Mostrando postagens com marcador Entrevistas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Entrevistas. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

.: Angela Figueiredo encara a ditadura e recusa suavizar a dor em “1975”


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.comFoto: divulgação

Em "1975", espetáculo escrito por Sandra Massera e protagonizado por Angela Figueiredo, a memória dos desaparecimentos forçados durante a ditadura uruguaia ganha corpo em uma encenação solo, íntima e politicamente incisiva. Em cartaz na Arena B3, no Centro Histórico de São Paulo, a montagem recusa o conforto da distância histórica e aproxima o público brasileiro de um trauma que atravessa fronteiras e décadas.

Ao assumir não apenas a atuação, mas também a co-direção, a tradução e a adaptação do texto, Angela Figueiredo transforma o palco em espaço de escuta e reflexão. A peça não busca reconstruir fatos de maneira documental, mas sustentar emocionalmente aquilo que foi apagado pela violência de Estado e pelo silêncio que se seguiu. Nesta entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, a atriz fala sobre memória, ética, solidão, juventude sob regimes autoritários e o teatro como lugar onde a dor não é suavizada.

Resenhando.com - "1975" fala de desaparecimentos forçados, mas também de tudo aquilo que nunca voltou a ser dito. O que dói mais em cena: a violência explícita do Estado ou o silêncio que se instala depois dela?
Angela Figueiredo - 
A dor e as emoções da personagem não estão apenas na violência explícita do Estado, mas também no silêncio, na angústia, na perda, nas dúvidas e nas reflexões da sua vida.

Resenhando.com - Em um espetáculo construído a partir de cartas, lembranças e ausências, o que você precisou inventar para dar corpo ao que historicamente foi apagado. E também o que você se recusou a inventar por respeito à memória real?
Angela Figueiredo - Precisei criar as partes que faltavam, misturando-as com a minha juventude e as experiências daquele período. Também troquei essas ideias com Sandra Massera, autora do texto, uruguaia e co-diretora com quem trabalhei no processo da primeira montagem. Percebemos que, mesmo vivendo em países diferentes, estávamos ligadas pelo mesmo pensamento juvenil da época. Não quis separar os sentimentos e as experiências que vivi no Brasil da história que estou contando. As ditaduras no Brasil e no Uruguai, tiveram muitas coisas em comum e despertaram sentimentos parecidos.

Resenhando.com - Há algo de profundamente político em escolher uma atuação solo para falar de um trauma coletivo. Você sente que essa solidão em cena dialoga com a solidão das famílias que esperaram por respostas que nunca vieram?
Angela Figueiredo - Não sinto solidão em cena, represento a dor das famílias que esperam por respostas que nunca tiveram.

 Resenhando.com - Depois de tantos anos transitando pela televisão, pelo cinema e pelo teatro, o que "1975" exige de você como atriz que nenhuma novela ousou exigir?
Angela Figueiredo - Este espetáculo me exige o domínio do todo, pois, além de co-dirigir e atuar, traduzi e adaptei o texto. Cuido de todos os detalhes. Já no cinema, na televisão e em espetáculos com equipes maiores, as funções são divididas: as equipes são grandes, muita gente para fazer muita coisa. Aqui, trabalho com uma equipe pequena e estou envolvida em todo o processo.

Resenhando.com - A peça revisita a ditadura uruguaia, mas o público brasileiro inevitavelmente faz suas próprias conexões. Em que momento você percebeu que "1975" deixou de ser “sobre o outro país” e passou a ser perigosamente próxima de nós?
Angela Figueiredo - Sempre pensei que a peça dialogava com a nossa história no Brasil, mas essa percepção se tornou ainda mais clara quando entendi que a violência e o trauma são os mesmos que vivemos aqui. A peça se passa no Uruguai, mas essa história poderia ser passada   em nosso país também.

Resenhando.com - Existe o risco de transformar a dor histórica em produto cultural “bem-acabado”. Como você e Sandra Massera lidaram com o limite entre encenação, ética e memória viva?
Angela Figueiredo - Busquei uma abordagem baseada no respeito à memória da história dolorosa do passado. A encenação foi pensada para manter essa memória viva, como a personagem faz, usando obviamente a poesia do texto para chegar diretamente ao público sem a preocupação de suavizar o sofrimento. Independentemente da dor, a vida segue de alguma forma, e alguns momentos apenas aliviam a dúvida sem fim.


Resenhando.com - O espetáculo propõe uma escuta sensível, quase íntima. Em tempos de discursos ruidosos, polarizados e violentos, você acredita que o teatro ainda é um espaço de escuta, ou virou um lugar de resistência silenciosa?
Angela Figueiredo - Acredito que o teatro é um espaço de escuta, reflexão, resistência e poesia também. Não sei se silenciosa ou barulhenta; depende de como as pessoas recebem o espetáculo.

Resenhando.com - Ao longo da carreira, você interpretou personagens em universos muito distintos. O que permanece em você depois de cada sessão de "1975" que não ficava após um dia de gravação na televisão?
Angela Figueiredo - As personagens não vão comigo para casa. Eu as deixo no camarim, depois que tiro o figurino, independentemente do texto.

Resenhando.com - Há uma geração inteira que não viveu as ditaduras latino-americanas e outra que tenta relativizá-las. O que você espera que esses jovens levem consigo ao sair do teatro: incômodo, informação ou responsabilidade?
Angela Figueiredo - Espero que o espetáculo possa informar, sensibilizar ou despertar a curiosidade daqueles que não vivenciaram ou não sabem o que aconteceu nesse período. Mais do que isso, o texto também traz uma reflexão sobre perda, solidão e memória.

Resenhando.com - Em cena, você carrega memórias que não são suas, mas que são transmitidas por você o tempo todo. Existe um momento em 1975 em que a atriz desaparece e sobra apenas alguém tentando sustentar aquilo que a história tentou enterrar?
Angela Figueiredo - A peça é uma ficção construída a partir da realidade daquela época. As memórias não precisam ser minhas para que eu possa expressá-las e transmiti-las. Durante todo o espetáculo, estou ali como atriz, vivendo aquela história. Naquele momento, tudo é real.

Ficha técnica
Espetáculo "1975"

Texto: Sandra Massera
Direção: Sandra Massera e Angela Figueiredo
Elenco: Angela Figueiredo
Direção de vídeos e fotos: Nanda Cipola
Assistente de direção: Claudinei Brandão
Cenografia e figurinos: Kléber Montanheiro
Iluminação: Amarílis Irani e Maria Julia Rezende
Trilha sonora: Branco Mello e Sandra Massera
Programação visual: Vicka Suarez
Operações técnicas: Nanda Cipola, Maria Julia Rezende
Realização: Casa 5 Produções

Serviço
Espetáculo "1975"

Dias 24 e 25 de janeiro, às 14h30 e 17h00
Classificação: 12 anos
Duração: 60 minutos
Ingressos: https://bileto.sympla.com.br/event/114362/d/355042/s/2395274?

Sobre a B3
A B3, a bolsa do Brasil, tem o compromisso de apoiar a democratização do acesso à cultura, por meio de parcerias e patrocínios que facilitem o acesso da sociedade a esses espaços. Em 2023, a bolsa do Brasil apoiou 25 projetos, e possibilitou que mais de 95 mil pessoas acessassem os 7 museus patrocinados por meio do oferecimento também de dias de gratuidade. Dentre as instituições apoiadas estão o MASP, a Pinacoteca de São Paulo, o MIS, o Museu Judaico e MUB3, na capital paulista, o Instituto Inhotim, localizado em Minas Gerais, e o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Além das gratuidades, a bolsa do Brasil patrocina ainda uma série de iniciativas culturais, como musicais, eventos e exposições.


Sobre a Aventura

Fundada em 2008, e liderada por Aniela Jordan, diretora artística e produção e geral, Luiz Calainho, diretor de marketing e negócios, e por Giulia Jordan, diretora geral de venues, a Aventura é referência na produção de espetáculos de altíssima qualidade, que tornou o mercado de teatro musical um dos principais segmentos da economia criativa no Brasil. A empresa se estabeleceu como uma grande aliada da multiplicidade artística, fundamental para o desenvolvimento social, econômico e cultural. A sua missão é transformar grandes ideias em realidade, criando fortes conexões entre marcas e projetos. São mais de 40 produções, de espetáculos inéditos e de versões da Broadway, como “Elis, a musical”, “A Noviça Rebelde”, “Sete”, “O Mágico de Oz”, “SamBRA”, “Chacrinha, o musical”, “Romeu & Julieta, ao som de Marisa Monte”, “Merlin e Arthur, um sonho de liberdade” e o infantil “Zaquim”. Em 2022, a produtora inovou com o primeiro musical em formato de série do país, o “Vozes Negras – A Força do Canto Feminino”, e com o musical “Seu Neyla”, apresentado em dois palcos com o uso da internet para criar uma experiência diferenciada no espectador, além de estrear uma parceria com a Disney - Pixar com o espetáculo “Pixar in Concert”. Com o objetivo de democratizar o acesso à cultura, criou a Cia Stone de Teatro, projeto de teatro itinerante no interior do Brasil e é a responsável pela produção da Cia de Ballet Dallal Achcar. Ao todo, foram mais de 3,8 mil apresentações e cerca de 4,5 milhões de espectadores, mais de 16 mil empregos diretos e indiretos gerados, números que não param de crescer. 

.: Entrevista: Aline Campos enfrenta o jogo e paga o preço da sinceridade


Eliminada do "BBB 26", atriz reflete sobre embates, emoção e a decisão de não silenciar conflitos do passado. Foto: Globo/ Beatriz Damy


Eliminada no primeiro paredão do "BBB 26", Aline Campos deixou a casa mais vigiada do Brasil após receber 61,64% dos votos do público. Protagonista de um embate intenso com a participante Ana Paula Renault, a atriz e empresária entrou no jogo disposta a resolver pendências do passado e pagou o preço por jogar de forma frontal e emocional logo na primeira semana. Nesta entrevista, Aline faz um balanço honesto de sua passagem pelo reality, comenta os conflitos que marcaram sua trajetória, reflete sobre escolhas, estratégias e aprendizados, e revela quais laços gostaria de ter aprofundado caso tivesse permanecido no programa.


Que balanço faz da sua trajetória no "BBB 26"? 
Aline Campos - Estou feliz e com o coração tranquilo em relação à minha participação no "BBB" nessa primeira semana de jogo, que foi tão intensa. Acho que não tinha como ser diferente diante da bagagem que já existia na minha relação com a Ana Paula, que foi a narrativa principal que me envolveu nesses dias. Não teria como seguir o jogo com isso engasgado, sem zerar essa situação. Só que o fato de eu ter exposto isso a ela, de certa forma, gerou um olhar para mim de competição e também um mal-estar, por mais que ela tenha me pedido desculpas e eu tenha aceitado; o clima ficou ruim. Eu não me arrependo de nada do que fiz. Algo que eu pretendo avaliar, quando conseguir parar, é a minha forma de me expressar. É importante reforçar que uma pessoa que medita, que trabalha seu autoconhecimento e sua espiritualidade não é melhor do que ninguém e não está imune a se desequilibrar emocionalmente. Muito pelo contrário: uma pessoa que sabe que existe a sua sombra entende que precisa ser olhada para que não machuque ninguém. O fato de eu meditar não significa que eu sou só zen, só namastê. Tem sempre o outro lado da polaridade. Pelos poucos vídeos que eu consegui assistir até agora e pelo que eu me lembro, acho que está tudo coerente com o que eu vivi. Existiram momentos em que não dava para falar calminha; houve momentos em que a minha fala foi mais impactante. Por ser uma mulher forte, no sentido de já ter vivido muitas coisas e sempre tendo lutar, a gente acaba criando um escudo, camadas que fazem com que a gente não seja só leve e suave na vida. Existem outras mulheres na casa que eu considero que são assim como eu. Estou muito feliz, porque sei que agi com o coração do início ao fim. Por mais que eu tenha saído na primeira semana, consegui enxergar que foi um paredão difícil. Consigo enxergar que a Ana Paula é uma ótima jogadora. Em relação ao jogo, eu tiro meu chapéu para ela porque ela soube e sabe – e eu acho que ela vai muito longe – articular e fazer a coisa acontecer de uma forma inteligente e do jeito que ela quer para ela. Talvez jogar com o coração nem seja jogar. Eu simplesmente fui eu lá, de certa forma, até com uma inocência por ter entrado logo de cara num embate com uma das pessoas mais fortes dos reality shows que já aconteceram no Brasil. Mas não me arrependo de absolutamente nada, faria tudo igual, talvez lapidando a forma de me expressar.

 
O que faltou para ir mais longe na competição, na sua opinião? 
Aline Campos - Eu acho que para eu ir mais longe na competição ou teria que ter guardado para mim o que aconteceu aqui fora, pelo menos por um tempo – se eu tivesse feito isso, eu acredito que não teria ido para esse primeiro paredão – ou não ter tido coragem de colocá-la (Ana Paula) nesse primeiro paredão comigo quando tocou o Big Fone. Mas acredito que as coisas são como têm que ser. Talvez se eu tivesse criado mais oportunidade de discussão com ela e não tivesse cessado... Mas ela também não olhava no meu olho para que essa oportunidade surgisse. Uma das estratégias de jogo dela era não me dar enredo para continuar com mais narrativa.
 

Quando usou sua “touca da sorte”, com as flores, a Ana Paula fez uma piada te chamando de planta. Como avalia esse apontamento? 
Aline Campos - Eu acho que ela foi genial, porque aquela touca eu uso aqui fora quando estou me sentindo para baixo, eu amo aquela touca. Só que quando eu a coloquei na mala e decidir usar, nem pensei que aquilo podia ser motivo de piada. Mas ela foi genial; olhou e falou “planta”. Eu tive até que concordar que a piada dela foi boa (risos). Uma coisa muito positiva na Ana Paula, por mais que a forma de levar o jogo vá contra àquilo que eu acredito, é que ela é muito engraçada. Ela tem um humor ácido e uma leveza que são igual a quando você assiste a uma novela e gosta do vilão. Ela tem essa característica que eu acho que faz o povo abraçá-la. Contudo, não faz o menor sentido me apontar como planta. Eu tentava não levar a sério, porque ela queria me provocar. Ela falava o tempo todo que eu era planta e, de certa forma, manipulava também o público de casa, porque ela sabia que esse era o" BBB" que não tolerava planta. Mas uma planta não movimenta o jogo como eu movimentei. Uma planta não tem coragem de falar para a participante mais confiante o que eu falei, de bater de frente. Eu não concordo e aquilo ali não me atingiu em absolutamente nada.
 

Por que acha que o Marcelo te puxou para o paredão após atender o "Big Fone"? E como foi sua escolha pela Ana Paula no contragolpe? 
Aline Campos - Eu tinha acabado de conversar com o Marcelo. Quando eu me conectei com ele inicialmente, ele foi um querido comigo. Eu achei que nunca fosse ter problema com ele. Mas ele acabou sendo um fiel escudeiro da Ana Paula e, quando eu vi, ele tinha parado de falar comigo. Mesmo depois da conversa que eu tive com ele, o Big Fone tocou e, no calor da emoção, me vendo conversar com ela também, não teria como ele pensar em outra pessoa. Eu entendo ele ter me colocado, por mais que a gente tenha conversado e, na hora, ter parecido que ficou tudo bem entre a gente, aquilo ali é um jogo. Quando eu peguei a pulseira, eu ainda dei uma analisada na casa, mas eu realmente não tinha dúvidas de quem colocar. Por mais que eu achasse ela uma pessoa forte, eu acredito que não tinha como ter sido diferente. Não por acaso o Big Fone tocou naquela hora, dando todos os sinais de que era para haver aquele embate. Não tive nem como pensar em outra pessoa.


No primeiro mercado da Xepa, os outros brothers não atenderam ao seu pedido pela caixa de ovos. Ao reivindicar, você acabou discutindo com a Ana Paula. Você se sentiu incompreendida naquele momento? 
Aline Campos Eu me senti muito incompreendida, porque com as estalecas que eu dava para fazer a compra coletiva, eu também comprava a carne da galera e outros itens que eu nem consumia. Na minha cabeça, não fazia sentido nenhum alguém me privar de, com o meu próprio dinheiro, – mesmo eu participando do “ratatá” da carne que eu não comia – comprar uma caixa de ovos. Então, eu me senti, sim, injustiçada, por pura implicância.
 

Que aprendizados ficam dessa experiência no reality?
Aline Campos Eu acho que ainda vou ter muitos aprendizados no pós-"BBB" por estar me analisando, entendendo como eu sou nas reações e tudo mais. Mas o aprendizado é sobre lidar com pessoas diferentes de mim. É importante, porque chega um momento na nossa vida em que a gente consegue escolher mais as pessoas com quem a gente convive e isso torna a nossa vida mais confortável. Se eu não quero estar com você, eu não preciso. Só que quando você está com pessoas com quem você não quer estar, existem muitos aprendizados que a gente só entende vivendo. Por exemplo, lidar com vários sentimentos, estar naquela casa, acordar com a música alta e só querer ver as pessoas que eu amo, mas ter que lidar com quem estava me odiando lá dentro. Então, eu ainda estou assimilando tudo, a ficha demorou a cair quando eu entrei e está demorando para cair agora que eu saí. Eu acho que o aprendizado é sobre lidar com emoções que eu não escolho, porque no dia a dia, graças a Deus, hoje eu posso escolher quem está do meu lado.
 

Entre camarotes e veteranos, você disse que já conhecia alguns dos participantes. Sua percepção sobre algum deles mudou durante o game?  
Aline Campos - Sim. Eu saí com uma percepção esquisita a respeito do Babu, eu diria. Talvez se eu tivesse ficado mais tempo lá, eu poderia esclarecer com ele, porque sempre gostei muito dele, do papo dele, de quando ele está na conversa com todo mundo. Mas o negócio que ele me falou depois do Sincerão não fez sentido para mim, eu achei que ele “pipocou”. Ele disse que, se não tivesse colocado a Sol (Vega), ele teria me colocado na posição de quem ele não gostaria que ganhasse o "BBB". Aí eu falei: “Como assim? Das 20 e poucas pessoas, você me chama de amiga, e eu sou a pessoa que você não gostaria que ganhasse o BBB?”. Aí ele respondeu: “Não, amiga, não é isso. Mas é porque você está num paredão muito difícil, então eu ia te colocar porque eu achava que você sairia”. Aí eu falei ele estava sendo incoerente, porque a pergunta do Tadeu foi clara: “Quem você gostaria que não ganhasse o 'BBB'?”. E que se ele me colocasse, ele iria declarar que queria que eu perdesse. Aí ele ficou tentando dar uma enrolada para algo que não tinha o que enrolar. A pergunta foi clara e isso me deixou um pouco decepcionada, porque ele me chamava de amiga e eu realmente tinha uma grande consideração e carinho por ele - tenho ainda. Ali eu enxerguei de uma outra forma, vi que realmente é um jogo. Mas eu espero que depois a gente converse e que fique tudo ajustado.
 

Essas relações com brothers e sisters que já conhecia aqui fora ajudaram na convivência ou dificultaram de alguma forma?
Aline Campos - Eu acho que ajudaram, de alguma maneira. O Jonas foi superfofo de me levar para o Almoço do Anjo quando eu estava abalada emocionalmente e na Xepa, com opções limitadas para comer. Com relação a Sol (Vega) também. Ela é uma mulher incrível, forte e inspiradora, só que não se envolve muito no jogo. Eu tinha o acolhimento de uma pessoa que eu conhecia desde o início, uma mulher madura. Eu gostei muito dessa edição, porque há muitas pessoas de idades diferentes, desde 21 anos até pessoas mais velhas, então deu essa equilibrada. Na verdade, eu acho que esse fato mais me ajudou do que atrapalhou.
 

Acredita que você e a Sol seguiriam como aliadas se tivesse permanecido no programa?
Aline Campos - Eu acho que sim. Se eu tivesse permanecido, a gente iria estreitar cada vez mais a amizade. Eu achei tão fofo ela chorando na minha saída. A gente estava se conectando cada vez mais. Nós somos duas pessoas de personalidades diferentes, mas a gente se conectou através do nosso coração, do olhar. Ela é uma mulher muito verdadeira e o que a gente tem em comum é a força da mulher que teve que passar por preconceitos para chegar aonde chegou. Ela também tem a voz forte, que muitas vezes é mal interpretada. Eu acho, sim, que a gente fortaleceria nossa amizade se eu tivesse ficado mais tempo lá. Eu a admiro muito, torço para que ela fique bem e seja acolhida por pessoas legais.
                                                                                                                                                                                
Mais quem você gostaria de ter como aliado no jogo se tivesse continuado no "BBB"?
Aline Campos A Jordana. Foi no final que a gente se conectou, mas é uma mulher que pensa muito parecido comigo e que se posiciona muito bem. Ela não tem medo de não escolher um lado, mesmo concordando mais com a opinião do outro lado. Eu acho que, sim, ela vai receber ataques, porque não escolheu um lado específico e fica perto das pessoas que ela acredita, mas ela se posiciona; quando não gosta ela fala. Vou torcer muito por ela!
 

Para mais quem, além dela, fica sua torcida? 
Aline Campos - Além da Sol (Vega) e da Jordana, eu me conectei muito, mesmo que rápido, com a Gabizinha, que chegou por último. A gente gosta das mesmas coisas. Ela é uma menina de 21 anos, muito forte, que passou por uma situação que talvez eu não passaria, o Quarto Branco. Eu acho ela muito verdadeira e corajosa e acredito que vá longe. A minha torcida vai para Sol (Vega), para a Jordana, para a Gabi e eu gosto muito do Juliano (Floss) também. Eu gosto do Brigido...Tem muitas pessoas que eu saí de lá gostando e que eu quero acompanhar e torcer.

 
O que muda na Aline que entrou no "BBB" no dia 12 de janeiro e a que saiu ontem? 
Aline Campos Muda o olhar para o ser humano, para as relações. Porque, se a gente se abre para as relações improváveis e desafiadoras, a gente aprende muito e se conhece mais. Eu quero muito analisar os vídeos, as cenas principais com calma e avaliar o meu olhar, o meu comportamento, a minha forma de me expressar. Como eu disse, eu sou simplesmente eu e a intenção que eu coloco em cada fala é genuína, é do coração. Só que, da mesma forma que eu falei para a Sol (Vega) sobre a forma dela de discutir sobre algo que ela acredita, que pode ser lapidada para que ela não dê motivo para as pessoas se voltarem contra ela, eu falo para mim também. Ela disse para mim: “Mas eu sou assim, amiga”. E eu respondi: “eu sei, amiga. E é essa é sua força, mas dá para lapidar, dá para você entender aos poucos onde você pode suavizar mais para que a gente não perca a razão”.

domingo, 18 de janeiro de 2026

.: Patrick Selvatti entre envelhecimento e desejo em novo romance


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

Escritor, jornalista e finalista do Concurso de Dramaturgia da TV Record, Patrick Selvatti voltou à ficção. Em “Ainda Sou Mar”, romance digital lançado pela Amazon, o autor deixa para trás a adolescência prolongada que marcou parte de sua obra e avança para um terreno mais áspero: o de um homem que já foi desejado, já foi referência e agora precisa lidar com o fim do próprio protagonismo.

Marlon Petit tenta entender onde ainda cabe. Ex-modelo internacional, ele circula pelo Rio de Janeiro entre praias, sessões de terapia improvisadas e encontros sexuais que já não prometem permanência. Selvatti constrói esse mosaico sem suavizar o universo gay masculino nem transformar seus personagens em exemplos edificantes. O sexo aparece com crueza, mas nunca como ornamento ou provocação vazia. Nesta entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, o autor fala sobre envelhecimento, desejo, racismo, apagamento profissional e o desconforto de seguir em movimento enquanto o mundo insiste em não esperar ninguém.



Resenhando.com - Você escreveu recentemente dois romances que dialogam com fases diferentes da vida: juventude e maturidade. Em que momento percebeu que precisava escrever sobre o envelhecimento do desejo com "Ainda Sou Mar"?
Patrick Selvatti - Tenho uma marca autoral registrada muito forte relacionada à juventude. Do meu romance de estreia, "Os Filhos da Revolução", até agora, com "A Orquídea e o Beija-flor", abordo muito a juventude. Coincidentemente, ambas histórias nasceram quando eu era adolescente. Percebi que precisava evoluir para a faixa madura quando eu próprio cruzei esse limiar. A partir dos 40 anos, eu comecei a notar o silêncio em torno desse tema. O desejo envelhece, mas a narrativa sobre ele some! Existe uma espécie de pacto social, especialmente dentro do meio gay, que associa erotismo à juventude eterna. Quando o corpo começa a mudar, o desejo vira algo quase vergonhoso, deslocado... Escrever sobre isso é uma tentativa de romper esse silêncio e de me recusar a aceitar que o afeto e o tesão tenham prazo de validade.


Resenhando.com - Marlon Petit foi um corpo desejado, consumido e descartado. Em algum ponto da escrita você sentiu que estava narrando menos a história de um personagem e mais a anatomia cruel de um sistema que transforma pessoas em fetiche?
Patrick Selvatti - Totalmente. Marlon Petit é menos um indivíduo isolado e mais um corpo atravessado por um sistema que valoriza, usa e descarta. A escrita foi revelando isso aos poucos: não se trata apenas de quem ele é, mas do lugar que o mercado do desejo reserva para certos corpos em determinados momentos da vida. O romance acabou se tornando uma espécie de autópsia emocional desse mecanismo cruel que, como o próprio personagem diz, "te mastiga e te cospe". E ele não se refere apenas ao desejo sexual, mas também ao comercial, onde um corpo, mesmo considerado mito para a mídia, é rapidamente substituído.


Resenhando.com - O que você pensa que mais incomoda hoje em “Ainda Sou Mar”: a explicitude do sexo ou o fato de um homem gay de 42 anos ainda desejar, sofrer e sentir medo de desaparecer?
Patrick Selvatti - Espero que incomode mais o segundo ponto, viu? Afinal, ainda há um falso moralismo em relação a tudo que envolve o sexo, né? Mas a literatura erótica não é uma ferramenta exclusiva do homem gay, que, por tantas vezes, é acusado de promiscuidade. Tanto que os maiores best sellers do gênero dialogam com mulheres, donas de casa que, hoje, consomem narrativas como as da trilogia "365 Dias" assim como minha mãe lia as coleções "Bianca", "Júlia" e "Sabrina" no passado. Aqui, o sexo explícito é quase um álibi moral para alcançar o debate real. A pornografia atrai e fascina, mas não aprofunda. E o meu intuito é que o que realmente desconcerte não seja o realismo cru da narrativa, mas a ideia de que um homem gay maduro ainda sente, deseja, erra e sofre... Existe uma expectativa silenciosa de que, passado um certo tempo, o desejo deveria se aposentar junto com o corpo, e isso é profundamente violento!


Resenhando.com - Ao criar um influenciador de 19 anos como reflexo do protagonista, você quis denunciar uma herança simbólica tóxica ou admitir que todos, em alguma medida, aprendem a desejar de forma equivocada?
Patrick Selvatti - Existe uma herança simbólica sendo passada adiante, sim, mas ela não surge do nada. Todos nós aprendemos a desejar dentro de estruturas que associam valor à aparência, poder à juventude e afeto à performance. O jovem não é vilão, ele é produto e espelho. O romance tenta mostrar esse ciclo sem simplificações morais. Mas a ligação do personagem Mateus com Marlon vem em camadas que vão se apresentando de forma muito poética. E dialoga muito também com questões parentais que, segundo Freud, pautam o fetiche. Para mim, a passagem mais bonita do livro é quando os personagens que representam as três gerações se unem e, literal e poeticamente, se despem uns para os outros em uma praia de nudismo. Ali, eles falam do desejo sexual, mas também do ponto que mais os fere: suas relações parentais. É bonito e eu me emocionei escrevendo!


Resenhando.com - O vizinho negro sexagenário carrega o peso do estereótipo do “preto bem-dotado”. Ao escrever esse personagem, o que mais incomodou você: expor o racismo estrutural do desejo ou perceber o quanto ele é reproduzido dentro da própria comunidade gay?
Patrick Selvatti - Na realidade, Alex surge na narrativa como o espelho que Marlon não quer ver. Ele "despreza" o vizinho que se instala ao seu lado em plena pandemia por representar aquilo que ele enxerga que será seu futuro: um homem gay maduro e solitário que apela ao sexo pago para se sentir desejado. Isso é muito forte! Independentemente da cor da pele, Alex simboliza a velhice gay que a comunidade isola. Mas sempre me incomodou perceber o quanto esse racismo ligado à objetificação é naturalizado e reproduzido internamente. Não se trata apenas de um olhar branco sobre o corpo negro, mas de um sistema de desejo que se perpetua mesmo entre quem também é marginalizado. O próprio Alex busca corpos pretos, jovens e instrumentalmente avantajados para se satisfazer. Ele carrega essa contradição no corpo e na afetividade, e isso torna sua dor ainda mais complexa. Foi uma escolha necessária que o personagem fosse preto, sexagenário, bem-dotado e passivo. E sua profissão, bombeiro que apaga incêndios e salva-vidas no mar, não é à-toa: o personagem luta para conter suas próprias chamas e, ao mesmo tempo, não se afogar no mar revolto.


Resenhando.com - No livro, o marido dermatologista que vive da estética íntima masculina é uma provocação direta à indústria da perfeição. Você acredita que o culto ao corpo se tornou uma nova forma socialmente aceita de autoviolência?
Patrick Selvatti - Acredito plenamente. Quando o cuidado vira obsessão e a autoestima depende de procedimentos, métricas e validação externa, há violência, ainda que bem embalada. O culto ao corpo, hoje, opera como uma exigência social disfarçada de escolha individual. É uma forma elegante de coerção. No meio gay, ela também vem muito associada à distorção da virilidade e da potência: tamanho vira documento. E há o agravante de o personagem Benício sofrer de uma compulsão sexual diagnosticada. A doença está ali, sendo tratada, ainda que maquiada pelo discurso bonito da harmonização. Essa relação conjugal também espelha uma realidade atual que merece uma lente de aumento: até que ponto o amor livre é saudável e uma escolha de mão dupla? É polêmico isso...


Resenhando.com - Seu romance escancara o universo gay masculino sem suavizações. Existe uma cobrança, seja ela explícita ou silenciosa, para que narrativas LGBTQIAPN+ sejam sempre edificantes, pedagógicas ou “exemplares”?
Patrick Selvatti - Talvez se espere que personagens LGBTQIAPN+ representem uma espécie de manual de conduta ou um discurso politicamente correto permanente. Mas isso seria injusto e limitador. Personagens têm o direito de ser contraditórios, falhos, incômodos... A ficção não precisa pedir desculpas por mostrar zonas sombrias. O ser humano, por essência, é complexo. Em diversas situações, Marlon pode deixar de ser vítima para ser algoz. Uma leitora me escreveu que não sabe se sente pena ou raiva dele em diversos momentos. E é exatamente sobre isso.


Você bebe na fonte da teledramaturgia e assume o folhetim como linguagem. Em tempos de literatura que tenta parecer séria demais, o exagero emocional ainda é um ato de resistência narrativa?
Patrick Selvatti - O exagero emocional da dramaturgia sempre foi uma forma de dizer verdades que o realismo contido não alcança. O folhetim entende que sentimento também é estrutura narrativa. Em um momento em que tudo precisa parecer asséptico e intelectualizado, assumir emoção, melodrama e intensidade é, sim, um gesto de resistência. Estamos em um momento peculiar do nosso audiovisual, onde as tradicionais novelas precisam se render ao ritmo alucinante das séries e do consumo rápido do digital. Mas também é o momento em que o Brasil está se curvando ao seu cinema, sabendo valorizar narrativas mais profundas e com mais pausas. "Ainda Sou Mar", inclusive, nasceu de um argumento para um filme. E ele está pronto para se tornar um. 


As ilustrações criadas com auxílio de Inteligência Artificial tensionam o debate sobre autoria e imagem. Para você, elas ampliam a experiência literária ou revelam o quanto a literatura também está refém da lógica visual das redes?
Patrick Selvatti - As ilustrações foram uma escolha consciente e que conduziram toda a narrativa. As imagens foram nascendo junto com a história - muitas delas, aliás, fizeram com que passagens da narrativa nascessem - tal qual ocorre com o storyboard de um filme. "Ainda Sou Mar" não seria o mesmo romance sem o apelo visual, a retratação em imagens. É uma história sobre estética, e as ilustrações contam essa história. Para o leitor, elas ampliam a experiência, mas também podem escancarar essa dependência da imagem, sim. Não vejo isso como contradição, mas como sintoma do nosso tempo. A literatura sempre dialogou com outras linguagens. Ignorar o peso do visual hoje seria artificial. O importante é que a imagem não substitua a palavra, mas dialogue com ela.


Antes de perder o lugar como corpo desejável, Marlon Petit já havia perdido o lugar como referência profissional. O que dói mais: deixar de ser desejado ou deixar de ser necessário?
Patrick Selvatti - Acho que deixar de ser necessário dói mais, porque o desejo ainda pode ser negociado, reinventado, deslocado... A necessidade não. Quando você deixa de ser referência profissional, perde não só espaço, mas função simbólica. É como se o mundo dissesse: “Seguimos sem você”. Isso atinge a identidade de forma muito mais profunda do que o espelho.


O romance sugere que o mercado não envelhece ninguém, ele simplesmente substitui. Em que medida o apagamento profissional é a primeira forma de violência simbólica sofrida pelo protagonista?
Patrick Selvatti - O apagamento profissional vem antes do apagamento do corpo porque ele é silencioso. Ninguém anuncia que você ficou obsoleto, você apenas vai deixando de ser chamado. Para Marlon Petit, essa ausência de demanda antecede o declínio do desejo. O mercado opera por substituição, não por transição. Não há rito de passagem, só descarte. É uma ferida muito mais profunda, e é o que desencadeia nele a impotência sexual como um sintoma dos danos à sua saúde mental... Marlon traz muitas camadas, para além do homem narcisista que vê sua imagem o sugar para o fundo do mar.


Resenhando.com - Marlon Petit foi um “mito” e virou "passado". Você acredita que nossa cultura sabe lidar com trajetórias ou apenas com novidades? Há espaço para a experiência ou só para o próximo hype?
Patrick Selvatti - Nossa cultura é profundamente obcecada pela novidade. Ela consome histórias apenas enquanto elas rendem visibilidade, e não é à toa que vivemos a ditadura do reels. Trajetórias exigem memória, e memória dá trabalho, "Ainda Estou Aqui " e "O Agente Secreto" nos esfrega isso na cara. O hype é fácil porque é descartável. A experiência, ao contrário, exige escuta, paciência e reconhecimento. Essas coisas são cada vez mais raras, né?


Resenhando.com - Existe uma solidão específica de quem já foi alguém profissionalmente e hoje precisa se reinventar fora dos holofotes. Essa dor é menos falada do que a crise do corpo. Por quê?
Patrick Selvatti - Porque a crise do corpo é visível, e sua reparação está ao alcance dos procedimentos estéticos. Já a perda de relevância profissional é invisível e profundamente envergonhante. Admitir que você já teve importância e, hoje, não tem mais é confrontar o medo coletivo de inutilidade. É uma solidão que não rende likes, nem empatia imediata. É fato: o derrotado não engaja.


Escrever "Ainda Sou Mar" foi também uma forma de elaborar o medo de que a relevância profissional tenha prazo de validade, especialmente para quem construiu a própria identidade em torno do reconhecimento público?
Patrick Selvatti - Sem dúvida. Para além do dilema gay, o livro nasceu desse medo que me foi apresentado em diversas entrevistas que fiz e sigo fazendo com artistas, na maioria heterossexuais. Um em especial, que se tornou meu amigo pessoal, desabafava muito comigo sobre o fato de estar com 35 anos e "não ter acontecido". Essa angústia me atravessou muito - afinal, um homem nessa faixa etária está no auge, mas não para a indústria do like. Quando sua identidade está atrelada ao olhar do outro, a perda de reconhecimento vira um abismo. Escrever foi uma tentativa de nomear essa angústia, de encará-la sem a romantização de que envelhecer é bonito. Não para resolver essa angústia, mas para entendê-la e, talvez, sobreviver a ela com mais consciência. E trazer esse tom cinzento que não aparece no colorido do arco-íris foi a cereja do bolo.


Depois de “Ainda Sou Mar”, fica a sensação de que envelhecer é um ato político. Escrever esse livro foi mais um gesto de sobrevivência pessoal ou uma forma de dizer que o desejo também tem direito à maturidade?
Patrick Selvatti - Mas é um ato político, e não sou eu quem afirmo isso, quem sou eu? (risos). Eu só constato que envelhecer, especialmente sendo gay, é resistir a uma lógica que tenta nos apagar. Escrever esse livro, para mim, foi reafirmar que o desejo não pertence apenas à juventude e que a maturidade também tem direito ao corpo, ao afeto, ao erro e ao prazer. É uma declaração de existência.

sábado, 17 de janeiro de 2026

.: Entrevista com Samir Murad: ator leva o passado ao limite do palco


Em cartaz na Arena B3, o solo de Samir Murad confronta imigração, memória e saúde mental sem concessões. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

Samir Murad entra em cena sozinho e não pede empatia antecipada. Em “O Cachorro Que Se Recusou a Morrer”, em cartaz no Teatro da Arena B3, neste final de semana, dias 17 e 18 de janeiro, com sessões às 14h30 e 17h00, o ator não transforma a própria história em confissão nem usa a memória como ornamento. O que se vê é um trabalho de risco: lidar com imigração, herança familiar, saúde mental e pertencimento sem o conforto da explicação fácil ou da catarse fabricada. 

Entre humor seco e drama frontal, Murad constrói um solo que recusa tanto a reverência quanto a autopiedade. Em entrevista exclusiva para o portal Resenhando.com, ele fala sobre caos criativo, genealogia, urgência, dublagem, corpo, e sobre por que o teatro ainda é o lugar onde certas histórias podem ser ditas sem se tornarem espetáculos de si mesmas.

Resenhando.com - Ao transformar lembranças familiares em cena, você sente que está organizando o passado ou aceitando, finalmente, o seu caos? O que o teatro permite fazer que a memória, sozinha, não dá conta?
Samir Murad - Creio que a aceitação do caos provocado pelas lembranças, é fundamental para um verdadeiro processo criativo, principalmente quando se lida com as memórias reais de uma vida. No caso desse trabalho onde sou criador da escritura literária e cênica, a memória se potencializa. Como sou essencialmente um ator, essa memória se torna carne e osso ou seja, quando escrevo, aquele texto já tem um endereço certo: a Cena. E sim. Creio que o Teatro mais do que qualquer outro veículo, possibilita esse recurso de dividir a palavra e o ato que é intimo, com uma infinidade de outros universos pessoais


Resenhando.com - O espetáculo fala de imigração e pertencimento, mas também de saúde mental. Há algo de adoecido na própria ideia de “origem”, quando ela passa a nos definir demais?

Samir Murad - Acho que qualquer definição que rotule ou categorize o ser-humano pode incorrer em erros graves. Tipo “eu sou assim porque sou de origem tal...”, sem a possibilidade de ressignificação da própria origem”. Estamos em um momento que se fala muito de questões que procuram ligar as pessoas e povos às suas origens ancestrais, tendo o sangue e a terra como principais referências e penso que, esse resgate de identidade,faz sentido nos tempos atuais e eu mesmo faço isso nesse trabalho. Quando vemos segmentos étnicos como índios, negros, só para citar dois, se embebedando e se drogando para aguentar o desvio forçado que tiveram de suas origens, aí sim podemos ver a doença mental se instalando. Quando falo de uma irmã que teve um surto esquizofrênico que, por uma sensibilidade mal direcionada, não suportou a “ barra” de uma criação excessivamente pesada, acho que estou falando de muitas famílias que tem um doente mental em casa e muitas vezes nem sabem ou não dão a devida atenção. Assim não acho a ideia de busca da “origem” em si, adoecida. Qualquer busca verdadeira envolve uma abertura de visão ou uma reflexão sobre o objeto no qual se debruça e isso a meu ver já é válido.


Resenhando.com - O humor aparece no espetáculo quase como um desvio estratégico. Você ri para sobreviver às histórias que conta ou para impedir que elas se tornem insuportavelmente solenes?

Samir Murad - Gostei do quase. Na verdade, eu não usaria um desvio estratégico somente para não cansar o espectador ou pesar demais a mão. A minha sobrevivência se dá no ato de decidir fazer Teatro para poder fazer esse trabalho com todas as suas assumidas variações de humor, inclusive com uma absoluta solenidade em algumas passagens. Mas por incrível que pareça, há muito humor em algumas situações que narro e meu pai mesmo, era um contador de histórias muito engraçado, com uma picardia que se estende a outros membros de minha família. Naturalmente não estou falando de um humor fácil ou apelativo mas de uma forma de perceber a Vida, ligeiramente colorida pela ironia ou também de uma seriedade excessiva que acaba ficando cômica. Além disso eu queria alguns traços de humor , embora não me ache propriamente um comediante, para prestar homenagem a personagens de minha infância como Chaplin e Ronald Golias e me permiti esse exercício.


Resenhando.com - Filho de imigrantes libaneses, você carrega uma herança cultural muito marcada. Em que momento essa herança deixou de ser um legado e passou a ser uma cobrança?
Samir Murad - Pode-se dizer que a cobrança estava nas entrelinhas, em relação à aspectos morais, relacionais e de conduta, principalmente durante a minha infância. Como eu fui temporão, já peguei uma pai mais velho e cansado que acho, afrouxou um pouco a corda. Havia uma preocupação até maior dos irmãos para que eu seguisse alguma carreira rentosa de preferência ligada ao comércio que é uma tradição libanesa. A adolescência para variar foi bem difícil. Quando já no vestibular decidi ser artista e que fique claro, meu pai nunca me impediu disso, acho que transformei meu legado dramático em Teatro e pude pensar e sentir minha história através das lentes da Arte


Resenhando.com - A encenação aposta em projeções, trilha original e uma atuação descrita como visceral. O corpo, para você, ainda é um território confiável para contar histórias — ou também é um campo de conflito?
Samir Murad - Acho que o corpo é o principal instrumento para um ator. Confiável numa medida pessoal em que cada ator o valoriza e também é um campo de conflitos. A meu ver esses conflitos são extremamente poderosos e criativos e quanto mais controle você tem do seu corpo mais você pode experimentar um descontrole e contar uma história de diferentes maneiras. Para mim o conflito subjaz na existência do ator e na sua necessidade de estar em cena. Esse é o grande conflito: “por que eu tenho que entrar em cena e contar uma história? Como posso fazer isso da melhor forma possível?” Olha aí o conflito.


Resenhando.com - Depois de décadas atuando, dublando, ensinando e dirigindo, você retorna a um trabalho profundamente autobiográfico. Isso é um gesto de coragem tardia ou de urgência absoluta?

Samir Murad - Aí que está. Eu não retornei. Eu continuei. Esse trabalho é o coroamento de uma quadrilogia que se iniciou em 2000 com meu primeiro solo. Todos esses trabalhos solos falam de genealogia, pertencimento, ancestralidade e saúde mental entre outros temas comuns. Sem eles O Cachorro... não existiria. O ineditismo desse, é que me debrucei sobre minhas próprias lembranças , mas todos os outros trazem elementos que mesclam as trajetórias das personagens com elementos da minha história. Todos são afinados com minha pesquisa que tem Antonin Artaud como principal referência ética e estética. Acho que a coragem tardia veio na verdade com meu primeiro solo que aliás, só tornou-se um solo por uma sequência de coincidências e que foi o trabalho que mais deu certo em minha vida, um divisor de águas. Ele nasceu com uma urgência absoluta assim como os outros, inclusive esse último. Acho que essa urgência eu trago comigo, ainda e que acredito seja uma mistura do espirito artaudiano que me habita com o desespero árabe e que se estende as outras atividades que você cita na pergunta. Podem rir.


Resenhando.com - A dublagem ocupou mais de 20 anos da sua vida. Que vozes alheias ficaram em você - e quais delas precisaram ser silenciadas para que essa voz autoral emergisse?

Samir Murad - Não percebo dessa forma excludente, de precisar silenciar vozes para que voz autoral emerja. Essa voz existe desde que escrevia músicas e poemas na adolescência e foi aparecendo como uma extensão de meu trabalho de ator, quando comecei a escrever meus textos. A dublagem surgiu como um veículo a mais para ampliar minhas possibilidades de atuação. Já fiz teatro, televisão e dublagem ao mesmo tempo e tudo tinha a sua importância, a sua própria voz. Sempre procurei imprimir em qualquer veículo, um alinhamento artístico coerente com o que me constitui. Hoje me dedico cada vez mais às minhas construções autorais, que me dão maior autonomia sobre o processo, mas a possibilidade de participar de projetos alheios será sempre bem-vinda. As vozes da dublagem assim como os personagens de novelas e peças que fiz e que não faço mais, hibernam em um cantinho aconchegado do meu coração.


Resenhando.com - O espetáculo se constrói como um encontro íntimo com o público. Você teme que essa intimidade seja confundida com exposição, ou acredita que o teatro ainda é o último lugar possível para esse risco?

Samir Murad - Acho que você já respondeu. Sim, o Teatro ocupa esse lugar para mim, seja atuando em uma peça de minha autoria ou não. A intimidade do ator em cena em um solo só será confundida com exposição se ele e(ou) a encenação assim o desejar e aí ao meu ver o fenômeno teatral não acontece e tanto faz ser um solo ou não. Em "O Cachorro..." eu estou só em cena e falo um texto escrito por mim sobre a minha família. Isso por si só poderia constituir-seem uma obra com tintas excessivamente auto referentes. O fato é que existem muitos espetáculos que seguem essa linha ou seja, não existe nada de inédito no meu trabalho desse ponto de vista. Acredito que o diferencial esteja em como as formas e conteúdos apresentados por cada um desses espetáculos chega até o querido espectador de Teatro.


Resenhando.com - Em um país que frequentemente romantiza a imigração e ignora os traumas desse ato, que tipo de desconforto você espera provocar em quem assiste?

Samir Murad - O espetáculo tem algumas divisões como digamos, uma pequena sinfonia e os momentos mais dramáticos compõem apenas uma parte dele. Por isso chamo a peça de drama bem humorado. Nas temporadas que fizemos o que percebi, é que há um envolvimento maior do espectador nas partes mais dramáticas. Não sei muito bem porque mas atribuo isso à empatia provocada pelas situações talvez comuns a muitos, como já ouvi de espectadores ao vivo e em depoimentos gravados. O riso, a farsa divertem e afastam, o drama aproxima. Acho que é isso. O fato é que o drama da imigração é um problema atual e mundial e algumas imagens realmente podem tocar o coração do espectador. O desconforto que pode surgir, advém da crueza das situações que são denunciadas onde o imigrante é visto sem véus, como uma pessoa que teve que abandonar sua terra natal para tentar a vida numa terra desconhecida. Isso por si só já e cruel.


Resenhando.com - Depois de transformar memórias familiares em cena, o que sobra quando as luzes se apagam: alívio, esgotamento ou a sensação de que ainda há histórias que se recusam a descansar?
Samir Murad - Linda pergunta. Olha, há uma sensação muito grande de missão cumprida. Um esgotamento gostoso. Boa parte desses textos foram retirados de uma autobiografia que comecei a escrever e foram adaptados para o Teatro. Essa outra obra, aí sim literária, naturalmente traz muitas outras histórias entrelaçadas como essa e se propõem um dia a virar um livro. Então claro, essas histórias se recusam a descansar e sem dúvida existe uma urgência em termina-las. No entanto, o cansaço da vida tem me ensinado a não correr mas a viver caminhando junto com a Arte. Muito obrigado por essa linda entrevista. Espero todos lá!


Ficha técnica
Espetáculo "O Cachorro Que Se Recusou A Morrer"

Criação, texto e atuação: Samir Murad
Direção: Delson Antunes e Samir Murad
Cenografia: José Dias
Figurino e Adereços: Karlla de Luca
Desenho de Luz: Thales Coutinho
Trilha Sonora: André Poyart e Samir Murad
Direção de Movimento: Samir Murad
Videocenário: Mayara Ferreira
Assistente de Direção: Gedivan de Albuquerque
Programação Visual: Fernando Alax
Fotos: Fernando Valle
Direção de produção: Fernando Alax
Produção executiva: Wagner Uchoa
Operação audiovisual: Marco Agrippa
Operação de luz: Chico Hashi
Realização: Cia Teatral Cambaleei, mas não caí... 


Serviço
"O Cachorro Que Se Recusou A Morrer"

Dias 17 e 18 de janeiro, sábado e domingo, sessões às 14h30 e 17h00
Arena B3 - Centro Histórico de São Paulo
Duração: 70 minutos
Classificação: L=livre
Ingressos: https://bileto.sympla.com.br/event/114363/d/355043/s/2395277?

 
Sobre a B3

A B3, a bolsa do Brasil, tem o compromisso de apoiar a democratização do acesso à cultura, por meio de parcerias e patrocínios que facilitem o acesso da sociedade a esses espaços. Em 2023, a bolsa do Brasil apoiou 25 projetos, e possibilitou que mais de 95 mil pessoas acessassem os 7 museus patrocinados por meio do oferecimento também de dias de gratuidade. Dentre as instituições apoiadas estão o MASP, a Pinacoteca de São Paulo, o MIS, o Museu Judaico e MUB3, na capital paulista, o Instituto Inhotim, localizado em Minas Gerais, e o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Além das gratuidades, a bolsa do Brasil patrocina ainda uma série de iniciativas culturais, como musicais, eventos e exposições.


Sobre a Aventura

Fundada em 2008, e liderada por Aniela Jordan, diretora artística e produção e geral, Luiz Calainho, diretor de marketing e negócios, e por Giulia Jordan, diretora geral de venues, a Aventura é referência na produção de espetáculos de altíssima qualidade, que tornou o mercado de teatro musical um dos principais segmentos da economia criativa no Brasil. A empresa se estabeleceu como uma grande aliada da multiplicidade artística, fundamental para o desenvolvimento social, econômico e cultural. A sua missão é transformar grandes ideias em realidade, criando fortes conexões entre marcas e projetos. São mais de 40 produções, de espetáculos inéditos e de versões da Broadway, como “Elis, a musical”, “A Noviça Rebelde”, “Sete”, “O Mágico de Oz”, “SamBRA”, “Chacrinha, o musical”, “Romeu & Julieta, ao som de Marisa Monte”, “Merlin e Arthur, um sonho de liberdade” e o infantil “Zaquim”. Em 2022, a produtora inovou com o primeiro musical em formato de série do país, o “Vozes Negras – A Força do Canto Feminino”, e com o musical “Seu Neyla”, apresentado em dois palcos com o uso da internet para criar uma experiência diferenciada no espectador, além de estrear uma parceria com a Disney - Pixar com o espetáculo “Pixar in Concert”. Com o objetivo de democratizar o acesso à cultura, criou a Cia Stone de Teatro, projeto de teatro itinerante no interior do Brasil e é a responsável pela produção da Cia de Ballet Dallal Achcar. Ao todo, foram mais de 3,8 mil apresentações e cerca de 4,5 milhões de espectadores, mais de 16 mil empregos diretos e indiretos gerados, números que não param de crescer. 



segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

.: Entrevista com Carlos Araújo, diretor artístico de "Coração Acelerado"


Diretor artístico fala sobre música como dramaturgia, Goiás como identidade e o sertanejo como narrativa popular em estado bruto. Foto: Globo/ Rodolfo Sanches

Se toda música sertaneja carrega um enredo pronto para virar novela, "Coração Acelerado" entra de botas, refrão na garganta e alma exposta. A nova novela das sete da Globo transforma a lógica do hit em dramaturgia, troca o palco pelo capítulo diário e assume, sem pudor, que ali quem conduz a história são as mulheres, dentro e fora da ficção. Entre amores interrompidos, contratos sufocantes, fé, rivalidades familiares e o peso da fama mediada pelas redes sociais, o sertanejo deixa de ser pano de fundo para se tornar estrutura narrativa, estética e política.

À frente dessa engrenagem está Carlos Araújo, diretor artístico que atravessa décadas da teledramaturgia brasileira e agora se lança ao desafio de equilibrar tradição novelística, linguagem de show e pulsação contemporânea. Nesta entrevista, ele fala sobre a aposta em Goiás como território simbólico, a música como motor dramático, o protagonismo feminino e os riscos e delícias de colocar a novela para cantar em tempo real, no meio do povo, sob luz de palco e aplauso verdadeiro.


O que o público pode esperar de "Coração Acelerado"?
Carlos Araújo -
O público pode esperar uma novela vibrante, solar, que une música, romance e humor em uma história cheia de emoção. "Coração Acelerado" é uma comédia romântica musical que mergulha no universo sertanejo, trazendo a força feminina e os conflitos familiares como pano de fundo.


Vocês estão prevendo participações de nomes consagrados da música, como isso contribui para a trama?
Carlos Araújo -
As participações de artistas consagrados, como Maiara & Maraisa, Naiara Azevedo, Daniel, Michel Teló e Ana Castela, dão autenticidade à narrativa e aproximam ainda mais o público desse universo. Elas não são apenas aparições, ajudam a contar a história e reforçam a conexão entre ficção e realidade, criando momentos únicos na trama. Musicalmente, será um grande presente para o público.


Qual a importância de terem gravado as primeiras cenas da novela em Goiás?
Carlos Araújo - 
Goiás é o coração do sertanejo e traduz a essência da novela. Gravar as primeiras cenas lá foi fundamental para dar verdade à narrativa. Queríamos que o público se reconhecesse nas histórias, e isso só seria possível mergulhando na cultura local. As paisagens do Cerrado, a culinária típica e os cenários icônicos do estado agregam autenticidade e beleza cinematográfica à trama. Essa imersão permitiu criar uma identidade forte com a região e com o povo goiano.
 

Por que escolher gravar cenas de shows de João Raul (Felipe Bragança) em festivais reais? O que isso exigiu em termos de produção?
Carlos Araújo -
Gravar em festivais reais foi uma decisão para levar ao público a energia genuína dos grandes eventos sertanejos. Isso exigiu uma logística complexa: integração com equipes dos shows, captação de som e imagem em ambientes dinâmicos. Um exemplo foi a cena gravada durante um show de Maiara & Maraisa, em Crixás, Goiás, onde o personagem João Raul subiu ao palco para apresentar uma música inédita. Essa escolha trouxe realismo e emoção que seriam impossíveis de reproduzir em estúdio.


O que tem sido mais desafiador na direção desta novela?
Carlos Araújo - 
O maior desafio é equilibrar duas linguagens: a dramaturgia clássica e a estética dos grandes shows. Temos cenas intimistas, carregadas de emoção, e momentos grandiosos, com multidões e música ao vivo. Conciliar isso sem perder ritmo e mantendo qualidade artística é um trabalho minucioso. Além disso, criar uma identidade visual que dialogue com a cultura goiana sem cair em estereótipos tem sido um exercício constante.

Quais são os principais diferenciais de "Coração Acelerado"? O que você destacaria da novela até agora?
Carlos Araújo - 
O grande diferencial é a fusão entre novela e música sertaneja, com uma pegada contemporânea e protagonismo feminino. Destaco também a autenticidade das locações, a força dos personagens femininos e a trilha sonora original, que vai emocionar e embalar o público. É uma obra que celebra a cultura brasileira, conecta gerações e traz temas atuais como redes sociais, fama e empoderamento.


domingo, 11 de janeiro de 2026

.: O "Coração Acelerado" de Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento


Duas autoras, uma novela musical e o sertanejo como linguagem dramática para falar de amor, ambição e protagonismo feminino. Foto: Globo/ Léo Rosario

Toda canção sertaneja carrega um enredo pronto: amores atravessados, promessas quebradas, coragem feminina e aquela emoção que pede refrão alto. "Coração Acelerado", nova novela das sete da TV Globo, surge exatamente desse cruzamento: quando a música popular encontra o melodrama clássico da telenovela e resolve falar de mulheres que querem soltar a própria voz. Pela primeira vez escrevendo juntas uma novela, Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento transformam o universo do sertanejo - e, sobretudo, do feminejo - em território narrativo, afetivo e até político. 

Além de hits, palcos ou bastidores, a novela tratará sobre ambição, redes sociais, contratos sufocantes, heranças familiares e o direito de sonhar sem baixar a cabeça para ninguém. Nesta entrevista, as autoras falam de pesquisa, parceria, humor, música como motor dramático e da aposta em uma história popular que acelera o coração sem abrir mão de inteligência, afeto e conflito.


Como vocês definem a trama de "Coração Acelerado"?
Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento - Nossa história é uma comédia romântica musical, com protagonismo feminino no universo da música sertaneja, que fala de amor, de sonhos e conquistas.

 
De quem foi a ideia desta trama e como vocês se dividem nesta escrita? 
Izabel de Oliveira - Eu tinha vontade de falar sobre o universo sertanejo, sobretudo o feminejo, e levei a ideia para a Globo. Quando o projeto foi aprovado, pedi alguém para embarcar comigo nesta construção e foi então que convidamos a Maria Helena. A partir do argumento inicial, elaboramos a sinopse juntas e nos dividimos na escrita da trama. De modo geral, eu estruturo as escaletas e a Maria Helena desenvolve as cenas, mas trocamos ao longo de todo o processo, nos complementando nas ideias. E temos ainda um time de roteiristas, com Daisy Chaves, Dino Cantelli, Flavia Bessone, Fabrício Santiago e Isabel Muniz, que trabalham conosco e contribuem muito na construção da nossa história.

 
O que inspirou vocês a contar essa história?
Izabel de Oliveira - A ideia de contar uma história ambientada no universo sertanejo veio da minha paixão pela história popular e por eu identificar no sertanejo, dentro do universo da música, o que há de mais parecido com um roteiro de novela. As letras das músicas sertanejas contam uma história! Elas falam de amor, dos sentimentos, de sonhos e têm um apelo popular que comunica imediatamente com o público. Eu tenho uma fascinação por isso. Então, veio o desejo de escrever uma novela musical com a temática sertaneja. E isso aconteceu quando o feminejo estava estourando, com mulheres talentosas e potentes que estavam buscando seus espaços.
Maria Helena Nascimento - Além da riqueza dos elementos de melodrama na letra sertaneja que nos inspirou, nós duas temos no histórico novelas musicais, eu com "Rock Story", e Izabel com "Cheias de Charme". É uma temática que gostamos. Como espectadora, sempre me encanto com projetos que envolvam música.
 

Como foi o processo de pesquisa para escrever essa história?
Izabel de Oliveira e
 Maria Helena Nascimento - Estamos mergulhadas nesse universo com apoio de diferentes áreas. O departamento de Pesquisa e Desenvolvimento Artístico da Globo promoveu um ciclo de conversas em que pudemos trocar com diversos cantores do sertanejo, fizemos uma pesquisa intensa em Goiânia e estamos contando com um suporte muito grande da TV Anhanguera, afiliada da região. E isso será um processo contínuo, que nos acompanhará até o fim da novela.


A novela traz uma história que aborda o feminejo e a força feminina. Como isso será mostrado? Que assuntos da atualidade são abordados na trama?
Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento - Contaremos a história da Agrado (Isadora Cruz), uma jovem que sonha com a carreira de cantora e batalha por isso em um universo em que a presença masculina é muito forte. As pessoas se interessam pelas composições da Agrado, mas sempre querem mudar algo, e isso a deixa indignada. Agrado não abaixa a cabeça, ela tem orgulho e acredita no seu talento. É uma mulher forte, dona de si. O público verá também a trajetória da Eduarda (Gabz), que, assim como Agrado, sonha com a carreira de cantora, mas lhe oferecem poucas oportunidades. Ela lutará muito por sua carreira. Teremos ainda as personagens Zilá (Leandra Leal) e Janete (Letícia Spiller), duas mulheres fortes e empreendedoras. Mostrar a batalha dessas mulheres será inspirador. Outra pauta que traremos é sobre a relação das pessoas com as redes sociais. A história se inicia com a repercussão de um post feito pelo astro sertanejo João Raul (Filipe Bragança). E temos a personagem Naiane (Isabelle Drummond), uma influenciadora digital. Vamos discutir sobre as relações digitais, a superexposição nas redes e o impacto disso na vida dessas pessoas.
 

Estão previstas participações especiais da música sertaneja. Por que trazer estes artistas para a história?
Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento - Gostamos de fazer essa conexão entre realidade e ficção, traz verdade para a história e causa um impacto no público. É divertido ter personagens reais inseridos na trama. E, claro, é uma forma de homenagear esses artistas.
 

O horário das sete propõe histórias com temáticas mais leves e divertidas. O humor estará presente na trama?
Izabel de Oliveira e
 Maria Helena Nascimento - Nossa história é um romance musical com muito humor. Não temos um único núcleo cômico, isso está espalhado nas tramas que envolvem a história, que é leve e bem-humorada. Acontece até mesmo com os vilões ou nas situações mais dramáticas.
 

Como está sendo a parceria com Carlos Araújo? É a primeira novela que fazem juntos? 
Izabel de Oliveira - Trabalhei com Carlos Araújo em "Cheias de Charme". Ele é um diretor muito vibrante, cheio de boas ideias e tem um lado sentimental muito parecido comigo e com a Maria Helena.
Maria Helena Nascimento - O Carlos tem se mostrado muito entusiasmado, e é muito gostoso para a gente ver a forma que ele recebe o nosso trabalho. A troca tem sido muito harmônica.
 

O que o público pode esperar de "Coração Acelerado"?
Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento - Que acelere o coração de todos! Música, romance, relações de famílias intensas, humor e sonoridade.

 
O que vocês querem despertar no público com a história que estão contando?
Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento - A vontade de correr atrás dos seus sonhos. De ter coragem para batalhar por aquilo que acreditam e desejam para suas vidas. E, claro, a emoção que a música provoca.



sábado, 10 de janeiro de 2026

.: Entrevista: Amanda Mirásci transforma a autoconfiança masculina em sátira


Amanda Mirásci usa o humor para desmontar certezas masculinas e iluminar fragilidades coletivas em cena. Foto: Julia Lego

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

E se a autoconfiança masculina - essa certeza inabalável que dispensa escuta, dúvida e autocrítica - pudesse ser sintetizada em cápsulas? Em "A Autoestima do Homem Hétero", que retorna para duas apresentações no Teatro Arena B3, em São Paulo, neste final de semana, Amanda Mirásci parte dessa provocação para construir uma comédia que ri do óbvio, expõe o cansaço feminino e transforma comportamentos naturalizados em matéria-prima de cena. Criado, escrito e protagonizado pela atriz, o monólogo, indicado ao Prêmio do Humor nas categorias Melhor Texto e Melhor Direção, aposta no riso para falar sobre comportamentos masculinos que há tempos precisam ser modificados. 

Ao interpretar Carina, uma farmacêutica que decide lançar no mercado a “pílula” definitiva da confiança masculina, Amanda cruza experiências pessoais, relatos de mulheres e observações do cotidiano para montar um espelho desconfortável, especialmente para quem nunca se reconheceu como problema. Nesta entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, a atriz fala sobre humor como estratégia, ego em cena, síndrome da impostora e o momento em que a gargalhada deixa de ser defesa e vira pergunta.


Resenhando.com - Amanda, ao transformar experiências pessoais e relatos de amigas em sátira, em que momento você percebeu que o riso podia ser mais subversivo do que o confronto direto?
Amanda Mirásci - Eu sinto que o riso abre portas. O humor cria uma fresta de escuta: ele desarma, aproxima e permite que a pessoa se veja sem se sentir imediatamente atacada. Muitas vezes, rir é o primeiro passo antes de admitir: “isso aqui é comigo”. O riso não anula a crítica. Ele faz de forma mais efetiva, porque entra de forma sorrateira.


Resenhando.com - A personagem Carina cria uma pílula a partir de homens reais. Vocês temem que algum espectador saia do teatro convencido de que foi, sem saber, matéria-prima do medicamento?

Amanda Mirásci - Olha, até hoje todo homem que assistiu ao espetáculo me disse que se reconheceu em pelo menos um personagem. Muitos, com certeza, se viram em vários. Os homens retratados são reais: inspirados no meu pai, no meu namorado, em amigos que eu amo profundamente. Homens maravilhosos, mas que reproduzem comportamentos tão naturalizados que, muitas vezes, nem percebem o quanto algumas atitudes são risíveis. Do cara que foge das tarefas domésticas ao pai que só vê os filhos de quinze em quinze dias, muitos homens saem do teatro com a sensação de que, sim, foram matéria-prima dessa pesquisa.


Resenhando.com - Apresentar um monólogo tão povoado de personagens é também um exercício de controle do ego cênico. O que foi mais difícil: multiplicar identidades ou silenciar excessos?

Amanda Mirásci - Caramba, que pergunta boa. As duas coisas são difíceis, mas percebo que, quando você encontra a identidade de um personagem, os excessos tendem a se ajustar naturalmente. O grande desafio foi diferenciar tantos personagens sem cair no estereótipo vazio. A gente queria que o público se reconhecesse ali: as mulheres, pelas experiências vividas; os homens, por se verem refletidos. Como é humor, existe uma liberdade para carregar nas tintas, mas encontrar o equilíbrio entre o colorido da comédia e a verdade da identificação é um trabalho constante, que eu sigo fazendo a cada apresentação.


Resenhando.com - A peça fala de homens que explicam o óbvio, ocupam espaços e se sentem geniais por existir. Em que ponto isso deixa de ser caricatura e vira quase um documentário de costumes?

Amanda Mirásci - Quando a plateia começa a reagir antes mesmo da piada terminar. Quando escuto, do palco, algumas mulheres dizendo “já vivi isso”, enquanto os homens riem meio sem saber exatamente por quê. Acho que a caricatura vira documento quando ela organiza algo que já está espalhado na vida real. Que é comum a todos. O que parece absurdo no palco, muitas vezes, é apenas a realidade sem filtro.


Resenhando.com - Ao colocar a “síndrome da impostora” em cena, você sentiu que estava expondo uma ferida pessoal ou devolvendo ao público uma dor coletiva demais para ser individual?
Amanda Mirásci - No começo, parecia muito pessoal. Eu vivi a "síndrome da impostora" intensamente durante o processo de escrita do texto que hoje, inclusive, está indicado a um prêmio de humor! Uau! Eu estava morrendo de medo de escrever. Literalmente, tomei uma pílula de autoestima do homem hétero. Mas logo ficou claro que eu não estava sozinha. A síndrome da impostora é quase um idioma comum entre mulheres. É um autoboicote coletivo que, quando compartilhado, gera uma identificação muito potente.


Resenhando.com - O espetáculo convida homens a rirem de si mesmos. Você já presenciou risadas que soaram como defesa, e não como autocrítica?
Amanda Mirásci - Acho que só a própria pessoa, se estiver minimamente em dia com a terapia, consegue saber exatamente de onde vem a risada. Acho que a defesa é natural, especialmente depois de milênios de normalização desses comportamentos. Uma das grandes alegrias que esse espetáculo me trouxe foi perceber que existem homens dispostos a escutar o que as mulheres estão dizendo. Ainda é uma bolha, ainda há um longo caminho pela frente, mas, nessa peça, eles estão convidados a estar junto.


Resenhando.com - Se essa peça fosse montada daqui a vinte anos, o que você gostaria que tivesse envelhecido mal: os comportamentos masculinos ou a necessidade de ainda falar sobre eles?
Amanda Mirásci - Eu gostaria muito que os comportamentos tivessem envelhecido mal. Que causassem constrangimento real. Mas, sendo honesta, acho que ainda teríamos muito o que conversar. Eu brinco que essa peça pode virar tipo Harry Potter: "A Autoestima do Homem Hétero 1, 2, 3… 11". É muita coisa para falar e, principalmente, muita coisa para trocar entre mulheres.


Resenhando.com - Há um risco de o público sair do teatro querendo a pílula em vez da reflexão. O humor pode anestesiar ou, no caso de vocês, ele funciona como um leve desconforto que não passa fácil?
Amanda Mirásci - Não posso dar spoiler, mas, no fim do espetáculo, o público entende que essa pílula pode ser fatal. Então esse risco, propriamente, não existe. O que eu desejo é que as mulheres reconheçam melhor as armadilhas de certos comportamentos masculinos e, ao mesmo tempo, se olhem com mais empoderamento. A peça fala de uma fragilidade masculina escondida atrás de uma superioridade fantasiosa e, assim, celebra todas nós, mulheres, que estamos cada vez mais dispostas a olhar para dentro e para o coletivo.


Resenhando.com - “A Autoestima do Homem Hétero” fala mais sobre reinventar o feminino ou sobre desmontar a confortável fantasia masculina de que tudo já está resolvido?
Amanda Mirásci - Fala dos dois, mas talvez fale ainda mais sobre as mulheres. Sobre parar de pedir licença, parar de buscar validação onde não existe troca e começar a confiar mais na própria experiência. Ao desmontar a fantasia masculina, o espetáculo acaba iluminando o feminino. Não como algo frágil, mas como algo extremamente poderoso.


Sobre a Arena B3
Situada no Centro Histórico de São Paulo, a Arena B3 ocupa um dos prédios centenários da bolsa, antes palco dos tradicionais pregões viva-voz, e hoje se transforma em um ponto de encontro cultural com programação acessível aos finais de semana. A curadoria é assinada pela Aventura, produtora de espaços como a EcoVilla Ri Happy, Teatro YouTube, BTG Pactual Hall, Teatro Riachuelo Rio e Teatro TotalEnergies, além de musicais como "Hair", "A Noviça Rebelde", "Elis, o Musical", "Mamma Mia!" e "O Jovem Frankenstein".

Ficha técnica
Espetáculo "A Autoestima do Homem Hétero"
Idealização, texto e atuação: Amanda Mirásci
Direção: Martha Nowill
Colaboração dramatúrgica: Bruna Trindade e Martha Nowill
Assistência de direção: Iuri Saraiva
Direção de movimento: Julianne Trevisol
Direção de arte: Luiza Mitidieri
Visagismo: Isabella Oliveira
Trilha sonora: Aline Meyer
Luz: Júnior Docini
Preparação vocal: Verônica Machado
Direção de Produção: Marlene Salgado
Design gráfico: Harú Estúdio Criativo
Fotos: Julia Lego
Assessoria de imprensa: Pombo Correio
Produção associada: Amanda Mirásci e Marlene Salgado
Realização: Arrakasta Produções Artísticas

Serviço
Espetáculo "A Autoestima do Homem Hétero"
Dias 10 e 11 de janeiro – Sábado e domingo, 14h30 e 17h00
Classificação: 14 anos
Duração: 70 minutos
Ingressos: https://bileto.sympla.com.br/event/114190/d/354261/s/2389064?
Classificação indicativa: 14 anos
Duração: 60 minutos

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

.: Entrevista: Camila Pitanga volta para virar novela de cabeça para baixo


Ellen (Camila Pitanga) reencontra a filha Sofia (Elis Cabral) em Dona de Mim: retorno inesperado promete mexer com os afetos e os rumos da trama. Foto: Globo/Estevam Avellar 


A volta de Camila Pitanga promete sacudir os próximos capítulos de "Dona de Mim". A atriz retorna à trama como Ellen em meio a uma reviravolta que envolve morte, herança milionária e um reencontro capaz de dividir o coração do público. Ao lado de Hudson (Emílio Dantas), Ellen descobre que a filha Sofia (Elis Cabral) se tornou herdeira de parte da Boaz e decide deixar o interior rumo ao Rio de Janeiro, dando início a um plano que mistura afeto, ambição e contas mal-resolvidas com o passado. As cenas marcam um novo fôlego na novela e recolocam a personagem no centro do conflito dramático. A atriz Camila Pitanga falou sobre a volta da personagem.


Como foi receber a notícia de que Ellen estaria de volta?
Camila Pitanga -
Foi uma surpresa maravilhosa quando a Rosane me contou sobre a ideia do retorno da Ellen. Eu gravei o início da novela achando que era uma participação, mas, ao passo que ela foi me contando, fiquei plenamente convencida de que seria muito especial poder fazer a personagem voltar. E não deixava de ser também um reconhecimento dela e do diretor artístico Alan Fiterman de que a Ellen tinha valor na trama para retornar, então fiquei muito feliz.
 

Qual é a importância da Ellen para o desfecho dessa história?
Camila Pitanga -
Eu acho que a Ellen vem com a missão de dar uma perturbada no coração da Leo (Clara Moneke). Ela vai, de alguma maneira, ter uma situação de disputa, de mistério, de desvendamento e de muito amor também. Acho que a Ellen vem para trazer alegria para essa criança que ama, que sempre foi criada renovando o vínculo com a sua mãe, mas com novas relações. A família Boaz ama muito a Sofia (Elis Cabral). Então, acho que o público vai ficar com o coração dividido. Essa mãe ama a filha, mas também é uma personagem contraditória, que faz coisas erradas. Por isso, vou entender a torcida contra a Ellen, mas eu estou ali, com meu coração inteiro, a favor de Ellen, mas também a favor do gosto do público, que é o redentor. 


Ela retorna mostrando um lado que ninguém conhecia. Como você descreve a Ellen?
Camila Pitanga -
A Ellen tem essa dualidade de ser alguém que ama de verdade, mas que teve de sublimar o seu próprio amor em face do que ela considerou melhor para a filha dela. E acho que ela vai trazer múltiplas leituras, porque também é alguém que aplica golpes, que faz coisas erradas. Então, é para o público ficar dividido, torcer, discutir, pensar. Mas, se fosse para definir, ela é alguém que ama de verdade, alguém que realmente nutre um amor verdadeiro pela filha, mas que tem muitas contradições. Uma pessoa humana com muitas falhas.


Fale sobre a relação dela com Hudson.
Camila Pitanga -
Um casal trambiqueiro, golpista, cambalacheiro. A Ellen faz cambalachos e ama o Hudson (Emílio Dantas). Eles aplicam golpes, e o Hudson respeita muito o amor que a Ellen tem pela Sofia (Elis Cabral). O que leva a Ellen a voltar à filha é descobrir que o Vanderson (Armando Babaioff) morreu e que agora a filha está protegida da violência que ela própria foi submetida no passado. E que ela, em favor do amor e da proteção da filha, precisou desaparecer. Essa foi a escolha triste, difícil, dolorosa feita pela Ellen. Mas agora ela retorna para amar essa filha. E o Hudson respeita muito isso. Então, a gente vai ver flashbacks que contam a história de como eles se conheceram. Foi um prazer imenso trabalhar com o Emílio, esse cara gente boa, paizão, apaixonado pelos filhos, pela família dele. Está sendo muito legal trabalhar com ele.


Como tem sido contracenar com Elis Cabral e Theo Matos?
Camila Pitanga -
Contracenar com a Elis e com o Theo está sendo um sonho, porque são dois seres de tanta luz. São duas crianças, então a gente dá vazão ao lúdico, a campeonato de desenhos, a contar piadas. Mas ao mesmo tempo a gente passa o texto, se ajuda para concentrar. Porque, se deixar eu, Emílio, Elis e Theo juntos viramos quatro crianças, mas a gente se diverte, se curte, se admira. Está sendo muito prazeroso, uma honra enorme poder acompanhar de pertinho duas crianças que são muito amadas, que têm famílias lindas, que realmente abraçaram e são abraçadas pela família da novela.
 

Como foi a construção para dar vida a Ellen?
Camila Pitanga -
Foi deixar o coração vazar e também se divertir. Eu estou pegando a reta final da novela e vim com alegria, com alegria de gostar de jogar, de brincar com os atores, com a equipe técnica. A sorte de poder estar junto e comungar desse projeto tão lindo, tão feliz, que já está fazendo o maior sucesso, e poder somar nessa reta final. Foi uma honra contracenar com Tony Ramos e, pela primeira vez, com a Cláudia Abreu, uma atriz fantástica, amada pelo Brasil e por mim, sempre admirei o trabalho dela. E estar numa novela protagonizada por Clara Moneke é um luxo, é uma honra.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

.: Entrevista: Jorge Uribe revela segredos do heterônimo enigmático de Pessoa


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com
Foto: divulgação

É profundamente irônico - ou simplesmente pessoano - reunir, em um único volume, a totalidade de um heterônimo que fez do paradoxo a sua verdadeira morada. Ricardo Reis, esse médico monárquico de inclinação pagã, esse clássico que chega ao século XX como quem desembarca de um tempo impossível, volta agora ao leitor brasileiro em edição que não promete ser definitiva, mas sim reveladora. A editora Tinta-da-China Brasil fecha a trilogia da Coleção Pessoa com um livro que devolve ao heterônimo a própria complexidade do autor: a poesia depurada que o consagrou, a prosa abundante que o surpreende, os inéditos que o deslocam, a grafia arcaizada que não é capricho filológico, mas assinatura identitária.

Ao falar sobre o processo de organização do volume, Jorge Uribe, em entrevista exclusiva para o portal Resenhando.com, descreve a experiência de editar Reis como uma participação ativa no jogo pessoano - esse teatro de múltiplas entradas onde cada manuscrito, variante e rasura devolve ao leitor o espanto de reencontrar o autor e a si mesmo. O trabalho com o espólio, realizado em parceria com Jerónimo Pizarro, revela uma escrita que contrapõe fluxo e contração, disciplina e excesso: um movimento orgânico cujo ritmo se mostra com mais clareza na prosa, onde o heterônimo experimenta ideias, desabafos e contradições que o poeta das odes mantinha à sombra da forma.

O resultado é um livro que, pela primeira vez, apresenta ao público de língua portuguesa a totalidade da poesia e da prosa de Ricardo Reis, em ordenação cronológica e em rigorosa conformidade com a grafia original utilizada por Pessoa. Não se trata de um detalhe: a ortografia arcaizada cria ecos gregos e latinos, moldando o estilo que hoje reconhecemos como próprio de Reis e acentuando a estranha modernidade dele - esse modo de existir entre dois mundos, duas épocas, dois impulsos. Compre o livro "Obra Completa de Ricardo Reis", edição de Jerónimo Pizarro e Jorge Uribe, neste link.


Resenhando.com - “Vivem em nós inúmeros”, escreveu Ricardo Reis - e talvez também se pudesse dizer: “editam-nos inúmeros”. O que significa organizar a obra completa de um heterônimo cuja própria existência é feita de paradoxos e desdobramentos?
Jorge Uribe - Praticar a edição pessoana é participar do jogo que Pessoa, poeta, crítico e também editor, nos legou. É, no fundo, implicar-se, como leitor, na indeterminação da sua proposta criativa, que encontra na incompletude a sua força de adaptação ao tempo sempre vindouro. O paradoxo está na raiz do fascínio por Pessoa e é, sobretudo, uma atitude tática para lidar com a complexidade da vida e da literatura.


Resenhando.com - Entre todos os heterônimos de Pessoa, Ricardo Reis talvez seja o mais enigmático: monárquico e pagão, clássico e moderno, racional e melancólico. Como traduzir esse equilíbrio de contrários em um volume que pretende ser definitivo?
Jorge Uribe Definitivo, só a morte, como diz a sabedoria popular. Reis é como o deus Jano, uma cabeça com duas faces que olham simultaneamente para o passado e o presente. Sua firmeza é a do instante em que os fluxos se encontram.


Resenhando.com - A edição mantém a grafia original usada por Pessoa - uma escolha que parece mais filosófica do que apenas filológica. Por que era essencial preservar essa ortografia “arcaizada” de Reis? 
Jorge Uribe A ortografia de Ricardo Reis não obedece a nenhum acordo ortográfico aceito por Pessoa. Também não é a de Pessoa. A ortografia de Reis é um achado da sua escrita, que constrói uma identidade como efeito de leitura. Por isso, publicá-la não é um capricho antiquário, faz parte de Ricardo Reis. O estilo é o homem.


Resenhando.com - Há, neste livro, textos inéditos e variantes que reconfiguram o que sabíamos sobre Ricardo Reis. Que descobertas você destacaria? O que surpreendeu até mesmo os organizadores?
Jorge Uribe A escrita de Reis, ao contrário do que se poderia pensar, também é excessiva. À precisão das odes contrapõe-se a profusão, quase se poderia dizer a incontinência, da prosa. O prefácio a Alberto Caeiro é uma obra que parece impossível de formar, de tantos caminhos que tomou ao longo de mais de quinze anos de trabalho. São quase uma centena de páginas. Porém, por volta de 1929, Reis conseguiu disciplinar-se e escrever um prefácio de apenas duas folhas. Fluxo e contração são os movimentos peristálticos dessa máquina orgânica, que se revelam com maior clareza na prosa.


Resenhando.com - Pessoa dizia que “toda a arte é uma forma de literatura”. O que a prosa de Reis - menos conhecida do que as odes - revela sobre sua visão de mundo e sua relação com o próprio Pessoa?
Jorge Uribe Reis é, entre outras coisas, um dispositivo de desabafo emotivo por meio da técnica. A escrita regrada e a prosódia herdada são os prazeres do estilista virtuoso. Reis traz para Pessoa a liberação da autodeterminação, da regra autoimposta. Por outro lado, a prosa é uma ensaística da possibilidade. Pessoa permite-se jogar com ideias que também lhe pareciam descabeladas, como o apoio à Alemanha na Grande Guerra, ser monárquico mas anticatólico, e o desejo de ter nascido em outra época que não a que lhe coube viver.


Resenhando.com - Ao ler Ricardo Reis hoje, em 2025, o que ainda nos fala? Em um tempo tão convulsionado e impaciente, que lição ética ou estética se pode tirar da serenidade pagã e do ceticismo de Reis?
Jorge Uribe Não sei se por influência de Reis, mas penso que nem sempre se podem tirar boas lições da literatura. Contudo, gosto da sua convicção acerca do caráter lúdico da vida, um jogo em que se pode experimentar o gesto não automatizado, a resposta imprevisível, que também é libertadora: “Tudo o que é serio pouco nos importe, / O grave pouco pese, / O natural impulso dos instinctos / Que ceda ao inutil goso / (Sob a sombra tranquila do arvoredo) / De jogar um bom jogo.”


Resenhando.com - O livro encerra a trilogia da Coleção Pessoa, depois das obras completas de Caeiro e Campos. Que imagem do poeta - e do homem Fernando Pessoa - emerge dessa trilogia?
Jorge Uribe O que Fernando Pessoa escreveu não equivale a uma coleção de poemas e textos em prosa destinados a serem lidos separadamente. Como num anfiteatro de múltiplas entradas, todas convergem para o palco. Caeiro, Reis, Campos e ainda o próprio Pessoa ortônimo formam uma relação orgânica, um sistema vital de implicações mútuas, uma identidade autônoma e comunitária. Nenhum livro é uma ilha.


Resenhando.com - Ambos os organizadores têm trajetórias ligadas ao universo acadêmico e editorial, mas há também uma dimensão quase arqueológica em lidar com o espólio pessoano. O que mais fascina e o que mais exaure nesse trabalho de “abrir as arcas de Pessoa”?
Jorge Uribe O espólio é um jogo de espelhos. Nele, o pesquisador, que nada mais é do que um leitor entusiasmado que quer partilhar com outros aquilo que vê, encontra o reflexo do seu próprio empenho. Quanto mais empenho, mais se multiplica o salão, devolvendo imagens ora complacentes, ora temíveis. O cansaço provém, sobretudo, da dificuldade da transcrição, das lacunas e ilegíveis, que frequentemente criam uma relação tantalizante com a obra. Mas essa é também a indisponibilidade que mantém o fogo aceso.


Resenhando.com - Há uma certa ironia em lançar a obra completa de Ricardo Reis no Brasil - o país para onde ele teria se exilado. Essa coincidência tem para vocês algum sentido simbólico?
Jorge Uribe Não vejo ironia nisso. Reis volta à casa que não é sua casa, porque é um desterrado paradigmático. É possível que nunca tenha partido.


Resenhando.com - Se Ricardo Reis pudesse escrever uma ode sobre este lançamento, o que ele diria?
Jorge Uribe Não sei bem. Como disse antes, Ricardo Reis reivindica para si o direito de ser imprevisível. Mas talvez fizesse uma ode parecida com esta: “De novo traz as aparentes novas / Flores o verão novo, e novamente / Verdesce a cor antiga / Nas folhas redivivas...”

Postagens mais antigas → Página inicial
Tecnologia do Blogger.