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segunda-feira, 13 de julho de 2026

.: Filme “Camille Claudel” escancara o preço da genialidade feminina


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

 “Camille Claudel” estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte e recoloca em circulação um dos retratos mais intensos já feitos sobre a criação artística e seus abismos. Dirigido por Bruno Nuytten, que até então era reconhecido sobretudo como diretor de fotografia, o longa-metragem de 1988 transforma a trajetória da escultora francesa em um estudo visual e emocional de grande fôlego.

No centro da narrativa está Isabelle Adjani, em uma atuação que atravessa fases distintas da vida da personagem com vigor e precisão. A Camille Claudel interpretada por ela surge jovem, obstinada e inquieta, ganha força ao se afirmar como artista e, aos poucos, começa a se desorganizar diante de perdas, frustrações e isolamento. O desempenho rendeu a ela o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim e uma indicação ao Oscar, consolidando o trabalho como um dos pontos altos de sua carreira.

Ao lado dela, Gérard Depardieu interpreta Auguste Rodin com uma presença que oscila entre o mentor generoso e o homem incapaz de romper com suas próprias contradições. A relação entre os dois sustenta o eixo dramático do filme, misturando admiração artística, desejo, disputa e ressentimento. O elenco ainda reúne nomes como Laurent Grévill, Alain Cuny e Madeleine Robinson, compondo um ambiente familiar e social que pressiona e delimita os caminhos da protagonista.

O roteiro, assinado por Nuytten e Marilyn Goldin, parte da biografia escrita por Reine-Marie Paris, sobrinha-neta de Camille, e se mantém atento aos detalhes históricos. A reconstrução da Paris do final do século XIX aparece com rigor, tanto nos cenários quanto nos figurinos e na ambientação dos ateliês, onde o gesto artístico ganha dimensão quase física. A fotografia de Pierre Lhomme acompanha essa proposta com enquadramentos que lembram esculturas, valorizando textura, luz e volume.

Há ainda curiosidades que ampliam o alcance da obra. Isabelle Adjani já havia interpretado outra figura marcada por sofrimento psíquico em “A História de Adèle H.”, o que estabelece um curioso paralelo em sua filmografia. O filme também inclui uma cena que menciona a morte de Victor Hugo, conectando a narrativa a um momento histórico específico. Outro detalhe envolve Alain Cuny, que interpreta o pai da protagonista e, fora das telas, teve contato real com Paul Claudel, irmão da escultora.

“Camille Claudel” também acumulou reconhecimento em premiações importantes. Além das indicações ao Oscar, conquistou diversos prêmios César, incluindo Melhor Filme, Melhor Atriz, fotografia, trilha sonora e direção de arte. A trilha assinada por Gabriel Yared reforça a atmosfera dramática, enquanto a duração extensa - cerca de 175 minutos - permite acompanhar a transformação da personagem com tempo e densidade. A chegada do longa ao catálogo do Belas Artes à La Carte amplia o acesso a uma obra que segue atual ao discutir autoria, reconhecimento e o lugar da mulher em um meio historicamente dominado por homens.


Ficha técnica
"Os Anarquistas" | "The Anarchists" (título original)
Gênero: drama, ação. Duração: 100 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2000. Data de lançamento: 29 de abril de 2000. Idioma: coreano. Direção: Yu Young-sik. Roteiro: Park Chan-wook, Lee Moo-young, Bangnidamae. Elenco: Jang Dong-gun, Kim Sang-jung, Jeong Jun-ho, Lee Beom-soo, Kim In-kwon, Ye Ji-won. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

domingo, 12 de julho de 2026

.: “Mãe D’Água”: documentário revela ritual inédito e tensiona fronteiras


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Mãe D’Água”, novo documentário dirigido por Karim A. Soumaïla, estreia na estreia plataforma de streaming Reserva Imovision com um mergulho sensível e rigoroso em práticas espirituais e na memória viva do povo Kariri-Xocó. A produção acompanha o próprio cineasta franco-africano em uma jornada de iniciação ao ritual da jurema, conduzida dentro da aldeia, em Alagoas, território historicamente marcado por disputas e resistência cultural.

A presença de Soumaïla no ritual carrega um peso simbólico: pela primeira vez na história recente, a comunidade autoriza a participação de um estrangeiro nesse processo, tradicionalmente restrito. A decisão amplia o alcance do filme e transforma a experiência em registro raro, que articula pertencimento, escuta e responsabilidade. O diretor não se coloca como observador distante; assume o risco da vivência e incorpora ao filme as tensões desse encontro.

Ao longo de 53 minutos, “Mãe D’Água” constrói um percurso que cruza espiritualidade, identidade e política. A narrativa percorre histórias de luta pela terra, evidencia vínculos entre povos indígenas e afrodescendentes e recupera memórias que permanecem fora dos arquivos oficiais. A jurema, elemento central do ritual, aparece não apenas como prática religiosa, mas como elo entre gerações e forma de preservação de saberes ancestrais.

Karim A. Soumaïla, conhecido por trabalhos que investigam deslocamentos culturais e identitários, mantém aqui uma abordagem direta, com imagens que privilegiam o tempo do ritual e a escuta dos participantes. O documentário evita didatismos e aposta na experiência como forma de aproximação, convidando o espectador a acompanhar um processo que altera a percepção do próprio realizador sobre o Brasil e sobre si.

Produzido no Brasil, o filme dialoga com debates contemporâneos sobre território, ancestralidade e reconhecimento, ampliando o olhar para comunidades que seguem defendendo seus modos de vida diante de pressões externas. A estreia na Reserva Imovision reforça o espaço do documentário como instrumento de circulação dessas narrativas.

Ficha técnica
“Mãe D’Água” 
Gênero: documentário. Duração: 53 minutos. Classificação indicativa: 10 anos. Ano de produção: 2026. Idioma: português. Direção e roteiro: Karim A. Soumaïla. Elenco: Povo Kariri-Xocó e Karim A. Soumaïla. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


Assine a Reserva Imovision, o streaming que respeita a sua inteligência
A equipe do Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. 
Você pode assinar a plataforma de streaming Reserva Imovision neste link.

.: “O Rei e Eu” desembarca no streaming e reacende o fascínio dos musicais


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“O Rei e Eu” chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte resgatando um dos musicais mais celebrados de Hollywood. Lançado em 1956, o filme dirigido por Walter Lang adapta para o cinema o sucesso da Broadway assinado por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II, com roteiro de Ernest Lehman. No elenco, Yul Brynner, Deborah Kerr e Rita Moreno conduzem uma narrativa que combina romance, embate cultural e espetáculo visual.

Ambientada no antigo Sião, a trama acompanha a professora britânica Anna Leonowens (Deborah Kerr), contratada para educar os filhos do rei Mongkut (Yul Brynner). O encontro entre os dois personagens se transforma em um jogo de forças marcado por diferenças de visão de mundo, protocolos rígidos e uma curiosidade crescente. Entre lições, rituais e tensões políticas, o vínculo que se estabelece evita simplificações e ganha densidade ao longo da narrativa.

O longa-metragem conquistou cinco Oscars, incluindo Melhor Ator para Yul Brynner, que superou nomes como James Dean e Kirk Douglas. A atuação consolidou o ator como a face definitiva do rei Mongkut, papel que ele interpretou milhares de vezes também nos palcos ao longo da vida. Deborah Kerr, por sua vez, teve suas canções dubladas por Marni Nixon, voz recorrente em grandes musicais da época, como “West Side Story” e “My Fair Lady”.

A produção também guarda episódios curiosos. Cogitou-se Marlon Brando para o papel do rei, enquanto Maureen O’Hara chegou a ser considerada para viver Anna. A escolha de Deborah Kerr partiu do próprio Brynner. Durante as filmagens, os figurinos pesados - alguns com mais de 15 quilos - exigiram esforço físico considerável da atriz. Já a famosa sequência ao som de “Shall We Dance?” demandou ensaios rigorosos para equilibrar elegância e tensão dramática.

Apesar do reconhecimento internacional e do sucesso de público, “O Rei e Eu” enfrentou resistência na Tailândia, onde foi proibido por ser considerado desrespeitoso à figura histórica do rei Mongkut. Ainda assim, o filme se mantém como referência estética e narrativa dentro do gênero musical, ocupando posição de destaque em listas do American Film Institute. A chegada ao streaming oferece uma nova oportunidade para revisitar um clássico que reúne cenários grandiosos, figurinos marcantes e uma história construída sobre choque cultural, poder e transformação.


Ficha técnica
“O Rei e Eu” | (“The King and I” (Título original)
Gênero: musical, romance. Duração: 133 minutos. Classificação indicativa: livre. Ano de produção: 1956. Data de lançamento: 28 de junho de 1956. Idioma: inglês. Direção: Walter Lang. Roteiro: Ernest Lehman. Elenco: Yul Brynner, Deborah Kerr, Rita Moreno, Martin Benson, Rex Thompson. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sábado, 11 de julho de 2026

.: Crítica: “Mamma Mia!", musical aposta no feminino e sai vitorioso no palco


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

Sucesso retumbante no Rio de Janeiro e agora em São Paulo, o musical “Mamma Mia!” cumpre exatamente o que promete: divertir, emocionar e colocar uma plateia inteira para cantar. Em cartaz até este dia 9 de agosto no BTG Pactual Hall, em São Paulo, a temporada do musical criado a partir dos sucessos do grupo ABBA reafirma a força popular com uma montagem eficiente, vibrante e consciente do próprio impacto. Dirigido por Charles Möeller, com versão brasileira e supervisão musical de Claudio Botelho, o espetáculo aposta em uma encenação ágil, colorida e afinada com o gosto do público.

A história é clássica: em uma ilha grega, Sophie, prestes a se casar, convida três antigos amores da mãe, Donna, na tentativa de descobrir quem é o pai dela. O enredo, que mistura romance e comédia, serve de base para uma sequência de hits que o público reconhece nos primeiros acordes - “Dancing Queen”, “Mamma Mia”, “The Winner Takes It All”, “Money, Money, Money”. O que faz a montagem ser inesquecível, no entanto, está no elenco. 

Giovanna Rangel, que interpreta Sophie, domina a cena com muito carisma. A presença dela é leve, segura e magnética, dessas que organizam o espetáculo ao redor sem esforço. Ao lado dela, Sérgio Menezes, no papel de Sam Carmichael, constrói uma relação convincente, com química e momentos que sustentam o envolvimento emocional da plateia com a história dos dois personagens. Claudia Netto assume a protagonista Donna com experiência e firmeza, enquanto Totia Meireles circula com naturalidade e precisão, encontrando o humor certo em cada entrada. 

Gottsha, por sua vez, impõe respeito desde a primeira nota: o vozeirão da artista não passa despercebido e funciona como um selo de qualidade dos espetáculos em que participa. Entre os papéis masculinos de destaque, Claudio Galvan, como Harry Bright, surge como uma surpresa valiosa. Famoso pelas dublagens, ele ostenta uma presença cênica forte, domínio vocal e timing que eleva todas as cenas em que participa. É um prazer vê-lo no palco. A interpretação de Renato Rabelo, no papel Bill Austin, aposta na suavidade, que agrada sem esforço. Figura conhecida nos lares brasileiros, pelas produções que participou ou pelo podcast que apresenta, a presença dele é algo que torna tudo ainda mais aconchegante para a plateia.

Com mais de 20 artistas em cena, o conjunto funciona bem e garante números musicais que mantêm o ritmo elevado. A direção aposta na comunicação direta com o público, sem rodeios, e acerta ao não complicar o que já nasce promissor: canções conhecidas, personagens carismáticos e uma história que flerta com o absurdo sem perder a afetuosidade. 

Há ainda um aspecto que se destaca: a leitura do espetáculo como um elogio à autonomia feminina. Donna se basta sozinha, Sophie questiona o próprio destino, as amigas exalando liberdade. O texto, escrito na década de 1990, encontra eco imediato em plateias atuais, que respondem com entusiasmo. “Mamma Mia!” não tenta reinventar o musical e nem precisa. A montagem brasileira é executada com competência, apostando no talento do elenco e na força de um repertório que atravessa gerações. O resultado é um espetáculo leve, afiado e irresistivelmente comunicativo. 

Na reta final de temporada, a produção se confirma como uma escolha certeira para quem quer sair do teatro com um refrão na cabeça e a sensação de que o palco ainda sabe reunir gente em torno de algo simples e bem feito. “Mamma Mia!” acerta ao apresentar personagens que erram, confundem, metem os pés pelas mãos e, ainda assim, encontram um caminho possível. É dessa matéria imperfeita, cheia de tropeços e recomeços, que o espetáculo extrai a força de reconhecer, no riso e na música, a humanidade de quem insiste em seguir em frente.


Ficha técnica
"Mamma Mia - O Musical" 
Um espetáculo de Charles Möeller & Claudio Botelho
Uma superprodução Aventura
Direção, cenário e figurinos: Charles Möeller
Versão brasileira e supervisão musical: Claudio Botelho
Direção musical: Marcelo Castro
Coreografia/Diretora residente (SP): Mariana Barros
Desenho de luz: Vinícius Zampieri
Desenho de som: André Breda
Coordenação artística: Tina Salles
Direção de produção: Bianca Caruso
Direção artística e produção geral: Aniela Jordan
Direção de negócios e marketing: Luiz Calainho
Elenco: Claudia Netto (Donna Sheridan), Totia Meireles (Tanya), Gottsha (Rosie), Sérgio Menezes (Sam Carmichael), Claudio Galvan (Harry Bright), Renato Rabelo (Bill Austin) Giovanna Rangel (Sophie Sheridan), Eduardo Borelli (Sky), Tabatha Almeida (Ali), Mari Marques (Lisa), Vicenthe Delgado (Pimenta), Murilo Armacollo (Eddie), Ju Romano (Grega), Talita Silveira (Grega), Leo Wagner (Grego/Padre Alexandrios), Vinicius Cafer (Grego), Lorena Fraga (Grega), Bruno Kimura (Grego), Guilherme Lopes (Grego), Thiago Garça (Grego), Hugo Lopes (Grego), Isabela Yunes (Grega), Yas Fiorelo (Grega), Bruna Lemberg (Swing), Henrique Reinesch (Swing).


Serviço
Espetáculo "Mamma Mia! - O Musical"
Temporada 2026 no BTG Pactual Hall
Até dia a 9 de agosto
Sextas-feiras, às 20h00. Sábados, às 16h00 e 20h00. Domingos, às 15h00.
Ingressos (1º lote): de R$ 50,00 (balcão) a R$ 300,00 (Plateia VIP)
Classificação indicativa: 12 anos

.: “Acerto de Contas” confronta ética e paixão nas ruas de Nova Orleans


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Acerto de Contas” chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte como um dos títulos mais sedutores do cinema policial dos anos 1980. Dirigido por Jim McBride e escrito por Daniel Petrie Jr., o longa-metragem - cujo título original é “The Big Easy” e que, em Portugal, recebeu o nome de “Nas Teias da Máfia” - aposta na mistura de investigação criminal com tensão romântica, ambientada em uma Nova Orleans pulsante.

Na trama, Dennis Quaid vive o detetive Remy McSwain, um policial carismático que navega com naturalidade por práticas pouco ortodoxas dentro da corporação. A rotina dele muda quando passa a investigar uma série de assassinatos ligados à própria polícia. É nesse cenário que surge Anne Osborne, promotora interpretada por Ellen Barkin, enviada para enfrentar a corrupção. O envolvimento entre os dois cresce na mesma proporção em que o caso se complica, colocando ética, desejo e poder em rota de colisão.

O elenco ainda reúne nomes como John Goodman e Ned Beatty, que ajudam a dar corpo a esse retrato de uma instituição corroída por interesses paralelos. A química entre Quaid e Barkin se tornou um dos pontos mais comentados à época do lançamento, com ambos os atores apontando o filme como um dos favoritos de suas carreiras.

Filmado integralmente em Nova Orleans, o longa incorpora com força a identidade local, da música zydeco às paisagens urbanas e ao sotaque cajun que marca a performance de Quaid. A cidade não serve apenas de cenário, mas dita o ritmo e o humor da narrativa, contribuindo para que o filme seja lembrado como uma das representações mais autênticas da região no cinema mainstream daquela década.

Outro dado curioso envolve o desenvolvimento do roteiro, que inicialmente se passaria em Chicago e tinha outro título. A mudança para Nova Orleans redefiniu o projeto e ajudou a consolidar o tom híbrido entre policial e romance. O próprio diretor voltaria a trabalhar com Dennis Quaid em “A Fera do Rock” (1989), explorando um registro completamente diferente.

Lançado em meio à renovação do cinema noir, “Acerto de Contas” acabou associado ao movimento neo-noir dos anos 1980, ainda que opte por uma abordagem mais leve, sem abrir mão das zonas cinzentas de seus personagens. Entre investigações, jogos de poder e relações atravessadas por interesse, o filme constrói um retrato envolvente de uma cidade em que charme e corrupção caminham lado a lado.


Ficha técnica
“Acerto de Contas” | “The Big Easy” (título original) | “Nas Teias da Máfia” (título em Portugal)
Gênero: policial, romance, drama. Duração: 1h42m. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1986. Data de lançamento: 21 de agosto de 1987 (EUA). Idioma: inglês. Direção: Jim McBride. Roteiro: Daniel Petrie Jr. Elenco: Dennis Quaid, Ellen Barkin, John Goodman, Ned Beatty, Grace Zabriskie. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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terça-feira, 7 de julho de 2026

.: "O Solitário" revisita o auge físico e dramático de Belmondo


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

"O Solitário" chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte  resgatando um tipo de cinema policial que fez escola na França dos anos 1980, com ação direta, ruas de Paris como cenário e um protagonista que carrega o peso da própria obstinação. Dirigido por Jacques Deray, o longa-metragem marca mais um encontro do cineasta com Jean-Paul Belmondo, parceria que ajudou a consolidar uma vertente popular e musculosa do thriller europeu.

Na trama, Belmondo interpreta Stan Jalard, policial que vê a vida virar do avesso após a execução de um colega durante uma operação. A partir daí, o que se desenha é uma caçada persistente ao responsável pelo crime, o bandido Charly Schneider (Jean-Pierre Malo), que reaparece anos depois, reacendendo uma busca atravessada por violência, corrupção e desgaste emocional. Michel Beaune completa o elenco principal como o comissário Pezzoli, figura que tensiona ainda mais o ambiente policial.

Com roteiro assinado por Jacques Deray, Simon Michaël e Alphonse Boudard, o filme aposta em uma narrativa linear, sustentada pelo carisma físico de Belmondo e por sequências de ação que dispensam dublês sempre que possível. À época das filmagens, o ator já se aproximava dos 55 anos e mantinha a tradição de realizar suas próprias cenas de risco, o que reforçava sua imagem de herói durão e indomável, uma assinatura que o público reconhecia de imediato.

"O Solitário" também evidencia uma mudança de tom na carreira do ator. Longe da leveza irreverente que marcou sua fase na nouvelle vague, Belmondo surge mais rígido, marcado pelo cansaço e por uma solidão que contamina cada decisão do personagem. Essa transição ajuda a entender por que o filme, mesmo com ambição comercial, carrega um subtexto mais amargo, refletindo um policial que já não acredita tanto nas regras que deveria defender.

Curiosamente, a produção chegou a ser comercializada em alguns países como uma espécie de continuação de "O Profissional" (1981), estratégia de mercado que não encontra respaldo na história. Na França, o desempenho nas bilheteiras ficou abaixo do esperado, indicando um certo desgaste desse tipo de narrativa policial naquele momento. Ainda assim, o longa permanece como registro de uma fase em que Belmondo dominava o cinema de ação europeu com presença e energia raras. Com duração enxuta e ritmo constante, "O Solitário" encontra força no embate entre um homem e aquilo que o mantém em movimento: a necessidade de fazer justiça, mesmo quando tudo ao redor parece já ter perdido o sentido.

Ficha técnica
“O Solitário” | "Le Solitaire" (título original)
Gênero: policial, ação. Duração: 100 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1987. Data de lançamento: 18 de março de 1987 (França). Idioma: francês. Direção: Jacques Deray. Roteiro: Jacques Deray, Simon Michaël, Alphonse Boudard. Elenco: Jean-Paul Belmondo, Jean-Pierre Malo, Michel Beaune. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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segunda-feira, 6 de julho de 2026

.: Quintas de luta e cinema: a coleção Bruce Lee em foco na Reserva Imovision


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Toda quinta-feira, o público tem encontro marcado com um verdadeiro ritual cinematográfico: a revisitação de um clássico essencial da Coleção Bruce Lee. A programação, em cartaz na plataforma de streaming Reserva Imovision, abre com "O Dragão Chinês" e percorre uma sequência de títulos que não apenas marcaram época, mas ajudaram a redefinir o cinema de ação no mundo, como "A Fúria do Dragão", "O Voo do Dragão" - dirigido pelo próprio Bruce Lee - e os eletrizantes "Jogo da Morte" I e II. A estreia no streaming é uma oportunidade rara de acompanhar, em ordem, a construção de um mito e a consolidação de uma linguagem que influenciaria gerações.

Mas a experiência não se limita à força física ou à precisão coreográfica. Há também um componente sensorial que amplia o impacto dessas obras. Em "O Dragão Chinês", por exemplo, uma curiosidade que atravessa décadas chama a atenção dos mais atentos: em algumas versões do filme, é possível identificar trechos de músicas da banda Pink Floyd inseridos de forma não creditada na trilha sonora. Um detalhe quase clandestino, que revela tanto sobre práticas da época quanto sobre o diálogo inesperado entre culturas e que adiciona uma camada ainda mais fascinante à experiência.

Testemunhar "O Dragão Chinês", filme que abre a Mostra na Reserva Imovision, é assistir ao nascimento de uma lenda. Dirigido por Wei Lo e Chia-Hsiang Wu, o longa-metragem apresenta ao mundo a presença magnética de Bruce Lee em sua primeira grande atuação como protagonista. Na trama, Cheng é um jovem que tenta honrar um juramento de não violência, até ser empurrado ao limite ao descobrir uma rede criminosa infiltrada em uma fábrica de gelo na Tailândia. O que se segue é uma explosão de intensidade: golpes secos, movimentos milimetricamente coreografados e uma energia crua que atravessa a tela. Ali, mais do que um filme, nasce um novo código para o cinema de ação — direto, visceral e absolutamente inesquecível. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.

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.: "Os Anarquistas" resgata fúria política e expõe dilemas de uma geração


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Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

"Os Anarquistas" chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte para ajudar a entender de onde veio parte da força do cinema sul-coreano que, anos depois, conquistaria o mundo. Dirigido por Yu Young-sik e com roteiro assinado por Park Chan-wook, o longa-metragem lançado no ano 2000 mergulha na Xangai dos anos 1920 para acompanhar um grupo de jovens coreanos dispostos a tudo contra a ocupação japonesa.

A narrativa se constrói a partir do olhar de Sang-gu, o mais jovem entre os revolucionários, que relembra sua entrada na célula anarquista e o aprendizado brutal de uma militância feita de atentados, assaltos e perdas sucessivas. Interpretado por Kim In-kwon, o personagem funciona como ponte entre o espectador e um grupo vivido por nomes que se tornariam gigantes do cinema asiático, como Jang Dong-gun, Kim Sang-jung e Jeong Jun-ho.

Há um cuidado visual que chama atenção já de início: a fotografia aposta em sombras densas, fumaça e uma iluminação que flerta com o expressionismo, enquanto as sequências de ação evocam o cinema de Hong Kong e o chamado “heroic bloodshed”, um subgênero do cinema de ação surgido em Hong Kong nos anos 1980, marcado por violência estilizada aliada a forte carga dramática. Popularizado por diretores como John Woo, traz protagonistas geralmente anti-heróis envolvidos em conflitos morais, com histórias que valorizam lealdade, amizade e sacrifício. As cenas de ação são coreografadas, com câmera lenta e tiroteios intensos, enquanto a narrativa costuma conduzir a desfechos trágicos ou melancólicos. A encenação acompanha o desgaste emocional dos personagens, que veem seus ideais se chocarem com a realidade de uma luta sem garantias.

"Os Anarquistas" também carrega um peso histórico relevante. Inspirado, ainda que livremente, em movimentos de resistência coreanos durante o domínio japonês, o filme foi a primeira coprodução entre Coreia do Sul e China, com filmagens realizadas em locações de Xangai e arredores. A reconstrução de época evita o artificial e aposta em cenários amplos e figurinos detalhados, resultado de uma colaboração com equipes locais experientes.

Lançado antes da explosão global do cinema coreano, o longa-metragem acabou ganhando outra dimensão com o passar dos anos. Revisto hoje, funciona como registro de uma geração de artistas que redefiniria a indústria, além de revelar um Park Chan-wook ainda em processo de afirmação como roteirista, pouco antes de dirigir títulos que se tornariam cultuados mundialmente. A luta política se mistura à amizade, à desconfiança e ao desgaste de quem passa a viver no limite. A trajetória do grupo aponta para um destino inevitável, conduzido por escolhas que cobram um preço alto demais.


Ficha técnica
"Os Anarquistas" | "The Anarchists" (título original)
Gênero: drama, ação. Duração: 100 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2000. Data de lançamento: 29 de abril de 2000. Idioma: coreano. Direção: Yu Young-sik. Roteiro: Park Chan-wook, Lee Moo-young, Bangnidamae. Elenco: Jang Dong-gun, Kim Sang-jung, Jeong Jun-ho, Lee Beom-soo, Kim In-kwon, Ye Ji-won. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sábado, 4 de julho de 2026

.: Filme italiano “A Vida À Parte” constrói retrato íntimo sobre exclusão e afeto


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“A Vida À Parte” estreia plataforma de streaming Reserva Imovision  e traz de volta o olhar sensível de Marco Tullio Giordana para os conflitos íntimos que acontecem nas relações familiares. Conhecido por títulos como “A Melhor Juventude”, o diretor italiano aposta novamente em uma história que se expande no tempo para observar, com precisão, as marcas visíveis e invisíveis que moldam os personagens dele.

Ambientado na Itália dos anos 1980, o filme acompanha o nascimento de Rebecca (Beatrice Barison), filha de uma família rica e socialmente respeitada. A chegada da menina, marcada por uma extensa mancha vermelha no rosto, altera o equilíbrio da casa e expõe problemáticas que já existiam. A mãe, Maria (Valentina Bellè), vê as expectativas dela perante a filha ruírem, enquanto a relação com a cunhada Erminia (Sonia Bergamasco), pianista consagrada, ganha contornos cada vez mais tensos.

O roteiro, assinado por Marco Tullio Giordana, Marco Bellocchio e Gloria Malatesta, adapta o romance homônimo de Mariapia Veladiano e percorre cerca de duas décadas da vida da família Macola. Ao longo desse período, o filme alterna pontos de vista e desloca o protagonismo, primeiro centrado na mãe e depois na própria Rebecca, que cresce enfrentando rejeições, constrangimentos e uma constante sensação de inadequação.

A música surge como eixo de reconstrução. É por meio dela que Rebecca encontra alguma forma de pertencimento, em contraste com o ambiente doméstico rígido e marcado por expectativas sociais. Um detalhe curioso reforça essa dimensão: as atrizes Beatrice Barison, Sonia Bergamasco, Sara Ciocca e Viola Basso executam as peças ao piano em cena, sem dublês, o que confere autenticidade às sequências musicais.

Selecionado para o Festival de Locarno, o filme foi exibido fora de competição. Com fotografia de Roberto Forza e trilha assinada por Dario Marianelli, o longa-metragem constrói um ambiente visual elegante, em contraste com o desconforto que se instala dentro da casa. A direção de Giordana opta por um ritmo paciente, permitindo que os conflitos se revelem em gestos e olhares para discutir padrões de beleza, pertencimento e as pressões exercidas dentro do núcleo familiar.

Ficha técnica
“A Vida À Parte” | “La Vita Accanto” (título original) | “A Vida À Parte” (título em Portugal).

Gênero: drama. Duração: 114 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 8 de junho de 2026 (Brasil). Idioma: Italiano. Direção: Marco Tullio Giordana. Roteiro: Marco Tullio Giordana, Marco Bellocchio, Gloria Malatesta. Elenco: Beatrice Barison, Sonia Bergamasco, Paolo Pierobon, Valentina Bellè. Distribuição no Brasil: Imovision / Reserva Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: Francis Ford Coppola resgata história real e apresenta “Tucker” ao streaming


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com
 
“Tucker: Um Homem e Seu Sonho” chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte mostrando um retrato inquieto de um empreendedor que ousou enfrentar gigantes - e pagou o preço por isso. Dirigido por Francis Ford Coppola, o longa-metragem de 1988 recupera a trajetória real de Preston Tucker, figura carismática e obstinada vivida por Jeff Bridges, que tenta lançar um automóvel revolucionário no imediato pós-guerra norte-americano.

O filme acompanha a ascensão e a queda de Tucker, um inventor que acreditava na reinvenção da indústria automobilística. Seu modelo, o Tucker 48, trazia soluções que décadas depois se tornariam padrão: farol central que acompanhava curvas, para-brisa projetado para se desprender em impactos e um olhar incomum para a segurança dos passageiros. O entusiasmo do protagonista, aliado à sua habilidade de convencimento, mobiliza investidores e curiosos, mas também desperta a reação de um sistema pouco disposto a abrir espaço para um novato.

Coppola conduz a narrativa com energia e certa leveza, combinando drama biográfico com toques de humor e um ritmo que evoca cinejornais e peças publicitárias da época. A fotografia de Vittorio Storaro recria os anos 1940 com cores vibrantes e uma atmosfera quase nostálgica, enquanto a trilha de Joe Jackson reforça o espírito inventivo do protagonista. No elenco, Joan Allen interpreta Vera Tucker, porto seguro emocional do personagem, e Martin Landau - premiado com o Globo de Ouro - dá densidade ao empresário Abe Karatz.

A história por trás do filme é quase tão persistente quanto a de seu protagonista. Coppola desejava levar o projeto às telas desde os anos 1970, mas encontrou resistência dos estúdios, que viam a trama como pouco atraente comercialmente. A produção só se viabilizou com o apoio decisivo de George Lucas, produtor executivo e amigo do diretor, que utilizou o prestígio conquistado com “Star Wars” para destravar o financiamento. O resultado carrega também ecos pessoais: o pai de Coppola chegou a investir em um dos carros de Tucker, o que aproxima o diretor do universo que retrata.

Entre as curiosidades, o longa-metragem reúne nomes centrais da chamada “Nova Hollywood”. Martin Scorsese aparece em participação especial, e a própria parceria entre Coppola e Lucas transforma o filme em um encontro simbólico de cineastas que redefiniram o cinema americano nos anos 1970. Fora das telas, a história de Preston Tucker teve desdobramentos inesperados: após o fracasso de sua empresa nos Estados Unidos, ele chegou a planejar a produção de um novo carro no Brasil, projeto interrompido por sua morte precoce em 1956.

Com duração de 110 minutos, “Tucker: Um Homem e Seu Sonho” aposta no carisma de Jeff Bridges para sustentar uma narrativa sobre ambição, mercado e resistência. Ao revisitar esse episódio da história industrial americana, o filme encontra ressonância em discussões que permanecem atuais: o espaço para inovação, o peso das grandes corporações e os limites impostos a quem tenta romper estruturas consolidadas.

Ficha técnica
“Tucker: Um Homem e Seu Sonho” | “Tucker: The Man and His Dream” (título original) | (“Tucker - O Homem e o Seu Sonho”(Título em Portugal)
Gênero: drama biográfico. Duração: 110 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1988. Data de lançamento: 12 de agosto de 1988 (EUA). Idioma: inglês. Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Arnold Schulman e David Seidler. Elenco: Jeff Bridges, Joan Allen, Martin Landau, Elias Koteas, Frederic Forrest, Christian Slater. Distribuição no Brasil: Paramount Pictures. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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sexta-feira, 3 de julho de 2026

.: “O Dragão Chinês”: filme número um de Bruce Lee conquista nova geração


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“O Dragão Chinês” chega à plataforma de streaming Reserva Imovision e reacende o impacto do primeiro grande papel de Bruce Lee no cinema. Dirigido por Wei Lo e Chia-Hsiang Wu, o longa-metragem de 1971 - conhecido internacionalmente como “The Big Boss” e, em Portugal, como “Big Boss, o Implacável” - acompanha Cheng Chao-an, um jovem que deixa a China rumo à Tailândia para trabalhar em uma fábrica de gelo ao lado dos primos. Antes de partir, ele faz uma promessa à família: não se envolver em brigas. A palavra empenhada, porém, entra em colapso quando colegas começam a desaparecer após confrontarem a administração do local.

A trama se apoia em uma estrutura direta: um homem comum levado ao limite. Durante boa parte do filme, Cheng observa, recua, hesita. A ação demora a explodir e essa espera sustenta a tensão. Quando finalmente entra em cena, Bruce Lee entrega o que viria a se tornar sua marca: golpes secos, precisão coreográfica e uma presença física que domina o quadro. “O Dragão Chinês” apresenta ao mundo um ator que mudaria o cinema de ação poucos anos depois.

Produzido pela Golden Harvest, o longa foi rodado na Tailândia com orçamento modesto, estimado em cerca de 100 mil dólares. O retorno foi imediato: sucesso de bilheteria na Ásia e a consolidação de Bruce Lee como estrela no Oriente. A produção guarda curiosidades de bastidores que atravessam a tela: Lee filmou cenas importantes lesionado, após torcer gravemente o tornozelo, além de enfrentar problemas de saúde durante as gravações. Em outra ocasião, um acidente com vidro resultou em pontos na mão. Ainda assim, seguiu trabalhando e isso se reflete na fisicalidade exausta de seu personagem em momentos-chave.

No elenco, além de Bruce Lee, estão Maria Yi, James Tien e Ying-Chieh Han, com participações de nomes que se tornariam recorrentes no cinema de Hong Kong, como Nora Miao. A narrativa também flerta com um recorte social ao inserir seus personagens em um ambiente de exploração, em que a fábrica de gelo funciona como fachada para o tráfico de drogas. A violência cresce de forma gradual e ganha contornos mais duros no desfecho, o que levou a cortes em versões internacionais à época.

A chegada do filme à Reserva Imovision abre uma programação dedicada à filmografia de Bruce Lee. Todas as quintas-feiras, a plataforma exibe um título da chamada Coleção Bruce Lee, começando por “O Dragão Chinês” e avançando por clássicos como “A Fúria do Dragão”, “O Vôo do Dragão” — dirigido pelo próprio Lee — e os títulos “Jogo da Morte” I e II. Rever “O Dragão Chinês” hoje é acompanhar o início de um percurso que transformaria Bruce Lee em referência global. O filme ainda carrega imperfeições de produção e escolhas narrativas irregulares, mas registra o instante em que o ator encontra sua dimensão diante das câmeras e não recua.


Ficha técnica
“O Dragão Chinês” | “Tang Shan da Xiong” (título original) | “Big Boss, o Implacável” (título em Portugal).
Gênero: ação, drama, policial. Duração: 100 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1971. Data de lançamento: 23/10/1971. Idioma: mandarim, cantonês. Direção: Wei Lo, Chia-Hsiang Wu. Roteiro: Wei Lo. Elenco: Bruce Lee, Maria Yi, James Tien, Ying-Chieh Han, Nora Miao, Tony Liu, Kun Li. Distribuição no Brasil: Reserva Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: Filme “Uma Janela Suspeita” reabre um thriller subestimado dos anos 1980


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

“Uma Janela Suspeita” estreia chega à plataforma de streaming Belas Artes À La Carte  e recoloca em circulação um thriller que, à época do lançamento, dividiu a crítica, mas encontrou seu público com o passar dos anos. Dirigido por Curtis Hanson, que mais tarde assinaria “Los Angeles – Cidade Proibida”, o filme adapta o romance "The Witnesses", de Anne Holden, com roteiro do próprio Hanson em parceria com a autora.

A trama acompanha Terry Lambert (Steve Guttenberg), jovem executivo envolvido com Sylvia Wentworth (Isabelle Huppert), esposa de seu chefe. Durante um encontro no apartamento dele, Sylvia presencia, da janela do quarto, um ataque violento contra uma mulher, Denise (Elizabeth McGovern). Para evitar a exposição do caso extraconjugal, ela se cala. Terry decide mentir à polícia e se apresentar como testemunha ocular. O gesto, que pretende proteger, vira armadilha: ao menor sinal de inconsistência, ele passa a ser uma das suspeitas.

Hanson organiza a narrativa com ecos claros do suspense clássico, sobretudo na ideia da testemunha acidental e do homem comum empurrado para uma engrenagem maior do que ele. O espectador acompanha o modo como a mentira compromete cada movimento seguinte. O roteiro introduz Denise como peça decisiva, deslocando a dinâmica do filme e criando um jogo de alianças instável.

Há curiosidades de bastidores que ajudam a entender o resultado. A produção enfrentou mudanças logo na primeira semana de filmagens, com substituição de parte da equipe técnica por decisão do produtor Dino De Laurentiis. Curtis Hanson, por sua vez, insistiu na contratação do diretor de fotografia Gilbert Taylor, conhecido por trabalhos como “Star Wars”, o que contribui para o contraste entre luz e sombra que marca o filme. As locações em Baltimore reforçam essa atmosfera urbana de vigilância constante.

No elenco, Guttenberg foge do registro cômico que o popularizou nos anos 1980 e assume um protagonista acuado, em progressiva perda de controle. Isabelle Huppert, já consagrada no cinema europeu, imprime frieza e ambiguidade à personagem, enquanto Elizabeth McGovern sustenta a virada dramática com firmeza. O trio central garante tensão mesmo quando o roteiro força coincidências ou estica a verossimilhança.

Na recepção inicial, o filme teve avaliações mistas - parte da crítica apontou problemas de lógica na trama -, mas também reconheceu a habilidade de Hanson em manter o interesse por quase duas horas. Comercialmente, o longa recuperou seu orçamento e permaneceu entre os mais vistos nas primeiras semanas de exibição nos Estados Unidos. Hoje, costuma ser revisitado como um passo importante na trajetória do diretor, já interessado em personagens encurralados por escolhas equivocadas. Há ainda uma atualização em curso: um remake chegou a ser desenvolvido pela Blumhouse, com direção de Ben Young.

Ficha técnica
“Uma Janela Suspeita” | “The Bedroom Window” (título original) | “A Janela do Quarto” (título em Portugal)
Gênero: suspense policial, drama. Duração: 112 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1987. Data de lançamento: 16 de janeiro de 1987 (EUA). Idioma: inglês. Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Curtis Hanson e Anne Holden (baseado no romance "The Witnesses"). Elenco: Steve Guttenberg, Elizabeth McGovern, Isabelle Huppert, Paul Shenar, Carl Lumbly, Wallace Shawn, Frederick Coffin, Brad Greenquist. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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quinta-feira, 2 de julho de 2026

.: "4x100: Correndo por Um Sonho" revisita derrota e busca redenção


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Aposta rara do audiovisual brasileiro, o drama esportivo “4x100: Correndo por Um Sonho” chega à plataforma de streaming Reserva Imovision. Dirigido por Tomas Portella, conhecido por transitar entre o cinema comercial e projetos de maior ambição estética, o longa-metragem parte de uma derrota marcante nas Olimpíadas do Rio 2016 para construir uma narrativa sobre rivalidade, culpa e reconstrução coletiva.

A trama acompanha Maria Lúcia (Fernanda de Freitas), atleta que carrega o peso de um erro decisivo na final do revezamento 4x100, e Adriana (Thalita Carauta), que, após o fracasso, abandona as pistas e tenta sobreviver no circuito de lutas de MMA. Anos depois, às vésperas dos Jogos de Tóquio, elas se veem obrigadas a dividir novamente a mesma equipe, dessa vez ao lado de outras corredoras que também lidam com suas próprias frustrações e expectativas.

O roteiro, assinado por um grupo que inclui Carlos Cortez, Caroline Fioratti, Juliana Soares, L.G. Bayão, Mauro Lima e o próprio Portella, costura diferentes conflitos pessoais sem perder de vista o eixo central: o trabalho em equipe como condição para qualquer vitória. O filme aposta em personagens com trajetórias distintas, evitando uma visão homogênea das atletas e abrindo espaço para discussões sobre machismo no esporte, desigualdade de investimento e a forma como a mídia constrói e destrói narrativas de sucesso.

Nos bastidores, a produção reúne nomes ligados à Gullane Filmes, com coprodução da Globo Filmes e Telecine. A ideia original partiu da atriz Roberta Alonso, que também integra o elenco, evidenciando um envolvimento criativo que ultrapassa a atuação. Parte das sequências de competição foi rodada entre São Paulo e Rio de Janeiro, enquanto a etapa final teve cenas captadas em Tóquio, em uma breve janela de gravações que buscou aproximar a ficção do ambiente olímpico.

Um dos episódios mais comentados da produção envolve Thalita Carauta, que relatou ter sofrido lesões durante as filmagens das cenas de corrida, exigindo adaptações e uso de efeitos visuais. O compromisso físico do elenco contribui para a sensação de esforço real que o filme tenta transmitir, especialmente nas sequências de treino e competição. Lançado em 2021, após adiamentos causados pela pandemia de Covid-19, o longa dialoga com um momento em que o esporte voltou ao centro do debate público, impulsionado pela realização das Olimpíadas de Tóquio. A coincidência de calendário reforçou o interesse pela obra, que funciona também como vitrine para histórias pouco exploradas no cinema nacional.


Ficha técnica

“4x100: Correndo por Um Sonho”
Gênero: drama esportivo. Duração: 109 minutos. Classificação indicativa: 10 anos. Ano de produção: 2021. Idioma: português. Direção: Tomas Portella. Roteiro: Carlos Cortez, Caroline Fioratti, Juliana Soares, L.G. Bayão, Mauro Lima e Tomas Portella. Elenco: Thalita Carauta, Fernanda de Freitas, Priscila Steinman, Cintia Rosa, Roberta Alonso, Augusto Madeira, Zezé Motta. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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quarta-feira, 24 de junho de 2026

.: Filme "Um Dia Nossos Segredos Serão Revelados" transforma desejo proibido


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Poucos filmes recentes abraçaram o romantismo trágico com tamanha convicção quanto "Um Dia Nossos Segredos Serão Revelados". Dirigido pela cineasta alemã Emily Atef, o longa-metragem é um dos mais vistos da  plataforma de streaming Reserva Imovision, carregando a atmosfera de um amor capaz de consumir tudo ao redor, enquanto observa um dos momentos mais decisivos da história contemporânea alemã: os meses que sucederam a queda do Muro de Berlim.

Baseado no romance homônimo da escritora Daniela Krien, o filme transporta o espectador para o verão de 1990, na antiga Alemanha Oriental. O país vive a expectativa da reunificação, mas a transformação política permanece ao fundo. O centro da narrativa é Maria, jovem prestes a completar 19 anos que divide os dias entre a fazenda da família do namorado, Johannes, e as páginas dos livros que devora compulsivamente. Entre eles, "Os Irmãos Karamázov", de Fiódor Dostoiévski, obra cuja presença dialoga diretamente com os conflitos morais e emocionais da protagonista.

Interpretada com impressionante magnetismo por Marlene Burow, Maria encontra no vizinho Henner, vivido por Felix Kramer, um homem marcado pela dureza da vida, pela solidão e por segredos nunca totalmente revelados. O encontro entre os dois desencadeia uma atração imediata, física e emocional, que cresce até assumir contornos obsessivos. Johannes, personagem de Cedric Eich, torna-se o terceiro vértice de uma relação atravessada por culpa, desejo e inevitáveis consequências.

Emily Atef assina a direção e também o roteiro, desenvolvido em parceria com Daniela Krien e Josune Hahnheiser. Conhecida por obras como "Mais que Nunca", a cineasta franco-alemã demonstra novamente interesse por personagens que enfrentam dilemas íntimos em períodos de profundas mudanças. Em "Um Dia Nossos Segredos Serão Revelados", ela constrói uma narrativa sensorial, apoiada em diálogos econômicos e em uma poderosa comunicação visual.

A atuação de Marlene Burow merece atenção especial. A jovem atriz sustenta a narrativa com uma presença ao mesmo tempo delicada e inquieta. O olhar da atriz frequentemente diz mais do que os diálogos. Felix Kramer, por sua vez, entrega um personagem difícil de decifrar, alternando brutalidade, fragilidade e melancolia. 

Os extensos campos da Turíngia, região onde ocorreram as filmagens, transformam-se em reflexo do estado emocional dos personagens. A câmera captura o calor do verão, a poeira das estradas rurais, a vastidão das plantações e os corpos em permanente tensão. O trabalho fotográfico cria um contraste marcante entre a liberdade aparente daquele cenário e os aprisionamentos afetivos vividos por Maria.

Selecionado para a Competição Oficial do Festival Internacional de Cinema de Berlim de 2023, o longa-metragem despertou debates entre crítica e público. Enquanto alguns enxergaram uma vigorosa história de amadurecimento e descoberta sexual, outros questionaram a romantização de uma relação marcada pela diferença de idade e por evidentes desequilíbrios emocionais.

Curiosamente, embora a reunificação alemã seja um dos acontecimentos mais importantes do século XX, Emily Atef evita transformá-la em tema central. O processo histórico surge em pequenos detalhes: novos produtos vindos do Ocidente, mudanças de comportamento, sonhos de prosperidade e incertezas sobre o futuro. 

Entre referências literárias, paisagens de rara beleza e uma história de amor destinada ao conflito, "Um Dia Nossos Segredos Serão Revelados" convida o espectador a percorrer os territórios contraditórios do desejo. O resultado é um retrato íntimo de uma geração que testemunhava o fim de um mundo enquanto tentava compreender os próprios sentimentos.

Ficha técnica
"Um Dia Nossos Segredos Serão Revelados" | "Irgendwann werden wir uns alles erzählen" (título original) | "Um Dia Havemos de Contar Tudo Uns aos Outros" (título em Portugal)
Gênero: drama, romance, histórico. Duração: 129 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2023. Idioma: alemão. Direção: Emily Atef. Roteiro: Emily Atef, Daniela Krien e Josune Hahnheiser. Elenco: Marlene Burow, Felix Kramer, Cedric Eich, Silke Bodenbender, Florian Panzner, Jördis Triebel, Christian Erdmann, Christine Schorn e Peter Schneider.
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segunda-feira, 22 de junho de 2026

.: Clássico, "O Império dos Sentidos" reacende debate sobre sexo e poder


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Entre os filmes mais vistos da plataforma de streaming Reserva Imovision, o drama erótico “O Império dos Sentidos” ainda testa os limites do olhar. Lançado originalmente em 1976, o filme dirigido por Nagisa Ôshima volta vem sendo redescoberto pela nova geração e confirma a vocação de colocar os espectadores em um lugar incômodo. Ambientado no Japão de 1936, o longa-metragem acompanha Sada Abe (Eiko Matsuda), ex-prostituta que passa a trabalhar como empregada na hospedaria de Kichizō Ishida (Tatsuya Fuji). A relação entre os dois cresce rápido, alimentada por desejo, posse e um impulso que não encontra freio. O que poderia ser apenas mais uma história de paixão se transforma em um mergulho radical na obsessão, conduzido até um desfecho que a própria história real já havia tornado célebre.

Ôshima, figura central da nouvelle vague japonesa, concebeu o projeto em parceria com o produtor francês Anatole Dauman, conhecido por trabalhos com Alain Resnais e Jean-Luc Godard. A coprodução entre Japão e França foi a saída encontrada para contornar a censura japonesa, que à época impunha cortes severos à representação do corpo e da sexualidade. Filmado no Japão e finalizado na França, o longa chegou ao público sem fazer nenhum tipo de concessão, o que explica tanto a notoriedade do filme quanto a série de proibições que a produção enfrentou ao redor do mundo.

A repercussão em Cannes, em 1976, dá a medida do impacto. A procura foi tamanha que o festival organizou sessões extras para dar conta do público. A curiosidade vinha acompanhada de escândalo: tratava-se de um filme com cenas de sexo explícito integradas à narrativa, algo raro no circuito de prestígio. Nos anos seguintes, “O Império dos Sentidos” seria banido em diversos países, enquanto outros o liberariam pouco depois, já sem cortes. No Japão, o próprio Ôshima enfrentou um processo judicial, encerrado apenas em 1982, com a absolvição dele.

O roteiro, também assinado por Ôshima, parte de depoimentos reais de Sada Abe, registrados pela polícia, e de relatos que circularam após o crime. A escolha dá ao filme uma base documental que contrasta com a encenação rigorosa. Cada gesto, cada repetição, cada deslocamento entre os corpos é pensado como parte de uma construção dramática que dispensa ornamentos. O diretor elimina distrações e concentra a ação em poucos espaços, criando um clima de confinamento que acompanha a escalada da relação.

Eiko Matsuda, vinda do teatro experimental, sustenta o filme com uma presença que oscila entre fragilidade e domínio. A personagem dela conduz o ritmo da relação, deslocando o eixo tradicional do olhar no cinema erótico. Tatsuya Fuji, por sua vez, compõe um parceiro que se entrega por completo, num jogo que se intensifica a cada cena. O que se vê é a insistência de um desejo levado até as últimas consequências.

A fotografia e o uso das cores dialogam com tradições visuais japonesas, especialmente o teatro kabuki. Tons de vermelho atravessam figurinos e objetos, marcando o ambiente e sugerindo uma tensão constante. Cada elemento parece colocado para amplificar o que está em cena. Reduzir “O Império dos Sentidos” a rótulos simplistas empobrece a experiência. O filme se constrói como um estudo sobre controle, entrega e destruição, articulando corpo e poder de maneira direta e que ainda desafia convenções e incomoda expectativas.

Quase cinquenta anos depois, a obra mantém sua capacidade de dividir plateias. Há quem veja ali um marco do cinema moderno; há quem rejeite o filme pela forma como expõe seus personagens. Entre uma reação e outra, permanece um trabalho que insiste em ser visto, discutido e reavaliado — e que, ao reaparecer em circuito, reafirma a força de um cinema que não se acomoda.

Ficha técnica
“O Império dos Sentidos” | “Ai no Korîda” (título original)
Gênero: drama erótico. Duração: 109 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1976. Idioma: Japonês. Direção: Nagisa Ôshima. Roteiro: Nagisa Ôshima. Elenco: Eiko Matsuda, Tatsuya Fuji, Aoi Nakajima, Yasuko Matsui, Meika Seri, Taiji Tonoyama. Distribuição no Brasil: Imovision (catálogo e relançamentos). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: Suspense de 1956, "A Sombra" retorna para provocar novas leituras


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Produzido durante o chamado “degelo” político na Polônia, quando a censura afrouxava discretamente, “A Sombra” encontrou terreno para lidar com temas delicados. O filme chega à plataforma de streaming Belas Artes À La Carte como um título que precisa ser redescoberto. Dirigido por Jerzy Kawalerowicz e escrito por Aleksander Ścibor-Rylski, o longa-metragem polonês de 1956 parte de um corpo lançado de um trem para construir um enigma difícil de ser decifrado. A investigação conduzida por policiais, agentes de segurança e um legista se fragmenta em três versões, situadas em momentos distintos: a Segunda Guerra Mundial, o imediato pós-guerra e a Polônia dos anos 1950. O filme, que tem no elenco os atores Zygmunt Kęstowicz, Adolf Chronicki e Tadeusz Jurasz, organiza o suspense a partir de relatos que se contradizem e se contaminam. Cada depoimento desloca o espectador, que passa a lidar com identidades instáveis e intenções ambíguas. 

A estrutura lembra o jogo de perspectivas popularizado por “Rashomon”, de Akira Kurosawa, mas Kawalerowicz prefere expandir o dispositivo: em vez de revisitar um único acontecimento, ele costura histórias que ecoam entre si, criando uma espécie de mosaico moral. A pergunta sobre quem foi o homem morto se transforma, aos poucos, em outra: o que define alguém em um cenário de vigilância, medo e lealdades frágeis? A câmera de Jerzy Lipman aposta em enquadramentos fechados e ângulos baixos, valorizando rostos tensos e ambientes carregados. O filme avança com movimento, perseguições e sequências envolvendo trens que imprimem ritmo e risco. Em algumas dessas cenas, os próprios atores dispensaram dublês.

Críticos da época reagiram com desconfiança ao retrato de um mundo povoado por agentes secretos e inimigos invisíveis, leitura que dialogava com o imaginário do stalinismo. O filme, no entanto, segue por outra via e expõe a fragilidade das certezas: heroísmo e traição mudam conforme o ponto de vista. Exibido no Festival de Cannes de 1956, o longa-metragem integra o movimento conhecido como Polish Film School, responsável por renovar a linguagem cinematográfica no país ao abordar as consequências da guerra com maior liberdade estética e densidade moral. Kawalerowicz, que mais tarde assinaria obras como “Madre Joana dos Anjos” e “Faraó”, já demonstrava aqui um domínio formal que chamaria atenção fora da Polônia, ainda que a filmografia dele permaneça menos difundida do que merece.


Ficha técnica
“A Sombra” | "Cień" (título original)
Gênero: drama, ação, suspense. Duração: 98 minutos. Classificação indicativa: não informada.
Ano de produção: 1956. Idioma: polonês. Direção: Jerzy Kawalerowicz. Roteiro: Aleksander Ścibor-Rylski. Elenco: Zygmunt Kęstowicz, Adolf Chronicki, Tadeusz Jurasz, Emil Karewicz, Ignacy Machowski, Bolesław Płotnicki, Bohdan Ejmont, Marian Łącz, Halina Przybylska, entre outros.
Distribuição no Brasil: não informada. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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domingo, 21 de junho de 2026

.: "Mother’s Baby” questiona instinto materno e desmonta idealizações


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Mother’s Baby” estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision apostando em um desconforto que não se dissipa quando o filme termina. Dirigido e coescrito pela austríaca Johanna Moder, o longa-metragem parte de um terreno conhecido - o desejo pela maternidade - para deslocá-lo a um território inquietante, em que o afeto e o estranhamento convivem sem qualquer garantia de reconciliação. Na trama, Julia (Marie Leuenberger), uma maestrina de 40 anos no auge da carreira, decide interromper a rotina profissional ao lado do parceiro Georg (Hans Löw) para realizar o sonho de ter um filho. 

A gravidez vem após um procedimento conduzido pelo enigmático Dr. Vilfort (Claes Bang), especialista em fertilidade que promete resultados com uma segurança quase clínica demais para ser confortável. O parto, porém, rompe qualquer expectativa de controle: o bebê é retirado às pressas, sem explicações claras, e devolvido à mãe já sob o peso de uma dúvida corrosiva.

Moder conduz o espectador por uma narrativa que se alimenta da instabilidade emocional da protagonista. Julia não reconhece o filho, mas não há histeria, nem gestos grandiosos. O que se instala é um distanciamento seco, persistente, que contamina o ambiente doméstico e fragiliza o casamento. A partir daí, o filme tensiona a percepção da realidade: há um erro concreto ou tudo se organiza dentro de uma experiência psíquica em colapso?

Exibido na competição oficial do Festival de Berlim, onde disputou o Urso de Ouro, o longa-metragem se insere em uma linhagem recente de filmes dirigidos por mulheres que encaram a maternidade sem idealizações. A própria Moder descreveu o projeto como um acerto de contas pessoal, interessado em desmontar a promessa de plenitude associada ao nascimento de um filho. Em entrevistas à imprensa europeia, a diretora afirmou que buscou deliberadamente o suspense como forma de traduzir a insegurança e o deslocamento vividos por muitas mulheres nesse período.

Marie Leuenberger segura o filme com uma atuação que aposta no mínimo. A personagem dela fala pouco, mas o incômodo aparece no jeito de olhar, no corpo que parece sempre um passo atrás, como se ela estivesse tentando ocupar um lugar que já não reconhece como seu. Claes Bang faz do médico uma presença que impõe respeito e estranha ao mesmo tempo, daqueles que parecem saber demais e explicar de menos. Já Hans Löw constrói um marido dividido: tenta estar por perto, mas nunca alcança de fato o que se passa com a mulher ao lado.

Filmado em Viena, Zurique e Hamburgo, com fotografia de Robert Oberrainer, o longa-metragem também chama atenção pela atmosfera controlada que contrasta com a crescente desordem interna da protagonista. A trilha de Diego Ramos Rodríguez acompanha esse deslocamento sem recorrer a excessos, reforçando a sensação de que algo está fora do lugar, ainda que ninguém consiga apontar exatamente o quê. O filme prefere deixar o espectador diante de um impasse que ecoa para além da tela: até que ponto a maternidade é instinto, construção ou imposição? E o que acontece quando esse vínculo não se estabelece como esperado? 


Ficha técnica
“Mother’s Baby” | "Bebê da Mamãe" (título em Portugal)
Gênero: drama, suspense. Duração: 99 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: alemão. Direção: Johanna Moder. Roteiro: Johanna Moder, Arne Kohlweyer. Elenco: Marie Leuenberger, Hans Löw, Claes Bang, Julia Franz Richter. Distribuição no Brasil: Autoral Filmes. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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