissão: continuo sendo um operário das artes.


Resenhando.com - Em "A Miss", o desejo da mãe fala mais alto que a escuta dos filhos. Na sua leitura, esse filme fala mais sobre identidade de gênero ou sobre o autoritarismo disfarçado de amor dentro das famílias brasileiras?
Alexandre Lino - "A Miss" é, antes de tudo, um filme sobre família. A discussão sobre identidade de gênero está presente, mas o centro dramático é esse amor que vira controle e a projeção de frustrações da mãe sobre os filhos. O quarteto central revela contradições muito humanas - gente que ama e machuca, acerta e erra - e é nessa ambiguidade que o filme se fortalece e torna-se universal.


Resenhando.com - Depois de dar voz a personagens socialmente invisíveis - porteiros, migrantes, figuras à margem - o que ainda o assusta mais: a invisibilidade ou a caricatura quando finalmente se ganha destaque?
Alexandre Lino - A caricatura me assusta mais que a invisibilidade, porque ela cristaliza estigmas e empobrece realidades complexas, sobretudo quando falamos do nordestino. Muitas vezes o público se surpreende ao encontrar reflexão por trás de personagens populares, como o Porteiro Waldisney. Meu compromisso é seguir oferecendo densidade a essas figuras que o audiovisual insiste em simplificar.


Resenhando.com - Você transita com naturalidade entre o riso popular e o drama sensível. Existe preconceito dentro do próprio meio artístico contra quem domina o humor antes de ser reconhecido como “ator sério”?
Alexandre Lino - Existe, sim, um preconceito estrutural contra quem vem do humor. O meio artístico ainda supervaloriza o drama e o experimental, enquanto subestima quem faz rir ou trabalha para públicos populares. Eu sigo transitando entre gêneros porque acredito que um ator se mede pela seriedade do trabalho e não pelo rótulo que tentam lhe impor. Sou plural e diverso na vida, e na arte cultivo essa multiplicidade, transitando entre gêneros, linguagens e personagens sem me prender a julgamentos e denominações.


Resenhando.com - Athena é irreverente, afetuoso e provocador. Ele carrega algo do Alexandre diretor, algo do Alexandre ator ou algo do Alexandre homem que não cabe mais em rótulos?
Alexandre Lino - Athena reúne muito do meu humor e da minha sensibilidade, mas também carrega as experiências acumuladas em 25 anos de carreira. Ele nasce dessa mistura entre vida pessoal e repertório artístico que todo ator mobiliza ao criar um personagem. E há algo raro ali: a capacidade de perdoar, que me comove e me interessa profundamente no ser humano.


Resenhando.com - Em "O Porteiro", você inverte o foco e coloca o “figurante da vida real” como protagonista. Em "A Miss", a inversão é de gênero e expectativa. A subversão virou um projeto político na sua arte?
Alexandre Lino - Não chamaria de um projeto político no sentido partidário, mas de uma escolha estética e ética: lançar luz sobre histórias simples e de pessoas comuns, corpos pouco celebrados e temas que costumam ficar à margem. "O Porteiro" nasce dessa vontade de inverter centros e provocar empatia por quem quase nunca ocupa o protagonismo. Já "A Miss" apresenta uma família disfuncional que serve de espelho para milhares de outras ao redor do mundo.


Resenhando.com - Depois de tantos anos criando pontes entre teatro, cinema e educação artística, o que ainda move você: reconhecimento, sobrevivência ou a necessidade quase física de contar histórias que incomodam?
Alexandre Lino - O que ainda me move é o desafio do novo e a necessidade de contar histórias conectadas às minhas raízes nordestinas, mas também capazes de deslocar olhares. Quero seguir construindo projetos que dialoguem com esse lugar de origem e com outros territórios simbólicos, mantendo viva a tríade que organiza minha vida artística: teatro, cinema e educação.


Resenhando.com - Você já afirmou que “ser homem hoje é reinventar-se”. O que o cinema brasileiro ainda precisa desaprender para representar novas masculinidades sem medos ou clichês?
Alexandre Lino - O cinema brasileiro precisa desaprender a objetificação feminina e os atalhos fáceis que ainda surgem, sobretudo na comédia. Representar novas masculinidades passa por mostrar homens que não se afirmam pela dominação, mas pelo respeito e pela parceria. Rir não pode servir de desculpa para uma liberdade marcada por preconceitos.


Resenhando.com - Se "A Miss" fosse menos sobre concursos de beleza e mais sobre o Brasil atual, que faixa simbólica você acha que o país está tentando usar, e qual ele definitivamente não merece?
Alexandre Lino - Se "A Miss" fosse uma metáfora direta do Brasil, eu diria que ainda estamos tentando ostentar uma faixa de certezas quando deveríamos assumir a da diversidade e do diálogo. O filme aponta que não existe beleza eterna nem modelo único de família, e que a polarização é a faixa que definitivamente não merecemos usar.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

.: Entrevista: Victor Garbossa reinventa “O Alienista” para fazer o Brasil repensar


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.comFoto: Joaquim Araújo

Em um país onde o clássico frequentemente é visto como sinônimo de inacessível, "O Alienista" -adaptação teatral protagonizada por Victor Garbossa e dirigida por Eduardo Figueiredo - surge como uma espécie de rebelião poética: leve, irônica, musical e, ao mesmo tempo, profundamente crítica. Inspirada no conto homônimo de Machado de Assis, a montagem reimagina o médico Simão Bacamarte que, além de um estudioso da razão e da loucura, é também, alguém que faz parte das contradições e obsessões de nosso tempo.

Em cartaz até o dia 1º de fevereiro no Teatro J. Safra, em São Paulo, "O Alienista" convida cada espectador a revisitar Machado de Assis. Em entrevista exclusiva para o portal Resenhando.com, Victor Garbossa fala sobre arte, identidade, redes sociais, fé cega e o ofício performático que transita entre palco, estúdio de dublagem e tela.

Com uma linguagem que dialoga diretamente com o público jovem e familiar, o espetáculo propõe uma aproximação radical entre palco e plateia - que começa ainda na recepção do teatro, quando um ator se mistura aos espectadores para compartilhar como a leitura de um clássico transformou sua vida. Ao longo de 60 minutos, humor e reflexão se misturam à música ao vivo e à multiplicidade de personagens encarnados por Garbossa, convidando o público a rir, pensar e questionar a própria noção de normalidade.


Resenhando.com - "O Alienista" é uma obra sobre o poder de definir quem é “normal”. Em 2026, quem você acredita que ocupa esse lugar de alienista na sociedade brasileira: a ciência, a política, o mercado ou as redes sociais?
Victor Garbossa - Eu acredito que o tribunal das redes sociais seja um antro onde pessoas de todos os segmentos se sentem autorizadas - e empoderadas - a julgar o que é certo, o que é errado, o que é normal e o que não é. Existe uma crença perigosa de que qualquer um pode opinar sobre qualquer assunto sem embasamento algum, e as redes sociais reforçam isso ao oferecerem anonimato e sensação de impunidade. Basta um perfil fechado ou falso para que atrocidades sejam ditas e, na maioria das vezes, nada acontece.


Resenhando.com - Ao se misturar ao público logo na recepção e contar sua própria “queda” em Machado de Assis, você rompe a quarta parede e também a hierarquia entre ator e espectador. Esse gesto é mais teatral ou mais político?
Victor Garbossa - É mais humano. A partir do momento em que busco equalizar a nossa relação, tento trazer para as pessoas uma proximidade que muitas vezes o estereótipo de um texto difícil cria logo de início. Quando somos apresentados a um texto clássico, geralmente temos a impressão de algo arcaico, chato ou de difícil leitura. O que eu busco dizer, por meio desse ato, é que estamos juntos. Ao fazer isso, rompo previamente uma barreira que, por exemplo, no cinema, existe de forma clara entre tela e espectador. Aqui, apesar de também existir uma separação, estamos todos dentro da mesma história.


Resenhando.com - Machado de Assis escreveu "O Alienista" como sátira, mas muitos hoje o leem quase como profecia. Em cena, você ri mais de Simão Bacamarte ou sente medo dele?
Victor Garbossa - A primeira coisa que busco é a empatia. Não posso ser leviano ou ingênuo a ponto de dizer que nunca julguei algo com preconceito ao longo da minha trajetória, nem condenar o personagem como um tipo de monstro. Esse discernimento vem primeiro do lugar de leitor e espectador, para só depois se transformar em intérprete. Procuro entender as motivações do personagem, mas também faço questão de analisar o resultado final disso tudo nos dias de hoje. Existem pessoas com comportamentos muito semelhantes aos de Bacamarte, e elas me assustam. Como disse na primeira pergunta, a sensação de impunidade lhes dá uma falsa segurança para rotular, julgar e aprisionar pessoas e situações conforme lhes convém, sustentadas por atitudes egoicas, absurdas e prepotentes. Talvez o riso surja justamente desse desconforto: perceber que, ainda hoje, há quem prefira julgar em vez de acolher.


Resenhando.com - Interpretar vários personagens sozinho exige rapidez, precisão e risco. O que mais o assusta num solo: o silêncio da plateia ou o riso que vem no tempo errado?
Victor Garbossa - O que mais me assusta é suprir uma expectativa que muitas vezes eu mesmo crio. Fazer um solo exige, antes de tudo, estar despido de vaidade, permitir ser vulnerável e generoso a tudo o que pode acontecer. É evidente que ensaiamos muito e nos preparamos intensamente para que a piada entre no tempo certo, para que a comoção chegue até a plateia, mas também é fundamental estar atento e disponível para saber lidar com os reveses quando situações fora do nosso controle acontecem.


Resenhando.com - Sua carreira transita entre teatro, dublagem, televisão e literatura infantil. Em qual desses territórios você sente que pode errar mais - e por que errar ainda é essencial para um artista?
Victor Garbossa - Eu vejo o "erro"na verdade como o que funciona e o que não funciona às vezes uma técnica uma expressão uma piada funciona e/ou não funciona para um espetáculo em específico o teatro acaba sendo esse espaço mais fértil pois muitas vezes ele nasce desse inesperado ele nasce da experimentação de apostar de sair um pouco do óbvio Em contrapartida, a dublagem e a televisão exigem um estado de mais prontidão existe ensaio existe preparo mas poucas vezes você pode fugir muito a regra E são poucos os momentos em que você pode improvisar com algo que pode acontecer de inesperado numa apresentação com uma plateia diferente.


Resenhando.com - Como dublador, você empresta voz a outros corpos; como ator solo, empresta corpos a muitas vozes. O que essa inversão ensinou a você sobre identidade e atuação?
Victor Garbossa - Toda experiência artística nos transforma de alguma maneira. Mesmo quando utilizo apenas a minha voz, o corpo está atuando e vice-versa. Criar personagens amplia minha gama e meu repertório, para que, quando estou diante de um estande, eu tenha mais arsenal para trabalhar com a voz. O bonito do nosso trabalho é que, para aqueles que sabem aproveitar, toda ocasião se torna uma oportunidade de aprendizado e de enriquecimento do próprio ofício.


Resenhando.com - Machado de Assis ironiza a obsessão científica de Bacamarte. Hoje, que tipo de “fé cega” você enxerga substituindo a religião ou a ciência no imaginário coletivo?
Victor Garbossa - Acredito que hoje basta alguém pensar diferente para que um conflito se instale. Quando trazemos à tona questionamentos que demandam fatos e estudos, o mais coerente seria permitir que aquilo que se aproxima da verdade se sobreponha à sua antítese. No entanto, a disseminação de notícias falsas e o uso malicioso da inteligência artificial acabam confundindo e influenciando pessoas que chegam a confrontar fatos que não deveriam sequer ser contestados. Muitas vezes, essas mesmas pessoas tentam trazer à luz argumentos e opiniões infundadas apenas pelo prazer de estarem certas, mesmo quando não estão. Isso, por si só, já é suficiente para alimentar uma nova forma de “fé cega”, capaz de gerar atrito, ruído e discussão.


Resenhando.com - A montagem aposta em uma linguagem jovem e musical sem “simplificar” Machado de Assis. Existe um preconceito silencioso contra o público jovem quando o assunto é clássico brasileiro?
Victor Garbossa - Da nossa parte, é justamente o contrário. Acreditamos que o jovem tem plena capacidade de absorver e se entreter com um texto clássico, respeitando sua forma original, fazendo apenas as adequações necessárias. Talvez isso não se trata nem de preconceito, mas de uma preocupação genuína em resgatar, junto aos jovens, o acesso aos nossos livros clássicos e à nossa identidade cultural. Vivemos um tempo em que eles são diariamente bombardeados pelas redes sociais e, muitas vezes, têm acesso mais fácil ao que vem de fora do que ao que é nosso. Nesse contexto, o espetáculo acaba se tornando também um evento familiar, no qual o jovem pode trazer sua família e amigos para consumir e compartilhar arte e literatura brasileira.


Resenhando.com - Você atua em produções bíblicas na TV e, ao mesmo tempo, encarna um personagem que questiona moral, razão e poder. Como conciliar fé, dúvida e crítica no mesmo artista?
Victor Garbossa - Eu não vejo por que elas não podem coexistir. A fé não deveria nos enclausurar; deveria nos sustentar, mas também abrir espaço para o questionamento e para o conhecimento das coisas, como forma de nos apaziguar, e não de nos prender ou limitar. Como artista, acredito que personagens diversos e temas conflituosos tendem a nos enriquecer, ampliando nossa dialética e nosso repertório. O saber não deve ser visto como algo assustador, mas como algo libertador.


Resenhando.com - Se Machado de Assis sentasse hoje na plateia do Teatro J. Safra, o que ele estranharia mais: o espetáculo, o Brasil ou nós mesmos?
Victor Garbossa - Sinceramente eu espero que tudo. Ele faleceu em 1908, um salto centenário de princípios de valores, de regras que mudaram, de meios de se contar histórias. Eu espero que ele se choque com tudo, no entanto esperaria que ele tivesse a empatia de compreender essas mudanças e assimilar que elas fazem parte de um novo cotidiano.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

.: Marcos Damigo desmonta o mito bandeirante para rir de projeto colonial


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com. Foto: Heloísa Bortz

Entre o mito e a farsa, a história do Brasil sempre foi um território disputado - não apenas por quem a escreveu, mas por quem decidiu o que não poderia ser falado. Ao longo de três décadas de trajetória, Marcos Damigo tem feito do teatro um espaço de fricção entre passado e presente, revisitando narrativas oficiais para expor o grotesco escondido sob o verniz da civilização e do progresso. Ator, autor e diretor, ele transforma pesquisa histórica em jogo cênico, ironia e desconforto, recusando a ideia de que o palco deva apenas ilustrar a história. Antes, ele a interroga.

Em cartaz com "Entre a Cruz e os Canibais", comédia farsesca ambientada na São Paulo de 1599, até dia até dia 15 de fevereiro no Teatro Arthur Azevedo, em São Paulo, Damigo desmonta o mito bandeirante ao revelar o desajuste entre o projeto colonial e a realidade violenta que o sustentou. Em entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, o artista fala sobre humor como estratégia crítica, a permanência de estruturas coloniais no Brasil contemporâneo, o risco do fracasso como método criativo e o papel do teatro na disputa por outras formas de imaginar o passado e, talvez, o futuro.


Resenhando.com - Você começou a vida adulta estudando agropecuária e agronomia. Em que momento o Brasil real - do campo, da terra e da exploração - virou matéria estética e política do seu teatro, e não apenas uma lembrança biográfica?

Marcos Damigo - Desde sempre, na verdade. Quando fazia agronomia, participava do movimento estudantil e tive muita convivência com a MST. O primeiro texto que eu escrevi nesse viés de história do Brasil no teatro foi sobre a Guerra de Canudos, eu tinha lido “Os Sertões” do Euclides da Cunha com 16, 17 anos, e foi um livro que me impactou muito. Então, quando abandonei a agronomia e caí no teatro, trouxe essas vivências e interesses pro meu fazer artístico. Essa questão da disputa pela terra e de histórias do Brasil ainda dizem muito pra gente - e da gente - são emblemáticas de estruturas que ainda permanecem hoje no Brasil, e elas estão presentes no meu trabalho desde o começo. Um certo idealismo que germinou em mim quando era mais jovem forjou o artista que eu me tornei.


Resenhando.com - Em "Entre a Cruz e os Canibais", o riso nasce do grotesco. Você acredita que hoje o humor é mais eficaz do que o drama para desmontar mitos nacionais, ou ele corre o risco de anestesiar a violência histórica que denuncia?
Marcos Damigo - O humor e o drama têm, cada um, sua força. O drama opera mais pela identificação, talvez, e a comédia pressupõe um distanciamento crítico. E eu fui me inspirar numa tradição de comédia popular pra escrever esse texto, desde Aristófanes, que criticava os poderosos da Grécia, mas passando também pelos nossos grandes brasileiros, como Martins Pena e Artur Azevedo, por exemplo. O Dario Fo também faz isso muito bem na “Descoberta das Américas”, por exemplo. Nesse caso, de “Entre a Cruz e os Canibais”, operamos no desmonte de uma certa ideia bem sedimentada no nosso imaginário, que é o bandeirante como esse desbravador, destemido, que vai gerar essa cidade-trabalho. Não à toa, quando o mito bandeirante é forjado, na passagem do século 19 para o 20, quando os barões do café investem na construção dessa imagem dos bandeirantes como heróis e de São Paulo como locomotiva do Brasil, é também quando a cidade tem a sua explosão populacional. De uma certa maneira, a construção do mito bandeirante foi muito bem sucedida, né? E eu acho que através do riso e da farsa, e de desmontar e mostrar o absurdo disso, a gente consiga talvez abrir espaço para se pensar outros modos de vida e outros modelos de cidade.


Resenhando.com - O bandeirante já foi herói, vilão, estátua e nome de avenida. O que mais assusta você nessa figura: o passado que ela representa ou a facilidade com que ainda é celebrada no presente?
Marcos Damigo - As duas coisas estão intimamente conectadas: o passado que ele representa, na maneira como esse mito bandeirante foi construído, justifica e fundamenta a celebração dele no presente, na forma das estátuas, das estradas, do Palácio do Governo. É realmente assustador pensar que a gente não está conseguindo se libertar de um paradigma cujo fracasso está cada vez mais evidente, porque ninguém aguenta mais, essa é a verdade, a gente está cada vez mais precarizado, trabalhando cada vez mais, ganhando cada vez menos, tudo em nome desse desenvolvimento desenfreado, e esse paradigma está ancorado nessa imagem dos bandeirantes.


Resenhando.com - Seus trabalhos com Machado de Assis dialogam com ironia, ambiguidade e corrosão moral. Ao olhar para o Brasil colonial, você se sentiu mais próximo de Machado ou de um cronista indignado dos dias de hoje?
Marcos Damigo - Eu sinto que hoje a gente está mais literal, talvez, né? Os discursos estão mais explícitos e nós, como artistas, estamos sendo convocados a nos posicionar de uma maneira mais explícita, para que não haja dúvida do nosso posicionamento e a gente não sofra cancelamentos e tal. O Machado é um pouco o oposto disso, né? Ele vivia, como homem negro, numa sociedade escravista, e alçou uma posição entre uma elite branca e letrada. Então, ele precisava da ironia como arma, que é justamente esse mecanismo de dizer sem dizer. Ele foi desenvolvendo isso como ferramenta, e isso é um dos elementos que o torna genial. Então, de uma certa maneira, nesse equilíbrio precário entre uma posição e outra, eu acho que eu me sinto mais próximo do Machado.


Resenhando.com - Você afirma ter pedido aos atores que “destruíssem” o seu texto. O que mais interessa a você hoje: o controle autoral ou o risco do fracasso em cena?

Marcos Damigo - Eu não tenho nenhum apego ao meu texto, de verdade, eu acho que essa questão do controle autoral é uma armadilha, porque o texto precisa estar a serviço da cena, e não da vaidade do autor. E quando eu escrevo essas peças de conteúdo histórico, tem uma pesquisa prévia muito grande, então é natural que o texto fique um pouco “gordo”, com excesso de referências e tal. E aí é na cena, no ensaio com os atores, que as coisas vão ser testadas, e o que funciona fica, o que não funciona naturalmente cai. O próprio processo começa a se autogerir nesse sentido, e o trabalho do diretor passa a ser muito mais de abrir uma escuta para o que a cena pede do que exatamente impor um ponto de vista. Mas eu gosto de fazer essa dupla comigo mesmo, na dramaturgia e na direção, porque essas escolhas são fundamentadas na pesquisa que eu já fiz. No caso de “Entre a Cruz e os Canibais”, o “destruir o texto” que eu pedi para os atores no começo do processo era justamente nesse sentido de pegar aquilo que eu tinha estruturado através de uma pesquisa e colocar a serviço de uma cena que explicitasse o grotesco das situações.


Resenhando.com - Ao tratar personagens históricos como “tipos”, você rejeita a reconstituição fiel. Em tempos de disputas por narrativas históricas, o teatro deve disputar a verdade ou assumir a mentira como estratégia crítica?
Marcos Damigo - 
Hoje existe uma disputa sobre narrativas, a gente vê isso muito explicitamente na questão da ditadura empresarial-militar que existiu no Brasil, é importante usar essa denominação, que algumas pessoas ainda insistem em chamar de “revolução”. O que a peça faz, na verdade, é mais do que disputar a verdade: é revelar, pelas contradições, a farsa do projeto Moderno. Porque, de uma certa maneira, se a gente parar para pensar, toda a história é uma grande farsa, pelo menos da maneira como a gente conta sem pensar muito no que está dizendo. Se você pensar no Brasil colonial, bem no começo, ali, século 16, costumamos dizer “ah, o Brasil era colônia de Portugal”. Mas, na verdade, o que Portugal conseguiu ocupar eram pontinhos muito isolados de um imenso território. Ou mesmo o Tratado de Tordesilhas, que todo mundo aprende da escola: então quer dizer que um Papa, lá na época, reúne o rei de Portugal e o rei da Espanha, e fala “Vamos traçar uma linha nesse pedaço do mundo aqui e esse lado fica para você e esse outro fica para você”. Não é meio absurdo? Claro que esses absurdos foram se sedimentando no nosso imaginário e criando o mundo da maneira como ele é hoje. Mas a comédia tem essa função de revelar a farsa e talvez abrir possibilidades para outras formas de pensar o mundo.


Resenhando.com - Sua trajetória transita entre teatro, televisão, cinema e audiolivros. O que muda - ética e artisticamente - quando sua voz serve à ficção, à história oficial ou à memória traumática, como em "Última Parada: Auschwitz"?

Marcos Damigo - O que muda, principalmente, é que no teatro, especialmente nesses projetos que eu idealizo e que construo do zero, eu tenho uma autonomia maior para determinar os modos como essa obra vai operar com as questões. Quando eu estou a serviço de um outro produto, seja na televisão, no cinema ou mesmo no audiolivro, eu tento emprestar a minha sensibilidade e a minha visão de mundo para esses trabalhos, e isso obviamente é um importante na maneira como eu sou visto como artista e até do porquê eu sou contratado para esses trabalhos. Mas eu tenho muito menos autonomia, obviamente. Então quando eu pego um livro como esse que você mencionou, “Última Parada: Auschwitz”, eu fico muito feliz porque é um livro importante para entender o que aconteceu num momento tenebroso da história da humanidade.


Resenhando.com - Em "Entre a Cruz e os Canibais", o progresso nasce junto da barbárie. Você diria que São Paulo ainda vive sob essa mesma lógica colonial, apenas com nomes mais sofisticados?
Marcos Damigo - Desde a minha última peça, “Babilônia Tropical”, que estreou no CCBB BH em 2023, eu tive essa percepção muito evidente desse casamento entre “progresso” e “barbárie”. E cada vez mais vivemos essa distopia, essa dissociação entre o modo como as coisas realmente são e o que elas parecem ser. Então acredito que sim, tanto que eu cheguei a escrever uma frase, falando de “Entre a Cruz e os Canibais”, que é: “revelar o grotesco escondido sob o verniz de modernidade que mascara até hoje interesses abjetos”. E é isso, né? A gente hoje, por exemplo, vive uma situação de exploração absurda, mas através de uma captura do nosso desejo, por algo que alguns autores chamam de “servidão voluntária”. A gente não precisa mais ser obrigado a trabalhar porque a gente mesmo se obriga, a gente quer poder consumir, usufruir de uma vida confortável, e tudo certo, é legítimo, claro, mas isso mascara a violência e o absurdo da situação como um todo. Ainda mais no Brasil, que é um dos países com maior concentração de renda do mundo.


Resenhando.com - Depois de tantos anos revisitando a história do Brasil em cena, o que mais o incomoda: o que ainda não foi contado ou o que já foi contado demais, sempre do mesmo jeito?

Marcos Damigo - Essas duas questões andam juntas, porque o que a gente escolhe contar e a maneira como a gente escolhe contar diz muito de quem nós, coletivamente como sociedade, nos tornamos. Por exemplo, em “Leopoldina, Independência e Morte”, peça que eu escrevi sobre a imperatriz Leopoldina, questionando a maneira como a vida dela era contada, colocando ela só num lugar de mulher traída e abandonada, mãe… Isso mascarava a importância política que ela teve, porque não era interessante, numa sociedade patriarcal, que uma mulher fosse retratada tendo a importância e inteligência que ela teve naquela época. Então recontar histórias, que nos acostumamos a contar de um certo modo, de outros modos, é o que me move nessa pesquisa com a história do Brasil no teatro.


Resenhando.com - Se o espetáculo "Entre a Cruz e os Canibais" fosse visto daqui a 50 anos, o que você gostaria que o público entendesse sobre nós: que finalmente aprendemos com o passado ou que seguimos rindo para não encarar a realidade?
Marcos Damigo - É interessante pensarmos um pouco nesse paralelo entre o tempo atual e o tempo da história que é retratada em “Entre a Cruz e os Canibais”, porque foram ambos tempos de grandes transformações. Ali, a gente estava nas navegações, a Europa descobrindo outros continentes, povos, culturas, cobiçando muito também essas riquezas e se transformando a partir de tudo isso que eles foram encontrando. Porque é uma via de mão dupla, sempre. E muitas vezes nos acostumamos a pensar a colonização como uma sociedade impondo seus valores sobre outra. Mas o inverso também ocorre, embora seja silenciado, obviamente. E hoje a gente está vivendo essa revolução digital, também um mundo em grande transformação. Então é difícil imaginar como é que o espetáculo seria visto daqui a cinquenta anos. Sendo muito otimista, eu espero que a gente tenha superado questões urgentes, que têm a ver com as crises climáticas, as crises democráticas do mundo. Para que a gente pudesse olhar para essa peça pensando “nossa, que loucura que era naquele tempo!”, e não se identificasse tanto com as questões que ela suscita.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

.: Entrevista: Gustavo Pinheiro desafia a crônica no teatro para provocar


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com. Foto: Pino Gomes

Grande nome da dramaturgia contemporânea, Gustavo Pinheiro escreve para colocar conflitos em suspensão. Nas peças teatrais assinadas por ele, nada é o que parece: o encontro nunca é confortável, o afeto jamais é neutro e o silêncio costuma dizer mais do que qualquer discurso bem articulado. Autor de textos como "Dois de Nós", em cartaz no Teatro Tuca em São Paulo, "A Tropa", e "A Lista", ele construiu uma dramaturgia que observa o Brasil pelo detalhe íntimo: um quarto de hotel, um apartamento na pandemia, um quarto de hospital. Em comum entre os textos, está o tempo, que resolve pedir a palavra.

Nesta entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, Pinheiro reflete sobre o gesto de escrever para o palco como um exercício de escuta, sobre a fronteira por vezes ilusória entre o drama privado e a política, e sobre o compromisso ético de dialogar com o público sem subestimá-lo. Entre memória, maturidade e risco, o autor revela por que prefere provocar pensamento a oferecer respostas prontas e porque acredita que o teatro só faz sentido quando continua reverberando depois que as luzes se apagam.


Em "Dois de Nós", os personagens se veem frente a frente com versões mais jovens de si mesmos. Se você encontrasse hoje o Gustavo que escreveu "A Tropa", o que ele cobraria e o que você tentaria justificar?

Gustavo Pinheiro - Não sei dizer o que aquele Gustavo de dez anos atrás me cobraria. Na verdade, acho que ele ficaria orgulhoso e até um pouco surpreso com a versão de hoje. Mas sei o que eu diria hoje ao Gustavo “jovem”: que ele fosse menos ansioso, tivesse calma, fé no caminho, que tudo iria dar certo. E o que não deu, com certeza foi para abrir espaço para coisas melhores que vieram logo em seguida.


Seus textos parecem obcecados por encontros inevitáveis: pais e filhos, mães e filhas, casais que já deveriam ter ido embora, versões passadas que insistem em voltar. Você escreve para provocar reconciliação ou para expor o quanto ela é, muitas vezes, impossível?
Gustavo Pinheiro - Acho que cada relação tem sua própria dinâmica. Algumas relações podem ser irreconciliáveis, mas outras podem ser reconciliadas com o tempo, com a palavra certa, com o respeito ao sentimento alheio. As peças abordam situações muito diversas, é difícil generalizar. Mas gosto que o público acredite que pode fazer mais e melhor a partir do momento em que sai do teatro ao final da peça. O relato que recebemos dos espectadores nas redes sociais é que isso acontece muitas e muitas vezes.


"A Lista", "A Tropa" e "Dois de Nós" lidam com conflitos íntimos marcados por contextos históricos e sociais. Existe, para você, alguma fronteira ética entre o drama privado e a crônica do Brasil, ou tudo acaba sendo político, mesmo quando surge do afeto?
Gustavo Pinheiro - Uma vez um colega, depois de assistir “A Lista” e “A Tropa” disse que eu faço uma dramaturgia que flerta com a crônica. Nunca tinha pensado nisso. Mas acho que faz um pouco de sentido, na medida em que tenho a formação de jornalista. Esse é o meu olhar para o mundo. Gosto de política, não da partidária, mas dos grandes temas que motivam e movem a sociedade. Tenho prazer que temas políticos, econômicos, comportamentais, sexuais e culturais invadam, sutilmente, a realidade dos personagens. Nesse sentido, minhas peças são políticas, mas sem serem panfletárias. Exponho o panorama, os personagens se defendem, defendem seus pontos de vista e o espectador é convidado a pensar por si mesmo. É por isso que públicos tão heterogêneos, de todo o Brasil, se identificam com as peças. Aconteceu várias vezes de, ao final de “A Tropa”, por exemplo, espectadores de esquerda e de direita darem os parabéns pelo espetáculo. A escuta e compreensão que não exerciam na vida aconteceu naquela hora dentro do teatro. Não pode haver melhor resposta que essa.


Você costuma colocar seus personagens em espaços fechados: um hospital, um apartamento, um quarto de hotel. Isso é escolha dramatúrgica ou confissão involuntária de que o Brasil anda sem espaço para o diálogo aberto?
Gustavo Pinheiro - São escolhas dramatúrgicas, mas por diferentes razões. No caso de “A Tropa”, queria confinar aqueles cinco homens em um quarto de hospital, um cenário que expõe uma tensão por si só, há sempre um perigo colocado, além disso casava com um dos pontos que a peça ressaltava, de um país adoecido pelas divergências. “A Lista” se passava em um apartamento porque a peça surgiu na pandemia e era onde todos estávamos: confinados em casa. Quando levamos a peça para o palco com plateia, aí ampliamos para a segunda parte, quando a peça vai para a praia de Copacabana: do isolamento à liberdade. E “Dois de Nós” se passa em um quarto porque é o cômodo-metáfora de um casal. Trata-se de um quarto de hotel porque eu queria que fosse um lugar que fizesse parte da jornada daquele casal, mesmo depois de tantos anos de história. Casais casam-se e separam-se, mas tem seus pontos de referência no caminho: uma música, uma comida, uma cidade, um quarto de hotel.


 Ao escrever para atores como Antonio Fagundes, Christiane Torloni e Lilia Cabral, o texto vem já “habitado” por essas personalidades ou você escreve como quem oferece um risco, esperando que eles contrariem tudo no palco?
Gustavo Pinheiro - Quando sei para quem estou escrevendo, como o Fagundes e a Lilia, sem dúvida a voz deles povoa o meu pensamento. Como sou espectador deles há muitos anos, imagino a inflexão, exploro caminhos que também os deixem felizes. Mas eles sempre me surpreendem. Onde eu enxerguei cinco metros, eles enxergam dez. Cavam novas possibilidades, divisões de frases, pausas, pontos de humor que eu sequer enxerguei. E isso é uma das coisas mais bonitas da profissão de autor. Nos casos em que não escrevi pensando em um ator específico, como a Chris, o Otavio Augusto, a Ana Beatriz Nogueira, Deborah Evelyn, sou surpreendido de maneira muito positiva. A verdade é que eu tenho a felicidade de ter sempre cruzado com atores e diretores geniais, com quem aprendi muito.


Seus textos emocionam sem apelar para sentimentalismo fácil. Em que momento você percebeu que o silêncio, a pausa e o não-dito podem ser mais violentos do que qualquer grande discurso?
Gustavo Pinheiro - Sou apaixonado por silêncios. Não qualquer silêncio, mas aquele silêncio preenchido de sentido, silêncio que não abandona o público, ao contrário, faz ele entender exatamente o que o personagem está pensando. É um dos meus maiores prazeres como espectador: ver um personagem pensando, engendrando uma saída, uma resposta, um caminho de pensamento. E fico feliz de poder proporcionar essa sensação a outros espectadores também.


Como jornalista, você foi treinado para observar a realidade; como dramaturgo, você a reinventa. Em qual dessas duas funções você se sente mais vulnerável e, portanto, mais verdadeiro?
Gustavo Pinheiro - Acredito que tanto o jornalista como o dramaturgo observam a realidade. Por isso Nelson Rodrigues escrevia tão genialmente, era um jornalista observador da condição e do comportamento humanos. A diferença entre o dramaturgo e o jornalista está com o que se faz com essa observação. O jornalista a relata de forma mais imparcial possível. O dramaturgo, pelo menos no meu caso, usa como material de trabalho. Tudo que leio, ouço, vejo no supermercado, no metrô, na fila do banco, no check in do avião, num velório, tudo pode virar inspiração para a ficção.


"Dois de Nós" fala sobre envelhecer sem endurecer. O teatro brasileiro está envelhecendo com dignidade ou repetindo fórmulas por receio de se tornar irrelevante?
Gustavo Pinheiro - Não creio que o teatro esteja envelhecendo, a cena sempre se renova. O que temos que estar atentos é se há alguém interessado em assistir o que está sendo mostrado no palco. Tenho prazer em comunicar, gosto de ser entendido, sem nivelar por baixo, priorizando a inteligência e a elegância. E tenho a honra de ser correspondido pelo público.


Há algum tema que você não ousaria escrever sob hipótese alguma, não por censura externa, mas por algum limite que você pensa que não ousaria ultrapassar?
Gustavo Pinheiro - Acho que se pode e se deve escrever sobre tudo. Nunca me ocorreu de querer escrever sobre algum assunto e me autocensurar. Mais do que perder tempo pensando no que não posso escrever, prefiro me concentrar no que de fato tenho vontade de escrever, com verdade e honestidade. Acho bonito que eu seja um homem escrevendo personagens femininos para tantas mulheres no teatro. É sinal que esse diálogo pode acontecer, é saudável que aconteça, uma comprovação que somos capazes de nos ouvir e nos entender. Em “Antes do Ano que Vem”, quis escrever sobre suicídio, mas com humor. Mariana Xavier embarcou comigo nessa aventura e estamos em cartaz há quatro anos. Recebemos centenas de relatos de espectadores que repensaram a própria vida - e a possibilidade do suicídio - depois de assistirem à peça. Nossa missão está cumprida.


Depois de tantas histórias sobre encontros, acertos de contas e afetos em crise, o que ainda assusta você mais como autor: repetir a si mesmo ou finalmente escrever algo que o público talvez não queira assistir?
Gustavo Pinheiro - Sem dúvida alguma, escrever algo que o público não queira assistir. É para o público que eu trabalho. Se eu quisesse escrever para mim mesmo, fazia um diário. É o público quem paga o ingresso, a quem devo respeito e consideração. E isso não tem nada a ver com ser condescendente, abordar apenas temas para agradar. Ao contrário, não subjugo a capacidade da plateia, tanto que exploro muitos assuntos duros nos espetáculos, mas os espectadores embarcam conosco, eles entendem perfeitamente a razão de aqueles temas estarem sendo abordados de determinada forma.


Leia+ 

.: Crítica: "Dois de Nós" transforma reencontro em matéria viva de teatro

.: Christiane Torloni e Antonio Fagundes estreiam "Dois de Nós" estreia no TUCA

.: "Dois de Nós" volta ao Teatro Tuca, em São Paulo, a partir de 15 de janeiro

.: Crítica: "A Lista", com Lilia Cabral e Giulia Bertolli, mãe e filha no teatro

.: Lilia Cabral e a filha Giulia Bertolli estreiam "A Lista" em São Paulo

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

.: Quais as cenas adicionais de "O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei"?


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

A reestreia de "O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei" na Rede Cineflix e em cinemas brasileiros, neste sábado, dia 24 de janeiro, em versão estendida, recoloca na tela grande o capítulo final da trilogia dirigida por Peter Jackson, agora como parte das comemorações pelos 25 anos de "A Sociedade do Anel", adaptação do clássico de J. R. R. Tolkien. Lançado originalmente em 2003, o longa-metragem - vencedor de 11 Oscars, incluindo Melhor Filme, Diretor e Roteiro Adaptado - volta ao circuito, quando a Warner Bros. Pictures promove a exibição integral da trilogia em sessões especiais, um filme por dia, sempre em versão legendada. Trata-se de um convite tanto à memória afetiva de uma geração quanto à descoberta, em escala monumental, de uma das experiências cinematográficas mais ambiciosas do século XXI.

Concluindo a jornada iniciada dois anos antes, "O Retorno do Rei" acompanha a aproximação do desfecho da Guerra do Anel. Enquanto Frodo (Elijah Wood) e Sam (Sean Astin) avançam rumo à Montanha da Perdição, enfrentando o esgotamento físico e a manipulação final de Gollum (Andy Serkis), os povos livres da Terra-média se reúnem para resistir ao cerco de Sauron. Gandalf (Ian McKellen) tenta salvar Minas Tirith do colapso moral e político imposto por Denethor (John Noble), Aragorn (Viggo Mortensen) assume o peso de sua herança e lidera homens, elfos e anões rumo a uma última esperança, enquanto Éowyn (Miranda Otto) rompe expectativas e protagoniza um dos momentos mais emblemáticos da saga.

Dirigido por Peter Jackson e escrito por ele em parceria com Fran Walsh e Philippa Boyens, a partir da obra de J.R.R. Tolkien, o filme encerra a trilogia com uma combinação rara de espetáculo épico, emoção íntima e rigor técnico. Não por acaso, tornou-se a maior bilheteria mundial de 2003, ultrapassando a marca de US$ 1,1 bilhão, além de figurar entre os títulos mais premiados da história do cinema. Para a crítica internacional, de veículos como The New York Times, The Guardian e Variety, o longa-metragem consolidou o feito de transformar uma obra considerada “infilmável” em fenômeno cultural e industrial, capaz de dialogar com públicos distintos sem sacrificar densidade dramática ou coerência narrativa.

A diferença entre a versão exibida originalmente nos cinemas e a versão estendida agora reapresentada é substancial e vai além do mero acréscimo de minutos. O corte de cinema tem cerca de 201 minutos; a versão estendida ultrapassa 250, acrescentando aproximadamente 50 minutos de cenas inéditas ou ampliadas. Esses acréscimos aprofundam personagens, relações políticas e consequências morais da guerra. Há mais tempo dedicado à loucura de Denethor, ao desgaste psicológico de Frodo, ao protagonismo de Éowyn no campo de batalha e, sobretudo, à dimensão simbólica do poder. 



Quais são as cenas adicionais de "O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel" (com spoiller)
Na versão estendida de "O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei", a narrativa ganha fôlego adicional e densidade dramática logo nos primeiros movimentos. Após a vitória em Isengard, Saruman surge novamente no alto da torre de Orthanc, protagonizando uma cena ausente do corte de cinema. O antigo mago enfrenta Gandalf, Théoden e Aragorn em um embate verbal carregado de ironia, ressentimento e decadência moral. A sequência encerra definitivamente seu arco, revelando o custo da corrupção pelo poder e oferecendo um desfecho mais coerente para um personagem central da trilogia.

Em Minas Tirith, a versão estendida aprofunda o colapso psicológico de Denethor. Cenas adicionais mostram sua relação abusiva com Faramir, marcada por humilhação e desprezo, deixando mais explícito o contraste entre o amor perdido por Boromir e a rejeição ao filho sobrevivente. O uso do Palantír por Denethor é sugerido de forma mais clara, reforçando que sua loucura não é apenas fruto do desespero, mas também da influência direta de Sauron. Gandalf, por sua vez, ganha mais espaço como figura política e estratégica, não apenas como guia espiritual.

A jornada de Aragorn, Legolas e Gimli pela Senda dos Mortos é significativamente expandida. O Exército dos Mortos não surge apenas como um recurso narrativo imediato, mas como um desafio moral e simbólico: almas presas por juramentos quebrados, que exigem de Aragorn mais do que coragem: querem legitimidade, palavra e liderança. O encontro é mais tenso, sombrio e ritualístico, reforçando o peso histórico da linhagem do herdeiro de Isildur.

A Batalha dos Campos de Pelennor também se torna mais extensa e brutal. Há novas escaramuças, maior atenção aos horrores da guerra e ao impacto humano do conflito. Merry e Éowyn ganham cenas adicionais após a queda do Rei-Bruxo de Angmar, enfatizando não apenas o heroísmo do feito, mas suas consequências físicas e emocionais. Éowyn, ferida e exausta, deixa de ser apenas símbolo de bravura para se tornar corpo vulnerável em meio à devastação.

Um dos acréscimos mais emblemáticos ocorre diante do Portão Negro. A Boca de Sauron aparece como emissário do mal, exibindo supostos pertences de Frodo e provocando desespero nos líderes aliados. A cena explicita a guerra psicológica travada por Sauron e testa os limites da esperança de Aragorn e Gandalf, reforçando que a batalha final não se dá apenas com espadas, mas com informação, medo e manipulação.

Em Mordor, a caminhada de Frodo e Sam é prolongada por momentos de silêncio, exaustão e desespero. A versão estendida enfatiza o colapso físico de Frodo e a solidão radical da missão, enquanto Sam assume, de forma ainda mais clara, o papel de sustentação ética e afetiva da jornada. A tensão com Gollum é ampliada, tornando seu fim ainda mais trágico e inevitável.

O pós-guerra também ganha novos contornos. A coroação de Aragorn é mais cerimonial, reforçando a restauração simbólica da ordem. Os reencontros são mais demorados, permitindo que o espectador assimile o custo emocional da vitória. Por fim, a despedida nos Portos Cinzentos é estendida, sublinhando a melancolia que atravessa o encerramento da trilogia: a vitória sobre o mal não apaga as marcas deixadas pelo caminho, e nem todos podem permanecer no mundo que ajudaram a salvar.


Ficha técnica
“O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei” | “The Lord of the Rings: The Return of the King” (título original) | “O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei” (título em Portugal)
Gênero: fantasia épica, aventura. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2003. Idioma: inglês. Direção: Peter Jackson. Roteiro: Peter Jackson, Fran Walsh e Philippa Boyens (baseado na obra de J.R.R. Tolkien). Elenco: Elijah Wood, Sean Astin, Ian McKellen, Viggo Mortensen, Orlando Bloom, Miranda Otto, Andy Serkis, Cate Blanchett, Hugo Weaving, entre outros. Distribuição no Brasil: Warner Bros. Pictures. Duração: 251 min (versão estendida). Cenas pós-créditos: não.

Assista no Cineflix Cinemas mais perto de você
As principais estreias da semana podem ser assistidas na rede Cineflix CinemasPara acompanhar as novidades da Cineflix mais perto de você, acesse a programação completa da sua cidade no app ou site a partir deste link. No litoral de São Paulo, as estreias dos filmes acontecem no Cineflix Santos, que fica no Miramar Shopping, à rua Euclides da Cunha, 21, no Gonzaga. Consulta de programação e compra de ingressos neste link: https://vendaonline.cineflix.com.br/cinema/SANO Resenhando.com é parceiro da rede Cineflix Cinemas desde 2021.

Cineflix Miramar | Santos
Dia 22 de janeiro | "O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel" | Sala 3 | 18h00
Dia 23 de janeiro | "O Senhor dos Anéis - As Duas Torres" | Sala 3 | 18h00
Dia 24 de janeiro | "O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei" | Sala 3 | 18h00
No Miramar Shopping | Rua Euclides da Cunha, 21 - Gonzaga - Santos / São Paulo. Ingressos neste link.







quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

.: Angela Figueiredo encara a ditadura e recusa suavizar a dor em “1975”


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.comFoto: divulgação

Em "1975", espetáculo escrito por Sandra Massera e protagonizado por Angela Figueiredo, a memória dos desaparecimentos forçados durante a ditadura uruguaia ganha corpo em uma encenação solo, íntima e politicamente incisiva. Em cartaz na Arena B3, no Centro Histórico de São Paulo, a montagem recusa o conforto da distância histórica e aproxima o público brasileiro de um trauma que atravessa fronteiras e décadas.

Ao assumir não apenas a atuação, mas também a co-direção, a tradução e a adaptação do texto, Angela Figueiredo transforma o palco em espaço de escuta e reflexão. A peça não busca reconstruir fatos de maneira documental, mas sustentar emocionalmente aquilo que foi apagado pela violência de Estado e pelo silêncio que se seguiu. Nesta entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, a atriz fala sobre memória, ética, solidão, juventude sob regimes autoritários e o teatro como lugar onde a dor não é suavizada.

Resenhando.com - "1975" fala de desaparecimentos forçados, mas também de tudo aquilo que nunca voltou a ser dito. O que dói mais em cena: a violência explícita do Estado ou o silêncio que se instala depois dela?
Angela Figueiredo - 
A dor e as emoções da personagem não estão apenas na violência explícita do Estado, mas também no silêncio, na angústia, na perda, nas dúvidas e nas reflexões da sua vida.

Resenhando.com - Em um espetáculo construído a partir de cartas, lembranças e ausências, o que você precisou inventar para dar corpo ao que historicamente foi apagado. E também o que você se recusou a inventar por respeito à memória real?
Angela Figueiredo - Precisei criar as partes que faltavam, misturando-as com a minha juventude e as experiências daquele período. Também troquei essas ideias com Sandra Massera, autora do texto, uruguaia e co-diretora com quem trabalhei no processo da primeira montagem. Percebemos que, mesmo vivendo em países diferentes, estávamos ligadas pelo mesmo pensamento juvenil da época. Não quis separar os sentimentos e as experiências que vivi no Brasil da história que estou contando. As ditaduras no Brasil e no Uruguai, tiveram muitas coisas em comum e despertaram sentimentos parecidos.

Resenhando.com - Há algo de profundamente político em escolher uma atuação solo para falar de um trauma coletivo. Você sente que essa solidão em cena dialoga com a solidão das famílias que esperaram por respostas que nunca vieram?
Angela Figueiredo - Não sinto solidão em cena, represento a dor das famílias que esperam por respostas que nunca tiveram.

 Resenhando.com - Depois de tantos anos transitando pela televisão, pelo cinema e pelo teatro, o que "1975" exige de você como atriz que nenhuma novela ousou exigir?
Angela Figueiredo - Este espetáculo me exige o domínio do todo, pois, além de co-dirigir e atuar, traduzi e adaptei o texto. Cuido de todos os detalhes. Já no cinema, na televisão e em espetáculos com equipes maiores, as funções são divididas: as equipes são grandes, muita gente para fazer muita coisa. Aqui, trabalho com uma equipe pequena e estou envolvida em todo o processo.

Resenhando.com - A peça revisita a ditadura uruguaia, mas o público brasileiro inevitavelmente faz suas próprias conexões. Em que momento você percebeu que "1975" deixou de ser “sobre o outro país” e passou a ser perigosamente próxima de nós?
Angela Figueiredo - Sempre pensei que a peça dialogava com a nossa história no Brasil, mas essa percepção se tornou ainda mais clara quando entendi que a violência e o trauma são os mesmos que vivemos aqui. A peça se passa no Uruguai, mas essa história poderia ser passada   em nosso país também.

Resenhando.com - Existe o risco de transformar a dor histórica em produto cultural “bem-acabado”. Como você e Sandra Massera lidaram com o limite entre encenação, ética e memória viva?
Angela Figueiredo - Busquei uma abordagem baseada no respeito à memória da história dolorosa do passado. A encenação foi pensada para manter essa memória viva, como a personagem faz, usando obviamente a poesia do texto para chegar diretamente ao público sem a preocupação de suavizar o sofrimento. Independentemente da dor, a vida segue de alguma forma, e alguns momentos apenas aliviam a dúvida sem fim.


Resenhando.com - O espetáculo propõe uma escuta sensível, quase íntima. Em tempos de discursos ruidosos, polarizados e violentos, você acredita que o teatro ainda é um espaço de escuta, ou virou um lugar de resistência silenciosa?
Angela Figueiredo - Acredito que o teatro é um espaço de escuta, reflexão, resistência e poesia também. Não sei se silenciosa ou barulhenta; depende de como as pessoas recebem o espetáculo.

Resenhando.com - Ao longo da carreira, você interpretou personagens em universos muito distintos. O que permanece em você depois de cada sessão de "1975" que não ficava após um dia de gravação na televisão?
Angela Figueiredo - As personagens não vão comigo para casa. Eu as deixo no camarim, depois que tiro o figurino, independentemente do texto.

Resenhando.com - Há uma geração inteira que não viveu as ditaduras latino-americanas e outra que tenta relativizá-las. O que você espera que esses jovens levem consigo ao sair do teatro: incômodo, informação ou responsabilidade?
Angela Figueiredo - Espero que o espetáculo possa informar, sensibilizar ou despertar a curiosidade daqueles que não vivenciaram ou não sabem o que aconteceu nesse período. Mais do que isso, o texto também traz uma reflexão sobre perda, solidão e memória.

Resenhando.com - Em cena, você carrega memórias que não são suas, mas que são transmitidas por você o tempo todo. Existe um momento em 1975 em que a atriz desaparece e sobra apenas alguém tentando sustentar aquilo que a história tentou enterrar?
Angela Figueiredo - A peça é uma ficção construída a partir da realidade daquela época. As memórias não precisam ser minhas para que eu possa expressá-las e transmiti-las. Durante todo o espetáculo, estou ali como atriz, vivendo aquela história. Naquele momento, tudo é real.

Ficha técnica
Espetáculo "1975"

Texto: Sandra Massera
Direção: Sandra Massera e Angela Figueiredo
Elenco: Angela Figueiredo
Direção de vídeos e fotos: Nanda Cipola
Assistente de direção: Claudinei Brandão
Cenografia e figurinos: Kléber Montanheiro
Iluminação: Amarílis Irani e Maria Julia Rezende
Trilha sonora: Branco Mello e Sandra Massera
Programação visual: Vicka Suarez
Operações técnicas: Nanda Cipola, Maria Julia Rezende
Realização: Casa 5 Produções

Serviço
Espetáculo "1975"

Dias 24 e 25 de janeiro, às 14h30 e 17h00
Classificação: 12 anos
Duração: 60 minutos
Ingressos: https://bileto.sympla.com.br/event/114362/d/355042/s/2395274?

Sobre a B3
A B3, a bolsa do Brasil, tem o compromisso de apoiar a democratização do acesso à cultura, por meio de parcerias e patrocínios que facilitem o acesso da sociedade a esses espaços. Em 2023, a bolsa do Brasil apoiou 25 projetos, e possibilitou que mais de 95 mil pessoas acessassem os 7 museus patrocinados por meio do oferecimento também de dias de gratuidade. Dentre as instituições apoiadas estão o MASP, a Pinacoteca de São Paulo, o MIS, o Museu Judaico e MUB3, na capital paulista, o Instituto Inhotim, localizado em Minas Gerais, e o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Além das gratuidades, a bolsa do Brasil patrocina ainda uma série de iniciativas culturais, como musicais, eventos e exposições.


Sobre a Aventura

Fundada em 2008, e liderada por Aniela Jordan, diretora artística e produção e geral, Luiz Calainho, diretor de marketing e negócios, e por Giulia Jordan, diretora geral de venues, a Aventura é referência na produção de espetáculos de altíssima qualidade, que tornou o mercado de teatro musical um dos principais segmentos da economia criativa no Brasil. A empresa se estabeleceu como uma grande aliada da multiplicidade artística, fundamental para o desenvolvimento social, econômico e cultural. A sua missão é transformar grandes ideias em realidade, criando fortes conexões entre marcas e projetos. São mais de 40 produções, de espetáculos inéditos e de versões da Broadway, como “Elis, a musical”, “A Noviça Rebelde”, “Sete”, “O Mágico de Oz”, “SamBRA”, “Chacrinha, o musical”, “Romeu & Julieta, ao som de Marisa Monte”, “Merlin e Arthur, um sonho de liberdade” e o infantil “Zaquim”. Em 2022, a produtora inovou com o primeiro musical em formato de série do país, o “Vozes Negras – A Força do Canto Feminino”, e com o musical “Seu Neyla”, apresentado em dois palcos com o uso da internet para criar uma experiência diferenciada no espectador, além de estrear uma parceria com a Disney - Pixar com o espetáculo “Pixar in Concert”. Com o objetivo de democratizar o acesso à cultura, criou a Cia Stone de Teatro, projeto de teatro itinerante no interior do Brasil e é a responsável pela produção da Cia de Ballet Dallal Achcar. Ao todo, foram mais de 3,8 mil apresentações e cerca de 4,5 milhões de espectadores, mais de 16 mil empregos diretos e indiretos gerados, números que não param de crescer. 

.: Quais as cenas adicionais de "O Senhor dos Anéis: As Duas Torres"?

P

Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

A volta de "O Senhor dos Anéis: As Duas Torres" nesta sexta-feira, dia 23 de janeiro, chega à Rede Cineflix e aos cinemas de  agora em versão estendida, não é apenas um gesto comemorativo pelos 25 anos do início da trilogia dirigida por Peter Jackson, mas um convite raro para revisitar, em tela grande, um dos capítulos mais sombrios, políticos e belicamente sofisticados da história do cinema contemporâneo. Exibido novamente entre os dias 22 e 24 de janeiro, dentro da programação especial organizada pela Warner Bros. Pictures, o segundo filme da saga de J. R. R. Tolkien ganha nova densidade dramática ao apresentar cerca de 43 minutos adicionais em relação à versão exibida originalmente nos cinemas em 2002.

Lançado no Brasil em dezembro daquele ano, "As Duas Torres" consolidou a ambição estética e narrativa do projeto iniciado com "A Sociedade do Anel". A história se fragmenta em múltiplos núcleos, acompanhando a dissolução definitiva da antiga aliança e o avanço da guerra na Terra-média. Enquanto Frodo (Elijah Wood) e Sam (Sean Astin) seguem em direção a Mordor sob a tutela ambígua de Gollum (Andy Serkis), Aragorn (Viggo Mortensen), Legolas (Orlando Bloom) e Gimli (John Rhys-Davies) se veem arrastados para o conflito em Rohan, reino ameaçado pela máquina de guerra de Saruman (Christopher Lee).

A direção de Jackson, aliada ao roteiro assinado por Fran Walsh, Philippa Boyens, Stephen Sinclair e o próprio diretor, aposta menos no maravilhamento inaugural e mais na tensão moral, no peso das escolhas e na escalada da violência. A célebre Batalha do Abismo de Helm, marco técnico e narrativo do filme, permanece como uma das sequências de guerra mais influentes do cinema moderno, frequentemente citada pela crítica internacional - de The New York Times a The Guardian - como um divisor de águas no uso combinado de efeitos práticos, digitais e coreografia de massas.

A versão estendida, que agora retorna às salas brasileiras, aprofunda personagens e conflitos de maneira decisiva. Diferentemente do corte original, mais econômico e orientado pela fluidez da ação, a edição ampliada se permite respirar, olhar para trás e expandir dilemas. Um dos acréscimos mais significativos é o flashback em Osgiliath, que revela a relação entre Boromir (Sean Bean), Faramir (David Wenham) e Denethor (John Noble), oferecendo uma compreensão mais complexa da dinâmica familiar e da obsessão de Gondor pelo poder do Anel. Também ganham mais espaço o drama interno de Théoden (Bernard Hill), a melancolia de Éowyn (Miranda Otto) e o debate moral dos ents, liderados por Barbárvore, cuja indecisão frente à guerra passa a fazer mais sentido narrativo.

Do ponto de vista técnico, o filme permanece exemplar. A trilha sonora de Howard Shore, vencedora do Oscar, reforça identidades culturais e emocionais distintas; a fotografia de Andrew Lesnie alterna o épico grandioso com a intimidade sombria; e os efeitos visuais, que renderam à produção o Oscar da categoria, seguem impressionantes mesmo duas décadas depois. Não à toa, "As Duas Torres" alcançou 95% de aprovação no Rotten Tomatoes e ultrapassou a marca de US$ 947 milhões em bilheteria mundial, figurando entre os maiores sucessos comerciais da história.


Quais são as cenas adicionais de "O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel" (com spoiller)
A versão estendida de "O Senhor dos Anéis: As Duas Torres" começa expandindo o que o corte original apenas sugeria: as feridas políticas e afetivas abertas após a morte de Boromir. Em um longo flashback ambientado em Osgiliath, vemos o primogênito de Denethor sendo enviado para defender a cidade enquanto Faramir é humilhado publicamente pelo pai. A cena não apenas humaniza Boromir, como reposiciona Faramir como um personagem trágico desde a origem, marcado pela rejeição paterna e pela recusa em se render à lógica do poder a qualquer custo.

A jornada de Frodo, Sam e Gollum pelos Pântanos Mortos é consideravelmente ampliada. A câmera permanece mais tempo sobre os rostos submersos dos mortos da antiga guerra, e os diálogos adicionais entre Sam e Gollum aprofundam a ambiguidade moral da criatura, que passa a oscilar com mais clareza entre a submissão, o ressentimento e a manipulação. O Anel passa a pesar mais, não somente como objeto mágico, mas como instrumento psicológico de corrosão lenta.

Em Rohan, a versão estendida se detém no luto. O funeral de Théodred é mostrado com maior solenidade, permitindo que Théoden, Éowyn e Éomer expressem a dimensão íntima da perda. Há mais silêncio, mais tempo para o olhar vazio do rei e para a revolta contida de Éowyn, cuja dor deixa de ser apenas decorativa e se torna parte central da narrativa. Também se alongam os diálogos que revelam a fragilidade do reino diante da manipulação de Gríma Língua de Cobra.

Um dos acréscimos mais emblemáticos envolve Aragorn. Após o ataque dos wargs, a queda dele do penhasco não é apenas um momento de suspense, mas se transforma em um episódio de introspecção. Ferido, delirante, Aragorn revive sua ligação com Arwen em cenas oníricas que reforçam o conflito entre o amor e o dever. O reencontro com o cavalo Brego, que o resgata da morte, ganha contornos simbólicos mais fortes, sublinhando a ideia de retorno e resistência.

A passagem pela Floresta de Fangorn é substancialmente expandida. O conselho dos ents, o Entebate, é mostrado em toda a sua lentidão ancestral. Os diálogos adicionais evidenciam a recusa inicial dessas criaturas em se envolver na guerra dos homens, tornando sua decisão final - marchar contra Isengard após testemunhar a devastação da floresta - muito mais orgânica e politicamente carregada. 

No Abismo de Helm, a preparação para a batalha se alonga. Há mais interações entre soldados, mais despedidas silenciosas, mais sensação de que aquele pode ser o último amanhecer. A presença dos elfos liderados por Haldir ganha maior peso emocional, culminando em sua morte de forma ainda mais dilacerante. A batalha em si não é apenas maior, mas mais exaustiva, com pausas que permitem sentir o cansaço, o medo e a inevitabilidade do confronto.

Em Ithilien e Osgiliath, Faramir assume protagonismo ampliado. Sua resistência ao Anel é construída com mais camadas, reforçando o contraste direto com Boromir. O ataque do Nazgûl em Osgiliath é estendido, transformando a sequência em um momento de tensão quase insuportável, no qual Frodo chega perigosamente perto da rendição absoluta. Sam, por sua vez, ganha falas decisivas que reafirmam seu papel como âncora moral da narrativa.

O ataque dos ents a Isengard também se beneficia da ampliação. A destruição das forjas de Saruman é mais detalhada, mais violenta e mais simbólica, funcionando como catarse ecológica e política. Ao final, o filme se encerra com um tom ainda mais amargo: Frodo, Sam e Gollum seguem adiante, e a versão estendida deixa mais claro que aquela jornada já não admite retorno possível.


Ficha técnica
“O Senhor dos Anéis: As Duas Torres” | “The Lord of the Rings: The Two Towers”
Gênero: aventura, fantasia épica. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2002. Idioma: inglês. Direção: Peter Jackson. Roteiro: Fran Walsh, Philippa Boyens, Stephen Sinclair e Peter Jackson. Elenco: Elijah Wood, Ian McKellen, Viggo Mortensen, Sean Astin, Cate Blanchett, Orlando Bloom, John Rhys-Davies, Bernard Hill, Christopher Lee, Miranda Otto, David Wenham, Andy Serkis, Sean Bean, Karl Urban, Hugo Weaving, Liv Tyler. Distribuição no Brasil: Warner Bros. Pictures. Duração: cerca de 223 minutos (versão estendida). Cenas pós-créditos: não.

Assista no Cineflix Cinemas mais perto de você
As principais estreias da semana podem ser assistidas na rede Cineflix CinemasPara acompanhar as novidades da Cineflix mais perto de você, acesse a programação completa da sua cidade no app ou site a partir deste link. No litoral de São Paulo, as estreias dos filmes acontecem no Cineflix Santos, que fica no Miramar Shopping, à rua Euclides da Cunha, 21, no Gonzaga. Consulta de programação e compra de ingressos neste link: https://vendaonline.cineflix.com.br/cinema/SANO Resenhando.com é parceiro da rede Cineflix Cinemas desde 2021.

Cineflix Miramar | Santos
Dia 22 de janeiro | "O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel" | Sala 3 | 18h00
Dia 23 de janeiro | "O Senhor dos Anéis - As Duas Torres" | Sala 3 | 18h00
Dia 24 de janeiro | "O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei" | Sala 3 | 18h00
No Miramar Shopping | Rua Euclides da Cunha, 21 - Gonzaga - Santos / São Paulo. Ingressos neste link.

Postagens mais antigas → Página inicial
Tecnologia do Blogger.