sexta-feira, 20 de março de 2026

.: Manual Crônico: Palavras, sem o Brasil o português não seria tão belo


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", a ser publicado pela Editora Patuá.

Que a Língua nos prega peças sabemos desde muito cedo. Eu, por exemplo, tropeço até hoje na palavra “exigência”. É um trava-língua dos diabos! Sempre me atravanca o caminho. No dia da criação das palavras, foi de uma leviandade pachorrenta colocar um “x” – com som de “z”, há de se frisar – ao lado de um “g”. Maldades da fonética. A minha hábil língua, nessa hora, bamboleia dentro da boca ao tentar modular o famigerado vocábulo; por fim, sibila em notas parecidas, samba, sapateia e enuncia qualquer coisa que seja próxima à pronúncia que se espera.

Se a criação das palavras também é obra de Deus, certamente sete dias não foram suficientes, e talvez por isso o Gênesis não esteja tão certo assim. Sabendo que o criador é alguém bastante ocupado, deve ter relegado à sua milícia tal tarefa. Estes, querendo um título a mais, deram-se o nome de lexicógrafos; ou dicionaristas, ainda que esse livro não existisse; pode ser que tenham desejado o nome de gramáticos, pois previam os ecos que a erudição da língua lhes traria. De todo modo, as palavras estão aí, belas e várias, para serem faladas, usadas e abusadas, ainda que não tão bem pronunciadas.

Vejamos.

Meu pai, por exemplo, gostava de lançar suas sentenças em alta velocidade. Suas falas pareciam jaculatórias apressadas de senhorinhas que rezam o Terço, embora ele tivesse um pouco de ojeriza dessa tão salutar devoção. “Repete coisa demais”, dizia. Não discordo. Inclusive, a Ave Maria sempre se torna mais graciosa quando se reza “bendita suas voz entre as mulheres”. Assim, a prece deve chegar mais perto dos céus, e quase me resgata a fé.

A Helena, por sua vez, durante o seu período de aprendizagem da fala, brindava o mundo com inúmeros neologismos. Costumava fiscalizar as “bernugas” que eu vestia para ir à padaria. Hoje, ela já está crescida, com seus quase dez anos, e raramente cria palavras. Custa-me muito lembrar de suas pérolas e me arrependo bastante de não ter feito um glossário das coisas que dizia.

Alguns amigos meus são muito bons com as palavras e com as situações que as envolvem. Um deles esbarrou nos limites da convivência entre idiomas. Estávamos no Sul, em uma cidade de colonização italiana, e por lá, o idioma de Dante Alighieri grassava por todos os cantos e bocas. Fomos tomar café da tarde numa casinha bem tradicional. A nonna, solícita, estendeu-lhe uma bandeja: “Formaggio, frei?”. Ele montou uma carranca de surpresa e sem pestanejar, perguntou: “Uai, não é queijo?.” Já um outro amigo se deliciava, rindo à solta, sempre que ouvia uma piada. Dizia ele “Não guento o Carlinhos com essas medótas!”. Medótas iam, medótas vinham, e as anedotas afluíam noite adentro, tirando-nos risos e gargalhadas.

Pode ser que os fiscais da Língua e os puritanos da linguagem (falemos baixo para não atrair os gramáticos, melhor afugentar os conservadores) não se agradem muito do meu texto e me julguem ainda mais por eu ser professor de Língua Portuguesa. Não faz mal, não gosto muito deles. Dou pouca monta aos frutos de seus trabalhos, somente o necessário para que meus alunos aprendam a escrever memorandos, requerimentos, e-mails e uma redaçãozinha para o Enem. Mas há palavras que soam muito mais atrativas e gostosas quando subvertem a ortografia ou a fonética.

Vai dizer que você não abre um sorriso largo ao ouvir que é preciso limpar o imbigo do bebê? O pedreiro, depois de revestir um piso, a fim de evitar que o seu trabalho seja avacalhado, diz-nos: “Se for passar pra lá, pisa naquela tauba ali, pra não deixar marca”. Ou ainda, ao comprar um sorvete de casquinha, num dia quente. Percebendo que ele começa a derreter, não há melhor advertência que: “Lembe logo isso daí, antes que caia tudo no chão!”. Não existem palavras mais autênticas que estas: imbigo, tauba e lember. Uso-as sempre, que chego a esquecer da ortografia e da fonética oficiais delas. Pouco me importam, cada um que cuide de seu imbigo.

Uma amiga, professora de criancinhas em fase de alfabetização, já me contou inúmeras histórias e causos de sala de aula. Os pequenos dão show de criatividade e coragem a despeito da ortografia. Pisam sem dó na fonética e tornam nosso idioma ainda mais lindo. Eis o melhor deles:

— Tia, “xu” é com “x” ou com “ch”? – a pequena abordou a mestra.

— Depende, meu amor. Que palavra você quer escrever? – respondeu a professora, curiosa.

— Xujeira.

Ah, as crianças, como as adoro! Desde cedo, o nosso talento para abrilhantar a língua lusitana e torná-la ainda mais bela e brasileira se manifesta por todos os cantos.
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