domingo, 22 de novembro de 2020

.: "Lupa da Alma", de Maria Homem, mostra insights sobre a pandemia

"Lupa da Alma: Quarentena-Revelação", de Maria Homem faz uma leitura cheia de insights sobre o maior laboratório subjetivo da história humana.

A pandemia tornou as crises mais agudas. As emoções parecem estar à flor da pele. Se estávamos buscando formas de mantê-las sob controle, ou sob anestesia, agora parecem ter obtido um passe livre para circular sem tanta repressão. Como não escutar esse caos que parece explodir em forma de revelação? "Lupa da Alma: Quarentena-Revelação" explora o impacto do vírus em diversas esferas da vida: amor, ódio, família, amigos, trabalho, morte. 

Com a verve e a inteligência que fizeram de Maria Homem uma das psicanalistas brasileiras de maior projeção nos últimos anos, ela oferece alento nesse momento de incerteza e examina formas de angústia que falam direto ao lado sombrio de cada um de nós. "Lupa da Alma: Quarentena-Revelação" faz parte da Coleção 2020 - Ensaios Sobre a Pandemia, criada e produzida durante a pandemia de covid-19, reúne autores e autoras que se dedicaram a refletir e a provocar o pensamento em livros breves, atuais e contundentes. 

Maria Homem é psicanalista, pesquisadora do Núcleo Diversitas FFLCH/USP e professora da FAAP. Com pós-graduação em Psicanálise e Estética pela Universidade de Paris VIII, Collège International de Philosophie e Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é autora de "Coisa de Menina?" e "No Limiar do Silêncio e da Letra", entre outros. Você pode comprar "Lupa da Alma: Quarentena-Revelação", de Maria Homem, neste link.

Trecho do livro
O ano de 2020 deverá fazer história. Nem bem tinha começado, já transformava vidas e trazia mortes. Ainda agora, na metade, vivemos tempos conturbados. Estamos menos protegidos por uma rotina ou uma previsibilidade sobre o trabalho, o dinheiro, o futuro, nosso corpo ou nossos projetos. Enfim, a própria vida. Em momentos assim as coisas se tornam mais agudas. A semente de inquietação ou loucura dentro de nós parece que se expande. Irrequietos não conseguem ficar quietos ou em casa. Deprimidos ficam mais tristes e ansiosos. Loucos ficam mais delirantes. Agudizar seria o verbo destes tempos? As emoções parecem estar à flor da pele.

Se estávamos buscando formas de mantê-las sob controle, ou sob anestesia, agora parecem ter obtido um passe livre para circular sem tanta repressão. Ficamos ouvindo gritos no interior da nossa mente, entre as pessoas próximas ou vindos lá de longe no mundo. Talvez todos tenhamos momentos de destempero, e seria importante saber disso. O que é aliás um saber que deveria nos acompanhar para além de pandemias, pois não somos pura razão.

Para começo de conversa, há que se reconhecer que o Eu não é senhor em sua morada, como diria Freud, e que a consciência não é soberana. Nossa subjetividade, fomos descobrindo pouco a pouco, e não sem resistência, é mais complexa que isso. É também caos, desrazão, dúvida, engano, autoengano, sabotagem e criação. Em momentos assim, de crise e saída do que inventamos como rotina partilhada, o caldeirão parece ferver. Subjetiva e socialmente. Mas não são somente os afetos que saíram da caixa de Pandora. Também deixamos escapar palavras e mesmo ideias que antes ficavam bem trancadas.

A gente diz o que antes parecia impensável, ou mesmo desconhecido. A nós mesmos, para o bem e para o mal. O difícil equilíbrio entre razão e emoção parece estar trincado: as ideias mais improváveis são alinhavadas e os sentimentos saem das rédeas. Além disso, neste momento, e no mundo todo, as coisas ficam mais agudas para cada um mas também no coletivo. Os pactos sociais se desequilibram, tanto no interior das casas quanto no calor das ruas. Aumento do consumo de álcool? De violência doméstica? Consumo de todos os tipos de drogas, imagens, mercadorias? Manifestações ocupam as ruas e rompem a quarentena. A violência emerge mais claramente e conflitos vêm à tona.

Brancos e negros, ricos e pobres, homens e mulheres. Todos somos iguais? A quarentena mostra que isso não é verdade. As formas de viver, de adoecer e de morrer mostram que isso está longe de ser verdade. No Brasil, além de todas essas questões, temos ainda formas arcaicas de fazer política, seja política ligada à conquista e manutenção do poder, seja ligada à saúde, educação, economia e outras áreas vitais.

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