Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.
— Calma, agora não tem mais jeito. Vamos relaxar e olhar a paisagem — foi o que disse a avó à neta e ao bisneto, ao perceberem que estavam no ônibus errado.
Era uma viagem curta e a intenção era utilizar apenas uma linha de ônibus. Mas devido a distrações, embarcaram no ônibus errado, o que provocou um nervosismo hostil na neta, que bradava a todos uma insatisfação modorrenta:
Era uma viagem curta e a intenção era utilizar apenas uma linha de ônibus. Mas devido a distrações, embarcaram no ônibus errado, o que provocou um nervosismo hostil na neta, que bradava a todos uma insatisfação modorrenta:
— Vó, não fala comigo que não tô pra conversa! Já não sei mais o que fazer.
E a velhinha insistia, com uma doçura de dar inveja:
— Se o ônibus mudou a placa, que culpa temos nós? Pergunta ao chofer se ele vai voltar por São Vicente, que aí ficamos nesse ônibus mesmo. Vamos aproveitar para conhecer mais um lugar.
E a viagem transcorreu daquele jeito: a jovem nervosa e áspera em suas palavras torturantes; a velhinha, serena como uma criança que acaba de nascer. Era possível ler em seu semblante — mesmo estando com a saúde debilitada — a alegria de que desfrutava, brotada de um erro. Já a neta, em plena saúde, apresentava um rosto obscuro por causa do erro causador do fatal atraso.
O bisneto assistia a tudo. Em alguns momentos até tentou intervir, questionando sobre o itinerário que o coletivo estava tomando, mas era prontamente interrompido pela inteligência da mãe, que o inibia peremptoriamente.
No fim das contas, desceram em Cubatão, onde tomaram outra condução, que os deixaria no lugar de destino.
No ônibus, permaneceu a saudade da senhorinha.
E o bisneto, como será? Está entre a cruz a espada. Tomara que se pareça mais com a bisavó.













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