Documentário de Jean-Baptiste Péretié revisita a trajetória do criador e mostra como perfeccionismo, ambição e uma cidade construída do zero ajudaram a produzir uma obra-prima - e uma ruína financeira
Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com.
Jacques Tati tinha um problema sério com limites. Para fazer cinema, precisava controlar o enquadramento, o movimento dos atores, o cenário, os ruídos e até aquilo que o espectador deveria descobrir sozinho. Em "Jacques Tati, Caído da Lua", documentário dirigido por Jean-Baptiste Péretié, essa obsessão aparece como uma das chaves para entender tanto a grandeza quanto a derrocada do cineasta francês. A produção estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, e percorre a carreira de Tati por meio de imagens de arquivo, cenas de filmes, entrevistas e registros pouco conhecidos de seu processo criativo.
Com 60 minutos de duração, o documentário acompanha a trajetória do artista desde os primeiros trabalhos no music-hall até o sucesso internacional e o desastre financeiro provocado por "PlayTime". A narração é de Denis Podalydès, ator da Comédie-Française, e o elenco de imagens de arquivo reúne, entre outros, o próprio Tati e nomes como Marcel Amont, Brigitte Bardot, Olivia de Havilland e Charles de Gaulle.
O título original, "Jacques Tati, Tombé de la Lune", traduz a ideia de alguém que parece ter chegado de outro planeta para observar o mundo. A expressão combina perfeitamente com Monsieur Hulot, personagem que Tati transformou em uma espécie de alter ego: alto, desajeitado, educado, distraído e quase sempre deslocado diante das engenhocas, dos costumes e da velocidade do mundo moderno. A diferença é que Hulot tropeça nas situações enquanto Tati parecia arquitetar cada tropeço com régua, compasso e uma paciência quase criminosa.
Péretié recupera um aspecto essencial dessa filmografia: Tati fez da observação cotidiana uma forma particular de comédia. O diretor preferia Buster Keaton a Charlie Chaplin e chegou a criticar Chaplin por concentrar demais a comicidade no protagonista. Tati caminhou em outra direção, espalhando a gag pelo quadro e permitindo que personagens aparentemente secundários participassem da engrenagem humorística.
O som também ocupa lugar central. Tati pertence ao cinema falado, mas muitas vezes parece trabalhar como se estivesse reinventando o cinema mudo. Portas, motores, passos, máquinas, campainhas, copos, telefones e ruídos urbanos assumem funções que normalmente seriam entregues aos diálogos. A comicidade nasce tanto do que se vê quanto do que se escuta. Em seus filmes, uma porta pode ter personalidade e uma máquina pode parecer mais humana do que quem a opera.
Essa obsessão alcança uma escala quase delirante em "PlayTime". Para filmar a produção de 1967, Tati construiu uma enorme cidade cenográfica conhecida como Tativille, com prédios, escritórios, ruas e interiores concebidos para que o diretor pudesse organizar sua coreografia visual. O projeto consumiu anos de trabalho e extrapolou sucessivamente o orçamento. O resultado hoje é tratado como uma das grandes obras-primas do cinema, mas sua recepção inicial foi bem menos generosa. O fracasso comercial levou Tati a uma crise financeira que envolveu a liquidação de sua empresa e a perda do controle sobre seus filmes, já que ele praticamente apostou a própria vida em uma obra que o público da época não estava preparado para receber.
O cineasta chegou a hipotecar a casa e outros bens para sustentar a produção. O projeto, concebido com uma ambição monumental, acabou contribuindo para sua ruína. Décadas depois, a história tratou de devolver a "PlayTime" o lugar que Tati imaginava que merecia. O documentário também ajuda a reposicionar o cineasta diante da modernidade. Tati não tratava a tecnologia apenas como vilã. O que o interessava era o modo como os seres humanos se comportavam diante dela.
Esse olhar continua particularmente atual. A arquitetura padronizada, a obsessão pela eficiência, a proliferação de dispositivos e a dificuldade de estabelecer relações em meio a ambientes cada vez mais automatizados poderiam facilmente alimentar uma comédia contemporânea. Tati percebeu esse mundo quando ele ainda estava começando a tomar forma. Talvez por isso Monsieur Hulot continue parecendo perdido: o problema é que nós também estamos.
"Jacques Tati, Caído da Lua" funciona como uma porta de entrada para uma filmografia pequena em quantidade e enorme em influência. O documentário não precisa transformar Tati em santo da comédia para demonstrar sua importância. Basta acompanhar o homem que começou no music-hall, criou um dos personagens mais reconhecíveis do cinema, ganhou o Oscar por "Meu Tio", construiu uma cidade para realizar "PlayTime" e terminou pagando uma conta brutal por sua própria ambição. Tati morreu em 1982, aos 75 anos, mas sua obra continuou crescendo depois dele.
O melhor elogio que se pode fazer a "Jacques Tati, caído da Lua" talvez seja lembrar que o cineasta permanece difícil de encaixar. Ele é comediante, ator, roteirista, diretor, mímico e arquiteto de situações. É francês, mas seu humor atravessou fronteiras porque dependia pouco de idioma. É herdeiro de uma tradição burlesca, mas não cabe confortavelmente nela. E criou um personagem que parecia estar sempre alguns segundos atrasado em relação ao mundo, porque Tati estiva, na verdade, alguns anos à frente.
Ficha técnica
"Jacques Tati, caído da Lua" | "Jacques Tati, Tombé de la Lune" (título original)
Gênero: documentário. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: a confirmar no lançamento brasileiro. Ano de produção: 2021. Data de lançamento: a confirmar para a estreia na Belas Artes à La Carte. Idioma: francês. Direção: Jean-Baptiste Péretié. Roteiro: Jean-Baptiste Péretié. Elenco: Jacques Tati, Denis Podalydès (narração), Marcel Amont, Brigitte Bardot, Olivia de Havilland, Charles de Gaulle, entre outros, em imagens de arquivo. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
Gênero: documentário. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: a confirmar no lançamento brasileiro. Ano de produção: 2021. Data de lançamento: a confirmar para a estreia na Belas Artes à La Carte. Idioma: francês. Direção: Jean-Baptiste Péretié. Roteiro: Jean-Baptiste Péretié. Elenco: Jacques Tati, Denis Podalydès (narração), Marcel Amont, Brigitte Bardot, Olivia de Havilland, Charles de Gaulle, entre outros, em imagens de arquivo. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
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