Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.
O cinema francês sempre teve uma aptidão singular para extrair graça do desespero, e a diretora Céline Devaux abraça essa tradição com uma ousadia visual refrescante. Em cartaz estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision, a comédia "Todo Mundo Ama Jeanne" equilibra as dores do luto e do fracasso financeiro sob uma ótica inesperadamente leve. O longa-metragem acompanha Jeanne, interpretada por Blanche Gardin, uma empresária do ramo ecológico que vê seu projeto revolucionário de despoluição marinha afundar sob os olhares do público. Falida, cheia de dívidas e assombrada pelo recente suicídio da mãe, ela se vê obrigada a viajar para Lisboa com o objetivo de vender o apartamento da família.
A viagem ganha contornos de humor absurdo logo no aeroporto, quando Jeanne é abordada por Jean, papel de Laurent Lafitte. O sujeito é um antigo colega de escola de quem ela não guarda a menor lembrança, mas que se revela uma figura inconveniente, invasiva e dotada de uma excentricidade irresistível. Em solo português, a protagonista ainda precisa lidar com a reaparição de um antigo namorado, vivido por Nuno Lopes, enquanto tenta encontrar forças para arrumar o imóvel repleto de memórias dolorosas. A grande sacada da diretora, que estreia longas-metragens com esse filme, é dar vida aos pensamentos intrusivos de Jeanne por meio de pequenas inserções em animação. Um fantasminha cabeludo, desenhado e dublado pela própria cineasta, surge na tela para verbalizar as inseguranças e as autocríticas mais cruéis da personagem.
A inspiração para o roteiro nasceu de observações reais de Céline Devaux durante suas viagens a Portugal em meados de 2010, no auge da crise econômica europeia, quando viu amigos se desfazendo de patrimônios devido à inflação sufocante. A diretora revelou à imprensa que decidiu colocar na tela os seus maiores temores em relação ao futuro do planeta e ao luto, transformando temas densos em algo deliberadamente estranho e divertido. Outro ponto que chama a atenção na estrutura narrativa é a inversão do clássico arquétipo cinematográfico conhecido como Manic Pixie Dream Girl - aquela personagem feminina excêntrica que surge apenas para salvar o protagonista masculino de sua apatia. Laurent Lafitte assume esse papel de agente do caos terapêutico, usando a falta de noção para empurrar Jeanne de volta à vida.
Exibido originalmente na prestigiada Semana da Crítica do Festival de Cannes, o filme chama a atenção pela inventividade, embora divida opiniões quanto ao ritmo. Para parte da crítica especializada, o contraste entre o marasmo apático da atuação de Blanche Gardin e a vivacidade das animações cria um desequilíbrio na tela, fazendo com que o longa por vezes flerte com a superfície dos problemas que propõe debater. Ainda assim, a produção se destaca como um exercício criativo de empatia, no qual os coadjuvantes de peso, como a veterana atriz suíça Marthe Keller no papel da mãe falecida, garantem sustentação a uma comédia dramática que passa longe de ser convencional.
Ficha Técnica
“Todo Mundo Ama Jeanne” | "Tout le Monde Aime Jeanne" (título original) | "Toda a gente gosta de Jeanne" (em Portugal)
Gênero: comédia, drama, romance. Duração: 95 minutos.Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 14 anos Ano de produção: 2022 (lançamento no Brasil em 2024). Idioma: francês (com trechos em português). Direção e roteiro: Céline Devaux. Elenco: Blanche Gardin, Laurent Lafitte, Nuno Lopes, Marthe Keller, Maxence Tual. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não.
nesta quinta-feira, dia 21 de maio, como uma obra rara que ultrapassa o objeto imediato - a gastronomia - para tocar em algo mais profundo: a ética do trabalho, a obsessão pela excelência e o peso silencioso da herança. Dirigido e roteirizado por David Gelb, o filme acompanha o cotidiano de Jiro Ono, mestre octogenário que transformou um balcão de dez lugares escondido em uma estação de metrô de Tóquio em um dos restaurantes mais reverenciados do mundo, agraciado com três estrelas do guia Michelin.
“O Sushi dos Sonhos de Jiro” | “Jiro Dreams of Sushi” (título original)
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