Comédia dramática de Denys Arcand chega ao Belas Artes à La Carte e reúne professores universitários para uma noite em que sexo, política, casamento e hipocrisia entram no cardápio. Foto: divulgação
Antes de existir aplicativo de relacionamento, antes de o sexo virar assunto de algoritmo e antes de qualquer reunião de amigos terminar com alguém dizendo que o outro precisa “fazer terapia”, Denys Arcand já colocava intelectuais em volta de uma mesa para falar sobre desejo, casamento, traição, política e as pequenas mentiras que ajudam a manter uma vida aparentemente organizada. Em "O Declínio do Império Americano", produção canadense de 1986 que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, a conversa é longa, afiada e, vez ou outra, inconveniente.
O ponto de partida parece simples. Quatro professores universitários se reúnem em uma casa de campo para preparar um jantar. Enquanto cozinham, conversam sobre mulheres, sexo, relacionamentos e aventuras extraconjugais. Em outro lugar, quatro mulheres ligadas a eles passam a tarde em um clube de exercícios e fazem praticamente a mesma coisa: falam dos homens, dos próprios desejos e das relações que insistem em complicar aquilo que deveria ser simples. Quando os dois grupos finalmente se encontram, o jantar vira uma espécie de tribunal informal das relações humanas.
Arcand, que também assina o roteiro, constrói o filme praticamente em cima da palavra. São personagens que pensam, argumentam, provocam, exageram e, principalmente, falam demais. E justamente aí está uma das graças da produção. O cineasta não tem pressa para chegar ao conflito. Prefere deixar que os personagens revelem quem são pelo que dizem e, principalmente, pelo que falam quando acreditam estar entre pessoas que pensam como eles.
O resultado é uma comédia dramática bastante particular, com humor ácido e uma dose generosa de cinismo. Sexo aparece por todos os lados, mas não como simples provocação. As conversas sobre amantes, casamento, fidelidade, homossexualidade, fantasias e relações paralelas servem para expor a distância entre aquilo que os personagens defendem intelectualmente e a maneira como conduzem a própria vida.
A ironia fica ainda melhor porque todos parecem saber muito sobre o comportamento humano. São professores, intelectuais, leitores, homens e mulheres acostumados a teorizar sobre a sociedade. Quando o assunto chega à própria intimidade, porém, a erudição começa a escorregar. Saber explicar o mundo, afinal, nunca garantiu competência para viver dentro dele. No centro dessa engrenagem está Rémy, interpretado por Rémy Girard, personagem que reapareceria em "As Invasões Bárbaras", de 2003. Casado com Louise, vivida por Dorothée Berryman, ele representa uma geração formada sob o discurso da liberdade sexual e das rupturas com os valores tradicionais. O problema é que liberdade, na prática, costuma cobrar uma conta que a teoria não prevê.
Dominique Michel, Dorothée Berryman, Louise Portal e Pierre Curzi lideram um elenco que também conta com Rémy Girard, Yves Jacques, Geneviève Rioux, Daniel Brière e Gabriel Arcand. A atuação depende muito da naturalidade dos diálogos, já que Arcand coloca os personagens em situações nas quais conversar é praticamente uma modalidade de combate. A estrutura também ajuda a criar uma espécie de duelo entre homens e mulheres. Os dois grupos parecem estar separados geograficamente, mas discutem praticamente os mesmos assuntos. Homens falam das mulheres, que falam dos homens e todos falam de sexo enquanto ninguém parece especialmente interessado em admitir que seja parte do problema.
O título "O Declínio do Império Americano" carrega uma provocação que vai muito além dos Estados Unidos. A expressão serve como metáfora para a deterioração de determinados valores associados à sociedade ocidental: casamento, família, fidelidade, religião, moral e uma ideia mais tradicional de organização social. Arcand olha para esse processo com uma mistura de ironia e desencanto, sem transformar os personagens em simples porta-vozes de uma tese.
Produzido em meados dos anos 1980, o filme também registra uma época bastante específica. O surgimento da Aids, as mudanças nos costumes, o avanço das discussões sobre liberdade sexual e a ressaca das utopias políticas das décadas anteriores fazem parte do ambiente em que esses personagens circulam. O próprio filme parece interessado em observar o que acontece quando uma geração que passou a juventude questionando regras precisa descobrir como viver depois que algumas dessas regras já não parecem tão sólidas.
A produção teve uma trajetória internacional expressiva. Foi exibida na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes em 1986 e recebeu o Prêmio FIPRESCI. No ano seguinte, tornou-se o primeiro filme canadense indicado ao Oscar na categoria de Filme em Língua Estrangeira. O filme também ajudou a colocar Denys Arcand no circuito internacional e preparou o terreno para "As Invasões Bárbaras", que retomaria personagens e conflitos 17 anos depois. A continuação ganhou o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 2004.
O filme costuma ser associado a uma trilogia informal de Arcand, completada por "A Era da Inocência", de 2007. Não existe um nome oficial para esse conjunto, mas os três filmes compartilham o interesse do cineasta pelas transformações sociais, pelo desencanto e pelas contradições da vida contemporânea. Outro detalhe curioso está na própria construção do filme. Arcand reuniu o elenco antes das filmagens para longas conversas sobre política, sexo e costumes, experiência que contribuiu para a naturalidade buscada nos diálogos. A estratégia combina perfeitamente com uma produção em que a palavra ocupa tanto espaço quanto os personagens.
Quase quatro décadas depois, muita coisa mudou, mas a dificuldade de conciliar desejo e compromisso permanece intacta. As ferramentas mudaram, as palavras mudaram e os costumes ganharam novas embalagens. A velha confusão entre aquilo que se deseja, aquilo que se promete e aquilo que efetivamente se faz continua firme.
Ficha técnica
"O Declínio do Império Americano" | "Le Déclin de l'empire américain" (título original) | "The Decline of the American Empire" (título internacional)
Gênero: comédia dramática. Duração: 101 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1986. Data de lançamento: 19 de junho de 1986, no Canadá. Idioma: francês. Direção: Denys Arcand. Roteiro: Denys Arcand. Elenco: Dominique Michel, Dorothée Berryman, Louise Portal, Pierre Curzi, Rémy Girard, Yves Jacques, Geneviève Rioux, Daniel Brière e Gabriel Arcand. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte, em estreia na plataforma de streaming. Cenas pós-créditos: não. A duração oficial de 101 minutos e os créditos principais são confirmados pelo Library and Archives Canada e pela Cinemateca de Québec. O título usado em Portugal também aparece na programação oficial da Cinemateca Portuguesa. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
Gênero: comédia dramática. Duração: 101 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1986. Data de lançamento: 19 de junho de 1986, no Canadá. Idioma: francês. Direção: Denys Arcand. Roteiro: Denys Arcand. Elenco: Dominique Michel, Dorothée Berryman, Louise Portal, Pierre Curzi, Rémy Girard, Yves Jacques, Geneviève Rioux, Daniel Brière e Gabriel Arcand. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte, em estreia na plataforma de streaming. Cenas pós-créditos: não. A duração oficial de 101 minutos e os créditos principais são confirmados pelo Library and Archives Canada e pela Cinemateca de Québec. O título usado em Portugal também aparece na programação oficial da Cinemateca Portuguesa. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
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