domingo, 25 de janeiro de 2026

.: Aos 74 anos, finalista do Prêmio LeYa Portugal transforma perdas em arte no romance “As Vontades do Vento”


Jozias Benedicto encontrou na literatura um novo caminho de criação e expressão após os 60, e seu novo livro mistura realismo fantástico e memória para falar de tempo, família e reconstrução. Foto: divulgação


Artista visual e escritor, Jozias Benedicto transforma perdas pessoais e memórias familiares em ficção no romance “As Vontades do Vento”, publicado pelo Caravana Grupo Editorial, finalista do Prêmio LeYa Portugal de Literatura 2024. O autor maranhense - que começou a publicar depois dos 60 anos -  simboliza uma geração de criadores que encontram na maturidade o auge da experimentação e da liberdade artística. O autor, que já publicou nove livros, também já conquistou outras premiações como o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais, o Prêmio da Fundação Cultural do Maranhão e o Prêmio de Literatura do Estado do Pará.

Em sua prosa, a vida, a morte e o tempo se confundem em vozes múltiplas que revelam o Brasil profundo e suas heranças emocionais. “O autor, com domínio absoluto da linguagem e da técnica narrativa, transpõe a estrutura do conto para a narrativa longa. O romance traz, na singularidade de cada capítulo, as diversas vozes, os lugares, cheiros e ambientações - tanto de um vilarejo do interior quanto das grandes cidades modernas - sem perder o contexto geral do que se quer contar”, ressalta Andreia Fernandes, escritora, na orelha do livro.

Neste novo trabalho, o artista visual e escritor maranhense apresenta um romance inquietante que mergulha nas entranhas de uma família envolta em segredos do clero, prostituição e herança escravocrata. Narrada por múltiplas vozes, a história ganha contornos de realismo fantástico ao incluir as perspectivas daqueles que já partiram, mas que seguem essenciais para o desfecho de uma trama que atravessa gerações. 

Segundo Jozias, o livro reflete as contradições entre o Brasil tradicional e o país em busca de modernização, abordando os efeitos do desenvolvimento desigual, como a violência e o rompimento de vínculos familiares. “Nunca quis escrever ensaio ou não ficção, nem um romance realista e engajado - meu caminho foi o oposto: desenvolver esses temas por meio da ficção e de suas vertentes mágicas e fantasiosas”, afirma o autor. Compre o livro “As Vontades do Vento”, de Jozias Benedicto, neste link.

Vozes que se cruzam, memórias que se desfazem
Dividido em três partes - "O Interior", "A Travessia" e "A Capital" - o romance reúne 49 capítulos narrados em primeira pessoa por diferentes personagens. O núcleo central é composto pelo pai, mascate (vendedor de porta em porta), a mãe e os três filhos - Joaquim, Pedro e Bento - além de figuras que orbitam o cotidiano da família, como Mocinha, a empregada, e Elisa, a cafetina. A avó materna e seu irmão, o já falecido Monsenhor - tido como santo no vilarejo - são peças-chave no desenlace do enredo, situado em uma pequena cidade do norte do país, nos anos 1950.

O ponto de partida é a morte da mãe e a promessa dos filhos de cumprir seu último desejo. Antes da viagem, porém, o livro retorna ao passado e desvenda o percurso da família: da ascensão social vertiginosa à desolação que precipita a queda dos herdeiros.

A estrutura polifônica é o grande trunfo de “As vontades do vento”. Ao alternar os narradores, Jozias costura as pontas soltas e revela tanto o contexto dos acontecimentos quanto as motivações de cada personagem. Os episódios vistos sob diferentes ângulos ampliam a força dramática das cenas e sustentam um ritmo ao mesmo tempo compassado e instigante. O desfecho, de impacto emocional, confirma a sagacidade e a singularidade do escritor-artista. Compre os livros de Jozias Benedicto neste link.


Trajetória consolidada e uma coleção de prêmios
Nascido em São Luís (MA), em 1950, Jozias Benedicto mudou-se aos 15 anos para o Rio de Janeiro, onde viveu a maior parte da vida. Entre 2006 e 2010, residiu em Brasília e, desde 2022, divide seu tempo entre o Brasil e Lisboa. Formado em Tecnologia da Informação, atuou na área entre 1970 e 2010. Após os 60 anos, decidiu dedicar-se integralmente às artes - especialmente à interseção entre literatura e artes visuais.

Cursou duas pós-graduações na PUC-Rio - Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo (2014-2015) e Corpo e Palavra nas Artes da Cena e da Imagem (2021-2022) - e trabalhou como editor na Apicuri (2010–2016). Também atua como curador e produtor de textos críticos para exposições de arte e escreve crônicas e resenhas para o portal luso-brasileiro Estrategizando.

Estreou na literatura em 2013 com "Estranhas Criaturas Noturnas" (Editora Apicuri) e, desde então, publicou nove livros, entre contos, poesia e romance. Acumula distinções como o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais, Prêmio Moacyr Scliar, Prêmio da Fundação Cultural do Estado do Maranhão e do Prêmio de Literatura do Estado do Pará, além de ter sido finalista do Prêmio Sesc de Literatura e do Prêmio LeYa Portugal com o romance agora lançado.

O autor revela que o processo de escrita também o ajudou a atravessar perdas pessoais, como a morte da mãe e um incêndio em seu apartamento. “Ainda que o livro tenha me ajudado a superar traumas, não é o efeito terapêutico que me move como artista. O que importa é saber se a obra atinge o leitor”, pondera. Compre o livro “As Vontades do Vento”, de Jozias Benedicto, neste link.

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