quinta-feira, 2 de abril de 2026

.: Manual Crônico: Café para os vivos, o sabor da despedida


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", a ser publicado pela Editora Patuá.

Sem assunto na cabeça, pus-me a pensar no impensável: velórios. E por pensar muito sobre isso - uns cinco minutos, se muito - constatei que nunca fui a um velório que não ocorresse em minha cidade natal. Calma lá! Já velei alguns defuntos em outros lugares, mas velório, velório, mesmo, desses em lugar próprio para o ato, só em Cubatão. Os outros aconteceram em ambiente improvisado, ou em igreja.

Cabeça vazia, oficina do diabo. Por não ter o que pensar, o velório veio até mim, pela primeira vez. Porque, na verdade, sempre vamos aos velórios, ainda que contrariados. Quando se vela um amigo, um parente, um familiar, mal sobra tempo para as coisas interessantes que um velório pode oferecer. Mas quando vamos apenas por conhecer o defunto “de vista e de chapéu”, nossos olhos ficam secos e desimpedidos, aptos às peculiaridades que só um velório pode proporcionar.

Quando padres conhecidos meus morreram, o velório foi em igreja. Lembro-me do finado frei Lindolfo, que saiu a passear de monomotor, mas o teco-teco caiu. Adeus ao frade, que foi velado com rito e pompa na matriz de Ituporanga, em Santa Catarina. Nessa época, eu estava no meu primeiro ano de convento, com os franciscanos. O Carlinhos, seminarista como eu, sentiu-se culpado pela morte do religioso. Pouco antes da decolagem, ele havia se confessado com frei Lindolfo e julgava que o peso de seus pecados fizera o avião cair.

Difícil foi conter o riso em meio ao rito fúnebre dentro da igreja. Como pouco conhecíamos o padre-defunto, as anedotas correram soltas, à boca pequena. Os jovens seminaristas - eu à parte, claro - botavam reparo em tudo quanto era beata que se aproximava aos prantos do caixão exposto na nave central. Muito antes do padre do balão, conhecemos o frade do avião que caiu pelos pecados do Carlinhos.

Outro velório fora de um velório que fui foi o de minha vozinha. Esse, por ter acontecido há muito tempo, recebe as cores da minha memória infantil de nove anos. Tivemos que sair de Cubatão bem cedo, pois ela morava em São Bernardo do Campo. O velório aconteceu num salão de festas, ao que me lembro. Viramos a noite velando. Claro que não resisti e achei um canto que me serviu de cama improvisada. Houve tempo para o choro, fruto da saudade que eu já começava a sentir dela. Mas o que mais ficou na minha memória foi o pão com manteiga mais gostoso que comi em toda a minha vida. Até hoje me causa água na boca.

Agora em Cubatão… Lá, temos o velório Municipal, que frequentei bastante nos meus primeiros anos de adolescência. Ia porque acompanhava minha mãe às visitas ao túmulo de meu avô. Ao final, sempre dávamos uma passadinha no velório. São quatro salas, mais uma capela, que sempre acolhe um corpo extra, quando o número de defuntos aumenta.

Nessas visitas, sempre encontrávamos algum conhecido que conhecia o morto. Em meio a conversas e memórias, surgiam pontos de conexão com o defunto, o que virava ponte para o cafezinho. Ah, como eram bons aqueles velórios. Café de qualidade, cheiroso, bolachas macias, tortas, bolo de coco, de fubá, e tantas coisas…

Já nos velórios de hoje, seja em Cubatão, seja em outro lugar - nunca mais fui em velórios fora de Cubacity -, não se serve mais nada! O que aconteceu com a hospitalidade mortuária? Cadê a consideração com os amigos do defunto? Um cafezinho quente reconforta a perda, aconchega a viúva, atiça a fofoca aos mexeriqueiros, aproxima os amigos e incita o choro das carpideiras. Não larguemos essa tradição, pelo amor de quem morre!

Se eu estiver enganado, e se ainda houver velórios acolhedores, me informem, me atualizem, me convidem. E quando chegar o meu — nunca se sabe quando — que sirvam café, que haja bolo, que ofereçam chá (e uma pinguinha também, ou uma cervejinha, ou os dois, porque ninguém é de ferro; podem servir um tira-gosto, para agradar aos amigos), pois não quero convidado falando mal depois, dizendo que sentiu fome, nem cronista escrevendo sobre velórios com saudosismo barato. Depois, deixem que os mortos sepultem seus mortos, e partam para o samba. Antes, digam apenas consummatum est*, e sigam felizes sob minha memória.

* Tudo está consumado.

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