sexta-feira, 24 de maio de 2019

.: Teatro: "Terrenal - Pequeno Mistério Ácrata" é apresentado no Sesc Santos


Espetáculo chega ao Sesc Santos com duas sessões (dias 24 e 25 de maio), sexta e sábado, 20h Dirigido pelo santista Marco Antônio Rodrigues e texto do argentino Mauricio Kartun, a tragicomédia conta com Celso Frateschi, o ator santista Dagoberto Feliz, Sergio Siviero e Demian Pinto no elenco.

Dias 24 e 25 de maio, sexta e sábado, 20h, o Sesc Santos recebe o espetáculo "Terrenal". Os ingressos estão à venda online (www.sescsp.org.br/santos) e na bilheterias do Sesc SP, e custam R$ 6 (credencial plena), R$ 10 (meia) e R$ 20 (inteira).

Baseado na história bíblica de Caim e Abel, dois irmãos que vivem às brigas competindo tanto pela atenção do “pai” quanto pela propriedade, é o argumento de "Terrenal - Pequeno Mistério Ácrata". A direção é de Marco Antônio Rodrigues, com tradução de Cecília Boal e um elenco composto por Celso Frateschi, Sergio Siviero, Dagoberto Feliz e Demian Pinto, que faz a trilha ao vivo no espetáculo.

Por meio de uma linguagem cênica que prioriza a comicidade, a tragicomédia e a metateatralidade, "Terrenal" poetiza sobre a história de ódio entre dois irmãos, e aponta, em um pano de fundo, conflitos sociais. O texto bíblico do livro de Gênesis narra o que é considerado o primeiro assassinato do mundo, mas Kartun aproveita este mito e vai além – usa esta potência do conflito para falar de assuntos contemporâneos que envolvem justiça, riquezas e visão de mundo.

Aliás, com muito merecimento, a questão tem aparecido em outras searas artísticas, como o emblemático livro “Caim”, de José Saramago, da Companhia das Letras, que nas palavras de Juan Arias, jornalista e escritor, “(...) é também um grito contra todos os deuses falsos e ditadores criados para amordaçar o homem, impedindo-o de viver, em total liberdade, sua vida e seu destino”.

Na montagem dirigida por Marco Antônio Rodrigues, os atores são artistas populares que encenam um espetáculo sobre Caim e Abel. Com recursos circenses, essa metateatralidade aponta para metáforas contemporâneas de nossa sociedade, como um Caim (Dagoberto Feliz) fixado em sua terra, acumulador de bens e moral. Já Abel (Sergio Siviero) é o nômade, sem muitas ambições além de ‘pastorear’ suas minhocas, é o paradoxo do irmão. Tata (Frateschi) é o pai de ambos, dual, carrega em si o caráter libertário e opressor, é aquele que os abandonou por 20 anos, mas também é aquele que volta e festeja.

O texto original é de Mauricio Kartun - considerado um dos mais importantes dramaturgos da Argentina e uma referência no teatro latino-americano. Com mais de quatro décadas de carreira, desde sua estreia, com "Civilización… ¿o Barbarie?" (1973), o artista tem realizado trabalhos marcados pelo compromisso com a atualidade política de seu país, além de um texto que flerta com a mitologia clássica.

"Terrenal" foi traduzido para o português por Cecília Boal, viúva de Augusto Boal, principal liderança do Teatro de Arena (SP) na década de 1960, criador do teatro do oprimido, metodologia internacionalmente conhecida que alia teatro e ação social. O dramaturgo fez parte do grupo teatral argentino El Machete, que encenou em 1973 na extinta Sala Planeta em Buenos Aires a peça "Ay, Ay! No Hay Cristo que Aguante,  No Hay!" adaptação de “Revolução na América do Sul”, com a direção de Augusto Boal.

Desde a sua estreia em terras portenhas em 2014, Terrenal tem se mostrado um fenômeno da cena teatral independente da argentina. São mais de 65 mil espectadores e dezenas de premiações, como os argentinos Prêmio de Crítica da Feira do Livro, pelo texto, e o Prêmio da Associação de Cronistas de Espetáculos (melhor obra). O Instituto Augusto Boal é o idealizador e a Associação Cultural Corpo Rastreado e a DCARTE são coprodutoras do espetáculo.

Conflitos em Cena
O enredo desta tragicomédia parte da história de dois irmãos que habitam o mesmo terreno, comprado pelo pai. A princípio considerado um ‘paraíso’, o pedaço de terra está situado em uma conurbação urbana. A história se passa em um domingo (dia santo), que marca também vinte anos de sumiço de Tata, o pai, que os abandonou ainda pequenos. O dia começa com os irmãos em conflito: Caim cumpre o mandamento de descansar, enquanto Abel só trabalha justamente aos domingos, vendendo iscas, besouros e minhocas para os vizinhos irem à pesca.

Caim produz pimentões, dedica-se à produção e ao comércio e usa isso como motivo de orgulho para tripudiar sobre o irmão - ele é aquele que em um futuro próximo erguerá cidades cheia de muros para defender o patrimônio. Abel não tem apego à terra, é um nômade sonhador, cultiva o ócio e usufrui das delícias da vida.

Sinopse
Em um fracassado loteamento, Caim (Dagoberto Feliz) e seu irmão Abel (Sergio Siviero) desenvolvem uma versão conturbada do mito bíblico: a dialética história entre o sedentário e o nômade. Entre um Caim dono de um sítio, produtor de pimentões reputados e um Abel vagabundo, que fora de toda cadeia de produção sobrevive vendendo isca viva aos pescadores da região. Dois irmãos sempre em peleja que compartilham um mesmo terreno baldio dividido e que jamais poderão construir uma morada comum. A história se passa em um domingo (dia santo) que marca vinte anos do desaparecimento de Tata, o pai (Celso Frateschi), que os abandonou ainda pequenos.


Textos enviados por Maurício Kartun, Cecília Boal e Marco Antônio Rodrigues

"Adão e Eva tiveram dois filhos homens. O mais velho se chamava Caim, nome que significa possessão, e o mais novo Abel, que significa nada [...] Enquanto Abel, o mais jovem, procurava ser justo e se dedicava à vida pastoril, Caim pensava unicamente na riqueza e, por isso, foi o primeiro homem a arar a terra [...] Eles ofertaram seu trabalho a Deus [...] que se agradou com os frutos da natureza e não com os produzidos pela força e astúcia de pessoas avaras, Caim ficou irritado com a preferência de Deus por Abel e matou seu irmão [...] Após percorrer muitas regiões, Caim, junto de sua esposa, tomou posse de Nod, ali fez moradia e foi onde nasceram seus filhos [...] Aumentou suas posses com abundante riqueza proveniente de roubo e violência e, graças à sua invenção de pesos e medidas mudou a maneira prudente com que os homens viviam antes, convertendo as vidas que eram puras e generosas, por desconhecerem tais artifícios, em vidas maliciosas. Foi o primeiro a demarcar as terras. O primeiro a fundar uma cidade e fortificá-la com muralhas para proteger seu patrimônio, obrigando aos seus a viver fechados ali."

-Edición de José Vara Donado, Madrid, Akal, 1997.
(Maurício Kartun)

Há mais de 500 anos a América Latina está sendo submetida e espoliada. Faz parte desse projeto de poder a destruição da sua identidade e o não reconhecimento da sua singularidade, dos seus valores, da sua cultura, dos seus artistas.

Na contramão desse projeto de poder, o Instituto Augusto Boal tem se dedicado de maneira ativa e persistente a divulgar a dramaturgia latino-americana. "Terrenal" é o segundo texto do dramaturgo argentino Mauricio Kartun que iremos trazer a conhecimento do público brasileiro. 

Boal e Kartun mantiveram uma intensa relação de trabalho durante o período do exílio de Boal na Argentina. Ambos compartilhavam as mesmas preocupações pelos nossos países dominados. Terrenal é um dos últimos textos de Kartun e, na nossa opinião, um dos melhores. Terrenal, a terra, que é e não é um paraíso, nos propõe uma versão dialética do episódio bíblico, a eterna luta dos irmãos que sempre acaba em morte, a impossível missão de destruir o diferente. Terrenal revela o que já sei, o diferente está em mim, sou eu mesmo. E tenho que conviver com ele.

Cecília Boal

Existem histórias que caminham pelo mundo há tanto tempo que parece que estão aí desde sempre. Não à toa, surgiram no Gênesis. E ocupam as nossas cabeças e a nossa imaginação com força recorrente e energia inesgotável. São singulares, como esta de Caim e Abel que parece ser o primeiro homicídio da humanidade. Matrizes que são, geram inúmeros estudos, ensaios, parábolas, reflexões. Revelam outro mistério: a incrível capacidade fabular do homem, a força da lenda, o que, em última análise talvez tanto possa ser a fonte das humanidades enquanto salvaguarda à barbárie, quanto o seu vice-versa: ficção distorcendo fatos, criando formas a horrorizar e esvaziar conteúdos.

Na sociedade virtualizada, digital, mitos, fábulas e narrativas ocupam espaço central nas nossas vidas, e não raro, manipulam mentes e corações, subtraindo a memória e a história, distorcendo destino de nações e povos.

"Terrenal - Pequeno Mistério  Ácrata" é neste sentido, uma obra otimista, porque repõe a lenda dos dois irmãos como um microcosmo das relações sociais e contemporâneas. A obra argentina aqui se aclimata perfeitamente – num país encharcado por crimes violentos de ordem passional – e é otimista porque tem uma perspectiva épica, já que não trata destes conflitos magníficos enquanto ontologia humana, mas como estrutura e construção social, podendo, sim, a seu tempo ser superados em outras formas de contratos sociais. 

Mauricio Kartun, o autor também de “Ala de Criados” aqui encenada o ano passado, é um dos mais respeitados dramaturgos da América Latina. Em seu trabalho de criação, Kartun parte de um acontecimento (e no caso presente o fratricídio, por sua longa trajetória mítica ganha característica factual de acontecimento), conectando-o a outras imagens, fragmentos míticos, geografias afins, de forma a examinar de onde viemos e como hoje aqui chegamos. Na refabulação de Kartun, os dois irmãos esperam o retorno do pai, que há vinte anos os abandonara num loteamento em uma conurbação urbana. Quando o pai chega, Caim, na ânsia de agradar a Deus, mata o irmão como ato de amor – sua compreensão distorcida o perde, já que para ele, na mais pura tradição religiosa, só oferendas de sangue, só o sacrifício do cordeiro tem pacífica e cabal eficácia.

Kartun é um recontador de histórias – seus personagens são rapsodos encarnando personagens. E é assim que a história vai sendo cantada, de vila em vila, de burgo em burgo, de metrópole em metrópole, na esperança de ser refeita. Pequeno mistério ácrata. Marco Antônio Rodrigues.

Ficha Técnica 
Texto: Mauricio KartunTradução: Cecília BoalDireção: Marco Antônio RodriguesElenco: Celso Frateschi, Dagoberto Feliz, Sérgio Siviero e Demian PintoDireção: musical Demian PintoAssistente de direção: Tiago CruzPreparação musical: Marcelo ZurawskiPreparação Corporal: Esio MagalhãesAssessoria de mágicas: Rudifran PompeuCenário e Figurinos: Sylvia MoreiraContrarregra: Guilherme MagalhãesVisagismo: Kleber MontanheiroDesign de luz: Túlio PezzoniOperador luz: João Piagge
Design de som: Gabriel HernandesOperadora som: Monique CarvalhoFotografia: Leekyung KimAssessoria de imprensa: Márcia MarquesRedes Sociais: Menu da MúsicaDesigner Gráfico: Zeca RodriguesCenotécnicos: Zé Valdir e Marcelo Andrade
Gestão de Projetos DCARTE e Corpo RastreadoAdministração: Corpo Rastreado e DCARTEProdução executiva: DCARTE e Corpo RastreadoIdealização: Instituto BoalRecomendação: 16 anos
Duração: 90m

Serviço
"Terrenal - Pequeno Mistério  Ácrata"
Não recomendado para menores de 14
R$ 20. R$ 10 (meia). R$ 6 (credencial plena)
24 e 25 de maio. Sexta e sábado, às 20h
Ingressos à venda online e nas bilheterias do Sesc SP.
Venda limitada a 6 ingressos por pessoa. Lotação sujeita à capacidade do local
oficina. 

O estado clownesco e sua musicalidade como preparação para a cena - Com Dagoberto
Feliz. O que um estado clownesco pode ajudar para uma cena dramática? Quando a máscara pode auxiliar no jogo cênico mesmo não sendo utilizada Essas discussões tem aparecido na feitura de espetáculos e se não diretamente, sempre que os atores pretendem estar em cena. Também a utilização da música, dentro desta estratégia, de perceber mais claramente a verdade-mentira do ator, é usada como mais um recurso de preparação para a cena. A utilização da improvisação musical dentro de um estado clownesco para assim, quem sabe, nos aproximarmos melhor do conceito de indivíduo-ator-criador.

Estratégias

  • Utilização da Música para fazer com que os conceitos da dupla de palhaços “Branco e Augusto” se misturem;
  • Jogos de improvisação com música e com a relação que aparece entre esses dois estados complementares do clown;
  • Discussão sobre a aproximação da máscara e/ou a não utilização dela.

Sala 32.
Não recomendado para menores de 16.
Grátis
25 de maio. Sábado, às 13h.
Inscrições na Central de Atendimento. 20 Vagas.
Sesc Santos
Rua Conselheiro Ribas, 136 – Aparecida
Tel: (13) 3278-9800

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