O mangue virou altar de sacrifícios
Saudamos o surgimento da Revista de Ensaios e Literatura Cuipatã, nome que nos remete ao idioma dos povos originários, ao tupi-guarani, com o significado poético e abrangente de água que desce da serra ao qual a oralidade nos trouxe à denominação atual de Cubatão. Neste primeiro número a publicação, cujo projeto foi premiado pelo Conselho Municipal de Política Cultural, disseca o trágico incêndio ocorrido na Vila Socó em fevereiro de 1985. A publicação se insere no mais completo dossiê impresso até hoje sobre a inesquecível catástrofe, nos revelando com rigor científico e acadêmico toda a dimensão do sofrimento humano e social das vítimas, o descaso das autoridades, a inércia do judiciário e a apatia e frieza do regime militar.
A primeira parte é composta pelo editorial e por onze ensaios altamente elaborados, com extensa referência bibliográfica, onde a visão de cada colaborador nos elucida sobre a problemática da tragédia noturna, a ineficaz contagem oficial dos mortos, a imputação pela Petrobras da culpabilidade aos próprios moradores, a acusação, sem provas, de furto e estocagem domiciliar de combustível extraído de uma tubulação sem manutenção adequada e que cortava o subsolo pantanoso da favela. O rescaldo oficial ao amanhecer revelou a morte de noventa e três pessoas. Porém, somente de crianças, segundo registros posteriores de matriculados nas escolas, a soma alcançou aproximadamente 500 vítimas desaparecidas. O horror reverbera até aos dias atuais. O Grupo Teatral Coletivo 302 encenou a peça “Vila Socó” com profundo impacto artístico e emocional e a revista traz, ainda, no primeiro caderno, extensa entrevista com os integrantes da premiada troupe teatral cubatense.
A segunda parte, denominada Caderno Literatura, traz poemas, crônicas, contos e reflexões sobre o tema implícito da edição e dá voz, também à temática literária livre a cargo de marcantes autores, os quais mantêm a qualidade geral da publicação. Reverenciamos aos editores Douglas Gadelha Sá, Márcio Gregório Sá e Milton Ricardo Junior, assim como ao coordenador editorial Ademir Demarchi pelo árduo e relevante trabalho de manterem viva, através da Revista Cuipatã, a memória e a dor das vítimas e familiares, protagonistas involuntários, da maior tragédia urbana brasileira destes últimos quarenta anos.













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