terça-feira, 27 de janeiro de 2026

.: Entrevista: Gustavo Pinheiro desafia a crônica no teatro para provocar


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com. Foto: Pino Gomes

Grande nome da dramaturgia contemporânea, Gustavo Pinheiro escreve para colocar conflitos em suspensão. Nas peças teatrais assinadas por ele, nada é o que parece: o encontro nunca é confortável, o afeto jamais é neutro e o silêncio costuma dizer mais do que qualquer discurso bem articulado. Autor de textos como "Dois de Nós", em cartaz no Teatro Tuca em São Paulo, "A Tropa", e "A Lista", ele construiu uma dramaturgia que observa o Brasil pelo detalhe íntimo: um quarto de hotel, um apartamento na pandemia, um quarto de hospital. Em comum entre os textos, está o tempo, que resolve pedir a palavra.

Nesta entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, Pinheiro reflete sobre o gesto de escrever para o palco como um exercício de escuta, sobre a fronteira por vezes ilusória entre o drama privado e a política, e sobre o compromisso ético de dialogar com o público sem subestimá-lo. Entre memória, maturidade e risco, o autor revela por que prefere provocar pensamento a oferecer respostas prontas e porque acredita que o teatro só faz sentido quando continua reverberando depois que as luzes se apagam.


Em "Dois de Nós", os personagens se veem frente a frente com versões mais jovens de si mesmos. Se você encontrasse hoje o Gustavo que escreveu "A Tropa", o que ele cobraria e o que você tentaria justificar?

Gustavo Pinheiro - Não sei dizer o que aquele Gustavo de dez anos atrás me cobraria. Na verdade, acho que ele ficaria orgulhoso e até um pouco surpreso com a versão de hoje. Mas sei o que eu diria hoje ao Gustavo “jovem”: que ele fosse menos ansioso, tivesse calma, fé no caminho, que tudo iria dar certo. E o que não deu, com certeza foi para abrir espaço para coisas melhores que vieram logo em seguida.


Seus textos parecem obcecados por encontros inevitáveis: pais e filhos, mães e filhas, casais que já deveriam ter ido embora, versões passadas que insistem em voltar. Você escreve para provocar reconciliação ou para expor o quanto ela é, muitas vezes, impossível?
Gustavo Pinheiro - Acho que cada relação tem sua própria dinâmica. Algumas relações podem ser irreconciliáveis, mas outras podem ser reconciliadas com o tempo, com a palavra certa, com o respeito ao sentimento alheio. As peças abordam situações muito diversas, é difícil generalizar. Mas gosto que o público acredite que pode fazer mais e melhor a partir do momento em que sai do teatro ao final da peça. O relato que recebemos dos espectadores nas redes sociais é que isso acontece muitas e muitas vezes.


"A Lista", "A Tropa" e "Dois de Nós" lidam com conflitos íntimos marcados por contextos históricos e sociais. Existe, para você, alguma fronteira ética entre o drama privado e a crônica do Brasil, ou tudo acaba sendo político, mesmo quando surge do afeto?
Gustavo Pinheiro - Uma vez um colega, depois de assistir “A Lista” e “A Tropa” disse que eu faço uma dramaturgia que flerta com a crônica. Nunca tinha pensado nisso. Mas acho que faz um pouco de sentido, na medida em que tenho a formação de jornalista. Esse é o meu olhar para o mundo. Gosto de política, não da partidária, mas dos grandes temas que motivam e movem a sociedade. Tenho prazer que temas políticos, econômicos, comportamentais, sexuais e culturais invadam, sutilmente, a realidade dos personagens. Nesse sentido, minhas peças são políticas, mas sem serem panfletárias. Exponho o panorama, os personagens se defendem, defendem seus pontos de vista e o espectador é convidado a pensar por si mesmo. É por isso que públicos tão heterogêneos, de todo o Brasil, se identificam com as peças. Aconteceu várias vezes de, ao final de “A Tropa”, por exemplo, espectadores de esquerda e de direita darem os parabéns pelo espetáculo. A escuta e compreensão que não exerciam na vida aconteceu naquela hora dentro do teatro. Não pode haver melhor resposta que essa.


Você costuma colocar seus personagens em espaços fechados: um hospital, um apartamento, um quarto de hotel. Isso é escolha dramatúrgica ou confissão involuntária de que o Brasil anda sem espaço para o diálogo aberto?
Gustavo Pinheiro - São escolhas dramatúrgicas, mas por diferentes razões. No caso de “A Tropa”, queria confinar aqueles cinco homens em um quarto de hospital, um cenário que expõe uma tensão por si só, há sempre um perigo colocado, além disso casava com um dos pontos que a peça ressaltava, de um país adoecido pelas divergências. “A Lista” se passava em um apartamento porque a peça surgiu na pandemia e era onde todos estávamos: confinados em casa. Quando levamos a peça para o palco com plateia, aí ampliamos para a segunda parte, quando a peça vai para a praia de Copacabana: do isolamento à liberdade. E “Dois de Nós” se passa em um quarto porque é o cômodo-metáfora de um casal. Trata-se de um quarto de hotel porque eu queria que fosse um lugar que fizesse parte da jornada daquele casal, mesmo depois de tantos anos de história. Casais casam-se e separam-se, mas tem seus pontos de referência no caminho: uma música, uma comida, uma cidade, um quarto de hotel.


 Ao escrever para atores como Antonio Fagundes, Christiane Torloni e Lilia Cabral, o texto vem já “habitado” por essas personalidades ou você escreve como quem oferece um risco, esperando que eles contrariem tudo no palco?
Gustavo Pinheiro - Quando sei para quem estou escrevendo, como o Fagundes e a Lilia, sem dúvida a voz deles povoa o meu pensamento. Como sou espectador deles há muitos anos, imagino a inflexão, exploro caminhos que também os deixem felizes. Mas eles sempre me surpreendem. Onde eu enxerguei cinco metros, eles enxergam dez. Cavam novas possibilidades, divisões de frases, pausas, pontos de humor que eu sequer enxerguei. E isso é uma das coisas mais bonitas da profissão de autor. Nos casos em que não escrevi pensando em um ator específico, como a Chris, o Otavio Augusto, a Ana Beatriz Nogueira, Deborah Evelyn, sou surpreendido de maneira muito positiva. A verdade é que eu tenho a felicidade de ter sempre cruzado com atores e diretores geniais, com quem aprendi muito.


Seus textos emocionam sem apelar para sentimentalismo fácil. Em que momento você percebeu que o silêncio, a pausa e o não-dito podem ser mais violentos do que qualquer grande discurso?
Gustavo Pinheiro - Sou apaixonado por silêncios. Não qualquer silêncio, mas aquele silêncio preenchido de sentido, silêncio que não abandona o público, ao contrário, faz ele entender exatamente o que o personagem está pensando. É um dos meus maiores prazeres como espectador: ver um personagem pensando, engendrando uma saída, uma resposta, um caminho de pensamento. E fico feliz de poder proporcionar essa sensação a outros espectadores também.


Como jornalista, você foi treinado para observar a realidade; como dramaturgo, você a reinventa. Em qual dessas duas funções você se sente mais vulnerável e, portanto, mais verdadeiro?
Gustavo Pinheiro - Acredito que tanto o jornalista como o dramaturgo observam a realidade. Por isso Nelson Rodrigues escrevia tão genialmente, era um jornalista observador da condição e do comportamento humanos. A diferença entre o dramaturgo e o jornalista está com o que se faz com essa observação. O jornalista a relata de forma mais imparcial possível. O dramaturgo, pelo menos no meu caso, usa como material de trabalho. Tudo que leio, ouço, vejo no supermercado, no metrô, na fila do banco, no check in do avião, num velório, tudo pode virar inspiração para a ficção.


"Dois de Nós" fala sobre envelhecer sem endurecer. O teatro brasileiro está envelhecendo com dignidade ou repetindo fórmulas por receio de se tornar irrelevante?
Gustavo Pinheiro - Não creio que o teatro esteja envelhecendo, a cena sempre se renova. O que temos que estar atentos é se há alguém interessado em assistir o que está sendo mostrado no palco. Tenho prazer em comunicar, gosto de ser entendido, sem nivelar por baixo, priorizando a inteligência e a elegância. E tenho a honra de ser correspondido pelo público.


Há algum tema que você não ousaria escrever sob hipótese alguma, não por censura externa, mas por algum limite que você pensa que não ousaria ultrapassar?
Gustavo Pinheiro - Acho que se pode e se deve escrever sobre tudo. Nunca me ocorreu de querer escrever sobre algum assunto e me autocensurar. Mais do que perder tempo pensando no que não posso escrever, prefiro me concentrar no que de fato tenho vontade de escrever, com verdade e honestidade. Acho bonito que eu seja um homem escrevendo personagens femininos para tantas mulheres no teatro. É sinal que esse diálogo pode acontecer, é saudável que aconteça, uma comprovação que somos capazes de nos ouvir e nos entender. Em “Antes do Ano que Vem”, quis escrever sobre suicídio, mas com humor. Mariana Xavier embarcou comigo nessa aventura e estamos em cartaz há quatro anos. Recebemos centenas de relatos de espectadores que repensaram a própria vida - e a possibilidade do suicídio - depois de assistirem à peça. Nossa missão está cumprida.


Depois de tantas histórias sobre encontros, acertos de contas e afetos em crise, o que ainda assusta você mais como autor: repetir a si mesmo ou finalmente escrever algo que o público talvez não queira assistir?
Gustavo Pinheiro - Sem dúvida alguma, escrever algo que o público não queira assistir. É para o público que eu trabalho. Se eu quisesse escrever para mim mesmo, fazia um diário. É o público quem paga o ingresso, a quem devo respeito e consideração. E isso não tem nada a ver com ser condescendente, abordar apenas temas para agradar. Ao contrário, não subjugo a capacidade da plateia, tanto que exploro muitos assuntos duros nos espetáculos, mas os espectadores embarcam conosco, eles entendem perfeitamente a razão de aqueles temas estarem sendo abordados de determinada forma.

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