domingo, 10 de maio de 2026

.: Crônica: Elite. Ou quase, de Eduardo Caetano


Por Eduardo Caetano, jornalista, escritor e roteirista. 

Maio, Mês das Mães, de Nossa Senhora de Fátima e dos Trabalhadores. Fim da escala 6x1 em pauta. Estados Unidos e Irã em guerra. Ou quase. Véspera do encontro entre Lula e Trump. Na mídia: o pós-briga de Neymar Jr. e Robinho Jr.. Nas redes, a quase briga de Jojô Ex-Todynho e Malévola. É maio, mas parece verão. Maré alta. 

Moro em Santos, famoso balneário do litoral paulista. Cidade de médio porte, detentora do maior Porto do Hemisfério Sul. Terra da Liberdade e da Caridade, referência na luta abolicionista, sediou o segundo maior quilombo do Brasil e já não tinha escravizados dois anos antes da Lei Áurea. Hoje, possui a maior favela de palafitas da América Latina.

A Cidade tem este nome pois temos a primeira Santa Casa de Misericórdia de Todos os Santos. Todos os santos: Santo Antônio, São Francisco, Santa Clara, Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora de Fátima, São João, Santa Rita de Cássia, São Jorge... Todos! 

Todos somos irmãos. Iguais perante a lei. Ou quase. Fazia tempo que eu não escrevia coisas puramente da minha cabeça e uma cena na noite de hoje, num supermercado, chamou a minha atenção. Um estabelecimento grande, popular, de rede, em um bairro intermediário. Nem nobre, nem periférico. Perto da Santa Casa. Aquela, da misericórdia.

Três mulheres conversavam. A mais simpática, cara de boa gente, falava às amigas, próxima à gôndola de guardanapos de papel e copos plásticos. Não eram ricas. Não eram tão pobres. Remediadas. Ou quase.

- Agora eu tô bem. Outro dia a moça foi limpar lá em casa e senti uma energia ruim, sabe? Até que ela me contou: 'não tô bem porque meu filho tá preso'. Acredita?! Eu não mereço isso. Não chamo mais!

As outras concordaram. A saúde mental da patroa não se abate pela dor da empregada, mas pela "energia" dela. Em tempos de inteligência artificial, as emoções são superficiais. Duram 15 segundos, como um reels visualizado no Instagram. A diarista, possivelmente sem Carteira de Trabalho assinada, sem plano de saúde e psicóloga, é tão descartável quanto guardanapos de papel e copos plásticos.

Isso em Santos, onde se tornou comum presenciarmos cachorros em carrinhos de bebê nos shoppings. Há farmácias, Oxxos e moradores em situação de rua se multiplicando a cada esquina.

Caridade? Liberdade? Empatia? Misericórdia?

Mãe condenada no Mês das Mães. Trabalhadora condenada no Mês dos Trabalhadores. 

O mundo está acabando. Ou quase.

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