sexta-feira, 2 de outubro de 2026

.: Guimarães Rosa: as paisagens, viagens e lugares que entraram para a literatura


Da boiada conduzida em 1952 às veredas, rios, chapadas e cavernas que aparecem nos livros, João Guimarães Rosa transformou o sertão mineiro em um território literário que ultrapassa qualquer mapa

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. 

Antes de ser uma paisagem literária, o sertão foi, para João Guimarães Rosa, um lugar percorrido a cavalo, atravessado em meio a boiadas, observado de perto e registrado em cadernetas. A relação do escritor com o interior de Minas Gerais não se resumiu às lembranças da infância em Cordisburgo. O escritor voltou ao sertão, conversou com vaqueiros, anotou palavras, costumes, nomes de plantas e animais, ouviu histórias e deixou que aquela experiência se misturasse à imaginação.

É dessa matéria-prima que aparece boa parte da força de “Grande Sertão: Veredas”, publicado em 1956 e celebrado agora em uma edição especial da Commpanhia das Letrasd pelos 70 anos. O livro apresenta rios, veredas, chapadões, matas, povoados e caminhos, mas não oferece ao leitor um simples roteiro turístico. O sertão de Guimarães Rosa é reconhecível e, ao mesmo tempo, reinventado. Existem lugares reais, outros que ganharam novas formas e aqueles que pertencem sobretudo à geografia imaginária do romance.


A viagem que colocou Rosa no caminho da boiada
Em maio de 1952, quatro anos antes da publicação de “Grande Sertão: Veredas”, o escritor Guimarães Rosa acompanhou uma comitiva de vaqueiros que conduzia uma boiada pelo sertão mineiro. A viagem partiu da Fazenda Sirga, na região de Três Marias, e terminou nas proximidades de Araçaí. Durante dez dias, o escritor esteve em contato direto com os homens, os animais e os lugares que atravessavam o caminho.

Entre os vaqueiros estava Manuel Nardy, o Manuelzão, que se tornaria uma das figuras mais conhecidas associadas ao universo rosiano. Também estava João Henrique Ribeiro, o Zito, que atuava como guia, cozinheiro e vaqueiro e conversava longamente com o escritor durante o percurso. Décadas depois, Zito ainda guardava lembranças daquela viagem e contou à revista "Cult" detalhes do trajeto e da convivência com Rosa.

O escritor registrou a experiência em cadernetas que posteriormente ficaram conhecidas como “A Boiada”. A documentação dessa viagem reúne observações sobre a paisagem, a fauna, a flora, as pessoas e a vida cotidiana do sertão. Uma mostra organizada pelo Museu Casa Guimarães Rosa descreve esse material como uma espécie de inventário da natureza e da vida sociocultural do Cerrado mineiro da década de 1950.  Não se tratava, portanto, de um escritor passando rapidamente por uma paisagem em busca de inspiração, mas de alguém que estava interessado nos detalhes. O modo de falar de um vaqueiro, o comportamento dos animais, o nome de uma planta, uma festa, uma história contada à noite, o desenho de um caminho. Tudo podia acabar transformado em literatura.


De Três Marias a Araçaí
O percurso da boiada atravessou diferentes pontos do sertão mineiro. Pesquisas sobre “A Boiada” identificam passagens por municípios como Três Marias, Corinto, Morro da Garça, Curvelo, Cordisburgo e Araçaí. O caminho aparece nos registros de Guimarães Rosa como uma sucessão de fazendas, rios, veredas e encontros. A experiência também aproximou o escritor de uma cultura que ele conhecia desde a infância, mas que agora podia observar de dentro. 

Durante aqueles dias, precisava acompanhar o ritmo da comitiva, lidar com os deslocamentos, ouvir quem conhecia a região e prestar atenção a uma realidade que dificilmente caberia em descrições genéricas. Foi nesse contato que pessoas reais começaram a alimentar personagens e situações literárias. Manuelzão, por exemplo, seria transformado em personagem de “Uma Estória de Amor”, novela de “Corpo de Baile”. A viagem de 1952, por sua vez, deixou marcas na construção do universo de “Grande Sertão: Veredas”.


Quando a paisagem vira literatura
Quem procura localizar cada passagem de “Grande Sertão: Veredas” em um mapa corre o risco de encontrar uma obra diferente daquela que o escritor construiu. O romance está profundamente ligado ao sertão mineiro e aos Gerais, mas seus espaços foram reorganizados pela ficção. O Rio São Francisco e o Urucuia, por exemplo, pertencem à geografia brasileira. Já lugares como o Liso do Sussuarão ocupam uma zona mais complexa entre referência regional e criação literária.

O próprio Parque Nacional Grande Sertão Veredas ajuda a entender essa relação. Criado em 1989 e ampliado em 2004, o parque ocupa atualmente mais de 230 mil hectares entre Minas Gerais e Bahia e recebeu o nome em homenagem ao romance. O ICMBio destaca a importância ecológica e cultural da região, que reúne áreas de Cerrado, rios, veredas e diferentes ambientes associados ao universo descrito por Rosa.

Isso não significa que o escritor tenha percorrido todo o território posteriormente protegido pelo parque. Há, inclusive, pesquisas e levantamentos que observam que não há registro da passagem dele por determinadas áreas do parque. A homenagem está ligada à relação literária entre a região dos Gerais e o romance.


As veredas, os rios e os buritis
No universo de Guimarães Rosa, a paisagem nunca está simplesmente parada. A água corre, o gado atravessa, o vento mexe os buritis, os homens caminham e os personagens mudam de rumo. As veredas, particularmente, ocupam um lugar fundamental nessa geografia. São áreas úmidas do Cerrado, frequentemente associadas aos buritis e às nascentes, que aparecem de maneira recorrente na obra. O próprio nome do romance coloca essa paisagem no centro da experiência de leitura.

O Parque Nacional Grande Sertão Veredas conserva diferentes ambientes desse tipo e possui entre seus atrativos a Vereda do Santa Rita, o encontro dos rios Preto e Carinhanha, além de trilhas, cachoeiras e mirantes. É uma paisagem que também mudou desde o tempo de Rosa. Reportagem do "Globo Repórter" de 2023 mostrou pesquisas sobre o aquecimento da região e os impactos sobre as nascentes e veredas, além de registrar ameaças ambientais enfrentadas pelo Parque Nacional Grande Sertão Veredas. A literatura, nesse caso, acaba funcionando também como uma espécie de registro de uma paisagem em transformação. O sertão que Guimarães Rosa conheceu na década de 1950 continua existindo, mas não permanece intocado.


As cavernas também entram nessa geografia
O sertão rosiano não se resume aos campos abertos e às veredas. As cavernas também fazem parte dessa paisagem. Em 2023, uma equipe do "Globo Repórter" percorreu diferentes regiões relacionadas ao universo de “Grande Sertão: Veredas” e passou pelo Parque Nacional Cavernas do Peruaçu. A região reúne centenas de cavernas mapeadas, cânions e cursos d’água. Na narrativa televisiva sobre a obra, o espaço foi associado aos refúgios de Riobaldo e dos jagunços.

O contraste é interessante: de um lado, as veredas abertas, com água e buritis; de outro, as formações rochosas, as grutas e os cânions. No livro, o sertão comporta essas diferenças sem precisar escolher uma única aparência. É um território de contrastes, onde a paisagem pode mudar tanto quanto o homem que atravessa seus caminhos.


Morro da Garça e a memória de Guimarães Rosa
O Morro da Garça ocupa outro lugar importante nessa cartografia. O município mineiro aparece ligado à trajetória do escritor e às histórias do sertão que ele conheceu durante suas viagens. A região também preserva uma memória coletiva associada a Guimarães Rosa. Em reportagem sobre o segundo programa especial do "Globo Repórter", foi registrada a visita da equipe ao município, a presença da cultura sertaneja e da tradição cigana e a Festa da Lavoura.

A ideia de preservar essa memória vai além dos livros. A proposta de criação de um Museu de Território apresentada na reportagem pretendia permitir que o percurso relacionado à viagem de Rosa pudesse ser conhecido também como experiência cultural, aproximando paisagem, memória, comunidade e literatura. Há algo particularmente bonito nisso: os lugares que ajudaram a alimentar uma obra literária passam a guardar, décadas depois, a memória do próprio escritor que os percorreu.


Manuelzão, o homem que virou personagem
Entre tantos nomes encontrados por Guimarães Rosa durante suas viagens, Manuelzão ganhou uma vida literária especialmente duradoura. Manoel Nardy era capataz da Fazenda Sirga e conduziu a boiada acompanhada pelo escritor em 1952. A fazenda onde viveu, segundo reportagem do "Globo Repórter", passou a abrigar o Museu do Manuelzão, dedicado à preservação dessa memória.

A passagem do homem real para o personagem literário revela como funcionava o olhar de Guimarães Rosa. Ele recolhia pessoas, vozes, histórias e modos de vida, mas não os transportava intactos para a página, pois os recriava. Por isso, conhecer os caminhos percorridos pelo escritor ajuda a compreender “Grande Sertão: Veredas”, mas não encerra o romance. O livro começa onde a geografia real já não consegue dar conta de tudo.


Um sertão que continua se movendo
Setenta anos depois da publicação, os caminhos de “Grande Sertão: Veredas” continuam despertando interesse porque a paisagem de Rosa nunca foi apenas cenário. Rios, veredas, chapadas, cavernas, fazendas e estradas participam da narrativa tanto quanto os jagunços. O espaço interfere nas decisões, cria obstáculos, aproxima pessoas, separa grupos e acompanha as mudanças de Riobaldo. A geografia do romance está sempre em movimento porque quem atravessa o sertão também se modifica. “o sertão é do tamanho do mundo”, frase tantas vezes associada ao universo do livro, continua funcionando tão bem como chave de leitura. O sertão de Guimarães Rosa cabe em Minas Gerais, mas não termina lá. A viagem de 1952 teve começo, percurso e destino. A viagem literária, essa, continua.


Dossiê Resenhando: “Grande Sertão: Veredas” - 70 anos
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