O mestre das HQs italianas ganha vida na obra-prima psicodélica de Mario Bava, com trilha inesquecível de Ennio Morricone e o charme imortal do crime em Technicolor. Foto: divulgação
Ficha técnica
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Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.
O amor pode até ser mágico, mas conviver com a pessoa errada pode transformar qualquer encantamento em uma grande roubada. É justamente dessa situação que parte “Encanto Quebrado”, curta-metragem escrito e dirigido por Luan Filippo, que segue em cartaz na plataforma de streaming Reserva Imovision como parte da coleção “Pequenas Jornadas - Curtas-Metragens”. A produção reúne Victória Brusco, Felipe de Carolis e Gilda Nomacce em uma história que mistura horror, fantasia e humor para brincar com uma velha obsessão romântica: encontrar alguém especial e descobrir, tarde demais, que talvez fosse melhor ter ficado sozinho.
Na trama, uma bruxa do século XXI decide lançar um feitiço de amor para o vizinho. O problema aparece quando o encantamento funciona e ela percebe que o sujeito por quem se apaixonou é, simplesmente, um idiota. Arrependida, tenta desfazer a magia, mas existe uma complicação nada conveniente: o feitiço é irreversível. A premissa dá ao curta uma leitura divertida sobre desejo, paixão e escolhas ruins, colocando uma personagem acostumada ao sobrenatural diante de uma situação bastante humana. A graça está justamente no desespero de alguém que conhece magia suficiente para criar o próprio problema, mas não encontra uma saída para consertá-lo.
“Encanto Quebrado” tem uma trajetória ligada ao cinema fantástico. O filme integrou a programação do 16º Cinefantasy – Festival Internacional de Cinema Fantástico, na Mostra Brasil Fantástico, ao lado de produções nacionais que exploram horror, fantasia, ficção científica e outras vertentes do gênero. O catálogo do festival registra a obra com 16 minutos e 45 segundos de duração e classifica a produção como ficção e horror.
A produção também aparece internacionalmente com o título original “Bitchcraft”, trocadilho que combina a ideia de bruxaria com uma expressão de forte carga irônica. O curta foi identificado em materiais do Cinefantasy com esse título, enquanto a produção brasileira mantém “Encanto Quebrado” como título nacional.
A relação do filme com a Imovision também é curiosa. Segundo Victória Brusco, que protagoniza a produção, “Encanto Quebrado” foi a primeira produção oficial da distribuidora e teve sua estreia no Festival de Cinema Internacional Fantaspoa, em 2024. A atriz também passou a apresentar conteúdos da Imovision relacionados aos filmes distribuídos pela empresa. O curta-metragem foi produzido pela Chá Cinematográfico e tem Luan Filippo na direção e no roteiro. A ficha técnica divulgada pelo Cinefantasy confirma ainda Victória Brusco, Felipe de Carolis e Gilda Nomacce no elenco. Uma opção rápida para quem gosta de histórias fantásticas com humor ácido e personagens que descobrem, da pior maneira possível, que mexer com magia pode trazer consequências bem inconvenientes.
Ficha técnica
“Encanto Quebrado” (título original)
Gênero: ficção/horror. Duração: 16min45s. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 11 de abril de 2024, no Brasil. Idioma: português. Direção: Luan Filippo. Roteiro: Luan Filippo. Elenco: Victória Brusco, Felipe de Carolis e Gilda Nomacce. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não informadas. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.
A criança curiosa que descobria o mundo entre livros, animais, histórias e brincadeiras ganhou um novo lugar na cena paulistana. "João, Joãozinho, Joãozito", musical inédito inspirado no livro "João Joãozinho, Joãozito - O Menino Encantado", de Claudio Fragata, estreia em 29 de agosto no Teatro do Sesi-SP, no Centro Cultural Fiesp. Com direção artística, texto e adaptação de Marcio Araújo, a montagem acompanha os primeiros anos de João Guimarães Rosa (1908-1967), antes de o menino de Cordisburgo se tornar um dos nomes fundamentais da literatura brasileira.
A temporada segue até 13 de dezembro de 2026, com sessões às quintas e sextas, às 11h00, e aos sábados e domingos, às 15h. Aos fins de semana, todas as apresentações contam com interpretação em Libras e audiodescrição. A produção foi idealizada por Daniel Palmeira e nasceu de sete anos de pesquisa dedicados a construir uma linguagem capaz de aproximar o universo de Guimarães Rosa do público infantil.
A história parte da infância do escritor em Minas Gerais e acompanha sua trajetória desde o nascimento até a mudança para Belo Horizonte. Livros, bichos, natureza, línguas, brincadeiras e as histórias que circulavam em sua cidade natal formam o território de descobertas do pequeno João. A montagem transforma essas experiências em uma aventura musical sobre curiosidade, imaginação e conhecimento.
A relação entre o menino e o futuro escritor também aparece na dramaturgia por meio de referências ao universo literário de Rosa. Elementos associados a "Grande Sertão: Veredas" e um amigo imaginário inspirado em Miguilim entram na narrativa como pistas para quem já conhece a obra do autor e como primeiras portas de entrada para crianças que ainda vão descobrir sua literatura.
Um dos aspectos mais interessantes da encenação está na maneira como João é construído em cena. Os nove integrantes do elenco se alternam na interpretação do protagonista, fazendo com que a figura do menino passe de um corpo a outro. A escolha amplia a ideia de que a infância pertence a todos e transforma o próprio personagem em uma construção coletiva.
“Queremos que toda criança se veja no palco, que possa imaginar que também pode ser cientista, médica, escritora, viajar pelo mundo ou aprender outras línguas. Independentemente de onde venha, ela precisa acreditar que seu futuro também lhe pertence”, afirma Marcio Araújo. A gravata-borboleta, elemento associado à imagem pública de Guimarães Rosa, também ganha função cênica. Ao circular entre os artistas como laço, presilha ou gravata, o objeto funciona como elo entre as diferentes interpretações de João e reforça a ideia de identidade compartilhada. Compre o livro "João Joãozinho, Joãozito - O Menino Encantado", de Claudio Fragata, neste link.
Música que vem da cultura popular
A trilha sonora original, assinada por Tato Fischer e Marcio Araújo, reúne nove canções e mergulha em manifestações tradicionais brasileiras. Folia de Reis, cururu, catira, cantos populares, viola caipira e sanfona ajudam a criar o ambiente sonoro da montagem. A direção musical e os arranjos são de Dagoberto Feliz. A música acompanha a trajetória do personagem e estabelece uma ponte entre as experiências da infância e as tradições culturais que atravessam o interior brasileiro.
No aspecto visual, a montagem aposta em bonecos artesanais, brinquedos antigos e objetos associados à infância do interior do país, especialmente de Minas Gerais. O cenário criado por Bruno Anselmo é formado por estruturas que mudam de função ao longo da apresentação, deixando espaço para que a imaginação do público complete as imagens.
Os figurinos de Clau Carmo seguem a mesma lógica e buscam referências em colchas de retalhos e brinquedos artesanais, criando uma atmosfera de memória e afetividade. Ao todo, são 19 bonecos criados por Jésus Sêda, conhecido também pelo trabalho em "Castelo Rá-Tim-Bum". Em cena, os nove artistas acumulam funções: atuam, cantam, tocam instrumentos, dançam e manipulam bonecos. Integram o elenco Beatriz Amado, Conrado Caputo, Daniel Aureliano, Elix, João Paulo Bienermann, Neusa de Souza, Rita Almeida, Thiago Claro França e Thiago Mota.
Para Tais Lara, diretora do Centro Cultural Fiesp, a montagem aproxima crianças e famílias da trajetória de Guimarães Rosa ao mesmo tempo em que amplia o contato do público com a literatura brasileira. A proposta está alinhada ao compromisso do Sesi-SP com a oferta gratuita de programação cultural e com a formação de novos públicos.
Uma infância antes do escritor
"João, Joãozinho, Joãozito" olha para Guimarães Rosa antes do reconhecimento, dos livros consagrados e da carreira diplomática. É o menino que observa, pergunta, coleciona descobertas e encontra nos livros uma forma de ampliar o mundo ao redor. A montagem utiliza essa perspectiva para apresentar a infância como um período decisivo na formação do artista. A curiosidade do personagem, sua relação com a natureza e o contato com diferentes linguagens aparecem como elementos que ajudam a compreender o escritor que surgiria anos depois.
A proposta também encontra na cultura popular uma maneira de aproximar o universo roseano das crianças. Em vez de apresentar Guimarães Rosa como uma figura distante da literatura, o espetáculo recupera o menino que existiu antes do autor de Grande Sertão: Veredas e transforma suas primeiras experiências em matéria de teatro.
Ficha técnica
Peça teatral "João, Joãozinho, Joãozito", a partir do livro de Claudio Fragata
Texto e adaptação: Marcio Araújo
Direção artística: Marcio Araújo
Músicas compostas: Tato Fischer/Marcio Araújo
Direção musical/arranjos: Dagoberto Feliz
Assistente de direção: Adriana Salcedo
Elenco/músicos: Rita Almeida, João Paulo Bienermann, Daniel Aureliano, Neusa de Souza, Elix, Conrado Caputo, Beatriz Amado, Thiago Claro França e Thiago Mota
Paisagista sonoro: Marcelino Ziggy
Desenho de som: Labsom – Kleber Marques, Juma e Marcelino Ziggy
Microfonista: Juma (Juliana Maria)
Técnico de som: Kleber Marques
Iluminador/desenho de luz: Guilherme Bonfanti
Operador de luz: Felipe Bonfante
Cenografia: Bruno Anselmo
Cenotécnico: Reserva Cênica
Design: Leandro Madeiros
Figurino: Clau Carmo
Costureira/modelista: Salomé Abdala
Aderecista: Nilton Araújo
Bonequeiro: Jésus Sêda
Visagista: Jonathan Faria
Projeto gráfico: André Kitagawa
Fotógrafo: Ale Catan
Assistente de fotografia: Rafael Sá
Vídeos: Sucata Filmes – Vinícius Faé
Preparação corporal: João Paulo Bienermann
Preparação de manipulação de bonecos: Eduardo Alve
Direção de palco: Marco Loureiro
Maquinista: Atila Quirino (Chin)
Contrarregra: Arthur Gerizani
Camareira: Cris Quirino
Assessoria de imprensa: Canal Aberto Comunicação
Mídias sociais: Tatiana Machado
Intérprete de Libras: Fabiano Campos
Áudio-descrição: Ver com Palavras
Produção executiva: William Gibson
Direção de produção: Daniel Palmeira
Coordenação financeira: Cleo Chaves
Assessoria contábil: DW Gonzalez Contábil
Assessoria jurídica: Marcelo Mayer
Coordenação geral/produção: Penta Querobin Produções
Serviço
Peça teatral "João, Joãozinho, Joãozito"
Temporada: 29 de agosto a 13 de dezembro de 2026
Sessões: quintas e sextas, às 11h; sábados e domingos, às 15h
Atenção: Libras e audiodescrição em todos os sábados e domingos da temporada
Local: Centro Cultural Fiesp - Teatro Sesi-SP | Av. Paulista, 1.313, em frente à estação Trianon-Masp do Metrô
Ingressos: gratuitos, com reservas pelo site www.sesisp.org.br/eventos
Classificação indicativa: livre, indicado para todas as idades
“Os Mortos-Vivos”, curta-metragem escrito, dirigido, montado e produzido por Anita Rocha da Silveira, segue em cartaz na plataforma de streaming Reserva Imovision como parte da coleção “Pequenas Jornadas – Curtas-Metragens”. Realizado em 2012, o filme acompanha João, interpretado por João Pedro Zappa, que espera pela ficante Bia diante do banheiro feminino durante uma noite no Rio de Janeiro. Ela desaparece sem explicação, deixando o rapaz entre hipóteses que vão da morte ao sequestro, passando pela possibilidade bem mais banal e dolorosa de ter se apaixonado por outra pessoa.
A premissa aparentemente simples ganha contornos de terror psicológico quando o desaparecimento de Bia passa a reorganizar a percepção de João. O curta trabalha com uma ideia particularmente contemporânea para uma produção de 2012: alguém pode desaparecer da vida de outra pessoa e continuar existindo nas telas, nas mensagens enviadas e nas tentativas frustradas de estabelecer contato. A frase “Bia está off-line. As mensagens enviadas serão entregues quando Bia estiver on-line” resume o jogo criado por Anita e transforma uma situação cotidiana em uma espécie de pesadelo digital.
Clarice Lissovsky interpreta Bia, enquanto Natália Lebeis, Pedro Tambellini, Anita Chaves, Maria Clara Contrucci, Amanda Lebeis, Raphael Martins e Bruna Lousada completam o elenco. João Atala assina a direção de fotografia; Felippe Mussel responde pelo som direto; Bernardo Uzeda, pela edição de som; Constanza de Córdova e Betina Monte-Mór, pela direção de arte; e Anita Rocha da Silveira também assume a montagem.
A diretora constrói uma atmosfera estranha a partir de situações reconhecíveis da juventude carioca: festas, praias, encontros, flertes e a expectativa por algum tipo de conexão afetiva. Ao redor dessa rotina aparecem elementos que deslocam a narrativa para o fantástico, como pirâmides e esfinges urbanas, além de efeitos visuais que incluem raios coloridos sobre a Catedral do Rio de Janeiro.
“Os Mortos-Vivos” também ocupa um lugar significativo na trajetória de Anita Rocha da Silveira. O curta foi selecionado para a Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes em 2012, depois de a cineasta realizar “O Vampiro do Meio-Dia” (2008) e “Handebol” (2010). “Handebol” recebeu o Prêmio FIPRESCI no Festival Internacional de Curtas de Oberhausen, enquanto “Os Mortos-Vivos” consolidou a presença da realizadora carioca no circuito internacional.
A filmografia posterior ajuda a dimensionar a importância desse curta-metragem. Anita estreou no cinema de longa-metragem com “Mate-me por Favor”, selecionado para a mostra Orizzonti do Festival de Veneza de 2015, e depois dirigiu “Medusa”, que chegou à Quinzena dos Cineastas de Cannes em 2021. A Academia Brasileira de Cinema registra ainda que Anita passou a integrar, em 2023, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.
Em “Os Mortos-Vivos”, o terror nasce de uma situação íntima: a sensação de perder alguém sem compreender exatamente quando, como ou por quê. O desaparecimento de Bia abre uma espécie de buraco na experiência de João, e Anita explora esse desconforto com uma narrativa que mistura horror, fantasia e retrato de juventude.
Ficha técnica
“Os Mortos-Vivos” | “The Living Dead” (título internacional).
Gênero: ficção, terror, fantasia. Duração: 19 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2012. Data de lançamento: 19 de maio de 2012, na França, durante o Festival de Cannes. Idioma: português. Direção: Anita Rocha da Silveira. Roteiro: Anita Rocha da Silveira. Elenco: João Pedro Zappa, Natália Lebeis, Clarice Lissovsky, Pedro Tambellini, Anita Chaves, Maria Clara Contrucci, Amanda Lebeis, Raphael Martins e Bruna Lousada. Distribuição no Brasil: Reserva Imovision, em streaming. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.
Sarah Bernhardt já havia se tornado uma celebridade mundial antes de o mundo aprender a fabricar celebridades em escala industrial. No fim do século XIX, o rosto dela estampava cartazes, o nome cruzava fronteiras e as aparições mobilizavam multidões. Em uma época sem televisão, redes sociais ou cinema, a atriz francesa transformou a própria existência em espetáculo. É essa mulher gigantesca, extravagante, apaixonada e extremamente contraditória que Sandrine Kiberlain interpreta no filme “A Divina Sarah Bernhardt”, dirigido por Guillaume Nicloux.
Ambientado inicialmente em Paris, em 1896, o longa-metragem acompanha Sarah no auge da fama. Considerada por muitos a primeira grande celebridade internacional da era moderna, ela circulava entre artistas, escritores, políticos e amantes com a mesma desenvoltura com que ocupava os palcos. A produção, porém, escolhe olhar para a personalidade que existia por trás da imagem pública. O resultado é uma cinebiografia que prefere os bastidores, os afetos, as brigas e as fragilidades à reconstituição convencional de uma carreira.
O roteiro de Nathalie Leuthreau concentra boa parte da narrativa na relação de Sarah com Lucien Guitry, interpretado por Laurent Lafitte. Os dois mantêm durante anos uma relação amorosa marcada por idas e vindas, ciúmes, outros parceiros e uma intimidade que parece sobreviver até mesmo quando o romance já não funciona da maneira esperada. A escolha é interessante porque permite que a personagem seja observada em situações nas quais não precisa convencer uma plateia a respeito da própria genialidade.
O filme mostra muito pouco da atriz efetivamente atuando. A grandeza de Sarah é constantemente anunciada por quem a cerca, pelas personalidades que a admiram e pelo peso do nome dela, mas raramente isso é demonstrado em cena. Guillaume Nicloux parece interessado na distância entre a mulher e o mito. Sarah pode ser arrogante, generosa, cruel, divertida, manipuladora, apaixonada e consciente do poder que exercia sobre os outros. Sandrine Kiberlain abraça todas essas contradições sem tentar transformar a personagem em uma santa. Na interpretação dela o espectador enxerga uma mulher expansiva, teatral mesmo quando está longe dos palcos, capaz de transformar uma conversa íntima em uma espécie de espetáculo particular. O corpo, a voz, os gestos e principalmente o olhar fazem da personagem uma presença que domina cada ambiente em que entra.
A trajetória também passa por um dos episódios mais dramáticos da vida da artista. Em 1905, durante uma apresentação de “Tosca”, no Rio de Janeiro, Sarah sofreu uma grave lesão no joelho após uma queda no palco. O problema se agravaria ao longo dos anos e levaria à amputação da perna direita em 1915. O acontecimento aparece como parte fundamental da narrativa e ajuda a estabelecer um contraste curioso: a mulher que construiu uma imagem pública de força precisa lidar com um corpo que passa a impor limites àquela existência acelerada.
A passagem pelo Brasil acrescenta uma camada particularmente interessante à história. Sarah Bernhardt esteve no país em diferentes momentos e chegou a ser admirada por Dom Pedro II. O filme recupera essa dimensão internacional e evoca também a proximidade com nomes como Victor Hugo, Oscar Wilde, Émile Zola e Sigmund Freud. Sarah viveu num período em que a circulação internacional de artistas ainda exigia viagens longas e complexas. Mesmo assim, conseguiu transformar as turnês em acontecimentos capazes de mobilizar públicos em diferentes continentes.
Sarah Bernhardt compreendeu, antes de a indústria cultural desenvolver suas ferramentas modernas, que uma estrela também precisava saber administrar a própria imagem. Fotografias, cartazes, aparições públicas, histórias sobre sua vida e a maneira como era comentada contribuíam para ampliar a fama dela. Nesse sentido, a personagem parece antecipar uma figura que hoje seria imediatamente reconhecida como uma celebridade global.
Nicloux evita transformar tudo isso em uma biografia cronológica. O tempo se organiza por lembranças e saltos temporais, aproximando diferentes momentos da vida de Sarah. A estrutura permite que passado e presente se contaminem, embora também possa provocar certa sensação de fragmentação. O filme aposta mais na memória e na personalidade da protagonista do que na apresentação organizada de acontecimentos históricos. Visualmente, “A Divina Sarah Bernhardt” encontra uma de suas maiores forças na reconstituição de época. Figurinos, cenários, objetos e direção de arte recriam uma Belle Époque exuberante, marcada pelo luxo e pela teatralidade. A fotografia de Yves Cape acompanha essa atmosfera e ajuda a estabelecer uma diferença visual entre o período de glória e os anos posteriores da protagonista.
O filme ainda se permite uma liberdade que combina com a própria personagem. Sarah Bernhardt aparece como uma figura quase maior do que a realidade, cercada por animais exóticos, festas, admiradores e personalidades célebres. Em vez de desmontar completamente o mito para encontrar uma verdade definitiva, Guillaume Nicloux parece aceitar que Sarah também foi uma invenção de si mesma. Essa liberdade tem um preço. Ao privilegiar a vida afetiva, o filme deixa de explorar diversas dimensões de uma carreira extraordinária. Sarah interpretou mais de uma centena de papéis, administrou teatros, comandou companhias e ajudou a redefinir a relação entre artista, imprensa e público. A produção poderia ter mostrado mais do talento que justificou tamanha devoção. Em determinados momentos, fica a impressão de que o filme está tão interessado na mulher que acaba esquecendo a atriz.
Ainda assim, existe uma inteligência na escolha de apresentar Sarah pelas contradições. Ela é inconveniente, vaidosa, impulsiva e, muitas vezes, insuportável. Ao mesmo tempo, possui uma liberdade que impressiona quando observada a partir do período histórico em que viveu. A vida amorosa, a relação com o próprio corpo e a postura diante das convenções sociais ajudam a explicar porque o nome dela continua provocando interesse mais de um século depois da morte dela.
Ficha técnica
“A Divina Sarah Bernhardt” | “Sarah Bernhardt, La Divine” (Título original)
Gênero: drama, romance, biografia. Duração: 98 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 16 de julho de 2026. Idioma: francês. Direção: Guillaume Nicloux. Roteiro: Nathalie Leuthreau. Elenco: Sandrine Kiberlain, Laurent Lafitte, Amira Casar, Pauline Etienne, Mathilde Ollivier, Laurent Stocker, Grégoire Leprince-Ringuet, Clément Hervieu-Léger, Sébastien Pouderoux, Sylvain Creuzevault, Arthur Mazet e Arthur Igual. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.
A estreia de "Nunca Fui Santa" na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte resgata um momento decisivo na trajetória de Marilyn Monroe. Lançado em 1956, com direção de Joshua Logan e roteiro de George Axelrod, baseado na peça homônima de William Inge, o longa-metragem coloca a estrela em um terreno menos confortável, onde charme não basta. Na trama, o caubói Beauregard “Bo” Decker (Don Murray), jovem, teimoso e completamente despreparado para relações afetivas, cruza o caminho de Cherie (Monroe), cantora de saloon que sonha com uma vida melhor. Um encontro breve vira obsessão. Convencido de que encontrou a futura esposa, ele decide levá-la para seu rancho em Montana - com ou sem consentimento. A viagem de ônibus, interrompida por uma nevasca, força os dois a encarar o que há de mais incômodo: expectativas desencontradas, desejo de liberdade e a dificuldade de reconhecer o outro como sujeito.
Joshua Logan, vindo da Broadway, conduz o filme com atenção ao comportamento dos personagens, sem pressa de resolver conflitos. O texto de Axelrod amplia a peça original e cria situações que expõem o ridículo e a fragilidade de Bo, ao mesmo tempo em que permite a Cherie escapar do estereótipo da “loira ingênua”. Monroe aproveita cada fresta. Após estudar no Actors Studio com Lee e Paula Strasberg, ela constrói uma personagem com sotaque sulista carregado, gestos contidos e um desleixo calculado no visual. A decisão de usar pouca maquiagem e abandonar o glamour habitual foi uma estratégia e tanto.
A crítica da época percebeu. Bosley Crowther, do The New York Times, escreveu que Monroe finalmente se afirmava como atriz de verdade. A indicação ao Globo de Ouro veio no mesmo embalo. Don Murray, em sua estreia no cinema, recebeu indicação ao Oscar de ator coadjuvante, sustentando com energia um personagem difícil de defender. No elenco, Arthur O’Connell e Betty Field completam o quadro com segurança, enquanto Hope Lange também inicia nesse filme a trajetória nas telas.
Nos bastidores, a produção teve tensão. Logan desconfiava da disciplina de Monroe, famosa por atrasos e inseguranças. Mudou de opinião ao longo das filmagens, chegando a compará-la a Charlie Chaplin pela capacidade de equilibrar humor e emoção. O filme também marca o retorno da atriz após um período de afastamento de Hollywood, quando rompeu com a 20th Century Fox, mudou-se para Nova York e criou a Marilyn Monroe Productions, exigindo maior controle sobre sua carreira.
"Nunca Fui Santa" não resolve todas as contradições - o romance central incomoda, a condução narrativa por vezes acelera soluções - mas permanece como registro de uma virada. O público encontra ali uma Monroe que não quer mais ser apenas imagem. Quer ser levada a sério. E, por boa parte do filme, consegue.
Ficha técnica
“Nunca Fui Santa” | "Bus Stop" (título original) | "Paragem de Autocarro" (título em Portugal). Gênero: comédia dramática, romance. Duração: 96 minutos. Classificação indicativa: livre. Ano de produção: 1956. Data de lançamento: 1956. Idioma: inglês. Direção: Joshua Logan. Roteiro: George Axelrod, baseado na peça de William Inge. Elenco: Marilyn Monroe, Don Murray, Arthur O'Connell, Betty Field, Eileen Heckart, Hope Lange. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
O livro "Amaridades" surge de um ponto delicado: o instante em que a vida exige revisão. Sandra Tello Bohorquez, colombiana radicada no Brasil, estreia no livro depois dos 60 anos, quando já não há interesse em performance, mas uma urgência em compreender a vida. O resultado é um texto que olha para o envelhecimento sem rodeios e sem idealizações, tratando-o como um território de reencontro com aquilo que ficou mal resolvido, dito pela metade ou simplesmente herdado sem escolha.
Dividida em 12 capítulos, a obra se organiza como uma travessia íntima. O livro não oferece soluções, mas exige um trabalho paciente de leitura das próprias origens, sustentado pela escuta e pelo reconhecimento de que a história familiar continua agindo mesmo quando não é óbvia. A seguir, dez razões para entrar nesse percurso. Compre o livro "Amaridades", de Sandra Tello Bohorquez, neste link.
1. O envelhecimento como ajuste de rota
Sandra Tello Bohorquez trata o tempo como matéria ativa, não como contagem regressiva. Envelhecer implica revisar decisões, reavaliar vínculos e reconhecer o que ainda está em aberto. "Amaridades" acompanha esse movimento sem pressa, observando como escolhas antigas continuam produzindo efeitos. Cada capítulo amplia esse deslocamento, mostrando que o avanço da idade pode reorganizar prioridades. O leitor encontra um convite à revisão sem estar acompanhado de promessa de conforto imediato.
2. Histórias familiares tratadas como matéria viva
Os episódios narrados partem de situações reconhecíveis: conversas interrompidas, conflitos recorrentes, afastamentos que nunca se explicaram por completo. Ao trazer esses fragmentos, constrói um painel em que o passado não está encerrado. O que foi vivido permanece operando, mesmo sem nome. A leitura evidencia como essas histórias continuam moldando comportamentos e decisões no presente.
3. Psicogenealogia aplicada ao cotidiano
A psicogenealogia aparece como ferramenta de leitura das relações familiares, sem excesso de terminologia técnica. Sandra articula conceitos com exemplos diretos, o que permite ao leitor identificar padrões sem depender de explicações acadêmicas extensas. A proposta não simplifica o tema, mas o aproxima da experiência comum. Ao observar repetições e rupturas entre gerações, o livro oferece instrumentos para reconhecer dinâmicas que muitas vezes passam despercebidas. O resultado é um entendimento mais claro das heranças invisíveis.
4. Escrita sustentada por experiência real
A trajetória da autora que deixou o ambiente corporativo para se dedicar ao projeto "Amaridades" passa pelo livro sem virar autobiografia. Esse percurso funciona como eixo e o texto se constrói a partir do que foi vivido, incluindo o processo de envelhecimento compartilhado com a mãe. Essa dimensão concreta dá densidade à narrativa e evita generalizações. O leitor acompanha transformações que não foram planejadas, mas assumidas ao longo do caminho.
5. Um projeto que antecede o livro
Desde 2017, Sandra coleta relatos de pessoas mais velhas sob o lema “Contando Histórias, Inspirando Futuros”. Esse acervo alimenta a escrita e amplia seu alcance. O livro não surge isolado; é resultado de uma prática contínua de escuta e registro. As experiências reunidas ao longo desses anos aparecem como pano de fundo, enriquecendo a análise das relações familiares. Essa base confere consistência ao texto e reforça seu vínculo com histórias reais.
6. A árvore genealógica como ferramenta de leitura
A investigação das origens familiares ganha forma concreta na reconstrução da árvore genealógica. O processo revela repetições, apagamentos e escolhas que atravessam gerações. Ao organizar essas informações, o leitor passa a enxergar conexões antes dispersas. A proposta não é apenas conhecer nomes e datas, mas compreender dinâmicas. Esse exercício desloca a percepção sobre a própria história e amplia o entendimento sobre comportamentos herdados.
7. Reinterpretação de dores antigas
Abandono, rejeições, segredos e perdas aparecem de maneira direta, sem tentativa de suavização. O diferencial está na forma como esses elementos são reorganizados ao longo da narrativa. Ao identificar padrões e vínculos, o livro propõe uma leitura mais ampla dessas experiências. O que antes parecia isolado passa a integrar um conjunto maior. Essa mudança de perspectiva não apaga a dor, mas altera sua posição dentro da história.
8. Relação entre memória e comportamento
O texto evidencia como experiências não elaboradas continuam influenciando atitudes, escolhas e relações. Emoções reprimidas e episódios não resolvidos reaparecem em situações distintas, criando repetições difíceis de identificar. Ao reconhecer essas conexões, o leitor passa a observar suas próprias respostas com mais precisão. "Amaridades" sugere que compreender essas relações pode abrir espaço para decisões diferentes, ainda que o processo não seja simples.
9. Um livro que se sustenta na escuta
A escuta aparece como prática central. Sandra constrói sua narrativa a partir de relatos, observações e convivências, sem impor interpretações fechadas. Essa postura cria um texto que acolhe diferentes experiências e permite múltiplas leituras. Ao priorizar o ouvir, "Amaridades" desloca o foco da explicação para a compreensão. O resultado é uma escrita que acompanha o ritmo das histórias que a originaram.
10. Maturidade como construção contínua
"Amaridades" apresenta a maturidade como processo em andamento. Trata-se ade lidar com o que foi recebido e decidir o que permanece. O livro aponta que esse trabalho envolve escolhas conscientes e revisão constante. Ao longo da leitura, fica claro que amadurecer exige enfrentar a própria história sem intermediários. O movimento proposto não encerra questões, mas reposiciona o leitor diante delas.
“Vade Retro, Vampiro!” chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, com gosto de provocação e deboche, apostando no exagero. Dirigido por Antonin Peretjatko, o longa-metragem francês gira em torno do mito do vampiro conduzido por um elenco que abraça o absurdo com Estéban à frente, ao lado de Pascal Tagnati, Yolène Gontrand, Alma Jodorowsky e Arielle Dombasle.
A trama acompanha Norbert, um vampiro aristocrata pressionado por regras familiares rígidas e anacrônicas: ele precisa encontrar uma mulher de “sangue puro” para garantir a continuidade da linhagem. A viagem ao Japão, planejada como solução, termina em naufrágio em Boulet Rouge, uma ilha isolada. O que se instala ali não é exatamente um conflito, mas um desfile de situações descontroladas, em que o nonsense se impõe e a narrativa se recusa a se comportar.
Peretjatko, que assina o roteiro ao lado de Masa Sawada e Laure Desmazières, reorganizou o projeto após a pandemia inviabilizar parte do financiamento internacional. O Japão saiu de cena, e a história foi reconfigurada a partir de referências visuais e geográficas da Ilha de La Réunion, território francês no Oceano Índico. A limitação orçamentária - cerca de 1 milhão de euros - faz com que o filme assuma uma estética assumidamente precária, que flerta com o cinema de gênero europeu das décadas de 1970 e 1980.
O humor oscila entre o escracho e a sátira, cutucando temas como pureza racial e dogmas religiosos a partir de uma lente torta e quase carnavalesca. A escolha de Estéban, conhecido pelo trabalho cômico na televisão francesa, reforça esse tom: o Norbert interpretado por ele é, ao mesmo tempo, patético e magnético. Já Alma Jodorowsky carrega no sobrenome um histórico que dialoga com o espírito do filme - neta de Alejandro Jodorowsky, ela parece perfeitamente à vontade nesse universo que beira o delírio. Arielle Dombasle, por sua vez, amplia o lado camp da narrativa. Há quem enxergue no filme uma comédia anárquica cheia de fôlego e invenção; outros se incomodam com o excesso e a falta de eixo. “Vade Retro, Vampiro!” assume o risco de ser indigesto para alguns e irresistível para outros.
Ficha técnica
“Vade Retro, Vampiro!” | “Vade Retro” (título original)
Gênero: comédia, terror. Duração: 95 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 31 de dezembro de 2025 (França). Idioma: francês. Direção: Antonin Peretjatko. Roteiro: Antonin Peretjatko, Masa Sawada, Laure Desmazières. Elenco: Estéban, Pascal Tagnati, Yolène Gontrand, Alma Jodorowsky, Arielle Dombasle, Pascal Légitimus. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.
Marco Bellocchio dirige “Diabo no Corpo” , filme que chega à plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, carregando a fama que atravessou décadas: a de obra que dividiu plateias, irritou setores conservadores e alimentou debates sobre erotismo, poder e representação no cinema europeu dos anos 1980. Lançado em 1986, o longa-metragem adapta o romance de Raymond Radiguet, publicado em 1923, e desloca a trama original para o clima tenso da Itália dos chamados anos de chumbo, período marcado por radicalização política, terrorismo e instabilidade social.
A história acompanha Andrea (Federico Pitzalis), um estudante que se envolve com Giulia (Maruschka Detmers), mulher mais velha e noiva de um militante preso por terrorismo. O encontro entre os dois evolui rapidamente para uma relação marcada por obsessão, impulsos destrutivos e uma dinâmica que desafia convenções morais. Bellocchio constrói esse vínculo com um olhar direto, sem recuos, o que ajuda a explicar tanto a repercussão quanto a rejeição que o filme provocou desde sua estreia no Festival de Cannes, em 1986.
Maruschka Detmers se tornou o centro das atenções à época. A atuação intensa da atriz, aliada à exposição física e às cenas explícitas, fez dela um símbolo sexual cult no cinema europeu. O figurino assinado por Giorgio Armani reforça a construção dessa personagem ambígua, ao mesmo tempo sofisticada e instável. A atriz, anos depois, admitiria certo arrependimento pela cena mais comentada do filme, a de sexo oral verdadeiro, que acabou ofuscando outras realizações da carreira dela.
O roteiro, assinado por Marco Bellocchio, Ennio De Concini e Enrico Palandri, amplia o alcance do material original ao inserir o romance em um contexto político mais explícito. O noivo de Giulia, ligado a grupos radicais de esquerda, funciona como pano de fundo para uma narrativa em que o desejo se mistura com a sensação de colapso social. A relação entre os protagonistas não se desenvolve isolada; ela responde a um ambiente em ebulição, em que instituições, famílias e certezas parecem frágeis.
A recepção crítica nunca encontrou consenso. Parte da imprensa enxergou ousadia e vigor na forma como Bellocchio articula erotismo e política; outra parte acusou o filme de recorrer ao choque como estratégia. O tempo, no entanto, consolidou “Diabo no Corpo” como um dos títulos mais lembrados da filmografia do diretor, seja pela coragem formal, seja pelo impacto cultural que provocou.
Ficha técnica
“Diabo no Corpo” | “Diavolo in Corpo” (título original)
Gênero: drama, romance. Duração: 1h54. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1986. Idioma: italiano. Direção: Marco Bellocchio. Roteiro: Marco Bellocchio, Ennio De Concini, Enrico Palandri. Elenco: Maruschka Detmers, Federico Pitzalis, Anita Laurenzi, Alberto Di Stasio, Riccardo De Torrebruna. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.