sexta-feira, 31 de maio de 2019

.: Entrevista com Flavio Falcone: um psiquiatra de palhaço na Cracolândia

Por Camila Mendonça* e Maiara Polezelli*, em maio de 2019.

Flavio Falcone é um psiquiatra que usa seu trabalho com o objetivo de tirar e reabilitar dependentes químicos situados na Cracolândia. Seu principal meio de abordagem com estas pessoas é a partir da fantasia e da arte circense. A iniciativa tem o objetivo de recuperar esses pacientes para serem reinseridos novamente na sociedade.

A história da carreira do psiquiatra já começa antes mesmo de concluir a faculdade, com a atuação em projetos na cidade de São Bernardo do Campo. A principal intenção dele é mostrar aos dependentes químicos uma nova forma de ver a vida, e que tudo isso requer arte, amor e compromisso.

Um dos meios de abordagem de Falcone, além da fantasia de palhaço, é a construção de peças de teatro, que envolvem rap e circo, englobando pacientes e promovendo repercussão perante uma sociedade muitas vezes preconceituosa, resultando na reabilitação de alguns desses pacientes.

O trabalho do psiquiatra gerou bons resultados, inspirando a criação de outros projetos deste segmento, e fazendo, é claro, muitas pessoas terem algumas dúvidas a respeito de sua história e sua trajetória nesses projetos. É a respeito dessas dúvidas que Flavio Falcone, recentemente em cartaz com a peça teatral "Dr. Palhaço e o Fluxo" apresentada no Teatro de Contêiner Mungunzá (SP), responde a esta entrevista.


RESENHANDO - Existe alguma motivação pessoal que levou a lutar por essa causa, que seria a reabilitação de dependentes químicos na sociedade?
FLAVIO FALCONE - A consciência do lugar de fala e dos privilégios que possuo. Sou médico, estudei na USP e sei que posso fazer a diferença para que seres humanos que estão invisíveis sejam vistos e para que suas vozes sejam ouvidas. A atual política de drogas, baseada no proibicionismo e na "guerra às drogas" é o principal mecanismo de perpetuação do racismo e da falsa conciliação entre os colonizadores e colonizados. Não quero ser mais um médico que legitima essa guerra sangrenta e classista.


RESENHANDO - Você sente falta de recursos e apoio que te ajudariam a continuar com o seu programa de reabilitação?
F.F. - Muita falta. Os recursos públicos estão nas mãos de caciques da psiquiatria que dizem como será utilizado o dinheiro, mas que nunca conversaram com um usuário da Cracolândia. Cobram R$ 1800 a consulta em seus consultórios e parecem só estar interessados na obtenção de mais poder. Quem está na ponta é quem faz acontecer e sabe o que precisa. Os atuais governos (municipal e estadual) não têm escuta para os trabalhadores da ponta. Trata-os como funcionários descartáveis e produzem uma medicina de protocolos, em que os usuários são obrigados a se adequar.  Perdemos a singularidade de cada caso.


RESENHANDO - Você pretende criar novos projetos a respeito do assunto no qual você trabalha?
F.F. - Sim, uma casa que possa acolher usuários na perspectiva da redução de danos e um documentário sobre esse processo.


RESENHANDO - Que outros meios e instrumentos você usa para se aproximar de seus pacientes, além do pandeiro?
F.F. - O nariz de palhaço e uma caixa de som para fazer uma rádio que eles e elas possam escolher a música que querem ouvir.


RESENHANDO - Qual a postura da sua família em relação ao seu trabalho?
F.F. - Eles sempre me apoiaram.


RESENHANDO - De que maneira a arte pode servir como reabilitação para os dependentes químicos?
F.F. - Arte é o instrumento mais universal para expressão da transcendência. A arte liberta e cabe todas as visões de mundo.


RESENHANDO - Você esperava tocar tantas pessoas com o seu trabalho?
F.F. - Sim, sempre soube do poder que o arquétipo do palhaço tem. Por isso escolhi o nariz vermelho como meu “estetoscópio”.


RESENHANDO - Você imaginava a repercussão que seu trabalho poderia causar no mundo das drogas?
F.F. - A intenção é essa. Não dá mais para fingir que não vivemos uma guerra sangrenta e racista e continuar insistindo na mesma política falida.


RESENHANDO - Como as pessoas à sua volta reagiam no início, ao saber que você queria  trabalhar na área de usuários de drogas?
F.F. - Elas acreditavam que eu não aguentaria, porque é muito difícil e frustrante. Todavia, para mim, o difícil sempre foi a relação com o poder público, nunca com o usuário.


RESENHANDO - Como surgiu a ideia de trabalhar com arte no processo de cura?
F.F. - Surgiu a partir do efeito que a arte teve no meu processo de cura. Percebi que o palhaço transforma a tragédia em riso, e rir de si mesmo é libertador.


RESENHANDO - O que você diria para pessoas que tomam você como inspiração?
F.F. - Se querem ser palhaços, estudem o palhaço a fundo.


RESENHANDO - O que o crack causa nas pessoas?
F.F. - O mesmo efeito da cocaína, só que mais intenso e agudo. É um estimulante do sistema nervoso.



Camila Mendonça* é aprendiz de técnico em informática, aspirante a advogada e jornalista, nomeada entre alguns concursos como uma das melhores redações. Apaixonada por música, literatura e séries. Futura atuante na área do terceiro setor. 

Maiara Polezelli* é estudante do Ensino Médio Integrado ao Meio ambiente na Etec de Itanhaém.

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