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domingo, 26 de julho de 2026

.: Entrevista: Thiago Sobral, o homem que ousou matar o pai na ficção


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

No romance de estreia "O Pai, a Faca e o Beijo", escrito por Thiago Sobral, a conversa começa depois do que não tem volta: um filho diante do corpo do pai, tentando organizar a própria versão enquanto empurra todo o resto para fora do quadro. Não há espaço para testemunha, só para a fala que é despejada ali. A cidade observa de perto, como sempre, e o silêncio pesa mais do que qualquer grito.

O romance lançado pela Editora Patuá avança em cima de cortes secos, pistas falsas, desvios  e o leitor fica ali, insistindo, mesmo quando já entendeu o terreno em que está pisando. Ex-seminarista, professor, escritor estreante pela Patuá, o autor prefere o atrito à acomodação. Nesta entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, ele fala de desconfiança, linguagem, fé sem amparo e personagens que não buscam aprovação dos leitores, o que torna tudo mais interessante. Compre o livro "O Pai, a Faca e o Beijo", escrito por Thiago Sobral, neste link.


Resenhando.com - Seu romance parece sabotar o leitor o tempo todo: quando ele pensa que encontrou um afeto, ou quando espera redenção, você oferece outra coisa. Escrever, para você, é um gesto de desconfiança?
Thiago Sobral - Acredito, em partes, que sim. Desconfiança das verdades estabelecidas, das certezas inquebrantáveis. No caso de “O Pai, a Faca e o Beijo”, o leitor talvez pense que, por tratar da relação entre pai e filho, encontre alguma esperança ou possibilidade de redenção, como em tantas outras histórias que se constroem em torno disso, como a parábola do Filho Pródigo, por exemplo. Mas, na história de Santiago e Severo, temos um filho que sofreu muito com as várias violências praticadas pelo pai. Por conta disso, ele não consegue mais olhar para o lado, dialogar com as diferenças e que, por isso, busca, de todas as formas, justificar o parricídio que acabou de cometer. Nessa tentativa, ele conta a sua versão dos fatos. Versão essa que não deixa espaço para a interferência das outras personagens. Todas as possibilidades de construir um novo olhar, de se abrir a novos sentimentos e experimentar novos afetos são sumariamente ignoradas. A pergunta que surge é: Santiago age assim porque é fruto de tudo isso, ou porque escolhe se fechar a qualquer possibilidade de agir e ser diferente?


Resenhando.com - Santiago é um personagem que concentra contradições quase insuportáveis, já que encarna aquilo que combate. Em algum momento você temeu que ele se tornasse tão intragável a ponto de o público não torcer por ele?
Thiago Sobral - Eu quis construir um personagem que, de cara, fosse identificado como vítima e que, ao longo da história, oferecesse elementos capazes de justificar o seu crime e assim ganhasse a confiança do leitor. Justamente por isso, penso que, por mais que sinta vontade de abandoná-lo em seu próprio ódio e condená-lo pelo seu ato, o leitor ainda torce por ele, deseja que supere tudo aquilo e encontre o seu caminho. As possibilidades existem, alguns personagens tentam fazê-lo enxerga-las. E é por isso que o leitor, talvez, deseje, até o final, que tudo acabe bem.


Resenhando.com - No seu livro, a violência aparece como forma de cuidado, omissão e até desejo. Você diria que a forma mais cruel de agressão é aquela que consegue se disfarçar de amor?
Thiago Sobral - Ah, sem dúvida. Quase sempre, nas relações humanas das quais se espera o cuidado, a violência é justificada por quem a pratica. As surras, as palavras pesadas, as ofensas, os puxões de orelha são sempre dados na tentativa de se evitar que algo ruim aconteça. No caso do Severo, ele esperava livrar o filho de certos sofrimentos e, principalmente, de julgamentos morais. Ioiô, a mãe, tenta convencer o filho de que aquele é o jeito do pai e que, uma hora ele vai mudar. Os irmãos homens de Santiago reproduzem aquilo que veem em seu dia a dia. E o próprio Santi reproduz essa violência com seu amigo Davi, seja no ato sexual em si, seja com as palavras que dirige a ele em cada tentativa de afeto recebido. No fim, a violência aparece como parte natural da vida daquela família e como substituta do diálogo, que nunca acontece por completo, porque não são capazes de se abrir à experiência com o outro, ao universo do próximo. Cada um se fecha em suas próprias verdades. E quando não se dialoga, o que resta é a tentativa de impor ao outro as suas próprias convicções; e, por não haver palavra trocada, restam puxões de cabelo, tapas, socos e xingamentos.


Resenhando.com - Severo, o pai opressor, parece agir movido por uma lógica interna que, para ele, faz sentido. O que mais interessava a você ao construí-lo: denunciar a violência ou revelar o quanto ela pode ser racionalizada por quem a pratica?
Thiago Sobral - Na cabeça do Severo, aquela era a melhor forma de educar o filho. Não eram atitudes inconscientes ou impulsivas. Ele queria livrar Santiago de coisas que ele mesmo julgava conhecer bem. E é muito comum nos depararmos com pessoas que pensam assim. Em minha trajetória como professor, já me deparei com pais que pensam e agem dessa forma. Quantas e quantas vezes não já ouvimos a frase: “Isso é falta de surra!”? Ou “Dou uns tapas que aí vira homem rapidinho!”? Então, a violência, nesses casos, é racionalizada, revela-se como um método e é quase institucionalizada. Quanta polêmica não foi feita na época em que se debateu a “Lei da Palmada”? Muita gente pensa que é um direito dos pais corrigirem os filhos com violência, quando julgarem necessário. Tivemos um caso recente no Paraná, de um pai que chutou a filha de três anos. Então, além de denunciar a violência sofrida por muitos filhos, eu quis, sobretudo, mostrar que ela não é mero fruto do acaso. Antes, faz parte de uma estrutura, de um arranjo social muito antigo e que está aos poucos sendo questionado e combatido. Mas ainda é preciso que se faça muito mais nesse campo. Para tornar a reflexão ainda mais complexa, o livro quer propor mais uma reflexão: as violências sofridas por Santiago justificam o crime que ele cometeu?
 

Resenhando.com - A cidade de Cubatão não aparece apenas como cenário, mas como uma espécie de personagem que vigia, regula e rotula. Até que ponto a geografia, na sua escrita, é responsável pelo fracasso das relações?
Thiago Sobral - O espaço que se habita sempre exerce alguma influência sobre nós. O Determinismo, de Hippolyte Taine, ofereceu algumas ferramentas aos escritores naturalistas e estas exercem alguma influência sobre a minha literatura, embora não haja, de minha parte, uma adesão plena a esse pensamento. Mas todo cubatense compartilha, de alguma forma, um instinto bisbilhoteiro e comentador dos fatos cotidianos. Nossa geografia, espremida pela Serra do Mar, e bairros entrecortados por rios e mangues, nos aglutina de tal maneira, que, muitas vezes, temos a sensação de conhecer e saber alguma coisa sobre todo mundo. Além disso, temos as fábricas que ocupam parte significativa desse território, lançam muita fuligem no ar e esquentam a atmosfera, de modo que tudo parece sempre muito abafado. Morar em Cubatão é sufocante em boa parte do ano. E boa parte da vida, dos desejos e da personalidade de Santiago é também sufocada por ele em mesmo e pela vizinhança. Talvez por isso, a despeito da riqueza que a cidade arrecada com os impostos, seja, ainda hoje, um lugar que precisa se desenvolver e superar alguns fracassos do passado que insistem em nos marcar até os dias atuais.
 

Resenhando.com - Sua experiência como ex-seminarista aparece, de alguma maneira, no romance. Mas a fé que aparece ali não dá o conforto que as pessoas esperam de um ex-religioso. A literatura, para você, substitui a religião ou continua sendo uma forma de oração, ainda que sem resposta?
Thiago Sobral - Vejo a religião como uma institucionalização da fé. Por isso, não. A literatura não substitui a religião, embora muitos a coloquem num altar sacrossanto inalcançável. Gostei dessa ideia de ser uma forma de oração, sobretudo porque me faz pensar na experiência que orar proporciona ao que crê. É um ato de elevar o pensamento, vocalizar sentimentos e expressar desejos. A oração é a via-expressa utilizada por aquele que crê para se aproximar do Mistério Absoluto, do Totalmente Outro. Justamente por isso, nela não se encontra certeza, apenas se confia. A literatura também não nos dá certezas, antes, apresenta-nos caminhos, mostra possibilidades e, inclusive, nos permite viver aquilo que não cabe em uma única existência, podendo nos dar um gostinho de vida eterna. No livro, a religião surge como forma de opressão e de aprisionamento. Ainda que o personagem padre Jorge tente mostrar uma outra religião, aquela que se mantém fiel à “Inspiração da Boa Nova”, a que se sobrepõe é a “Instituição” religiosa. Essa coloca algemas no sacerdote, um peso sobre Severo e uma falsa convicção em Santiago. O que surge como outra possibilidade é o espírito artístico de Davi, o Pirueta, que, com sua dança e seus versos, nos deixa uma carta que se mostra quase como uma litania a Santi e um louvor ao amor e à vida.


Resenhando.com - Há ecos claros de Machado de Assis na sua ironia e no modo como você recusa absolver seus personagens. O que interessa mais a você nos diálogos que você escreve e nas tramas que constrói?
Thiago Sobral - Ao construir um personagem, é fundamental que ele tenha voz própria e que essa voz revele muito mais do que as palavras que ele diz. “O Pai, a Faca e o Beijo” é um livro que se constrói pelo que não é dito, mas que está ali; por aquilo que poderia ter sido, mas não foi. Assim, os diálogos pretendem revelar as intenções e a psicologia de cada personagem. Também busquei retratar a oralidade típica de muitas famílias cubatenses, que são formadas por migrantes nordestinos, como ocorre com a minha própria família. Para além disso, há lacunas frequentes nos diálogos entre Severo e Santiago, há insinuações, desconfianças, covardias e ironias que vão permeando as palavras ditas e não ditas. Os capítulos em que Santiago conversa diretamente com o cadáver do pai são carregados de sinceridade, ainda que esta seja calcada numa certa ilusão. Ao longo de praticamente toda a história, a forma como as falas do pai é apresentada traz quase que uma chave de leitura para todo o romance, mas que deixo para o leitor interpretar e decidir.


Resenhando.com - Em vários momentos, o leitor se vê torcendo pelo impossível, numa espécie de tentativa de salvar alguém que não está disposto a ser salvo. Você acredita que a literatura ainda pode operar algum tipo de redenção ou isso já é uma ilusão que o seu livro desmonta?
Thiago Sobral - A literatura, por si só, não opera nada. Ao mesmo tempo, a literatura pode tudo, desde que o leitor se coloque como cúmplice do que lê. Uma história só funciona realmente quando um pacto tácito e secreto é selado entre o narrador e o leitor. Feito isso, uma nova história nasce a cada leitura que se conclui de uma mesma narrativa. E é justamente essa nova história que pode operar tudo, seja uma redenção ou uma condenação. Meu livro pode levar a crer que não há redenção, mas isso ocorre por que as chances foram esgotadas, ou por que aquele que poderia redimir se recusou a olhar para os lados e enxergar outras possibilidades? Por fim, resta-nos pensar em quantas vezes não somos nós mesmos os culpados pelos fracassos e assassinatos metafóricos que cometemos ao longo da vida.


Resenhando.com - A ideia freudiana de “matar o pai” aparece como um gesto simbólico de liberdade. No seu romance, essa ruptura parece sempre incompleta. Existe liberdade possível sem destruição total?
Thiago Sobral - Essa é uma questão interessante, porque ela alcança o cerne do romance. Para escrever essa história, mergulhei no pensamento de Freud a partir dos escritos de “Totem e Tabu”. Essa ideia de matar o pai tirano para ocupar o seu lugar e assim gozar da liberdade e dos privilégios que tal posição lhe daria aparece frequentemente na conversa de Santiago com o pai defunto. Santi acredita piamente que todos os seus problemas decorrem de sua relação com o pai: o medo de que ele tenha certeza de sua orientação sexual, as surras que levou na infância e adolescência, a pele negra que ele tanto odeia e da qual se envergonha. Tudo isso forma a “herança maldita” à qual ele se refere ao longo da história e que alimenta seu discurso de ódio e preconceito contra os irmãos e contra si mesmo e que, inconscientemente, recai sobre Davi. Apesar de tudo isso, ele vai levando a vida, até que uma descoberta torna tudo insuportável para ele. É nesse momento em que seu complexo de Édipo invertido não superado se torna latente que ele passa a acreditar que o assassinato do pai será a via para a sua libertação. Porém, ao cometer o crime, se dá conta de que as coisas não são bem assim e tenta se convencer do contrário. No fim, ele destrói muita coisa, mas não destrói o principal, que está dentro de si mesmo. Por fim, não sei se é preciso destruição total para se alcançar a liberdade. Sei apenas que precisamos soltar a mão de certas coisas para que possamos ser aquilo que a nossa natureza pede de nós mesmos.
 

Resenhando.com - “O Pai, a Faca e o Beijo” termina sem oferecer catarse. Em um mercado editorial que muitas vezes aposta no conforto, você escolheu o incômodo. Escrever hoje é, para você, também uma forma de contrariar expectativas, um ato de indisciplina?
Thiago Sobral - Escrever exige, antes de tudo, constância e disciplina. Penso que justamente isso, constância e disciplina, seja uma forma eficaz de contrariar expectativas e fugir da “disciplina” adotada por muitos e, portanto uma “indisciplina” contemporânea. Esse paradoxo, acredito, perpassa o dia a dia de todo escritor, porque precisamos, muitas vezes, nos refugiarmos numa outra lógica, fora do tempo e do espaço que se constroem hoje. É como se a matéria de nossa dedicação (a palavra) precise ser buscada em lugares pouco frequentados. Não quero com isso dizer que o ofício do escritor seja algo elevado, superior. Muito pelo contrário. A palavra está na “vida ao rés do chão”, como disse o mestre Antônio Candido. Embora ele tenha usado essa expressão para se referir à crônica, penso que todo escritor precisa sentir a poeira da terra, “lamber o chão” para penetrar surdamente no reino das palavras e trazer à vida uma nova história. E isso é encarado como algo natural, ossos do ofício, pois não há nada de extraordinário na literatura. Ao mesmo tempo, ela é uma ação sublime capaz de dar ao leitor novas lentes para ver e decifrar o mundo.

terça-feira, 21 de julho de 2026

.: Rafael Caneca transforma episódio da história brasileira em romance


Em entrevista, autor de "Não Volte Sem Ele" fala sobre construção narrativa, influências literárias e as escolhas que moldam sua estreia no romance; Foto: arquivo pessoal


Em “Não Volte Sem Ele”, o escritor cearense Rafael Caneca estreia no romance ao transformar um episódio pouco conhecido da história brasileira em matéria literária. Ambientada no Ceará da década de 1930, a obra parte da existência dos chamados campos de concentração criados durante a seca de 1932 para construir uma narrativa que investiga não apenas a violência histórica, mas também os modos como a literatura pode representar o trauma, o silêncio e a experiência humana em situações extremas.

A obra acompanha Tomás, jovem sertanejo enviado pelo pai em busca do irmão desaparecido, em uma travessia marcada por fome, deslocamento forçado e confinamento. Ao longo do percurso, o romance revela como essas estruturas funcionavam como mecanismo de contenção e segregação, transformando a experiência individual do personagem em expressão de uma lógica mais ampla de exclusão social.

Os temas centrais do livro atravessam tanto o plano histórico quanto o simbólico: memória e apagamento, violência de Estado, política de exclusão, seca e deslocamento, além da relação entre fé, esperança e sobrevivência em contextos extremos. Ao tensionar esses elementos, o romance questiona a ideia de que a esperança sustenta a travessia.

Nascido e residente em Fortaleza, Rafael Caneca é escritor, assessor jurídico e integrante do Coletivo Delirantes. Influenciado por autores como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e José Saramago, desenvolve uma escrita interessada em aproximar conflitos sociais de experiências íntimas, investigando como as estruturas históricas e políticas atravessam a vida cotidiana de seus personagens. “Não Volte Sem Ele” marca sua estreia na narrativa longa e sinaliza um projeto literário voltado à ficção histórica e às formas contemporâneas de exclusão e violência.

Nesta entrevista, Rafael Caneca comenta o processo de transformação da pesquisa histórica em romance, discute suas escolhas narrativas e analisa como literatura, memória e imaginação podem dialogar para lançar novos olhares sobre histórias que permanecem à margem da memória oficial. Compre o livro "Não Volte Sem Ele", de Rafael Caneca, neste link.


Em “Não Volte Sem Ele”, você parte de um episódio histórico para construir uma narrativa ficcional. Em que momento essa investigação deixou de ser apenas pesquisa e se transformou em literatura?
Rafael Caneca A história já nasceu como ficção. Ela surgiu a partir de um projeto de livro de contos do Coletivo Delirantes, um coletivo de escritores de Fortaleza de que faço parte desde a sua criação. Durante um tempo, tive que me afastar do grupo; ao retornar, eles estavam produzindo uma coletânea de contos - ficcionais - sobre eventos históricos e ferrovias que ligavam o estado do Ceará de norte a sul. Como o livro estava em andamento, muitos dos temas que eles mesmos pensaram já haviam sido escolhidos, e um dos que ainda estava livre relacionava a ferrovia de Senador Pompeu, a seca de 1932 e os campos de concentração - de que eu tinha bem pouco conhecimento na época. Como eu sempre gostei de ler ficções históricas, de preferência sobre lugares não tão conhecidos, nem li as outras opções: essa chamou a minha atenção logo de cara. O conto foi escrito, mas eu achei que a história pedia mais: foi então que decidi transformá-lo em uma narrativa mais longa – foi aí que o romance nasceu.


O romance acompanha a travessia de Tomás em busca do irmão desaparecido. Como você construiu esse eixo narrativo sem recorrer à estrutura clássica da jornada de superação?
Rafael Caneca Eu comecei a escrever a história com algumas ideias já em mente. Claro que não tinha tudo escrito na cabeça – a história vai se desenvolvendo à medida que você senta e escreve, e muita coisa acaba mudando –, mas um dos aspectos que eu tinha decidido, antes mesmo de começar, era que eu não iria escrever uma jornada do herói. Nada contra quem goste, mas não é meu estilo – de escrita nem de leitura. Além disso, essa resolução tem tudo a ver com o espírito da obra que eu queria escrever, com a ideia que eu queria transpor para o papel.


Sua escrita aposta em um estilo direto, com poucas digressões, mesmo ao lidar com temas densos. Como essa escolha formal dialoga com a experiência de violência e escassez vivida pelo protagonista?
Rafael Caneca Procurei usar uma linguagem que refletisse o cenário: aridez e escassez no ambiente, aridez e escassez na escrita. A luta fundamental era pela sobrevivência na busca pelo irmão desaparecido, e no sertão, muitas vezes, a resistência era sinônimo de calar. Falar pouco para economizar até mesmo as palavras.


A narrativa é majoritariamente linear, mas atravessada por memórias e momentos de delírio. Como você trabalhou esses deslocamentos para aprofundar a interioridade do personagem?
Rafael Caneca Meu desejo, como escritor, sempre foi contar uma história. Sem maiores complicações, sem grandes rebuscamentos, apenas contar uma história. Isso resultou na minha escolha pela linearidade. Acontece que ninguém é 100% linear ao contar uma história, e por conta disso eu achei por bem inserir algumas digressões ao longo da narrativa – em momentos que considerei chave durante a escrita (e, consequentemente, durante a leitura). Os momentos de delírio estão demarcados no livro, e também trazem pontos importantes na narrativa.


A relação entre fé, esperança e sobrevivência aparece tensionada ao longo do livro. Como você traduziu narrativamente essa insuficiência da esperança diante da tragédia?
Rafael Caneca Eu busquei mostrar a esperança mais como mecanismo de sobrevivência do que como solução real. As personagens (principalmente o protagonista) rezam, fazem promessas e se agarram à ideia de que as coisas vão melhorar, mas a violência, a fome, o abandono e o descaso continuam avançando. A narrativa busca a todo momento ressaltar um choque constante entre a fé e a realidade material. Também me interessava trabalhar a ambiguidade da religião nesses contextos: ela consola e dá força, mas às vezes também produz resignação. Ou seja: em certos momentos, a esperança impede o desespero; em outros, impede a reação. Eu quis então mostrar justamente essa insuficiência da esperança diante de uma tragédia concreta e estrutural.


O romance lida com o silêncio e o apagamento histórico, mas também com silêncios íntimos dos personagens. Como você equilibrou essas duas dimensões na construção narrativa?
Rafael Caneca Quis aproximar o silêncio histórico do silêncio íntimo das personagens. O apagamento dos campos pelo Estado acaba se refletindo na dificuldade que os personagens têm de falar sobre o trauma, a violência e a culpa. Narrativamente, optei por fazer isso aparecer em memórias fragmentadas, diálogos interrompidos e palavras que permanecem não ditas. O silêncio funciona tanto como marca do trauma individual quanto como consequência de um apagamento coletivo.


Sua obra dialoga com tradições do romance social brasileiro, especialmente com autores como Graciliano Ramos. Em que medida essa influência se manifesta na sua escrita?
Rafael Caneca Ela aparece principalmente na tentativa de construir uma escrita mais seca, direta e humana, sem romantizar a miséria ou transformar o sofrimento em espetáculo. Graciliano Ramos me interessa muito pela forma como ele expõe a violência social a partir da vida cotidiana e dos conflitos internos dos personagens. Também existe uma preocupação em mostrar como estruturas de poder moldam subjetividades e relações humanas (no caso do meu romance, essas estruturas envolvem fome, Estado e desigualdade). “Vidas secas” foi uma grande referência não só para a escrita desse livro, mas na minha vida.


Ao mesmo tempo, há uma dimensão mais alegórica e reflexiva que remete a José Saramago. Como essas referências distintas convivem no seu processo criativo?
Rafael Caneca Acho que quando a gente tem referências dessa qualidade (Graciliano e Saramago, mas também Machado e Rachel), não custa nada usá-las, né? Aliás, é até feio fugir delas! Claro que não se trata de mera cópia, mas de inspiração. Utilizá-las é mais do que um tributo, mas se trata de aproveitar aquilo que convém à história que você quer contar.


O livro evita oferecer consolo ou resolução clara para o leitor. Essa recusa de fechamento foi uma escolha consciente desde o início?
Rafael Caneca Sim! Essa foi uma das ideias que já estava na minha mente quando comecei a escrever a história. Claro que outras opções de finais apareceram ao longo da escrita, mas, na essência, a ideia sempre foi essa.


O personagem Tomás atravessa um espaço físico hostil, mas também um território simbólico marcado pela perda e pela ausência. Como você construiu essa relação entre espaço e subjetividade?
Rafael Caneca Meu objetivo foi fazer com que o espaço não funcionasse apenas como cenário, mas como extensão emocional do próprio Tomás. A seca, os deslocamentos, os campos e as paisagens degradadas refletem o estado interno dele: a sensação constante de perda, desenraizamento e vazio.


Como romance de estreia, o que “Não volte sem ele” revela sobre o seu projeto literário daqui para frente?
Rafael Caneca Acho que o romance revela o que comentei na primeira resposta: meu interesse por ficções históricas. Mas, para mim, essas ficções devem guardar uma característica fundamental, que é a de dialogar com problemas ainda presentes. Me interessa olhar para episódios do passado não como algo encerrado, mas como estruturas que continuam se repetindo de outras formas. Além disso, acredito que meu projeto literário passa por explorar a relação, muitas vezes violenta e injusta, entre o Estado e as populações mais vulneráveis, as desigualdades sociais, a violência, os apagamentos históricos e a forma como tudo isso se relaciona com a vida íntima das pessoas. A mim, não me interessa uma literatura meramente de tese, mas uma em que os conflitos sociais tenham peso real sobre os personagens.

.: Rafael Mininel mostra como a fantasia pode revelar os perigos do controle


Em "Crônicas das Brumas Densas" o escritor Rafael Mininel utiliza a fantasia sombria para refletir sobre temas como autoritarismo, violência de Estado, manipulação da memória e responsabilidade moral. Foto: divulgação

"Controlar narrativas pode ser tão poderoso quanto controlar exércitos", analisa escritor Rafael Mininel. Autor de "Crônicas das Brumas Densas" explica como construiu um universo que dialoga com a realidade e reflete sobre como a fantasia sombria pode revelar o autoritarismo. Inspirado por acontecimentos históricos, o escritor Rafael Mininel utiliza a fantasia sombria na obra "Crônicas das Brumas Densas" para discutir temas que ultrapassam a ficção, como autoritarismo, violência de Estado, manipulação da memória e responsabilidade moral. Na entrevista abaixo, o autor explica como construiu uma narrativa épica que convida o leitor a refletir sobre os limites da obediência, o poder das escolhas individuais e os mecanismos que sustentam regimes de opressão. Compre o livro "Crônicas das Brumas Densas" neste link.


Valek inicia a história como um soldado moldado para obedecer cegamente ao Império, até que um único episódio transforma completamente sua visão de mundo. O que despertou em você o desejo de contar uma história sobre o momento em que alguém decide romper com um sistema do qual sempre fez parte?
Rafael Mininel - A origem de Valek está em um episódio real da Guerra da Iugoslávia. Ao estudar o massacre de Srebrenica, fiquei inquieto com uma pergunta: o que acontece quando um soldado percebe que a ordem recebida destrói a própria humanidade? Quis explorar esse instante em que obedecer deixa de ser uma virtude e passa a exigir uma escolha moral. A fantasia me permitiu ampliar essa reflexão sem perder sua dimensão humana.


Embora seja uma fantasia sombria, o livro aborda temas muito atuais, como autoritarismo, violência de Estado, perseguição e apagamento da memória. De que forma você equilibrou a criação de um universo fantástico com reflexões sobre questões tão presentes na realidade?
Rafael Mininel - Nunca enxerguei a fantasia como fuga da realidade, mas como outra maneira de observá-la. O universo de Crônicas das Brumas Densas nasceu para discutir mecanismos de poder que atravessam diferentes épocas. Quando retiramos nomes e datas, permanecem as perguntas essenciais: como o autoritarismo se instala, por que pessoas comuns participam dele e qual é o preço de resistir?

O universo de Crônicas das Brumas Densas é marcado por figuras como o Arquivista Sombrio e a Primeira Voz, que tornam a memória e a linguagem elementos centrais da narrativa. Como surgiu essa mitologia própria e qual é o papel simbólico dessas entidades na história?
Rafael Mininel - Sempre me fascinou a ideia de que controlar narrativas pode ser tão poderoso quanto controlar exércitos. O Arquivista Sombrio representa esse perigo: ele se alimenta de versões conflitantes da realidade, dialogando inclusive com fenômenos contemporâneos, como a desinformação e as fakes news. Já a Primeira Voz simboliza a linguagem em seu estado original, anterior à manipulação, lembrando que preservar a memória também é preservar a verdade.


Com cerca de mil páginas, capítulos curtos e um grande número de personagens, o romance apresenta uma construção bastante ambiciosa. Como foi o processo de desenvolvimento desse mundo e quais foram os maiores desafios para manter a narrativa envolvente do início ao fim?
Rafael Mininel - O maior desafio foi equilibrar a escala épica com a experiência humana de cada personagem. Optei por capítulos curtos para manter o ritmo e permitir que diferentes histórias se cruzassem sem perder fluidez. Sempre procurei lembrar que, por maior que fosse o universo, o leitor continuaria acompanhando pessoas, não mapas ou cronologias.


Você transita por gêneros como fantasia sombria, terror psicológico e ficção especulativa, sempre explorando conflitos existenciais. O que espera que os leitores levem consigo após acompanhar a jornada de Valek e mergulhar nas brumas desse universo?
Rafael Mininel - Espero que o leitor termine o livro refletindo sobre a responsabilidade das próprias escolhas. O sacrifício de Led resume essa ideia: ele salva o mundo ao custo de ser completamente apagado da existência. Ninguém naquele universo lembra que ele viveu, mas o leitor lembra. Se essa memória permanecer depois da última página, então sua história continua existindo justamente onde ela mais importa.

Sobre o autor
Rafael Mininel é autor de narrativas intensas, existenciais e psicológicas que desafiam as categorias literárias tradicionais. Atravessando gêneros como fantasia sombria, terror psicológico e ficção especulativa, ele já publicou as obras “Crônicas das Brumas Densas”, “Geografia do Não”, “Exemplar de Segunda Mão” e “Quase Tudo que Eu Imaginei”. Além disso, tem contos em diferentes coletâneas e lançará os livros “Depois do Silêncio”, “A Torre que Sangra” e “Memórias Ressurgem”. Formado em Letras pela Universidade Federal de Uberlândia, graduado em Gestão de Negócios pelo Centro Universitário Moura Lacerda e com MBA em Finanças pela Edgard Abreu, o autor também trabalha como bancário. Compre os livros de Rafael Mininel neste link.

domingo, 31 de maio de 2026

.: Milla Fernandez desconstrói a própria experiência para questionar limites


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.comFoto: divulgação

Era época da pandemia da covid-19 e pouco antes de o mundo recolher as certezas em salas trancadas e telas acesas, Milla Fernandez descobriu que a sobrevivência material exigia dela uma coreografia inédita. O sustento de uma estrutura familiar inteira dependeu, por meses, do avanço de moedas virtuais em salas de transmissão erótica. 

Sem o verniz da condescendência ou o drama da autocomiseração, estavam postos o corpo, o dinheiro, a webcam e o cansaço de uma jovem atriz que, farta de esperar por testes para novos trabalhos, resolveu precificar os próprios limites diante de estranhos. Do fundo do poço sanitário que a crise de 2020 cavou na cultura, ela emergiu com o texto de "TIP (Antes Que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo"), monólogo que tem neste domingo , dia 31 de maio, a última apresentação em São Paulo, no Teatro YouTube, após uma passagem incômoda e premiada pelos palcos cariocas. 

Sob a direção precisa e rigorosa de Rodrigo Portella - que limpa a cena de fetiches óbvios para deixar apenas os tapetes vermelhos do sucesso e a crueza da caixa cênica - a atriz faz uma devassa sobre o quanto a sociedade da imagem cobra para manter de pé as ilusões diárias e as perdidas. 


Resenhando.com - No espetáculo "TIP", o gesto de "se atirar no fogo" parece uma estratégia: até que ponto essa exposição radical é controle, e não descontrole, da própria narrativa?
Milla Fernandez - Essa peça nasce de um segredo que pensei que guardaria a vida toda. Contá-lo com as minhas próprias palavras ainda é uma tentativa de controle, mas de outra natureza. Antes eu achava que controlar era prever o resultado e qualquer erro de cálculo era considerado um fracasso. Hoje, “me atirar no fogo” é aceitar que não posso adivinhar a reação das pessoas, só posso decidir não me paralisar diante dela. Ainda existe uma tentativa de controle nisso, mas menos como defesa e mais como a necessidade de colocar no mundo uma versão de mim que não caiba só no olhar do outro. Talvez, daqui a cinco anos, eu mesma mude de ideia sobre a versão que contei. E, estranhamente, aceitar essa instabilidade me libertou mais do que qualquer certeza.


Resenhando.com - Você transforma a lógica da gorjeta ("tip", em inglês) em dramaturgia. O aplauso, no teatro, também pode ser lido como uma moeda? 
Milla Fernandez - Eu não vejo exatamente o aplauso como moeda. Ele pertence a um campo muito mais contraditório: pode ser um encontro genuíno com a obra ou apenas um reflexo social quase automático. A pergunta que fica pra mim é: por que algumas trocas são legitimadas e outras são imediatamente moralizadas? Quem decide o que é nobre e o que é degradante?


Resenhando.com - O que muda quando o desejo do público deixa de ser simbólico e passa a ser literalmente pago?
Milla Fernandez - A experiência de camgirl me fez perceber que desejo, projeção, validação e fantasia existem em muitos tipos de relação entre público e performer, inclusive no teatro. Não da mesma maneira, obviamente. Mas também não tão separados quanto gostamos de imaginar. O dinheiro não cria a objetificação, às vezes ele só impede que certas idealizações permaneçam intactas. E talvez o desconforto venha menos da transação em si e mais do fim da fantasia.


Resenhando.com - Há um momento em que a atriz diz ter aprendido a "respirar debaixo d'água". Esse aprendizado vem antes ou depois de aceitar que talvez não exista superfície para voltar?
Milla Fernandez - Sempre existiu superfície. Acho que o que mudou foi eu parar de acreditar que a superfície era o destino. Por muito tempo, "respirar debaixo d'água" era uma habilidade emergencial, algo que eu fazia enquanto esperava voltar ao normal. Mas fui percebendo que atrofiei minha criatividade tentando me encaixar num molde que nem eu mesma havia escolhido conscientemente, o molde da carreira correta, da progressão esperada, da atriz que espera ser escolhida. O aprendizado de respirar lá embaixo veio quando parei de tratar a submersão como acidente e comecei a tratá-la como território. A superfície não desapareceu, eu é que deixei de precisar dela para existir.


Resenhando.com - Seu trabalho tensiona a fronteira entre autonomia e exploração. Existe um ponto em que essa distinção deixa de fazer sentido, ou ela precisa existir para que a obra se sustente?
Milla Fernandez - Essa tensão precisa existir, não só para que a obra se sustente, mas porque ela é real. Se eu dissesse que fui "livre", estaria mentindo. Se dissesse que fui "explorada", estaria simplificando. A verdade é que as duas coisas habitam o mesmo gesto. O que "TIP" tenta fazer não é resolver essa contradição, é recusar-se a dissolvê-la ou ignorá-la por conforto. Talvez autonomia seja isso: saber que estamos dentro da armadilha e ainda assim tentar decidir como atravessá-la. Acredito que parar de se perguntar é o começo de qualquer forma de violência.


Resenhando.com - O espetáculo parece desmontar a ideia de vocação artística como destino. Depois de tudo, ainda faz sentido falar em "amor à arte" ou as pessoas estão sempre falando, no fundo, de sobrevivência?
Milla Fernandez - Falar em amor à arte sem falar em sobrevivência é um privilégio que muita gente não tem e que o mercado usa para manter artistas em condição de gratidão permanente. “Amor à arte” é uma frase linda, mas muitas vezes usada para romantizar precariedade. Eu ainda acredito no amor, mas desconfio quando ele é exigido como prova de resistência. No fundo, arte e sobrevivência estão muito misturadas. Às vezes a gente cria porque ama; às vezes porque precisa; às vezes porque não sabe mais existir sem transformar a dor em alguma coisa.


Resenhando.com - Em cena, você revisita experiências potencialmente traumáticas com humor ácido. O riso é um mecanismo de defesa, de ataque ou de sedução para o público?
Milla Fernandez - O riso é tudo isso. Defesa, ataque e sedução. Ele protege porque cria distância da ferida, ataca porque desmonta o lugar da vitimização e seduz porque aproxima o público antes de empurrá-lo para um lugar desconfortável. Quando a plateia ri de uma situação constrangedora, ela se surpreende ao se perceber cúmplice. É aí que o espetáculo acontece de verdade, nesse instante em que o riso revela mais do espectador do que da personagem.


Resenhando.com - Ao trazer a família para dentro da narrativa - ainda que ficcionalizada - você desloca o eixo da exposição: o que é mais arriscado, falar de sexo ou falar de afeto?
Milla Fernandez - O sexo nunca esteve separado de afeto, carência ou vulnerabilidade na peça. Então não vejo essas coisas como opostas. O que muda quando a família entra em cena é que a exposição deixa de ser inteiramente administrável. Porque já não envolve só a minha versão sobre mim mesma. Mas o teatro também oferece uma espécie de deslocamento. Nada em cena é exatamente documento, nem totalmente invenção. A ficção não elimina completamente o risco, mas torna possível atravessá-lo.


Resenhando.com - Dirigida por Rodrigo Portella, a peça assume um minimalismo que escancara o próprio teatro. O que sobra quando se retira quase tudo?
Milla Fernandez - O minimalismo não dá chance pra esconderijos, ele obriga a cena a revelar suas “mentiras”, seus “truques”. Rodrigo tem por hábito, nos seus trabalhos, assumir a ficção como experiência compartilhada. Quando ele propõe tirar quase tudo, é uma escolha que reforça o pacto entre atriz e público. Um pacto que fala mais sobre a honestidade de construirmos uma realidade juntos do que de revelar uma grande e única verdade. Ele é um diretor que, antes de qualquer coisa, convoca o imaginário do espectador e aposta no poder do encontro.


Resenhando.com - Você afirma ter deixado de esperar ser escolhida. Esse gesto de autoria é libertador ou inaugura uma nova forma de solidão dentro do mercado artístico?
Milla Fernandez - É libertador e solitário. Durante muito tempo eu esperei ser escolhida pelo olhar do outro. Assumir autoria interrompe essa lógica, mas também revela que independência artística nunca é absoluta. É uma troca de vulnerabilidades: antes, a fragilidade estava em esperar permissão. Agora, está em sustentar a própria voz mesmo quando ela incomoda ou não encontra acolhimento imediato.


Resenhando.com - Se "TIP" é, no fim, uma pergunta que você se faz todos os dias, qual é a única resposta que você torce para nunca encontrar?
Milla Fernandez - Que teria sido melhor ficar calada. Mas essa preocupação eu não tenho. A partir de "TIP", a única coisa que eu vou conhecer é a vida pós-fogueira.


Ficha técnica
Espetáculo “TIP (Antes Que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo)”
Dramaturgia e performance: Milla Fernandez
Direção: Rodrigo Portella
Direção musical: Federico Puppi
Trilha sonora original: Leonardo Bandeira (bateria) e Federico Puppi
Figurino: Karen Brusttolin
Cenário e luz: Rodrigo Portella
Colaboração: Georgina Vila Bruch
Vídeo design: Plinio Hit
Visagismo: Neandro Ferreira
Fotos: Ale Catan
Identidade Visual: José Mancini e Diego Navarro
Mídias Sociais e Gestão de Tráfego: Nathália Alves
Captação de apoio: RumoToloá
Produção: Ártemis e Virgínia Bravo (Ártemis Produções Artísticas)
Realização: Mil Atividades Artísticas
Assessoria de imprensa: JSPontes Comunicação - João Pontes e Stella Stephany


Serviço
Espetáculo “TIP (Antes Que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo)”
Temporada até este domingo, dia 31 de maio
Teatro YouTube (antigo Eva Herz) - Av. Paulista, 2073/3º and, Conjunto Nacional, Bela Vista / SP (estacionamento no local)
Sexta-feira e sábado, às 20h00; domingo, às 17h00. Ingressos: R$120,00 e R$60,00 (meia) em https://www.eventim.com.br/artist/teatro-youtube/tip-antes-que-me-queimem-eu-mesma-me-atiro-no-fogo-4076460/ ou na bilheteria de segundas 13h00 às 21h00 / Capacidade: 166 espectadores / Duração: 90 minutos. Gênero: autoficção. Classificação: 18 anos. Acessibilidade teatro: sim / Temporada: até 31 de maio

terça-feira, 26 de maio de 2026

.: Hugo Bonemer: Ripley no teatro, ator reflete sobre identidade e obsessão

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.comFoto: divulgação

O talentoso Hugo Bonemer poderia ser apenas um jogo de palavras, uma referência ao romance de Patricia Highsmith, mas vira chave de leitura quando o espetáculo "O Talentoso Ripley", em cartaz no Teatro Laura Alvim, no Rio de Janeiro, até dia 31 de maio, aposta no fascínio ambíguo de personagens que orbitam o desejo de ser outro. Inspirado no universo do clássico literário criado em 1955, a peça teatral dialoga com a tradição do thriller psicológico que consagrou o personagem Tom Ripley - figura que atravessou décadas, adaptações e formatos, do cinema europeu de René Clément ao olhar sofisticado de Anthony Minghella na versão de 1999.

O espetáculo tem como base a adaptação em 1999 da escritora e roteirista Phyllis Nagy. Na nova abordagem, Hugo Bonemer assume o papel que flerta com essa herança e desafia todos os intérpretes que já passaram por ele. O ator, conhecido por transitar entre televisão, teatro musical e dublagem, constrói um protagonista que vive na fronteira entre admiração e apropriação - um território dramático que o próprio Bonemer já descreveu como um espaço de “empatia perigosa”. A atuação sustenta o eixo central de uma história que se organiza a partir do desconforto da inquietação prolongada de reconhecer traços humanos em figuras moralmente instáveis.

Interpretando, dirigindo e produzindo a peça na pele de um dos protagonistas mais fascinantes da literatura do século XX, Hugo Bonemer revisita um clássico e propõe um jogo contemporâneo de máscaras. Ao assumir esse risco, em entrevista exclusiva para o portal Resenhando.com, ele transforma o trocadilho inicial em provocação: até onde vai o talento de quem interpreta - e de quem assiste - sem se deixar capturar pelo abismo que observa?

Resenhando.com - Ripley atravessa a fronteira entre admiração e obsessão com rapidez brutal. Hoje, o que o assusta mais: quem se reconhece nele ou quem se encanta por ele?
Hugo Bonemer - Não me assusto com os dois cenários, acho eles naturais e previsíveis, já que um psicopata sedutor consegue o que quer fazendo as pessoas se sentirem exatamente assim: íntimas e familiares. Me assusta que nada disso faça a gente aprender a perceber até que seja tarde demais.


Resenhando.com - Você diz que interpretar Ripley exige visitar lugares desconfortáveis — em que momento esse desconforto deixa de ser ferramenta de criação e começa a ameaçar quem você é fora do palco?
Hugo Bonemer Eu somatizo muito e pra isso tenho feito, além do processo terapêutico de anos, muito cuidado holístico e de massagem com o terapeuta holístico Julius Mac, que tem vindo de Buzios fazer um tratamento físico comigo. É como tenho conseguido manter o corpo e a mente sãos.


Resenhando.com - Ripley é um mestre em desejar a vida do outro. Em algum momento da sua trajetória, você já desejou ser alguém a ponto de quase apagar quem você era?
Hugo Bonemer Muitas vezes! Até chegar num ponto de me amar de verdade eu vivia desejando a vida dos outros. Seja por ser um discípulo intelectual de alguém, seja para ser amado por alguém, ou por conviver com algum daqueles ícones de beleza inalcançável. Não sei se todo mundo passa por isso, mas eu já não me lembro quando foi que deixei de ser assim. Só sei que tem muitos anos que amo existir como eu sou, aperfeiçoar quem eu sou, sem precisar viver na sombra de ninguém.


Resenhando.com - A peça aposta em suspense e terror, gêneros pouco explorados no teatro brasileiro. O que mais o interessa: provocar medo no público ou fazer com que ele reconheça a si mesmo nesse medo?
Hugo Bonemer O terror que se dispõe a provocar medo não causa medo em ninguém. É pelo reconhecimento de si mesmo na trama que a vulnerabilidade aparece. A partir daí, é só uma brincadeira em conjunto. Um susto aqui, um outro ali… tudo nesse acordo silencioso entre artista e espectador.


Resenhando.com - Você acumula funções de ator, diretor, produtor e cenógrafo. Esse controle todo é uma necessidade artística ou uma forma de garantir que nada escape da sua própria narrativa?
Hugo Bonemer Começou como necessidade de produção. Eu tinha um orçamento. Aos poucos fui gostando, confesso, e faria novamente. Exceto as redes sociais, essa parte eu faço, mas detesto.


Resenhando.com - Há uma tradição de “humanizar monstros” na arte contemporânea. Até que ponto compreender Ripley não corre o risco de absolvê-lo e, por tabela, absolver violências muito reais?
Hugo Bonemer Monstros não são humanizados para serem entendidos e acolhidos, mas para serem identificados em nós mesmos. Quando ele é só monstro, ele é externo, vive fora, não é problema nosso. Mas quando você vê uma relação familiar conturbada, um trauma, você se pergunta onde que você não decidiu seguir aquele caminho amoral, e onde o personagem se perdeu na curva. E é aí que a maturidade acontece. O risco que eu às vezes me questiono é o de dar palco para figuras reais, que cometem crimes e ganham dramaturgia e holofotes. Não sei se é um problema, mas li que os psicopatas adoram isso. O Tom Ripley não é uma pessoa real que vai se envaidecer por ter sua história contada.


Resenhando.com - Você fala em “empatia perigosa”. Já houve algum momento em que essa empatia te fez justificar algo que, racionalmente, você condena?
Hugo Bonemer Muitas vezes, a empatia perigosa no caso do Ripley vem quando você percebe que ele está quebrado e tenta gostar dele mesmo ele dizendo na sua cara que vai te fazer mal. Como aquela história do escorpião que pede para o coelho uma carona no barco jurando que não vai avançar, avança e pede desculpas dizendo “é a minha natureza”. O psicopata é assim, e quando ele aparece na nossa vida, faz de tudo para você achar que é um brinquedo quebrado, e que só você é capaz de consertar.


Resenhando.com - A montagem parte de um texto que nunca havia sido encenado em português. O que se ganha e o que se perde quando uma história tão marcada por outros contextos culturais ganha sotaque brasileiro?
Hugo Bonemer Só se ganha. Tirei todos os anglicismos e cortei quase uma hora de peça transformando texto em símbolo. Acredito que quando temos uma dramaturgia mais perto da gente conseguimos dialogar mais a fundo com o que acontece agora.


Resenhando.com - O sucesso da peça foi, nas suas palavras, inesperado. Existe algo de Ripley nesse espanto — alguém que, no fundo, não acredita que merece o lugar que ocupa?
Hugo Bonemer Tem algo voltado mais sobre planilha de custos mesmo haha. Eu não investi em marketing e a peça lotou. Eu faço com tanto amor que acredito que nós merecemos a casa lotada, mas já acreditei em outros projetos que não tiveram o mesmo sucesso. Por isso inesperado.


Resenhando.com - Curiosamente, você chega a esse momento da carreira aos 37 anos interpretando um personagem criado em 1955. Se a arte é uma forma de driblar o tempo, que tipo de permanência você busca: ser lembrado ou ser compreendido?
Hugo Bonemer Obrigado pelos 37, eu faço 39 em junho. Eu não busco permanência, mas sim sentido. Crio sentido pra mim todo dia, toda hora, por meio da criatividade. Como, e se eu for lembrado com permanência, vai ser uma decisão nem de quem convive comigo, mas de quem está provavelmente nascendo agora. É impossível de controlar.


Serviço
Espetáculo "O Talentoso Ripley"
Teatro Laura Alvim -Av. Vieira Souto, 176 - Ipanema, Rio de Janeiro - RJ
Temporada: até dia 31 de maio
Sextas e sábados, às 20h00, e domingos, às 19h00
Lotação: 190 lugares
Classificação: 18 anos
Duração: 1h50min
Direção: Hugo Bonemer
Co-direção: Kamilla Rufino
Elenco: Francisco Paz (Richard Greenleaf), João Fernandes (Marc e Freddie), Cassio Pandolfh (Herbert Greenleaf e Tenente Roverini), Laura Gabriela (Emily Greenleaf e Tia Dottie) e Tom Nader (Red, Fausto e Silvio).
Gênero: suspense/terror
Ingressos: a partir de R$ 35,00

domingo, 10 de maio de 2026

.: Mariana Salomão Carrara fala sobre linguagem, Justiça e desconforto


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com. Foto: Instagram da escritora

O processo começa como tantos outros: um prazo estourado, uma cobrança formal, a necessidade de responder a instâncias superiores. Mas, no caso de "Cláudia Vera Feliz Natal", novo romance de Mariana Salomão Carrara publicada pela Editora Todavia, a resposta não se limita ao que se espera de um juiz. O que deveria caber em linhas técnicas se alonga, hesita, é contaminado por memórias, desconfortos, e uma intimidade que não costuma despachar nada. Aos poucos, a defesa vira outra coisa.

Autora dos premiados romances "Não Fossem as Sílabas do Sábado" e " Árvore Mais Sozinha do Mundo", Mariana Salomão Carrara desta vez parte de um ambiente em que cada palavra carrega peso institucional para acompanhar um personagem que já não consegue sustentar a distância entre a função e a vida. As comarcas se sucedem, os vínculos rareiam, e o que se acumula não é só trabalho. Há um cansaço difícil de nomear, uma espécie de desencontro persistente com os outros, com o lugar, consigo próprio.

Sem recorrer a qualquer ideia de bastidor pitoresco, o livro circula por situações em que o cotidiano do Judiciário se aproxima do absurdo. E é nesse deslocamento que a narrativa encontra ritmo: quando o protocolo continua de pé, mas já não dá conta.

Nesta entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, a escritora comenta o humor que atravessa o texto, a solidão que não se resolve com autoridade e o que acontece quando a linguagem, mesmo treinada para decidir, começa a falhar. Compre "Cláudia Vera Feliz Natal", o novo romance de Mariana Salomão Carrara,  neste link.

Resenhando.com - Em "Cláudia Vera Feliz Natal", você transforma um documento burocrático em matéria literária. Em que momento a linguagem jurídica deixou de ser apenas forma e passou a ser, para você, também personagem?
Mariana Salomão Carrara - Desde o início minha ideia foi trazer humor a partir do ruído entre a formalidade dos vernáculos ou construções do narrador e o jorro emocional que se inicia a partir da acusação de que se defende. Conforme os dias passam e ele segue redigindo o documento, mais ele se confessa e revela sua intimidade e grandes angústias pessoais e profissionais ao órgão corregedor, o que chega a relaxar a linguagem, mas sem perder sua referência às liturgias jurídicas. O próprio narrador satiriza o “juridiquês” mais clichê, replicando os jargões costumeiros das peças advocatícias para narrar o modo como se referem a ele. Então se pode dizer que toda essa linguagem é também personagem desse livro. É dobrada e flexibilizada conforme a emoção do narrador, e quando a lei não dá conta de promover Justiça, a linguagem jurídica está lá para escancarar a ironia do seu encastelamento.

Resenhando.com - Seu jovem juiz tenta justificar a própria lentidão, mas parece, no fundo, incapaz de dar conta do que vive. Escrever esse romance foi, de algum modo, investigar o fracasso da linguagem como ferramenta de controle?
Mariana Salomão Carrara - Não sei se a linguagem de fato fracassa como ferramenta de controle. A linguagem jurídica é autorreferente e deixa o leigo alijado do saber que ela expõe. Faz com que o cidadão não compreenda, por exemplo, a sua sentença. Há inclusive uma cena em que o réu questiona, por uma frase que consta de sua condenação, se será “lançado ao rol dos culpados”. Embora muitas vezes automatizada e apartada da vida prática, essa linguagem não necessariamente falha em controlar, mas pode falhar em promover a justiça.  

Resenhando.com - Há um humor incômodo que atravessa o livro, uma espécie de riso que denuncia e constrange. O que a interessa mais: expor o ridículo do sistema ou revelar a fragilidade humana por trás dele?
Mariana Salomão Carrara - Não é possível separar as duas coisas, a sensação de ridículo que acompanha o livro ao mesmo tempo expõe as debilidades do sistema e a fragilidade humana, não somente dos atores da justiça, às vezes perdidos em seus rituais, ou impotentes diante da falha da própria nação em garantir direitos, mas também a fragilidade do cidadão que tem a sua vida decidida num processo.

Resenhando.com - No romance "A Árvore Mais Sozinha do Mundo", você constrói a narrativa a partir de objetos que observam. Já no novo romance, temos um sujeito que tenta se explicar. O que muda quando a narração deixa de observar e passa a se defender?
Mariana Salomão Carrara - Na "Árvore Mais Sozinha do Mundo", os objetos narram o que observam, mas também e principalmente o que sentem a partir disso, o que sentem sobre a família e a dor que supõem nos humanos. Nisso, também se defendem ou se culpam por seus defeitos – a toxidade da árvore, a inadequação da roupa de segurança, o a incapacidade da caminhonete rural de correr o suficiente para a urgência do parto. Defender-se e culpar-se são elementos da narração em primeira pessoa, e neste novo livro ganham também a dimensão jurídica da defesa e da culpa, com suas implicações. E é o susto de ter que se defender formalmente de algo que era na verdade um bom exercício do seu ofício que dá o gatilho para toda o relato e digressões sobre a carreira, o ato decisório e a imensa solidão do narrador.

Resenhando.com - O juiz de "Cláudia Vera Feliz Natal" tem poder sobre o destino alheio, mas não consegue sustentar vínculos pessoais. A solidão, no seu livro, é uma consequência do cargo ou uma condição anterior a ele?
Mariana Salomão Carrara - O narrador traz em si algumas dificuldades de vínculo e intimidade que podemos atribuir genericamente aos homens e, também, aos profissionais do Direito, estes perdidos entre os tratamentos formais, disputas de poder e tradições consagradas. Mas também é um sujeito peculiar, que tem muito boas intenções, mas dificuldade de alcançar propriamente o outro, vincular-se inteiramente aos novos personagens da sua vida – e não parece ter deixado muitas pessoas para trás, em São Paulo. Sua solidão é involuntária, agravada pelo deslocamento e pela sensação de ser um estrangeiro nas pequenas comarcas, mas sua inabilidade social e íntima é bastante particular sua. Tem alguma dificuldade em se conectar com as próprias emoções e faz o que pode para compreender a dos outros.

Resenhando.com - Você revisita pequenas comarcas do interior do Mato Grosso, mas evita qualquer exotização. Como equilibrar o olhar crítico sem transformar esses espaços em caricatura, algo que o próprio livro parece ironizar?
Mariana Salomão Carrara - Eu gostei da ideia de que a escolha das comarcas do livro tenha sido fruto do acaso, assim como a trajetória do narrador e de tantos profissionais aprovados em concursos em diversos estados, lotados na cidade que calhou no momento da aprovação. Eu quis descobrir junto com o juiz como seria a vida dali em diante. Um colega defensor passou a me contar em detalhes sua experiência, trazendo não só pequenos ou grandes casos e relatos do dia-a-dia profissional, mas principalmente sua sensação ao viver o deslocamento geográfico, começar uma carreira longe de sua cidade, deixar uma grande metrópole para fazer parte do sistema de justiça de uma comarca pequena, em que os atores do judiciário acabam sendo figuras conhecidas pela população, com certa notoriedade e ao mesmo tempo em perene estranhamento alienígena, com suas roupas e vernáculos solenes, e completa falta de vínculos e raízes naquele estado. Coletei depoimentos de pessoas que atuaram na burocracia de fóruns de cidades pequenas de todo o Brasil, bem como juízes, promotores, procuradores e defensores que passaram por comarcas muito pequenas ao longo de suas carreiras, inclusive, mas não somente, no Mato Grosso. A ideia foi partir dessas três cidades, com a peculiaridade de seus nomes, mas para representar algo que vai além de especificidades locais, e abordar uma realidade nacional, existente em interiores de muitos estados brasileiros, e focar na experiência desses agentes da Justiça deslocados de seus universos para lugares distantes de suas casas e com características difíceis de apreender rapidamente na atuação profissional. Então, não se trata, diferentemente do "Árvore Mais Sozinha do Mundo", de um retrato da vida naquelas cidades, mas do olhar solitário desse juiz, que acaba isolado também por alguma empáfia, própria talvez do status e da relação das capitais com as áreas ditas provincianas. O olhar crítico não recai especificamente sobre as cidades nomeadas, mas sobre o sistema jurídico em comarcas pequenas, desigualdades sociais e injustiças regionais e nacionais, sendo que a visão mais caricatural é a do olhar do narrador, que precisa de todo esse percurso narrando sua trajetória nessa peça de defesa para construir uma nova relação com o seu entorno.

Resenhando.com - Há uma recorrência de personagens femininas fortes e tensionadas em sua obra, enquanto aqui o foco recai sobre um homem em crise. O que a interessou nesse deslocamento de perspectiva?
Mariana Salomão Carrara - Embora seja narrado por um homem, é também uma outra forma de falar das mulheres. O olhar dele sobre o seu relacionamento é uma forma de imaginarmos o que na verdade ela poderia estar vivenciando com ele. Os casos jurídicos, principalmente o caso que o levou à total indecisão, é sobre maternidade e vínculos entre mulheres, e ele vem a partir da debilidade do juiz da própria letra da lei para compreender a situação. Então, o deslocamento de perspectiva traz novo ângulo para os mesmos temas, e traz também a possibiidade de passear pela amizade masculina, a dificuldade de intimidade entre amigos homens, e a solidão de um homem que quer ser uma boa pessoa, já sabe os caminhos éticos inclusive para o feminismo, mas se perde totalmente ao colocá-los em prática nas relações pessoais.

Resenhando.com - Sua escrita é frequentemente descrita como inventiva, mas também profundamente ancorada no real. Até que ponto a experimentação formal, para você, é um risco, e até que ponto é uma necessidade ética?
Mariana Salomão Carrara - Só consigo escrever escrevendo, ou seja, não sou capaz de desenhar em abstrato um enredo, uma frase, um planejamento de linguagem. Então, a inventividade vai me surpreender no ato da escrita, e conduzirá, a partir das palavras, o estilo da obra e a voz narrativa. Então, posso dizer que não há cálculo possível para mim, se haverá experimentações, riscos, reiterações. O que posso dizer é que, como leitora, o que me agrada é que o conteúdo traga uma visão de mundo interessante, e chegue elevado por um profundo prazer estético, que normalmente está ligado à habilidade com a linguagem, seja inventiva ou somente muito bem articulada literariamente. 


Resenhando.com - Depois de conquistar reconhecimento com obras como "A Árvore Mais Sozinha do Mundo", o que ainda a desestabiliza na escrita? Em outras palavras: o que você ainda não sabe fazer e, talvez, escreva justamente para descobrir?
Mariana Salomão Carrara - O que a vida de escritora mais me revela é o poder da literatura e a força dos leitores sobre o livro. Descubro com os leitores mais lados do que eu mesma escrevi.

domingo, 26 de abril de 2026

.: Entrevista com Ana Paula Renault, a campeã do "BBB 26"


Dez anos após a polêmica participação no "BBB 16", a veterana retornou ao reality com intensidade, sem máscaras e sem medo de se expor. Foto: Beatriz Damy

Ela entrou de cabeça no jogo e não escondia de ninguém: “estou aqui pelo prêmio”. Na noite da última terça-feira, dia 21 de abril, Ana Paula Renault se consagrou como a grande campeã do "BBB 26", conquistando 75,94% dos votos em uma trajetória marcada pela autenticidade e determinação. Dez anos após a polêmica participação no "BBB 16", a veterana retornou ao reality com intensidade, sem máscaras e sem medo de se expor. Transformou a sinceridade em estratégia, revelou o jogo dos adversários e conquistou a confiança do público. Entre embates memoráveis, ironias afiadas e uma postura firme diante das divergências, Ana Paula mostrou que não apenas participou do programa, mas mergulhou de corpo e alma na disputa e saiu vitoriosa.
 
"Entrei sem estratégia definida, porque achava que precisava sentir o elenco e o jogo. [...] Minha estratégia acabou sendo expor a estratégia dos outros, porque desde o primeiro dia eu dizia que estava jogando. Muitos floreavam objetivos diferentes, pareciam ter vergonha de admitir que estavam lá pelo dinheiro, mesmo estando numa casa cheia de diamantes, ouro e dinheiro na decoração. Alguns forjavam personagens: um era o bom moço, a outra a gatinha... Eu observava isso e sentia a obrigação de expor para o público, para que nos julgassem de forma transparente. Então, meu jogo era expor o jogo dos outros e irritar quem me irritava", conta. Na entrevista a seguir, Ana Paula analisa os principais acontecimentos e estratégias de jogo que a levaram ao primeiro lugar.
 
Depois de dez anos da sua primeira participação no reality, você aceitou o desafio de retornar ao Big Brother Brasil. Quais foram as maiores diferenças entre essas duas experiências? 
Ana Paula Renault - Eu acho que a principal diferença foi o meu foco. No "BBB 16" eu entrei para viver uma experiência dentro dos Estúdios Globo, queria entender como era a casa do "BBB". Achei que ficaria apenas uma semana, para depois contar às minhas amigas como tinha sido. Minha irmã mais nova sempre foi muito fã do programa, ela assinava o pay-per-view porque naquela época era na TV a cabo. Então, ela me incentivou a ir, nem que fosse só para conhecer e contar para ela como era. Entrei nesse novo mundo mais na brincadeira, pela diversão, pelo oba-oba de estar na Globo. Já agora, 10 anos depois, entrei focadíssima na missão que meu pai me deu. Alcancei meu objetivo graças a todas as pessoas que me apoiaram do início ao fim, porque nada teria valido a pena sem elas. Tenho plena convicção de que cumpri minha missão porque o público esteve comigo.
 

Durante a competição, você foi vista como uma jogadora estratégica e sagaz. Quais eram suas estratégias de jogo para conquistar o grande prêmio?
Ana Paula Renault - Entrei sem estratégia definida, porque achava que precisava sentir o elenco e o jogo. Falei isso mais de uma vez. As coisas foram se desenhando naturalmente, eu fui percebendo situações que caíam no meu colo. A partir desse desenho, fui juntando pontos, cada participante dava uma nota e eu fui dançando conforme a música. Minha estratégia acabou sendo expor a estratégia dos outros, porque desde o primeiro dia eu dizia que estava jogando. Muitos floreavam objetivos diferentes, pareciam ter vergonha de admitir que estavam lá pelo dinheiro, mesmo estando numa casa cheia de diamantes, ouro e dinheiro na decoração. Alguns forjavam personagens: um era o bom moço, a outra a gatinha... Eu observava isso e sentia a obrigação de expor para o público, para que nos julgassem de forma transparente. Então, meu jogo era expor o jogo dos outros e irritar quem me irritava.

 
Junto com Juliano, Milena e Samira você formou o grupo dos "Eternos", que em determinado momento se juntou ao grupo do quarto “Sonho do grande Amor”. Depois de algum tempo, esse grande grupo rachou. Na sua opinião, qual foi o motivo desse rompimento? 
Ana Paula Renault - Com o grupo do "rendez vous" — vamos dar nome aos bois — já me disseram que eu estava ofendendo pais e mães de família, mas eu sou bruxona e desumana, ofendo gratuitamente. Então pode colocar que será "rendez vous" pra sempre, só de ódio, pra irritar quem me irrita. Meu objetivo era nos salvar do quarto voar, mas em determinado momento eles chegavam com três opções de voto e não nos escutavam. Os homens achavam que sabiam de tudo, teorizavam como Mestres dos Magos. Depois compraram as caixas do poder, sabiam que havia algo dentro e não nos contaram. Mentiram para a Tia Milena dizendo que não tinha nada, quando na verdade havia coisas, ainda que bobagens. Um dia, na academia, durante manutenção interna, o Juliano comentou sobre o conteúdo das caixas e o Babu e o Boneco começaram a cortar a fala dele. Olhei para Milena e Samira e entendemos que estavam nos privando de informações. Percebemos que só nos usavam e que aquilo acabaria. Então decidimos fazer nosso próprio jogo, juntos ou separados, mas sem mais fazer parte de um grupo que não nos escutava nem trocava de forma digna.
 

Os “Eternos” permaneceram juntos apesar das divergências internas. Como você ajudava a equilibrar essas diferenças entre os integrantes do quarto? 
Ana Paula Renault - Tentando manter a lucidez de todos. Eu sou uma pessoa que tem antipatias fortes e fico cega por elas, e falava muito isso com Juliano, Milena e Samira. Gostava de ouvir as opiniões deles sobre nossos adversários e até sobre mim mesma. Essa troca genuína nos mantinha lúcidos. Respeitávamos muito uns aos outros e aprendi que devemos aprender com todo mundo, porque não existem verdades absolutas. Acho que foi isso que nos manteve unidos ao longo do trajeto.
 

Um dos seus destaques no "BBB 26" foram os apelidos que você criou para seus adversários, e a forma bem-humorada e irônica com que conduzia as conversas. De que forma isso a ajudou no jogo?
Ana Paula Renault - Isso me ajudava a não sucumbir. As pessoas tinham julgamentos muito fortes e distantes da realidade sobre mim, muitas vezes perversos, que me diminuíam. Se o público comprasse essas ideias, eu estaria ferrada para o resto da vida, e isso sempre martelava na minha cabeça. Então, quando vi que não entendiam meu sarcasmo e ficavam perdidos, percebi que era uma forma de irritar todo mundo e seguir firme.
 

Enquanto esteve na casa, Alberto Cowboy e Jonas foram seus alvos no "BBB". O que te incomodava no jogo deles e qual era sua estratégia para eliminá-los? 
Ana Paula Renault - Os dois se faziam de bons moços, defensores da moral e dos bons costumes, mas nós entendíamos que não era bem assim. Eles escorregavam quando esse personagem não estava presente. Tadeu sempre dizia: "a estratégia é de vocês", e eu sempre respeitei o jogo de todos. Mas achava justo que o público visse também o que eles faziam quando a máscara estremecia. Minha estratégia era mostrar quem eles realmente eram.


Quais foram os momentos mais especiais da temporada para você?
Ana Paula Renault - O dia em que entrei na casa e o dia em que saí. Marcam o início e o fim.
 

Quais são seus próximos planos depois de participar do "BBB 26"? O que deseja fazer daqui para frente? 
Ana Paula Renault - Tomar banho. Comer. Esperar a lua cheia para cortar o cabelo. Ir à minha dermatologista e continuar irritando quem me irrita. Porque o mundo não pode parar.

.: Entrevista: Milena Moreira Lages, a "Tia Milena" do "BBB 26" fez história


Com personalidade marcante, Milena Moreira Lages fez história no "Big Brother Brasil". Foto: Beatriz Damy

De volta ao mundo real, Milena tomou consciência de que fez história no "Big Brother Brasil". A Pipoca que foi mais longe na disputa em 2026 alcançou o segundo lugar no pódio da temporada. Jogadas arriscadas, conflitos e provocações frequentes fizeram parte de seu dia a dia no programa. A amizade com os “eternos” foi um dos pontos altos de sua jornada no reality show. Ao lado de Ana Paula Renault, a mineira esteve no centro dos embates que agitaram a edição, e colocou em prática atitudes controversas contra os adversários que despertaram reações diversas no público.

Além de tudo isso, a babá e recreadora mergulhou num intenso processo de autoconhecimento. Seu maior medo no "BBB", declara, era ser esquecida. Hoje, ela acredita que a rebeldia e a coragem foram características que lhe levaram tão longe. “Eu deitava na cama e pensava: ‘Gente, o que eu vou fazer?’ Era procurar uma treta ou um paredão, está entendendo? Era o único jeito de ser o centro. Machucar não dava, não era opção. Então era paredão ou tretar”, detalha. A ex-participante já planeja um possível retorno ao reality como veterana, e na entrevista a seguir, conta quais são seus planos mais próximos. Tia Milena também revela suas primeiras percepções depois de deixar o confinamento.
 

Pouco antes do final da temporada, você afirmou que não era mais a mesma pessoa que entrou pela porta no dia 12 de janeiro. O que mudou na Milena de 100 dias atrás e a Milena que saiu ontem como a segunda colocada do ‘BBB 26’? De que forma essa experiência te transformou?
Milena Moreira Lages -
Mudou tudo! Aquela Milena existiu, eu sei que ela está aqui dentro ainda, mas ela deu espaço para uma Milena melhor, para uma evolução. Essa experiência me transformou de todas as maneiras.
 

Logo nos primeiros dias na casa, você estabeleceu uma relação de amizade com a Ana Paula Renault. Como se deu essa conexão entre vocês duas? 
Milena Moreira Lages - O Brigido tirou a Ana Paula da primeira prova e logo após isso eu caí. Quando eu chego na casa, o Juliano (Floss) vem e me dá o conforto. Aí eu lembro que eu tinha brigado com a Sol e ele não deixou a Sol cair. Eu fiquei brava com ele e falei: “Cadê a Ana Paula?”. A única pessoa naquele momento que me veio à cabeça foi ela. Não vamos esquecer de quando eu entrei na casa e falei “a última é ela”. Eu falei: “Olha elaaaa, cadê o seu bordão?”. E ela com cara de “por que vocês estão esperando isso de mim?”. Foi uma conexão verdadeira e real. Se depender de mim, do meu coração e da minha mente vai permanecer igual. Nós somos eternos. Aquela frase do Tadeu eu não gostei muito, não – “Que seja eterno enquanto dure”. Mas é a mais pura verdade, porque a gente não pode entrar na mente das pessoas. Elas têm seu próprio pensamento.
 

A organização do seu pódio mudou do início do jogo para o final. Enquanto a Samira foi para o segundo lugar, a Ana Paula foi para o terceiro. O que provocou essa mudança? 
Milena Moreira Lages - Eu expliquei para a Ana Paula. A Samira estava num momento muito difícil, eu nunca vi ter medo de paredão daquele jeito. Eu era a louca que gostava do risco do paredão. E o pessoal aqui fora sofria muito com isso, porque eu praticamente pedia para ir ao paredão. Inclusive, em um que eu fui indicada, quem me indicou falou: “Ela pediu, é só por isso”. Foi uma semana que o Juliano se aproximou muito da Ana. E eu, quando eu vi aquele momento da Samira no paredão, acolhi e me aproximei muito mais dela. Quando eu vi aquilo, foi uma mega surpresa para mim, fiquei muito brava. Gente, como assim? Essa é a hora de colocar ela, essa é a hora de o público ver que os eternos são eternos ainda. Então, quando eu falei meu pódio, acho que foi uma surpresa até para Ana também, apesar de ela ter me falado que não foi tão surpresa assim, porque eu estava muito ligada à Samira. Eu fiquei muito brava com o Juliano e com a Ana. E, no fim, eles estavam certos, né? Porque foi o pódio dos dois que vingou. Eu dormi e, quando acordei, a primeira coisa que eu falei foi: “Ana, por que vocês fizeram isso com a Samira?”. Mas depois eles me explicaram e hoje eu super vejo e entendo que a gente não manda no pensamento, no coração das pessoas. É o natural, é o que a pessoa tá sentindo. Uma coisa que o Tadeu falou e a Ana falava também é que é semana após semana, dia após dia. Em um segundo pode mudar tudo, um milésimo. E mudou, né? 
 

Você foi apontada pelo público como uma das mais marcantes Pipocas do "Big Brother Brasil". O que te levou ao segundo lugar do "BBB 26", na sua opinião?  
Milena Moreira Lages - A rebeldia e o fato de não ter medo. É um conselho que eu dou sempre para quem se inscreve: vá sem medo. Você vai sofrer depois... porque agora a minha ficha está caindo. Eu desliguei o botão daqui de fora, eu me priorizei. Lá era a minha vida, era como se não existisse ninguém aqui fora. Eu precisava disso para viver lá dentro. Eu precisava desligar a conexão que eu tinha aqui fora para me conectar lá dentro. Só que eu voltei, eu tenho a conexão e o botão teve que ser ligado novamente. É como a gente sempre disse lá: nunca julgar externo, sempre jogar com as armas que nós temos dentro da casa. E cancelar pessoas também não, tá, gente? Nessa edição não tem cancelamento. É uma edição divertida, legal e histórica, como muitos disseram. Então, zero cancelamento, viu? 
 

Você também foi reconhecida pelo jogo arriscado e dizia, lá dentro, que gostava da adrenalina. Qual era a sua estratégia para vencer o "BBB"? 
Milena Moreira Lages - Eu deitava na cama e pensava: “Gente, o que eu vou fazer?” Era procurar uma treta ou um paredão, está entendendo? Era o único jeito de ser o centro. Machucar não dava, não era opção. Então era paredão ou tretar. E treta sem sentido não dava certo. Falei: “O único jeito é o paredão. Vambora, vou atrás dos meus embates e vou desafiar eles. Você é corajoso? Me coloca". E eles me colocavam. Eram os dias em que eu dormia melhor. Todo mundo louco lá dentro por não querer sair; o povo aqui fora arrancando os cabelos. Eu deitava e dormia. Inclusive o Tadeu falava: “Mas que confiança é essa?”. Era porque eu sabia que quem me olha não dorme e os vivos aqui fora também não dormiam não, viu? 
 

Alberto Cowboy e Jonas foram grandes adversários seus ao longo da temporada. O que a incomodava no jogo deles? 
Milena Moreira Lages - Só eles ganhavam prova; juntos foram oito lideranças. Inclusive a liderança em dupla foi de quem? Dos dois! Por isso que eu dei o monstro para o Jonas. Com certeza um queria colocar a Ana Paula e o outro queria me colocar. Eu falei: “Gente, vamos resolver esse trem logo de uma vez? Toma o seu monstro, já que você gostou de colecionar colares. E por favor, gente, palmas pra mim”. Aí me bateram palma. Eles entraram em consenso – ainda não vi essa parte do programa – e me colocaram, tudo bem. Desde o primeiro paredão, eu não me permiti mais ser pega de surpresa. Eu com aquela mira no braço e todos falavam: “Ele não vai te colocar, ele não vai te colocar...” O que ele fez? Ele me colocou. Apesar de me incomodar o fato de não conseguir vencer prova, o público não ia tirar eles de lá porque eles ganhavam. É um mérito deles: o físico, o mental. Mas eles me incomodavam em tudo. Principalmente pela questão da Ana Paula. Eles estavam sempre ali tentando. E ela também não era uma santa, né? Ela também tentava. Nós tivemos um jogo muito parecido nessa questão de ir atrás dos embates.
 

Com a postura mais provocativa, você se tornou alvo logo na primeira semana, mas também demonstrava segurança ao encarar as berlindas. Como lidou com essa ameaça constante de deixar o reality?  
Milena Moreira Lages - A primeira foi terrível, porque na minha cabeça o primeiro que sai é sempre o esquecido. Não sei como foi com a Aline (Campos), mas nas outras edições, o primeiro nunca é lembrado. Eu sempre tive o medo de ser esquecida. Se fosse para sair, que eu tivesse feito algo que presta, algo para ser lembrada. Mas no fundo, no fundo, tinha um medo. Eu só não ia demonstrar isso para os meus adversários. Sabe por quê? Porque se eles não me conhecem, eles podem julgar o tanto que eles quiserem errado. Eu me conheço e é o que importa. Era o que a Ana sempre dizia: “A nossa vantagem é que eles não nos conhecem. Deixa eles pensarem que nós somos destemidas, que nós não temos medo”. Foi isso que nos ajudou a chegar até aqui. 
 

Quais foram os momentos mais especiais da temporada para você? E os mais difíceis? 
Milena Moreira Lages - Com certeza o primeiro foi a conexão que eu tive com a Ana, depois a conexão com a Samira. A lealdade que eu tive. E as pessoas não entendiam a lealdade que eu tinha com o Breno. Eles tinham que assistir à casa de vidro para saber o porquê. O Breno me salvou de ser desclassificada ali mesmo. Eu consegui lá dominar esse meu jeito explosivo. Eu fiquei a ponto de machucar alguém e isso não era o que eu queria. Não era nem tanto pela explosão, é porque isso não é de mim mesmo. 
 

Na prova do finalista, você se desentendeu com a Ana Paula por conta do apoio ao Leandro. Como foi essa questão para você?
Milena Moreira Lages - Eu não queria que o sonho de ninguém acabasse, essa foi a minha frase. Mas é um jogo e o sonho de alguém tem que acabar para o do outro continuar. Inclusive, não é só no jogo, na vida também. Mas aqui a gente consegue controlar um pouco; lá não, está na mão do público. Depois que eu saí do primeiro grupo, quando ficou eu, Ana, Juliano e Samira, eu tive uma certa resistência de aceitar outras pessoas. E eles me apoiaram a aceitar o boneco, porque foi o único do quarto branco e da “família feliz” que sobrou. Então, eu fui aplaudida e senti que eu estava fazendo o certo em abraçá-lo: “Você é um eterno agora”. Só que depois eu me senti mal porque parecia que eu não estava sendo fiel, não estava sendo leal com ele em querer que ele saia a qualquer custo. Sendo que ele estava no quarto, ele estava no eterno. E era isso que eu tentava explicar e eles não entenderam muito. Outra coisa que foi polêmica foi a voz. Eu amo a voz e eu sempre falei, desde o primeiro paredão, que a melhor parte é conversar com ela naquele papo com o emparedado. Aí quando a Ana veio para mim e falou: “Tia Milena, já é uma vitória. Já é grande não ter subido nós três, que era um medo desde o início.” Aí eu virei para ela e falei: “Não, a melhor parte para mim é a voz. A segunda é essa”. Aí ela largou minha mão. Mas é óbvio que eu fiquei feliz de não ir o Juliano, eu e a Ana, porque era melhor o Boneco ter saído do que eu, do que a Ana. Sobre as informações da prova, na verdade, foi mais uma brincadeira. Inclusive, ele não estava dormindo. O cara ficou seis dias no quarto branco, acordado. Você acha que numa prova, para garantir a final, ele iria vacilar e dormir? Jamais ele dormiria ali. E essa foi a informação pela qual eles brigaram comigo e o Juliano até ficou com o pé atrás de me passar... Estudar comigo, porque eu não considero que ele passou a informação. Acho que foi uma forma diferente de eu estudar, que eu pegava melhor. Aí foi uma brincadeira para descontrair, foi o susto. 
 

Se tivesse a chance, faria algo diferente no "BBB"? 
Milena Moreira Lages - Faria tudo igual. Porque se eu não tivesse feito, eu não estaria aqui onde eu estou hoje. Inclusive, eu voltarei. Eu sei que haverá novas regras, mas venho em busca do meu primeiro lugar. E que fique bem claro, eu estou muito feliz que cheguei na final e estou aqui vivendo uma vida que jamais imaginava. Eu estou mega feliz pela Ana, sério. Eu e o Juliano estamos explodindo de felicidade por ela. Ela é milionária, inclusive vai pagar a minha viagem internacional todinha (risos). O combinado é que o milionário paga. 
 

Que aprendizados ficam dessa experiência tão longa e tão intensa? 
Milena Moreira Lages - O maior aprendizado é o da descoberta, de se remontar e saber que tudo que você acredita e vive não é verdade. Ou pode ser verdade e sempre se adequar, sempre se redescobrir. Eu descobri umas dez Milenas que eu não sabia que existiam, que eu trouxe para cá. Elas vão ter que continuar dominando e é isso aí.
 

Quais são seus próximos planos depois de participar do ‘BBB 26’? O que deseja realizar daqui para frente? 
Milena Moreira Lages - Eu só queria uma casa para a minha mãe; para mim, depois eu correria atrás. Uma coisa que o "BBB" ensinou é: “jamais tenha planos”. Ou tenha planos, mas siga o baile, gente. O que vier é lucro. Inclusive, eu sei que tem muitas “publis”. Se a Globo quiser renovar comigo, se ela quiser que eu cante, eu canto. Se ela quiser que eu vire atriz, eu viro. Viro produção também... eu estou aberta a tudo. Tudo que vem é um aprendizado para o futuro, para esse novo crescimento da Milena.
 

Que amizades deseja cultivar fora da casa? 
Milena Moreira Lages - Ana, Samira e Juliano. Com os três eu desejo muito continuar aqui fora. Eu vejo os “eternos” bem velhinhos sentados ali, lembrando de tudo e rindo. É engraçado que eu crio afeto pelas pessoas muito facilmente. Mas lá eu tentei não criar esse afeto, porque a gente sofre. Não tem como amar sem sofrer. Inclusive, a Ana ficou muito brava comigo. Eu não esqueci tudo que a Jordan fez, mas naquela noite do pijama foi a primeira vez que eu me permiti olhar de verdade nos olhos dela e ter uma conversa normal, sem ter na cabeça de “ela é sua inimiga, ela é terrível; lembra de tudo o que ela fez com você...”. Eu lembrava, mas foi a primeira vez que eu me permiti olhar para ela, conversar. E eu senti realmente que ela ficou feliz ali pela minha conquista com o RBD e por estarmos os cinco ali.
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