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segunda-feira, 22 de junho de 2026

.: Clássico, "O Império dos Sentidos" reacende debate sobre sexo e poder


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Entre os filmes mais vistos da plataforma de streaming Reserva Imovision, o drama erótico “O Império dos Sentidos” ainda testa os limites do olhar. Lançado originalmente em 1976, o filme dirigido por Nagisa Ôshima volta vem sendo redescoberto pela nova geração e confirma a vocação de colocar os espectadores em um lugar incômodo. Ambientado no Japão de 1936, o longa-metragem acompanha Sada Abe (Eiko Matsuda), ex-prostituta que passa a trabalhar como empregada na hospedaria de Kichizō Ishida (Tatsuya Fuji). A relação entre os dois cresce rápido, alimentada por desejo, posse e um impulso que não encontra freio. O que poderia ser apenas mais uma história de paixão se transforma em um mergulho radical na obsessão, conduzido até um desfecho que a própria história real já havia tornado célebre.

Ôshima, figura central da nouvelle vague japonesa, concebeu o projeto em parceria com o produtor francês Anatole Dauman, conhecido por trabalhos com Alain Resnais e Jean-Luc Godard. A coprodução entre Japão e França foi a saída encontrada para contornar a censura japonesa, que à época impunha cortes severos à representação do corpo e da sexualidade. Filmado no Japão e finalizado na França, o longa chegou ao público sem fazer nenhum tipo de concessão, o que explica tanto a notoriedade do filme quanto a série de proibições que a produção enfrentou ao redor do mundo.

A repercussão em Cannes, em 1976, dá a medida do impacto. A procura foi tamanha que o festival organizou sessões extras para dar conta do público. A curiosidade vinha acompanhada de escândalo: tratava-se de um filme com cenas de sexo explícito integradas à narrativa, algo raro no circuito de prestígio. Nos anos seguintes, “O Império dos Sentidos” seria banido em diversos países, enquanto outros o liberariam pouco depois, já sem cortes. No Japão, o próprio Ôshima enfrentou um processo judicial, encerrado apenas em 1982, com a absolvição dele.

O roteiro, também assinado por Ôshima, parte de depoimentos reais de Sada Abe, registrados pela polícia, e de relatos que circularam após o crime. A escolha dá ao filme uma base documental que contrasta com a encenação rigorosa. Cada gesto, cada repetição, cada deslocamento entre os corpos é pensado como parte de uma construção dramática que dispensa ornamentos. O diretor elimina distrações e concentra a ação em poucos espaços, criando um clima de confinamento que acompanha a escalada da relação.

Eiko Matsuda, vinda do teatro experimental, sustenta o filme com uma presença que oscila entre fragilidade e domínio. A personagem dela conduz o ritmo da relação, deslocando o eixo tradicional do olhar no cinema erótico. Tatsuya Fuji, por sua vez, compõe um parceiro que se entrega por completo, num jogo que se intensifica a cada cena. O que se vê é a insistência de um desejo levado até as últimas consequências.

A fotografia e o uso das cores dialogam com tradições visuais japonesas, especialmente o teatro kabuki. Tons de vermelho atravessam figurinos e objetos, marcando o ambiente e sugerindo uma tensão constante. Cada elemento parece colocado para amplificar o que está em cena. Reduzir “O Império dos Sentidos” a rótulos simplistas empobrece a experiência. O filme se constrói como um estudo sobre controle, entrega e destruição, articulando corpo e poder de maneira direta e que ainda desafia convenções e incomoda expectativas.

Quase cinquenta anos depois, a obra mantém sua capacidade de dividir plateias. Há quem veja ali um marco do cinema moderno; há quem rejeite o filme pela forma como expõe seus personagens. Entre uma reação e outra, permanece um trabalho que insiste em ser visto, discutido e reavaliado — e que, ao reaparecer em circuito, reafirma a força de um cinema que não se acomoda.

Ficha técnica
“O Império dos Sentidos” | “Ai no Korîda” (título original)
Gênero: drama erótico. Duração: 109 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1976. Idioma: Japonês. Direção: Nagisa Ôshima. Roteiro: Nagisa Ôshima. Elenco: Eiko Matsuda, Tatsuya Fuji, Aoi Nakajima, Yasuko Matsui, Meika Seri, Taiji Tonoyama. Distribuição no Brasil: Imovision (catálogo e relançamentos). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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A equipe do Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas.
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.: Suspense de 1956, "A Sombra" retorna para provocar novas leituras


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Produzido durante o chamado “degelo” político na Polônia, quando a censura afrouxava discretamente, “A Sombra” encontrou terreno para lidar com temas delicados. O filme chega à plataforma de streaming Belas Artes À La Carte como um título que precisa ser redescoberto. Dirigido por Jerzy Kawalerowicz e escrito por Aleksander Ścibor-Rylski, o longa-metragem polonês de 1956 parte de um corpo lançado de um trem para construir um enigma difícil de ser decifrado. A investigação conduzida por policiais, agentes de segurança e um legista se fragmenta em três versões, situadas em momentos distintos: a Segunda Guerra Mundial, o imediato pós-guerra e a Polônia dos anos 1950. O filme, que tem no elenco os atores Zygmunt Kęstowicz, Adolf Chronicki e Tadeusz Jurasz, organiza o suspense a partir de relatos que se contradizem e se contaminam. Cada depoimento desloca o espectador, que passa a lidar com identidades instáveis e intenções ambíguas. 

A estrutura lembra o jogo de perspectivas popularizado por “Rashomon”, de Akira Kurosawa, mas Kawalerowicz prefere expandir o dispositivo: em vez de revisitar um único acontecimento, ele costura histórias que ecoam entre si, criando uma espécie de mosaico moral. A pergunta sobre quem foi o homem morto se transforma, aos poucos, em outra: o que define alguém em um cenário de vigilância, medo e lealdades frágeis? A câmera de Jerzy Lipman aposta em enquadramentos fechados e ângulos baixos, valorizando rostos tensos e ambientes carregados. O filme avança com movimento, perseguições e sequências envolvendo trens que imprimem ritmo e risco. Em algumas dessas cenas, os próprios atores dispensaram dublês.

Críticos da época reagiram com desconfiança ao retrato de um mundo povoado por agentes secretos e inimigos invisíveis, leitura que dialogava com o imaginário do stalinismo. O filme, no entanto, segue por outra via e expõe a fragilidade das certezas: heroísmo e traição mudam conforme o ponto de vista. Exibido no Festival de Cannes de 1956, o longa-metragem integra o movimento conhecido como Polish Film School, responsável por renovar a linguagem cinematográfica no país ao abordar as consequências da guerra com maior liberdade estética e densidade moral. Kawalerowicz, que mais tarde assinaria obras como “Madre Joana dos Anjos” e “Faraó”, já demonstrava aqui um domínio formal que chamaria atenção fora da Polônia, ainda que a filmografia dele permaneça menos difundida do que merece.


Ficha técnica
“A Sombra” | "Cień" (título original)
Gênero: drama, ação, suspense. Duração: 98 minutos. Classificação indicativa: não informada.
Ano de produção: 1956. Idioma: polonês. Direção: Jerzy Kawalerowicz. Roteiro: Aleksander Ścibor-Rylski. Elenco: Zygmunt Kęstowicz, Adolf Chronicki, Tadeusz Jurasz, Emil Karewicz, Ignacy Machowski, Bolesław Płotnicki, Bohdan Ejmont, Marian Łącz, Halina Przybylska, entre outros.
Distribuição no Brasil: não informada. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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domingo, 21 de junho de 2026

.: "Mother’s Baby” questiona instinto materno e desmonta idealizações


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Mother’s Baby” estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision apostando em um desconforto que não se dissipa quando o filme termina. Dirigido e coescrito pela austríaca Johanna Moder, o longa-metragem parte de um terreno conhecido - o desejo pela maternidade - para deslocá-lo a um território inquietante, em que o afeto e o estranhamento convivem sem qualquer garantia de reconciliação. Na trama, Julia (Marie Leuenberger), uma maestrina de 40 anos no auge da carreira, decide interromper a rotina profissional ao lado do parceiro Georg (Hans Löw) para realizar o sonho de ter um filho. 

A gravidez vem após um procedimento conduzido pelo enigmático Dr. Vilfort (Claes Bang), especialista em fertilidade que promete resultados com uma segurança quase clínica demais para ser confortável. O parto, porém, rompe qualquer expectativa de controle: o bebê é retirado às pressas, sem explicações claras, e devolvido à mãe já sob o peso de uma dúvida corrosiva.

Moder conduz o espectador por uma narrativa que se alimenta da instabilidade emocional da protagonista. Julia não reconhece o filho, mas não há histeria, nem gestos grandiosos. O que se instala é um distanciamento seco, persistente, que contamina o ambiente doméstico e fragiliza o casamento. A partir daí, o filme tensiona a percepção da realidade: há um erro concreto ou tudo se organiza dentro de uma experiência psíquica em colapso?

Exibido na competição oficial do Festival de Berlim, onde disputou o Urso de Ouro, o longa-metragem se insere em uma linhagem recente de filmes dirigidos por mulheres que encaram a maternidade sem idealizações. A própria Moder descreveu o projeto como um acerto de contas pessoal, interessado em desmontar a promessa de plenitude associada ao nascimento de um filho. Em entrevistas à imprensa europeia, a diretora afirmou que buscou deliberadamente o suspense como forma de traduzir a insegurança e o deslocamento vividos por muitas mulheres nesse período.

Marie Leuenberger segura o filme com uma atuação que aposta no mínimo. A personagem dela fala pouco, mas o incômodo aparece no jeito de olhar, no corpo que parece sempre um passo atrás, como se ela estivesse tentando ocupar um lugar que já não reconhece como seu. Claes Bang faz do médico uma presença que impõe respeito e estranha ao mesmo tempo, daqueles que parecem saber demais e explicar de menos. Já Hans Löw constrói um marido dividido: tenta estar por perto, mas nunca alcança de fato o que se passa com a mulher ao lado.

Filmado em Viena, Zurique e Hamburgo, com fotografia de Robert Oberrainer, o longa-metragem também chama atenção pela atmosfera controlada que contrasta com a crescente desordem interna da protagonista. A trilha de Diego Ramos Rodríguez acompanha esse deslocamento sem recorrer a excessos, reforçando a sensação de que algo está fora do lugar, ainda que ninguém consiga apontar exatamente o quê. O filme prefere deixar o espectador diante de um impasse que ecoa para além da tela: até que ponto a maternidade é instinto, construção ou imposição? E o que acontece quando esse vínculo não se estabelece como esperado? 


Ficha técnica
“Mother’s Baby” | "Bebê da Mamãe" (título em Portugal)
Gênero: drama, suspense. Duração: 99 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: alemão. Direção: Johanna Moder. Roteiro: Johanna Moder, Arne Kohlweyer. Elenco: Marie Leuenberger, Hans Löw, Claes Bang, Julia Franz Richter. Distribuição no Brasil: Autoral Filmes. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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Leia+

.: “Muito Mais que um Crime” reafirma o vigor político de Costa-Gavras


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Lançado em 1989, “Muito Mais que um Crime” reestreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte com a assinatura firme de Costa-Gavras, cineasta que construiu carreira investigando as zonas de atrito entre poder, memória e justiça. Nesse filme, ele conduz um drama judicial que se move com tensão de thriller, sem recorrer a excessos formais, sustentado por um roteiro que prefere a revelação gradual ao choque fácil. A trama acompanha Ann Talbot (Jessica Lange), advogada respeitada que aceita defender o próprio pai, Mike Laszlo (Armin Mueller-Stahl), acusado de ter participado de crimes de guerra na Hungria durante a Segunda Guerra Mundial. 

O que começa como um gesto de lealdade familiar se transforma em um percurso incômodo, à medida que o tribunal expõe testemunhos, documentos e informações que colocam em xeque a imagem construída dentro de casa. O roteiro de Joe Eszterhas, inspirado em experiências pessoais - o pai dele foi acusado de colaboração com o regime nazista -, evita simplificações e constrói um embate moral que não se resolve com facilidade. A escrita aposta na ambiguidade e sustenta o conflito central: até onde vai a fidelidade a alguém quando a verdade ameaça desmoronar tudo o que se acreditava sólido? 

Jessica Lange conduz o filme com uma atuação de alta voltagem emocional, reconhecida com indicação ao Oscar de Melhor Atriz. Sua Ann oscila entre convicção e dúvida, sem perder a densidade. Ao seu lado, Armin Mueller-Stahl compõe um pai que alterna afeto, orgulho e um jeito difícil de decifrar, elemento essencial para manter a tensão em cena. O elenco conta ainda com Frederic Forrest e Lukas Haas, reforçando um conjunto que sustenta o peso dramático sem dispersão.

Premiado com o Urso de Ouro no Festival de Berlim, o longa-metragem confirma a habilidade de Costa-Gavras em tratar temas espinhosos com firmeza na condução da história. Conhecido por títulos como “Z” e “Missing”, o diretor retoma aqui o interesse por estruturas de poder e pelas marcas que a história deixa nos indivíduos, sem recorrer a discursos didáticos. O julgamento funciona como motor dramático, mas o filme cresce nos momentos em que desloca o foco para o impacto íntimo das descobertas.

Há também um detalhe simbólico que marca a narrativa: a caixa de música do título original (“Music Box”). O objeto, aparentemente inofensivo, guarda pistas que se revelam decisivas. A escolha do nome não é gratuita e aponta para a ideia de memória guardada e, em algum momento, exposta. Entre as curiosidades, nomes como Kirk Douglas e Walter Matthau foram cogitados para o papel de Mike Laszlo, mas Costa-Gavras optou por Mueller-Stahl, cuja origem europeia acrescenta autenticidade ao personagem. Também se comenta que Jane Fonda chegou a ser considerada para o papel de Ann, antes da escolha por Jessica Lange.

Sem recorrer a grandes manobras estéticas, “Muito Mais que Um Crime” aposta na força da narrativa e na densidade de seus conflitos. O filme mantém o espectador atento até o desfecho, quando as peças finalmente se encaixam. O impacto não vem de um truque, mas daquilo que sempre esteve ali, à espera de ser encarado.


Ficha técnica
“Muito Mais que um Crime” | “Music Box” (título original) | “O Enigma da Caixa de Música” (título em Portugal)
Gênero: drama, suspense. Duração: 124 minutos. Classificação indicativa: 13 anos. Ano de produção: 1989. Idioma: inglês. Direção: Costa-Gavras. Roteiro: Joe Eszterhas. Elenco: Jessica Lange, Armin Mueller-Stahl, Frederic Forrest, Lukas Haas, Donald Moffat. Distribuição no Brasil: não especificada. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sábado, 20 de junho de 2026

.: Longa “The Doors” expõe excessos e controvérsias sobre Jim Morrison


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Oliver Stone nunca teve vocação para a neutralidade. Isso aparece com força em “The Doors”,  cinebiografia em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, e tenta capturar sem muita delicadeza o furacão chamado Jim Morrison. Lançado em 1991, o longa-metragem sempre foi embalado por expectativas altas, sustentadas pelo mito da banda que ajudou a redefinir os limites do rock e da contracultura norte-americana no fim dos anos 1960.

No centro de tudo está Val Kilmer, em uma atuação que beira o transe. Há relatos de que ele aprendeu cerca de 50 músicas do repertório da banda, cantando boa parte delas no próprio filme. Em estúdio, a voz dele chegou a confundir até integrantes originais do grupo, tamanha a precisão. O nível de dedicação cobrou um preço, já que o ator precisou de terapia ao final das filmagens para se desligar do personagem.

A narrativa acompanha Morrison desde os tempos de estudante de cinema na UCLA até a ascensão meteórica com o The Doors, passando por excessos, crises criativas e a espiral autodestrutiva que culminaria na morte precoce dele, aos 27 anos, em Paris. Stone aposta no hedonismo, no caos e em uma aura quase mística que transforma o vocalista no chamado “Rei Lagarto”. O elenco sustenta essa atmosfera com eficiência. 

Meg Ryan surpreende ao abandonar a imagem de comédias românticas para viver Pamela Courson, companheira de Morrison. Kyle MacLachlan, como Ray Manzarek, traz uma presença mais contida, enquanto Kevin Dillon (John Densmore) e Frank Whaley (Robby Krieger) completam a formação da banda. Entre participações curiosas, Billy Idol aparece como Cat, e Crispin Glover surge como Andy Warhol, em um retrato breve, mas marcante.

O roteiro, assinado por Stone em parceria com J. Randall Jahnson, opta por uma construção fragmentada, quase alucinada, que privilegia sensações em vez de fidelidade histórica. Integrantes da banda, especialmente Manzarek e Densmore, criticaram publicamente o filme por reduzir Morrison a um arquétipo de excessos, ignorando a inteligência, humor e inquietação intelectual dele. 

Décadas depois, o consenso permanece instável: o filme oscila entre documento cultural e fantasia estilizada. Mesmo com as controvérsias, a bilheteria superou ligeiramente o custo de produção, e o filme acabou consolidando uma imagem duradoura de Morrison para gerações que não o viram ao vivo. Para muitos, o Jim Morrison de Kilmer virou referência, o que, por si só, explica parte do incômodo dos músicos originais.

Curiosamente, o papel quase teve outro destino. Ian Astbury, vocalista do The Cult, recusou o convite por discordar da abordagem do roteiro. Nomes como Bono e Michael Hutchence também demonstraram interesse, mas não avançaram. A escolha por Kilmer, hoje, parece inevitável. Selecionado para o Festival de Moscou em 1991 e revisitado anos depois na seção Cannes Classics, o filme segue provocando debate. Stone entrega um retrato intenso, por vezes exagerado, que transforma a trajetória da banda em uma experiência sensorial. Há momentos em que a encenação se sobrepõe ao fato, mas a energia permanece.


Ficha técnica
“The Doors” | “The Doors: O Mito de uma Geração” (título em Portugal)
Gênero: Musical, biográfico. Duração: 141 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: inglês. Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone e J. Randall Jahnson. Elenco: Val Kilmer, Meg Ryan, Kyle MacLachlan, Kevin Dillon, Frank Whaley, Kathleen Quinlan, Billy Idol, Crispin Glover, entre outros. Distribuição no Brasil: Columbia Pictures (Sony Pictures). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: Filme “Caso 137” revisita protestos e questiona o papel da polícia


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O drama “Caso 137” estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision com a assinatura firme do diretor alemão radicado na França Dominik Moll, que volta ao território policial depois do premiado "A Noite do Dia 12". Nesse novo longa-metragem, ele afina ainda mais o olhar para os mecanismos internos da polícia francesa ao acompanhar uma investigação conduzida por quem deveria vigiar a própria instituição: a IGPN, conhecida como “a polícia da polícia”.

A trama segue Stéphanie Bertrand (Léa Drucker), encarregada de apurar o caso de um jovem gravemente ferido durante um protesto em Paris. O episódio remete diretamente às manifestações dos coletes amarelos, entre 2018 e 2020, quando denúncias de uso excessivo da força ganharam repercussão internacional. O roteiro, assinado por Moll em parceria com Gilles Marchand, parte de um evento fictício, mas reproduz situações reais amplamente documentadas pela imprensa europeia, incluindo casos de manifestantes atingidos por balas de borracha, prática questionada por organismos de direitos humanos.

O filme teve estreia mundial no Festival de Cannes de 2025, onde disputou a Palma de Ouro e arrancou aplausos prolongados na sessão oficial. Depois, seguiu um percurso consistente em festivais e premiações, acumulando indicações importantes e consolidando o nome de Léa Drucker como peça central do projeto. A atriz foi reconhecida com o César de Melhor Atriz, reforçando o consenso crítico em torno da interpretação contida e precisa que ela entrega nesse filme.

Moll conduz a narrativa com rigor que lembra o documental. A câmera observa mais do que intervém, insistindo em salas de interrogatório, relatórios burocráticos e depoimentos que raramente se encaixam. Há um interesse claro em expor o funcionamento do sistema por dentro, sem atalhos dramáticos. O que se vê é um acúmulo de versões, tensões institucionais e pequenas fissuras que revelam o desgaste de uma estrutura que deveria garantir justiça, mas frequentemente se protege.

A investigação ganha densidade quando o caso deixa de ser apenas um número. A ligação pessoal da protagonista com a origem da vítima desloca o eixo do filme e coloca em jogo dilemas que não cabem em protocolos. Stéphanie não se transforma em heroína clássica; segue trabalhando, lidando com a rotina e negociando limites. Esse desenho evita idealizações fáceis e sustenta um retrato mais próximo da experiência concreta de quem opera dentro da máquina pública.

Outro ponto que chama atenção é a recusa em simplificar o conflito. O roteiro distribui responsabilidades e tensões entre diferentes lados: policiais pressionados, testemunhas desconfiadas, famílias feridas e um aparato jurídico que se move com lentidão Nos bastidores, em Cannes, o ator Théo Navarro-Mussy foi impedido de participar do tapete vermelho após acusações de violência sexual - decisão apoiada pela organização do festival e compreendida publicamente por Moll. O episódio acabou desviando parte da atenção midiática, ainda que não tenha afetado a recepção crítica do longa.

“Caso 137” trabalha com a frustração de processos que avançam sem necessariamente produzir respostas satisfatórias. A trilha discreta de Olivier Marguerit acompanha esse tom, quase imperceptível, deixando que o peso recaia sobre os diálogos e as lacunas institucionais, aquelas que se impõem pela impossibilidade de conclusão. O filme é um retrato incômodo de um sistema que investiga a si mesmo, encontra limites para agir e, ainda assim, falha.


Ficha técnica
“Caso 137” | “Dossier 137” (título original) | “Dossiê 137” (título em Portugal)
Gênero: policial, drama. Duração: 1h56min. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: francês. Direção: Dominik Moll. Roteiro: Dominik Moll e Gilles Marchand. Elenco: Léa Drucker, Jonathan Turnbull, Mathilde Roehrich, Guslagie Malanda, Stanislas Merhar. Distribuição no Brasil: Autoral Filmes. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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sexta-feira, 19 de junho de 2026

.: No streaming, “Betty Blue” convoca o público a encarar a vertigem


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

A cópia restaurada de “Betty Blue” devolve ao circuito um filme que nunca se acomodou no passado. Dirigido e roteirizado por Jean-Jacques Beineix, a partir do romance de Philippe Djian, o longa-metragem reaparece em versão remasterizada para celebrar quatro décadas de um impacto que não se dilui. A estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte recoloca em evidência uma obra que mistura desejo, criação artística e vertigem emocional. O filme volta embalado por uma restauração em alta definição que valoriza as cores saturadas.

Na história, Zorg (Jean-Hugues Anglade) leva uma vida modesta à beira-mar até a chegada de Betty (Béatrice Dalle), uma mulher que desestabiliza tudo ao redor dela. O romance entre os dois avança de maneira intensa, física e instável. Entre mudanças de cidade, empregos improvisados e a tentativa de transformar um manuscrito em livro publicado, o casal se move por impulsos que os aproximam e, ao mesmo tempo, anunciam um término inevitável. O filme observa esse percurso sem freio moral e mostra o que acontece quando o amor e o descontrole caminham juntos.

Lançado originalmente em 1986, “Betty Blue” foi o oitavo maior sucesso de bilheteria na França naquele ano e alcançou reconhecimento internacional com indicação ao Oscar e ao BAFTA de Melhor Filme em Língua Estrangeira. A trilha de Gabriel Yared, hoje amplamente reconhecida, ajuda a sustentar a atmosfera sensorial que marcou o cinema francês dos anos 1980, especialmente o chamado “cinema do look”, ao qual Beineix é frequentemente associado.

Há bastidores que ampliam a experiência de quem revisita o longa. As filmagens ocorreram ao longo de 13 semanas em locações como Gruissan, Marselha e Marvejols, explorando paisagens que alternam o solar e o melancólico. Beineix comentou, em entrevistas, que a química entre Béatrice Dalle e Jean-Hugues Anglade ultrapassava a encenação - uma energia que se infiltra em cena e ajuda a explicar a combustão do casal. Décadas depois, a versão do diretor, com cerca de 185 minutos, ganhou circulação ampliada e aprofunda a espiral de Betty, além de expandir o arco de Zorg.


“Betty Blue” | “37°2 Le Matin” (título original) | “Betty Blue – 37,2º de Manhã” (título em Portugal)
Gênero: drama, romance, erótico, psicológico. Duração: 120 minutos (versão original); 185 minutos (versão do diretor). Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1986. Idioma: francês. Direção: Jean-Jacques Beineix. Roteiro: Jean-Jacques Beineix, baseado no romance de Philippe Djian. Elenco: Béatrice Dalle, Jean-Hugues Anglade, Gérard Darmon, Consuelo de Haviland, Clémentine Célarié, Jacques Mathou, Vincent Lindon, entre outros. Distribuição no Brasil: Pandora Filmes. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: Longa francês, “E Seus Filhos Depois Deles” expõe juventude à deriva


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Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“E Seus Filhos Depois Deles” chega na plataforma de streaming Reserva Imovision carregando o peso de uma origem literária premiada e o fôlego de uma adaptação ambiciosa. Dirigido pelos irmãos Ludovic e Zoran Boukherma, o longa francês transforma o romance homônimo de Nicolas Mathieu - vencedor do Prix Goncourt - em uma narrativa de formação.

Ambientado no leste da França, entre 1992 e o fim da década, o filme acompanha Anthony (Paul Kircher) e seus arredores ao longo de quatro verões que moldam sua passagem da adolescência à vida adulta. O ponto de partida é simples: tédio, um lago, uma garota. O que se segue, porém, é um encadeamento de escolhas impulsivas que escancaram tensões familiares, disputas de território e um sentimento difuso de estagnação social. 

Os Boukherma filmam esse universo com olhar atento ao detalhe cotidiano. A fotografia de Augustin Barbaroux encontra beleza nas ruínas industriais e na pele suada dos personagens, enquanto a trilha sonora mergulha nos anos 1990 com precisão afetiva, costurando referências que vão do pop ao rock da época. Com financiamento robusto, incluindo parcerias com grandes players europeus, o filme percorre diferentes locações e períodos, mantendo uma coerência estética que dialoga com o realismo do livro.

Exibido na competição do Festival de Veneza, “E Seus Filhos Depois Deles” rendeu a Paul Kircher o Prêmio Marcello Mastroianni, dedicado a jovens atores promissores. O reconhecimento reforça a aposta do filme em um elenco que equilibra nomes experientes, como Gilles Lellouche e Ludivine Sagnier, com rostos em ascensão. Há ainda participações que ampliam o interesse do público atento ao cinema francês contemporâneo, como Raphaël Quenard.

Ao adaptar um romance marcado por sua densidade social, os Boukherma optam por uma narrativa que privilegia a memória sensorial da juventude: o calor, o desejo, a frustração. Nem sempre o resultado alcança a complexidade do texto original, mas há consistência na maneira como o filme constrói seu retrato de uma geração que cresce entre promessas quebradas e horizontes estreitos.

Ficha técnica
“E Seus Filhos Depois Deles” | “Leurs Enfants Après Eux” (título original) | “Os Seus Filhos Depois Deles” (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 2h21min. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 2024. Idioma: francês. Direção: Ludovic Boukherma e Zoran Boukherma. Roteiro: Ludovic Boukherma, Zoran Boukherma, Nicolas Mathieu. Elenco: Paul Kircher, Angelina Woreth, Sayyid El Alami, Gilles Lellouche, Ludivine Sagnier. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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A equipe do Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas.
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segunda-feira, 15 de junho de 2026

.: Dez motivos para ler a edição especial de dez anos de "Amor & Gelato"


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Dez anos depois de conquistar leitores com uma narrativa que mistura perda, desejo e deslocamento, “Amor & Gelato” retorna às livrarias em uma edição especial que aposta no objeto-livro como experiência. Não se trata somente de capa dura, bordas arredondadas ou pintura trilateral - embora tudo isso esteja lá, sedutor. O que chama atenção é a permanência de uma história que continua encontrando leitores, mesmo depois de ter sido adaptada ppela Netflix em 2022.

Publicado originalmente em 2016, o romance de estreia de Jenna Evans Welch atravessou fronteiras com facilidade: entrou na lista do jornal The New York Times, recebeu reconhecimento da Young Adult Library Services Association (YALSA) e se espalhou por cerca de 20 países. No Brasil, ultrapassou a marca de meio milhão de exemplares vendidos - número que ajuda a explicar o relançamento em edição de colecionador pela Intrínseca, agora com conteúdo extra e acabamento caprichado.

A premissa é direta: Lina viaja à Itália para cumprir o último desejo da mãe. O que encontra por lá não cabe no roteiro que imaginava e talvez nem no que gostaria de enfrentar. Um diário, um pai desconhecido, um passado que insiste em reaparecer e uma cidade que parece guardar respostas nas esquinas. A edição especial tem tradução de Helen Pandolfi e Joana Faro, além de um conto exclusivo na perspectiva de um personagem inesperado e carta da autora. Listamos dez motivos para ler - ou revisitar - “Amor & Gelato” com outros olhos. Compre a edição especial de "Amor & Gelato" neste link. 


1. A edição de luxo amplia a experiência de leitura
O conto inédito, narrado por um personagem inesperado, desloca o ponto de vista e reabre a história. A carta da autora acrescenta uma camada pessoal, aproximando o leitor do processo criativo. O objeto livro acompanha essa proposta com acabamento que valoriza o gesto de ler.


2. Começa com uma perda, mas recusa o drama
A morte da mãe da protagonista funciona como ponto de partida, não como muleta emocional. Lina não se entrega a uma dor idealizada: reage com irritação, negação, vontade de fugir. Esse deslocamento evita o sentimentalismo automático e constrói uma protagonista que erra, hesita e cresce aos poucos.


3. A Itália deixa de ser cartão-postal e vira experiência sensorial
Florença e a Toscana aparecem com densidade: ruas, praças, comida, calor, deslocamento linguístico. A autora viveu parte da adolescência na cidade e isso aparece na espontaneidade dos passeios à maneira como os espaços interferem no humor da personagem.


4. O diário da mãe funciona como romance dentro do romance
Ao encontrar os registros da juventude da mãe, Lina passa a ler e a reescrever a própria história. O recurso cria um jogo interessante entre passado e presente, em que cada revelação altera a leitura anterior. Não há estabilidade possível quando a memória entra em cena.


5. A protagonista se basta sozinha
Interesse amoroso da protagonista, Ren surge como figura importante, com carisma suficiente para tensionar o percurso de Lina, mas o livro não se resume a uma história de amor. As relações familiares, os segredos e as escolhas pesam tanto quanto qualquer envolvimento afetivo.


6. Segredos de família ganham camadas e consequências
A narrativa aposta em revelações graduais, sem pressa. Quando os segredos vêm à tona, eles reorganizam vínculos, questionam versões e exigem reposicionamento emocional da protagonista.


7. A paternidade mostrada como algo real
O encontro com o pai da personagem, que motivou a viagem, não resolve nada de imediato. Pelo contrário: cria desconforto, estranhamento e perguntas que podem gerar conversas difíceis e desconfortáveis. A narrativa evita o caminho da reconciliação instantânea e investe em um vínculo que precisa ser construído ou recusado com o tempo.


8. O sucesso não veio por acaso
Figurar entre os mais vendidos e receber reconhecimento institucional ajuda a consolidar o livro, mas o que garante sua permanência é a capacidade de dialogar com leitores jovens e adultos. A narrativa equilibra leveza e conflito sem simplificar demais nenhum dos dois.


9. A adaptação para a Netflix convida à comparação e ao retorno ao texto
O filme, dirigido por Brandon Camp, desloca a ação para Roma e altera aspectos centrais da história. O contraste costuma levar leitores de volta ao livro, seja para reencontrar personagens, seja para recuperar nuances que a adaptação não desenvolve.


10. Um portal para o universo de Jenna Evans Welch
Depois de “Amor & Gelato”, a autora expandiu sua proposta com títulos ambientados em outros cenários - Irlanda, Grécia - mantendo o interesse por deslocamento, pertencimento e descoberta. Este livro funciona como porta de entrada para um projeto literário mais amplo.

domingo, 14 de junho de 2026

.: Filme “As Pessoas ao Lado” observa a política pela fresta do cotidiano


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A estreia de “As Pessoas ao Lado” na plataforma de streaming Reserva Imovision recoloca em circulação um diretor que conhece como poucos as zonas de fricção entre o íntimo e o político. Assinado por André Téchiné, veterano do cinema francês, o longa adapta tensões contemporâneas para um espaço reduzido: o convívio entre vizinhos. Lucie (Isabelle Huppert) trabalha na polícia científica e leva uma vida contida A rotina se altera com a chegada de um casal jovem e de sua filha ao condomínio. A aproximação com Julia (Hafsia Herzi) nasce sem esforço, mas logo esbarra na figura de Yann (Nahuel Pérez Biscayart), artista e ativista com antecedentes criminais e histórico de enfrentamento à polícia. A partir desse dado, o filme constrói um impasse que não se resolve com facilidade: como sustentar vínculos afetivos quando a biografia do outro confronta aquilo que você representa?

Téchiné, que já havia explorado relações atravessadas por dilemas sociais em títulos como “Quando os Homens Caem” e “Os Juncos Selvagens”, aposta aqui em uma narrativa de baixa voltagem externa e alta combustão interna. Não há espetáculo, nem concessão a soluções fáceis. O conflito se infiltra em gestos cotidianos, em silêncios carregados e em escolhas que parecem pequenas, mas reorganizam tudo ao redor.

Selecionado para a Mostra Panorama do Festival de Berlim 2024, o longa chamou atenção da crítica internacional justamente por recusar o caminho mais óbvio. O The Hollywood Reporter destacou o embate entre compromissos profissionais e afetivos como eixo central, enquanto o Screen Daily apontou a ausência de pirotecnia como uma escolha consciente: trata-se de um filme policial sem tiros, interessado menos no crime do que nas pessoas que orbitam suas consequências.

Isabelle Huppert, presença constante no cinema de autor europeu, sustenta o filme com uma composição econômica, quase rígida, que vai cedendo aos poucos. Hafsia Herzi imprime a Julia uma mistura de exaustão e desejo de pertencimento que poderia render ainda mais se o roteiro avançasse com maior contundência. Já Nahuel Pérez Biscayart constrói um Yann ambíguo, distante de caricaturas.

Se há um ponto de atrito, ele surge na montagem. A progressão dramática carece de maior densidade entre as cenas. Os acontecimentos se sucedem sem que o impacto reverbere com a força necessária, o que dilui parte do potencial do conflito. Ainda assim, o filme encontra força na recusa de simplificar personagens em rótulos previsíveis. “Les gens d’à côté”, no título original, aponta para aquilo que está ao alcance do olhar, mas nem sempre é compreendido. Téchiné filma uma França tensionada sem recorrer ao discurso inflamado. Prefere observar. E, nesse gesto, encontra um cinema que provoca mais pelo desconforto do que pela afirmação.


Ficha técnica
“As Pessoas ao Lado” | “Les Gens D’À Côté” (título original)
Gênero: drama. Duração: 85 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2024. Idioma: francês. Direção: André Téchiné. Roteiro: André Téchiné, Régis de Martrin-Donos. Elenco: Isabelle Huppert, Hafsia Herzi, Nahuel Pérez Biscayart, Romane Meunier. Distribuição no Brasil: Imovision (Reserva Imovision). Cenas pós-créditos: não Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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A equipe do Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. 
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domingo, 7 de junho de 2026

.: "Rei do Bacalhau - Fé na Impunidade" conta história que supera ficção policial


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O fascínio contemporâneo pelas narrativas criminais parece inesgotável. Séries, documentários e podcasts transformaram investigações policiais em verdadeiros fenômenos culturais. Mas há ocasiões em que a realidade produz histórias tão perturbadoras que qualquer roteirista pareceria excessivamente imaginativo ao tentar reproduzi-las. É nesse território nebuloso entre a incredulidade e o horror que se instala "Rei do Bacalhau - Fé na Impunidade", novo podcast documental original da Ubook.

A produção mergulha em uma sucessão de assassinatos que abalou o Rio de Janeiro e expõe uma trama em que ganância, poder, religiosidade, heranças e segredos familiares se entrelaçam de maneira quase cinematográfica. A diferença é que nada ali foi inventado. Tudo começa na noite de 14 de janeiro de 2010. Após encerrar mais um dia de trabalho no tradicional restaurante Rei do Bacalhau, na Praia da Bica, Ilha do Governador, José Maurício de Almeida, então com 59 anos, repetia uma rotina que conhecia de cor. Gerente administrativo da casa havia cinco anos, deixou o estabelecimento, embarcou no ônibus em direção à Barra da Tijuca e seguiu o percurso habitual.

Pouco depois de descer na Avenida Ayrton Senna, José Maurício foi surpreendido por criminosos e executado com extrema violência: três tiros nas costas e um na nuca. Policiais que estavam próximos ouviram os disparos e chegaram rapidamente ao local. Ainda houve tentativa de socorro, mas os ferimentos eram fatais. Inicialmente, a hipótese mais plausível parecia ser latrocínio - roubo seguido de morte. Contudo, bastaram os primeiros levantamentos para que essa teoria começasse a ruir. A maleta da vítima permanecia intacta. Dentro dela, além de documentos pessoais, havia cerca de quatro mil reais em dinheiro. A carteira continuava no bolso. A aliança seguia no dedo. Nenhum objeto de valor havia sido levado. O que, então, justificaria uma execução tão brutal?

A pergunta se transformou em obsessão para os investigadores. Como ocorre em muitos casos de homicídio, as primeiras 48 horas tornaram-se decisivas. Foi durante as diligências realizadas no restaurante onde José trabalhava que os agentes perceberam que talvez estivessem diante de algo muito maior do que um assassinato isolado. A morte do gerente era apenas a ponta visível de um iceberg macabro. Ao revisitar a história do Rei do Bacalhau, estabelecimento fundado em 1992 e transformado em referência gastronômica na cidade, a investigação começou a revelar um passado marcado por acontecimentos tão inquietantes quanto misteriosos.

Entre eles, o assassinato de Plácido da Silva Nunes, empresário português e fundador do restaurante. Em 2007, três anos antes da morte de José Maurício, Plácido foi encontrado morto dentro da própria residência. Vivia sozinho e foi surpreendido com uma facada pelas costas enquanto estava na cozinha. O crime permaneceu envolto em dúvidas. Como se não bastasse, outro episódio sombrio surgiria durante as apurações. Em 2009, um ano antes da execução do gerente administrativo, o pai de santo de confiança de Antônio Fernando da Silva - filho de Plácido - também foi encontrado morto em circunstâncias que ampliariam ainda mais o clima de mistério.

A narração das jornalistas Daiane Menezes e Naiana Ribeiro conduz o ouvinte por um percurso de revelações graduais, reconstituições detalhadas e depoimentos que ajudam a compreender como uma sequência de crimes aparentemente sem solução pode esconder conexões surpreendentes. A obra propõe uma reflexão sobre os mecanismos da justiça, os limites da investigação criminal e, sobretudo, sobre a perigosa sensação de impunidade que frequentemente acompanha crimes de grande repercussão no Brasil.

Ao longo de seus três episódios, o podcast transforma essa pergunta em combustível dramático, conduzindo o público por uma história repleta de reviravoltas, interesses ocultos e revelações capazes de surpreender até os mais habituados consumidores de true crime. O resultado é uma experiência que transcende o entretenimento. É um retrato perturbador de como ambições humanas podem desencadear tragédias sucessivas e de como a verdade, por mais enterrada que pareça, costuma encontrar caminhos para emergir.


Serviço

Disponível exclusivamente na Ubook. Formato: 3 episódios, com aproximadamente 25 minutos cada. Produção e roteiro: Daiane Menezes e Naiana Ribeiro. Classificação indicativa: 16 anos.


Sobre a Ubook
Fundada em 2014, a Ubook consolidou-se como uma das principais plataformas de audiotainment da América Latina. Com catálogo que ultrapassa 400 mil títulos, reúne audiobooks, podcasts, documentários, séries em áudio, e-books, notícias e conteúdo musical. Nos últimos anos, a empresa vem ampliando seu investimento em produções originais, apostando em temas de relevância social e cultural. Entre os destaques estão Adolescência e o alerta vermelho digital, que investiga a cultura incel no Brasil, e Embolhados, dedicado à análise de temas em evidência nas redes sociais. Com "Rei do Bacalhau - Fé na Impunidade", a plataforma reforça sua aposta em narrativas investigativas que unem rigor jornalístico, qualidade de produção e forte potencial de envolvimento junto ao público.

.: André Téchiné mergulha na Paris que engole sonhos em "Não Dou Beijos"


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Lançado em 1991 e agora em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, "Não Dou Beijos" é uma das obras mais contundentes da filmografia de André Téchiné. O cineasta francês abandona qualquer idealização da capital francesa para acompanhar a trajetória de Pierre, interpretado por Manuel Blanc, um jovem do interior dos Pireneus que desembarca em Paris carregando o sonho de se tornar ator. O que encontra, porém, está longe das promessas de ascensão social frequentemente associadas à cidade. Sem conseguir se firmar profissionalmente, Pierre atravessa uma sucessão de fracassos que o empurram para a marginalidade. Aos poucos, a sobrevivência fala mais alto do que as ambições artísticas, levando-o à prostituição masculina. O percurso do personagem é marcado por encontros, perdas e humilhações que moldam uma dolorosa passagem para a vida adulta.

Escrito por Jacques Nolot em parceria com André Téchiné, o roteiro nasceu de experiências pessoais do próprio Nolot, que chegou a transformar suas vivências em um romance inédito antes da adaptação para o cinema. A colaboração resulta em uma narrativa de forte autenticidade emocional, interessada na observação de um indivíduo tentando encontrar algum lugar no mundo. O título "Não Dou Beijos" sintetiza a postura do protagonista diante de um universo em que quase tudo pode ser negociado. A frase funciona como uma espécie de código íntimo, um limite que Pierre tenta preservar quando sua vida passa a ser determinada por circunstâncias cada vez mais adversas.

Manuel Blanc entrega uma atuação de enorme intensidade, responsável por projetar seu nome internacionalmente e render-lhe o César de Ator Revelação. Ao seu redor, Philippe Noiret constrói um personagem complexo e melancólico, enquanto Emmanuelle Béart adiciona magnetismo e vulnerabilidade à figura de Ingrid. Hélène Vincent completa o núcleo central com uma interpretação marcada por delicadeza e frustração. Téchiné conduz a narrativa sem concessões. 

A Paris dele não possui cartões-postais nem encantamento turístico. As ruas, os apartamentos modestos e os espaços de encontro noturno compõem um cenário hostil, em que o desejo de pertencimento esbarra constantemente na indiferença coletiva. Essa visão desencantada da metrópole antecipa temas que o diretor voltaria a explorar em obras posteriores, entre elas "Rosas Selvagens", consolidando seu interesse por personagens jovens deslocados social e emocionalmente.

Outra curiosidade relevante envolve o personagem Romain, interpretado por Philippe Noiret. Segundo registros sobre a produção, a figura foi inspirada no filósofo Roland Barthes, amigo tanto de Téchiné quanto de Jacques Nolot. A referência acrescenta uma camada intelectual discreta a um filme que, embora profundamente humano, jamais abandona a reflexão sobre poder, afeto e vulnerabilidade. 

Recebido com respeito pela crítica internacional, "Não Dou Beijos" também chamou atenção pela forma direta com que abordou a prostituição masculina, tema raramente tratado com tanta frontalidade no início da década de 1990. O diretor rejeita glamourizações e oferece um retrato duro de quem tenta preservar a própria identidade enquanto tudo ao redor parece exigir algum tipo de renúncia. Mais de três décadas após a estreia, "Não Dou Beijos" continua impressionando pela honestidade de seu olhar. É um drama sobre juventude, desilusão e sobrevivência que permanece atual justamente porque compreende algo fundamental: crescer nem sempre significa realizar sonhos; às vezes significa aprender o que sobra deles.


Ficha técnica
"Não Dou Beijos" | "J'embrasse Pas" (título original) | "Je N'Embrasse Pas" (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 115 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: francês. Direção: André Téchiné. Roteiro: Jacques Nolot e André Téchiné (com colaboração de Michel Grisolia). Elenco: Manuel Blanc, Philippe Noiret, Emmanuelle Béart, Hélène Vincent, Roschdy Zem, Ivan Desny, Christophe Bernard e Michèle Moretti. Data de lançamento nos cinemas: 20 de novembro de 1991 (França). Distribuição no Brasil: sem distribuição comercial ampla registrada nos cinemas brasileiros; circulou em mostras e circuitos especializados. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

.: "Contos Imorais" desafia o pudor e expõe as rachaduras da moral ocidental


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Lançado em meio às transformações culturais que marcaram a década de 1970, o filme "Contos Imorais" está em cartaz na plataforma de streaming Reserva Imovision como uma obra capaz de provocar discussões que permanecem surpreendentemente atuais. Dirigido pelo cineasta polonês radicado na França Walerian Borowczyk, o longa-metragem antológico reúne quatro histórias ambientadas em épocas distintas para investigar os limites entre desejo, religião, poder e convenções sociais.

Conhecido pela trajetória no cinema experimental e na animação, Borowczyk encontrou em "Contos Imorais" um ponto de inflexão na carreira. O filme ampliou a notoriedade internacional dele ao combinar apuro visual, referências literárias e um erotismo frontal que causou escândalo em diversos países. A produção integrou a Seleção Oficial do Festival Internacional de Cinema de Locarno e conquistou, posteriormente, o Prix de l'Âge d'Or, premiação ligada ao legado surrealista europeu.

A estrutura do filme percorre séculos distintos. Na primeira história, um jovem e sua prima experimentam a descoberta sexual em uma praia isolada. Em seguida, uma adolescente francesa mistura fervor religioso e fantasias íntimas enquanto cumpre um castigo. O terceiro segmento revisita a figura lendária da condessa húngara Erzsébet Báthory, associada a histórias de crueldade e obsessão pela juventude. O encerramento leva o espectador à Itália renascentista para acompanhar uma versão particularmente transgressora da família Bórgia, liderada por Lucrécia, seu irmão Cesare e o papa Alexandre VI.

O roteiro é assinado por Walerian Borowczyk com contribuições inspiradas na obra do escritor surrealista André Pieyre de Mandiargues. A narrativa dialoga com fontes literárias, lendas históricas e relatos que desafiam os limites entre realidade e imaginação. Essa combinação ajuda a explicar por que o filme continua sendo objeto de estudo tanto por pesquisadores do cinema quanto por especialistas em surrealismo e representação da sexualidade.

No elenco, destacam-se Lise Danvers, Fabrice Luchini - que anos depois se tornaria um dos grandes nomes do cinema francês -, Charlotte Alexandra, Paloma Picasso, filha do pintor Pablo Picasso, e Florence Bellamy. Cada segmento possui identidade própria, mas todos compartilham a mesma intenção de questionar os códigos morais que, ao longo da história, tentaram regular os corpos e os desejos.

Uma das curiosidades mais conhecidas envolve o episódio de Erzsébet Báthory. Para criar o célebre banho de sangue da condessa, a produção utilizou cerca de 30 galões de sangue suíno verdadeiro, uma decisão que contribuiu para a reputação extrema da obra. Outra particularidade é que o projeto originalmente possuía um quinto segmento, "La Bête". O episódio acabou removido da montagem principal e posteriormente expandido para se tornar o cultuado longa "A Besta" (1975), outro título fundamental da filmografia de Borowczyk.

O impacto de "Contos Imorais" jamais se limitou às cenas de nudez que escandalizaram plateias nos anos 1970. O filme permanece relevante porque encara a moralidade como construção histórica, variável e frequentemente contraditória. Entre o refinamento plástico e a provocação deliberada, Borowczyk desafia o espectador a observar como diferentes sociedades condenaram desejos que, muitas vezes, coexistiam discretamente nos bastidores do poder, da religião e da aristocracia.

Décadas após sua estreia, "Contos Imorais" continua dividindo opiniões. Alguns enxergam uma obra de arte ousada; outros, um exercício de provocação levado ao limite. O fato é que poucos filmes do período conseguiram preservar tamanho poder de inquietação. Essa capacidade de desconfortar explica a permanência do filme no imaginário do cinema europeu.

Ficha técnica
"Contos Imorais" | "Contes Immoraux" (título original)
Gênero: drama, erótico, antologia, romance. Duração: 125 minutos (2h05). Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1973. Idioma: francês, com trechos em italiano e húngaro. Direção: Walerian Borowczyk. Roteiro: Walerian Borowczyk, baseado em histórias de André Pieyre de Mandiargues. Elenco: Lise Danvers, Fabrice Luchini, Charlotte Alexandra, Paloma Picasso, Florence Bellamy, Pascale Christophe, Marie Forså. Distribuição no Brasil: sem distribuidora nacional registrada atualmente; lançado nos cinemas brasileiros em 20 de setembro de 1982. Cenas pós-créditos: não.

sábado, 6 de junho de 2026

.: Crítica: "Diana - A Princesa do Povo" devolve humanidade ao mito


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. Foto: Carlos Costa

A história de Diana Spencer já foi contada à exaustão pela imprensa, pelo cinema, pela televisão e pelos documentários. Ainda assim, "Diana - A Princesa do Povo", em cartaz no Teatro Liberdade até dia 5 de julho, encontra uma brecha rara: abandonar o fascínio pela figura mítica para observar a mulher que existia por trás das manchetes. O "comeback" de Sara Sarres não poderia ser me melhor. Ela retorna aos palcos em estado de graça. O reencontro dela com o teatro musical não poderia ter encontrado personagem mais poderosa. 

Diana oferece a Sara Sarres todas as possibilidades dramáticas imagináveis, e a atriz aproveita cada uma delas. Vulnerável, divertida, apaixonada, indignada e determinada, a interpretação dela evita o retrato santificado que tantas vezes acompanha a princesa. Sara constrói uma mulher real, capaz de despertar empatia sem pedir complacência. Ao lado dela, Claudio Lins entrega um Charles distante da caricatura. A voz cristalina do ator encontra espaço para brilhar em números musicais que ampliam os conflitos internos do personagem. O espetáculo compreende algo que muitas produções ignoram: para que Diana funcione dramaticamente, Charles precisa existir como figura complexa. E Lins alcança esse equilíbrio com precisão.

Uma das decisões mais inteligentes da montagem está na construção de Camilla Parker Bowles. Giselle de Prattes afasta qualquer leitura simplista da personagem e oferece uma interpretação marcada pela humanidade. A Camilla defendida por ela não surge como antagonista de novela, mas como alguém que também espera, sofre e ocupa um lugar desconfortável dentro daquele tabuleiro afetivo. Curiosamente, a figura mais rígida e implacável da narrativa acaba sendo a Rainha Elizabeth II, defendida com firmeza por Simone Centurione. A presença dela no espetáculo ajuda a compreender que o verdadeiro embate nunca foi apenas amoroso, era institucional.

Dino Fernandes também deixa sua marca como James Hewitt. A participação dele ganha destaque em uma das cenas visualmente mais impactantes da montagem, envolvendo o célebre passeio a cavalo. É um momento que sintetiza liberdade, desejo e fuga em meio ao sufocamento imposto pela vida pública.

Marianna Alexandre confirma aquilo que o público habituado ao teatro musical brasileiro já conhece: a presença dela em cena funciona como um selo de qualidade. Nas sequências compartilhadas com Diana, interpretando Sarah Spencer, a atriz introduz afeto, cumplicidade e leveza sem desviar a atenção dos conflitos centrais. São passagens que lembram algo frequentemente esquecido quando se fala da princesa: antes de se tornar um fenômeno mundial, ela era uma mulher que acreditou sinceramente em uma história de amor. Tudo o que veio depois parece surgir como reação ao colapso dessa promessa.

O grande mérito de Tadeu Aguiar está em compreender essas nuances. A direção precisa dele evita julgamentos simplistas e conduz o espectador por zonas moralmente mais interessantes. Não há heróis absolutos e muito menos monstros definitivos em "Diana - A Princesa do Povo". Todos no espetáculo são pessoas presas a protocolos, interesses, expectativas e convenções que acabam esmagando qualquer possibilidade de felicidade genuína.

Com direção musical de Thalyson Rodrigues, cenografia de Natália Lana, figurinos de Ney Madeira e Dani Vidal e coreografias de Sueli Guerra, a superprodução da Estamos Aqui Produções transforma um episódio amplamente conhecido da cultura pop em uma experiência emocionalmente envolvente. O espetáculo revisita a trajetória da princesa Diana sem recorrer à reverência automática que costuma cercar a memória dela. O resultado é um musical que faz uma pergunta desconfortável e atual: o que acontece quando uma instituição milenar exige obediência de alguém que deseja apenas ser amada? A resposta, o mundo inteiro já conhece. O mérito desta montagem está em fazer o público voltar a senti-la.

Serviço
Espetáculo "Diana - A Princesa do Povo"
Local: Teatro Liberdade
Rua São Joaquim, 129 - Liberdade | São Paulo
Temporada até dia 5 de julho de 2026
Sessões: Sextas às 20h00, Sábado às 16h00 e 20h30. Domingos às 15h00 e às 19h30

Ingressos
Plateia Premium 
Sexta-feira, sábado e 1ª sessão de domingo - R$340,00 (Inteira) | R$170,00 (Meia)
Quinta-feira e 2ª sessão de domingo - R$ 280,00 | R$140,00 (Meia)

Plateia 
Sexta-feira, sábado e primeira sessão de domingo - R$250,00 (Inteira) | R$125,00 (Meia)
Quinta-feira e segunda sessão de domingo - R$ 190,00 | R$85,00 (Meia)
Balcão Visão Parcial - R$120,00 (Inteira) | R$60,00 (Meia)
Balcão A - R$170,00 (Inteira) | R$85,00 (Meia)
Balcão B: R$50,00 (Inteira) | R$25,00 (Meia)
Vendas: Site Sympla (https://bileto.sympla.com.br/event/114505) ou Bilheteria local
Gênero: musical
Duração: 150 minutos (com intervalo)
Classificação: 12 anos

Descontos
*Desconto 35%: Obtenha 35% de desconto no ingresso inteiro ao preencher o formulário durante o processo de compra.
Para comprar mais de um ingresso nessa modalidade, basta preencher um formulário por ingresso conforme será solicitado. Desconto disponível para todos os públicos.
*Clientes Glesp: têm 25% de desconto nos ingressos inteiros mediante a aplicação do cupom, limitado a 4 ingressos por cupom. Válido para todos os setores.
*Crianças até 24 meses não pagam entrada e ficam no colo dos responsáveis durante a apresentação. A partir de 02 anos e 1 dia, a criança paga meia-entrada mediante apresentação da carteira de identidade ou certidão de nascimento.

Ingressos
Internet (com taxa de conveniência):
Bilheteria física (sem taxa de conveniência):
Horário de funcionamento de bilheteria:
Atendimento presencial: de terça à sábado das 13h00 às 19h00. Domingos e feriados apenas em dias de espetáculos até o início da apresentação.

Acessibilidade
Deficientes físicos: teatros adequados às normas de acessibilidade, contendo elevador, corrimão, espaço para cadeirantes e acompanhantes, banheiros adaptados.
Deficientes auditivos – Agenda de apresentações com tradução em libras (em construção)
Deficientes visuais - Previsão de que, quando solicitada, a produção disponibilize texto da peça em Braile e resumo descritivo do espetáculo em Braille e em áudio (para cidadãos devidamente identificados)
Deficientes intelectuais – Quatro (quatro) assentos posicionados em local de fácil mobilidade para este público, proporcionando conforto caso haja necessidade de se retirar durante a sessão e, ainda, previsão de que, quando solicitada, a produção disponibilize abafadores de ruído (para cidadãos devidamente identificados)
Este espetáculo contém Luz Estroboscópica (flashes de luz intensa). Este efeito visual é contraindicado para pessoas com epilepsia, sensibilidade à luz ou autismo. Aconselhamos cautela.


.: "Incêndios" mergulha na guerra e em um dos maiores segredos do cinema


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Poucos filmes conseguem provocar tamanho impacto emocional quanto "Incêndios", filme em cartaz na plataforma de streaming Reserva Imovision. Lançado em 2010 e dirigido por Denis Villeneuve, o drama canadense chegou aos cinemas brasileiros em fevereiro de 2011 e rapidamente conquistou espaço entre as produções mais admiradas do século. Antes de se tornar um dos cineastas mais celebrados de Hollywood com obras como "A Chegada", "Blade Runner 2049" e os dois capítulos de "Duna", Villeneuve entregou uma narrativa poderosa, construída sobre perdas, memória, violência e heranças que atravessam gerações.

Baseado na peça homônima do escritor e dramaturgo Wajdi Mouawad, o longa acompanha os irmãos gêmeos Jeanne e Simon Marwan, interpretados por Mélissa Désormeaux-Poulin e Maxim Gaudette. Após a morte da mãe, Nawal Marwan, vivida de forma impressionante por Lubna Azabal, os dois recebem uma missão inesperada: localizar um pai que acreditavam estar morto e um irmão cuja existência desconheciam. A investigação conduz os personagens ao Oriente Médio e, pouco a pouco, revela um passado marcado pela guerra e por acontecimentos capazes de redefinir tudo o que julgavam saber sobre a própria família.

O roteiro, assinado por Denis Villeneuve e Valérie Beaugrand-Champagne, organiza a narrativa em diferentes tempos históricos sem perder a clareza dramática. Cada descoberta amplia a dimensão da tragédia e transforma a busca dos irmãos em uma reflexão profunda sobre identidade, culpa, perdão e sobrevivência. A força do texto encontra apoio em uma direção segura, que sabe dosar tensão e emoção sem recorrer a atalhos fáceis.

Uma das curiosidades mais comentadas sobre a produção está na inspiração indireta em acontecimentos ligados à Guerra Civil Libanesa. Embora a história não adapte fatos reais específicos, estudiosos e críticos apontam semelhanças com a trajetória da ativista libanesa Souha Bechara, presa e torturada durante anos em uma penitenciária do sul do Líbano. Essa aproximação ajuda a compreender a intensidade política e humana presente no filme.

A excelência técnica também contribui para o prestígio duradouro da obra. A fotografia de André Turpin alterna paisagens frias e tons áridos para reforçar os contrastes geográficos e emocionais da trama. Já a trilha sonora de Grégoire Hetzel acompanha a jornada sem excessos, permitindo que o peso dos acontecimentos encontre espaço para ressoar por conta própria.

O reconhecimento internacional veio rapidamente. "Incêndios" recebeu indicação ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira e consolidou Denis Villeneuve como um dos realizadores mais talentosos de sua geração. Mais de uma década depois, continua sendo apontado por parte da crítica e do público como o trabalho mais contundente de sua carreira. Em tempos de narrativas descartáveis e consumo acelerado, "Incêndios" permanece intacto, preservando a capacidade de surpreender, inquietar e emocionar com a mesma intensidade de sua estreia.


Ficha técnica
"Incêndios" | "Incendies" (título original) | "Incendies - A Mulher Que Canta" (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 2h10m. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2010. Idioma: francês e árabe. Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Denis Villeneuve e Valérie Beaugrand-Champagne, baseado na peça de Wajdi Mouawad. Elenco: Lubna Azabal, Mélissa Désormeaux-Poulin, Maxim Gaudette e Rémy Girard. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.

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