Por Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.
Coço a eternidade com a orelha da língua.
O idioma é vorazmente mastigado, digerido, absorvido e expelido numa imagética vertiginosa onde o microcosmo interior das substâncias, dos corpos e do universo vegetal flutuam e se liquefazem em meio às metonímias e sinédoques. Na primeira parte de "Três Línguas", denominada “Deos”, a língua e as orelhas transformam-se em organismos vivos em uma dança alucinante e sonora onde as conjugações verbais e seus atos são divindades imperativas atuando através das sensações, vertigens e prazeres sensoriais revelando-se, intimamente, em infinitos e múltiplos atributos minuciosamente dissecados pela poética amalgâmica de Verônica Ramalho.
“Antígona” é a denominação da segunda parte onde a intensa e contínua movimentação verbal volta-se para o exterior, o lado de fora dos cenários urbanos, porém, com o mesmo e intenso pressuposto fonético voltado para a minuscularização das atividades e dos materiais composicionais das ruas. A precisa dissecação microscópica dos componentes concretos das cidades revela-nos um novo e hipnotizante bailado onde as atividades caóticas de destruição e de pulverização da matéria aponta, inapelavelmente, para a finitude.
Na terceira e última parte do livro, intitulada “Jardim”, a decomposição e a putrefação dos organismos florais é realçada de forma enfática, crua e realista. Destaca-se a linguagem altamente técnica e científica embasando a intensa atividade poética dos versos voltados para a anatomia constitucional das formas e dos seres.
“Três Línguas”, de Verônica Ramalho, publicado pela Editora Córrego revela-se um poemário original, vigoroso e surpreendente pela erudição da autora, pela lúdica imagética dos poemas e por sua aprimorada técnica criativa. A edição traz, ainda, projeto gráfico a cargo de Gabriel Kolyniak, ilustrações e capa de Gabriela Cézar e elucidativo texto de orelha por Maíra Mendes Galvão.













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