segunda-feira, 13 de abril de 2015

.: Alice, a proposta indecente de Gilberto Braga - por Tamara Cetano

Por Tamara Caetano*
Em abril de 2015


Desde as primeiras cenas, Gilberto Braga já mostrou que Babilônia não é uma novela água com açúcar. Com uma narração veloz (muito bem estruturada) e bem realista, fomos apresentados a diversos personagens materialistas, cínicos, com princípios morais duvidosos e que pouco pensam no outro.

O público pode escolher: têm cafajestes para todos os gostos. A começar pela ninfomaníaca Beatriz (Glória Pires), que se aproveita de uma mulher em estado vegetativo para se aproximar do futuro viúvo, até o prefeito Aderbal, que pousa como pai de família exemplar, religioso e defensor do povo, mas no fundo é um picareta que desvia verba pública e comete diversos atos que publicamente ele recrimina. Uma caricatura de muitas figuras públicas que vemos hoje.

Em um mundo com tantos espertos, Regina (Camila Pitanga), até então a mocinha da história, se destoou demais de “Babilônia”. Não acredito que seja por conta do trabalho da atriz, Camila Pitanga está segura em seu papel, mas acho que o texto de Braga pede outro perfil de protagonista e talvez neste momento Alice (Sophie Charlote) ganhe campo. Potencial a personagem e a atriz já mostraram que têm.

Desde primeira fase, ela vem se destacando. Ainda criança, Alice teve papel fundamental na apresentação de sua mãe, Inês (Adriana Esteves), ao público. A menina foi espectadora de uma briga entre seus pais (a clássica discussão de casal sobre a “vida difícil” que Gilberto Braga não abre mão), em sequência, quando questiona a mãe sobre o lanche que ela ficou de comprar para levar à escola, Inês, de olho em uma revista que publica uma reportagem sobre Beatriz dispara de forma áspera: “Leva banana!” e logo torna a falar da amiga.

Ali, fica claro a falta de interesse da vilã por sua família e, também, a obsessão pela arquiteta. Ainda vale lembrar que o vídeo que comprova o adultério de Beatriz, e que Inês usou para chantageá-la, foi feito da máquina fotográfica que Alice ganhou de Natal de seu pai, Homero (Tuca Andrada).

Na segunda fase, Alice vem dando mais pano para manga. Em menos de 20 capítulos, a garota engravidou do motorista de seu noivo ancião, esbofeteou a mãe, perdeu o bebê, perdeu o pai, voltou para o Brasil e se envolveu com Murilo (Bruno Gagliasso) sem saber que ele é um cafetão, além de quase chegar a fazer seu primeiro trabalho como garota de programa. Por outro lado, Regina está há quase duas semanas em um único dilema: saber se pode confiar em Vinicius (Thiago Fragoso) depois de descobrir que ele ainda é casado no papel. Pouquíssimo apelo para prender um público tão exigente. Quem sabe quando ela desvendar a morte do pai, sua trama cresça.


Anti-heroína não seria uma novidade para Gilberto Braga. Júlia Matos (Sônia Braga) de “Dancyn Day’s” (1978), personagem ícone do autor, é uma ex-presidiária que após sofrer nas mãos da irmã, Yolanda Pratini (Joana Fomm), e ser abandonada pelo namorado Cacá (Antônio Fagundes), se casa com Ubirajara (Ary Fontoura), por interesse. Júlia faz uma viagem internacional e após um banho de loja, volta triunfante na inauguração da boate “Dancyn Day’s” pronta para se vingar de todos. Ligia (Betty Faria) de “Água Viva” (1980, também escrita por Gilberto Braga) era uma carreirista que sonhava entrar para a alta sociedade e também se casou por estabilidade financeira com Miguel Fragonar (Raul Cortez). Sophie Charlote também já encarou algumas mocinhas “às avessas”, a Amora de “Sangue Bom” (2013) e Duda de “O Rebu” (2014), que até participou do assassinato de Bruno (Daniel Oliveira), seu namorado.

Após pesquisas feitas pela Rede Globo foram divulgadas notas que a Alice seria um dos personagens com maior modificação de “Babilônia” para reconquistar o ibope. O plano era que ela aceitasse trabalhar como garota de programa e começasse a ter uma relação com Evandro (Cássio Gabus Mendes), agora parece que Evandro e Alice se conhecerão de outra forma e se tornarão amigos possibilitando, mais para frente, um romance. Também enxergo a hipótese de Murilo se apaixonar de verdade pela namorada. Quem sabe um triangulo amoroso “à lá” o filme “Proposta Indecente”* (1993)? 

Não sei qual caminho Gilberto Braga deve seguir, novela é uma obra aberta. Eu espero que ele seja feliz em sua escolha e que Babilônia não seja encurtada, desde “Avenida Brasil”, não me empolgo tanto com os primeiros 20 capítulos de uma novela das oito. 

*Filme de 1993 - Um casal enfrentando dificuldades financeiras resolve tentar a sorte em Las Vegas, mas nada consegue. No entanto, conhecem John Gage, um bilionário (Robert Redford) que oferece um milhão de dólares ao marido, David (Woody Harrelson) para permitir que a sua mulher, Diana (Demi Moore) vá para a cama com ele por apenas uma noite.


***
Tamara Caetano é jornalista formada em Comunicação Social - Jornalismo, pela Universidade Católica de Santos. É repórter free-lancer de vários veículos de comunicação, assessora de imprensa e, quando tem tempo livre, uma crítica apaixonada de telenovelas.
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