Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas
"As Traíras", de Roberto Masssoni, publicado pela Costelas Felinas Editora apresenta-se como uma releitura contemporânea da tragédia clássica, ambientada em uma pequena comunidade insular onde tradição, moralidade e aparência social se entrelaçam de maneira sufocante. A obra articula uma narrativa que examina as fissuras das relações familiares e os mecanismos silenciosos de opressão que se instauram em espaços aparentemente pacatos.
No centro do enredo encontra-se a viúva Teodora e seus filhos, João e Sofia, cuja convivência é marcada por um vínculo proibido que desafia as convenções morais da comunidade. A partida de João para a guerra funciona como catalisador dramático, expondo tensões e desencadeando uma reorganização emocional entre as personagens femininas. Isoladas em sua própria dor e confinadas a uma convivência inevitável, mãe e filha transitam entre gestos de afeto e confrontos silenciosos, revelando ressentimentos acumulados, culpas veladas e ambiguidades afetivas que sustentam a densidade psicológica do romance.
Masssoni constrói personagens secundários expressivos, que desempenham papel decisivo na composição da crítica social. Suas vozes ecoam julgamentos e hipocrisias. Esse coro social não apenas observa, mas interfere simbolicamente na narrativa, ampliando o clima de vigilância e intensificando o conflito interno das protagonistas.
A linguagem do autor é marcada por introspecção e lirismo contido, privilegiando atmosferas densas e silêncios carregados de significado. O texto evita excessos dramáticos e aposta na construção gradual das tensões, o romance afirma-se como uma tragédia moderna que dialoga com a tradição literária ao mesmo tempo em que investiga as fragilidades contemporâneas.













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