Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.
O processo começa como tantos outros: um prazo estourado, uma cobrança formal, a necessidade de responder a instâncias superiores. Mas, no caso de "Cláudia Vera Feliz Natal", novo romance de Mariana Salomão Carrara publicada pela Editora Todavia, a resposta não se limita ao que se espera de um juiz. O que deveria caber em linhas técnicas se alonga, hesita, é contaminado por memórias, desconfortos, e uma intimidade que não costuma despachar nada. Aos poucos, a defesa vira outra coisa.
Autora dos premiados romances "Não Fossem as Sílabas do Sábado" e " Árvore Mais Sozinha do Mundo", Mariana Salomão Carrara desta vez parte de um ambiente em que cada palavra carrega peso institucional para acompanhar um personagem que já não consegue sustentar a distância entre a função e a vida. As comarcas se sucedem, os vínculos rareiam, e o que se acumula não é só trabalho. Há um cansaço difícil de nomear, uma espécie de desencontro persistente com os outros, com o lugar, consigo próprio.
Sem recorrer a qualquer ideia de bastidor pitoresco, o livro circula por situações em que o cotidiano do Judiciário se aproxima do absurdo. E é nesse deslocamento que a narrativa encontra ritmo: quando o protocolo continua de pé, mas já não dá conta.
Nesta entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, a escritora comenta o humor que atravessa o texto, a solidão que não se resolve com autoridade e o que acontece quando a linguagem, mesmo treinada para decidir, começa a falhar. Compre "Cláudia Vera Feliz Natal", o novo romance de Mariana Salomão Carrara, neste link.
Resenhando.com - Em "Cláudia Vera Feliz Natal", você transforma um documento burocrático em matéria literária. Em que momento a linguagem jurídica deixou de ser apenas forma e passou a ser, para você, também personagem?
Mariana Salomão Carrara - Desde o início minha ideia foi trazer humor a partir do ruído entre a formalidade dos vernáculos ou construções do narrador e o jorro emocional que se inicia a partir da acusação de que se defende. Conforme os dias passam e ele segue redigindo o documento, mais ele se confessa e revela sua intimidade e grandes angústias pessoais e profissionais ao órgão corregedor, o que chega a relaxar a linguagem, mas sem perder sua referência às liturgias jurídicas. O próprio narrador satiriza o “juridiquês” mais clichê, replicando os jargões costumeiros das peças advocatícias para narrar o modo como se referem a ele. Então se pode dizer que toda essa linguagem é também personagem desse livro. É dobrada e flexibilizada conforme a emoção do narrador, e quando a lei não dá conta de promover Justiça, a linguagem jurídica está lá para escancarar a ironia do seu encastelamento.
Resenhando.com - Seu jovem juiz tenta justificar a própria lentidão, mas parece, no fundo, incapaz de dar conta do que vive. Escrever esse romance foi, de algum modo, investigar o fracasso da linguagem como ferramenta de controle?
Mariana Salomão Carrara - Não sei se a linguagem de fato fracassa como ferramenta de controle. A linguagem jurídica é autorreferente e deixa o leigo alijado do saber que ela expõe. Faz com que o cidadão não compreenda, por exemplo, a sua sentença. Há inclusive uma cena em que o réu questiona, por uma frase que consta de sua condenação, se será “lançado ao rol dos culpados”. Embora muitas vezes automatizada e apartada da vida prática, essa linguagem não necessariamente falha em controlar, mas pode falhar em promover a justiça.
Resenhando.com - Há um humor incômodo que atravessa o livro, uma espécie de riso que denuncia e constrange. O que a interessa mais: expor o ridículo do sistema ou revelar a fragilidade humana por trás dele?
Mariana Salomão Carrara - Não é possível separar as duas coisas, a sensação de ridículo que acompanha o livro ao mesmo tempo expõe as debilidades do sistema e a fragilidade humana, não somente dos atores da justiça, às vezes perdidos em seus rituais, ou impotentes diante da falha da própria nação em garantir direitos, mas também a fragilidade do cidadão que tem a sua vida decidida num processo.
Resenhando.com - No romance "A Árvore Mais Sozinha do Mundo", você constrói a narrativa a partir de objetos que observam. Já no novo romance, temos um sujeito que tenta se explicar. O que muda quando a narração deixa de observar e passa a se defender?
Mariana Salomão Carrara - Na "Árvore Mais Sozinha do Mundo", os objetos narram o que observam, mas também e principalmente o que sentem a partir disso, o que sentem sobre a família e a dor que supõem nos humanos. Nisso, também se defendem ou se culpam por seus defeitos – a toxidade da árvore, a inadequação da roupa de segurança, o a incapacidade da caminhonete rural de correr o suficiente para a urgência do parto. Defender-se e culpar-se são elementos da narração em primeira pessoa, e neste novo livro ganham também a dimensão jurídica da defesa e da culpa, com suas implicações. E é o susto de ter que se defender formalmente de algo que era na verdade um bom exercício do seu ofício que dá o gatilho para toda o relato e digressões sobre a carreira, o ato decisório e a imensa solidão do narrador.
Resenhando.com - O juiz de "Cláudia Vera Feliz Natal" tem poder sobre o destino alheio, mas não consegue sustentar vínculos pessoais. A solidão, no seu livro, é uma consequência do cargo ou uma condição anterior a ele?
Mariana Salomão Carrara - O narrador traz em si algumas dificuldades de vínculo e intimidade que podemos atribuir genericamente aos homens e, também, aos profissionais do Direito, estes perdidos entre os tratamentos formais, disputas de poder e tradições consagradas. Mas também é um sujeito peculiar, que tem muito boas intenções, mas dificuldade de alcançar propriamente o outro, vincular-se inteiramente aos novos personagens da sua vida – e não parece ter deixado muitas pessoas para trás, em São Paulo. Sua solidão é involuntária, agravada pelo deslocamento e pela sensação de ser um estrangeiro nas pequenas comarcas, mas sua inabilidade social e íntima é bastante particular sua. Tem alguma dificuldade em se conectar com as próprias emoções e faz o que pode para compreender a dos outros.
Resenhando.com - Você revisita pequenas comarcas do interior do Mato Grosso, mas evita qualquer exotização. Como equilibrar o olhar crítico sem transformar esses espaços em caricatura, algo que o próprio livro parece ironizar?
Mariana Salomão Carrara - Eu gostei da ideia de que a escolha das comarcas do livro tenha sido fruto do acaso, assim como a trajetória do narrador e de tantos profissionais aprovados em concursos em diversos estados, lotados na cidade que calhou no momento da aprovação. Eu quis descobrir junto com o juiz como seria a vida dali em diante. Um colega defensor passou a me contar em detalhes sua experiência, trazendo não só pequenos ou grandes casos e relatos do dia-a-dia profissional, mas principalmente sua sensação ao viver o deslocamento geográfico, começar uma carreira longe de sua cidade, deixar uma grande metrópole para fazer parte do sistema de justiça de uma comarca pequena, em que os atores do judiciário acabam sendo figuras conhecidas pela população, com certa notoriedade e ao mesmo tempo em perene estranhamento alienígena, com suas roupas e vernáculos solenes, e completa falta de vínculos e raízes naquele estado. Coletei depoimentos de pessoas que atuaram na burocracia de fóruns de cidades pequenas de todo o Brasil, bem como juízes, promotores, procuradores e defensores que passaram por comarcas muito pequenas ao longo de suas carreiras, inclusive, mas não somente, no Mato Grosso. A ideia foi partir dessas três cidades, com a peculiaridade de seus nomes, mas para representar algo que vai além de especificidades locais, e abordar uma realidade nacional, existente em interiores de muitos estados brasileiros, e focar na experiência desses agentes da Justiça deslocados de seus universos para lugares distantes de suas casas e com características difíceis de apreender rapidamente na atuação profissional. Então, não se trata, diferentemente do "Árvore Mais Sozinha do Mundo", de um retrato da vida naquelas cidades, mas do olhar solitário desse juiz, que acaba isolado também por alguma empáfia, própria talvez do status e da relação das capitais com as áreas ditas provincianas. O olhar crítico não recai especificamente sobre as cidades nomeadas, mas sobre o sistema jurídico em comarcas pequenas, desigualdades sociais e injustiças regionais e nacionais, sendo que a visão mais caricatural é a do olhar do narrador, que precisa de todo esse percurso narrando sua trajetória nessa peça de defesa para construir uma nova relação com o seu entorno.
Resenhando.com - Há uma recorrência de personagens femininas fortes e tensionadas em sua obra, enquanto aqui o foco recai sobre um homem em crise. O que a interessou nesse deslocamento de perspectiva?
Mariana Salomão Carrara - Embora seja narrado por um homem, é também uma outra forma de falar das mulheres. O olhar dele sobre o seu relacionamento é uma forma de imaginarmos o que na verdade ela poderia estar vivenciando com ele. Os casos jurídicos, principalmente o caso que o levou à total indecisão, é sobre maternidade e vínculos entre mulheres, e ele vem a partir da debilidade do juiz da própria letra da lei para compreender a situação. Então, o deslocamento de perspectiva traz novo ângulo para os mesmos temas, e traz também a possibiidade de passear pela amizade masculina, a dificuldade de intimidade entre amigos homens, e a solidão de um homem que quer ser uma boa pessoa, já sabe os caminhos éticos inclusive para o feminismo, mas se perde totalmente ao colocá-los em prática nas relações pessoais.
Resenhando.com - Sua escrita é frequentemente descrita como inventiva, mas também profundamente ancorada no real. Até que ponto a experimentação formal, para você, é um risco, e até que ponto é uma necessidade ética?
Mariana Salomão Carrara - Só consigo escrever escrevendo, ou seja, não sou capaz de desenhar em abstrato um enredo, uma frase, um planejamento de linguagem. Então, a inventividade vai me surpreender no ato da escrita, e conduzirá, a partir das palavras, o estilo da obra e a voz narrativa. Então, posso dizer que não há cálculo possível para mim, se haverá experimentações, riscos, reiterações. O que posso dizer é que, como leitora, o que me agrada é que o conteúdo traga uma visão de mundo interessante, e chegue elevado por um profundo prazer estético, que normalmente está ligado à habilidade com a linguagem, seja inventiva ou somente muito bem articulada literariamente.
Resenhando.com - Depois de conquistar reconhecimento com obras como "A Árvore Mais Sozinha do Mundo", o que ainda a desestabiliza na escrita? Em outras palavras: o que você ainda não sabe fazer e, talvez, escreva justamente para descobrir?
Mariana Salomão Carrara - O que a vida de escritora mais me revela é o poder da literatura e a força dos leitores sobre o livro. Descubro com os leitores mais lados do que eu mesma escrevi.













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