quinta-feira, 20 de setembro de 2018

.: A face desconhecida dos nossos Parentes

Em seu novo livro, o fotógrafo Rogério Ferrari mostra registros de povos indígenas na Bahia


"Parentes" é o volume mais recente da obra que o fotógrafo e antropólogo Rogério Ferrari vem compondo no âmbito do projeto Existências-Resistências, desenvolvido desde 2002 com o propósito de retratar a luta de povos e movimentos sociais por terra e autodeterminação. O livro, que será lançado no próximo dia 21 de setembro, às 19h, na RV Cultura e Arte, é um registro de povos indígenas na Bahia e resulta da itinerância do fotógrafo, que percorreu diferentes regiões do estado para mostrar “a face, para muitos desconhecida, dos nossos parentes”. 

Ferrari explica que "Parentes" “é um trabalho no âmbito do que venho fazendo através da fotografia: comunicar, informar, compartilhar”. O fotógrafo coloca em evidência “a diversidade, a permanência e resistência dos povos originários na Bahia”, revelando, em 64 imagens em preto e branco, a “face” dos Pataxó, Pataxó Hã Hã Hãe, Tupinambá, Pankaru, Pankararé, Tuxá, Atikun, Kaimbé, Tumbalalá, Kiriri, Kantaturé, Tuxi, Kariri-Xocó e Truká. Neste sentido, o livro torna-se lugar de encontro – ou reencontro – entre o leitor e esses parentes, pois, para o autor, “através dos retratos pode sugerir um autoreconhecimento coletivo e a reiteração de uma identidade negligenciada”. 

Por meio da publicação, o fotógrafo compartilha seu encontro pessoal com muitos parentes. As fotografias são recortes de suas vivências com comunidades indígenas de Santa Cruz Cabrália, Pau Brasil, Itaju do Colônia, Porto Seguro, Buerarema, Ilhéus, Olivença, Paulo Afonso, Curaçá, Euclides da Cunha, Banzaê, Ibotirama, Rodelas, Quijingue, Glória e Abaré, entre outros municípios baianos. O livro, que tem patrocínio do Fundo de Cultura (Secult-Ba), traz um mapa localizando cada comunidade contemplada no projeto.

Parentes reúne ainda textos essenciais que amplificam o diálogo proposto por Rogério Ferrari com o leitor, como o do pataxó Genilson Tacuari, que assina o posfácio. O volume conta com contribuições importantes de pesquisadores do Programa de Pesquisas sobre Povos Indígenas do Nordeste Brasileiro, como a de sua coordenadora, a antropóloga Maria do Rosário Carvalho, professora da Universidade Federal da Bahia – UFBA, que prefacia a obra. Já o antropólogo José Augusto Laranjeiras Sampaio, professor da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, pesquisador associado do mesmo programa, faz uma análise sobre a condição das terras indígenas na Bahia. Ferrari, que é mestre em Antropologia, também escreve sobre os povos retratados, partilhando suas impressões e buscando, desse modo, contribuir para tornar mais próximos esses nossos parentes. 

Sobre o autor: Fotógrafo independente, Rogério Ferrari (1965-) é baiano de Ipiaú e vem retratando povos de várias partes do mundo que resistem para existir. Ele assina uma obra singular que chega agora ao seu sétimo volume (Parentes), e se inscreve no âmbito do projeto Existências-Resistências, que, através de suas publicações, de debates e exposições fotográficas tem evidenciado as lutas dos palestinos que vivem sob a violenta ocupação israelense; do povo curdo, na parte da região ocupada pela Turquia; os Zapatistas, no México; o Movimento dos Sem-Terra, no Brasil; os refugiados palestinos, no Líbano e na Jordânia; os refugiados Saarauís, no deserto do Saara e nos territórios ocupados pelo Marrocos; os Mapuche, no Chile; os ciganos, na Bahia; e os índios Guarani Kaiowá, no Mato Grosso do Sul. 

Trata-se de uma trajetória incomum, marcada tanto pela documentação de eventos históricos, a exemplo da queda do Muro de Berlim (1989) e a invasão da Palestina pelo Exército de Israel (2002), como também por encontros com figuras lendárias, como o então líder da OLP (Organização pela Libertação Palestina), Yasser Arafat, e o subcomandante Marcos (hoje, subcomandante Galeano), porta-voz do Exército Zapatista de Libertação Nacional. Parentes, livro que lança em 2018, reflete seu olhar singular focado na perspectiva daqueles que retrata, contrapondo-se às informações difundidas na mídia. Nesta publicação, o fotógrafo permanece reativo à tendência de espetacularização da tragédia humana, reafirmando um posicionamento movido por seus ideais políticos. 

Com argumentos sólidos, sua obra publicizada já tem inscrições no campo cinematográfico, através do curta-metragem Muros, de Camele Queiroz e Fabricio Ramos, e no âmbito da pesquisa acadêmica como tema de artigos e dissertações: Nosoutros, Os Ciganos. Entre o Estigma e a Resistência (2016), defendida por Rogério Ferrari, no mestrado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; e “O que faria com aquilo que entrava pelos meus olhos?” – Gesto e poética na fotografia de Rogério Ferrari (2016), defendida por Cássia Nunes, para obtenção do grau de Mestre, no Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (UFBA). 

Serviço
Parentes, de Rogério Ferrari
Edição do autor, 2018
140 páginas
R$ 70,00

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