quarta-feira, 4 de novembro de 2026

.: “Duna” desafia David Lynch com ficção científica grandiosa e estranha


Produção de 1984 tenta condensar o universo de Frank Herbert em 137 minutos e acaba encontrando sua força justamente nas imagens, nos figurinos e na atmosfera psicodélica

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Antes de Denis Villeneuve transformar “Duna” em uma das grandes experiências cinematográficas contemporâneas, David Lynch já havia encarado a tarefa de levar o universo criado por Frank Herbert ao cinema. O resultado, lançado em 1984, continua provocando uma reação curiosa: é perfeitamente possível reconhecer os problemas do filme e, ainda assim, continuar fascinado por ele. 

“Duna”, que estreia no streaming Belas Artes À La Carte, acompanha Paul Atreides (Kyle MacLachlan), jovem integrante de uma poderosa família nobre que se muda para Arrakis, planeta desértico responsável pela produção da especiaria Melange, substância fundamental para a expansão da humanidade pelo universo. O controle de Arrakis, portanto, significa controlar uma das maiores fontes de poder daquele futuro marcado por disputas políticas, guerras e intrigas.

A situação muda radicalmente quando os Atreides são traídos. Paul precisa sobreviver ao deserto, aproximar-se dos Fremen e compreender as visões que apontam para um destino muito maior do que ele próprio imaginava. No papel, uma aventura espacial de proporções gigantescas. Na prática, um dos projetos mais espinhosos da carreira de Lynch. O diretor passou cerca de três anos e meio trabalhando em “Duna”, depois de recusar a oportunidade de dirigir “O Retorno de Jedi”. Antes dele, Ridley Scott havia demonstrado interesse pelo projeto, mas acabou deixando a produção. Lynch assumiu direção e roteiro e tentou colocar no filme uma quantidade impressionante de informações do romance de Herbert.

Com uma história extremamente complexa, cheia de casas nobres, planetas, religiões, disputas políticas, profecias e termos próprios, “Duna” precisava de espaço. A versão cinematográfica, porém, chegou aos cinemas com 137 minutos. O corte original era consideravelmente maior, mas a interferência do estúdio reduziu a duração e, junto com ela, parte da capacidade do filme de desenvolver personagens, relações e acontecimentos. O resultado é uma narrativa que muitas vezes parece correr para explicar o que deveria ter tempo para apresentar. 

Vozes em off anunciam pensamentos, diálogos despejam informações e personagens aparecem com pouco espaço para ganhar profundidade. Para quem nunca leu o livro, acompanhar aquela quantidade de nomes e conceitos pode ser uma espécie de prova de resistência interplanetária. Existe ainda um detalhe curioso: Lynch não parece especialmente interessado em tornar aquele universo confortável para o espectador. A versão lynchiana de "Duna" tem uma aparência própria, frequentemente estranha, exagerada e psicodélica. A direção de arte e os figurinos carregam uma personalidade que continua chamando atenção décadas depois. Os cenários têm peso, textura e extravagância. Os trajes dos personagens parecem pertencer a uma civilização que passou séculos acumulando referências culturais de diferentes mundos e decidiu colocar tudo no mesmo guarda-roupa.

Os efeitos visuais, naturalmente, envelheceram. Algumas soluções parecem artesanais, outras revelam sem cerimônia as limitações técnicas da época. Ainda assim, existe uma dimensão tátil nos efeitos práticos e nas miniaturas que ajuda a explicar por que “Duna” continua despertando carinho entre parte dos admiradores da ficção científica. Os gigantescos vermes de areia de Arrakis são um bom exemplo. Vistos em uma tela pequena, determinados efeitos podem parecer frágeis. Em uma projeção de grande escala, porém, a dimensão física das criaturas ganha outra força. A experiência também favorece a fotografia, os cenários e o desenho de produção, elementos que sustentam boa parte do encanto do filme.

A trilha sonora de Toto, com participação de Brian Eno, é outro dos pontos fortes. O som ajuda a construir uma atmosfera grandiosa e peculiar, especialmente nas passagens envolvendo Arrakis e a Guilda Espacial. É uma música que, mesmo separada das imagens, continua capaz de evocar imediatamente o universo de Lynch. O elenco também merece atenção. Kyle MacLachlan interpreta Paul Atreides em seu primeiro grande papel no cinema e iniciaria ali uma parceria fundamental com Lynch. Francesca Annis, Jürgen Prochnow, Sean Young, Virginia Madsen, Max von Sydow, Patrick Stewart e Sting completam uma escalação que hoje parece quase inacreditável.

Patrick Stewart surge como Gurney Halleck em um dos detalhes mais curiosos da produção: carregando um pug durante uma batalha. É uma imagem tão improvável que parece ter sido inventada por alguém depois de assistir ao filme, mas está lá. O músico Sting, por sua vez, interpreta Feyd-Rautha Harkonnen e protagoniza uma das cenas mais lembradas da produção. Ele quase apareceu completamente nu durante o famoso banho de vapor, mas o estúdio mudou de ideia pouco antes das filmagens. O figurino usado na sequência acabou sendo produzido às pressas.

Os bastidores também foram pouco amigáveis. As filmagens no México provocaram problemas gastrointestinais em integrantes do elenco e da equipe. Para evitar novos contratempos, a produção construiu uma grande cafeteria para concentrar a alimentação e chegou a importar produtos dos Estados Unidos. Os trajes da Guilda Espacial têm outra história peculiar. Segundo os relatos reunidos sobre a produção, algumas peças foram encontradas em um antigo quartel de bombeiros abandonado e originalmente eram utilizadas como sacos para cadáveres. A equipe reaproveitou o material sem informar aos atores sua procedência. 

A recepção de “Duna” foi bastante dividida. Parte da crítica e dos fãs considerou a adaptação confusa, excessivamente comprimida e distante do espírito do romance. Outros enxergaram na personalidade visual e na estranheza de Lynch os elementos que fazem a produção permanecer interessante. Essa divisão continua décadas depois. Há quem considere o filme um dos grandes tropeços da carreira do diretor. Há também quem o veja como uma experiência singular, imperfeita e fascinante, especialmente por aquilo que ousa fazer com o material de Herbert.

O próprio Lynch ficou profundamente insatisfeito com a versão final. Ele chegou a pedir que seu nome fosse retirado da versão estendida produzida para a televisão americana, utilizando o pseudônimo Alan Smithee na direção e Judas Booth no roteiro. O gesto dizia muito sobre sua relação com um projeto que havia consumido anos de trabalho. 

“Duna” é melhor compreendido como documento de uma tentativa impossível: condensar um romance monumental em pouco mais de duas horas e, ao mesmo tempo, preservar a estranheza de um cineasta como David Lynch. O resultado é irregular, às vezes desajeitado, frequentemente exagerado e, em alguns momentos, involuntariamente engraçado. Também é visualmente inventivo, musicalmente marcante e cheio de escolhas que permanecem na memória. É um filme que pode irritar quem espera uma adaptação fiel e encantar quem gosta de descobrir alguma imagem inesperada, um figurino absurdo, uma criatura gigantesca ou Patrick Stewart entrando em batalha com um pug. 


Ficha técnica
“Duna” | “Dune” (título original)
Gênero: Ficção científica, aventura. Duração: 137 minutos. Direção e roteiro: David Lynch. Baseado no romance “Duna”, de Frank Herbert. Produção: Raffaella De Laurentiis. Produção executiva: Dino De Laurentiis. Elenco: Kyle MacLachlan, Francesca Annis, Jürgen Prochnow, Kenneth McMillan, Sean Young, Virginia Madsen, Sting, Max von Sydow, Patrick Stewart, Brad Dourif, José Ferrer, Linda Hunt, Silvana Mangano, Freddie Jones, Richard Jordan, Everett McGill, Siân Phillips, Paul L. Smith, Alicia Witt, Dean Stockwell, Jack Nance, entre outros. Música: Brian Eno e Toto. Cinematografia: Freddie Francis. Direção de arte: Pier Luigi Basile. Figurino: Bob Ringwood. Edição: Antony Gibbs. Companhia produtora: De Laurentiis. Distribuição nos Estados Unidos: Universal Pictures. Lançamento nos Estados Unidos: 14 de dezembro de 1984. Idiomas: Inglês e italiano. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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