Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_.
Fui uma criança feliz.
Não que a minha infância tenha sido perfeita, longe disso. Nos anos noventa, ser criança em Cubatão não era lá essas coisas, já lhes adianto. Ainda assim, era totalmente possível. Embora eu tenha nascido na época do “Vale da Morte”, onde crianças nasciam sem cérebro, passei ileso, eu acho. Hoje, consigo fazer coisas básicas, organizar minha rotina, trabalhar um pouco (coisa de cinquenta e nove, sessenta aulas semanais, apenas) e escrever palavras no papel na esperança de ser lido. Enfim, deve ter alguma coisa aqui dentro.
Nesse período, este ex-menino franzino que aqui palreia abusava da liberdade não conquistada e se arriscava de bicicleta pelas ruas do bairro. Brincava de pega-pega e esconde-esconde, de polícia e ladrão, e até acreditava conseguir jogar bola. Nos dias mais ousados, ia mais longe, e catava maria-mulata (talvez você conheça por outro nome, paciência) no canal que desaguava no mangue. Quando me tornei rebelde, adentrei à mata para caçar passarinhos. Meu espírito ditador e carcereiro durou alguns anos, para a tristeza das belas avezinhas.
Morávamos numa edícula atrás de um prédio comercial, dotada de um quintal que formava um “U” no entorno da construção fronteira. Numa dessas laterais, fui chefe, dono, rei e imperador. Naquele meu pedaço, nada fugia às minhas garras. Como ali o chão era de terra, felinos zombeteiros de casa, e gatos quizilentos da rua invadiam para marcar território. Eu me enfurecia, bradava pela guerra, jurava de morte. Porém, quando dava a sorte de encontrá-los e capturá-los, sucumbia ante suas quatro pantufas e o ronronado sedutor.
No meu pedaço, cheguei a declarar-me prefeito. Já escrevi sobre isso. Fui prefeito da cidade das formigas. Construí dois montes de terra, liguei-os por uma ponte, atraí as pequenas e governei com mãos de ferro. Ai daquela que ousasse transpor a ponte sem o devido visto e passaporte! Aquele corredor era meu, invadido e tomado. Nessa época, o espírito do MST já me contaminava — desde que aquelas terras fossem apenas minhas, e de mais ninguém.
O problema estava no entorno. Sempre há vizinhos, e daquele lado havia muitos. Eram três casas ocupadas por inquilinos. Assim, a rotatividade de moradores era grande. Quando chegava alguma criança e eu conseguia travar alguma amizade, ganhava plateia. Adorava exibir o meu império, ostentar meus poderes, ser assistido em meu exercício democrático. Gostava de companhia também, é claro. Criança brinca melhor junto com outra, até mesmo eu.
Certa vez, chegou uma nova família. Fiquei ansioso por saber se havia criança. E havia. Às vezes, eu a ouvia falar. Aumentei meu tempo de atividade lúdica, toda hora espichando os olhos para saber se era visto. A criança, uma menina, nunca saía. Dias e dias se passavam, e nada. Os hábitos dos novos moradores eram diferentes, o que me deixava ainda mais incomodado e ansioso. Cheguei a ver a menina de longe. A curiosidade aumentou, mas nada além. Eu continuava a governar cruelmente as formigas, a declarar e perder guerras para os gatos, e a ser parcialmente feliz.
Não há choro que dure a noite toda, não há tristeza que dure para sempre.
Ou há.
Numa tarde, a janela do quarto vizinho estava aberta e dela saía, alta e fina, a voz da menina. Estava brava, fazia birra e chorava. Eis a chance mais real de contato que tive até aquele momento. Comecei a me movimentar e a cantar alto. Quem não é visto, não é lembrado, pensei no alto da sabedoria dos meus nove anos. A voz revoltada começou a se aproximar. Fiquei aguardando, afoito.
Da janela, brotou o rosto choroso, ranhento e descabelado da garota branca, que, ao me ver, proferiu, agora sem choro, nem vela, e cortante:
— Eita menino feio da gota. Parece um macaco.
E logo sumiu janela adentro.
Foram segundos arrebatadores que fizeram ruir o meu império, acabar com o meu governo e sentir, talvez pela primeira vez, que as diferenças existem e marcam.













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