domingo, 19 de março de 2023

.: Entrevista: Júlio Fischer fala sobre as emoções da próxima novela das seis


Autor de "Amor Perfeito" conta sobre o que o público pode esperar da próxima novela das seis. Na imagem, 
Elisio Lopes Jr., Duca Rachid e Júlio Fisher. Foto: Globo/Paulo Belote

Nesta segunda-feira, dia 20 de março, começa "Amor Perfeito", a próxima novela das seis. E o autor Júlio Fischer fala sobre as emoções e  tramas que prometem fazer da cidade fictícia de Águas de São Jacinto um lugar onde o mais sublime dos sentimentos transborda em suas variadas formas. Ele divide a autoria com Duca Rachid e Elísio Lopes Jr. 

A nova novela apresenta uma história sobre o mais sublime dos sentimentos - o amor e suas diferentes manifestações. A trama se passa nas décadas de 1930 e 1940 em Águas de São Jacinto, uma fictícia cidade do interior de Minas Gerais, e é livremente inspirada na obra “Marcelino Pão e Vinho”, de José María Sánchez Silva, publicada pela primeira vez no começo dos anos 50.

Júlio Fischer é dramaturgo e roteirista, nascido em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Na TV Globo, é desde 1997 autor-roteirista, onde foi colaborador de autores como Walther Negrão, Elizabeth Jhin, Duca Rachid e Thelma Guedes, em mais de uma dezena de novelas, entre elas, "Era Uma Vez..." (1998), "Desejo Proibido" (2007) e "Cordel Encantado" (2011). Como autor, esteve à frente do "Sítio do Picapau Amarelo" (2001), com Duca Rachid e Alessandro Marson, e "Sol Nascente" (2016), com Walther Negrão e Suzana Pires

Pós-graduado em Teatro pela Universidade de São Paulo, orientado por Barbara Heliodora, foi assessor de Bibi Ferreira no espetáculo “Brasileiro Profissão Esperança”, estrelado e dirigido pela atriz, e autor de peças como o musical “A Canção de Assis”, “Personalíssima - A vida e as canções de Isaura Garcia”, “Emilinha e Marlene, as Rainhas do Rádio”, em parceria com Thereza Falcão, e “As Brasas”, em parceria com Duca Rachid, baseado no romance homônimo de Sándor Marai. Confira abaixo a entrevista.


Podemos falar que “Marcelino Pão e Vinho” é uma das principais, se não a principal referência pra novela? Qual a relação de vocês com essa história?   
Júlio Fischer - A gente aproveita esse fio de trama para criar outros núcleos, outros personagens, tratando desse mesmo tema - a relação entre pais e filhos, nas suas diferentes formas. Em 2003, a Duca (Rachid) veio com essa ideia e começamos a criar a sinopse, que ficou guardada. Recentemente, há uns dois anos, ela me perguntou o que eu achava da gente revisitar aquela sinopse. Aí começamos a retrabalhar, dar uma outra forma para aquela sinopse, agora com um olhar mais amadurecido.


Vocês já destacaram que a Marê (Camila Queiroz) não será uma mocinha e sim uma heroína romântica. Podem falar mais sobre as nuances da personagem?
Júlio Fischer - 
A mocinha geralmente sofre e fica à mercê de um vilão, de uma vilã. A nossa Marê, por ser uma heroína, se posiciona, se coloca. Desde o primeiríssimo capítulo, ela já se coloca contra o pai, não se submete. Ela tem a iniciativa de estudar na capital, no primeiro curso de Administração e Finanças, que foi aberto em 1934 por Getúlio Vargas, e ela é a única mulher da turma. Ela se coloca depois contra o pai, que não admite o relacionamento dela com o Orlando, por ser um homem negro. E depois ela não vai apenas reagindo ao mal que lhe é feito, mas ela vai plantando o destino dela. É nesse sentido que é uma heroína. Ela é capaz de se colocar frontalmente contra as forças que querem derrubá-la. Vai atrás de justiça. Não se submete passivamente ao mal que lhe fazem.      


O que o público pode esperar dos antagonistas da novela? Que tipo de vilões serão Gilda (Mariana Ximenes) e Gaspar (Thiago Lacerda)? Qual o limite da maldade deles?   
Júlio Fischer - A Gilda (Mariana Ximenes) é uma vilã com nuances, sim, tem uma profundidade. É uma vilã muito perversa, mas no decorrer da novela a gente vai percebendo que essa maldade nasce de uma dor profunda, então a gente vai entendendo a raiz desse mal. Não é um estereótipo da maldade pura e simples. Embora a nossa história tenha uma referência de contos de fadas, ela não é uma bruxa, ela é mais que apenas a personificação do mal. A gente vai mergulhando aos poucos na dor dela, e descobrindo o que está na origem desse mal. No decorrer da novela a gente vai mostrando as fragilidades dela, a carência de amor, a infância miserável que ela teve. O Gaspar (Thiago Lacerda) também tem um arco dramático. No começo, ele é manipulado durante um bom tempo, porque ele tem uma moral “elástica”, que herdou do pai, e uma fixação pela Gilda. Depois, ele vai dar uma virada e vai ganhar um objetivo próprio maior, e vamos vê-lo como que sendo disputado pelo bem e o mal que habitam nele (como em todos nós, aliás).  A nossa intenção é explorar essas nuances, tanto do Gaspar como da Gilda, às últimas consequências. Humanizar, humanizar, humanizar.


Como vocês chegaram nessa configuração da Irmandade dos Clérigos de São Jacinto?   
Júlio Fischer - Não vamos fazer só franciscanos, só dominicanos, vamos colocar diferentes ordens, pra ampliar esse olhar para a diversidade, na maneira de se relacionar com Deus. Embora sejam todos cristãos, há diferenças entre as ordens. Entusiasmados com essa diversidade de ordens, fomos nos informar, com membros da Igreja, se uma irmandade nesses moldes seria possível e a resposta foi afirmativa. Apostamos muito nessa Irmandade como um celeiro de amor e de convivência harmoniosa baseada no respeito mútuo às diferenças.

Em "Amor Perfeito" teremos um núcleo cômico ou isso vai passear por diversos personagens?   
Júlio Fischer - A irmandade não cumpre, estritamente, a função do núcleo cômico. Temos vários outros personagens que fazem esse papel. Um exemplo é o pessoal do armazém, a Ione (Carol Badra), a fofoqueira oficial e seu atormentado marido, o Ademar (Gustavo Arthidoro). São cômicos, mas também têm seus dramas.


O que vocês destacariam como diferencial dessa novela?
Júlio Fischer - A gente começa pelo fato de que o nosso Marcelino (Levi Asaf), na nossa versão, é um menino negro. Isso já norteia todo o desenvolvimento da história. Esteticamente, também, a gente está obedecendo a referências históricas. É uma cidade ficcional, sim, mas não é uma cidade fantasiosa. É uma cidade que bebe muito da realidade que a gente absorveu em pesquisa. Tão referências quase absolutamente desconhecidas da nossa chamada elite intelectual. Então é muito importante enfatizar essa questão de que não é um universo fantasioso que nós estamos colocando na novela, mas é um universo que existiu historicamente, mas que ficou à margem dos livros de história. Assim como, até há bem pouco tempo, o currículo escolar omitia quase completamente a importância da herança africana na formação da cultura brasileira.


O que significa pra vocês estarem nesse projeto? Quais as expectativas?
Júlio Fischer - Para mim, a importância primeira foi de voltar a trabalhar com a Duca (Rachid). A gente foi parceiro como autores titulares durante um bom tempo no "Sítio do Picapau Amarelo", depois eu fui colaborador da Duca em várias novelas. A gente voltar a trabalhar juntos é tudo de bom. Depois, a chegada do Elísio (Lopes Jr.) foi uma abertura na minha cabeça e na cabeça da Duca. O que o Elísio traz de informação, frescor, e esse olhar inteligente e sensível que ele tem para as coisas, isso é maravilhoso. Em terceiro lugar, essa novela representa voltar para um lugar que, para mim, é muito caro. Alguns anos atrás eu escrevi e produzi uma peça infantil que fez muito sucesso, ganhou todos os prêmios daquele ano, "A Canção de Assis". Era a história de um menino de rua do século XIII, que procura um burrinho desaparecido e acaba chegando em Assis, porque ouve dizer que em Assis vivia um louco que conversa com pássaros. O "louco" era o jovem Francisco de Assis, no início de sua iluminação. Nessa época eu mergulhei muito nesse universo franciscano e publiquei a história da peça num livro da Editora Vozes. Para mim, essa equipe, esse trabalho é realmente um amor perfeito.

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