Por Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.
Não teve tempo de salvar a boneca, de dizer adeus aos pais.
A crueldade avassaladora movida e arquitetada pela supremacia bélica sionista sobre populações árabes civis indefesas, inclusive crianças, ressoa, grita e nos abala nas páginas de “Canto do Alaúde” de Rosani Abou Adal (Edição da Autora sob o selo Linguagem Viva). A arma da poética da indignação é manuseada pela autora com imenso pesar, um versejar pungente e, ao mesmo tempo, de denúncia e alerta contra a aflição que envolve um cotidiano repleto de sofrimentos, perdas e escombros. A sonoridade plangente do instrumento musical milenar ecoa através das cenas retratadas em cada verso. O pesadelo que se abate diariamente com mísseis, tanques e drones, vem escancarar de maneira cruel e insensível a tragédia humanitária que se abate sobre os indefesos habitantes das áreas ocupadas.
A guerra em balbúrdia, navalha que dilacera.
Utilizando uma linguagem crua e direta, Rosani absorve, reflete e expõe a ausência de futuro infantil imediato, os pesadelos e horrores do dia a dia, a falta de perspectiva alimentar e de moradia para uma imensa quantidade de famílias destroçadas e de um séquito de órfãos atônitos e desamparados. Notamos que o livro torna-se atemporal, enquanto manifesto pacifista, ético e humanista. Uma poética consciente, consistente e sobretudo combatente contra os desvios perpetrados pelo autoritarismo militarista que campeia e nos ameaça neste início de milênio.
Dormir acordado entre os destroços, sem sonhos.
O prefácio de Ronaldo Cagiano intitulado “Uma poética aguerrida num cântico de intervenção” avaliza todo o teor de coerência e combatividade em que Rosani Abou Adal maneja sua adaga fonética, e ainda, emoldurado pela capa e ilustrações de Janaina Adal da Costa Millan temos em mãos um livro contundente a refletir o trágico e dramático quadro das relações de prepotência militar e de desigualdade entre os povos.













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