Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", a ser publicado pela Editora Patuá.
O fusca amarelo chegava da rua e se posicionava em frente à garagem. Ninguém descia, mas o portão se abria e o carro adentrava a casinha formosa dos anos 50. Em seguida, bombons eram distribuídos às mãos prestativas, que se estendiam ávidas pelo doce e pelo sabor de saber que a infância ali era preservada e se estendia.
Do Doutor Cacareco da minha rua, pouco restou na minha memória. Quem foi criança nos anos 80 deve se lembrar de um programa infantil com esse nome. Eu não me lembro, mas sei que existiu, pois minha mãe apelidou assim o senhorzinho que morava três casas depois da minha, na rua João Damaso. Dizia que se pareciam, o da minha rua e o da TV. Pelo menos o bigode, acho que sim.
Porque o Doutor Cacareco - o da minha rua - era quietinho, tímido, silencioso, a ponto de quase chegar a nos causar medo. Não gostava de bagunça na rua, odiava que a bola caísse em seu quintal, nunca o víamos nas festas, na padaria ou na mesa do bar. Seu nome eu nunca soube. Soube apenas do fusca amarelo, da sua gentil esposa, sempre no banco do carona, dos bombons distribuídos às crianças que abriam o portão da garagem, do bigode e da careca. Ah, era franzino, magrinho, e usava óculos de armação discreta.
Não posso esquecer que o Doutor Cacareco tinha mãos de jardineiro. O quintal de muro baixo nos permitia contemplar flores e plantas plasmadas por uma estética que não sei… só sei que está aqui dentro até hoje. Isso sem falar da arvorezinha da calçada que ele cuidava, podava, e deixava a copa arredondada, ou geometricamente desenhada por sua tesoura habilidosa, que, num tec-tec rápido, moldava o seu mundo.
Certo dia, o Doutor Cacareco não estava tão sisudo assim, e a sua generosidade extrapolou a caixa de bombom. Abriu as portas da esperança de sua garagem com as próprias mãos e convidou a criançada para o quintal dos fundos. Meu Deus! Plantas e flores aos borbotões. Uma relva macia sob os pés. Um sol escaldante grudado no céu. E alguns pés de acerola diante dos meus olhos pela primeira vez na vida.
— Podem colher à vontade - ouvi sua voz pela primeira vez.
Além dos olhos, meu paladar também teve o primeiro contato com a frutinha. Também havia maracujá, também havia goiaba, também havia manga, também havia tanta coisa que não sei ao certo quanta coisa havia. Mas sei que havia um mundo inteiro dentro do mundo do Doutor Cacareco. Foi porque o Doutor Cacareco nos abriu seu quintal que pude saber que o meu mundo era pequeno, já que três casas depois da minha havia um universo.
Depois desse dia, havia buzina do fusca amarelo ao se aproximar do portão. Havia “Olá, crianças” na voz rouca do Doutor Cacareco. Havia sorriso nos lábios finos do meu melhor vizinho. Havia graça no bigode espesso do dono do pomar. Havia mais cores nas partidas de futebol, havia mais cheiro doce no ar da rua João Damaso, havia mais sabor em saber que o Doutor Cacareco se tornara mais feliz. Um dia, farei um curso de jardinagem, farei estoque de bombons e comprarei um fusca amarelo. As crianças do futuro que me aguardem!













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