terça-feira, 21 de julho de 2026

.: Atriz Helena Ignez é homenageada por mostra da série Ocupação Itaú Cultural


Exposição celebra a artista em primeira pessoa e destaca sua trajetória no teatro e no cinema com materiais raros, filmes restaurados e programação especial. Aos 87 anos, Helena Ignez segue em plena efervescência, produzindo e atuando nos palcos e sets de filmagens. 
Foto: Fabrício Tadeu / Acervo Andre Sampaio

 
Era o ano 1956 quando Helena Ignez ingressou na Escola de Teatro da Bahia, em Salvador, cidade onde havia nascido em 1939. Começava ali a trajetória de uma das mais importantes atrizes e diretoras do cinema e do teatro brasileiros, cuja vida e obra são marcadas pela liberdade comportamental e artística. Nesta quarta-feira, dia 22 de julho, o Itaú Cultural inaugura mostra da série Ocupação dedicada a ela. Primeira cineasta mulher a receber esta homenagem, a exposição privilegia a voz de Helena, sua liberdade criativa e sua potência em cena, sempre em intensa atividade artística. A mostra permanece em cartaz até 18 de outubro

 Ocupação Helena Ignez rompe o modelo cronológico-biográfico tradicional para construir uma narrativa em primeira pessoa, guiada pela voz da artista e diretora, seu corpo em ação e sua prática artística radicalmente livre. No período em que estiver em cartaz, o público ainda poderá acompanhar uma retrospectiva com 23 filmes na plataforma Itaú Cultural Play, de obras dirigidas, estreladas ou relacionadas a Helena. Com produção da Itaú Cultural Play e direção de Helena e Guerreiro Lopes, está sendo finalizado o curta-metragem Des-criação – a mulher cabeça, para disponibilização na plataforma e no espaço expositivo.

Ainda, o teatro do IC apresentará a peça "Savannah Bay", montada sobre o texto homônimo de Marguerite Duras em 1999 e em 2001, com direção de Rogério Sganzerla, Helena no papel de Madeleine, uma atriz que perdeu a filha afogada na baía de Savannah e enfrenta problemas de memória, e Djin Sganzerla como sua neta. Ocupação Helena Ignez também conta com uma publicação digital e um site com conteúdos exclusivos (itaucultural.org.br/ocupação).

“Helena atravessa a história do cinema e do teatro modernos no Brasil, passando pelos períodos centrais do Cinema Novo, da Belair e da experimentação radical”, observa Galiana Brasil, gerente de Curadorias e Programação Artística. “Ela é uma pessoa em constante reinvenção e, aos 87 anos, segue nessa trilha, firme e altamente criativa”, completa. O núcleo que Galiana gerencia assina a concepção, realização e curadoria da mostra, com consultoria da atriz Djin Sganzerla, e projeto expográfico de Renata Mota.

Partindo dessa premissa, a linha curatorial abraça a ideia de Helena ser uma atriz antimusa para jogar foco em sua produção, vitalidade e potência criativas. De forma transversal, a mostra reúne materiais históricos, registros inéditos, fotos, vídeos, documentos, instalações e trabalhos recentes da artista. Assim, o caminho percorrido vai do cinema, teatro e direção à formação, encontros e experiências políticas, espirituais e humanas da artista.

A sua trajetória como cineasta e no teatro ganham destaque, revelando um percurso menos conhecido do grande público. Como ela mesma diz, a importância do teatro é absoluta, porém sua trajetória como atriz e mais tarde como diretora ainda é pouco conhecida. Fotos, programas, matérias de jornais – o eu inclui uma crítica do jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, e documentos de processo de trabalho de Helena, compõem esse espaço.

Vale lembrar que, recentemente, em São Paulo, a atriz integrou o elenco de Fim de Partida, clássico de Samuel Beckett, dirigido por Rodrigo Portella, ao lado de Marco Nanini, Guilherme Weber e Ary França. A temporada segue para Fortaleza em julho. Como diretora, seu mais recente longa-metragem é A Alegria é a Prova dos Nove, de 2023.

A exposição
O percurso pela Ocupação começa com uma experiência imersiva, com áudio da própria Helena conduzindo o público e uma projeção central de trechos marcantes de suas atuações, evidenciando o corpo como linguagem e a ação como gesto político.

A mostra dedica um eixo especial à perspectiva da antimusa, com um conjunto impactante de manchetes históricas, imagens e vídeos. A Mulher de Todos ocupa lugar central na exposição, com a exibição do filme em cópia restaurada, o seu cartaz histórico e registros da personagem que ela encarnou: a irreverente Ângela Carne e Osso, ninfomaníaca que faz dos homens de gato-e-sapato, considerada uma interpretação revolucionária no cinema brasileiro por subverter papéis de gênero em plena ditadura.

O espaço dedicado à Belair reúne filmes, fotos, frames, vídeos, materiais de bastidores, trilhas sonoras e textos da época, incluindo documentos em que Helena se posiciona contra a censura. São registros que retratam o período de intensa criação vivido por Helena Ignez ao lado de Rogério Sganzerla e Júlio Bressane, em 1970. Para se ter uma ideia, o grupo realizou seis longas-metragens em poucos meses. A produção foi logo interrompida pela repressão e eles tiveram de partir para o exílio.

Integram esse conjunto materiais de filmes como "Carnaval na Lama", "Copacabana Mon Amour", "Sem Essa Aranha", "Cuidado Madame", "Barão Olavo, o Horrível" e "A Família do Barulho". Este núcleo também incorpora iniciativas de preservação associadas ao projeto, como apoio da Cinemateca Brasileira que contribuiu para a captura fotográfica digital das películas desses títulos, além de "O Bandido da Luz Vermelha", "O Padre e a Moça", "O Grito da Terra" e "A Grande Feira".

 A Ocupação evidencia ainda o trabalho de Helena como diretora, apresentando roteiros, cadernos de processo, vídeos e bastidores de filmes como "A Alegria é a Prova dos Nove" (2023), além de títulos anteriores. Como atriz, a mostra dialoga com sua produção recente, como o longa "Ensaio Sobre o Fracasso" (2020) e sua atuação no teatro em "Fim de Partida", de Samuel Beckett, com direção de Rodrigo Portella, ao lado de Marco Nanini, Guilherme Weber e Ary França.

Um mural com fotos mostra imagens de parcerias de trabalho longevas, como Rogério Sganzerla (1946–2004), Júlio Bressane, Antônio Pitanga, Paulo Vilaça (1939–1991), Cristiano Burlan e Jean-Claude Bernardet (1936–2024); e outros icônicos, como Jô Soares (1938–2022), Maria Gladys, Zé Celso Martinez Corrêa (1937–2023) e Ney Matogrosso.

 

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