quinta-feira, 18 de julho de 2019

.: "Medo Imortal" redescobre Machado de Assis, um intelectual negro


Mais de um século depois de seu nascimento, a verdadeira imagem de Machado de Assis finalmente é reconhecida. Joaquim Maria Machado de Assis nasceu pobre e negro no morro do Livramento, centro do Rio de Janeiro, há exatos 180 anos. Epilético, tímido, de saúde frágil e órfão de mãe aos anos anos de idade, Machado de Assis viria a se tornar o maior escritor da literatura brasileira, e um dos maiores do mundo. 

A genialidade de suas obras é inegável e imortal, no entanto, sua imagem, na foto oficial do autor, foi embranquecida com o passar dos anos. O perfil de um homem com barba, óculos e roupas alinhadas perpetuado em suas obras e nos livros didáticos não era o de Machado de Assis.

Filho de uma lavadeira e de um pintor negro, Machado é celebrado por obras como "Dom Casmurro" e "Memórias Póstumas de Brás Cubas", além de inúmeros poemas, contos e crônicas. Ele também foi jornalista, crítico literário e dramaturgo, além de um dos fundadores e presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), ao lado de amigos intelectuais e escritores como Júlia Lopes de Almeida, Coelho Neto, Aluísio Azevedo, Afonso Celso, Inglês de Souza e Medeiros e Albuquerque.

Na antologia "Medo Imortal", publicada pela DarkSide Books, Machado de Assis nos presenteia com o conto "A Igreja do Diabo". Nele, um diabo charmoso, persuasivo e corajoso desafia Deus e conquista discípulos para sua igreja. As virtudes pregadas pelo diabo idealizado por Machado eram tecidas em fina ironia. “A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada", diz um trecho do conto.



Machado de Assis e a antologia "Medo Imortal", da DarkSide Books
É fato que Machado de Assis figurou entre a alta sociedade e os principais intelectuais de sua época, mas sua história acabou sendo retratada de maneira racista quando nos damos conta de que sua imagem histórica foi alterada com truques de luz e sombra para suavizar seus traços. Estudado por antropólogos e especialistas em literatura brasileira, o maior autor do Brasil teve sua cor e seus traços africanos finalmente respeitados – refeitos por meio de colorização, as fotos de Machado de Assis passaram a retratá-lo como ele realmente foi: negro. Assim nasceu a campanha Machado de Assis Real, criada pela Faculdade Zumbi dos Palmares.

“O racismo no Brasil escondeu quem ele era por séculos. Sua foto oficial, reproduzida até hoje, muda a cor da sua pele, distorce seus traços e rejeita sua verdadeira origem. Machado de Assis foi embranquecido para ser reconhecido. Infelizmente. Um absurdo que mancha a história do país. Uma injustiça que fere a comunidade negra. Já passou da hora de esse erro ser corrigido”, diz o site do movimento, que também disponibiliza a foto corrigida do autor para ser impressa e colada sobre as fotos que o retratam como um homem branco.

A ABL também já reconheceu o erro histórico e o atual presidente da Academia, Marco Lucchesi, recebeu o retrato real de Machado, de 1893, em maio deste ano. O resgate da imagem de Machado de Assis não é apenas visual, mas também é de sua reputação e da importância histórica de sua obra, o maior autor da literatura brasileira era, de fato, um intelectual negro.



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