domingo, 19 de março de 2023

.: "A Máquina do Caos", de Max Fisher, e a eleição de Jair Bolsonaro


"A Máquina do Caos", de Max Fisher, é uma obra definitiva sobre os impactos das redes sociais em nossa sociedade. Temos uma vaga sensação de que o uso intenso das redes sociais nos é prejudicial. Documentários e reportagens produzidos ao longo dos últimos anos já mostraram como uma ou outra plataforma opera, mas a realidade é que seus impactos são muito mais profundos do que imaginamos. 

No livro lançado pela editora Todavia, Max Fisher, repórter do jornal The New York Times, foi a fundo nesta reportagem investigativa, mostrando a influência das redes na sociedade, na política, na cultura e na saúde de bilhões de usuários. Ele entrevistou não só pesquisadores e responsáveis por desenvolver os algoritmos das maiores plataformas de nosso tempo, como também usuários das redes e de fóruns obscuros - as verdadeiras terras sem lei da internet -, além de várias vítimas da desinformação e do ódio, e criou um retrato de corpo inteiro das gigantes da tecnologia, de seu funcionamento interno e de seus efeitos no mundo.

Em viagens para Sri Lanka, Mianmar, México, Alemanha e Brasil, Fisher identificou como a onipresença do discurso de ódio está intrinsecamente relacionada com as redes sociais, enquanto Facebook, Google, Twitter e outras empresas se recusam a intervir ou a se responsabilizar por eventos que são estimulados por seus algoritmos, como campanhas antivacinas, crimes de xenofobia e racismo, resultados de eleições, chegando ao tenebroso genocídio em Mianmar. 

Como o autor demonstra, o princípio fundador das redes é se aproveitar de nossas vulnerabilidades psicológicas, forjando um contexto em que os estímulos e a polarização incentivam pessoas comuns a se transformarem em extremistas. Valendo-se de tecnologias tão avançadas que já são desconhecidas até para seus criadores, as empresas desenvolveram algoritmos que propagam fake news, preconceitos e teorias da conspiração, culminando na eleição de figuras como os ex-presidentes do Brasil e dos Estados Unidos. 

O resultado dessa pesquisa monumental é "A Máquina do Caos", um panorama estarrecedor e um alerta para que repensemos com urgência nossa relação com as redes, porque “podemos ser a última geração que vai lembrar como era a vida antes que elas existissem”. Compre o livro "A Máquina do Caos" neste link.


Trecho do livro:
"Em fins de 2018, o deputado marginal e youtuber que havia lançado a campanha de desinformação contra Lionço seis anos antes, um homem chamado Jair Bolsonaro, concorreu à presidência do país. Todos esperavam que ele fosse perder. Em vez disso, ele ganhou com dez pontos percentuais a mais do que o concorrente. Foi o acontecimento mais significativo na política global desde a eleição de Donald Trump. O sexto maior país do mundo ficou sob o comando de um conspiracionista de extrema direita. Ele administrou a destruição de milhões de hectares da Floresta Amazônica, sinalizou seu apoio à violência da extrema direita, atacou implacavelmente as instituições democráticas do Brasil e esvaziou a máquina estatal burocrática. 

A ascensão de Bolsonaro parecia uma narrativa de raiva do público contra a corrupção no governo, a desordem econômica e os retrocessos democráticos. Mas os brasileiros e analistas com quem conversei só falavam das plataformas sociais dos Estados Unidos. “A direita brasileira mal existia até coisa de dois anos atrás”, disse Brian Winter, diretor da revista acadêmica sobre política Americas Quarterly. “Ela saiu praticamente do nada”.

A classe dominante havia rejeitado Bolsonaro por conta de suas conspirações extremistas, seus discursos de ódio e sua hostilidade contra mulheres (“Não te estupro porque você não merece”, ele dissera a outra deputada). Mas esse comportamento para chamar a atenção dava resultado nas redes. As mídias sociais e, em particular, o YouTube, disse Winter, apresentavam Bolsonaro como “uma personalidade reinventada”. Antes da eleição, Winter visitara o gabinete dele, querendo entender sua ascensão tanto estranha quanto repentina. Seus oito assessores “passaram todo o tempo que eu estava lá nas redes”, disse ele. “Ninguém fazia trabalho legislativo”. 

Não era só Bolsonaro. Por motivos que ninguém conseguia explicar, o Brasil estava inundado de conspirações e novas pautas radicais que, em todos os casos, pareciam vindas do YouTube. “Comecei a conferir o YouTube quando, no primeiro debate de candidatos a presidente, um deles falou da Ursal”, contou uma pesquisadora que trabalha no Brasil, Luiza Bandeira. A Ursal, um plano fictício para unir a América Latina como um Superestado pancomunista, supurou nas margens da extrema direita brasileira até que, em 2016, estourou no YouTube. 

Vídeos que impulsionavam o plano renderam centenas de milhares de visualizações — guiados, em grande parte, como concluiu Bandeira, pelos algoritmos da plataforma, que consistentemente encaminhavam até ela mesma de vídeos sobre política para vídeos sobre conspiração. Outras dezenas de conspirações borbulhavam no diálogo nacional, desatando ondas sísmicas de perplexidade e medo país afora. 

Um juiz que investigava políticos de esquerda e que morrera em um acidente, dizia uma delas, na verdade havia sido assassinado. As Forças Armadas estavam preparando um golpe de Estado. Agentes estrangeiros iam fraudar a eleição, estavam inseminando doenças letais no país e subornando o governo para perder a Copa do Mundo. Garanta o seu exemplar de "A Máquina do Caos" neste link. 


Sobre o autor
Max Fisher é repórter do jornal The New York Times e foi finalista do Prêmio Pulitzer em 2019 com uma reportagem coletiva sobre as redes sociais.

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